Uma das principais razões para que muitos considerem a moda fútil é o fato de que ela muitas vezes se contradiz com o tempo, justo por ser tão abrangente e conter tantas possibilidades. É o que acontece ao ser lançada uma coleção e ela já estar fora de moda após alguns meses, substituída por uma nova.

É claro que o homem que veste chinelo e regata quando vai à padaria não está na moda pois não segue nenhuma tendência. Mas ele é a moda por fazer suas escolhas e expressar sua personalidade. As tendências correspondem ao olhar dos estilistas para o que está sendo predominantemente usado ou vai ser vestido nas próximas estações – quando você segue estas tendências, significa que está na moda.

Talvez seja o momento de encarar o mito de que moda é apenas o que está nas passarelas do ‘planeta fashion’. Na verdade, esta ideia de moda ser somente as evidências nas vitrines em determinado momento já não existe desde o século 19, quando as mudanças assinadas (tendências lançadas na semana de moda, assinadas por estilistas) deram lugar a uma sociedade democrática, com necessidades mais complexas e distintas das anteriores.

O século 19 foi marcado pela renovação, de certa forma já inaugurada pela Revolução Francesa, que afetou os modelos econômicos e sociais de toda a Europa, quando então as roupas passaram a ser mais acessíveis e de menor custo. Também foi o século em que o desenvolvimento da tecnologia impulsionou a construção de grandes fábricas, o desenvolvimento de máquinas a vapor e a exploração de mão de obra barata.

moda raj

Com a moda não poderia ter sido diferente. As mudanças passam a ser cada vez mais visíveis, e vão se estabelecendo em praticamente todas as camadas sociais. Só que não é mais o estilista que dita o que se deve vestir. A moda torna-se, de certa forma, sinônimo de uma busca de afirmação pessoal e da expressão de ideias e sentimentos particulares.

Não é por acaso que Paris se tornou a capital mundial da moda. Tudo o que se refere à inovação na moda começou por lá, e foi com a Revolução Francesa que se iniciaram as mudanças. A partir da Revolução, a moda começa a inspirar-se em outras áreas, como o movimento romântico, por exemplo, que pregava a independência capitalista, enfatizando a livre expressão dos sentimentos e emoções. Era uma viagem para dentro de si mesmo, que mexia e estimulava o imaginário das pessoas, e que acabou por marcar diversas mudanças no vestuário feminino.

Alguns exemplos podem ser úteis para você entender: a provocação e a exposição através de poucas roupas (tanto no sentido de menos camadas de roupas como de menor tamanho das peças) e de transparências, o que era uma novidade; a exploração de diferentes tipos de tecidos, o que instigou o interesse do consumidor e mostrou que o gosto/querer poderia ser transmitido através desses materiais; e a cintura marcada, que despertou um tipo de interesse pela silhueta.

moda século 19

Chegamos ao século 20, aquele em que encontramos as maiores mudanças e inovações no vestuário. Há quem diga que tudo o que poderia ser mudado na moda aconteceu neste século e que, a partir daí, nunca mais deixamos de sofrer as consequências dessas mudanças. Se você já ouviu falar de desfiles em que os estilistas se inspiraram nos anos 20, ou do retorno de tendências dos anos 60, é exatamente porque todas as principais mudanças no universo da moda aconteceram no século 20.

As mudanças começaram por Chanel, que trouxe elementos do vestuário masculino, como a calça e o blazer, para o guarda-roupa das mulheres, passando pelo new look de Dior, que trouxe dimensões e volumes inéditos às roupas, tornando o corpo da mulher muito sexy (e nada vulgar) e que o configura, ainda nos dias de hoje, como um marco e uma referência no mundo da moda, e a criação da  minissaia, pela ousada e revolucionária Mary Quant. E não dá para deixar de fora o Yves Saint Laurent, precursor do prêt-à-porter, que nada mais é do que as roupas já prontas para vestir que encontramos à venda em lojas.

Como se percebe, foram tantas as mudanças significativas dentro da moda que elas atravessaram  gerações e chegam ao século 21. Além dos que citei, vários outros acontecimentos influenciam o nosso modo de vestir. As roupas ganharam espectadores atentos às projeções do imaginário, de pensamentos íntimos, de valores sociais e crenças.

Infográfico de Vamos Combinar Seu Estilo, reality show de moda do canal GNT, sobre a moda no século XX.

Levando o significado da palavra moda à risca (sua origem é latina, vem de modus: “modo”, “maneira”) e analisando esta linha do tempo histórica e social, podemos ver que os sinais de mudança não aparecem apenas nas passarelas. Eles também estão nas roupas comuns. Através das roupas entendemos o comportamento, os valores e as crenças de um determinado grupo ou país. Entendemos até mesmo as características mais marcantes de um determinado período histórico – não esquecendo que é da natureza da moda ser mutável e sempre procurar novas possibilidades e tendências. Ou seja, nem toda moda se origina de movimentos políticos ou de mudanças de comportamento dentro de uma sociedade.


Para entender melhor, considere que a moda é um sistema que acompanha o vestuário e o tempo, integrando a simples escolha das roupas do dia-a-dia e associando o que parece ser uma simples escolha a um contexto maior, contexto esse que envolve coisas aparentemente tão distantes quanto questões socioecológicas, políticas e sociais. Sendo assim, pensar sobre a moda vai muito além do simples estar na moda. É possível perceber a influência da moda até no que se escolhe todos os dias de manhã para vestir. Quer ver?

moda: Dolce & Gabbana
Dolce & Gabbana

A moda está nas necessidades básicas do ser humano, como se proteger do frio. Suprir uma necessidade como esta também envolve, em geral, escolhas pessoais. A partir do momento em que se opta por uma cor, por um modelo,  já se está fazendo moda. A moda está ligada ao gosto de quem escolheu fazer uma determinada peça de roupa e ao de quem decidiu comprá-la. Por isso, a moda está em tudo aquilo que vestimos. A roupa carrega traços da personalidade e a opção por um look específico simboliza nossa individualidade. É através dele que nos apresentamos para o mundo.

Isso tudo não quer dizer que o que está sendo desfilado nas semanas de moda pelo mundo não seja moda. A questão é que não podemos esquecer da moda do gueto, dos nichos, da moda da contracultura, da moda alternativa e até da moda de protesto – são elas que, muitas vezes, inspiram o que está sendo exposto nas passarelas.

Da fashionista sempre atualizada, atenta às tendências, até a senhora que amarra um lenço na cabeça pra se proteger do sol enquanto vai a feira; do menino que usa óculos sem grau no estilo retrô pra ficar com cara de intelectual e antenado, até o executivo que não gosta mas precisa usar os óculos e os escolhe dentre os modelos mais discretos possíveis: alguns até não buscam estar na moda, mas todos são a moda.



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escrito por:

Amandha Viana

Amandha Viana estuda Negócios da Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e atua na área comercial e de produção na Ana Cury Consultoria. Amandha usa a moda como meio de entender o mundo e até ela mesma, porque não? Assim como a moda, ela muda. Muda muito, e rápido.


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