Zumbis existem e seu vizinho é um deles.

Os zumbis são os outros

Em Consciência, Sociedade por Victor LisboaComentários

Ele mora no pré­dio ao lado. Ou tal­vez na casa da esquina. Mas o impor­tante é que ele atra­pa­lha você na fila do super­mer­cado, corta seu carro ao sair da gara­gem, e se ante­cipa esco­lhendo o último pão de queijo na pada­ria do bairro. Ele é seu vizi­nho e você nunca pres­tou aten­ção nisso. Mais ainda, é um zumbi, o seu zumbi. E não é o único.

ONDEM VIVEM OS MONSTROS

Sem­pre sus­pei­tei que a ver­dade sobre nossa soci­e­dade não está nas altas obras da lite­ra­tura. Ela está naquilo que há de mais popu­lar e barato na indús­tria do entre­te­ni­mento. Per­so­na­gens de ter­ror popu­la­res no cinema, qua­dri­nhos e lite­ra­tura, por exem­plo, refle­tem nos­sos temo­res mais ínti­mos. Eles são o nosso espe­lho ale­gó­rico, reve­lando os aspec­tos inde­se­ja­dos da nossa ver­da­deira face.

Não nos enga­ne­mos: os mons­tros vivem entre nós. Eles estão den­tro de nós e ao nosso redor. Temos o vam­piro con­tem­po­râ­neo que vive dos recur­sos alheios no mer­cado espe­cu­la­tivo, o lobi­so­mem pri­mi­tivo que irrompe nas dis­pu­tas de tor­ci­das orga­ni­za­das de fute­bol e o fran­kens­tein quí­mico que nega sua fini­tude ao preço de uma vida quase arti­fi­cial gra­ças a botox, via­gra e ansi­o­lí­ti­cos.

Porém, de todos esses per­so­na­gens ale­gó­ri­cos, chama a aten­ção a popu­la­ri­za­ção cres­cente de um tipo de mons­tro em espe­cí­fico.

Os zum­bis estão na moda.

De algum modo, a his­tó­ria de uma mul­ti­dão de pes­soas mor­tas que andam sonam­bu­la­mente e per­se­guem os vivos é extre­ma­mente atra­tiva para o público atual. Fil­mes sobre zum­bis como “Guerra Mun­dial Z” empla­cam nas bilhe­te­rias, seri­a­dos (e qua­dri­nhos) como “The Wal­king Dead” tor­nam-se um sucesso mun­dial e games como “The Last of Us” são fes­te­ja­dos por joga­do­res e crí­ti­cos. Mas qual o motivo desse sucesso?

O QUE IMPORTA SÃO OS HUMANOS

Dife­ren­te­mente das his­tó­rias de vam­pi­ros, lobi­so­mens e fran­kens­teins, as nar­ra­ti­vas sobre zum­bis focam-se não nos mons­tros, mas nos seres huma­nos nor­mais e nas rela­ções que esta­be­le­cem entre si durante a his­tó­ria.

É como se fosse um Big Brother, em que acom­pa­nha­mos as rela­ções e con­fli­tos entre pes­soas enclau­su­ra­das, com a dife­rença que o enclau­su­ra­mento não é numa casa, não é entre pare­des. O enclau­su­ra­mento é, diga­mos, “vir­tual” e decorre de que os sobre­vi­ven­tes são mino­rias e estão cer­ca­dos por zum­bis, o que os obriga a se reu­nir e esta­be­le­cer rela­ci­o­na­men­tos.

zumbis crew

Seu amigo, sua irmã, seu chefe, seu colega, sua namo­rada: são vocês con­tra os zum­bis lá fora.

Nas his­tó­rias de zum­bis, os sobre­vi­ven­tes viven­ciam medo e estra­nha­mento em rela­ção à pre­sença nume­rosa de cri­a­tu­ras que lem­bram a figura humana mas que não estão nem vivas e nem mor­tas. E é nes­sas cir­cuns­tân­cias que os sobre­vi­ven­tes esta­be­le­cem vín­cu­los emo­ci­o­nais entre si, amam-se, odeiam-se, aju­dam-se, traem-se e com­pe­tem.

Isso nos dá uma pista para res­pon­der a seguinte per­gunta: se as his­tó­rias zum­bis são o espe­lho que esco­lhe­mos colo­car diante de nós nos cine­mas, nas tele­vi­sões e na lite­ra­tura popu­lar, o que essas obras real­mente estão reve­lando a res­peito de nossa soci­e­dade?

OS ZUMBIS SÃO OS OUTROS

No final de 2008, ocor­reu uma impor­tante mudança no mundo: pela pri­meira vez na his­tó­ria, mais da metade da popu­la­ção mun­dial pas­sou a viver em cen­tros urba­nos. Até então, a maior parte da huma­ni­dade vivia nas zonas rurais. Em 2014, a ONU infor­mou que 54% da popu­la­ção pla­ne­tá­ria está em áreas urba­nas, e em 2050 essa pro­por­ção che­gará a 66%.

zumbis: gráfico população urbana

Nos­sas cida­des estão cada vez mais popu­lo­sas, espre­mendo milha­res e até milhões de pes­soas em gran­des cen­tros urba­nos na com­pe­ti­ção por empre­gos, recur­sos e espaço. Dife­ren­tes das peque­nas cida­des do inte­rior, saí­mos às ruas e nos defron­ta­mos com uma mul­ti­dão de “anô­ni­mos” nas cal­ça­das, cujos ros­tos mal per­ce­be­mos.

Mas o nosso cére­bro não acom­pa­nhou essa mudança estru­tu­ral com a mesma velo­ci­dade. Por milê­nios nos­sos ante­pas­sa­dos vive­ram em tri­bos com pequeno número de mem­bros, e isso con­di­ci­o­nou nossa per­cep­ção do mundo. Sim­ples­mente não esta­mos “pro­gra­ma­dos” para lidar com um número grande de seres huma­nos ao nosso redor — somos capa­zes de tra­tar, como seres huma­nos, ape­nas uma quan­ti­dade bem limi­tada de pes­soas. As demais se per­dem nos núme­ros abs­tra­tos, ros­tos de tra­ços bor­ra­dos que cru­zam por nós pelas cal­ça­das.

Zumbis: Eles estão por aí, em todos os lugares: os "seus" zumbis.

Eles estão por aí, em todos os luga­res: os “seus” zum­bis.

Nas cida­des, pas­sa­mos por deze­nas de estra­nhos todos os dias, e ten­de­mos a per­cebê-los ape­nas como sendo um estorvo. São os moto­ris­tas pro­te­gi­dos por vidros opa­cos e que buzi­nam com impa­ci­ên­cia; os pas­sa­gei­ros que dis­pu­tam lugar no metro lotado; os cli­en­tes que atra­pa­lham nossa expe­ri­ên­cia for­mando enor­mes filas na bilhe­te­ria dos cine­mas, nos cai­xas de super­mer­ca­dos e nos ban­cos.

Somem-se a eles, nos paí­ses de ter­ceiro mundo, todos aque­les que são dota­dos de invi­si­bi­li­dade social por esta­rem abaixo da linha de pobreza. Os pedin­tes, os men­di­gos, os sem-tetos — uma silen­ci­osa mul­ti­dão que habi­tu­a­mos a igno­rar, des­ti­tuindo-lhes na prá­tica do sta­tus de cida­dãos, de seres huma­nos.

Quando Sar­tre disse que o inferno são os outros (L’enfer, c’est les autres), ele não ima­gi­nava o quanto essa seria a rea­li­dade de nos­sos cen­tros urba­nos no iní­cio do século XXI. Todas essas pes­soas, que não são nos­sas cole­gas, ami­gos e fami­li­a­res, com­põem uma grande mul­ti­dão que, na prá­tica e do ponto de vista de nosso umbigo, existe ape­nas para atra­pa­lhar nos­sas expe­ri­ên­cias diá­rias, tor­nando mais demo­rada a nossa tra­je­tó­ria até o tra­ba­lho e mais baru­lhenta a nossa ses­são de cinema.

zumbis daryl

Não esta­mos pre­o­cu­pa­dos com suas emo­ções e bem-estar. Não que­re­mos saber como foi seu dia ou se algo as pre­o­cupa. Que­re­mos ape­nas que parem de atra­van­car nosso tra­jeto, de estor­var nosso coti­di­ano apres­sado.

Os “sobre­vi­ven­tes” dessa nar­ra­tiva são todos aque­les ao qual outor­ga­mos o sta­tus de humano, aque­les cuja per­so­na­li­dade e emo­ções reco­nhe­ce­mos, seja por terem ingresso em nosso cír­culo amigo, seja por serem nos­sos fami­li­a­res, seja por serem cole­gas. Com esse redu­zido número de indi­ví­duos temos que nos rela­ci­o­nar, às vezes por opção às vezes por impo­si­ção da rea­li­dade, enquanto esta­mos cer­ca­dos por milha­res de anô­ni­mos que pare­cem ape­nas exis­tir para com­pe­tir conosco por espaço e ali­mento.

E você olha nos olhos des­ses des­co­nhe­ci­dos que cor­rem para lá e para cá nas cal­ça­das e nos veí­cu­los e você sente em todas um grande vazio, uma falta de alma. E fica secre­ta­mente com o medo de ser con­ta­mi­nado, de tor­nar-se tam­bém, no ritmo alu­ci­nado e auto­ma­ti­zado das gran­des cida­des, um zumbi.

Elas são seus zum­bis. Só que pro­va­vel­mente elas enxer­gam isso tam­bém em você. Sim, tenho uma má notí­cia. Você já está con­ta­mi­nado, você tam­bém é um anô­nimo para elas.

Você é o zumbi dos outros.

UMA CURA?

Nas his­tó­rias de zum­bis, quase sem­pre não há a pos­si­bi­li­dade de “curar” aque­les que foram con­ta­mi­na­dos. Mas no mundo real, há alguma forma de rever­ter­mos esse pro­cesso?

Bom, o psi­có­logo bri­tâ­nico Steve Rei­cher acha que encon­trou a “cura”. E para ele a solu­ção não está em des­fa­zer­mos os gran­des aglo­me­ra­dos urba­nos, mas em modi­fi­car­mos a forma como con­vi­ve­mos uns com os outros nas cida­des. Seria pre­ciso, em sín­tese, uma trans­for­ma­ção radi­cal sobre nossa per­cep­ção do que é uma comu­ni­dade: pre­ci­sa­mos de uma aspi­ra­ção em comum.

Zumbis: Você é o zumbi de alguém, não se iluda.

Você é o zumbi de alguém, não se iluda.

Rei­cher estu­dou o fenô­meno das mul­ti­dões durante anos, e foi ao ana­li­sar o com­por­ta­mento de uma enorme mul­ti­dão durante um fes­ti­val reli­gi­oso na Índia que con­si­dera ter encon­trado a “cura”.

Durante o fes­ti­val indi­ano cha­mado Khumba Mela, mais de 30 milhões de pere­gri­nos con­ver­gem para uma pequena cidade na Índia. Seria de se supor o caos total, um estresse sem tama­nho entre os par­ti­ci­pan­tes, ainda mais con­si­de­rando a mise­ra­bi­li­dade em que vive a maior parte da popu­la­ção indi­ana. Porém, há pou­cos regis­tros de aci­den­tes gra­ves.

Ao con­trá­rio, segundo relata Rei­cher, essa mul­ti­dão parece ser tomada por um sen­ti­mento que mis­tura empol­ga­ção e soli­da­ri­e­dade em rela­ção aos estra­nhos. Não há com­pe­ti­ção, mas coo­pe­ra­ção. Mais ainda, uma pes­quisa reve­lou que a mai­o­ria dos par­ti­ci­pan­tes, durante o evento, sente-se mais sau­dá­vel, menos estres­sada e menos ansi­osa.

A par­tir de suas obser­va­ções, Rei­cher e sua equipe pas­sa­ram a clas­si­fi­car as mul­ti­dões em dois tipos: a mul­ti­dão física e a mul­ti­dão psi­co­ló­gica. Na pri­meira, a mul­ti­dão física, as pes­soas não tem uma iden­ti­dade comu­ni­tá­ria em comum, não pos­suem uma aspi­ra­ção que com­par­ti­lham umas com as outras, não se sen­tem cons­truindo cole­ti­va­mente algo que seja maior do que a soma de suas indi­vi­du­a­li­da­des. Já na mul­ti­dão psi­co­ló­gica, as pes­soas estão conec­ta­das por uma forte noção de comu­ni­dade, sem que isso impli­que na perda de iden­ti­dade pes­soal.

Nicho­las Hop­kins, outro psi­có­logo que auxi­liou Rei­cher em seus estu­dos, desen­vol­veu sua pró­pria linha de pes­quisa e cons­ta­tou que as pes­soas que inte­gram uma mul­ti­dão psi­co­ló­gica, ou seja, que sen­tem uma forte cone­xão comu­ni­tá­ria com milha­res de outras pes­soas, bene­fi­ciam-se indi­vi­du­al­mente dessa vivên­cia. A forte inte­gra­ção social torna uma pes­soa mais resis­tente a situ­a­ções de estresse, for­ta­lece seus sis­te­mas imu­no­ló­gico e car­di­o­vas­cu­lar, aumenta a lon­ge­vi­dade, esta­tis­ti­ca­mente reduz a pro­ba­bi­li­dade de morte por enfarte e até por cân­cer, além de melho­rar a res­posta a vaci­nas e ace­le­rar o pro­cesso de recu­pe­ra­ção após uma doença.

Zumbis: Não seja uma formiga.

Tre­cho do filme Waking Life.

Entre uma mul­ti­dão de zum­bis e uma mul­ti­dão de seres huma­nos uni­dos em mútuo bene­fí­cio, a dife­rença está em nossa capa­ci­dade de desen­vol­ver e apri­mo­rar sen­ti­men­tos como a empa­tia, a com­pai­xão e a soli­da­ri­e­dade pelos estra­nhos. Mais ainda, a dife­rença é nossa capa­ci­dade de cons­truir um sen­tido comum que nos una em torno de uma aspi­ra­ção cole­tiva, algo que nos lem­bre sem­pre que todos sen­ti­mos basi­ca­mente a mesma gama de sen­ti­men­tos e esta­mos todos sujei­tos às mes­mas expe­ri­ên­cias fun­da­men­tais neste mundo: medo, dor, afeto, deses­pero, soli­dão, feli­ci­dade, rego­zijo.

Inter­rompa um pouco o ritmo alu­ci­nado do seu coti­di­ano e se per­gunte se, nesse ou naquele momento, você não está sendo o zumbi dos outros. E o que você, na prá­tica, pode fazer naquele ins­tante para lem­brar ao outro que você não é um zumbi? E tam­bém se per­gunte o que você pode fazer, naquele momento, para lem­brar a si mesmo que o outro tem sen­ti­men­tos, rosto e indi­vi­du­a­li­dade, e não é um zumbi? Será pre­ciso desen­vol­ver uma con­versa sig­ni­fi­ca­tiva? Será pre­ciso fazer um gesto de gen­ti­leza gra­tuita? Será pre­ciso sim­ples­mente desa­ce­le­rar um pouco e olhar para os lados?

A nossa capa­ci­dade de lem­brar des­sas per­gun­tas e ten­tar res­pondê-las em nosso coti­di­ano pode ser a dife­rença entre viver­mos todos num filme de ter­ror ou numa comu­ni­dade de seres huma­nos — que se com­pre­en­dem e coo­pe­ram.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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