Beyoncé no SuperBowl. Vidas negras importam.

Só algumas vidas negras importam

Em Consciência, Sociedade por Gabriel AndradeComentários

Há algu­mas sema­nas houve uma onda de vio­lên­cia no Sudão do Sul, a nação mais jovem do mundo. Duas tri­bos se enfren­ta­ram: os Dinka e os Nuer (aos que estu­da­ram antro­po­lo­gia, estas duas tri­bos lem­bram os famo­sos estu­dos de God­frey Lie­nhardt e Evans-Prit­chard, res­pec­ti­va­mente).

Cer­ta­mente, mui­tos des­ses con­fli­tos na África são devido à maneira tão bru­tal que potên­cias colo­ni­ais euro­peias, desde a infame Con­fe­rên­cia de Ber­lim no século XIX, divi­di­ram o con­ti­nente, dese­nhando fron­tei­ras naci­o­nais que não cor­res­pon­diam com as fron­tei­ras tri­bais.

Mas não deve­mos cair na chan­ta­gem, como faz a esquerda, de colo­car a culpa de todos os pro­ble­mas dos negros no homem branco.

Sim, os colo­ni­a­lis­tas foram no intuito de “divi­dir e con­quis­tar” para domi­nar melhor. Mas a ausên­cia de um espí­rito cos­mo­po­lita, na África, a total falta de inte­resse em saber o que está além de suas fron­tei­ras e o irra­ci­o­na­lismo tri­bal tive­ram muito mais res­pon­sa­bi­li­dade na vio­lên­cia que assola o con­ti­nente.

Antes da che­gada do homem branco, mui­tas tri­bos afri­ca­nas esta­vam matando umas às outras, e a vio­lên­cia atual é em grande parte uma con­ti­nu­a­ção de um pas­sado lamen­tá­vel.

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Muito se fala sobre como as gran­des potên­cias do mundo, asso­ci­a­dos à direita polí­tica, mani­pu­lam os meios de comu­ni­ca­ção. Os libe­rais ame­ri­ca­nos cons­tan­te­mente falam das per­ver­si­da­des de Rupert Mur­doch, Fox News, CNN e mui­tos outros, men­ci­o­nando o livro clás­sico sobre mani­pu­la­ção midiá­tica, MÍDIA: Pro­pa­ganda polí­tica e mani­pu­la­ção, de Chomsky.

Ok. Mas seria um grave erro acre­di­tar que a direita é a única a mani­pu­lar a aten­ção da mídia. A esquerda tam­bém se presta a esse jogo per­verso.

E quando se trata de negros que sofrem vio­lên­cia, gru­pos de esquerda são res­pon­sá­veis por fazer uma cober­tura midiá­tica muito sele­tiva, de modo que se encaixe em seus inte­res­ses.

Nos EUA, emer­giu o movi­mento Black Lives Mat­ter (vidas negras são impor­tan­tes), que visa denun­ciar a ale­gada cam­pa­nha sis­te­má­tica de vio­lên­cia poli­cial con­tra os negros.

Não há dúvida de que, nesse país, existe a bru­ta­li­dade poli­cial (embora seja muito mais baixa quando com­pa­rada com a dura repres­são de regi­mes mui­tas vezes ide­a­li­za­dos como Vene­zu­ela). É um pouco mais duvi­doso, no entanto, que esta bru­ta­li­dade tenha o com­po­nente racial que tanto é falado na mídia.

As esta­tís­ti­cas não são cla­ras: os rela­tó­rios infor­mam que a polí­cia nos EUA mata mais bran­cos do que negros, mas, no entanto, os negros con­ti­nuam a sofrer des­pro­por­ci­o­nal­mente ao tama­nho de sua popu­la­ção.

Além disso, os negros têm mais impacto sobre as ati­vi­da­des cri­mi­no­sas, o que os deixa mais expos­tos à bru­ta­li­dade poli­cial.

Mas, mesmo que, de fato, o racismo na polí­cia ame­ri­cana exista como apre­sen­tado na mídia, a ver­dade é que, esta­tis­ti­ca­mente falando, trata-se de um pro­blema muito pequeno para os pró­prios negros ame­ri­ca­nos.

A maior parte da vio­lên­cia sofrida por negros ame­ri­ca­nos não vem de poli­ci­ais racis­tas ou da quase ine­xis­tente Ku Klux Klan, mas dos pró­prios negros ao mata­rem uns aos outros.

Há boas razões para isso. O racismo ins­ti­tu­ci­o­nal que per­sis­tiu até algu­mas déca­das atrás tem mar­gi­na­li­zado um grande setor da popu­la­ção negra, levando a mai­o­res taxas de cri­mi­na­li­dade nes­sas comu­ni­da­des.

Mas essa não é a única causa.

Den­tro da comu­ni­dade negra ame­ri­cana, há uma enorme dis­fun­ci­o­na­li­dade, em parte enco­ra­jada pela ati­tude indul­gente de mui­tos de seus líde­res, aque­les que insis­tem em cul­par o homem branco de abso­lu­ta­mente todos os seus males, e não se atre­vem a fazer uma auto­crí­tica.

O movi­mento Black Lives Mat­ter é um daque­les gru­pos que incen­tiva a ati­tude irres­pon­sá­vel. Este grupo se esforça para des­ta­car midi­a­ti­ca­mente as víti­mas negras mor­tas por poli­ci­ais bran­cos, mas não têm inte­resse em virar a aten­ção da mídia para o enorme número de negros mor­tos por outros negros.

Para estes gru­pos patro­ci­na­dos pela esquerda, o impor­tante é apre­sen­tar na tele­vi­são um branco matando um negro, mesmo sendo esta­tis­ti­ca­mente muito mais impro­vá­vel o caso de um negro matando um branco (como, aliás, acon­tece nos EUA), ou até mesmo matando outro negro.

E em escala inter­na­ci­o­nal, quan­tos são mor­tos na crise huma­ni­tá­ria no Sudão do Sul? Deze­nas de milha­res. Quem se importa? Nin­guém.

Cer­ta­mente, aos pro­gres­sis­tas de Black Lives Mat­ter, a tra­gé­dia do Sudão do Sul não importa; Ouso dizer que mesmo a mai­o­ria pro­va­vel­mente não sabe que esse país existe.

Esses são negros matando uns aos outros, em um lugar dis­tante. Apa­ren­te­mente, não existe um único branco metido naquilo e, por­tanto, as vidas des­ses negros não inte­res­sam a essa esquerda.

De fato, para essa esquerda, ape­nas algu­mas vidas negras impor­tam (only some black lives mat­ter); ou seja, vidas negras que ser­vem para cata­pul­tar seus inte­res­ses polí­ti­cos e comer­ci­ais.

Beyoncé canta no Super Bowl con­tra a bru­ta­li­dade poli­cial dos Esta­dos Uni­dos, e o mundo inteiro fica colado ao tele­vi­sor para ouvir a men­sa­gem da can­tora negra ame­ri­cana apa­ren­te­mente pro­gres­sista.

Com sua sen­su­a­li­dade, Beyoncé faz você e o mundo esque­ce­rem que no Sudão do Sul, Congo e outros paí­ses afri­ca­nos, há pes­soas que sofrem um ver­da­deiro geno­cí­dio.

Mas a ousa­dia de dizer que os negros na Amé­rica, mesmo com a bru­ta­li­dade da polí­cia, têm uma vida muito mais con­for­tá­vel que mui­tas pes­soas no ter­ceiro mundo (mui­tas das quais, por sinal, têm a pele branca), não é con­ve­ni­ente.

Bem, os EUA foi con­ce­bido como o quar­tel-gene­ral do que se tor­nou conhe­cido como as “Olim­pía­das da Opres­são”, onde vence quem tiver a voz mais alta se afir­mando como vítima.

E, nesse esporte per­verso, só pode ser cam­peão quem mani­pula midi­a­ti­ca­mente, para for­mar a impres­são de que só eles sofrem assé­dio, e aque­les que asse­diam têm a pele branca.


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Gabriel Andrade
Gabriel Andrade vive em Maracaibo, Venezuela. Ele leva a vida na Universidade de Zulia, e é anfitrião do programa "Ágora" na Rádio Luz 102,9 FM.

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