Não, você não precisa ter tudo | capa | O verdadeiro problema não é descobrir o que se quer da vida, mas saber do que desistir.

Não, você não precisa ter tudo

Em Comportamento, Consciência por Mark MansonComentário

Eu vi uma his­tó­ria no Face­book esses dias. E, como a mai­o­ria das his­tó­rias que são pas­sa­das no Face­book, pro­va­vel­mente é ape­nas 38% ver­da­deira e escrita por um ado­les­cente. Mas inde­pen­den­te­mente disso, eu achei legal e no mínimo ins­ti­gante.

Era sobre um homem cha­mado Moham­med El-Erian. Moham­med era Dire­tor Exe­cu­tivo de um super fundo de 2 tri­lhões de dóla­res cha­mado “PIMCO” e ganhava mais de 100 milhões de dóla­res por ano. Em janeiro, ele ines­pe­ra­da­mente renun­ciou ao cargo a fim de pas­sar mais tempo com a filha de 10 anos.

Agora vem a má notí­cia: uma deci­são como essa é, apa­ren­te­mente, um grande negó­cio em nossa soci­e­dade. Total­mente ines­pe­rado e con­tra a cor­rente cul­tu­ral de “fazer bilhões ou mor­rer ten­tando” que esta­mos todos acos­tu­ma­dos. Essa ques­tão tem cir­cu­lado nas redes soci­ais, sendo muito deba­tida.

Ao que tudo indica, a deci­são de El-Erian veio depois de uma briga com a filha. Ele estava gri­tando com ela para que esco­vasse os den­tes. Ela recu­sou. El-Erian puxou o clás­sico “Eu sou seu pai e você vai fazer o que digo” de rotina, ao que sua filha disse: “Espere, por favor.” A garota reti­rou-se para seu quarto e come­çou a ano­tar 22 impor­tan­tes momen­tos de sua vida que seu pai tinha per­dido por causa do tra­ba­lho, den­tre elas: fes­tas de ani­ver­sá­rio, apre­sen­ta­ções esco­la­res, reu­niões Hare Krishna, e assim por diante. Essa lista rabis­cada sur­tiu o efeito de trans­for­mar El-Erian em um bebê cho­rão, e no dia seguinte ele já estava cor­tando a grama do quin­tal e pen­sando “Uau, aque­les zeros não ser­vem pra nada!”. E agora El –Erian é um pai em tempo inte­gral.

Se você já teve uma aula de eco­no­mia, uma das pri­mei­ras coi­sas que apren­deu é um con­ceito cha­mado “custo de opor­tu­ni­dade”, uma expres­são mui­tas vezes ilus­trada com cita­ções do tipo: “Não existe almoço grá­tis. ”

Custo de opor­tu­ni­dade” sig­ni­fica que, essen­ci­al­mente, tudo que você faz, não importa o que seja, custa algo, mesmo que indi­re­ta­mente. O exem­plo clás­sico é quando alguém te con­vida para um almoço grá­tis que leva uma hora. Ape­sar de você ganhar o valor do almoço durante essa hora, você ainda está “pagando” com todas as outras ati­vi­da­des pro­du­ti­vas que pode­ria ter poten­ci­al­mente feito nesse tempo.

Imagem sobre o texto

Então você abdi­cou de fazer uma hora extra de tra­ba­lho, de uma hora extra de sono, de uma hora extra de cha­ma­das de ven­das que pode­riam ren­der um novo cli­ente. Ou, como no caso do El-Erian, de uma hora extra com sua filha de 10 anos de idade.

Em nossa cul­tura, nós cele­bra­mos coti­di­a­na­mente as pes­soas que se tor­nam ricas fazendo coi­sas extra­or­di­ná­rias. Mas a natu­reza des­sas “coi­sas extra­or­di­ná­rias” mui­tas vezes requer cus­tos extre­ma­mente ele­va­dos de opor­tu­ni­dade. Bill Gates, noto­ri­a­mente, dor­mia em seu escri­tó­rio cinco dias por semana e con­quis­tou seu pri­meiro milhão de dóla­res antes dos 30. Steve Jobs era um pai calo­teiro com sua pri­meira filha. Brad Pitt não pode sair de casa sem ser alve­jado por flashes e câme­ras. Ele mesmo afir­mou que pas­sou por perío­dos de depres­são devido ao iso­la­mento social pro­vo­cado pela sua extrema fama.

O ponto é que fazer qual­quer coisa ver­da­dei­ra­mente grande requer algum tipo de sacri­fí­cio ine­rente que pode ou não ser ime­di­a­ta­mente óbvio. Como por exem­plo, per­der uma série de ani­ver­sá­rios da sua filha (se você já leu bas­tan­tes coi­sas minhas, você já viu essa ideia de outras for­mas antes, par­ti­cu­lar­mente aqui e aqui).

Mas aqui está o pro­blema. A soci­e­dade moderna mul­ti­plica as nos­sas opor­tu­ni­da­des. Por­tanto, a soci­e­dade moderna tam­bém mul­ti­plica nos­sos “cus­tos de opor­tu­ni­dade”, tor­nando-os “mais caros”. Ou seja, a soci­e­dade com­pro­mete todo o nosso tempo e ener­gia sem sen­tir nenhum tipo de remorso ou arre­pen­di­mento.

Aí entra o con­ceito do “medo de per­der”: nós vive­mos uma vida em que somos cons­tan­te­mente lem­bra­dos de tudo o que não somos capa­zes de ser.

Vamos vol­tar, diga­mos, 200 anos atrás. As pes­soas não tinham esse pro­blema. Se você nas­cesse um agri­cul­tor, você pro­va­vel­mente não teria mui­tas opor­tu­ni­da­des para além da agri­cul­tura. Além disso, é pro­vá­vel que nem sequer teria conhe­ci­mento de opor­tu­ni­da­des além da agri­cul­tura. Por­tanto, dedi­cando toda a sua vida para se tor­nar um agri­cul­tor melhor, não have­ria nenhum “custo de opor­tu­ni­dade”, não have­ria “medo de per­der”. Afi­nal, não havia mais nada a per­der.

No sen­tido antigo, as pes­soas no final do dia “tinham tudo”. Elas tinham tudo sim­ples­mente pelo fato de que não havia mais nada para ter.

Quando escrevi um artigo sobre o pro­pó­sito da vida, muita gente mesmo com­par­ti­lhou no Face­book e me disse que eu era um cara bacana. Eli­za­beth Gil­bert, autora de “Comer, Rezar e Amar” achou que eu ainda sou muito ino­cente. Esse negó­cio de “pro­pó­sito de vida” nem sequer exis­tia até algu­mas déca­das atrás. Nem fazia sen­tido esse tipo de ques­tão.

De certa forma, a sua cha­mada crise de “pro­pó­sito de vida” é um luxo, algo que você está auto­ri­zado a ter como resul­tado das liber­da­des sur­pre­en­den­tes que o mundo moderno con­ce­deu a você.

Recebo e-mails o tempo todo de pes­soas que se quei­xam sobre a falta de equi­lí­brio na ques­tão trabalho/vida. Há mui­tos arti­gos na mídia que deba­tem se é pos­sí­vel “ter tudo” — ou seja, é pos­sí­vel ser “o melhor” em sua car­reira, ter uma vida fami­liar sau­dá­vel, pas­sa­tem­pos legais, ser finan­cei­ra­mente está­vel, ter um corpo sexy de biquíni e ainda cozi­nhar uma suflê orgâ­nico só com sua roupa de baixo enquanto com­pra uma pro­pri­e­dade à beira-mar no seu novo iPhone 6, tudo ao mesmo tempo?

O que mudou não é a nossa inca­pa­ci­dade de gerir o nosso tempo ou de “equi­li­brar as nos­sas vidas” entre tra­ba­lho e lazer. O que mudou é que temos mais opor­tu­ni­da­des para tra­ba­lhar e cur­tir do que nunca — mais inte­res­ses, mais cons­ci­ên­cia de toda a expe­ri­ên­cia poten­cial que esta­mos pas­sando por cima. Em suma, temos mais “custo de opor­tu­ni­dade”.

E somos bom­bar­de­a­dos acerca disso dia­ri­a­mente na nossa nave­gada diá­ria na Inter­net. Quando você decide sacri­fi­car a vida amo­rosa para avan­çar na car­reira, é cons­tan­te­mente bom­bar­de­ado pelas vidas sexu­ais indis­ci­pli­na­das dos seus ami­gos e de estra­nhos. Quando você sacri­fica as pers­pec­ti­vas de car­reira para dedi­car mais tempo e ener­gia à famí­lia, é cons­tan­te­mente bom­bar­de­ado com o sucesso mate­rial de pes­soas excep­ci­o­nais. Quando você decide fazer um papel difí­cil mas neces­sá­rio à soci­e­dade, é cons­tan­te­mente bom­bar­de­ado com his­tó­rias fúteis de cele­bri­da­des boni­tas.

Então como pode­mos agir diante desta cul­tura exces­si­va­mente bom­bar­de­ada pela vida alheia? Como pode­mos geren­ciar nosso “medo de per­der”?

A res­posta con­ven­ci­o­nal, a res­posta que você vai encon­trar na mai­o­ria dos livros é alguma vari­a­ção de “fazer mais com menos”, “admi­nis­tre bem seu tempo”. Ou, como Arnold Schwar­ze­neg­ger disse uma vez: “durma pouco”.

No Face­book, El-Erian disse em seu artigo de “pai do ano” que ele pas­sou anos jus­ti­fi­cando a falta aos ani­ver­sá­rios da filha para si mesmo — ele estava ocu­pado, o tra­ba­lho era muito exi­gente, sua agenda de via­gens era uma lou­cura.

Este é o típico equi­lí­brio trabalho/vida, e aí vem sem­pre a seguinte queixa: “têm tanta coisa que quero fazer mas não tenho tempo sufi­ci­ente”.

Mas e se a res­posta é não fazer mais?

E se a res­posta é que­rer menos?

E se a solu­ção é sim­ples­mente acei­tar o nosso poten­cial limi­tado, a nossa desa­for­tu­nada ten­dên­cia como seres huma­nos a habi­tar ape­nas um lugar no espaço e no tempo?

E se nós reco­nhe­cês­se­mos as ine­vi­tá­veis ​​limi­ta­ções da nossa vida e, em seguida, pri­o­ri­zás­se­mos o que real­mente importa, com base nes­sas limi­ta­ções?

Imagem para o artigo

E se é tão sim­ples e pode­mos ape­nas dizer: “Isto é o que eu esco­lho valo­ri­zar mais do que todo o resto”, e então se bas­tar com isso?

Quando ten­ta­mos fazer tudo para encher a “lista de con­quis­tas da vida” e ” ter tudo”, esta­mos ten­tando, essen­ci­al­mente, viver uma vida sem valor, uma vida onde tudo é igual­mente adqui­rido e nada per­dido. Quando tudo é neces­sá­rio e dese­jado de forma igual, então nada é neces­sá­rio ou nada é dese­jado.

Semana pas­sada recebi um e-mail de um homem que estava angus­ti­ado sobre sua situ­a­ção de vida. Ele pos­suía um tra­ba­lho que odi­ava e tinha se dis­tan­ci­ado dos ami­gos e ati­vi­da­des com as quais um dia se impor­tou. Ele disse que estava depri­mido. Ele disse que sen­tiu como se ele tivesse se per­dido. Ele disse que odi­ava sua vida.

Mas acres­cen­tou no final que tinha se acos­tu­mado ao estilo de vida que seu tra­ba­lho lhe pro­por­ci­o­nava. E que por­tanto dei­xar o seu tra­ba­lho estava fora de ques­tão. Então me per­gun­tou o que deve­ria fazer.

Na minha expe­ri­ên­cia, as pes­soas que lutam com a cha­mada ques­tão “pro­pó­sito de vida”, sem­pre se quei­xam de que não sabem o que fazer. Mas o ver­da­deiro pro­blema não é que não sabem o que fazer. É que não sabem do que devem desis­tir.

A pri­o­ri­dade de El-Erian era 100 milhões de dóla­res por ano. Sua pri­o­ri­dade era ser Dire­tor Exe­cu­tivo. Sua pri­o­ri­dade era heli­cóp­te­ros par­ti­cu­la­res, limu­si­nes e ban­quei­ros o baju­lando onde quer que fosse. E, para ganhar essas coi­sas, ele optou por desis­tir de ser pre­sente na vida de sua filha.

Até que, um dia, ele esco­lheu o oposto.


Seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

7 per­gun­tas para encon­trar seu pro­pó­sito na vida
Ser espe­cial não é tão espe­cial assim

Compartilhe