Volte do verão alguém melhor (e se divertindo!)

Em Sobre o AZ por Victor LisboaComentário

Para muita gente, as férias de verão são a opor­tu­ni­dade de colo­car sua lei­tura em dia, ver um ou outro filme que já esta­vam na lista há um tem­pão e fazer um set list do som que vai rolar no carro ou nos headpho­nes durante a via­gem. Sem falar nos impre­vi­sí­veis dias de chuva, que tor­nam ainda mais a impor­tante lem­brar­mos de levar na baga­gem mate­rial para ler, ver e ouvir no vera­neio.

Mas nem sem­pre temos muita cer­teza do que levar. Além disso, tal­vez pos­sa­mos agre­gar um pouco mais de valor ao nosso combo garan­tido que vol­te­mos das férias alguém “melhor” — e essa pala­vra aqui tem um sig­ni­fi­cado muito amplo, até des­pre­ten­si­oso. “Melhor” pode sig­ni­fi­car conhe­cer novas ideias, ou des­co­brir um novo músico, livro ou um filme que não conhe­cía­mos e pode­re­mos reco­men­dar para as outras pes­soas no retorno. E vol­ta­mos tam­bém um pouco “melhor” quando acei­ta­mos ler, ouvir ou ver algo que não faz parte do nosso uni­verso de refe­rên­cias, topa­mos arris­car um pouco e des­ven­dar alguma nova pro­posta ou abor­da­gem de um tema ou expres­são artís­tica.

Tendo na cabeça essa pro­posta, a turma do Ano Zero deci­diu ela­bo­rar lis­tas de suges­tões de mate­rial para você levar nas férias. Esta­be­le­ce­mos seis cate­go­rias e per­gun­ta­mos à turma do AZ: que livro de fic­ção, livro de não-fic­ção, filme, docu­men­tá­rio, jogo e álbum vocês reco­men­da­riam para um amigo que qui­sesse, naque­les ter­mos, retor­nar do vera­neio alguém “melhor”?

As res­pos­tas estão abaixo. Minha lista ini­cia pois comen­tei cada item. O Felipe Car­va­lho topou fazer isso a res­peito da sua lista, por isso ela será publi­cada em sepa­rado semana que vem. Aguar­dem!


Victor Lisboa

Livro de fic­ção, romance: Fim, de Fer­nanda Tor­res.

fim

Esse livro é per­feito para as férias de verão. Leve o sufi­ci­ente para ser car­re­gado na baga­gem, denso o sufi­ci­ente para dei­xar algo com o lei­tor após sua lei­tura. Fim é o romance de estreia da atriz Fer­nanda Tor­res, e ela faz dele um belo começo (tro­ca­di­lho irre­sis­tí­vel) para sua car­reira de escri­tora. O livro traz o retrato ácido e bem humo­rado de cinco ami­gos cari­o­cas no cre­pús­culo de seus dias. Todos se conhe­ce­ram na época em que o Rio de Janeiro fer­via em incon­se­quen­tes fes­tas na década de 1960, e já na segunda década do segundo milê­nio estão envol­vi­dos com Via­gra, mulhe­res neu­ró­ti­cas, amar­gas memó­rias de trai­ções pas­sa­das e a pers­pec­tiva pró­xima da morte. O livro tem cinco capí­tu­los, cada qual dedi­cado a acom­pa­nhar a tra­je­tó­ria errá­tica de um dos cinco per­so­na­gens. São 208 pági­nas reple­tas de humor, graça e melan­co­lia em doses home­o­pá­ti­cas.

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Livro de não fic­ção: Rápido e Deva­gar, duas for­mas de pen­sar, de Daniel Kah­ne­man

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Em pri­meiro lugar, duas res­sal­vas. A pri­meira é que, ape­sar do título, NÃO É LIVRO DE AUTOAJUDA. A segunda é que difi­cil­mente você ter­mi­nará esse livro nas férias. É um tra­ba­lho denso, e cada capí­tulo exige aten­ção do lei­tor. Mas é uma obra prima de um psi­có­logo que ganhou o Nobel de Eco­no­mia (sim, de eco­no­mia!) pelo desen­vol­vi­mento de uma teo­ria sobre a tomada de deci­são do ser humano. Se alguém me dis­sesse que em 2015 tem tempo para ler ape­nas um livro, e me pedisse uma suges­tão de qual livro deve­ria ler, sem hesi­tar eu indi­ca­ria o “Rápido e Deva­gar”, pois é como um espe­lho pelo qual o lei­tor pode des­co­brir coi­sas a res­peito de si pró­prio. O tema, como não podia dei­xar de ser, é a capa­ci­dade humana de com­pre­en­der a rea­li­dade e guiar-se con­forme essa com­pre­en­são para tomar as deci­sões impor­tan­tes de sua vida. E, sur­presa, as pes­qui­sas apre­sen­ta­das pelo autor demons­tram que somos desas­tro­sos nessa ati­vi­dade vital para defi­nir o des­tino de cada um de nós. Temas como vie­ses, pri­ming Efeito Halo, entre outros, são apre­sen­ta­dos ao lei­tor para que possa com­pre­en­der o quanto está enga­nado a res­peito de si mesmo.

Música: Este fuerte viento que sopla, do No te va gus­tar

notevagustar

No te va gus­tar é uma banda uru­guaia mara­vi­lhosa, per­feita para se ouvir no verão. Suas músi­cas tran­si­tam entre o rock, o reg­gae, a salsa e a murga. Acho um ver­da­deiro crime que eles sejam pra­ti­ca­mente des­co­nhe­ci­dos aqui no Bra­sil. Mas tra­te­mos de cor­ri­gir esse delito. Este fuerte viento que sopla é o segundo (e na minha opi­nião o melhor) álbum da banda, mos­trando todo o seu ecle­tismo. É uma banda de músi­cas ale­gres, que não vai dei­xar cair o ânimo de nin­guém durante o vera­neio. Melhor que expli­car, só mos­trando:

https://www.youtube.com/watch?v=l4dtte-_Tmc

Docu­men­tá­rio: 20.000 Dias Sobre a Terra

20000

Os docu­men­tá­rios usu­al­mente reco­men­da­dos nos últi­mos tem­pos tran­si­tam entre polí­tica (Tra­ba­lho Interno e A Cor­po­ra­ção) e soci­e­dade (O Século do Eu), com a pre­ten­são de nos ilu­mi­nar os mean­dros de como somos mani­pu­la­dos por ins­ti­tui­ções, polí­ti­cos e publi­ci­tá­rios. Mas decidi reco­men­dar um docu­men­tá­rio sobre cri­a­ti­vi­dade. Diri­gido por Iain Forsyth e Jane Pol­lard, 20000 on Earth é  um docu­men­tá­rio sobre o músico Nick Cave.

Mas não espe­rem uma bio­gra­fia do artista. O foco, na ver­dade, é a Arte e seu poder trans­for­ma­dor. Embora os fãs de Nick Cave pos­sam sem dúvida usu­fruir mais do filme, o espec­ta­dor que des­co­nhece o tra­ba­lho do com­po­si­tor pode enca­rar o docu­men­tá­rio como uma via­gem na mente de todo artista, sem­pre em busca do atrito naquela zona de con­tato entre o real e o ima­gi­ná­rio.

Filme de fic­ção: Locke

Fiquei ten­tado a indi­car o sen­sa­ci­o­nal filme Abu­tre (Night­cra­wler), mas como ele a recém está em car­taz, duvido que alguém con­siga encon­trá-lo na inter­net para down­load. Então vai o filme que con­si­dero a con­tra­par­tida desse outro, igual­mente exce­lente e, impor­tante, está dis­po­ní­vel até na Net­flix.

Locke é um filme de uma hora e meia que se passa intei­ra­mente den­tro de um carro com um só per­so­na­gem (Tom Hardy) falando no tele­fone via blu­e­to­oth. Chato? Can­sa­tivo? De modo algum. O rotei­rista e dire­tor Ste­ven Knight fez a pro­eza de tor­nar a his­to­ria tão inte­res­sante que o espec­ta­dor não con­se­gue tirar os olhos da tela. Melhor ainda, Locke é um filme ori­gi­nal que fala sobre a pos­si­bi­li­dade de lidar­mos com o caos quando ele se ins­taura em nosso coti­di­ano — e se ins­taura por culpa nossa. Mais que um filme, Locke é uma lição de vida e hom­bri­dade.

Série: Cos­mos, uma Odis­séia do Tempo-Espaço

Essa é fácil. Difi­cil­mente você vai cur­tir tanto E ao mesmo tempo se infor­mar tanto com alguma série de TV quanto com o remake do clás­sico de Carl Sagan, dessa vez apre­sen­tado pelo Neil de Grasse. Em pou­cos momen­tos a tele­vi­são ame­ri­cana for­nece algo tão bri­lhante e bem pro­du­zido assim. Uti­li­zando recur­sos visu­ais com par­cimô­nia, e fazendo a devida home­na­gem à serie ori­gi­nal, Cos­mos — uma Odis­séia no Tempo-Espaço per­corre a his­tó­ria do Uni­verso e da Terra do pas­sado mais remoto até os dias de hoje, apre­sen­tando uma fas­ci­nante pers­pec­tiva sobre o espí­rito cien­tí­fico. Abso­lu­ta­mente imper­dí­vel.

Jogo: The Last of Us

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The Last of Us (O Último de Nós) é um game pro­du­zido para a pla­ta­forma Plays­ta­tion 3 que se des­taca em todos os pon­tos: joga­bi­li­dade, qua­li­dade grá­fica, desa­fio e nar­ra­tiva. Quanto a essa última, seus cri­a­do­res des­pen­de­ram muito tempo e esforço para fazer com que o joga­dor real­mente se envol­vesse com os per­so­na­gens e se impor­tasse com se des­tino, de modo que no curso do jogo as revi­ra­vol­tas e desa­fios são viven­ci­a­dos com mais inten­si­dade do que nos habi­tu­ais games do mesmo estilo. Pos­si­vel­mente um marco do gênero, The Last of Us se nota­bi­liza por ter uma his­tó­ria con­sis­tente, em que a natu­reza é pin­tada com cores tão negras que che­ga­mos ao ponto de con­si­de­rar se o exter­mí­nio da raça humana não repre­sen­ta­ria um imenso alí­vio para um pla­neta pra­ti­ca­mente esgo­tado com nossa explo­ra­ção.

HQ: Do Inferno

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Apro­vei­tando que a Edi­tora Veneta repu­bli­cou no Bra­sil uma das obras mais sinis­tras de Alan Moore em uma qua­li­dade grá­fica supe­rior a pre­de­ces­sora publi­ca­ção pela Opera Graphica, não há como dei­xar de reco­men­dar a lei­tura de From Hell. É um dos tra­ba­lhos mais impres­si­o­nan­tes do cri­a­dor de Wat­ch­men e V de Vin­gança. Mas dessa vez, ele não trata de supos­tos heróis ou vilões fan­ta­si­a­dos. Alan Moore con­se­guiu colo­car o lei­tor den­tro da mente de um dos cri­mi­no­sos bri­tâ­ni­cos mais assus­ta­do­res da Era Vito­ri­ana. E o resul­tado é de gelar os ossos, ao ponto de agra­de­cer­mos que cer­tas cenas sejam retra­tas pelo traço sim­ples e por vezes cari­cato de Eddie Camp­bell. Mas não pense que Do Inferno é uma his­tó­ria de ter­ror ou um fes­tim de san­gue — pelo con­trá­rio, a obra é um exaus­tivo exer­cí­cio inte­lec­tual sobre patri­ar­cado, miso­gi­nia, natu­reza cir­cu­lar do tempo, sha­ma­nismo, psi­co­pa­tia e sin­cro­ni­ci­dade.


Alysson Augusto

Livro de fic­ção: O pequeno filó­sofo, do Gabriel Cha­lita

Não-fic­ção: Sem Tesão Não Há Solu­ção, do Roberto Freire

Filme: Medi­a­ne­ras e A Onda

Docu­men­tá­rio: Ter­rá­queos Home

Álbum: Antes Que Tu Conte Outra, do Apa­nha­dor Só”

Seri­ado: Da Vinci’s Demons

Game: Habit RPG


Mauricio Bohrer

Filme: A Vida de Briando Monty Python

Eu sei que é comé­dia e tal, mas aquela música do “Always look at the bright side of life” no con­texto é sim­ples­mente genial.

Seri­ado: Cos­mos, do Carl Sagan.

No You­Tube tem todos os epi­só­dios. Sim­ples­mente obri­ga­tó­rio.

ÁlbumCe que l’on Sème, do Tryo, e Lone­rism, do Tame Impala


Josmael Corso

Livro de fic­çãoFah­re­nheit 451, de Ray Brad­bury
Livro de não-fic­çãoVida Mara­vi­lhosa, de Stephen Jay Gould
Álbum — Entren los que qui­e­ran, da banda Calle 13
FilmeA Teo­ria de Tudo, de James Marsh
Docu­men­tá­rioQuando sinto que já sei (tem no you­tube)
Seri­adoTwin Peaks, de David Lynch


Rodolfo Dall’agno

ramses

Livro de fic­ção: série de livros Ram­sés, de Chris­tian Jacq
Livro de não-fic­ção: O Homem e seus Sím­bo­los, de Carl Gus­tav Jung
Álbum: Nu, do For­fun, e Crime of the Cen­tury, do Super­tramp
Filme: Poder além da Vida
Docu­men­tá­rio: Por que a beleza importa?


Marcela Variani

comolerlivros

Livro de fic­ção: 1984, de George Orwell

Livro de não-fic­ção: Como Ler Livros, de Mor­ti­mer J. Adler e Char­les van Doren

Docu­men­tá­rio: Lixo, um pro­blema glo­bal, Da Ser­vi­dão Moderna A Cor­po­ra­ção

Fil­mes: Black (filme indi­ano, de 2005), A Expe­ri­ên­cia (É o que tem o título e que é em ale­mão, baseou-se na his­tó­ria verí­dica da expe­ri­ên­cia da pri­são de Stan­ford)

Jogo: Letroca

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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