Para muita gente, as férias de verão são a oportunidade de colocar sua leitura em dia, ver um ou outro filme que já estavam na lista há um tempão e fazer um set list do som que vai rolar no carro ou nos headphones durante a viagem. Sem falar nos imprevisíveis dias de chuva, que tornam ainda mais a importante lembrarmos de levar na bagagem material para ler, ver e ouvir no veraneio.

Mas nem sempre temos muita certeza do que levar. Além disso, talvez possamos agregar um pouco mais de valor ao nosso combo garantido que voltemos das férias alguém “melhor” – e essa palavra aqui tem um significado muito amplo, até despretensioso. “Melhor” pode significar conhecer novas ideias, ou descobrir um novo músico, livro ou um filme que não conhecíamos e poderemos recomendar para as outras pessoas no retorno. E voltamos também um pouco “melhor” quando aceitamos ler, ouvir ou ver algo que não faz parte do nosso universo de referências, topamos arriscar um pouco e desvendar alguma nova proposta ou abordagem de um tema ou expressão artística.

Tendo na cabeça essa proposta, a turma do Ano Zero decidiu elaborar listas de sugestões de material para você levar nas férias. Estabelecemos seis categorias e perguntamos à turma do AZ: que livro de ficção, livro de não-ficção, filme, documentário, jogo e álbum vocês recomendariam para um amigo que quisesse, naqueles termos, retornar do veraneio alguém “melhor”?

As respostas estão abaixo. Minha lista inicia pois comentei cada item. O Felipe Carvalho topou fazer isso a respeito da sua lista, por isso ela será publicada em separado semana que vem. Aguardem!


Victor Lisboa

Livro de ficção, romance: Fim, de Fernanda Torres.

fim

Esse livro é perfeito para as férias de verão. Leve o suficiente para ser carregado na bagagem, denso o suficiente para deixar algo com o leitor após sua leitura. Fim é o romance de estreia da atriz Fernanda Torres, e ela faz dele um belo começo (trocadilho irresistível) para sua carreira de escritora. O livro traz o retrato ácido e bem humorado de cinco amigos cariocas no crepúsculo de seus dias. Todos se conheceram na época em que o Rio de Janeiro fervia em inconsequentes festas na década de 1960, e já na segunda década do segundo milênio estão envolvidos com Viagra, mulheres neuróticas, amargas memórias de traições passadas e a perspectiva próxima da morte. O livro tem cinco capítulos, cada qual dedicado a acompanhar a trajetória errática de um dos cinco personagens. São 208 páginas repletas de humor, graça e melancolia em doses homeopáticas.

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Livro de não ficção: Rápido e Devagar, duas formas de pensar, de Daniel Kahneman

rapido

Em primeiro lugar, duas ressalvas. A primeira é que, apesar do título, NÃO É LIVRO DE AUTOAJUDA. A segunda é que dificilmente você terminará esse livro nas férias. É um trabalho denso, e cada capítulo exige atenção do leitor. Mas é uma obra prima de um psicólogo que ganhou o Nobel de Economia (sim, de economia!) pelo desenvolvimento de uma teoria sobre a tomada de decisão do ser humano. Se alguém me dissesse que em 2015 tem tempo para ler apenas um livro, e me pedisse uma sugestão de qual livro deveria ler, sem hesitar eu indicaria o “Rápido e Devagar”, pois é como um espelho pelo qual o leitor pode descobrir coisas a respeito de si próprio. O tema, como não podia deixar de ser, é a capacidade humana de compreender a realidade e guiar-se conforme essa compreensão para tomar as decisões importantes de sua vida. E, surpresa, as pesquisas apresentadas pelo autor demonstram que somos desastrosos nessa atividade vital para definir o destino de cada um de nós. Temas como vieses, priming Efeito Halo, entre outros, são apresentados ao leitor para que possa compreender o quanto está enganado a respeito de si mesmo.

Música: Este fuerte viento que sopla, do No te va gustar

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No te va gustar é uma banda uruguaia maravilhosa, perfeita para se ouvir no verão. Suas músicas transitam entre o rock, o reggae, a salsa e a murga. Acho um verdadeiro crime que eles sejam praticamente desconhecidos aqui no Brasil. Mas tratemos de corrigir esse delito. Este fuerte viento que sopla é o segundo (e na minha opinião o melhor) álbum da banda, mostrando todo o seu ecletismo. É uma banda de músicas alegres, que não vai deixar cair o ânimo de ninguém durante o veraneio. Melhor que explicar, só mostrando:

https://www.youtube.com/watch?v=l4dtte-_Tmc

Documentário: 20.000 Dias Sobre a Terra

20000

Os documentários usualmente recomendados nos últimos tempos transitam entre política (Trabalho Interno e A Corporação) e sociedade (O Século do Eu), com a pretensão de nos iluminar os meandros de como somos manipulados por instituições, políticos e publicitários. Mas decidi recomendar um documentário sobre criatividade. Dirigido por Iain Forsyth e Jane Pollard, 20000 on Earth é  um documentário sobre o músico Nick Cave.

Mas não esperem uma biografia do artista. O foco, na verdade, é a Arte e seu poder transformador. Embora os fãs de Nick Cave possam sem dúvida usufruir mais do filme, o espectador que desconhece o trabalho do compositor pode encarar o documentário como uma viagem na mente de todo artista, sempre em busca do atrito naquela zona de contato entre o real e o imaginário.

Filme de ficção: Locke

Fiquei tentado a indicar o sensacional filme Abutre (Nightcrawler), mas como ele a recém está em cartaz, duvido que alguém consiga encontrá-lo na internet para download. Então vai o filme que considero a contrapartida desse outro, igualmente excelente e, importante, está disponível até na Netflix.

Locke é um filme de uma hora e meia que se passa inteiramente dentro de um carro com um só personagem (Tom Hardy) falando no telefone via bluetooth. Chato? Cansativo? De modo algum. O roteirista e diretor Steven Knight fez a proeza de tornar a historia tão interessante que o espectador não consegue tirar os olhos da tela. Melhor ainda, Locke é um filme original que fala sobre a possibilidade de lidarmos com o caos quando ele se instaura em nosso cotidiano – e se instaura por culpa nossa. Mais que um filme, Locke é uma lição de vida e hombridade.

Série: Cosmos, uma Odisséia do Tempo-Espaço

Essa é fácil. Dificilmente você vai curtir tanto E ao mesmo tempo se informar tanto com alguma série de TV quanto com o remake do clássico de Carl Sagan, dessa vez apresentado pelo Neil de Grasse. Em poucos momentos a televisão americana fornece algo tão brilhante e bem produzido assim. Utilizando recursos visuais com parcimônia, e fazendo a devida homenagem à serie original, Cosmos – uma Odisséia no Tempo-Espaço percorre a história do Universo e da Terra do passado mais remoto até os dias de hoje, apresentando uma fascinante perspectiva sobre o espírito científico. Absolutamente imperdível.

Jogo: The Last of Us

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The Last of Us (O Último de Nós) é um game produzido para a plataforma Playstation 3 que se destaca em todos os pontos: jogabilidade, qualidade gráfica, desafio e narrativa. Quanto a essa última, seus criadores despenderam muito tempo e esforço para fazer com que o jogador realmente se envolvesse com os personagens e se importasse com se destino, de modo que no curso do jogo as reviravoltas e desafios são vivenciados com mais intensidade do que nos habituais games do mesmo estilo. Possivelmente um marco do gênero, The Last of Us se notabiliza por ter uma história consistente, em que a natureza é pintada com cores tão negras que chegamos ao ponto de considerar se o extermínio da raça humana não representaria um imenso alívio para um planeta praticamente esgotado com nossa exploração.

HQ: Do Inferno

doinferno

Aproveitando que a Editora Veneta republicou no Brasil uma das obras mais sinistras de Alan Moore em uma qualidade gráfica superior a predecessora publicação pela Opera Graphica, não há como deixar de recomendar a leitura de From Hell. É um dos trabalhos mais impressionantes do criador de Watchmen e V de Vingança. Mas dessa vez, ele não trata de supostos heróis ou vilões fantasiados. Alan Moore conseguiu colocar o leitor dentro da mente de um dos criminosos britânicos mais assustadores da Era Vitoriana. E o resultado é de gelar os ossos, ao ponto de agradecermos que certas cenas sejam retratas pelo traço simples e por vezes caricato de Eddie Campbell. Mas não pense que Do Inferno é uma história de terror ou um festim de sangue – pelo contrário, a obra é um exaustivo exercício intelectual sobre patriarcado, misoginia, natureza circular do tempo, shamanismo, psicopatia e sincronicidade.


Alysson Augusto

Livro de ficção: O pequeno filósofo, do Gabriel Chalita

Não-ficção: Sem Tesão Não Há Solução, do Roberto Freire

Filme: Medianeras e A Onda

Documentário: Terráqueos Home

Álbum: Antes Que Tu Conte Outra, do Apanhador Só”

Seriado: Da Vinci’s Demons

Game: Habit RPG


Mauricio Bohrer

Filme: A Vida de Briando Monty Python

Eu sei que é comédia e tal, mas aquela música do “Always look at the bright side of life” no contexto é simplesmente genial.

Seriado: Cosmos, do Carl Sagan.

No YouTube tem todos os episódios. Simplesmente obrigatório.

ÁlbumCe que l’on Sème, do Tryo, e Lonerism, do Tame Impala


Josmael Corso

Livro de ficçãoFahrenheit 451, de Ray Bradbury
Livro de não-ficçãoVida Maravilhosa, de Stephen Jay Gould
Álbum – Entren los que quieran, da banda Calle 13
FilmeA Teoria de Tudo, de James Marsh
DocumentárioQuando sinto que já sei (tem no youtube)
SeriadoTwin Peaks, de David Lynch


Rodolfo Dall’agno

ramses

Livro de ficção: série de livros Ramsés, de Christian Jacq
Livro de não-ficção: O Homem e seus Símbolos, de Carl Gustav Jung
Álbum: Nu, do Forfun, e Crime of the Century, do Supertramp
Filme: Poder além da Vida
Documentário: Por que a beleza importa?


Marcela Variani

comolerlivros

Livro de ficção: 1984, de George Orwell

Livro de não-ficção: Como Ler Livros, de Mortimer J. Adler e Charles van Doren

Documentário: Lixo, um problema global, Da Servidão Moderna A Corporação

Filmes: Black (filme indiano, de 2005), A Experiência (É o que tem o título e que é em alemão, baseou-se na história verídica da experiência da prisão de Stanford)

Jogo: Letroca

escrito por:

Victor Lisboa