Imagem de capa do artigo traduzido de Exosphere, sobre o vírus do fracasso.

5 sinais de que você está infectado com o vírus do fracasso

Em Comportamento, Consciência por Skinner LayneComentários

Artigo ori­gi­nal­mente publi­cado em Exosphere, e tra­du­zido por Igo Araujo dos San­tos.


Nos últi­mos tem­pos, você pode ter deci­dido se jun­tar ao coro dos per­de­do­res que vene­ram o fra­casso em nome do empre­en­de­do­rismo, das star­tups, das ino­va­ções ou seja lá o que for. Se você se ver um dia dizendo “Como assim?! Achei que fra­casso era uma coisa boa no mundo das star­tups!”, então você pode ter sido infec­tado com o vírus do fra­casso.

Não sei se há uma cura, mas você pode pelo menos tra­tar os sin­to­mas.

Imagem microscópica para o artigo.

Será que parece um pou­qui­nho com você?

Deixe-me come­çar tudo isso dizendo que minha pró­pria vida foi repleta de fra­cas­sos. Tive sucesso nas coi­sas ape­nas para vê-lo se trans­for­mar em novos fra­cas­sos, e eu sei que cada vitó­ria é, poten­ci­al­mente, um passo em dire­ção a uma nova der­rota. Fui infec­tado com o vírus do fra­casso antes, e resisti em várias oca­siões aos sin­to­mas que vou des­cre­ver a seguir. Fra­cas­sar é uma parte neces­sá­ria de uma vida bem vivida, e nin­guém que um dia alcan­çou a gran­deza o fez sem gran­des fra­cas­sos. Mas não quero con­ti­nuar a falhar e não quero que você siga por esse cami­nho tam­bém.

Gran­des pes­soas não são gran­des por causa de seus fra­cas­sos – elas são gran­des por­que, even­tu­al­mente, supe­ra­ram os fra­cas­sos.

Então, como você sabe que está infec­tado com o vírus do fra­casso? Exis­tem cinco sinais:

 

1 — Você começa com a expectativa de falhar (e acha que está tudo bem…)

Bem, se eu falhar, pelo menos eu apren­de­rei alguma coisa!”

Failure (fracasso), GIF.

A pior coisa que você pode fazer ao come­çar qual­quer coisa é se dar per­mis­são para falhar antes mesmo de come­çar. Nos meus estu­dos de música, quando era mais novo, lem­bro que meu ins­tru­tor me disse repe­ti­da­mente “a maneira como você pra­tica é a maneira como você irá se apre­sen­tar”. Era um enco­ra­ja­mento não ape­nas para fazer firu­las, mas levar o treino a sério – boa pos­tura, téc­nica per­feita, não se per­mi­tir nenhum erro. Se você come­ter algum, pare, cor­rija-o, volte, repita até a per­fei­ção.

Não con­sigo me ima­gi­nar ir até meu pro­fes­sor e dizer “ouça essa nota errada que eu toquei! Ela me ensi­nou tanto!”

Não sig­ni­fica que você deva tra­tar cada novo empre­en­di­mento como uma situ­a­ção de vida ou morte – você esta­ria enten­dendo com­ple­ta­mente errado meu con­se­lho. Ao invés disso, sugiro que trate tudo que você começa ou tenta como uma forma de prá­tica para o sucesso.

Todo post de blog que você escreve é uma prá­tica para sua coluna de opi­nião no Wall Street Jour­nal. Cada linha de código é prá­tica para quando Andre­es­sen Horowitz finan­ciar sua star­tup, e, aí sim, é vida ou morte.

A dedi­ca­ção para alcan­çar a exce­lên­cia em tudo que você faz é o oposto da men­ta­li­dade do fra­casso. Claro que erros vão acon­te­cer. Claro que, de tem­pos em tem­pos, tudo vai explo­dir na sua cara. Mas não olhe para o lado bom. Não se con­forme com a falha. Para­be­nize-se por se levan­tar e con­ti­nuar.

Você não pre­cisa de per­mis­são para fra­cas­sar. Você só pre­cisa se dar per­mis­são para ten­tar outra vez. E outra e outra e outra até esque­cer o sabor que o fra­casso tem.

 

2 – Você desiste no último quilômetro da maratona

Não era pra ser dessa vez, haverá outra opor­tu­ni­dade!”

Imagem 3 do artigo: corredor sendo ultrapassado.

Essa é uma mani­fes­ta­ção espe­cial da falá­cia “a grama do vizi­nho é sem­pre mais verde”. Você pensa con­sigo mesmo que esse momento em par­ti­cu­lar não é a sua vez e que haverá mui­tas outras opor­tu­ni­da­des no futuro. Uma coisa é per­ce­ber que você pode ten­tar outra vez depois de falhar sem chance de con­ser­tar o erro; outra, com­ple­ta­mente dife­rente, é che­gar na parte mais difí­cil do tra­jeto e come­çar a pen­sar em tomar outro cami­nho.

Essa é uma ver­dade tanto em star­tups quanto em rela­ci­o­na­men­tos. Per­cebi que era incli­nado a esse tipo de pen­sa­mento quando, um dia, ana­li­sando a maneira como jogava Civi­li­za­tion (a pro­pó­sito, tenho quase cer­teza que o número de horas gas­tas jogando Civi­li­za­tion é inver­sa­mente pro­por­ci­o­nal ao sucesso). Me peguei reco­me­çando meus jogos nas pri­mei­ras fases, quando não con­se­guia pegar as van­ta­gens ini­ci­ais que tor­nam o jogo pra­ze­roso, e que se eu esti­vesse absorto até 75% da par­tida, eu parava e come­çava uma nova. Quando entendi que fazia isso incons­ci­en­te­mente com jogos de com­pu­ta­dor, sabia que pro­va­vel­mente estava fazendo com o res­tante da minha vida tam­bém.

Nós sem­pre ouvi­mos sobre as taxas de falên­cia das star­tups em está­gios ini­ci­ais. A razão para que a maior parte das star­tups fra­cas­sem é que elas têm ideias de merda sendo leva­das a diante por pes­soas de merda. Mas acho que a taxa de falên­cia mais inte­res­sante a ser estu­dada é aquela que acon­tece nos está­gios mais avan­ça­dos, no ponto entre “pra­ti­ca­mente sobre­vi­vendo” e “cres­cendo”. Aposto que acha­ría­mos boas pes­soas com boas ideias que sim­ples­mente não aguen­ta­ram esse último pedaço de sofri­mento e esfor­ços sem retorno, aque­las que, na hora mais fria antes da alvo­rada, dis­se­ram “não aguento mais!” e desis­ti­ram.

 

3 — Você corre de volta para seu porto seguro depois de falhar

Vou acei­tar um tra­ba­lho assa­la­ri­ado por enquanto e escre­ver no Medium sobre tudo que aprendi.”

Imagem 3 do artigo: rastejar sob uma rocha.

Eu vou ras­te­jar debaixo de uma rocha agora”, Você real­mente acha que essa rocha é segura?

O fra­casso real con­siste ape­nas em desis­tir. Na Exosphere nós fala­mos bas­tante a res­peito da dis­tin­ção entre jogos fini­tos e infi­ni­tos, um con­ceito cri­ado por James P. Carse. Ele define um jogo finito como um jogo cujo pro­pó­sito é ser ter­mi­nado, decla­rar ven­ce­do­res e per­de­do­res e onde ven­ce­do­res recla­mam o prê­mio. Um jogo infi­nito, por outro lado, é um jogo cujo pro­pó­sito é se esten­der; o obje­tivo é sim­ples­mente con­ti­nuar jogando.

Gos­ta­mos de enco­ra­jar pes­soas a pen­sar com cri­a­ti­vi­dade, cien­ti­fi­ca­mente, e jor­na­das empre­sa­ri­ais são mais como jogos infi­ni­tos do que fini­tos. Nos pri­mei­ros, desde que você não desista, não tem como per­der. Nos outros, com a con­di­ção de vitó­ria pré-esta­be­le­cida, você pode se pre­pa­rar para uma devas­ta­dora e des­mo­ra­li­za­dora der­rota, que o manda de volta direto para vida, onde você pode dizer “o que pode­ria ter acon­te­cido” e “se ao menos”…

Nin­guém quer ouvir isso.

Kipling, em seu famoso poema “Se”, diz:

E as coi­sas, por que deste a vida, estra­ça­lha­das,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arris­car numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E per­der e, ao per­der, sem nunca dizer nada,
Resig­nado, tor­nar ao ponto de par­tida;

Quanto mais você se aco­moda com seu o fra­casso, mais o fra­casso infec­tará a sua vida. A melhor maneira de pro­var para si mesmo e para todo mundo que você tem o que é pre­ciso para con­quis­tar seus obje­ti­vos é se levan­tar e dar o pri­meiro passo de novo, não falar incan­sa­vel­mente sobre o pas­sado.

Como alguém que pas­sou por vários fra­cas­sos no pas­sado, cons­tan­te­mente me per­gun­tam se a razão de eu não falar disso é por me sen­tir enver­go­nhado. Mas não é isso. É que aque­les fra­cas­sos acon­te­ce­ram com outra pes­soa, com uma ver­são antiga de mim mesmo, cujos pen­sa­men­tos e memó­rias eu não posso aces­sar. Eles não eram inte­res­san­tes, afi­nal. Não tenho orgu­lho deles.

Só estou con­tente de estar aqui para ten­tar de novo e isso importa mais do que tudo que acon­te­ceu no pas­sado.

 

4 – Sua tolerância ao fracasso é extremamente baixa

Teve essa vez em que fiquei sem Star­bucks por dois dias intei­ros!”

Imagem 4 do texto: homem branco atirado no chão, falando sobre dor.

Eu acho que é com isso que a dor se parece…” Você sequer sabe como a dor real­mente é…

Como estu­dante de his­tó­ria, li sobre guerra, polí­tica, reli­gião, movi­men­tos, tec­no­lo­gia, ciên­cia, filo­so­fia e explo­ra­ção. E fiquei mara­vi­lhado com a exten­são de difi­cul­da­des que gran­des pes­soas tive­ram que enfren­tar para alcan­çar o que elas pre­ten­diam. Fome, colap­sos físi­cos e men­tais, calor extremo, frio extremo, risco de pri­são e exe­cu­ção, tor­tura, aban­dono da famí­lia e ami­gos, ostra­cismo.

Só con­sigo pen­sar que huma­nos con­tem­po­râ­neos são fra­cos, pre­gui­ço­sos e facil­mente impres­si­o­na­dos pelo sofri­mento. O nar­ci­sismo da minha gera­ção faz tanto drama sobre as difi­cul­da­des que faria a gera­ção pas­sada gar­ga­lhar. Eles nem sabe­riam o porquê de tanto drama.

Nós temos sorte de viver numa época em que temos tanto con­forto por tão pouco. Isso sig­ni­fica que deve­ría­mos ser capa­zes de per­se­ve­rar mais ainda e con­quis­tar fei­tos ainda mais impres­si­o­nan­tes, mas temo que acon­teça o con­trá­rio. Con­cordo com Ralph Waldo Emer­son, quando diz em seu artigo:

As fibras e o cora­ção do homem pare­cem ter sido remo­vi­das e nós nos tor­na­mos teme­ro­sos, cho­rando copi­o­sa­mente. Teme­mos a ver­dade, teme­mos a sorte, teme­mos a morte e teme­mos uns aos outros.”

De fato, acho que nosso vício na por­no­gra­fia do fra­casso no mundo das star­tups é uma maneira de nos enga­nar­mos e nos ver­mos como des­te­mi­dos. “Olhe quão valen­te­mente eu falhei!” Como se essa ati­tude paté­tica mere­cesse cré­dito.

Emer­son con­ti­nua a acu­sa­ção que, sem dúvi­das, é tão ver­da­deira hoje quanto foi em seu tempo.

Nossa era não ostenta pes­soas gran­des nem per­fei­tas. Nós que­re­mos homens e mulhe­res que reno­vem nos­sas vidas e nosso estado social, mas nós vemos que a maior parte das per­so­na­li­da­des não tem cré­dito sufi­ci­ente, não pode satis­fa­zer os pró­prios dese­jos, tem uma ambi­ção des­me­dida em com­pa­ra­ção às pró­prias for­ças, e se encosta e men­diga dia e noite, con­ti­nu­a­mente… Nós evi­ta­mos a bata­lha con­tra o des­tino, onde a força nasce.”

 

5 — Você sofre por motivo nenhum, só para se gabar depois

Vivi sem aque­ce­dor por dois anos para eco­no­mi­zar dinheiro.”

Imagem 5 do texto: homem branco, cabelo longo e de barba, falando sobre embaraçamento.

Agora você está ape­nas atra­pa­lhando a si mesmo”

Nenhum sofri­mento é igual ao outro. A chave para enten­der se você terá sucesso no seu empre­en­di­mento é exa­mi­nar quais sofri­men­tos você pode supor­tar. Sofri­mento legí­timo, ou seja, o sofri­mento neces­sá­rio à reso­lu­ção de um pro­blema, é mui­tas vezes evi­tado por pes­soas que sofrem muito. É que se sofre pelas coi­sas erra­das. Você subs­ti­tui o sofri­mento legí­timo de ser rejei­tado por 100 cli­en­tes pelo sofri­mento ile­gí­timo de ter que rea­jus­tar suas expec­ta­ti­vas sobre tempo e tra­je­tó­ria do seu sucesso.

Pense como um exer­cí­cio para evi­tar obe­si­dade, dia­be­tes, cân­cer e doen­ças do cora­ção. Exer­cí­cio é um mar­tí­rio para a mai­o­ria de nós, mas é um sofri­mento melhor do que dia­be­tes, certo? Comece a pen­sar nos pro­ble­mas da sua star­tup ou outros aspec­tos da sua vida da mesma forma. Que exer­cí­cio você pre­cisa fazer hoje para pre­ve­nir dia­be­tes em duas sema­nas?

Per­sis­tên­cia é uma vir­tude que depende do que é supor­tado, e o momento em que você começa a se dar muito cré­dito por sofri­mento des­ne­ces­sá­rio é o momento em que você para de pro­cu­rar as cau­sas do sofri­mento. É uma estrada escura que leva a um pur­ga­tó­rio ini­ma­gi­ná­vel, que se trans­forma num cor­re­dor mís­tico, cheio de por­tas que não levam de volta ao começo do cor­re­dor. Você se esque­cerá um dia de como foi parar lá e não vai ter ideia de como sair. E nesse ponto sua única sal­va­ção será uma catás­trofe que o cha­co­a­lhe e o arran­que de sua misé­ria com­pla­cente.

Tendo eu mesmo pas­sado por essa expe­ri­ên­cia, eu tenho cala­frios só de pen­sar em revi­ver tudo outra vez enquanto escrevo esse texto. Não passe por isso. Não vale a pena, e é pos­sí­vel evi­tar.

Bru­tus diz em “Júlio César”, de Sha­kes­pe­are:

Existe uma maré nos assun­tos dos homens.
Que, toma­das com o dilú­vio, leva à for­tuna;
Omi­tido, toda a via­gem de sua vida
É ligada nos bai­xios e misé­rias.
Em um mar tão cheio esta­mos agora flu­tu­ando,
E deve­mos pegar a cor­rente quando ela atende,
Ou per­der nos­sas aven­tu­ras.

Acho que é, de certa forma, sem­pre ver­dade a qual­quer momento da minha vida e dos meus pro­je­tos – E, depois do fato, per­ce­ber que eu ainda tenho outra chance. Posso ter outras cen­te­nas de chan­ces. Mas posso não ter.

Então, é melhor eu fazer essa vez valer a pena. E a pró­xima e a pró­xima e a pró­xima tam­bém.

Todas elas valem a pena.


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Skinner Layne
Skinner tem vivido na América Latina desde 2008 e é o fundador da Exosphere. Ele acredita que a filosofia é muito mais do que o pensamento teórico e que a sua abordagem prática lhe permitirá compreender o mundo de uma maneira nova, o incentivando a moldá-lo para melhor.

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