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A violência é questão de custo-benefício

Em Ciência por Felipe NovaesComentários

(…) o esforço para com­pre­en­der o que ocorre foi seques­trado pelo esforço de legis­lar a res­posta cor­reta” ~ Ste­ven Pin­ker


Como civi­li­za­ção Oci­den­tal, temos vários pila­res que con­di­ci­o­nam nossa for­ma­ção cul­tu­ral. Um deles é o cris­ti­a­nismo, que tem como livro sagrado a Bíblia, con­tendo his­tó­rias não só sobre sabe­do­ria, mas sobre guer­ras, con­fli­tos, morte e ira divina con­tra povos estran­gei­ros.

Lem­bre-se tam­bém que milhões de cris­tãos car­re­gam uma cruz ao redor do pes­coço, um objeto que, além de ser um ins­tru­mento de tor­tura e assas­si­nato uti­li­zado por gre­gos e roma­nos, hoje traz uma sim­bo­lo­gia reli­gi­osa que lem­bra o sacri­fí­cio [de Jesus] — e sacri­fí­cio acaba sendo sinô­nimo de tro­car a vida de alguém por algum bene­fí­cio para outrem.

A his­tó­ria humana acon­tece basi­ca­mente em meio a dis­pu­tas por ter­ri­tó­rio, sexo, pres­tí­gio e lava­gem da honra. Em suma, tem por com­bus­tí­vel a briga pelo poder, o que fre­quen­te­mente implica em arrui­nar os outros. Mas isso não exclui nossa capa­ci­dade para o altruísmo e coo­pe­ra­ção. Vimos essa capa­ci­dade na Anti­gui­dade, na Idade Média, na Moder­ni­dade e vemos tam­bém agora. Não há nada de novo sob o Sol quanto a isso.

Aliás, é até um pouco ater­ra­dor tomar nota de que há menos de um século atrás o mundo viu duas das mai­o­res guer­ras já tra­va­das, segui­das por uma guerra apa­ren­te­mente velada mas que tinha mais poten­cial des­tru­tivo do que as duas ante­ri­o­res (1ª e 2ª Guerra e Guerra Fria, res­pec­ti­va­mente).

crucificação - violência

Milha­res de outras pes­soas foram mor­tas nesse ins­tru­mento do impe­ri­a­lismo romano.

Recen­te­mente, no fim de 2015, Paris sofreu um aten­tado. Os moti­vos super­fi­ci­ais são dife­ren­tes, tomam tona­li­da­des cul­tu­rais, mas no seu cerne temos as mes­mas estru­tu­ras huma­nas e ambi­en­tais ope­rando junto com o caldo cul­tu­ral.

A guerra gera inques­ti­o­ná­veis pre­juí­zos, por isso neces­si­ta­mos de uma maneira sis­te­má­tica de estu­dar esse fenô­meno, pro­mo­vendo maior enten­di­mento e, con­se­quen­te­mente, manei­ras inte­li­gen­tes e efi­ca­zes de evi­tar os con­fli­tos béli­cos e as ações arma­das. Não pode­mos dei­xar que a von­tade de ter res­pos­tas dese­já­veis suprima o esforço de obter res­pos­tas que nos façam ver­da­dei­ra­mente com­pre­en­der o pro­blema.

A melhor maneira de che­gar a esse resul­tado é estu­dar empi­ri­ca­mente a agres­si­vi­dade. O estudo da natu­reza humana vem sendo muito útil na cri­a­ção de cená­rios expe­ri­men­tais, cujos resul­ta­dos são mais cla­ros e apli­cá­veis do que refle­xões soci­o­ló­gi­cas em loo­ping sobre o papel da mídia e da cul­tura. Claro, existe essa influên­cia, refle­tir sobre isso é neces­sá­rio, mas existe um forte lobby aca­dê­mico para negar a exis­tên­cia desse aspecto da natu­reza humana — tanto no geral quanto no caso espe­cí­fico da agres­si­vi­dade — e para obli­te­rar qual­quer men­ção à evo­lu­ção ou à bio­lo­gia como for­mas de expli­car cená­rios con­fli­tu­o­sos — mesmo que isso não sig­ni­fi­que redu­zir toda a situ­a­ção a uma ques­tão evo­lu­tiva ou da bios, como fre­quen­te­mente espan­ta­lhos do tema nos levam a crer. 

Dessa forma, pode ser ousado e até sur­pre­en­dente, mas exis­tem for­tes evi­dên­cias de que a dis­po­ni­bi­li­dade de ter­ri­tó­rios, de sexo e de comida estão no cerne da agres­si­vi­dade não só do ser humano, mas de outras espé­cies tam­bém.

Para elu­ci­dar de que forma a evo­lu­ção pode lan­çar luz sobre esse tema espi­nhoso, é pre­ciso antes des­cons­truir alguns mitos sobre a vio­lên­cia e a evo­lu­ção em ter­mos psi­co­ló­gi­cos.

Somos muito mais violentos agora do que jamais fomos”

A his­tó­ria da raça humana é a guerra. Exceto por bre­ves e pre­cá­rios inter­va­los, nunca houve paz no mundo; e muito antes de a his­tó­ria come­çar, o con­flito assas­sino era uni­ver­sal e inter­mi­ná­vel.”

~ Wins­ton Chur­chill

A frase que dá iní­cio a essa seção foi uma forma de resu­mir inú­me­ras expe­ri­ên­cias que já tive. A grande mai­o­ria da popu­la­ção acre­dita pia­mente que nunca vive­mos em tem­pos tão desu­ma­nos e hos­tis quanto agora. De certo modo, isso não é nada sur­pre­en­dente. Vive­mos no agora. Por­tanto, ten­de­mos a pen­sar que esta é a época mais vio­lenta de todas. Afi­nal, é a que expe­ri­en­ci­a­mos. Essa é a ilu­são dos bons velhos tem­pos.

A segunda cita­ção é do pri­meiro minis­tro inglês dos tem­pos de Segunda Guerra. Chur­chill não era aca­dê­mico, não era cien­tista, mas sua expe­ri­ên­cia em uma guerra mun­dial e na Guerra Fria, sua inte­li­gên­cia e habi­li­dade de expres­são, mol­da­ram melhor seu fee­ling sobre a natu­reza e a his­tó­ria humana do que o de inú­me­ros homens com pilhas de diplo­mas.

É tam­bém curi­oso que a obser­va­ção de Chur­chill, emba­sada por diver­sas evi­dên­cias, acaba sola­pando tam­bém as diver­sas pro­fe­cias que falam de um tempo em que guer­ras se tor­na­riam uma cons­tante no mundo. Temos a impres­são de que esse tipo de pre­vi­são está se cum­prindo por­que, não importa a época, nunca tive­mos tem­pos real­mente de paz. A guerra é uma ende­mia desde que o homem escre­via sobre suas vivên­cias nas pare­des das caver­nas.

churchil - violência

Chur­chill não se ilu­dia quanto à natu­reza humana.

Chur­chill tam­bém foi sagaz o bas­tante, tal­vez até sem ter cons­ci­ên­cia disso, para bater num dos mais difun­di­dos ran­ços de sabe­do­ria popu­lar sobre povos pré-his­tó­ri­cos e tri­bos indí­ge­nas, que é a da sua suposta sere­ni­dade. Tam­bém vez ou outra pipo­cam mitos sobre outras pana­ceias pré-his­tó­ri­cas, como a mara­vi­lhosa igual­dade de gênero e ausên­cia de dis­pu­tas por ter­ras.

Ape­sar des­sas pro­pos­tas dese­jan­te­mente apa­zi­gua­do­ras, o regis­tro fós­sil é cabal: enter­ra­dos ou em caver­nas encon­tram-se aos mon­tes sinais da vora­ci­dade entre nos­sos ante­pas­sa­dos. Armas inú­teis para a caça, como cla­vas e macha­di­nhas, mas bem efi­ci­en­tes no assas­si­nato, são encon­tra­das no mundo inteiro. Tam­bém há resquí­cios de for­ti­fi­ca­ções e cer­cas fei­tas com madei­ras pon­ti­a­gu­das como lan­ças, mos­trando a neces­si­dade de pro­te­ção con­tra inva­sões como algo bem pre­mente. Dese­nhos em caver­nas mos­tram homens ati­rando fle­chas em outros gru­pos de huma­nos em outras exten­sões ter­ri­to­ri­ais.

Adi­ci­o­nal­mente, tra­ços de mio­glo­bina (encon­trada em mús­cu­los huma­nos) foram iden­ti­fi­ca­dos em excre­men­tos fos­si­li­za­dos e em res­tos de pane­las de anti­gas tri­bos indí­ge­nas ame­ri­ca­nas. Uma tribo amazô­nica, por exem­plo, inclui em sua cate­go­ria de ‘coi­sas comes­tí­veis’ qual­quer um que não faça parte de seu grupo tri­bal. Todas essas são mani­fes­ta­ções de cani­ba­lismo, o que é uma evi­dên­cia de vio­lên­cia, já que na mai­o­ria das vezes os cani­ba­li­za­dos são ini­mi­gos der­ro­ta­dos, o que pres­su­põe con­fli­tos vio­len­tos.

Esses dados são encon­tra­dos, bem como suas refe­rên­cias, em Tábula Rasa — A Nega­ção Con­tem­po­râ­nea da Natu­reza Humana e, mais recen­te­mente, no Os Anjos Bons da Nossa Natu­reza, do psi­co­lin­guista e psi­có­logo evo­lu­ci­o­nista Ste­ven Pin­ker. O segundo livro se detém intei­ra­mente a evi­den­ciar por a+b que exis­tem boas evi­dên­cias demons­trando que hoje vive­mos em tem­pos mais pací­fi­cos do que no pas­sado, enquanto o pri­meiro passa por esse tema em um dos capí­tu­los. Ambos são calha­ma­ços, então como pre­lú­dio da saga que é ler esses livros, indico algu­mas apre­sen­ta­ções, den­tre elas uma muito boa no TED.

Em suma, o que Pin­ker faz é refu­tar o mito do bom sel­va­gem, pro­pa­gado por Rous­seau, e mos­trar dados indi­cando que, pro­por­ci­o­nal­mente, hoje temos mais paz. Parece que o Levi­atã de Hob­bes estava cor­reto, em certo sen­tido. A ideia de des­lo­car dele­gar a auto­ri­dade e a res­pon­sa­bi­li­dade de reta­liar indi­ví­duos deso­nes­tos em um grupo para deter­mi­na­das pes­soas inse­ri­das em um sis­tema polí­tico parece ter dado certo, afi­nal. Ape­sar de ter dado ori­gem a vários outros pro­ble­mas antes ine­xis­ten­tes, a emer­gên­cia do Estado foi deci­siva para o advento de tem­pos rela­ti­va­mente mais pací­fi­cos, muito embora isso não tenha extin­guido os impul­sos huma­nos para a solu­ção de pro­ble­mas pelas pró­prias mãos — cuja evi­dên­cia é o número de homi­cí­dios diá­rios ao redor do mundo, basta uma olhada no noti­ciá­rio.

Segundo alguns estu­dos sofis­ti­ca­dos, que usam teo­ria dos jogos e outras fer­ra­men­tas mate­má­ti­cas, o sur­gi­mento de ins­ti­tui­ções tem um papel muito impor­tante que co-emerge com a evo­lu­ção. Essas macro estru­tu­ras soci­ais dimi­nuem a com­pe­ti­ção entre os que dela fazem parte, pro­mo­vendo certa homo­ge­ni­za­ção feno­tí­pica entre os gru­pos. Con­ti­nua havendo cus­tos que aca­bam tra­zendo bene­fí­cios como um todo para o grupo, o que não existe com tanta efi­ci­ên­cia em con­fi­gu­ra­ções gru­pais dife­ren­tes.

O Personagem Negan em The Walking Dead

Quando temos uma coisa cha­mada arma­di­lha hob­be­si­ana, temos basi­ca­mente estas estra­té­gias: ou reta­li­a­mos como ação pre­ven­tiva, ou cri­a­mos uma defesa forte pra se pro­te­ger de ata­ques e em seguida reta­liar forte e deci­si­va­mente (tem mais coi­sas, mas tô redu­zindo).

Na série The Wal­king Dead, temos exa­ta­mente isso. Exis­tem gru­pos que reta­liam pre­ven­ti­va­mente, e se o grupo é forte, isso quase sem­pre resulta em vitó­ria e aumento de poder, como no caso de Negan e do Gover­na­dor. Outros pre­fe­rem ser mais pací­fi­cos e fazem ali­an­ças, reta­li­ando ape­nas defen­si­va­mente, como Rick.

Em cená­rios como em The Wal­king Dead, essa nem sem­pre é a melhor estra­té­gia, pois free riders e boi­co­ta­do­res em geral sem­pre apa­re­cem (o que sem­pre acon­tece com o grupo do Rick).

Negan é o vilão que repre­senta de maneira per­feita a tática da reta­li­a­ção pre­ven­tiva, o que força a coo­pe­ra­ção de outros gru­pos e eli­mina os free riders. Mas, claro, a ten­são interna para man­ter a coe­são gru­pal num esquema des­ses é mais difí­cil de man­ter, pois a reta­li­a­ção pre­ven­tiva deve sem­pre ter uma manu­ten­ção, o que não é neces­sá­rio num grupo como o do Rick.

Se somos animais racionais, por que somos tão violentos?”

Certa vez, num dia de apre­sen­ta­ção de tra­ba­lhos numa aula na facul­dade, eis que um dos gru­pos de alu­nos começa a falar de crime, vio­lên­cia em geral, sob o enfoque/âmbito soci­o­ló­gico da coisa. Em dado momento, dis­se­ram: “Como pode ainda achar­mos que o ser humano é raci­o­nal? Não vemos ani­mais fazendo isso que nós, seres raci­o­nais, faze­mos?”.

Não lem­bro bem, mas a pes­soa se refe­ria a algum crime hor­rendo. Por trás de sua indig­na­ção estava a com­pre­en­são errô­nea do que sig­ni­fica ser raci­o­nal. O Homo sapi­ens é raci­o­nal no sen­tido de poder usar a raci­o­na­li­dade, o que não sig­ni­fica que vamos usá-la o tempo todo. Essa divi­ni­za­ção da raci­o­na­li­dade vem do pen­sa­mento grego, cujos filó­so­fos quase lou­va­vam a razão, numa época em que essa era a única opção sen­sata em rela­ção às cren­di­ces do povo helê­nico.

canibalismo - violência

O bom e puro sel­va­gem manda lem­brança… e con­vida para o jan­tar.

Obvi­a­mente, a razão é um recurso, pois se fosse uma con­di­ção oni­pre­sente e neces­sá­ria para nos­sas ações sería­mos como o Spock. No entanto, sob outro sig­ni­fi­cado, ser raci­o­nal é sim­ples­mente ser coe­rente em dado con­texto, é usar alguma heu­rís­tica para se virar diante de uma dada situ­a­ção, algo não-ale­a­tó­rio e não-car­te­ado.

Pode pare­cer estra­nho e até poli­ti­ca­mente incor­reto, mas é pos­sí­vel enxer­gar a agres­si­vi­dade como uma ques­tão de raci­o­na­li­dade con­tex­tual, como ques­tão de cus­tos e bene­fí­cios (uma abs­tra­ção que equa­ci­ona os moti­vos pelos quais a evo­lu­ção segue por um lado ou por outro em deter­mi­nada espé­cie).

É basi­ca­mente isso que a bio­lo­gia evo­lu­tiva e a psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista fazem para expli­car com­por­ta­men­tos e carac­te­rís­ti­cas físi­cas dos seres vivos.

Uma questão de trade-offs e custo/benefício

O segundo equí­voco é ima­gi­nar que falar em cus­tos e bene­fí­cios implica que as pes­soas são cíni­cas, maqui­a­vé­li­cas, cal­cu­lando fri­a­mente as van­ta­gens gené­ti­cas de agir como amigo e de casar-se. Pre­o­cu­par-se com essa ima­gem, ou cri­ticá-la por­que é desa­gra­dá­vel, é con­fun­dir causa pró­xima com causa última.”

~ Ste­ven Pin­ker

Essa ques­tão gera mui­tos enga­nos em parte por­que existe ainda certa igno­rân­cia no campo das ciên­cias huma­nas no que tange à dife­rença entre cau­sas pró­xi­mas e cau­sas dis­tan­tes (ou cau­sas pri­mei­ras e cau­sas últi­mas), con­forme for­mu­lado pelo etó­logo Tin­ber­gen.

As cau­sas pró­xi­mas são os fato­res pre­sen­tes e que expli­cam deter­mi­nado com­por­ta­mento, enquanto as dis­tan­tes são os con­di­ci­o­nan­tes na his­tó­ria do desen­vol­vi­mento de deter­mi­nada espé­cie que a fize­ram ter um reper­tó­rio de com­por­ta­men­tos como pos­si­bi­li­dade.

Quando a minha gata, a Cleo, por acaso vê um sabiá cis­cando no quin­tal, subi­ta­mente sua boca começa a tre­mer, seu corpo toma a posi­ção de ata­que e seus olhos ficam aten­tos. Evi­den­te­mente, é o estí­mulo do pás­saro que gera esse com­por­ta­mento na gata.

De alguma forma, seu orga­nismo con­tém dire­tri­zes que aci­o­nam com­por­ta­men­tos espe­cí­fi­cos, pró­prios para a caça, quando ela avista estí­mu­los rele­van­tes. Isso pode­ria ser expli­cado atra­vés de uma aná­lise cau­sal da fisi­o­lo­gia e ana­to­mia res­pon­sá­veis por tal com­por­ta­mento. Nesse sis­tema expli­ca­tivo, entra­riam todos os moti­vos con­tex­tu­ais e bio­ló­gi­cos para dado com­por­ta­mento, as cau­sas pró­xi­mas.

Na mesma situ­a­ção, alguém pode­ria per­gun­tar o porquê da Cleo emi­tir exa­ta­mente esses com­por­ta­men­tos ao avis­tar um sabiá, ao invés de algum outro com­por­ta­mento com­ple­ta­mente dis­tinto. Por que ela não põe a lín­gua para fora e começa a sapa­tear sobre duas per­nas, por exem­plo, como o Gato de Botas?

Aí entra­ria o pen­sa­mento evo­lu­ci­o­nista, as cau­sas dis­tan­tes ou últi­mas do com­por­ta­mento. Esse reper­tó­rio com­por­ta­men­tal existe por­que con­di­ções espe­cí­fi­cas no ambi­ente de adap­ta­ção evo­lu­tiva dos feli­nos fize­ram com que deter­mi­na­das carac­te­rís­ti­cas feno­tí­pi­cas fos­sem sele­ci­o­na­das, carac­te­rís­ti­cas essas que repre­sen­ta­vam van­ta­gem para a sobre­vi­vên­cia e repro­du­ção des­ses ani­mais.

Em suma, trata-se de uma rela­ção de custo e bene­fí­cio. Se os bene­fí­cios de dado aspecto cog­ni­tivo ou com­por­ta­men­tal supe­ram seus cus­tos em ter­mos de sobre­vi­vên­cia, acaba sendo sele­ci­o­nado pela sele­ção natu­ral, pois seus por­ta­do­res con­se­gui­rão dei­xar mais des­cen­den­tes.

Isso ocorre com todos os seres vivos, inclu­sive com o ser humano. A pró­pria capa­ci­dade de apren­der — que gera enorme vari­a­ção cul­tu­ral — é uma con­sequên­cia des­ses trade-offs durante a his­tó­ria evo­lu­tiva da nossa espé­cie, e não uma nega­ção desse pro­cesso, ao con­trá­rio do que suge­rem mui­tas afir­ma­ções popu­la­res, segundo as quais o ser humano supe­rou a bio­lo­gia (o que é um tre­mendo ranço car­te­si­ano).

Sexo, comida e território

Nesse sen­tido, não pode­mos pen­sar na pro­pen­são à vio­lên­cia como uma ques­tão fixa ou dicotô­mica, pois a evo­lu­ção molda os orga­nis­mos para se enga­ja­rem em com­pe­ti­ções por recur­sos se a rela­ção custo/benefício com­pen­sar, e fato­res ambi­en­tais são deci­si­vos nesse “cál­culo”.

Quanto mais chan­ces hou­ver de mono­po­li­zar a dis­po­ni­bi­li­dade de ali­mento, par­cei­ros fér­teis e ter­ri­tó­rio, mai­o­res as chan­ces de espé­cies agres­si­vas evo­luí­rem em dada região. É o caso de leões e hie­nas, por exem­plo.

Se a carne é um bem escasso e vali­oso, e alguma espé­cie de milí­cia ani­mal a está con­tro­lando, as espé­cies que neces­si­tam desse ali­mento aca­bam se tor­nando cada vez mais agres­si­vas para dis­pu­tar esse mono­pó­lio, pois os mais agres­si­vos são os que levam a melhor e dei­xam mais des­cen­den­tes.

Por outro lado, ali­men­tos de extremo baixo valor nutri­ci­o­nal, como ver­du­ras, são abun­dan­tes e bem espa­lha­dos pelos mais diver­sos ter­ri­tó­rios. Não há, assim, nenhum motivo espe­cial para o favo­re­ci­mento de espé­cies agres­si­vas, já que há comida para todo mundo. A única forma de com­pe­ti­ção que pode exis­tir é sobre quem con­se­gue comer mais e acu­mu­lar mais ener­gia a par­tir des­ses ali­men­tos pouco nutri­ti­vos.

A situ­a­ção pode mudar um pouco se os vege­tais em ques­tão forem bas­tante nutri­ti­vos e escas­sos, gerando a pres­são sele­tiva para mono­po­li­zar e impe­dir o mono­pó­lio alheio — como acon­tece em alguns maca­cos her­bí­vo­ros.

recursos desejáveis - violência

É tudo uma ques­tão de escas­sez de recur­sos dese­já­veis.

Outro fator eco­ló­gico que tem influên­cia na agres­si­vi­dade das espé­cies é a dis­po­ni­bi­li­dade de pares fér­teis. Quanto menor a oferta de fêmeas ou machos fér­teis, mais a pres­são evo­lu­tiva aumen­tará em ter­mos da agres­si­vi­dade, pois um “bem” escasso e vali­oso como o par­ceiro repro­du­tivo gera mono­pó­lio, e então nasce a neces­si­dade da dis­puta agres­siva. Isso não acon­te­ce­ria se hou­vesse uma quan­ti­dade exces­siva de pares fér­teis, pois cada um pode­ria pegar o seu, diga­mos.

Nes­sas situ­a­ções, a vio­lên­cia gera mui­tos cus­tos e quase nenhum bene­fí­cio. Por isso é raro que fêmeas sejam tão ou mais agres­si­vas que machos, pelo menos entre mamí­fe­ros. Afi­nal, os cus­tos da agres­si­vi­dade seriam bem mai­o­res para fêmeas, que pre­ci­sam de uma saúde per­feita para gera­rem suas crias e terem boa lac­ta­ção. Os machos, por outro lado, têm menos pre­juí­zos, pois seu inves­ti­mento na cria depende de sua capa­ci­dade de obter recur­sos, como ali­mento e pro­te­ção.

No caso da com­pe­ti­ção por ter­ri­tó­rio, entra um tipo de dis­puta indi­reta por pares fér­teis e ali­mento, que são dois recur­sos pre­sen­tes den­tro de dado ter­ri­tó­rio. Expan­dir o domí­nio ter­ri­to­rial sig­ni­fica expan­dir tam­bém a quan­ti­dade de ali­men­tos dis­po­ní­veis, o que, pelo menos em estu­dos com chim­pan­zés, faz as fêmeas se ali­men­ta­rem melhor e terem filhos mais sau­dá­veis.

Toda essa lógica de com­por­ta­mento pode ser apli­cada tam­bém aos seres huma­nos. Aliás, esse “cál­culo evo­lu­tivo” fun­ci­ona de maneira muito pare­cida para huma­nos e chim­pan­zés, espe­ci­al­mente por seres ani­mais oní­vo­ros, que se ali­men­tam de carne e fru­tas, ambos ali­men­tos bas­tante nutri­ti­vos. Como vimos, isso gera um estí­mulo para a mono­po­li­za­ção, que, por sua vez, leva a estra­té­gias agres­si­vas tam­bém de expan­são e pro­te­ção ter­ri­to­rial. Sem falar em outro fator dessa equa­ção, que é a dis­puta pelo sexo — fator esse asso­ci­ado ao aumento ou à dimi­nui­ção da vio­lên­cia, depen­dendo da quan­ti­dade de homens e mulhe­res em dada popu­la­ção.

Tal­vez a nossa grande dife­rença e van­ta­gem em rela­ção aos outros ani­mais, porém, é que temos mai­o­res chan­ces de mol­dar nosso ambi­ente para que esses com­por­ta­men­tos vio­len­tos não sejam recur­sos tão atra­en­tes. É por isso que a tese de Hob­bes sobre o Levi­atã é tão válida. A agres­si­vi­dade não é uma pato­lo­gia, não é algo que apren­de­mos do zero. A agres­si­vi­dade é o resul­tado de uma dinâ­mica per­fei­ta­mente nor­mal entre orga­nis­mos soci­ais raci­o­nais, todos movi­dos pelo autoin­te­resse. Mas a cri­a­ção de um governo, de leis e de regu­la­men­tos que visam regu­lar a vida em soci­e­dade pode dimi­nuir — e os dados de fato ates­tam isso — dras­ti­ca­mente o emprego desse tipo de estra­té­gia.

É nesse sen­tido que não se pode afir­mar que bio­lo­gia, evo­lu­ção ou gené­tica são um des­tino deter­mi­nista, pois esses fato­res têm uma influên­cia medi­ada pelo ambi­ente, já que a pró­pria evo­lu­ção mol­dou nossa bio­lo­gia para ope­rar dessa maneira. De certo modo, porém, pode ser utó­pico pen­sar num fim total e per­ma­nente da vio­lên­cia, mas pode­mos ser oti­mis­tas quanto a novas pro­pos­tas prá­ti­cas de dimi­nuir o máximo pos­sí­vel as ações vio­len­tas. E, de certo modo, é isso que esta­mos fazendo ao longo da his­tó­ria, mesmo que há lon­guís­simo prazo.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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