virtude estoica

A virtude estóica da moderação e domínio de si

Em Consciência, Filosofia, Série Estoicismo por Felipe NovaesComentários

A filo­so­fia não visa a asse­gu­rar qual­quer coisa externa ao homem.
Isso seria admi­tir algo que está além de seu pró­prio objeto.
Pois assim como o mate­rial do car­pin­teiro é a madeira,
e o do esta­tuá­rio é o bronze,
a maté­ria-prima da arte de viver
é a pró­pria vida de cada pes­soa.

Epi­teto

Vive­mos num mundo regado pela eufo­ria, agi­ta­ção, falta de com­pro­misso gene­ra­li­zada e desa­ten­ção. Não have­ria nada de errado em se com­por­tar dessa maneira, se não fos­sem esti­mu­la­dos como os modos cor­re­tos de ser. Não falo das pes­soas com algum diag­nós­tico clí­nico como o de défi­cit de aten­ção, mas das que assim agem por esta­rem mal acos­tu­ma­das. E, nesse último caso, o diag­nós­tico da nor­ma­li­dade é grave: esta­mos per­dendo diver­sas facul­da­des huma­nas fun­da­men­tais, tais como sere­ni­dade, auto-aná­lise e come­di­mento. Esta­mos ficando cada vez mais super­fi­ci­ais, afoi­tos por tri­vi­a­li­da­des e reféns do desejo. Con­tudo, pode­mos encon­trar refú­gio e ori­en­ta­ção na vida de sábios que vive­ram há sécu­los.

Não é pos­sí­vel afir­mar que aque­las capa­ci­da­des salu­ta­res foram sem­pre cul­ti­va­das, mas cer­ta­mente nunca vive­mos num coti­di­ano tão rico em estí­mu­los que fazem a aten­ção flu­tuar. A tec­no­lo­gia tem muito a con­tri­buir com isso, ape­sar de não ser a única cul­pada, pois tudo depende do modo como deci­di­mos usá-la. E, inse­rido nesse pano­rama, vem tam­bém a con­cep­ção de que seria bené­fico saci­ar­mos todos os nos­sos dese­jos, ter­mos todos os pra­ze­res sen­so­ri­ais pos­sí­veis. Afi­nal, por que não? O hedo­nismo virou um valor defen­dido com unhas e den­tes.

Por outro lado, o Ori­ente sem­pre teve uma cul­tura rica em estra­té­gias que pro­mo­vem con­tem­pla­ção, sere­ni­dade, bom senso e domí­nio das emo­ções e dos pra­ze­res sen­so­ri­ais. Vemos isso tanto na mile­nar tra­di­ção dos iogues indi­a­nos, asce­tas dedi­ca­dos, até na tra­di­ção budista que hoje per­meia diver­sos paí­ses do médio ao extremo Ori­ente. O Budismo tra­zia uma dou­trina menos mor­ti­fi­ca­dora que a dos asce­tas, mas tra­zia tam­bém o forte com­po­nente de domí­nio e trei­na­mento da mente e das emo­ções.

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A lou­cura das múl­ti­plas abas.

Não se deve con­fun­dir, porém, esse domí­nio com repres­são de sen­ti­men­tos e ten­dên­cias natu­rais, mesmo as des­tru­ti­vas. Assim como no prin­cí­pio taoísta do Wu Wei (har­mo­nia), no budismo os pra­ti­can­tes deve­riam se esfor­çar para obser­var as emo­ções quando sur­gem, estando cada vez mais cons­ci­en­tes delas. Isso pro­por­ci­o­na­ria não um blo­queio, mas um enten­di­mento pro­fundo, que, por con­sequên­cia, for­ne­ce­ria con­di­ções para con­tem­plá-las, observá-las fora de nosso modus ope­randi default con­di­ci­o­nado, auto­má­tico e pouco pre­sente.

Con­tudo, o Oci­dente é menos­pre­zado nesse sen­tido, como se não tives­sem exis­tido, por aqui, pen­sa­do­res igual­mente pro­di­gi­o­sos no conhe­ci­mento de si. Outra tra­di­ção, quase tão antiga quanto as cita­das ante­ri­or­mente, é a do Estoi­cismo. Essa escola de filo­so­fia sur­giu por volta do século III a.C. e teve um dos seus mai­o­res repre­sen­tan­tes no século III d.C, na figura do Impe­ra­dor filó­sofo Marco Auré­lio. Em suma, com influên­cias da escola cínica e até de Sócra­tes, os estói­cos afir­ma­vam que deve­ría­mos per­ma­ne­cer sere­nos frente às per­tur­ba­ções da vida, tais como dor física e sub­je­tiva. Seus adep­tos eram mar­ca­dos pela cons­tante auto-aná­lise, a fim de esta­rem sem­pre em con­di­ções de uti­li­zar a razão, acima de tudo. Nesse sen­tido, um pro­grama seme­lhante ao do Budismo e Taoísmo era empre­gado no tra­ta­mento das emo­ções.

 Assim, falar de Marco Auré­lio era falar do estoi­cismo. O Impe­ra­dor filó­sofo pas­sou a vida escre­vendo num diá­rio a res­peito de seus prin­cí­pios e apren­di­za­dos, o que mais tarde foi trans­for­mado num livro, o Medi­ta­ções.

[Fui ensi­nado] a ser come­dido nos meus dese­jos, a tra­tar das minhas pró­prias neces­si­da­des, a meter-me na minha vida, e a nunca dar ouvi­dos à má-lín­gua.

Tam­bém deve­ria ser rigo­roso nas minhas lei­tu­ras, não me con­ten­tando com as meras ideias gerais do seu sig­ni­fi­cado; e não me dei­xar con­ven­cer facil­mente por pes­soas de pala­vra fácil.

Esses são alguns tre­chos do diá­rio. Marco Auré­lio exorta-nos a ser­mos cau­te­lo­sos com nos­sos dese­jos. É pre­ciso saber o que se deseja, pois a expec­ta­tiva de rea­lizá-los gera sofri­mento, uma vez que os dese­jos nunca ces­sam e, por­tanto, pode­mos pas­sar a vida sendo seus reféns. Por­tanto, é bom que dese­je­mos ape­nas aquilo que pode­mos ter. E reco­nhe­cer isso com humil­dade exige sabe­do­ria. Tal con­se­lho ser­vi­ria tanto para o desejo refe­rente a bens quanto a pra­ze­res sen­so­ri­ais. Deve­mos ser come­di­dos em rela­ção a eles. O obje­tivo, além de viver bem durante a única vida que o homem pos­sui, seria con­quis­tar uma morte tran­quila.

(…) aprendi a não me dei­xar absor­ver por ati­vi­da­des tri­vi­ais.

Esse cami­nho pode ser enten­dido como um tanto radi­cal. De fato, o estoi­cismo é con­si­de­rado uma espé­cie de extremo da euda­e­mo­nia, prin­cí­pio filo­só­fico segundo o qual a feli­ci­dade não é cor­res­pon­dente à quan­ti­dade de pra­zer que temos, mas sim à nossa capa­ci­dade de obser­var um cami­nho que, quando seguido, nos con­du­zi­ria à cha­mada boa vida. Exis­tem diver­gên­cias com rela­ção ao con­ceito de boa vida, sendo a escola dos estói­cos aquela que esta­be­le­ceu a con­cep­ção mais con­trá­ria ao modo auto­má­tico de fun­ci­o­na­mento da mente, assim como o Budismo. Entre­tanto, o Budismo pos­sui toda uma gama de téc­ni­cas medi­ta­ti­vas efi­ca­zes para modi­fi­car esses auto­ma­tis­mos. Os estói­cos não desen­vol­ve­ram nada desse tipo, ficando quase sem­pre somente no campo dos dis­cur­sos.

Mas, ainda que estes filó­so­fos fos­sem exi­gen­tes demais, Marco Auré­lio pare­ceu ter tido uma boa vida, ou ao menos uma vida que alguém de sua escola enten­desse como boa. Desse modo, é como se o Estoi­cismo fosse uma via árdua quando ini­ci­ada, mas, uma vez que este­ja­mos fami­li­a­ri­za­dos com suas dire­tri­zes, resul­tasse num fosse sur­gindo um impor­tante senso de liber­dade. Pas­sa­mos a enten­der a vida Passa-se a enten­der o viver como não con­di­ci­o­nada à inces­sante rea­li­za­ção de dese­jos.

E a sere­ni­dade pro­posta como parte e resul­tado dessa escola filo­só­fica é parte de um enten­di­mento maior, o de que a vida boa requer a acei­ta­ção da ine­vi­ta­bi­li­dade do sofri­mento e, prin­ci­pal­mente, da morte. Assim, pode­mos falar, tam­bém, de um cami­nho do meio, na medida em que não pra­gue­ja­mos­nem se revolta con­tra o sofri­mento, mas o enten­de­mos como parte ine­rente a uma vida mor­tal; nem, por outro lado, é negada sua exis­tên­cia. Todos esses pro­ces­sos nos libe­ram para uma vida tem­po­ral­mente limi­tada, fazendo-nos sabo­rear, de fato, o que temos. Torna-se, sim­ples­mente, um ato de sabe­do­ria nos abs­ter­mos um pouco das tri­vi­a­li­da­des em nome de tudo que real­mente importa, em nome daquilo que tem papel rele­vante em nossa feli­ci­dade.

[Aprendi que] meu cará­ter pre­ci­sava de treino e cui­da­dos.

Todos esses lemas podem nos levar a desis­tir dessa estrada, a con­si­derá-la impos­sí­vel, devido a sua rigi­dez e seri­e­dade. O filó­sofo romano não aden­trou por esse cami­nho sem luta e treino. E é exa­ta­mente disso que as pes­soas mais fogem. Engra­çado como mui­tas têm uma dis­po­si­ção incrí­vel para tra­ba­lhar, ganhar dinheiro — mas, quando se trata de tra­ba­lhar a si mes­mas, mos­tram-se relap­sas. É pre­fe­rí­vel sim­ples­mente ceder aos impul­sos, embar­car no tur­bi­lhão de pen­sa­men­tos diá­rios, agir sem sabe­do­ria, dar vazão às emo­ções.

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Não me refiro a situ­a­ções mais drás­ti­cas, ape­sar de coti­di­a­nas, como um acesso de raiva. Nas ati­vi­da­des mais sutis, a dis­tân­cia de nosso com­por­ta­mento para o de Marco Auré­li­o­grita. A tec­no­lo­gia, longe de ser sozi­nha o vilão, pro­pi­ciou o cená­rio per­feito para que nos­sas men­tes desa­ten­tas pudes­sem ficar a von­tade com seu fun­ci­o­na­mento rumi­nante nem sem­pre per­ti­nente. Esta­mos quase per­ma­nen­te­mente ausen­tes de nós mes­mos, des­cen­tra­dos, e mesmo assim, inse­ri­dos num mundo que opera a base de multi-estí­mu­los anes­te­si­an­tes, acha­mos que está tudo certo.

Basta obser­var­mos a nós mes­mos, por ape­nas um único dia, aces­sando a inter­net. Ao abrir­mos o nave­ga­dor, vamos quase con­vul­si­va­mente cli­cando em todos os links que apa­re­cem, tal­vez até sem per­ce­ber. No tra­ba­lho, é uma cons­tante ver cole­gas com mais de 10 abas aber­tas ao mesmo tempo. Muito do que está aberto ali será aban­do­nado sem nem ser lido, e muito do que foi lido é tri­vial demais para que per­ca­mos nosso tempo. Tal­vez os vídeos bizar­ros da inter­net, hoje, façam as vezes da adver­tên­cia que o filó­sofo impe­ra­dor fez sobre as bri­gas de galo. Afi­nal, dia­ri­a­mente temos a opor­tu­ni­dade sedu­tora de ocu­par nosso tempo vendo desde gati­nhos fofos fazendo fofi­ces até bri­gas hor­ren­das e homi­cí­dios gra­va­dos por câme­ras ama­do­ras.

A aná­lise de como viven­ci­a­mos os dese­jos é o que tal­vez salte mais aos olhos, em espe­cial, em rela­ção aos sexu­ais. Esban­ja­mos dese­jos sen­su­ais por todos os poros. Isso tal­vez se deva à recente ten­ta­tiva de maior liber­dade sexual. Cer­ta­mente, trata-se de um ganho enorme para a soci­e­dade, mas às vezes coi­sas bené­fi­cas são enten­di­das de uma forma con­fu­sa­mente exces­siva. Essa liber­dade tão defen­dida não pode vir sozi­nha, sem um con­junto de con­cep­ções e ati­tu­des que tor­nem a ati­vi­dade sexual o mais cons­ci­en­ci­osa pos­sí­vel. Caso con­trá­ri­o­sig­ni­fica que vamos, mera­mente segui­re­mos impul­sos e dese­jos irre­sis­tí­veis todo o tempo. Não pode­mos esque­cer que o desejo sexual é um desejo como qual­quer outro, e tem o poder de nos tirar do prumo se não sou­ber­mos como lidar com ele.

Em suma, não existe dife­rença entre estar eufó­rico por causa de estí­mu­los alu­ci­nan­tes de várias abas aber­tas em seu nave­ga­dor, e agi­tado por uma con­duta sexual pouco cons­ci­ente (o que não tem a ver com assu­mir uma pos­tura casta ou celi­ba­tá­ria, por favor). É evi­dente, por outro lado, que a sexu­a­li­dade pos­sui um cará­ter muito mais orgâ­nico do que o manejo de um nave­ga­dor no com­pu­ta­dor. Por isso, tam­bém é claro que o con­trole do pri­meiro pode ser mais com­pli­cado que o do segundo. Essa é uma dife­rença fun­da­men­tal entre ambos, que, por sua vez, não deve anu­lar o fato de que são, no fundo, dese­jos. Além disso, ima­gino que um estóico falasse ape­nas de mode­ra­ção e cons­ci­ên­cia, não de votos de cas­ti­dade ou de abs­ti­nên­cia digi­tal.

Para além da inter­net, e antes mesmo de sua popu­la­ri­za­ção, lem­bro de um epi­só­dio ocor­rido no Ensino Fun­da­men­tal. Em deter­mi­nada época, o pro­fes­sor de Edu­ca­ção Física ficou doente. Então, os alu­nos ou tinham aula com algum subs­ti­tuto ou fica­vam na qua­dra jogando fute­bol. Nesse segundo caso, algo impres­si­o­nante acon­te­cia. Todos, ao entra­rem na qua­dra, saiam cor­rendo como uma manada de gnus, e um deles sol­tava a bola na qua­dra. Os vinte e pou­cos meni­nos cor­riam desor­de­na­da­mente, cada um por si, cada um que­rendo rou­bar a bola do outro. Eu sem­pre me per­gun­tava se não seria mais fácil e diver­tido para todos se duas pes­soas for­mas­sem times rapi­da­mente e a par­tida pudesse se desen­ro­lar decen­te­mente, como man­dam as regras do esporte.

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Essa his­tó­ria serve para ilus­trar como leva­mos para a vida adulta uma pos­tura impul­siva que guarda certa ima­tu­ri­dade infan­til. Afi­nal, cri­an­ças ainda não tive­ram tempo sufi­ci­ente para trei­nar seu auto­con­trole; mas se espera que um adulto tenha vivido sufi­ci­en­te­mente para desen­volvê-lo. E assim como acre­di­tá­va­mos que jogar daquela forma alvo­ro­çada era melhor que parar, pen­sar e orga­ni­zar a coisa, quando alguns cres­cem, con­ti­nuam tendo esse mesmo pen­sa­mento. “Por que eu devo ser tão orga­ni­zado para estu­dar para a prova? Eu posso muito bem ir estu­dando quando der, em cima da hora a gente vê no que dá.”

A con­tem­pla­ção, a auto-obser­va­ção e auto-aná­lise devem ser cul­ti­va­das a todo o tempo, mas não sob um matiz para­noico. Marco Auré­lio pare­cia ser um sujeito extre­ma­mente sen­sato e cons­ci­ente de si mesmo (e tam­bém da cole­ti­vi­dade, já que era ado­rado pelo seu povo, como Impe­ra­dor de Roma), mas de forma alguma era obses­sivo. Sua sere­ni­dade era len­dá­ria. Mas, pro­va­vel­mente, tam­bém exis­tiam momen­tos de des­li­zes pro­vo­ca­dos por emo­ções for­tes. Con­tudo, o impor­tante era tirar uma lição disso e exer­ci­tar seu cará­ter.

No fundo, toda a pra­tica de Marco Auré­lio em sua vida coti­di­ana era parte da defi­ni­ção que guar­dava a pró­pria Filo­so­fia, con­forme vemos na cita­ção ini­cial de Epi­teto. Isto é, tra­ba­lhar con­cep­ções, pre­con­cei­tos e com­por­ta­men­tos a fim de cul­ti­var­mos con­di­ções neces­sá­rias para não só criar um mundo cheio de pos­si­bi­li­da­des, com tec­no­lo­gia e liber­dade, mas tam­bém de poder fazer as melho­res esco­lhas num con­texto cheio de opções. Pre­ci­sa­mos, mais do que nunca,  andar mais deva­gar e ana­li­ti­ca­mente, pois vive­mos em tem­pos cada vez mais rápi­dos, efê­me­ros e irre­fle­xi­vos.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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