Ele mora no prédio ao lado. Ou talvez na casa da esquina. Mas o importante é que ele atrapalha você na fila do supermercado, corta seu carro ao sair da garagem, e se antecipa escolhendo o último pão de queijo na padaria do bairro. Ele é seu vizinho e você nunca prestou atenção nisso. Mais ainda, é um zumbi, o seu zumbi. E não é o único.

ONDEM VIVEM OS MONSTROS

Sempre suspeitei que a verdade sobre nossa sociedade não está nas altas obras da literatura. Ela está naquilo que há de mais popular e barato na indústria do entretenimento. Personagens de terror populares no cinema, quadrinhos e literatura, por exemplo, refletem nossos temores mais íntimos. Eles são o nosso espelho alegórico, revelando os aspectos indesejados da nossa verdadeira face.

Não nos enganemos: os monstros vivem entre nós. Eles estão dentro de nós e ao nosso redor. Temos o vampiro contemporâneo que vive dos recursos alheios no mercado especulativo, o lobisomem primitivo que irrompe nas disputas de torcidas organizadas de futebol e o frankenstein químico que nega sua finitude ao preço de uma vida quase artificial graças a botox, viagra e ansiolíticos.

Porém, de todos esses personagens alegóricos, chama a atenção a popularização crescente de um tipo de monstro em específico.

Os zumbis estão na moda.

De algum modo, a história de uma multidão de pessoas mortas que andam sonambulamente e perseguem os vivos é extremamente atrativa para o público atual. Filmes sobre zumbis como “Guerra Mundial Z” emplacam nas bilheterias, seriados (e quadrinhos) como “The Walking Dead” tornam-se um sucesso mundial e games como “The Last of Us” são festejados por jogadores e críticos. Mas qual o motivo desse sucesso?

O QUE IMPORTA SÃO OS HUMANOS

Diferentemente das histórias de vampiros, lobisomens e frankensteins, as narrativas sobre zumbis focam-se não nos monstros, mas nos seres humanos normais e nas relações que estabelecem entre si durante a história.

É como se fosse um Big Brother, em que acompanhamos as relações e conflitos entre pessoas enclausuradas, com a diferença que o enclausuramento não é numa casa, não é entre paredes. O enclausuramento é, digamos, “virtual” e decorre de que os sobreviventes são minorias e estão cercados por zumbis, o que os obriga a se reunir e estabelecer relacionamentos.

zumbis crew
Seu amigo, sua irmã, seu chefe, seu colega, sua namorada: são vocês contra os zumbis lá fora.

Nas histórias de zumbis, os sobreviventes vivenciam medo e estranhamento em relação à presença numerosa de criaturas que lembram a figura humana mas que não estão nem vivas e nem mortas. E é nessas circunstâncias que os sobreviventes estabelecem vínculos emocionais entre si, amam-se, odeiam-se, ajudam-se, traem-se e competem.

Isso nos dá uma pista para responder a seguinte pergunta: se as histórias zumbis são o espelho que escolhemos colocar diante de nós nos cinemas, nas televisões e na literatura popular, o que essas obras realmente estão revelando a respeito de nossa sociedade?

OS ZUMBIS SÃO OS OUTROS

No final de 2008, ocorreu uma importante mudança no mundo: pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial passou a viver em centros urbanos. Até então, a maior parte da humanidade vivia nas zonas rurais. Em 2014, a ONU informou que 54% da população planetária está em áreas urbanas, e em 2050 essa proporção chegará a 66%.

zumbis: gráfico população urbana

Nossas cidades estão cada vez mais populosas, espremendo milhares e até milhões de pessoas em grandes centros urbanos na competição por empregos, recursos e espaço. Diferentes das pequenas cidades do interior, saímos às ruas e nos defrontamos com uma multidão de “anônimos” nas calçadas, cujos rostos mal percebemos.

Mas o nosso cérebro não acompanhou essa mudança estrutural com a mesma velocidade. Por milênios nossos antepassados viveram em tribos com pequeno número de membros, e isso condicionou nossa percepção do mundo. Simplesmente não estamos “programados” para lidar com um número grande de seres humanos ao nosso redor – somos capazes de tratar, como seres humanos, apenas uma quantidade bem limitada de pessoas. As demais se perdem nos números abstratos, rostos de traços borrados que cruzam por nós pelas calçadas.

Zumbis: Eles estão por aí, em todos os lugares: os "seus" zumbis.
Eles estão por aí, em todos os lugares: os “seus” zumbis.

Nas cidades, passamos por dezenas de estranhos todos os dias, e tendemos a percebê-los apenas como sendo um estorvo. São os motoristas protegidos por vidros opacos e que buzinam com impaciência; os passageiros que disputam lugar no metro lotado; os clientes que atrapalham nossa experiência formando enormes filas na bilheteria dos cinemas, nos caixas de supermercados e nos bancos.

Somem-se a eles, nos países de terceiro mundo, todos aqueles que são dotados de invisibilidade social por estarem abaixo da linha de pobreza. Os pedintes, os mendigos, os sem-tetos – uma silenciosa multidão que habituamos a ignorar, destituindo-lhes na prática do status de cidadãos, de seres humanos.

Quando Sartre disse que o inferno são os outros (L’enfer, c’est les autres), ele não imaginava o quanto essa seria a realidade de nossos centros urbanos no início do século XXI. Todas essas pessoas, que não são nossas colegas, amigos e familiares, compõem uma grande multidão que, na prática e do ponto de vista de nosso umbigo, existe apenas para atrapalhar nossas experiências diárias, tornando mais demorada a nossa trajetória até o trabalho e mais barulhenta a nossa sessão de cinema.

zumbis daryl

Não estamos preocupados com suas emoções e bem-estar. Não queremos saber como foi seu dia ou se algo as preocupa. Queremos apenas que parem de atravancar nosso trajeto, de estorvar nosso cotidiano apressado.

Os “sobreviventes” dessa narrativa são todos aqueles ao qual outorgamos o status de humano, aqueles cuja personalidade e emoções reconhecemos, seja por terem ingresso em nosso círculo amigo, seja por serem nossos familiares, seja por serem colegas. Com esse reduzido número de indivíduos temos que nos relacionar, às vezes por opção às vezes por imposição da realidade, enquanto estamos cercados por milhares de anônimos que parecem apenas existir para competir conosco por espaço e alimento.

E você olha nos olhos desses desconhecidos que correm para lá e para cá nas calçadas e nos veículos e você sente em todas um grande vazio, uma falta de alma. E fica secretamente com o medo de ser contaminado, de tornar-se também, no ritmo alucinado e automatizado das grandes cidades, um zumbi.

Elas são seus zumbis. Só que provavelmente elas enxergam isso também em você. Sim, tenho uma má notícia. Você já está contaminado, você também é um anônimo para elas.

Você é o zumbi dos outros.

HÁ UMA CURA?

Nas histórias de zumbis, quase sempre não há a possibilidade de “curar” aqueles que foram contaminados. Mas no mundo real, há alguma forma de revertermos esse processo?

Bom, o psicólogo britânico Steve Reicher acha que encontrou a “cura”. E para ele a solução não está em desfazermos os grandes aglomerados urbanos, mas em modificarmos a forma como convivemos uns com os outros nas cidades. Seria preciso, em síntese, uma transformação radical sobre nossa percepção do que é uma comunidade: precisamos de uma aspiração em comum.

Zumbis: Você é o zumbi de alguém, não se iluda.
Você é o zumbi de alguém, não se iluda.

Reicher estudou o fenômeno das multidões durante anos, e foi ao analisar o comportamento de uma enorme multidão durante um festival religioso na Índia que considera ter encontrado a “cura”.

Durante o festival indiano chamado Khumba Mela, mais de 30 milhões de peregrinos convergem para uma pequena cidade na Índia. Seria de se supor o caos total, um estresse sem tamanho entre os participantes, ainda mais considerando a miserabilidade em que vive a maior parte da população indiana. Porém, há poucos registros de acidentes graves.

Ao contrário, segundo relata Reicher, essa multidão parece ser tomada por um sentimento que mistura empolgação e solidariedade em relação aos estranhos. Não há competição, mas cooperação. Mais ainda, uma pesquisa revelou que a maioria dos participantes, durante o evento, sente-se mais saudável, menos estressada e menos ansiosa.

A partir de suas observações, Reicher e sua equipe passaram a classificar as multidões em dois tipos: a multidão física e a multidão psicológica. Na primeira, a multidão física, as pessoas não tem uma identidade comunitária em comum, não possuem uma aspiração que compartilham umas com as outras, não se sentem construindo coletivamente algo que seja maior do que a soma de suas individualidades. Já na multidão psicológica, as pessoas estão conectadas por uma forte noção de comunidade, sem que isso implique na perda de identidade pessoal.

Nicholas Hopkins, outro psicólogo que auxiliou Reicher em seus estudos, desenvolveu sua própria linha de pesquisa e constatou que as pessoas que integram uma multidão psicológica, ou seja, que sentem uma forte conexão comunitária com milhares de outras pessoas, beneficiam-se individualmente dessa vivência. A forte integração social torna uma pessoa mais resistente a situações de estresse, fortalece seus sistemas imunológico e cardiovascular, aumenta a longevidade, estatisticamente reduz a probabilidade de morte por enfarte e até por câncer, além de melhorar a resposta a vacinas e acelerar o processo de recuperação após uma doença.

Zumbis: Não seja uma formiga.
Trecho do filme Waking Life.

Entre uma multidão de zumbis e uma multidão de seres humanos unidos em mútuo benefício, a diferença está em nossa capacidade de desenvolver e aprimorar sentimentos como a empatia, a compaixão e a solidariedade pelos estranhos. Mais ainda, a diferença é nossa capacidade de construir um sentido comum que nos una em torno de uma aspiração coletiva, algo que nos lembre sempre que todos sentimos basicamente a mesma gama de sentimentos e estamos todos sujeitos às mesmas experiências fundamentais neste mundo: medo, dor, afeto, desespero, solidão, felicidade, regozijo.

Interrompa um pouco o ritmo alucinado do seu cotidiano e se pergunte se, nesse ou naquele momento, você não está sendo o zumbi dos outros. E o que você, na prática, pode fazer naquele instante para lembrar ao outro que você não é um zumbi? E também se pergunte o que você pode fazer, naquele momento, para lembrar a si mesmo que o outro tem sentimentos, rosto e individualidade, e não é um zumbi? Será preciso desenvolver uma conversa significativa? Será preciso fazer um gesto de gentileza gratuita? Será preciso simplesmente desacelerar um pouco e olhar para os lados?

A nossa capacidade de lembrar dessas perguntas e tentar respondê-las em nosso cotidiano pode ser a diferença entre vivermos todos num filme de terror ou numa comunidade de seres humanos – que se compreendem e cooperam.


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escrito por:

Victor Lisboa