Quais as virtudes de um educador? De quais características básicas o docente deve munir-se para o ato de educar? Embora seja um assunto extenso, gostaria de apontar algumas notas sobre o tema, longe de tentar esgotar o tema.

Ao refletirmos sobre outras áreas, sempre percebemos com maior clareza os atributos básicos para o desempenho da atividade. Por exemplo, um médico: em termos gerais, deve possuir a conduta de salvar o paciente, tal como se coloca no juramento hipocrático. Já um advogado deve se pautar pela Justiça, guiado pelos códigos presentes em seus livros de referência. Embora outras virtudes se mostrem necessárias para as supracitadas profissões, podemos determinar sem muitas dificuldades o “atributo básico”.

Mas e o educador?

O educador é o agente da educação, ou seja, o sujeito que terá como objetivo o ensino de determinados conhecimentos. Um ponto importante é notarmos que essa explicação não vincula tal sujeito a escola, pois podemos constatar que a escola é somente uma de diversas estruturas presentes na ação educativa.

De forma geral, a educação pode ocorrer em qualquer espaço, seja informal (como nas ruas, mediado pela convivência) ou formal (a escola). Ao alargarmos a compreensão do educador, percebemos os motivos pelos quais ele transcende uma estrutura fixa, um prédio, uma escola. Podemos até nos questionar, por exemplo, se todo professor (pensando nesse como vinculado a uma escola) seria um educador – embora não seja nosso intuito obter essa resposta neste texto, espero que o leitor se ponha a pensar nessa pergunta.

Uma das mais importantes observações é que o educador se faz na relação entre educandos. Tal como a dialética citada por vários filósofos, o educador necessita de outro ser para existir.

Isso abre uma série de novas perspectivas. Afinal, enquanto o educador só o é perante um educando ao ensinar determinado conteúdo, o educando só o é perante um educador ao aprender. Novamente temos de apontar a falta de rigidez dessa estrutura, pois um educador se torna educando quando aprende, e o educando se torna educador quando ensina.

[pullquote cite=”Danilo Svagera” type=”left”]O educador ensinará aquilo que é, e não somente aquilo que fala.[/pullquote]

Em uma sala de aula, por exemplo, o educador perceberá que, em diversos momentos, o estudante sabe mais conteúdos que ele. Sejam conteúdos ditos escolarizados ou não, o aluno carrega consigo uma gama de experiências. Cito aqui um exemplo acontecido em determinado momento em minha aula: ao ensinar fatos acerca da Capela Sistina, um estudante levantou-se e pediu para falar das diversas visitas que fez à capela no tempo em que morava na Europa. Naquele momento, o educando se transformou em educador – e eu, um mero leitor de livros acerca da dita Capela, me tornei um educando.

Isso nos leva a seguinte afirmação: não podemos almejar a centralidade do processo educativo na escola, portanto. Em primeiro porque a educação é uma troca de vivências e, mesmo que o professor possua um estudo mais aprofundado em determinadas áreas, ele nunca possuirá o conhecimento em sua completude. Segundo porque, ao limitar o diálogo com o educando, estaremos negando uma básica estrutura da aprendizagem: ela só existe através da troca.

Como podemos perceber, nosso texto se baseia muito nos conhecimentos explícitos no ato educativo. Mas o leitor atento perceberá que, para além de conteúdos escolares, também estamos falando das atitudes.

A escola possui uma função crucial no que diz respeito ao desenvolvimento dos valores, haja visto que é o primeiro lugar no qual o ser humano estará diante realidades que transcendem a família, bairro e relações próximas. Nesse sentido, o educador-professor possui um papel de extrema importância, já que auxilia o estudante na inserção de modo reflexivo na sociedade. Ou deveria. Os demais funcionários da escola, de forma análoga, também são cruciais nesse campo, pois terão contato com o aluno dentro da instituição.

Discutir quais são as virtudes do educador, como vimos, perpassa uma série de reflexões – desde quem é o educador, quem o educa, para que educa. Como não buscamos esgotar o assunto, listo aqui uma pequena série de atributos que, seja pelas supracitadas palavras ou não, podemos já intuir:

  1. Educar pressupõe abertura – Pressupõe perceber-se como um ser que, embora possua certos conhecimentos, está longe de deter o saber. O educando também o possui e, sendo assim, também educa.
  2. Educar se relaciona com o passado – O educador possui um passado. Quanto mais esse perceber sua trajetória, mais fácil ficará compreender o educando. As dificuldades implícitas na aprendizagem, embora de diversas áreas, são democráticas e todos nós já tivemos. E ainda temos.
  3. Educar é estar aberto ao futuro – Aceitemos: a maioria de nós, educadores, nascemos na segunda metade do século XX. Nossos educandos, quase em totalidade, no século XXI. E a escola? Bem, a maioria segue os rígidos modelos do século XIX. Esse choque geracional faz com que tenhamos conflitos extremos, pois acreditamos na importância daquilo que temos a ensinar (e é!) mas, do outro lado, o jovem conhece a importância do que vive – e são conhecimentos tão distantes! O educador que não se abre ao futuro estará fadado a não atingir o educando; e pior: estará condenando o jovem a não compreender o próprio mundo/tempo. E, assim, a escola se torna algo afastado do real. Mas não deveria ser a escola, como dizem alguns pensadores, a própria realidade ou imagem do real?
  4. Educar pressupõe ouvir – Todos nós já nos queixamos do processo educativo quando éramos mais jovens. Com efeito, não é exclusivo da nossa época. Portanto, o aluno também se queixa – da escola, da casa, das relações sociais. Quando nós os escutamos, adquirimos a confiança necessária para a ajuda e, sobretudo, para a empatia. Isso porque…
  5. Educar exige maturidade – O educador ensinará aquilo que é, e não somente aquilo que fala. É importante ressaltarmos esse fato, visto que se faz necessário nos percebermos como maduros e que estará diante, muitas vezes, jovens que estão em processo. Isso significa que, antes de rebaixarmos o outro, temos de compreender o outro como seres lapidáveis. Pois, assim, perceberemos que também fomos e seremos.

Obrigado por acompanhar essas reflexões iniciais! Espero ter dado o start para que possamos re-aprender e re-pensar o que significa e quão importante é a tarefa de educar.
E você, quais virtudes considera essenciais na boa prática do educar? Até o próximo texto e adicione-me no Facebook para trocas educativas!

Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação – ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: “ser e não estar professor”.
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