“Me deixe governar o país por dois anos e eu resolvia todos os problemas”. Foi o que um sujeito certa vez me disse no fim de uma palestra do Mujica enquanto ainda era presidente uruguaio. Mujica havia acabado de concluir seu discurso improvisado dizendo que a esperança da América Latina estava na academia. Foi quando me dei conta da enorme ingenuidade de Mujica: afinal o cara que havia me dito aquela bobagem de resolver os problemas do Brasil em dois anos era um acadêmico da esquerda.

E o curioso é que esse discurso perigoso também poderia vir da boca e um reacionário de direita: “passa o governo do país para cá que em dois anos a gente resolve tudo”. Os planos tanto do ativista de esquerda e do reacionário de direita podem diferir na aparência, mas sempre acabam com coturno e cacetete.

Não há como resolver os problemas do Brasil em dois anos, nem em quatro, nem mesmo em dez. Talvez alguns problemas jamais sejam solucionados, mas só atenuados numa batalha constante das instituições democráticas.

Mas mesmo assim é preciso começar em algum momento a buscar uma solução, ou algumas soluções, com o que temos à nossa disposição. O problema é que o que temo à nossa disposição é muito pouco. Apenas nosso voto.

Mujica: bom e ingênuo demais para a complexa rede de criminosos e larápios da política brasileira.

Sejamos sinceros: a república foi sequestrada em plena democracia por quadrilhas de bandidos. Algumas quadrilhas que a sequestraram são de empresários, outras de políticos. Nós os elegemos para criar nossas leis, controlar nossas instituições, comandar nossas forças armadas, administrar nossos recursos. E tudo o que eles fizeram foi nos roubar, brigando entre si pela alternância de poder, para ver quem ficava mais tempo com a caixa registradora nas mãos.

O detalhe é justo este: nós os elegemos. E ao menos enquanto eles não tentarem violentar frontalmente a própria democracia, esse é o único poder que temos. De resto, estamos amordaçados e amarrados. Nossa única chance de sair desse mata-leão é colocar toda nossa concentração no único recurso que ainda temos.

Precisamos, então aprender a votar em nosso benefício. Mas como um povo aprende a votar em pouco mais de um ano (2018 está às portas), se por décadas não conseguiu aprender a fazer isso direito?

Basta sermos realistas e percebermos que estamos lidando com um bando de ladrões, um bando de ladrões que usa do discurso político e ideológico para, como estelionatários, nos enganar e nos usar. Estamos tratando com larápios, que usam da astúcia. Precisamos aprender a ser mais astutos que esses ladrões, precisamos quebrar o encanto que nos faz votar neles.

E dois instrumentos práticos podem nos dar o que precisamos para não sermos enganados como crianças de quem se rouba um doce e adquirirmos, em pouco tempo, alguma maturidade no exercício da cidadania.

Centrismo dinâmico de Anthony Giddens

A Teoria da Ferradura é muito difundida, e afirma que opostos do espectro ideológico tem muitos pontos em comum. Essa teoria costuma ser usada pela esquerda e direita moderada, e também pelos adeptos do centrismo radical, para demonstrar como os radicais de esquerda e os radicais de direita são semelhantes principalmente em sua forma emocional, antidemocrática e caricata de lidar com opiniões divergentes.

Falar de “centrismo radical”, vertente política que tem no sociólogo Anthony Giddens um dos seus grandes defensores, sempre causa estranheza. Afinal, quem pode ser de centro e ao mesmo tempo “radical”. O problema é que se confunde o sentido da palavra radical. O centrismo, nesse caso, não é “radical” na sua posição de ser de centro, mas na sua determinação de mudar radicalmente as instituições do Estado, para que atendam as demandas da sociedade fora de molduras ideológicas.

E qual o problema de tentar atender as demandas da sociedade dentro de uma moldura ideológica? O problema é que as ideologias representam sistemas de pensamento com pretensão de descrever o mundo de uma forma totalizante: já se “sabe” antes de analisar qualquer problema concreto qual é o “grande problema” do país, qual é a “grande solução”, quais são os “verdadeiros inimigos” e tenta-se encaixar situação que surja dentro desse sistema de pensamentos concatenados. E abusando-se de falácias lógicas e muita retórica.

Portanto, do ponto de vista das soluções que as ideologias podem apresentar a cada problema, o centrismo radical (no aperfeiçoamento e abertura constante das instituições) não é radical, mas dinâmico. Para determinados problemas de um sociedade, em determinada época, algumas soluções podem estar à esquerda, e outras, à direita. O critério que define qual tratamento adequado para determinado desafio eminentemente prático: o que funciona, o que produz os efeitos desejados?

E por que isso é útil ao brasileiro, quando estiver no momento decisivo em que pode banir as quadrilhas de criminosos do poder? Porque muitas dessas quadrilhas de criminosos, travestidas de partidos, utilizam o discurso ideológico para manipular e mobilizar o seu eleitorado. Essas quadrilhas arregimentam eleitores ingênuos e crédulos para suas fileiras, apontam para um grande inimigo e elaboram uma narrativa que organiza e sistematiza o ódio para convertê-lo em votos.

O centrismo dinâmico é o antídoto para esse encantamento. Diante de cada questão (previdência, direito dos trabalhadores, sistema tributário,…) rejeita-se candidatos que apresentam soluções retiradas de uma máquina ideológica produtora de respostas instantâneas, nas quais os inimigos e as panaceias são sempre as mesmas.

Mas isso não basta, pois o brasileiro não lida com a política apenas no terreno das ideias e discursos. O cidadão brasileiro pessoaliza seu voto. E, para isso, também há antídoto.

O cinismo da escolha pública de Duncan Black

A paixão do brasileiro por futebol e novela é folclórica. Por isso, é tentador explicar a pessoalização da política no Brasil comparando o fanatismo dos eleitores desse ou daquele candidato ou partido com a paixão cega das torcidas organizadas. Por isso é muito fácil explicar a facilidade com que esses eleitores são manipulados em acreditar em determinada narrativa na qual há “heróis” e “vilões” afirmando que quase todas as famílias brasileiras assistem novelas com péssima qualidade narrativa, que encaixam os personagens na trama de forma maniqueísta e quase caricata.

Seja como for, grande parte dos eleitores vota fielmente naquele partido ou naquele grupo de candidatos, enquanto execra com aversão emocional esse outro partido e esse outro grupo de candidatos. E isso persiste mesmo quando é esfregado na cara do brasileiro que, nos bastidores, todos esses aparentes adversários costumam fazer acertos e conchavos de ocasião. Veja-se, por exemplo, a conduta leniente do PT por muitos anos com o poder político de Aécio em Minas Gerais. Nos bastidores, a rivalidade é apenas para quem pegará a parte maior do butim.

O eleitor brasileiro precisa adotar uma postura mais cínica em relação a partidos e políticos. Não se está falando do cinismo no seu sentido popular, de falha de caráter, mas em seu sentido mais próximo a origem filosófica do termo: cinismo enquanto constante desconfiança dos interesses verdadeiros de todo e qualquer político.

Em muitos âmbitos da vida o cinismo é inconveniente. Desconfiar constantemente das motivações das pessoas em nossas relações afetivas e familiares com certeza é receita para o desastre. Mas, na política, a desconfiança cínica é tão importante que até serve de base para uma teoria que deveria atrair mais interesse no Brasil: a Teoria da Escolha Pública.

A Teoria da Escolha Pública dá um tratamento mais econômico e menos idealista aos políticos eleitos. Não se alimenta mais a visão romantizada de que os governantes são almas altruístas que tem por meta apenas o benefício dos eleitores e o melhor para a sociedade. Assim como os empresários têm interesses próprio, os políticos também formam uma classe mais ou menos coesa que têm seus interesses próprios – interesses que de regra não são totalmente coincidentes com o de seus eleitores.

E assim como os empresários e outros grupos de interesses corporativistas se relacionam com os políticos sem paixões ideológicas e partidárias, servindo-se deles apenas e tão somente na exata medida em que são úteis para seu interesse, também os eleitores em geral devem tratar os políticos da mesma forma. Sem lugar para “políticos de estimação”, sem lugar para idolatrias e vilanizações.

O eleitor, no contexto de uma lógica cínica, pode votar em um político com o qual não simpatiza muito, pois ele, naquele determinado momento e contexto, parece ser, a seu juízo racional, o candidato que melhor serve a seus interesse. Passado o momento e alterado o contexto, o mesmo político pode ser descartado. O que critério de votação não é a credulidade diante das palavras de um candidato ou a paixão de torcedor de futebol por um partido político, mas a conveniência de nele votar naquelas circunstâncias. Isso torna viável inclusique

Isso torna viável, por exemplo, que um cidadão vote em duas eleições consecutivas em dois candidatos rivais, de dois partido francamente opostos, sem que isso resulte em qualquer incoerência. Adotando um centrismo dinâmico, que não se compromete com pautas ideológico-partidárias, e encarando os políticos como um grupo que tem seus interesses próprios, o eleitor se serve dos candidatos e tenta manipular os resultados para que sirvam o interesse da sociedade.

Por que se diz “tentam”? Porque, como as notícias diárias estão aí para demonstrar, há outros grupos de interesse que influenciam nas eleições (principalmente com poder econômico) para que os resultados lhes beneficiem. Justo por isso é imperativo que o eleitor desperte e comece a encarar os políticos e partidos com constante desconfiança.


 

Parece contraditório criticar soluções instantâneas e apontar essas duas alternativas como formas de amadurecer o exercício da cidadania. Mas não se está propondo uma panaceia, e sim sugerindo uma mudança de comportamento que pode, a médio e longo prazo, neutralizar as artimanhas com as quais organizações criminosas conseguiram chegar ao poder travestindo-se e partido políticos.

Nossa ingenuidade, nossa crença em discursos ideológicos de direita e esquerda e nossa tendência a novelização/futebolização da política nos continuaram aqui, onde estamos: aprisionados, detidos, amarrados, enquanto delinquentes saqueiam o país. O centrismo dinâmico e o cinismo político não são uma panaceia, mas justo a esperança em panaceias é o que nos mantém na adolescência política. Cidadãos adultos requerem resultados e pensam racionalmente, sem paixões e respostas prontas. São esses os primeiros passos para a maturidade da república e a consolidação da democracia.

  • Rodrigo Camatta

    Concordo com o seu texto Victor, porém sinto falta de candidatos que não joguem esse “jogo” que você descreveu – que estejam fora dessa dinâmica populista.

    Por exemplo (peguei esses nomes de uma pesquisa para presidente):
    Lula (PT): 30%
    Jair Bolsonaro (PSC): 16%
    Marina Silva (Rede): 15%
    Alckmin (PSDB): 8%
    Ciro Gomes (PDT): 5%
    Luciana Genro (PSol): 2%
    Eduardo Jorge (PV): 2%
    Ronaldo Caiado (DEM): 2%
    Branco/nulo/nenhum: 18%
    Não sabe: 2%

    Talvez Marina? Mas não sinto que ele esteja preparada. Dória (não está na lista, mas pode aparecer) usa o um discurso falso de não ser político mas sim um gestor, o que considero uma forma de populismo mais focado numa classe média.

    Talvez o Cristovão Buarque (não está aqui, mas manifestou interesse em ser presidente).

    • Neder Diogo Junior

      Também não vejo a Marina Silva como melhor opção, gosto muito do Cristovam Buarque (mesmo sendo de um partido socialista, o PPS), mas como não é certeza de que ele será candidato, minha opção fica por enquanto com a Luciana Genro, que apesar de dirigente do PSOL, já tomou muitas atitudes contrárias às da esquerda tradicional, e indo contra projetos do próprio pai, o que é indicio de que vínculos não atrapalham o objetivo de tomar a decisão mais benéfica para a população.

  • Carlos Henrique

    Duvido muito se o brasileiro um dia irá ter consciência política, nem que seja mínima! Por exemplo, se Bolsonaro e Lula forem candidatos vai haver votos pra um lado tentando anular o outro! Os “bolsonaristas” vão querer impedir o Lula e os “lulistas” o Bolsonaro. Será a velha disputa irracional/passional! E o maior problema é que não vemos uma terceira opção realmente forte. Pra mim a Marina seria a menos pior. Se ela entrar em campanha com o mesma ideia de apaziguamento do atual presidente francês Macron acho que ela terá grandes chances. Mais ai teremos outro problema…será que ela conseguiria governar?

    Obs: Lembando que não é só o(a) presidente que se deve escolher de modo minimamente racional mas principalmente os deputados e senadores! Nada de ativistas radicais, “religiosos profissionais”, artistas, humoristas, pessoas com passado sujo, etc… Se quisermos realmente melhorar o pais devemos agir agora, antes que isso vire uma “guerra” onde todos saiam perdedores! É o que eu acho!