Já se tornou lugar comum afirmar que o século 21 começou no dia 11 de setembro de 2001, com o ataque do Al Qaeda às torres gêmeas do World Trade Center. Mas o problema de lugares comuns é que a verdade que representam começa a ficar amortecida pela repetição, de modo que é necessário um novo e assustador ataque terrorista para compreendemos o que realmente significa, para nós e para as futuras gerações, viver numa era cujo marco inicial foi a matança de inocentes através de um ato quase cinematográfico.

Estamos na Era do Terror, significando com isso que atos de destruição sem sentido e inesperados podem vitimizar inocentes, e a nós mesmos, com o deliberado intuito de provocar sofrimento e pânico. E se você acredita que estamos livres desses perigos por sermos brasileiros, talvez seja a hora de revisitar essa sua notável ingenuidade, pois alguns fatos e prognósticos podem indicar que ela é um grande perigo.

Diante dessa situação, apenas a informação e o reconhecimento honesto sobre nossa atual situação permite que desenvolvamos estratégias de autopreservação. Ceder à retórica ou a simplificações, nessa hipótese, pode ser um erro que custará a vida de centenas de pessoas. Por isso, é válido correr o risco de abrir a consciência a verdades talvez inconvenientes

1. O atentado de Paris é mais preocupante que a tragédia da Barragem de Mariana.

A moda nas redes sociais atualmente é reclamar que quem lamenta publicamente o atentado de Paris está sendo seletivo, por não demonstrar igual comoção diante de tragédias mais próximas, como a da Barragem de Mariana.

Mais ainda, houve o resgate da tragédia da Boate Kiss, utilizando-se uma tragédia que ocorreu muitos anos antes de o Facebook disponibilizar o recurso de mudar a foto do perfil, para poderem criticar aqueles que hoje estão colocando a bandeira da França em seu perfil, alegando que não teriam feito o mesmo durante a tragédia da boate Kiss. É um misto, claramente, de estupidez e má-fé.

A verdade, porém, é que há motivos SIM para considerar o atentado de Paris algo muito mais crítico e objeto de maior preocupação prospectiva (preocupação dirigida para o futuro) do que as tragédias de Rio Doce e da Boate Kiss.

É evidente, em primeiro lugar, que essas três desgraças são tragédias igualmente horrorosas e lamentáveis. Afinal, sofrimento humano é sofrimento humano, pouco importando se decorre de um atentado terrorista, do rompimento criminoso de uma barragem ou de um incêndio em uma boate. Sob esse ponto de vista, todas as tragédias merecem o mesmo pesar e indignação.

Deixado isso bem claro, e que de modo algum se pretende minorar ou “medir” o sofrimentos das vítimas, uma verdade é evidente: não, meu amigo, não é possível comparar um atentado terrorista a tragédias que ocorreram em virtude de negligência criminosa, por mais igualmente lamentável que seja o sofrimento humano das vítimas em todos esses eventos terríveis.

Se começarmos a avaliar tragédias apenas pelas consequências, vamos longe...
Se começarmos a avaliar tragédias apenas pelas consequências, vamos longe…

É que analisar uma tragédia apenas pelos seus resultados, e não também por suas causas, é trilhar apenas metade do caminho. A outra metade consiste em analisar a intencionalidade de quem causou a tragédia e os fatores que podem determinar a sua repetição. E se por um lado não é possível comparar tragédias do ponto de vista dos seus resultados para as vítimas, todos igualmente terríveis, por outro lado quando analisamos a intencionalidade e a possibilidade de repetição do evento, a comparação é, sim, possível.

Dito de modo ilustrativo: alguém, na tragédia da boate Kiss, pegou um lança-chamas e voluntariamente apontou para as vítimas e ateou fogo em seus corpos em nome de uma crença religiosa? Alguém, no caso da tragédia da Barragem de Mariana, foi até o local e explodiu as barreiras desejando deliberadamente soterrar com lama a cidade de Rio Doce com o declarado intuito de matar seus habitantes, em nome de um projeto militarizado de poder político e fundamentalista?

A gravidade do atentado em Paris, do ponto de vista das vítimas, é igual à gravidade de todos aqueles que sofreram com qualquer grande tragédia humana, inclusive a da Barragem de Mariana e a da Boate Kiss. Mas do ponto de vista da intencionalidade dos responsáveis pelo sofrimento das vítimas, o atentado de Paris foi muito pior. E isso porque os atos criminosos foram realizados não por negligência e/ou ganância, aceitando-se o possível sofrimento de pessoas como um resultado tolerável mas não diretamente desejado (o que em Direito Penal chama-se de dolo eventual), como foi o caso da Barragem de Mariana e da Boate Kiss. Diferente dessas duas tragédias, no caso do atentado de Paris os atos criminosos foram realizados com o desejo deliberado e principal de causar sofrimento extremo nas vítimas e intenso terror na população.

Isso, claro, não significa diminuir a responsabilidade criminosa daqueles que causaram o rompimento da barragem e o incêndio da Boate Kiss. Mas enquanto suas condutas foram guiadas pela negligência culposa e pelo desejo de lucro, aceitando o sofrimento alheio como um risco possível mas que julgavam improvável, o objetivo dos terroristas era, conscientemente e diretamente, causar sofrimento em suas vítimas e terror em toda a sociedade.

Manifesto do Estado Islâmico após o atentado.
Manifesto do Estado Islâmico após o atentado.

Além disso, a gravidade prospectiva (voltada para o futuro) em relação aos atentados do Estado Islâmico é muito maior. É que a repetição de tragédias como a da Barragem de Mariana e da Boate Kiss pode ser evitada com a fiscalização responsável e eficaz das autoridades competentes, possuindo assim um grau elevado de previsibilidade e inevitabilidade após a ocorrência do primeiro evento. Porém, evitar a repetição de atentados terroristas do Estado Islâmico é um desafio de maior complexidade.

Tal dificuldade decorre, em primeiro lugar, do fato de que os responsáveis pelos atentados tendem a antecipar as medidas das autoridades competentes, planejando novas formas de burlar todas as medidas repressoras, contando com células terroristas e estratégias de contraespionagem altamente sofisticadas. Em segundo lugar, para os responsáveis pelas tragédias da Barragem de Mariana e da Boate Kiss, trata-se de uma questão econômica. Assim, basta tornar excessivamente oneroso qualquer desrespeito às exigências legais para que a desobediência à lei já não seja um caminho lucrativamente atraente. Já no caso dos terroristas do Estado Islâmico, como seu objetivo não é o lucro mas implantar o terror com inspiração de estar cumprindo a vontade de Alá, não há medidas desestimuladoras capazes de demovê-los de seus objetivos. Afinal, quando alguém acredita que sua missão é divina e lhe foi atribuída pelo Criador do universo em pessoa, a ponto de dispor-se a sacrificar a própria vida, fica bem difícil influenciar sua conduta com considerações sobre custos e benefícios terrenos.

 

2. A religião muçulmana tem uma inata vocação belicosa.

Em 1990, o historiador Bernard Lewis escreveu um ensaio intitulado The Roots of Muslim Rage, tentando aprofundar a análise sobre a origem da raiva e da violência extrema dos radicais muçulmanos.

Seu ensaio, após os atentados do 11 de setembro de 2001, foi revisitado por ser uma análise quase profética dos eventos que estavam por vir.

O que Lewis fez foi lembrar a todos que, desde sua origem, a religião muçulmana está associada à expansão não pela pregação da palavra, mas pela imposição da espada. Enquanto os primeiros cristãos eram mártires disseminando a “boa nova” através da leitura dos evangelhos e da liturgia, os primeiros muçulmanos eram soldados na expansão de um projeto político. O próprio Maomé passou seus últimos dez anos (de 622 a 632) como líder na guerra entre a convertida cidade de Medina e a ainda pagã Meca.

O Islã "moderado"

“No Islã, a luta entre Bem e Mal”, escreveu Lewis (tradução minha), “rapidamente adquiriu uma dimensão política e mesmo militar. Maomé, é preciso lembrar, não era apenas um profeta e um professor, como os fundadores de outras religiões. Ele era também o líder de um governo e um soldado. Portanto, sua luta envolvia um Estado e forças armadas. Se os combatentes na guerra pelo Islã, a guerra santa ‘no caminho de Deus’, estavam lutando por Deus, a conclusão é que seus oponentes estavam lutando contra Deus (…). O exército é o exército de Deus, e o inimigo é o inimigo de Deus. O dever dos soldados de Deus é despachar os inimigos de Deus o mais rápido possível para o lugar em que Deus irá puni-los – ou seja, na vida após-morte.”

Claro, o cristianismo não fica atrás em termos de barbárie histórica, e mesmo no Velho Testamento há exortações a respeito de atirar as crianças dos inimigos contra as rochas (Salmo 137). Porém, originalmente o cristianismo não estava vocacionado, pelas pregações de seu líder (um sujeito que exortava seus discípulos a “oferecer a outra face”), a implementar uma agenda política que envolvia a atividade militar.

Por isso é falaciosa a tese muito difundida de que a responsabilidade pelo terrorismo é dos atos imperialistas das grandes potências ocidentais, particularmente dos Estados Unidos ao apoiarem os insurgentes no Afeganistão na década de 1980 e ao invadirem o Iraque em 2003. A verdade é que atos imperialistas e intervenções na soberania de nações não alinhadas com a Europa Ocidental e os Estados Unidos foram e ainda são, infelizmente, prática comum ao redor de todo o planeta e em diversas nações. Porém, apenas no Islã houve a sistemática e repetida execução, por diversos grupos muçulmanos ao longo de décadas (inclusive alguns rivais entre si), de atentados terroristas como estratégia política de combate a seus adversários.

Além disso, a tese que responsabiliza a islamofobia e as potências ocidentais pelo terrorismo que vitimiza seus cidadãos não explica porque grupos terroristas atacam também outros grupos e nações muçulmanas. Tampouco se encaixa nessa teoria o fato de que muitos dos novos alistados no Estado Islâmico, inclusive brasileiros, não tem em seu histórico pessoal qualquer relação com a islamofobia e o imperialismo ocidental.

Como Bernard Lewis revela em outro livro (The Assassins), o terrorismo é, no Islã, muito mais antigo do que supomos.

O terrorismo consiste em um modus operandi próprio da belicosidade inata à religião muçulmana, e foi desenvolvido por Hassan i Sabbah e sua seita dos Hashashins no século XI. Seu objetivo inicial não era atacar os inimigos ocidentais, mas investir contra outros muçulmanos durante disputas intestinas, e só posteriormente foi que a seita passou a atacar os cruzados. O método dos hashashins consistia em designar missões para seus membros que, disfarçados e misturados entre os populares do local em que o ataque deveria ocorrer, assassinavam (essa a origem da palavra) líderes políticos em lugares públicos, produzindo assim um clima de intimidação e terror em seus outros adversários.

Percebe-se, assim, que o Estado Islâmico não é uma exceção na tradição muçulmana, uma anormalidade decorrente da indevida intervenção de potências ocidentais. O Estado Islâmico é um desenrolar de uma tradição que historicamente escolheu a intimidação pelo terror como uma estratégia de combate legítima.

Mas apesar de sua vocação inata (no sentido de já estar em sua origem) para a belicosidade e de o terrorismo ter se desenvolvido como uma estratégica combativa válida, a religião muçulmana já demonstrou historicamente que pode converter-se em uma força progressista e pacífica.

É que durante a Idade Média, enquanto a Europa estava mergulhada no obscurantismo e na intolerância religiosa, em muitos califados islâmicos tanto cristãos como judeus eram tratados com notável respeito em meio ao domínio islâmico, havendo ainda significativo desenvolvimento da ciência e da matemática nesse mesmo período em tais regiões. Se hoje temos acesso ao conhecimento de Aristóteles, foi graças a Averróis, um muçulmano andaluz que fez significativas contribuições em áreas tão díspares quanto medicina, na física, na astronomia e na psicologia. Isso sem esquecermos das admiráveis realizações artísticas da tradição muçulmana na arquitetura e na literatura, e da sofisticada metafísica do sufismo. A respeito da evidente superioridade da civilização islâmica durante as cruzadas, recomendo muito a leitura de um livro que é uma verdadeira pérola, instrutivo e delicioso de se ler, intitulado A Cruzada Vista pelos Árabesde Amin Maalouf.

Aqui, e como em quase todos os aspectos da vivência humana, todo indivíduo e comunidade têm diante de si dois caminhos: o do fechamento e da intolerância, ou o da abertura e da evolução dos costumes.

 


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escrito por:

Victor Lisboa

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