Sou de Minas Gerais, um dos estados mais patriarcais e tradicionalistas do país. Certa vez, conversando com uma senhora que morava em uma cidade do interior e estava a passeio na capital, ela me contou o seguinte:

“Onde moro, é comum que as meninas ganhem um presente quando completam 15 anos. A mãe prepara o quarto como que para núpcias, e o pai se deita com a menina, porque ele tem o direito de ser o primeiro homem dela”.

Não precisa explicar (ou desenhar) a minha cara de surpresa/indignação/nojo/repulsa. Creio que foi como a sua agora.

Convivo com situações cotidianas que sempre me confrontam com minha humanidade. E com a dos outros. E com a falta de empatia dos outros. E com um monte de fragilidades da gente. Como trabalho com segurança pública e política de drogas (no Rio de Janeiro), a miséria humana faz parte do meu dia a dia. Mas, dentre todas as situações miseráveis (e, não duvide, são muitas) com as quais fico frente a frente, o estupro é a questão que mais me fere.

Acho que é por todas as outras questões juntas (pobreza, etnia, criminalização, etc…) e principalmente pelo fato de, só por não ter um pinto, acabar fodida (não no sentido bom de foder =/) em todas as esferas da vida: ganhar menos, ser taxada de histérica a cada questionamento que faço, ficar na situação de “se dá no primeiro encontro é vadia e se não dá então está fazendo cu doce pra pagar de santa” e nunca ser considerada uma “mulher completa” se não parir (Oh, céus…).

Há pouco tempo, o Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA) esteve no centro dos debates acalorados online por causa de uma pesquisa que evidenciou o machismo no Brasil. E porque eu disse “evidenciou”, já que os dados estavam errados? Por que os argumentos usados para defender que a pesquisa estava de fato errada, bem como a série de culpabilizações das vítimas que se seguiu, independentemente de porcentagens para mais ou para menos, deixou MUITO claro que, nas entrelinhas, a pesquisa estava certa.

Pesquisa IPEA

Fato é que entre os direitos que são negados à mulher, especificamente por ser mulher, está o direito ao corpo. E não vou entrar aqui na questão dos assédios ou do aborto porque esses temas, isolados, já rendem outros textos. Vou ficar no recorte dos estupros.

Dados divulgados recentemente pelo pesquisador Daniel Cerqueira, do IPEA, apontaram a violência doméstica como uma das origens da violência social. A partir de um questionário de vitimização baseado em entrevistas domiciliares no Brasil, o IPEA concluiu anualmente há 527 mil estupros consumados ou tentativas de estupros no Brasil, o que significa que uma vítima é violentada por minuto.

De acordo com os dados levantados, entre as vítimas, 50,7% têm menos de 13 anos. Outros 19,4% têm entre 14 e 17 anos. Isso significa que 70,1% das vítimas são crianças e adolescentes.

Entre os agressores, os padrastos correspondem a 12,3% do total, seguido pelos pais, com 11,8%. Isso mostra como o perigo, capaz de determinar todo o sofrimento futuro da vítima, está dentro de casa, causado pelos que deveriam protegê-la.

Amigos e conhecidos são responsáveis por 32,2% das ocorrências. Em 79% dos casos a agressão ocorreu dentro de casa.

Marcha das Vadias
Enquanto houver justificativas como “ ela provocou”, será necessário nos unirmos às vadias e marcharmos.

Vamos nos concentrar nisso aqui: 70,1% das vítimas são crianças e adolescentes; em 79% dos casos, a agressão ocorreu dentro de casa. E vamos lembrar que a subnotificação é um problema real. Muitas denúncias sequer são feitas.

A pesquisa erradamente certa do IPEA não muda essa realidade e a urgente necessidade do debate, pois o fato é que o convívio com “homens de bem” e “pais de família” pode desgraçar a vida de milhares de mulheres. O machismo tem maculado gerações, e enquanto ouvirmos justificativas como “ ela provocou”, será necessário nos unirmos às vadias e marcharmos.

“Também, com essa saia, queria o quê?”; “Na rua às 02 manhã, sozinha? Estava procurando!”; “Mas ela estava bêbada, ué, e cu de bêbado não tem dono.”; “Segura suas cabritas que meu bode tá solto!”: Todas essas barbaridades, repetidas à exaustão por gente que, além de não ter empatia por outras pessoas, não têm informação, perpetua esse cenário.

E de todo modo, se eu fosse homem e alguém dissesse “mas ela provocou” para justificar um ataque a uma mulher, eu me sentiria profundamente ofendido por ser comparado a um ser irracional, incapaz de controlar o próprio pinto.  Imagino que essas pessoas, que evocam os instintos para justificar crimes, cagam de cócoras na rua, certo?

escrito por:

Cecília Olliveira

Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil.