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Duas Verdades Inconvenientes sobre o Atentado de Paris

Em Consciência, Política por Victor LisboaComentário

Já se tor­nou lugar comum afir­mar que o século 21 come­çou no dia 11 de setem­bro de 2001, com o ata­que do Al Qaeda às tor­res gêmeas do World Trade Cen­ter. Mas o pro­blema de luga­res comuns é que a ver­dade que repre­sen­tam começa a ficar amor­te­cida pela repe­ti­ção, de modo que é neces­sá­rio um novo e assus­ta­dor ata­que ter­ro­rista para com­pre­en­de­mos o que real­mente sig­ni­fica, para nós e para as futu­ras gera­ções, viver numa era cujo marco ini­cial foi a matança de ino­cen­tes atra­vés de um ato quase cine­ma­to­grá­fico.

Esta­mos na Era do Ter­ror, sig­ni­fi­cando com isso que atos de des­trui­ção sem sen­tido e ines­pe­ra­dos podem viti­mi­zar ino­cen­tes, e a nós mes­mos, com o deli­be­rado intuito de pro­vo­car sofri­mento e pânico. E se você acre­dita que esta­mos livres des­ses peri­gos por ser­mos bra­si­lei­ros, tal­vez seja a hora de revi­si­tar essa sua notá­vel inge­nui­dade, pois alguns fatos e prog­nós­ti­cos podem indi­car que ela é um grande perigo.

Diante dessa situ­a­ção, ape­nas a infor­ma­ção e o reco­nhe­ci­mento honesto sobre nossa atual situ­a­ção per­mite que desen­vol­va­mos estra­té­gias de auto­pre­ser­va­ção. Ceder à retó­rica ou a sim­pli­fi­ca­ções, nessa hipó­tese, pode ser um erro que cus­tará a vida de cen­te­nas de pes­soas. Por isso, é válido cor­rer o risco de abrir a cons­ci­ên­cia a ver­da­des tal­vez incon­ve­ni­en­tes

1. O atentado de Paris é mais preocupante que a tragédia da Barragem de Mariana.

A moda nas redes soci­ais atu­al­mente é recla­mar que quem lamenta publi­ca­mente o aten­tado de Paris está sendo sele­tivo, por não demons­trar igual como­ção diante de tra­gé­dias mais pró­xi­mas, como a da Bar­ra­gem de Mari­ana.

Mais ainda, houve o res­gate da tra­gé­dia da Boate Kiss, uti­li­zando-se uma tra­gé­dia que ocor­reu mui­tos anos antes de o Face­book dis­po­ni­bi­li­zar o recurso de mudar a foto do per­fil, para pode­rem cri­ti­car aque­les que hoje estão colo­cando a ban­deira da França em seu per­fil, ale­gando que não teriam feito o mesmo durante a tra­gé­dia da boate Kiss. É um misto, cla­ra­mente, de estu­pi­dez e má-fé.

A ver­dade, porém, é que há moti­vos SIM para con­si­de­rar o aten­tado de Paris algo muito mais crí­tico e objeto de maior pre­o­cu­pa­ção pros­pec­tiva (pre­o­cu­pa­ção diri­gida para o futuro) do que as tra­gé­dias de Rio Doce e da Boate Kiss.

É evi­dente, em pri­meiro lugar, que essas três des­gra­ças são tra­gé­dias igual­mente hor­ro­ro­sas e lamen­tá­veis. Afi­nal, sofri­mento humano é sofri­mento humano, pouco impor­tando se decorre de um aten­tado ter­ro­rista, do rom­pi­mento cri­mi­noso de uma bar­ra­gem ou de um incên­dio em uma boate. Sob esse ponto de vista, todas as tra­gé­dias mere­cem o mesmo pesar e indig­na­ção.

Dei­xado isso bem claro, e que de modo algum se pre­tende mino­rar ou “medir” o sofri­men­tos das víti­mas, uma ver­dade é evi­dente: não, meu amigo, não é pos­sí­vel com­pa­rar um aten­tado ter­ro­rista a tra­gé­dias que ocor­re­ram em vir­tude de negli­gên­cia cri­mi­nosa, por mais igual­mente lamen­tá­vel que seja o sofri­mento humano das víti­mas em todos esses even­tos ter­rí­veis.

Se começarmos a avaliar tragédias apenas pelas consequências, vamos longe...

Se come­çar­mos a ava­liar tra­gé­dias ape­nas pelas con­sequên­cias, vamos longe…

É que ana­li­sar uma tra­gé­dia ape­nas pelos seus resul­ta­dos, e não tam­bém por suas cau­sas, é tri­lhar ape­nas metade do cami­nho. A outra metade con­siste em ana­li­sar a inten­ci­o­na­li­dade de quem cau­sou a tra­gé­dia e os fato­res que podem deter­mi­nar a sua repe­ti­ção. E se por um lado não é pos­sí­vel com­pa­rar tra­gé­dias do ponto de vista dos seus resul­ta­dos para as víti­mas, todos igual­mente ter­rí­veis, por outro lado quando ana­li­sa­mos a inten­ci­o­na­li­dade e a pos­si­bi­li­dade de repe­ti­ção do evento, a com­pa­ra­ção é, sim, pos­sí­vel.

Dito de modo ilus­tra­tivo: alguém, na tra­gé­dia da boate Kiss, pegou um lança-cha­mas e volun­ta­ri­a­mente apon­tou para as víti­mas e ateou fogo em seus cor­pos em nome de uma crença reli­gi­osa? Alguém, no caso da tra­gé­dia da Bar­ra­gem de Mari­ana, foi até o local e explo­diu as bar­rei­ras dese­jando deli­be­ra­da­mente soter­rar com lama a cidade de Rio Doce com o decla­rado intuito de matar seus habi­tan­tes, em nome de um pro­jeto mili­ta­ri­zado de poder polí­tico e fun­da­men­ta­lista?

A gra­vi­dade do aten­tado em Paris, do ponto de vista das víti­mas, é igual à gra­vi­dade de todos aque­les que sofre­ram com qual­quer grande tra­gé­dia humana, inclu­sive a da Bar­ra­gem de Mari­ana e a da Boate Kiss. Mas do ponto de vista da inten­ci­o­na­li­dade dos res­pon­sá­veis pelo sofri­mento das víti­mas, o aten­tado de Paris foi muito pior. E isso por­que os atos cri­mi­no­sos foram rea­li­za­dos não por negli­gên­cia e/ou ganân­cia, acei­tando-se o pos­sí­vel sofri­mento de pes­soas como um resul­tado tole­rá­vel mas não dire­ta­mente dese­jado (o que em Direito Penal chama-se de dolo even­tual), como foi o caso da Bar­ra­gem de Mari­ana e da Boate Kiss. Dife­rente des­sas duas tra­gé­dias, no caso do aten­tado de Paris os atos cri­mi­no­sos foram rea­li­za­dos com o desejo deli­be­rado e prin­ci­pal de cau­sar sofri­mento extremo nas víti­mas e intenso ter­ror na popu­la­ção.

Isso, claro, não sig­ni­fica dimi­nuir a res­pon­sa­bi­li­dade cri­mi­nosa daque­les que cau­sa­ram o rom­pi­mento da bar­ra­gem e o incên­dio da Boate Kiss. Mas enquanto suas con­du­tas foram gui­a­das pela negli­gên­cia cul­posa e pelo desejo de lucro, acei­tando o sofri­mento alheio como um risco pos­sí­vel mas que jul­ga­vam impro­vá­vel, o obje­tivo dos ter­ro­ris­tas era, cons­ci­en­te­mente e dire­ta­mente, cau­sar sofri­mento em suas víti­mas e ter­ror em toda a soci­e­dade.

Manifesto do Estado Islâmico após o atentado.

Mani­festo do Estado Islâ­mico após o aten­tado.

Além disso, a gra­vi­dade pros­pec­tiva (vol­tada para o futuro) em rela­ção aos aten­ta­dos do Estado Islâ­mico é muito maior. É que a repe­ti­ção de tra­gé­dias como a da Bar­ra­gem de Mari­ana e da Boate Kiss pode ser evi­tada com a fis­ca­li­za­ção res­pon­sá­vel e efi­caz das auto­ri­da­des com­pe­ten­tes, pos­suindo assim um grau ele­vado de pre­vi­si­bi­li­dade e ine­vi­ta­bi­li­dade após a ocor­rên­cia do pri­meiro evento. Porém, evi­tar a repe­ti­ção de aten­ta­dos ter­ro­ris­tas do Estado Islâ­mico é um desa­fio de maior com­ple­xi­dade.

Tal difi­cul­dade decorre, em pri­meiro lugar, do fato de que os res­pon­sá­veis pelos aten­ta­dos ten­dem a ante­ci­par as medi­das das auto­ri­da­des com­pe­ten­tes, pla­ne­jando novas for­mas de bur­lar todas as medi­das repres­so­ras, con­tando com célu­las ter­ro­ris­tas e estra­té­gias de con­tra­es­pi­o­na­gem alta­mente sofis­ti­ca­das. Em segundo lugar, para os res­pon­sá­veis pelas tra­gé­dias da Bar­ra­gem de Mari­ana e da Boate Kiss, trata-se de uma ques­tão econô­mica. Assim, basta tor­nar exces­si­va­mente one­roso qual­quer des­res­peito às exi­gên­cias legais para que a deso­be­di­ên­cia à lei já não seja um cami­nho lucra­ti­va­mente atra­ente. Já no caso dos ter­ro­ris­tas do Estado Islâ­mico, como seu obje­tivo não é o lucro mas implan­tar o ter­ror com ins­pi­ra­ção de estar cum­prindo a von­tade de Alá, não há medi­das deses­ti­mu­la­do­ras capa­zes de demovê-los de seus obje­ti­vos. Afi­nal, quando alguém acre­dita que sua mis­são é divina e lhe foi atri­buída pelo Cri­a­dor do uni­verso em pes­soa, a ponto de dis­por-se a sacri­fi­car a pró­pria vida, fica bem difí­cil influ­en­ciar sua con­duta com con­si­de­ra­ções sobre cus­tos e bene­fí­cios ter­re­nos.

 

2. A religião muçulmana tem uma inata vocação belicosa.

Em 1990, o his­to­ri­a­dor Ber­nard Lewis escre­veu um ensaio inti­tu­lado The Roots of Mus­lim Rage, ten­tando apro­fun­dar a aná­lise sobre a ori­gem da raiva e da vio­lên­cia extrema dos radi­cais muçul­ma­nos.

Seu ensaio, após os aten­ta­dos do 11 de setem­bro de 2001, foi revi­si­tado por ser uma aná­lise quase pro­fé­tica dos even­tos que esta­vam por vir.

O que Lewis fez foi lem­brar a todos que, desde sua ori­gem, a reli­gião muçul­mana está asso­ci­ada à expan­são não pela pre­ga­ção da pala­vra, mas pela impo­si­ção da espada. Enquanto os pri­mei­ros cris­tãos eram már­ti­res dis­se­mi­nando a “boa nova” atra­vés da lei­tura dos evan­ge­lhos e da litur­gia, os pri­mei­ros muçul­ma­nos eram sol­da­dos na expan­são de um pro­jeto polí­tico. O pró­prio Maomé pas­sou seus últi­mos dez anos (de 622 a 632) como líder na guerra entre a con­ver­tida cidade de Medina e a ainda pagã Meca.

O Islã "moderado"

No Islã, a luta entre Bem e Mal”, escre­veu Lewis (tra­du­ção minha), “rapi­da­mente adqui­riu uma dimen­são polí­tica e mesmo mili­tar. Maomé, é pre­ciso lem­brar, não era ape­nas um pro­feta e um pro­fes­sor, como os fun­da­do­res de outras reli­giões. Ele era tam­bém o líder de um governo e um sol­dado. Por­tanto, sua luta envol­via um Estado e for­ças arma­das. Se os com­ba­ten­tes na guerra pelo Islã, a guerra santa ‘no cami­nho de Deus’, esta­vam lutando por Deus, a con­clu­são é que seus opo­nen­tes esta­vam lutando con­tra Deus (…). O exér­cito é o exér­cito de Deus, e o ini­migo é o ini­migo de Deus. O dever dos sol­da­dos de Deus é des­pa­char os ini­mi­gos de Deus o mais rápido pos­sí­vel para o lugar em que Deus irá puni-los — ou seja, na vida após-morte.”

Claro, o cris­ti­a­nismo não fica atrás em ter­mos de bar­bá­rie his­tó­rica, e mesmo no Velho Tes­ta­mento há exor­ta­ções a res­peito de ati­rar as cri­an­ças dos ini­mi­gos con­tra as rochas (Salmo 137). Porém, ori­gi­nal­mente o cris­ti­a­nismo não estava voca­ci­o­nado, pelas pre­ga­ções de seu líder (um sujeito que exor­tava seus dis­cí­pu­los a “ofe­re­cer a outra face”), a imple­men­tar uma agenda polí­tica que envol­via a ati­vi­dade mili­tar.

Por isso é fala­ci­osa a tese muito difun­dida de que a res­pon­sa­bi­li­dade pelo ter­ro­rismo é dos atos impe­ri­a­lis­tas das gran­des potên­cias oci­den­tais, par­ti­cu­lar­mente dos Esta­dos Uni­dos ao apoi­a­rem os insur­gen­tes no Afe­ga­nis­tão na década de 1980 e ao inva­di­rem o Ira­que em 2003. A ver­dade é que atos impe­ri­a­lis­tas e inter­ven­ções na sobe­ra­nia de nações não ali­nha­das com a Europa Oci­den­tal e os Esta­dos Uni­dos foram e ainda são, infe­liz­mente, prá­tica comum ao redor de todo o pla­neta e em diver­sas nações. Porém, ape­nas no Islã houve a sis­te­má­tica e repe­tida exe­cu­ção, por diver­sos gru­pos muçul­ma­nos ao longo de déca­das (inclu­sive alguns rivais entre si), de aten­ta­dos ter­ro­ris­tas como estra­té­gia polí­tica de com­bate a seus adver­sá­rios.

Além disso, a tese que res­pon­sa­bi­liza a isla­mo­fo­bia e as potên­cias oci­den­tais pelo ter­ro­rismo que viti­miza seus cida­dãos não explica por­que gru­pos ter­ro­ris­tas ata­cam tam­bém outros gru­pos e nações muçul­ma­nas. Tam­pouco se encaixa nessa teo­ria o fato de que mui­tos dos novos alis­ta­dos no Estado Islâ­mico, inclu­sive bra­si­lei­ros, não tem em seu his­tó­rico pes­soal qual­quer rela­ção com a isla­mo­fo­bia e o impe­ri­a­lismo oci­den­tal.

Como Ber­nard Lewis revela em outro livro (The Assas­sins), o ter­ro­rismo é, no Islã, muito mais antigo do que supo­mos.

O ter­ro­rismo con­siste em um modus ope­randi pró­prio da beli­co­si­dade inata à reli­gião muçul­mana, e foi desen­vol­vido por Has­san i Sab­bah e sua seita dos Hashashins no século XI. Seu obje­tivo ini­cial não era ata­car os ini­mi­gos oci­den­tais, mas inves­tir con­tra outros muçul­ma­nos durante dis­pu­tas intes­ti­nas, e só pos­te­ri­or­mente foi que a seita pas­sou a ata­car os cru­za­dos. O método dos hashashins con­sis­tia em desig­nar mis­sões para seus mem­bros que, dis­far­ça­dos e mis­tu­ra­dos entre os popu­la­res do local em que o ata­que deve­ria ocor­rer, assas­si­na­vam (essa a ori­gem da pala­vra) líde­res polí­ti­cos em luga­res públi­cos, pro­du­zindo assim um clima de inti­mi­da­ção e ter­ror em seus outros adver­sá­rios.

Per­cebe-se, assim, que o Estado Islâ­mico não é uma exce­ção na tra­di­ção muçul­mana, uma anor­ma­li­dade decor­rente da inde­vida inter­ven­ção de potên­cias oci­den­tais. O Estado Islâ­mico é um desen­ro­lar de uma tra­di­ção que his­to­ri­ca­mente esco­lheu a inti­mi­da­ção pelo ter­ror como uma estra­té­gia de com­bate legí­tima.

Mas ape­sar de sua voca­ção inata (no sen­tido de já estar em sua ori­gem) para a beli­co­si­dade e de o ter­ro­rismo ter se desen­vol­vido como uma estra­té­gica com­ba­tiva válida, a reli­gião muçul­mana já demons­trou his­to­ri­ca­mente que pode con­ver­ter-se em uma força pro­gres­sista e pací­fica.

É que durante a Idade Média, enquanto a Europa estava mer­gu­lhada no obs­cu­ran­tismo e na into­le­rân­cia reli­gi­osa, em mui­tos cali­fa­dos islâ­mi­cos tanto cris­tãos como judeus eram tra­ta­dos com notá­vel res­peito em meio ao domí­nio islâ­mico, havendo ainda sig­ni­fi­ca­tivo desen­vol­vi­mento da ciên­cia e da mate­má­tica nesse mesmo período em tais regiões. Se hoje temos acesso ao conhe­ci­mento de Aris­tó­te­les, foi gra­ças a Aver­róis, um muçul­mano anda­luz que fez sig­ni­fi­ca­ti­vas con­tri­bui­ções em áreas tão dís­pa­res quanto medi­cina, na física, na astro­no­mia e na psi­co­lo­gia. Isso sem esque­cer­mos das admi­rá­veis rea­li­za­ções artís­ti­cas da tra­di­ção muçul­mana na arqui­te­tura e na lite­ra­tura, e da sofis­ti­cada meta­fí­sica do sufismo. A res­peito da evi­dente supe­ri­o­ri­dade da civi­li­za­ção islâ­mica durante as cru­za­das, reco­mendo muito a lei­tura de um livro que é uma ver­da­deira pérola, ins­tru­tivo e deli­ci­oso de se ler, inti­tu­lado A Cru­zada Vista pelos Ára­besde Amin Maa­louf.

Aqui, e como em quase todos os aspec­tos da vivên­cia humana, todo indi­ví­duo e comu­ni­dade têm diante de si dois cami­nhos: o do fecha­mento e da into­le­rân­cia, ou o da aber­tura e da evo­lu­ção dos cos­tu­mes.

 


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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