você é a moda

Você é a moda

Em Comportamento, Consciência por Amandha VianaComentário

Uma das prin­ci­pais razões para que mui­tos con­si­de­rem a moda fútil é o fato de que ela mui­tas vezes se con­tra­diz com o tempo, justo por ser tão abran­gente e con­ter tan­tas pos­si­bi­li­da­des. É o que acon­tece ao ser lan­çada uma cole­ção e ela já estar fora de moda após alguns meses, subs­ti­tuída por uma nova.

É claro que o homem que veste chi­nelo e regata quando vai à pada­ria não está na moda pois não segue nenhuma ten­dên­cia. Mas ele é a moda por fazer suas esco­lhas e expres­sar sua per­so­na­li­dade. As ten­dên­cias cor­res­pon­dem ao olhar dos esti­lis­tas para o que está sendo pre­do­mi­nan­te­mente usado ou vai ser ves­tido nas pró­xi­mas esta­ções — quando você segue estas ten­dên­cias, sig­ni­fica que está na moda.

Tal­vez seja o momento de enca­rar o mito de que moda é ape­nas o que está nas pas­sa­re­las do ‘pla­neta fashion’. Na ver­dade, esta ideia de moda ser somente as evi­dên­cias nas vitri­nes em deter­mi­nado momento já não existe desde o século 19, quando as mudan­ças assi­na­das (ten­dên­cias lan­ça­das na semana de moda, assi­na­das por esti­lis­tas) deram lugar a uma soci­e­dade demo­crá­tica, com neces­si­da­des mais com­ple­xas e dis­tin­tas das ante­ri­o­res.

O século 19 foi mar­cado pela reno­va­ção, de certa forma já inau­gu­rada pela Revo­lu­ção Fran­cesa, que afe­tou os mode­los econô­mi­cos e soci­ais de toda a Europa, quando então as rou­pas pas­sa­ram a ser mais aces­sí­veis e de menor custo. Tam­bém foi o século em que o desen­vol­vi­mento da tec­no­lo­gia impul­si­o­nou a cons­tru­ção de gran­des fábri­cas, o desen­vol­vi­mento de máqui­nas a vapor e a explo­ra­ção de mão de obra barata.

moda raj

Com a moda não pode­ria ter sido dife­rente. As mudan­ças pas­sam a ser cada vez mais visí­veis, e vão se esta­be­le­cendo em pra­ti­ca­mente todas as cama­das soci­ais. Só que não é mais o esti­lista que dita o que se deve ves­tir. A moda torna-se, de certa forma, sinô­nimo de uma busca de afir­ma­ção pes­soal e da expres­são de ideias e sen­ti­men­tos par­ti­cu­la­res.

Não é por acaso que Paris se tor­nou a capi­tal mun­dial da moda. Tudo o que se refere à ino­va­ção na moda come­çou por lá, e foi com a Revo­lu­ção Fran­cesa que se ini­ci­a­ram as mudan­ças. A par­tir da Revo­lu­ção, a moda começa a ins­pi­rar-se em outras áreas, como o movi­mento român­tico, por exem­plo, que pre­gava a inde­pen­dên­cia capi­ta­lista, enfa­ti­zando a livre expres­são dos sen­ti­men­tos e emo­ções. Era uma via­gem para den­tro de si mesmo, que mexia e esti­mu­lava o ima­gi­ná­rio das pes­soas, e que aca­bou por mar­car diver­sas mudan­ças no ves­tuá­rio femi­nino.

Alguns exem­plos podem ser úteis para você enten­der: a pro­vo­ca­ção e a expo­si­ção atra­vés de pou­cas rou­pas (tanto no sen­tido de menos cama­das de rou­pas como de menor tama­nho das peças) e de trans­pa­rên­cias, o que era uma novi­dade; a explo­ra­ção de dife­ren­tes tipos de teci­dos, o que ins­ti­gou o inte­resse do con­su­mi­dor e mos­trou que o gosto/querer pode­ria ser trans­mi­tido atra­vés des­ses mate­ri­ais; e a cin­tura mar­cada, que des­per­tou um tipo de inte­resse pela silhu­eta.

moda século 19

Che­ga­mos ao século 20, aquele em que encon­tra­mos as mai­o­res mudan­ças e ino­va­ções no ves­tuá­rio. Há quem diga que tudo o que pode­ria ser mudado na moda acon­te­ceu neste século e que, a par­tir daí, nunca mais dei­xa­mos de sofrer as con­sequên­cias des­sas mudan­ças. Se você já ouviu falar de des­fi­les em que os esti­lis­tas se ins­pi­ra­ram nos anos 20, ou do retorno de ten­dên­cias dos anos 60, é exa­ta­mente por­que todas as prin­ci­pais mudan­ças no uni­verso da moda acon­te­ce­ram no século 20.

As mudan­ças come­ça­ram por Cha­nel, que trouxe ele­men­tos do ves­tuá­rio mas­cu­lino, como a calça e o bla­zer, para o guarda-roupa das mulhe­res, pas­sando pelo new look de Dior, que trouxe dimen­sões e volu­mes iné­di­tos às rou­pas, tor­nando o corpo da mulher muito sexy (e nada vul­gar) e que o con­fi­gura, ainda nos dias de hoje, como um marco e uma refe­rên­cia no mundo da moda, e a cri­a­ção da  minis­saia, pela ousada e revo­lu­ci­o­ná­ria Mary Quant. E não dá para dei­xar de fora o Yves Saint Lau­rent, pre­cur­sor do prêt-à-por­ter, que nada mais é do que as rou­pas já pron­tas para ves­tir que encon­tra­mos à venda em lojas.

Como se per­cebe, foram tan­tas as mudan­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas den­tro da moda que elas atra­ves­sa­ram  gera­ções e che­gam ao século 21. Além dos que citei, vários outros acon­te­ci­men­tos influ­en­ciam o nosso modo de ves­tir. As rou­pas ganha­ram espec­ta­do­res aten­tos às pro­je­ções do ima­gi­ná­rio, de pen­sa­men­tos ínti­mos, de valo­res soci­ais e cren­ças.

Info­grá­fico de Vamos Com­bi­nar Seu Estilo, rea­lity show de moda do canal GNT, sobre a moda no século XX.

Levando o sig­ni­fi­cado da pala­vra moda à risca (sua ori­gem é latina, vem de modus: “modo”, “maneira”) e ana­li­sando esta linha do tempo his­tó­rica e social, pode­mos ver que os sinais de mudança não apa­re­cem ape­nas nas pas­sa­re­las. Eles tam­bém estão nas rou­pas comuns. Atra­vés das rou­pas enten­de­mos o com­por­ta­mento, os valo­res e as cren­ças de um deter­mi­nado grupo ou país. Enten­de­mos até mesmo as carac­te­rís­ti­cas mais mar­can­tes de um deter­mi­nado período his­tó­rico – não esque­cendo que é da natu­reza da moda ser mutá­vel e sem­pre pro­cu­rar novas pos­si­bi­li­da­des e ten­dên­cias. Ou seja, nem toda moda se ori­gina de movi­men­tos polí­ti­cos ou de mudan­ças de com­por­ta­mento den­tro de uma soci­e­dade.


Para enten­der melhor, con­si­dere que a moda é um sis­tema que acom­pa­nha o ves­tuá­rio e o tempo, inte­grando a sim­ples esco­lha das rou­pas do dia-a-dia e asso­ci­ando o que parece ser uma sim­ples esco­lha a um con­texto maior, con­texto esse que envolve coi­sas apa­ren­te­mente tão dis­tan­tes quanto ques­tões soci­o­e­co­ló­gicas, polí­ti­cas e soci­ais. Sendo assim, pen­sar sobre a moda vai muito além do sim­ples estar na moda. É pos­sí­vel per­ce­ber a influên­cia da moda até no que se esco­lhe todos os dias de manhã para ves­tir. Quer ver?

moda: Dolce & Gabbana

Dolce & Gab­bana

A moda está nas neces­si­da­des bási­cas do ser humano, como se pro­te­ger do frio. Suprir uma neces­si­dade como esta tam­bém envolve, em geral, esco­lhas pes­so­ais. A par­tir do momento em que se opta por uma cor, por um modelo,  já se está fazendo moda. A moda está ligada ao gosto de quem esco­lheu fazer uma deter­mi­nada peça de roupa e ao de quem deci­diu com­prá-la. Por isso, a moda está em tudo aquilo que ves­ti­mos. A roupa car­rega tra­ços da per­so­na­li­dade e a opção por um look espe­cí­fico sim­bo­liza nossa indi­vi­du­a­li­dade. É atra­vés dele que nos apre­sen­ta­mos para o mundo.

Isso tudo não quer dizer que o que está sendo des­fi­lado nas sema­nas de moda pelo mundo não seja moda. A ques­tão é que não pode­mos esque­cer da moda do gueto, dos nichos, da moda da con­tra­cul­tura, da moda alter­na­tiva e até da moda de pro­testo — são elas que, mui­tas vezes, ins­pi­ram o que está sendo exposto nas pas­sa­re­las.

Da fashi­o­nista sem­pre atu­a­li­zada, atenta às ten­dên­cias, até a senhora que amarra um lenço na cabeça pra se pro­te­ger do sol enquanto vai a feira; do menino que usa ócu­los sem grau no estilo retrô pra ficar com cara de inte­lec­tual e ante­nado, até o exe­cu­tivo que não gosta mas pre­cisa usar os ócu­los e os esco­lhe den­tre os mode­los mais dis­cre­tos pos­sí­veis: alguns até não bus­cam estar na moda, mas todos são a moda.



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O Con­su­mi­dor de Moda Bra­si­leiro

Amandha Viana
Amandha Viana estuda Negócios da Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e atua na área comercial e de produção na Ana Cury Consultoria. Amandha usa a moda como meio de entender o mundo e até ela mesma, porque não? Assim como a moda, ela muda. Muda muito, e rápido.

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