A filosofia não visa a assegurar qualquer coisa externa ao homem.
Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto.
Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira,
e o do estatuário é o bronze,
a matéria-prima da arte de viver
é a própria vida de cada pessoa.

Epiteto

Vivemos num mundo regado pela euforia, agitação, falta de compromisso generalizada e desatenção. Não haveria nada de errado em se comportar dessa maneira, se não fossem estimulados como os modos corretos de ser. Não falo das pessoas com algum diagnóstico clínico como o de déficit de atenção, mas das que assim agem por estarem mal acostumadas. E, nesse último caso, o diagnóstico da normalidade é grave: estamos perdendo diversas faculdades humanas fundamentais, tais como serenidade, auto-análise e comedimento. Estamos ficando cada vez mais superficiais, afoitos por trivialidades e reféns do desejo. Contudo, podemos encontrar refúgio e orientação na vida de sábios que viveram há séculos.

Não é possível afirmar que aquelas capacidades salutares foram sempre cultivadas, mas certamente nunca vivemos num cotidiano tão rico em estímulos que fazem a atenção flutuar. A tecnologia tem muito a contribuir com isso, apesar de não ser a única culpada, pois tudo depende do modo como decidimos usá-la. E, inserido nesse panorama, vem também a concepção de que seria benéfico saciarmos todos os nossos desejos, termos todos os prazeres sensoriais possíveis. Afinal, por que não? O hedonismo virou um valor defendido com unhas e dentes.

Por outro lado, o Oriente sempre teve uma cultura rica em estratégias que promovem contemplação, serenidade, bom senso e domínio das emoções e dos prazeres sensoriais. Vemos isso tanto na milenar tradição dos iogues indianos, ascetas dedicados, até na tradição budista que hoje permeia diversos países do médio ao extremo Oriente. O Budismo trazia uma doutrina menos mortificadora que a dos ascetas, mas trazia também o forte componente de domínio e treinamento da mente e das emoções.

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A loucura das múltiplas abas.

Não se deve confundir, porém, esse domínio com repressão de sentimentos e tendências naturais, mesmo as destrutivas. Assim como no princípio taoísta do Wu Wei (harmonia), no budismo os praticantes deveriam se esforçar para observar as emoções quando surgem, estando cada vez mais conscientes delas. Isso proporcionaria não um bloqueio, mas um entendimento profundo, que, por consequência, forneceria condições para contemplá-las, observá-las fora de nosso modus operandi default condicionado, automático e pouco presente.

Contudo, o Ocidente é menosprezado nesse sentido, como se não tivessem existido, por aqui, pensadores igualmente prodigiosos no conhecimento de si. Outra tradição, quase tão antiga quanto as citadas anteriormente, é a do Estoicismo. Essa escola de filosofia surgiu por volta do século III a.C. e teve um dos seus maiores representantes no século III d.C, na figura do Imperador filósofo Marco Aurélio. Em suma, com influências da escola cínica e até de Sócrates, os estóicos afirmavam que deveríamos permanecer serenos frente às perturbações da vida, tais como dor física e subjetiva. Seus adeptos eram marcados pela constante auto-análise, a fim de estarem sempre em condições de utilizar a razão, acima de tudo. Nesse sentido, um programa semelhante ao do Budismo e Taoísmo era empregado no tratamento das emoções.

 Assim, falar de Marco Aurélio era falar do estoicismo. O Imperador filósofo passou a vida escrevendo num diário a respeito de seus princípios e aprendizados, o que mais tarde foi transformado num livro, o Meditações.

[Fui ensinado] a ser comedido nos meus desejos, a tratar das minhas próprias necessidades, a meter-me na minha vida, e a nunca dar ouvidos à má-língua.

Também deveria ser rigoroso nas minhas leituras, não me contentando com as meras ideias gerais do seu significado; e não me deixar convencer facilmente por pessoas de palavra fácil.

Esses são alguns trechos do diário. Marco Aurélio exorta-nos a sermos cautelosos com nossos desejos. É preciso saber o que se deseja, pois a expectativa de realizá-los gera sofrimento, uma vez que os desejos nunca cessam e, portanto, podemos passar a vida sendo seus reféns. Portanto, é bom que desejemos apenas aquilo que podemos ter. E reconhecer isso com humildade exige sabedoria. Tal conselho serviria tanto para o desejo referente a bens quanto a prazeres sensoriais. Devemos ser comedidos em relação a eles. O objetivo, além de viver bem durante a única vida que o homem possui, seria conquistar uma morte tranquila.

(…) aprendi a não me deixar absorver por atividades triviais.

Esse caminho pode ser entendido como um tanto radical. De fato, o estoicismo é considerado uma espécie de extremo da eudaemonia, princípio filosófico segundo o qual a felicidade não é correspondente à quantidade de prazer que temos, mas sim à nossa capacidade de observar um caminho que, quando seguido, nos conduziria à chamada boa vida. Existem divergências com relação ao conceito de boa vida, sendo a escola dos estóicos aquela que estabeleceu a concepção mais contrária ao modo automático de funcionamento da mente, assim como o Budismo. Entretanto, o Budismo possui toda uma gama de técnicas meditativas eficazes para modificar esses automatismos. Os estóicos não desenvolveram nada desse tipo, ficando quase sempre somente no campo dos discursos.

Mas, ainda que estes filósofos fossem exigentes demais, Marco Aurélio pareceu ter tido uma boa vida, ou ao menos uma vida que alguém de sua escola entendesse como boa. Desse modo, é como se o Estoicismo fosse uma via árdua quando iniciada, mas, uma vez que estejamos familiarizados com suas diretrizes, resultasse num fosse surgindo um importante senso de liberdade. Passamos a entender a vida Passa-se a entender o viver como não condicionada à incessante realização de desejos.

E a serenidade proposta como parte e resultado dessa escola filosófica é parte de um entendimento maior, o de que a vida boa requer a aceitação da inevitabilidade do sofrimento e, principalmente, da morte. Assim, podemos falar, também, de um caminho do meio, na medida em que não praguejamosnem se revolta contra o sofrimento, mas o entendemos como parte inerente a uma vida mortal; nem, por outro lado, é negada sua existência. Todos esses processos nos liberam para uma vida temporalmente limitada, fazendo-nos saborear, de fato, o que temos. Torna-se, simplesmente, um ato de sabedoria nos abstermos um pouco das trivialidades em nome de tudo que realmente importa, em nome daquilo que tem papel relevante em nossa felicidade.

[Aprendi que] meu caráter precisava de treino e cuidados.

Todos esses lemas podem nos levar a desistir dessa estrada, a considerá-la impossível, devido a sua rigidez e seriedade. O filósofo romano não adentrou por esse caminho sem luta e treino. E é exatamente disso que as pessoas mais fogem. Engraçado como muitas têm uma disposição incrível para trabalhar, ganhar dinheiro – mas, quando se trata de trabalhar a si mesmas, mostram-se relapsas. É preferível simplesmente ceder aos impulsos, embarcar no turbilhão de pensamentos diários, agir sem sabedoria, dar vazão às emoções.

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Não me refiro a situações mais drásticas, apesar de cotidianas, como um acesso de raiva. Nas atividades mais sutis, a distância de nosso comportamento para o de Marco Auréliogrita. A tecnologia, longe de ser sozinha o vilão, propiciou o cenário perfeito para que nossas mentes desatentas pudessem ficar a vontade com seu funcionamento ruminante nem sempre pertinente. Estamos quase permanentemente ausentes de nós mesmos, descentrados, e mesmo assim, inseridos num mundo que opera a base de multi-estímulos anestesiantes, achamos que está tudo certo.

Basta observarmos a nós mesmos, por apenas um único dia, acessando a internet. Ao abrirmos o navegador, vamos quase convulsivamente clicando em todos os links que aparecem, talvez até sem perceber. No trabalho, é uma constante ver colegas com mais de 10 abas abertas ao mesmo tempo. Muito do que está aberto ali será abandonado sem nem ser lido, e muito do que foi lido é trivial demais para que percamos nosso tempo. Talvez os vídeos bizarros da internet, hoje, façam as vezes da advertência que o filósofo imperador fez sobre as brigas de galo. Afinal, diariamente temos a oportunidade sedutora de ocupar nosso tempo vendo desde gatinhos fofos fazendo fofices até brigas horrendas e homicídios gravados por câmeras amadoras.

A análise de como vivenciamos os desejos é o que talvez salte mais aos olhos, em especial, em relação aos sexuais. Esbanjamos desejos sensuais por todos os poros. Isso talvez se deva à recente tentativa de maior liberdade sexual. Certamente, trata-se de um ganho enorme para a sociedade, mas às vezes coisas benéficas são entendidas de uma forma confusamente excessiva. Essa liberdade tão defendida não pode vir sozinha, sem um conjunto de concepções e atitudes que tornem a atividade sexual o mais conscienciosa possível. Caso contráriosignifica que vamos, meramente seguiremos impulsos e desejos irresistíveis todo o tempo. Não podemos esquecer que o desejo sexual é um desejo como qualquer outro, e tem o poder de nos tirar do prumo se não soubermos como lidar com ele.

Em suma, não existe diferença entre estar eufórico por causa de estímulos alucinantes de várias abas abertas em seu navegador, e agitado por uma conduta sexual pouco consciente (o que não tem a ver com assumir uma postura casta ou celibatária, por favor). É evidente, por outro lado, que a sexualidade possui um caráter muito mais orgânico do que o manejo de um navegador no computador. Por isso, também é claro que o controle do primeiro pode ser mais complicado que o do segundo. Essa é uma diferença fundamental entre ambos, que, por sua vez, não deve anular o fato de que são, no fundo, desejos. Além disso, imagino que um estóico falasse apenas de moderação e consciência, não de votos de castidade ou de abstinência digital.

Para além da internet, e antes mesmo de sua popularização, lembro de um episódio ocorrido no Ensino Fundamental. Em determinada época, o professor de Educação Física ficou doente. Então, os alunos ou tinham aula com algum substituto ou ficavam na quadra jogando futebol. Nesse segundo caso, algo impressionante acontecia. Todos, ao entrarem na quadra, saiam correndo como uma manada de gnus, e um deles soltava a bola na quadra. Os vinte e poucos meninos corriam desordenadamente, cada um por si, cada um querendo roubar a bola do outro. Eu sempre me perguntava se não seria mais fácil e divertido para todos se duas pessoas formassem times rapidamente e a partida pudesse se desenrolar decentemente, como mandam as regras do esporte.

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Essa história serve para ilustrar como levamos para a vida adulta uma postura impulsiva que guarda certa imaturidade infantil. Afinal, crianças ainda não tiveram tempo suficiente para treinar seu autocontrole; mas se espera que um adulto tenha vivido suficientemente para desenvolvê-lo. E assim como acreditávamos que jogar daquela forma alvoroçada era melhor que parar, pensar e organizar a coisa, quando alguns crescem, continuam tendo esse mesmo pensamento. “Por que eu devo ser tão organizado para estudar para a prova? Eu posso muito bem ir estudando quando der, em cima da hora a gente vê no que dá.”

A contemplação, a auto-observação e auto-análise devem ser cultivadas a todo o tempo, mas não sob um matiz paranoico. Marco Aurélio parecia ser um sujeito extremamente sensato e consciente de si mesmo (e também da coletividade, já que era adorado pelo seu povo, como Imperador de Roma), mas de forma alguma era obsessivo. Sua serenidade era lendária. Mas, provavelmente, também existiam momentos de deslizes provocados por emoções fortes. Contudo, o importante era tirar uma lição disso e exercitar seu caráter.

No fundo, toda a pratica de Marco Aurélio em sua vida cotidiana era parte da definição que guardava a própria Filosofia, conforme vemos na citação inicial de Epiteto. Isto é, trabalhar concepções, preconceitos e comportamentos a fim de cultivarmos condições necessárias para não só criar um mundo cheio de possibilidades, com tecnologia e liberdade, mas também de poder fazer as melhores escolhas num contexto cheio de opções. Precisamos, mais do que nunca,  andar mais devagar e analiticamente, pois vivemos em tempos cada vez mais rápidos, efêmeros e irreflexivos.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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