“(…) o esforço para compreender o que ocorre foi sequestrado pelo esforço de legislar a resposta correta” ~ Steven Pinker

Como civilização Ocidental, temos vários pilares que condicionam nossa formação cultural. Um deles é o cristianismo, que tem como livro sagrado a Bíblia, contendo histórias não só sobre sabedoria, mas sobre guerras, conflitos, morte e ira divina contra povos estrangeiros.

Lembre-se também que milhões de cristãos carregam uma cruz ao redor do pescoço, um objeto que, além de ser um instrumento de tortura e assassinato utilizado por gregos e romanos, hoje traz uma simbologia religiosa que lembra o sacrifício [de Jesus] – e sacrifício acaba sendo sinônimo de trocar a vida de alguém por algum benefício para outrem.

A história humana acontece basicamente em meio a disputas por território, sexo, prestígio e lavagem da honra. Em suma, tem por combustível a briga pelo poder, o que frequentemente implica em arruinar os outros. Mas isso não exclui nossa capacidade para o altruísmo e cooperação. Vimos essa capacidade na Antiguidade, na Idade Média, na Modernidade e vemos também agora. Não há nada de novo sob o Sol quanto a isso.

Aliás, é até um pouco aterrador tomar nota de que há menos de um século atrás o mundo viu duas das maiores guerras já travadas, seguidas por uma guerra aparentemente velada mas que tinha mais potencial destrutivo do que as duas anteriores (1ª e 2ª Guerra e Guerra Fria, respectivamente).

crucificação - violência
Milhares de outras pessoas foram mortas nesse instrumento do imperialismo romano.

Recentemente, no fim de 2015, Paris sofreu um atentado. Os motivos superficiais são diferentes, tomam tonalidades culturais, mas no seu cerne temos as mesmas estruturas humanas e ambientais operando junto com o caldo cultural.

A guerra gera inquestionáveis prejuízos, por isso necessitamos de uma maneira sistemática de estudar esse fenômeno, promovendo maior entendimento e, consequentemente, maneiras inteligentes e eficazes de evitar os conflitos bélicos e as ações armadas. Não podemos deixar que a vontade de ter respostas desejáveis suprima o esforço de obter respostas que nos façam verdadeiramente compreender o problema.

A melhor maneira de chegar a esse resultado é estudar empiricamente a agressividade. O estudo da natureza humana vem sendo muito útil na criação de cenários experimentais, cujos resultados são mais claros e aplicáveis do que reflexões sociológicas em looping sobre o papel da mídia e da cultura. Claro, existe essa influência, refletir sobre isso é necessário, mas existe um forte lobby acadêmico para negar a existência desse aspecto da natureza humana — tanto no geral quanto no caso específico da agressividade — e para obliterar qualquer menção à evolução ou à biologia como formas de explicar cenários conflituosos — mesmo que isso não signifique reduzir toda a situação a uma questão evolutiva ou da bios, como frequentemente espantalhos do tema nos levam a crer.

Dessa forma, pode ser ousado e até surpreendente, mas existem fortes evidências de que a disponibilidade de territórios, de sexo e de comida estão no cerne da agressividade não só do ser humano, mas de outras espécies também.

Para elucidar de que forma a evolução pode lançar luz sobre esse tema espinhoso, é preciso antes desconstruir alguns mitos sobre a violência e a evolução em termos psicológicos.

“Somos muito mais violentos agora do que jamais fomos”

“A história da raça humana é a guerra. Exceto por breves e precários intervalos, nunca houve paz no mundo; e muito antes de a história começar, o conflito assassino era universal e interminável.”

~ Winston Churchill

A frase que dá início a essa seção foi uma forma de resumir inúmeras experiências que já tive. A grande maioria da população acredita piamente que nunca vivemos em tempos tão desumanos e hostis quanto agora. De certo modo, isso não é nada surpreendente. Vivemos no agora. Portanto, tendemos a pensar que esta é a época mais violenta de todas. Afinal, é a que experienciamos. Essa é a ilusão dos bons velhos tempos.

A segunda citação é do primeiro ministro inglês dos tempos de Segunda Guerra. Churchill não era acadêmico, não era cientista, mas sua experiência em uma guerra mundial e na Guerra Fria, sua inteligência e habilidade de expressão, moldaram melhor seu feeling sobre a natureza e a história humana do que o de inúmeros homens com pilhas de diplomas.

É também curioso que a observação de Churchill, embasada por diversas evidências, acaba solapando também as diversas profecias que falam de um tempo em que guerras se tornariam uma constante no mundo. Temos a impressão de que esse tipo de previsão está se cumprindo porque, não importa a época, nunca tivemos tempos realmente de paz. A guerra é uma endemia desde que o homem escrevia sobre suas vivências nas paredes das cavernas.

churchil - violência
Churchill não se iludia quanto à natureza humana.

Churchill também foi sagaz o bastante, talvez até sem ter consciência disso, para bater num dos mais difundidos ranços de sabedoria popular sobre povos pré-históricos e tribos indígenas, que é a da sua suposta serenidade. Também vez ou outra pipocam mitos sobre outras panaceias pré-históricas, como a maravilhosa igualdade de gênero e ausência de disputas por terras.

Apesar dessas propostas desejantemente apaziguadoras, o registro fóssil é cabal: enterrados ou em cavernas encontram-se aos montes sinais da voracidade entre nossos antepassados. Armas inúteis para a caça, como clavas e machadinhas, mas bem eficientes no assassinato, são encontradas no mundo inteiro. Também há resquícios de fortificações e cercas feitas com madeiras pontiagudas como lanças, mostrando a necessidade de proteção contra invasões como algo bem premente. Desenhos em cavernas mostram homens atirando flechas em outros grupos de humanos em outras extensões territoriais.

Adicionalmente, traços de mioglobina (encontrada em músculos humanos) foram identificados em excrementos fossilizados e em restos de panelas de antigas tribos indígenas americanas. Uma tribo amazônica, por exemplo, inclui em sua categoria de ‘coisas comestíveis’ qualquer um que não faça parte de seu grupo tribal. Todas essas são manifestações de canibalismo, o que é uma evidência de violência, já que na maioria das vezes os canibalizados são inimigos derrotados, o que pressupõe conflitos violentos.

Esses dados são encontrados, bem como suas referências, em Tábula Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana e, mais recentemente, no Os Anjos Bons da Nossa Natureza, do psicolinguista e psicólogo evolucionista Steven Pinker. O segundo livro se detém inteiramente a evidenciar por a+b que existem boas evidências demonstrando que hoje vivemos em tempos mais pacíficos do que no passado, enquanto o primeiro passa por esse tema em um dos capítulos. Ambos são calhamaços, então como prelúdio da saga que é ler esses livros, indico algumas apresentações, dentre elas uma muito boa no TED.

Em suma, o que Pinker faz é refutar o mito do bom selvagem, propagado por Rousseau, e mostrar dados indicando que, proporcionalmente, hoje temos mais paz. Parece que o Leviatã de Hobbes estava correto, em certo sentido. A ideia de deslocar delegar a autoridade e a responsabilidade de retaliar indivíduos desonestos em um grupo para determinadas pessoas inseridas em um sistema político parece ter dado certo, afinal. Apesar de ter dado origem a vários outros problemas antes inexistentes, a emergência do Estado foi decisiva para o advento de tempos relativamente mais pacíficos, muito embora isso não tenha extinguido os impulsos humanos para a solução de problemas pelas próprias mãos — cuja evidência é o número de homicídios diários ao redor do mundo, basta uma olhada no noticiário.

Segundo alguns estudos sofisticados, que usam teoria dos jogos e outras ferramentas matemáticas, o surgimento de instituições tem um papel muito importante que co-emerge com a evolução. Essas macro estruturas sociais diminuem a competição entre os que dela fazem parte, promovendo certa homogenização fenotípica entre os grupos. Continua havendo custos que acabam trazendo benefícios como um todo para o grupo, o que não existe com tanta eficiência em configurações grupais diferentes.

O Personagem Negan em The Walking Dead

Quando temos uma coisa chamada armadilha hobbesiana, temos basicamente estas estratégias: ou retaliamos como ação preventiva, ou criamos uma defesa forte pra se proteger de ataques e em seguida retaliar forte e decisivamente (tem mais coisas, mas tô reduzindo).

Na série The Walking Dead, temos exatamente isso. Existem grupos que retaliam preventivamente, e se o grupo é forte, isso quase sempre resulta em vitória e aumento de poder, como no caso de Negan e do Governador. Outros preferem ser mais pacíficos e fazem alianças, retaliando apenas defensivamente, como Rick.

Em cenários como em The Walking Dead, essa nem sempre é a melhor estratégia, pois free riders e boicotadores em geral sempre aparecem (o que sempre acontece com o grupo do Rick).

Negan é o vilão que representa de maneira perfeita a tática da retaliação preventiva, o que força a cooperação de outros grupos e elimina os free riders. Mas, claro, a tensão interna para manter a coesão grupal num esquema desses é mais difícil de manter, pois a retaliação preventiva deve sempre ter uma manutenção, o que não é necessário num grupo como o do Rick.

“Se somos animais racionais, por que somos tão violentos?”

Certa vez, num dia de apresentação de trabalhos numa aula na faculdade, eis que um dos grupos de alunos começa a falar de crime, violência em geral, sob o enfoque/âmbito sociológico da coisa. Em dado momento, disseram: “Como pode ainda acharmos que o ser humano é racional? Não vemos animais fazendo isso que nós, seres racionais, fazemos?”.

Não lembro bem, mas a pessoa se referia a algum crime horrendo. Por trás de sua indignação estava a compreensão errônea do que significa ser racional. O Homo sapiens é racional no sentido de poder usar a racionalidade, o que não significa que vamos usá-la o tempo todo. Essa divinização da racionalidade vem do pensamento grego, cujos filósofos quase louvavam a razão, numa época em que essa era a única opção sensata em relação às crendices do povo helênico.

canibalismo - violência
O bom e puro selvagem manda lembrança… e convida para o jantar.

Obviamente, a razão é um recurso, pois se fosse uma condição onipresente e necessária para nossas ações seríamos como o Spock. No entanto, sob outro significado, ser racional é simplesmente ser coerente em dado contexto, é usar alguma heurística para se virar diante de uma dada situação, algo não-aleatório e não-carteado.

Pode parecer estranho e até politicamente incorreto, mas é possível enxergar a agressividade como uma questão de racionalidade contextual, como questão de custos e benefícios (uma abstração que equaciona os motivos pelos quais a evolução segue por um lado ou por outro em determinada espécie).

É basicamente isso que a biologia evolutiva e a psicologia evolucionista fazem para explicar comportamentos e características físicas dos seres vivos.

Uma questão de trade-offs e custo/benefício

“O segundo equívoco é imaginar que falar em custos e benefícios implica que as pessoas são cínicas, maquiavélicas, calculando friamente as vantagens genéticas de agir como amigo e de casar-se. Preocupar-se com essa imagem, ou criticá-la porque é desagradável, é confundir causa próxima com causa última.”

~ Steven Pinker

Essa questão gera muitos enganos em parte porque existe ainda certa ignorância no campo das ciências humanas no que tange à diferença entre causas próximas e causas distantes (ou causas primeiras e causas últimas), conforme formulado pelo etólogo Tinbergen.

As causas próximas são os fatores presentes e que explicam determinado comportamento, enquanto as distantes são os condicionantes na história do desenvolvimento de determinada espécie que a fizeram ter um repertório de comportamentos como possibilidade.

Quando a minha gata, a Cleo, por acaso vê um sabiá ciscando no quintal, subitamente sua boca começa a tremer, seu corpo toma a posição de ataque e seus olhos ficam atentos. Evidentemente, é o estímulo do pássaro que gera esse comportamento na gata.

De alguma forma, seu organismo contém diretrizes que acionam comportamentos específicos, próprios para a caça, quando ela avista estímulos relevantes. Isso poderia ser explicado através de uma análise causal da fisiologia e anatomia responsáveis por tal comportamento. Nesse sistema explicativo, entrariam todos os motivos contextuais e biológicos para dado comportamento, as causas próximas.

Na mesma situação, alguém poderia perguntar o porquê da Cleo emitir exatamente esses comportamentos ao avistar um sabiá, ao invés de algum outro comportamento completamente distinto. Por que ela não põe a língua para fora e começa a sapatear sobre duas pernas, por exemplo, como o Gato de Botas?

Aí entraria o pensamento evolucionista, as causas distantes ou últimas do comportamento. Esse repertório comportamental existe porque condições específicas no ambiente de adaptação evolutiva dos felinos fizeram com que determinadas características fenotípicas fossem selecionadas, características essas que representavam vantagem para a sobrevivência e reprodução desses animais.

Em suma, trata-se de uma relação de custo e benefício. Se os benefícios de dado aspecto cognitivo ou comportamental superam seus custos em termos de sobrevivência, acaba sendo selecionado pela seleção natural, pois seus portadores conseguirão deixar mais descendentes.

Isso ocorre com todos os seres vivos, inclusive com o ser humano. A própria capacidade de aprender – que gera enorme variação cultural – é uma consequência desses trade-offs durante a história evolutiva da nossa espécie, e não uma negação desse processo, ao contrário do que sugerem muitas afirmações populares, segundo as quais o ser humano superou a biologia (o que é um tremendo ranço cartesiano).

Sexo, comida e território

Nesse sentido, não podemos pensar na propensão à violência como uma questão fixa ou dicotômica, pois a evolução molda os organismos para se engajarem em competições por recursos se a relação custo/benefício compensar, e fatores ambientais são decisivos nesse “cálculo”.

Quanto mais chances houver de monopolizar a disponibilidade de alimento, parceiros férteis e território, maiores as chances de espécies agressivas evoluírem em dada região. É o caso de leões e hienas, por exemplo.

Se a carne é um bem escasso e valioso, e alguma espécie de milícia animal a está controlando, as espécies que necessitam desse alimento acabam se tornando cada vez mais agressivas para disputar esse monopólio, pois os mais agressivos são os que levam a melhor e deixam mais descendentes.

Por outro lado, alimentos de extremo baixo valor nutricional, como verduras, são abundantes e bem espalhados pelos mais diversos territórios. Não há, assim, nenhum motivo especial para o favorecimento de espécies agressivas, já que há comida para todo mundo. A única forma de competição que pode existir é sobre quem consegue comer mais e acumular mais energia a partir desses alimentos pouco nutritivos.

A situação pode mudar um pouco se os vegetais em questão forem bastante nutritivos e escassos, gerando a pressão seletiva para monopolizar e impedir o monopólio alheio – como acontece em alguns macacos herbívoros.

recursos desejáveis - violência
É tudo uma questão de escassez de recursos desejáveis.

Outro fator ecológico que tem influência na agressividade das espécies é a disponibilidade de pares férteis. Quanto menor a oferta de fêmeas ou machos férteis, mais a pressão evolutiva aumentará em termos da agressividade, pois um “bem” escasso e valioso como o parceiro reprodutivo gera monopólio, e então nasce a necessidade da disputa agressiva. Isso não aconteceria se houvesse uma quantidade excessiva de pares férteis, pois cada um poderia pegar o seu, digamos.

Nessas situações, a violência gera muitos custos e quase nenhum benefício. Por isso é raro que fêmeas sejam tão ou mais agressivas que machos, pelo menos entre mamíferos. Afinal, os custos da agressividade seriam bem maiores para fêmeas, que precisam de uma saúde perfeita para gerarem suas crias e terem boa lactação. Os machos, por outro lado, têm menos prejuízos, pois seu investimento na cria depende de sua capacidade de obter recursos, como alimento e proteção.

No caso da competição por território, entra um tipo de disputa indireta por pares férteis e alimento, que são dois recursos presentes dentro de dado território. Expandir o domínio territorial significa expandir também a quantidade de alimentos disponíveis, o que, pelo menos em estudos com chimpanzés, faz as fêmeas se alimentarem melhor e terem filhos mais saudáveis.

Toda essa lógica de comportamento pode ser aplicada também aos seres humanos. Aliás, esse “cálculo evolutivo” funciona de maneira muito parecida para humanos e chimpanzés, especialmente por seres animais onívoros, que se alimentam de carne e frutas, ambos alimentos bastante nutritivos. Como vimos, isso gera um estímulo para a monopolização, que, por sua vez, leva a estratégias agressivas também de expansão e proteção territorial. Sem falar em outro fator dessa equação, que é a disputa pelo sexo – fator esse associado ao aumento ou à diminuição da violência, dependendo da quantidade de homens e mulheres em dada população.

Talvez a nossa grande diferença e vantagem em relação aos outros animais, porém, é que temos maiores chances de moldar nosso ambiente para que esses comportamentos violentos não sejam recursos tão atraentes. É por isso que a tese de Hobbes sobre o Leviatã é tão válida. A agressividade não é uma patologia, não é algo que aprendemos do zero. A agressividade é o resultado de uma dinâmica perfeitamente normal entre organismos sociais racionais, todos movidos pelo autointeresse. Mas a criação de um governo, de leis e de regulamentos que visam regular a vida em sociedade pode diminuir – e os dados de fato atestam isso – drasticamente o emprego desse tipo de estratégia.

É nesse sentido que não se pode afirmar que biologia, evolução ou genética são um destino determinista, pois esses fatores têm uma influência mediada pelo ambiente, já que a própria evolução moldou nossa biologia para operar dessa maneira. De certo modo, porém, pode ser utópico pensar num fim total e permanente da violência, mas podemos ser otimistas quanto a novas propostas práticas de diminuir o máximo possível as ações violentas. E, de certo modo, é isso que estamos fazendo ao longo da história, mesmo que há longuíssimo prazo.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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