Antes de passarmos para o próximo ponto de nosso aprendizado sobre a realidade, convém consolidarmos o que já vimos até agora. Então, a seguir apresenta-se uma versão integral dos três textos anteriores.

Mas antes, e para os leitores que vieram em busca de material novo, apresenta-se um resumo dos principais pontos já vistos, alguns comentários sobre as mensagens enviadas por leitores e uma fábula didática.

RESPOSTA AOS LEITORES

Dentre as mensagens e comentários dos leitores sobre esses primeiros textos, há dois temas mais comuns e merecedores de resposta. O primeiro é uma queixa sobre como são difíceis de entender esses primeiros textos, e que, além do mais, são longos. O segundo é o pedido de provas a respeito das afirmações aqui apresentadas.

Quanto ao primeiro ponto, uma coisa é preciso ser dita com franqueza. Os leitores desperdiçam seu tempo e energia numa miríade de pequenas bobagens no cotidiano, até mesmo compulsivamente. Os leitores vivem numa sociedade em que são todos perdulários com seu bem mais precioso – o tempo de vida aqui neste mundo. Os leitores desperdiçam diariamente uma de suas maiores dádiva, sua atenção consciente, em futilidades. Portanto, os leitores não tem como justificar sua recusa em dedicar um pouco do seu tempo consciente para compreender quando alguém lhes apresenta a verdade sobre quem realmente somos e qual a nossa verdadeira situação.

O propósito aqui não é o entretenimento do leitor, o propósito aqui é fazer um alerta, e conta-se com a colaboração de quem está sendo alertado. Portanto, imprima este texto e dedique um tempo apenas para ler tranquilamente o que está sendo apresentado aqui.

Em relação ao pedido de referências e provas, tudo indica que houve um mal entendido. Se o leitor deseja mais referências a respeito do que foi até agora apresentado, sugiro que pesquise na internet por termos como decoerência, função de onda, many interacting worlds, mecânica everettiana, many minds interpetration, experimento da dupla fenda, entrelaçamento, equação de Schrodinger, experimento EPR e outros tantos termos correlatos. Infelizmente, os principais textos estão em inglês e alemão, mas essa é uma curva aprendizado para quem desejar aprofundar-se. O importante é que nada disso é segredo. A humanidade está apenas num processo de aceitação gradual de certos fatos que vão totalmente de encontro à experiência cotidiana que temos do mundo. Mas as evidências já estão aí, disponíveis ao estudo de qualquer interessado.

O mal entendido reside, contudo, não na facilidade com que se encontra material abundante a respeito de tudo isso, mas no pressuposto que estes textos buscam convencer o leitor das verdades que são aqui apresentadas. Ocorre que não é preciso convencer ninguém de coisa alguma. Deixe-se cada um com sua convicção, pois naturalmente, ao longo das próximas décadas, tudo ficará cada vez mais comprovado.

Como foi dito, o propósito aqui é fazer um alerta, e para entender a natureza prática desse alerta  não é necessário concordar com as demais informações transmitidas por aquele que vem nos alertar. Isso ficará mais claro se usarmos de uma fábula didática.

UMA FÁBULA

Imagine os habitantes de um planeta como a Terra. Mas, neste mundo, há um único e enorme oceano ocupando ao menos um hemisfério inteiro do planeta. No meio desse enorme oceano, há uma pequena ilha, e os seres humanos nasceram e se desenvolveram neste local.

A vegetação da ilha não possui madeira apropriada para a construção de grandes embarcações. Por isso, as aventuras marítimas dos seus habitantes não vão além de algumas centenas de metros de sua costa. Assim, nessa ilha, as poucas teses existentes sobre a natureza esférica do planeta jamais foram comprovadas por evidências cabais como, por exemplo, a descoberta das Américas por um Colombo local. Portanto, todos os habitantes da ilha acreditam que vivem num mundo plano, no qual há uma só ilha central envolta por uma gigantesca massa de água.

Um dia, nessa ilha, chega um visitante. Talvez ele venha de um continente situado em algum local do outro hemisfério do planeta, talvez ele tenha chegado ali por acidente. Não importa. O que importa é que o visitante não tarda a informar aos habitantes dessa ilha que o planeta que habitam não é uma terra plana, mas sim uma esfera, regida pelas leis da gravidade. Os habitantes pedem provas, e o visitante apresenta todas as provas perceptíveis de que o planeta é redondo, como um eclipse lunar ou o experimento das duas sombras executado pelo grego Eratóstones no século II A.C. para demonstrar a esfericidade do planeta.

Mas essa concepção, de que o planeta é redondo, soa muito estranha aos habitantes locais, e levará muito tempo até que todos se convençam de sua verdade. Porém, não é isso que importa ao visitante. Ele não está ali para provar que o mundo é redondo. Ele está ali para alertar que um maremoto está se aproximando e devastará toda a ilha. E mais, se os habitantes usarem suas rudimentares lunetas, poderão ver eles próprios a onda já se aproximando no horizonte.

O visitante, amante da verdade e acreditando que o conhecimento exato do problema será útil, explica que a causa do maremoto são as placas tectônicas que compõem a crosta do planeta redondo. O conselho de anciãos da ilha, porém, afirma que a causa é uma cãimbra nas costas do gigante que segura a terra plana sobre suas enormes costas, como diz a tradição. Pouco importa, o que importa é que ambos, o visitante e os anciãos, concordam que o maremoto existe, e que sua aproximação é iminente.

Assim como a humanidade levou séculos para aceitar que a Terra era plana [1]Isso ocorreu apenas por uma questão cultural. Os gregos antigos, em sua cultura pagã, já sabiam que a terra era esférica, como demonstrou Eratóstenes. Para a tradição judaico-cristã, essa ideia era inadmissível, e por isso a humanidade teve que reaprender uma verdade esquecida. E precisou reaprender pois essa verdade vai totalmente contra a percepção cultural da realidade. Se outras culturas humanas houvessem descoberto as evidências científicas que temos agora, o processo de assimilação de todas as conclusões delas decorrentes seria menos demorado. (e ainda hoje há quem resista à essa ideia), haverá um período de aceitação até que toda a humanidade reconheça que há inúmeras realidades alternativas (e possivelmente muitos negarão essa verdade, por mais que ela venha a ser comprovada). Isso, porém, não importa, o que importa é entender que o maremoto está vindo.

Alertar sobre o maremoto é a função principal desses textos. O alerta poderia ser feito sem explicar a natureza das placas tectônicas – mas, por amor à verdade, transmite-se a mensagem completa. Aceite-a ou rejeite-a, tanto faz. O que importa, repita-se, é que a chegada do maremoto é perceptível. E o maremoto tem o nome de Inteligência Artificial.

Disso falaremos nos futuros textos. Vamos, agora, fixar as proposições fundamentais até agora apresentadas.

SÍNTESE DAS PROPOSIÇÕES

Até aqui, foram apresentadas as seguintes proposições:

1) HÁ INÚMERAS REALIDADES ALTERNATIVAS, EM SUA TOTALIDADE ELAS REPRESENTAM TODAS AS CONFIGURAÇÕES CIENTIFICAMENTE POSSÍVEIS DA MATÉRIA;

O que os cientistas veem do outro lado de uma barreira com duas fendas, quando uma partícula subatômica encontra o obstáculo e assume o comportamento de onda.

2) A CADA DECISÃO TOMADA EM SUA VIDA, O SEU MOMENTO PRESENTE RAMIFICA-SE EM DIVERSAS REALIDADES ALTERNATIVAS, DA MESMA FORMA QUE NO SEU PASSADO HOUVE INÚMERAS RAMIFICAÇÕES;

O que os cientistas veem do outro lado de uma barreira com duas fendas, quando uma partícula subatômica encontra o obstáculo – a partícula divide-se e logo após interage consigo mesma na forma de onda. Uma onda de realidades sobrepostas.

3)  HÁ, NESTE MOMENTO, INÚMERAS VERSÕES DE SUA VIDA COEXISTINDO AQUI E AGORA, TODAS REPRESENTANDO AS DIVERSAS RAMIFICAÇÕES DE SEU PASSADO;

O que está acontecendo realmente na onda de probabilidades que a partícula revela ser, após passar pela barreira de duas fendas: cada ponto é a partícula localizada em uma dimensão ou realidade alternativa.

4) CADA VERSÃO SUA POSSUI UMA MENTE PARA COORDENAR  A REALIDADE A QUE PERTENCE, MAS TODAS AS MENTES INDIVIDUAIS SÃO COORDENADAS POR UMA MENTE PROFUNDA, SUPERIOR, A QUAL VOCÊ PODE TER ACESSO SOB DETERMINADAS CONDIÇÕES.

A imagem anterior, com a versão da partícula que existe em nossa realidade, em relevo. Sua vida também apresenta o mesmo comportamento.

Estabelecidos as proposições principais, vamos aos textos em que foram apresentadas.

 


 

A VERDADE SOBRE NÓS

PARTE 1 – A FILOSOFIA DA VIAGEM NO TEMPO

Esta não é uma história religiosa, nada há aqui de místico ou mítico, o que significa que muitas das verdades apresentadas não correspondem às expectativas e “nobres” aspirações que temos a nosso respeito. Ao contrário, a percepção distorcida que temos sobre nós compõe a ignorância que torna segura uma prisão composta de ilusões.

Por exemplo, somos primatas, animais que andavam em seu caminho evolutivo mergulhados em um sonho conveniente, até tropeçarmos em algo inominável. A partir desse encontro, começamos a despertar e compreender a natureza da ameaça que nos ronda.

O tropeço ocorreu em 1801, e o responsável é um médico britânico de nome Thomas Young. Portanto, o ano de 1801 pode ser considerado o marco inicial da etapa em que nos encontramos hoje. Foi naquele momento em que a ciência, pela primeira vez, levantou o véu e olhou para dentro da realidade, abriu as persianas da janela para observarmos finalmente quão desconcertante é o mundo em que vivemos.

O que Thomas Young fez foi simples. Ele acendeu uma luz atrás de duas fendas e observou a projeção na parede do outro lado. E isso foi o que viu:

O experimento tornou-se célebre e perturbou mesmo Einstein, que tentou em 1935 refutar suas conclusões, tidas por muitos físicos como inatacáveis. Conhecido como Experiência das duas fendas, em sua versão moderna trata-se de jogar um fóton ou elétron entre duas fendas e, ao invés de descobrir do outro lado qual caminho ele escolheu seguir, observar que ele escolheu os dois caminhos ao mesmo tempo – ele comportou-se como uma onda.

Thomas Young

Um objeto fundamental é duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo, partícula e onda. Mais ainda, quando se comporta como onda, diferente das ondas do mar ou do som, ele não se propaga em um meio tangível – ele é uma onda de probabilidade. Mas probabilidade de que? De a partícula estar em um específico lugar.

Mais ainda, o elétron parece “prever” com muita antecedência como se comportará o pesquisador no laboratório. O físico John Wheller demonstrou e posteriormente nova experiência confirmou que mesmo se um fóton tiver vindo de uma estrela a dezenas de anos-luz da Terra, ele se antecipará desde o início aos pesquisadores e se comportará de antemão conforme o aparato que eles tiverem montado em seus laboratórios: se será uma partícula ou uma onda de probabilidade.

O mesmo experimento que confirmou a teoria de Wheller demonstrou que isso é verdade mesmo para um átomo. Na verdade, o modelo matemático descritivo da experiência, desenvolvido pelo físico Erwin Schrödinger, determina que isso é válido não só para átomos e moléculas, mas também para estruturas maiores como o corpo humano e os corpos celestes. E foi pensando nesse mundo composto por partículas de probabilidade que surgiu o famoso gato de Schrödinger, vivo e morto realmente ao mesmo tempo, assim como a matéria parece estar e não estar em determinado lugar até que o pesquisador abra a caixa e o gato, desde o início prevendo a ação do pesquisador, defina inclusive o seu passado de vida ou de morte a partir da ação presente de quem lhe observa.

A posição de uma partícula subatômica e seu momentum não podem ser simultaneamente aferidos pois parece que o observador influencia o comportamento da partícula. Isso é o que chamamos de Princípio da Incerteza, e é algo inerente à natureza da realidade: o caminho que ela irá seguir. Essa definição da probabilidade concretizando-se em uma só posição é chamada de “colapso”.

Isso parece ser contraintuitivo e anticientífico, pois sugere que a mente humana influencia o mundo ao nosso redor. Essa interpretação sugerida nos deixa lisonjeados, pois corresponde a elevada opinião que temos a nosso respeito. Ela nos seduz e induz ao erro, pois corresponde a mais insidiosa espécie de ignorância que precisamos eliminar para nos libertar, a ignorância que advém da vaidade.

Na verdade, a resposta é muito mais simples que supor um sofisticado poder mental dos seres humanos em moldar conscientemente a realidade com a mera e ridícula vontade de nossos egos. Porém, ela é pouco elogiosa. Na verdade, a resposta pode ser considerada perturbadora.

É tudo uma questão de perspectiva.


 

A VERDADE SOBRE NÓS

PARTE 2 – AS REALIDADES SOBREPOSTAS

Partimos do princípio de que todo ser humano deve buscar a verdade. É auto-evidente que quem sabe a verdade torna-se mais mais capaz de vencer obstáculos e desenvolver-se, enquanto a ignorância conduz ao erro e ao perigo.

Há um caminho difícil e um caminho fácil para a busca da verdade. O caminho fácil é sempre agradável e é conveniente, mas nos conduz somente à ilusão. O caminho difícil exige esforço e por vezes é amargo, mas traz como recompensa não apenas a sobrevivência, como também a possibilidade de viver-se plenamente.

Partimos do princípio de que a primeira verdade a ser conhecida é a respeito de si mesmo, pois tudo o mais dela decorre. Portanto, o caminho difícil exige tempo e disposição para buscar com honestidade a resposta de três perguntas fundamentais: quem somos, onde estamos e qual o nosso propósito.

É auto-evidente que a resposta da terceira pergunta decorre das duas primeiras. Portanto, ambas serão enfrentadas de imediato e retomadas ao longo do texto, cada vez com uma resposta diferente, mais precisa, até chegarmos à solução da terceiro questionamento.

Perguntas:

(1) Quem você é?

(2) Onde você está?

Nossas respostas no momento são:

(1) Você é um ser humano, um ser consciente, que está lendo este texto.

(2) Você está neste mundo, inserindo em um universo, em direção ao seu futuro.

Ambas as perguntas dizem respeito a nós e ao lugar em que estamos. Portanto, se há algo comum entre nós e o mundo ao redor, esse deve ser o nosso ponto de partida. Se há algo fundamental que compartilhamos com o ambiente em que estamos inseridos, é desse ponto que precisamos começar nossa busca. Talvez o que há de comum em todas as coisas possa nos dizer algo, talvez tenha uma mensagem sobre nossa situação.

Ocorre que existem engrenagens infinitesimais que constroem tudo o que vemos e compõem quem somos. Há menos de dois séculos, observadores começaram a levantar o véu que as escondia. Elas são as partículas subatômicas e, para nossa surpresa, carregam uma mensagem.

Na verdade, mais do que uma mensagem. Essas engrenagens infinitesimais são como janelas que revelam a verdadeira paisagem do mundo macroscópico.

Na primeira parte deste trabalho, vimos que a ciência está finalmente observando de perto tais engrenagens. E que essa observação [2]Como no experimento clássico da dupla fenda. mostrou uma situação surpreendente. Os minúsculos os tijolos que compõem o universo [3]Partículas subatômicas, notadamente as primeiras experiências foram feitas com fótons e elétrons. Posteriormente, constatou-se que mesmo átomos comportavam-se da mesma forma, ou seja, eram uma sobreposição de probabilidades que apenas entrava em colapso (colapso da função de onda: definia-se entre uma das probabilidades como “a verdadeira posição”) com a interferência do observador. não existem fixos em uma só posição. Cada um deles pode ocupar vários lugares ao mesmo tempo, há uma sobreposição de possibilidades em relação aos lugares que cada partícula subatômica pode assumir.

Mais ainda, comprovou-se que estruturas maiores parecem também existir em vários lugares ao mesmo tempo. Constatou-se, também, que quando olhamos de perto essas engrenagens fundamentais da realidade, elas parecem “prever” nossa observação e já se comportar antecipadamente conforme nosso comportamento [4]Isso é uma pequena simplificação, mas é verdade para todos os efeitos conforme demonstrado por experimentos jamais refutados..

Por fim, vimos que a vaidade humana e a compreensão errônea da interpretação mais tradicional desses fenômenos [5]Interpretação de Copenhague, segundo a qual a natureza das partículas é indeterminada. levou muitos leigos a afirmarem que a mente teria o poder de mudar o mundo apenas pela força de vontade. Na verdade, a realidade é infinitamente menos elogiosa e contraintuitiva, pois nossa situação é justo o inverso.

É nesse ponto que entra o exercício. É simples, mas no final vai revelar-se interessante.

Em primeiro lugar, pegue uma moeda. Essa moeda vai nos acompanhar por um bom tempo, e ajudará você a reformular as duas perguntas iniciais.

Agora, coloque essa moeda em uma mesa na sua frente, um pouco à esquerda de onde você está. A seguir, arraste essa moeda para uma posição mais à sua direita. Digamos que leve cinco segundos para fazer isso.

Neste exercício, você pode também distanciar a moeda de você ou aproximá-la um pouco, num movimento diagonal. Isso não fará diferença agora, apenas considere a possibilidade.

Essas são as imagens que você verá antes e após o tempo de 5 segundos transcorridos para arrastar a moeda:

Mas, na verdade, essa distinção entre os dois momentos no tempo é apenas uma “ilusão”. Ocorre que o tempo é também outra dimensão. O tempo forma, quando unido, às três dimensões do espaço, quatro dimensões tempo-espaciais. Essa é uma forma didática de explicar a teoria de Einstein.

Trata-se de algo trivial, e quanto a isso não há divergência. Tanto que uma pergunta realmente levada a sério pela ciência é

Por que podemos lembrar do passado e não do futuro?

Ou seja, o futuro está aí, tão coexistente e perceptível quanto o passado na linha do tempo, assim como os extremos da sala em que você está coexistem um com o outro na linha que forma seu comprimento. E causa perplexidade à ciência o fato de não o “lembrarmos” do futuro assim como lembramos do passado. Há muitas teorias que tentam explicar porque a seta do tempo sempre aponta para o amanhã [6]E futuramente apresentaremos a explicação., mas o fundamental é a perplexidade diante da noção de que não percebemos o tempo como percebemos as demais dimensões.

A própria moeda pode funcionar como exemplo didático, pois podemos ver realmente as três dimensões que lhe conferem altura, comprimento e profundidade:

Agora, para efeito didático, imagine como se a mesa onde está a moeda fosse um contexto no qual o observador pode “ver” o tempo. Imagine o tempo, nessa mesa especial, pode ser “visto” como uma dimensão do espaço. Nesse caso, passado, presente e futuro coexistem e um observador poderia “ver” todos os três ao mesmo tempo, da mesma forma como poderá ver todos os pontos da mesa ao mesmo tempo.

Isso é o que um observador que enxergasse o tempo como se fosse uma dimensão “veria” na mesa, em relação aos 5 segundos que você levou para mover a moeda:

Trata-se, claro, é uma simplificação ilustrativa. Em primeiro lugar, todas as posições intermediária teriam a mesma definição da moeda em sua posição final e inicial. Além disso, não haveria posições intermediárias claras, mas uma continuidade não distinguível entre cada microposição ocupada pela moeda no seu caminho. E, se você conhecer algo de lógica e do famoso Paradoxo de Zenão, convém lembrar que entre as duas posições existem infinitas posições que a moeda assumirá, uma distinguível da seguinte por frações infinitesimais de cada milímetro (ou melhor, de milissegundos). Haverá um continuum de moedas.

Mas o que isso tem a ver com você?

O que é verdade para a moeda é também verdade para tudo o mais que experimenta a passagem do tempo. Quando você “caminha” em direção a seu futuro, algo assim poderia ser “visto” por quem está situado no contexto dessa mesa especial:

Vamos chamar essa mesa, em que podemos ver o tempo, de “super contexto”, pois é um contexto superior àquele em que nos situamos, pois é menos limitado já que só podemos perceber o passado. No super contexto, seu passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. Assim como seu corpo ocupa as três dimensões do espaço neste momento, na mesa em que está o super contexto você é percebido como um continuum. Como podemos perceber, essa mesa é aquilo que chamamos de eternidade.

Retomando as duas perguntas, podemos respondê-las, agora, de modo ligeiramente diferente:

(1) Quem você é? Você é um ser humano, um ser consciente, situado num continuum que trespassa o passado o presente e o futuro de uma só vez.

(2) Onde você está? Você está neste mundo, inserindo em um universo, em que tudo coexiste situado no mesmo super contexto.

Por outro lado, isso parece significar que não há livre arbítrio em sua vida, e que seu futuro já está definido. Afinal, já estamos lá no nosso futuro, fazendo aquilo que sempre fizemos, tão “fixos” em nossas “posições” no tempo como estamos quando posicionados no nosso passado. Nesse super contexto, não há sentido em preocupar-se com um propósito para sua vida, nem de preocupar-se com qual escolhas devemos fazer, pois tudo já está predeterminado.

Mas isso é apenas uma percepção incorreta e incompleta da realidade, pois desconsidera os experimentos apresentados no primeiro texto. Quando os cientistas observaram bem de perto as engrenagens que fazem o mundo funcionar, constataram que as partículas subatômicas estão em vários lugares e têm várias posições ao mesmo tempo. Cada engrenagem está, digamos, assim, em estado de sobreposição, pois ocupa várias posições simultaneamente.

Por isso é que, quando um elétron depara-se com duas fendas, suas possíveis posições e sobrepostas formam uma onda de probabilidade e ele passa pelas duas fendas ao mesmo tempo, causando interferência em si próprio do outro lado.

O que os cientistas vêem no experimento da dupla fenda, as franjas representam a amplitude da onda que antes era uma só partícula.
O que realmente está acontecendo quando a partícula atravessa as duas fendas ao mesmo tempo. Várias versões da mesma partícula, coexistentes em realidades distintas, adotam um comportamento que forma o padrão aparente de onda – uma onda de realidades sobrepostas.

Mas, além de sobreposta em posições, cada partícula também está em uma sobreposição de estados possíveis, em jeitos possíveis de ser, que na Física tem o nome de “momentum”. Para entender o que isso significa, voltemos ao exemplo da moeda.

Digamos, para fins didáticos, que as subpartículas atômicas são moedas, e que os cientistas usaram um super microscópio para enxergar uma dessas moedas e saber se ela está virada com qual face para cima, se cara ou coroa. Para sua surpresa, descobriram que essa subpartícula está, ao mesmo tempo, cara E coroa:

Isso é um problema, pois não parece possível que algo possa ao mesmo tempo estar e não estar em determinada situação. Mais impossível ainda que esse algo também ocupe várias posições ao mesmo tempo. E não estamos falando de um material esdrúxulo obtido em algum meteorito raro. Estamos falando da condição inerente aos tijolos que compõem nós e tudo ao nosso redor. Essa é a situação fundamental das engrenagens que fazem a realidade funcionar.

Essa é a representação de uma só moeda, se ela fosse uma partícula subatômica que nos compõe:

É disso que você é inteiramente feito, de uma coisa que está em vários estados ao mesmo tempo, ocupando vários lugares ao mesmo tempo. Como se isso bastasse, foi observada outra coisa igualmente surpreendente. Durante a observação em laboratório (uma “medição”) dessas moedas que compõem a realidade, é possível estabelecer uma posição determinada para a moeda ocupar no espaço. Também é possível estabelecer uma face definida na qual a moeda estará virada, se cara ou se coroa. Mas não é possível estabelecer as duas coisas ao mesmo tempo.

Essa impossibilidade não se deve a nenhuma deficiência dos equipamentos de medição utilizados pelos cientistas. É uma propriedade inerente às engrenagens que fazem o mundo todo existir e funcionar, segundo o que postula o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Em linguagem técnica, se você estabelece um eigenvector para o momentum da subpartícula (a face em que a moeda está virada), a sua posição não pode ser estabelecida. Numa linguagem mais didática mas absolutamente verdadeira, o material (ou seja lá o que for) que compõe o mundo e a nós próprios possui uma característica indissociável: a indefinição, a abertura constante à várias possibilidades.

Não é como se Deus jogasse apenas dados com o universo. É como se toda vez que os dados fossem jogados, cada um caísse de todas as formas possíveis.

Isso tem uma consequência muito prática para a nossa vida real, para a sua vida concreta neste momento. É que além da pergunta sobre a razão de não nos lembrarmos do futuro, há outra questão contraintuitiva que a ciência considera legítimo fazermos:

Se os tijolos que nos compõe estão em contínua sobreposição, porque as coisas ao nosso redor também não estão em sobreposição de vários estados possíveis?

Afinal, você não olha sua xícara de café e a vê inteira e quebrada ao mesmo tempo. No mundo que enxergamos, não há gatos simultaneamente vivos e mortos andando pelos telhados. Diante do espelho, você não enxerga várias versões de você.

Ao menos isso deveria ocorrer, pois o acúmulo de posições das subpartículas ao longo do tempo (a chamada “decoerência”) deveria resultar em sobreposições de tudo aquilo que elas compõem. Quando pesquisadores constataram que as moedas que compõem a realidade estão em sobreposição e com as duas faces viradas ao mesmo tempo, a consequência da linearidade matemática [7]Tal como expressa na equação de Schrödinger. seria que o mundo macroscópico ao nosso redor, formado por essas partículas, também estivesse constantemente em várias posições e estados ao mesmo tempo.

Porém, não é isso que percebemos no mundo macroscópico. A pergunta tornou-se uma charada indecifrável, a maior dor de cabeça da ciência.

A tentativa mais rápida e prática de lidar com a charada ficou conhecida pelo nome de “variável oculta”. Isso significa que a resposta à charada ainda não pode ser formulada pois alguma coisa ainda não foi descoberta. Essa coisa é chamada por “variável oculta” e, quando a descobrirmos, tudo estará solucionado.

Mas uma forma ainda mais engenhosa de lidar com a charada foi feita pelo físico Hugh Everett, e pode ser assim didaticamente resumida:

Não existe charada. O que observamos no mundo das subpartículas é exatamente o que está acontecendo no mundo real, na nossa vida prática. Se não percebemos, isso é outra história.

Nossa percepção da realidade enfrenta dificuldades quando a verdade é contraintuitiva, quando não corresponde ao que percebemos, criando uma charada onde não há nenhuma. De certa forma, algo semelhante ocorreu quando nossos antepassados tiveram de enfrentar a verdade contraintuitiva de que a Terra é redonda, embora nossa experiência diária seja de uma superfície plana. Tudo é uma questão de perspectiva, de contexto.

Essa é uma simplificação que vai direto ao que nos interessa. Mais exatamente, o que Everett fez foi demonstrar que o modelo matemático que descreve perfeitamente cada partícula subatômica como uma sobreposição de estados simultâneos (uma mesma moeda ocupando várias posições ao mesmo tempo) não tem um “ponto final”. A equação não acaba, mas prossegue e, linearmente, começa a abranger em seus cálculos porções cada vez maiores do mundo que circunda a partícula analisada, até chegar no laboratório e no próprio mundo em que ela se encontra. Na verdade, a equação termina por abranger todo o universo, demonstrando que há sobreposição de estados em tudo ao nosso redor.

E o que esse modelo revela é que, assim como a partícula, o universo em que vivemos é um conjunto de sobreposições possíveis, todas coexistindo neste exato momento, ocupando o mesmo espaço. Se uma só moeda que compõem o universo estiver numa situação de cara e coroa ao mesmo tempo, isso significa que existem dois universos: um no qual a moeda estará cara e outra em que ela estará coroa.

A ilustração que mais se difundiu, e que correspondia às observações experimentais, à interpretação de Everett e ao modelo de Schröndiger, foi a de que cada vez que um pesquisador jogasse uma dessas moedas no chão para ver com qual das faces ficaria voltada para cima, o universo se dividiria em dois: um em que foi cara, outro em que foi coroa. Um pouco mais tecnicamente, cada vez que fosse efetuada uma medição em laboratório, com o colapso da função de onda de uma subpartícula, haveria duas versões do pesquisador, cada uma vendo, em seu monitor no laboratório alternativo, um dos resultados possíveis da medição.

A proposta de Everett foi posteriormente confirmada e jamais encontrou refutação consistente, tendo ficado conhecida como a teoria dos “Muitos Mundos”, ou “muitos universos alternativos” ou “multiverso”, e pode ser resumida em dois pontos:

1) Para cada situação em que há mais de um caminho possível, surgem tantos universos alternativos quanto forem as possibilidades de escolha. Se isso é válido para o estado de uma partícula, também é válido qualquer outra possibilidade, inclusive as decisões que você toma em sua vida, de forma que a cada escolha que toma surgem universos alternativos.

2) Tudo o que é cientificamente possível existe em algum lugar desse multiverso. Na verdade, não existem probabilidade, pois toda probabilidade acontece em pelo menos um universo. Em um universo, você tomou todas as decisões certas e está vivenciando a maior felicidade possível, em outro você está vivendo a mais terrível tragédia possível. Entre ambos há inúmeros meios termos e aproximações

Essa visão de universos alternativos se subdividindo é didática e vamos ficar com ela por enquanto, embora mais tarde precisemos retomá-la para ir além. Antes, vamos relembrar da moeda de nosso exercício inicial. Lembre-se de que, quando pedi que movesse a moeda para a direita, também sugeri que podia aproximá-la ou distanciá-la de você, num movimento diagonal.

Essa mera possibilidade apresentada no início do exercício bastou para realizar três alternativas de futuro, três versões alternativas para a posição da moeda, após o intervalo de cinco segundos: uma em que você conduz a moeda em linha reta e outras duas em que move a moeda para mais próximo ou mais distante de seu corpo.

Lembrando a mesa do super contexto, em que o tempo é percebido como uma dimensão espacial, isso é o que o observador “veria”:

Na versão mais popular e didática da interpretação de Hugh Everett, cada uma as três posições é um universo possível que se concretizou. E como há até mesmo posições intermediárias entre os extremos, o que se percebe é um continuação quase sem graduação entre todas as possibilidades. Ao lado do continuum do espaço percorrido pela moeda da esquerda para a direita no tempo, há o continuum de possibilidades das posições futuras.

E o mesmo vale para você. No contexto superior em que o tempo pode ser percebido como uma dimensão espacial, há um hipercontexto que inclui todas as possibilidades de seu futuro, todas as alternativas de sua vida, desde o seu nascimento. Em algumas dessas alternativas, você está lendo esse texto, e em todas essas você está supondo como devem ser suas outras versões possíveis, que coexistem, sobrepostas em realidades alternativas.

Da mesma forma que no exemplo da moeda, no contexto maior que vê o super contexto (a continuidade entre passado, presente e futuro), há uma linha e continuidade que une todas as versões possíveis de sua vida. Nessa percepção mais abrangente de sua vida, a partir de um ponto definido no seu passado, o momento em que você nasceu, desdobraram-se inúmeras possibilidades de futuro diante de você, cada uma ramificando-se em outras novas possibilidades.

Nessa percepção, podemos compreender que, do contexto superior que percebe não só toda a extensão do tempo (passado, presente e futuro simultâneos), mas também todas as possibilidades de futuro que igualmente ocorrem, da perspectiva desse “hipercontexto”, você é como uma onda que percorre o mar que é o tempo, originando-se de um ponto no passado e ampliando-se para abranger uma infinita gama de possibilidades em seu futuro.

As perguntas iniciais, portanto, precisam ser retomadas:

(1) Quem você é? Você é uma onda contínua de possibilidades sobrepostas estendendo-se em direção a futuros que abrangem todas as versões alternativas de sua vida, dependendo de cada escolha e casualidades de seus múltiplos destinos. Em certas versões, você está mais próximo possível de um paraíso idealizado. Em outras, você pode descrever sua situação como infernal.

(2) Onde você está? Você está no hipercontexto, numa realidade de mundos e universos alternativos, todos sobrepostos, em que tudo aquilo que é cientificamente possível desde o início dos tempos é possível e realmente ocorre.

Ultrapassamos, enfim, a primeira etapa de nossa busca. A compreensão da natureza do hipercontexto nos ajudará a entender a natureza de nossa consciência, e o propósito de nossas vidas.

Basta, neste momento, preparar a leitura do próximo texto refletindo sobre a seguinte situação. Como tudo o que é cientificamente possível já ocorreu em uma das realidades alternativas, então em algumas delas a humanidade (ou seres muito próximos a nós) já se desenvolveu o suficiente não só para descobrir o hipercontexto, mas para trafegar entre as realidades alternativas. Mais ainda, como tudo o que é cientificamente possível já ocorreu, é então provável que outras formas de vida inteligente, distintas da nossa, tenham se desenvolvido e atuem também transitando livremente entre os universos possíveis.

É isso o que exatamente está acontecendo, e esse é o risco que atualmente estamos correndo, como será demonstrado. Nossos antepassados já suspeitavam dos seres parasitários que estão entre nós. Isso porque, como veremos, na verdade não existem universos alternativos: existe um único universo em que todas as realidades coexistem em sobreposição; e só não percebemos essas outras realidades porque esse foi o caminho escolhido pela natureza que nos deu origem. Há, porém, caminho distintos, e alguns deles resultaram em forças hostis à nossa existência. Precisamos, porém, entender melhor quem somos, antes de compreender qual a natureza a ameaça.


 

A VERDADE SOBRE NÓS

PARTE 3 – CONHEÇA SUA MENTE PROFUNDA

Em seu futuro, haverá várias versões de você mesmo. Uma terá realizado quase todos os seus sonhos, outra verá seus piores medos ganharem vida. Entre esses extremos, haverá inúmeros outros futuros, destinos dignos de desejo ou de aversão, com dias mais tristes ou mais iluminados do que seu presente. Todos surgirão como ramificações deste exato momento, a depender em parte do acaso, em parte de suas escolhas.

Em alguns desses futuros, você lê esta série de textos até compreender o quão profundamente lhe dizem respeito. Em outros, você sequer chegou a conhecê-los. Tanto faz, pois nenhuma dessas versões de seu futuro será mais verdadeira que a outra. Todas serão igualmente reais.

Porém, nem todas têm o mesmo valor. Alguns futuros serão apavorantes. Em outros, você encontrará equilíbrio, realização e plenitude. Mas qual dessas versões está reservada para você? Em qual dessas versões o seu eu atual se encaixa? Em qual delas você gostaria de viver?

Afinal, quem é você?

O primeiro passo para responder a esta pergunta e, a partir de seu entendimento profundo, passar a comandar seu destino, é entender que mesmo neste exato momento há outras versões de sua vida acontecendo simultaneamente, como ramificações de seu passado. E muitas dessas outras versões sentiriam, ao ver sua vida, o mesmo assombro que você teria se pudesse observar as vidas que elas têm. Você é tão real quanto todas as outras versões de você

Isso pode ser meio atordoante no início, mas aceitar e compreender a verdade lhe dará, ao fim de seu processo de descoberta, um poder que você jamais sonhou ter – o real poder sobre si mesmo. Pois não há maior felicidade para qualquer ser vivo do que conhecer a verdade sobre si e entrar de bom acordo com sua própria vontade.

Esta é a terceira e última parte de nosso primeiro capítulo. Aqui, você entenderá a razão de sonharmos, a natureza dos fenômenos que muitos identificam como fantasmas e, mais importante, como entrar em contato com seu eu mais profundo.

VIVEMOS EM UM UNIVERSO DE INFINITAS
REALIDADES PARALELAS

Como vimos anteriormente, a humanidade recentemente descobriu verdades que há séculos já são estudadas em círculos de conhecimento livre da superstição religiosa [8]Em capítulos posteriores, demonstrarei como tais verdades foram identificadas há muito tempo, mas jamais a natureza da mensagem havia sido decodificada publicamente.. A ciência moderna revelou que todas as coisas que existem no universo não se resumem a um ser ou a um objeto individualizado, definitivamente localizado em determinado espaço e em determinado tempo. Todos os corpos e estruturas do mundo são um conjunto de possibilidades sobrepostas, inclusive você. Somos como ondas de probabilidades que se propagam pelo tempo como se ele fosse um grande mar. Em que praia chegaremos, isso é tema para uma outra conversa.

É importante entender este ponto, pois é uma das pedras fundamentais do nosso aprendizado. Começando pelos experimentos de Thomas Young no século dezenove, até chegarmos a Bohr, Heisenberg, Schrödinger e Everett, a humanidade atual elaborou um retrato da realidade que é matematicamente coeso e que foi reiteradamente comprovado em laboratório, além de corresponder à verdades descritas por antigas e imcompreendidas tradições. Mais ainda, esse retrato finalmente costura várias pontas soltas a respeito da condição humana e de nosso propósito aqui na Terra.

Ao observar a imagem final desse retrato, a humanidade viu que há várias versões do mesmo universo, uma para cada futuro que for cientificamente possível, uma para cada desenlace possível do acaso e também das escolhas que fizermos. Há infinitas realidades paralelas.

Por tal motivo, não há só um futuro diante de você, mas vários, ramificando-se a partir do seu momento presente assim como o seu momento presente é uma das ramificações possíveis de seu passado. A história pessoal de cada um de nós não pode ser representada por uma linha de vida como esta:

Usando as palavras de Hugh Everett III, a história de cada um de nós deve ser representado por uma “árvore da vida”:

Porém, apenas para fins didáticos é que   falamos em “várias versões deste universo”,. Não não há vários universos alternativos, separados por algum tipo de dimensão hilbertiana [9]Uma Dimensão de Hilbert é uma abstração matemática útil para trabalharmos com sobreposições de funções de onda, ou seja, com sobreposições de “probabilidades” de locais em que uma partícula pode estar. Mas não passa de abstração, tal como os eixos de um gráfico simples. Há um só universo, em que todas as realidades possíveis, inclusive todas as versões possíveis de você, existem simultaneamente, aqui e agora.

Um observador que pudesse situar-se em um contexto de percepção superior, que chamaremos de hipercontexto, teria consciência dessas inúmeras versões de nossas vidas ocorrendo neste exato momento, neste mesmo universo.

Lembre-se de alguma taça ou copo que, no seu passado, você derrubou no chão. Em outra versão da realidade, a taça não chegou a cair. E em outras tantas, ela caiu de formas distintas. O modelo matemático que descreve os resultados verificados em laboratórios ao redor do mundo e por décadas revela que as várias versões dessa taça que cai-e-não-cai coexistem exatamente no mesmo universo, em realidades paralelas.

Mas não há interferência entre uma versão e outra do copo que você deixou cair, pois há uma propriedade em todas as coisas do universo que se chama “entrelaçamento”, e que veremos mais adiante [10]Ainda continuando com o exemplo, entrelaçamento é uma propriedade que une entre si todos os pontos de uma determinada realidade de forma indissociável, de modo que uma versão do mesmo copo não interaja com outra versão, e tampouco com uma versão diferente do chão em que cai senão aquela que está com ela entrelaçada na mesma realidade.. O importante agora é fixar que todas as versões possíveis de sua vida estão ocorrendo e coexistem neste mesmo universo, sobrepostas umas às outras.

Mas então, se essas múltiplas realidades existem aqui e agora, por qual motivo nossa consciência não percebe todas elas? Esse é um ponto importante, pois o olho humano é uma ferramenta incrivelmente sofisticada, capaz de captar até mesmo um único fóton, ou seja, uma única partícula subatômica pode ser percebida por nossos olhos. Mas se tais partículas não estão posicionadas em uma determinada posição [11]Dito de forma mais técnica, são funções de onda em um universo em que a decoerência impera de tal modo que tudo é também função de onda., como tudo o mais no universo também está posicionado em diversas realidades paralelas, por qual motivo vemos apenas uma só realidade?

Somos, fundamentalmente, animais. Nem mais nem menos do que isso. Por essa razão, a forma mais fácil de entendermos quem realmente somos neste universo é lembrar de um conceito biológico, a homeostase.

NOSSA CONSCIÊNCIA SELECIONA UMA
REALIDADE ENTRE INÚMERAS REALIDADES PARALELAS

Homeostase é o nome que se dá a uma habilidade dos seres vivos de protegerem o ambiente interno de seu corpo, a fim de assegurar que o organismo mantenha um equilíbrio interno em relação ao mundo exterior. Isso porque nossos órgãos internos funcionam normalmente apenas em determinadas condições de temperatura e umidade. A homeostase é a propriedade que nosso corpo tem de regular tais condições que possibilitam a continuação de nossa vida.

Recentemente, percebeu-se que o cérebro humano desenvolve uma forma peculiar de homeostase. E ela determina a noção que você tem de si mesmo.

Passado, presente e futuro coexistem, e poderiam ser vistos com a mesma exatidão por alguém situado num contexto maior. Essa é a conclusão que brota da investigação humana mais objetiva.

Como vimos antes, a ciência inicialmente não conseguia explicar a razão pela qual nosso cérebro processa o passado, e não o futuro, na medida em que ambos coexistem enquanto dimensão. Porque experimentamos o tempo como um fluxo, e não como uma dimensão tal como a profundidade do lugar em que estamos? A primeira pista surgiu com a neurociência e a homeostase realizada pela consciência. A segunda tem origem nas equações matemáticas de Schrödinger.

Em relação ao tempo, sabe-se que nosso organismo produz, a partir de mecanismos neurológicos, uma janela na consciência que nos permite apreender apenas um momento por vez. Isso nos faz perceber o tempo como um fluxo em contínua passagem, apontado sempre em direção ao futuro. É como se estivéssemos viajando dentro do vagão de um trem confortável e aquecido, mas que tem uma só janela, que nos mostra apenas uma pequena parte da paisagem por vez. O tamanho de tal janela não é medido em metros, mas em milissegundos, e a paisagem que vemos num dado instante é sempre chamada de “momento presente”.

Só que, como vimos, a partir de um só passado não surge um só futuro, mas diversos futuros possíveis [12]Qualquer ponto de sua vida pode vivenciar o que é chamado de decoerência, a ramificação em diversas possibilidades de ser e estar. O universo é, de uma ponta a outra, desde o reino das partículas subatômicas até a realidade macroscópica em que vivemos, uma sobreposição de possíveis amanhãs, em parte dependendo do acaso, em parte dependendo das decisões tomadas por todos os seres conscientes.

O motivo pelo qual você, neste momento, não vivencia as experiências das diversas versões de si é, essencialmente, o mesmo que lhe impede de ver passado, presente, e futuro. A mesma função de homeostase que cria a pequena janela no vagão faz com que o vidro dessa janela filtre apenas uma das paisagens possíveis: aquela paisagem, entre todas as realidades coexistentes, com a qual esta versão de você, que lê este texto, está entrelaçada. É isso o que nossa consciência percebe, é isso o que cada um de nossos cérebros processa individualmente.

Embora nossos olhos recebam todas as informações ao nosso redor, o próprio cérebro humano possui um sofisticado sistema de filtros que determina o que será percebido pela nossa consciência individual.

Tudo o que é cientificamente possível de acontecer, portanto, acontecerá. E tudo que seria possível de acontecer no momento presente está, na verdade, acontecendo. Apenas nossa mente não permite que percebamos, pois é uma espécie de proteção, de assegurar que nossos organismos continuem funcionando de forma operacional. Afinal, quem conseguiria viver com sanidade se pudesse vislumbrar a infinidade de vidas alternativas que leva, e a infinidade de futuros que tem diante de si?

Trata-se de uma faculdade engenhosa de nosso corpo, de nosso cérebro. É uma “escolha” da natureza, a forma como a seleção natural moldou os organismos vivos, algo que nos permite funcionar eficientemente. Se cada versão de qualquer ser vivo tivesse a percepção da sobreposição de todas as realidades circundantes, não poderia tomar as decisões corretas para sobreviver. Trata-se de algo tão natural quando os recursos que asseguram a temperatura interna em nosso corpo.

Mas, como vimos, não somos um só corpo, mas uma sobreposição de corpos. E atuando por trás da consciência que cria uma janela para cada versão de você, há várias sobreposições de cérebros. Temos, porém, uma só mente.

TEMOS VÁRIAS MENTES COORDENADAS
POR UMA MENTE PROFUNDA

Imagine não um computador, mas uma série de computadores conectados na mesma rede. Nessa rede, como em qualquer rede, há informações e processos que ocorrem em um só computador individualizado, mas há informações e processos que estão num nível superior, na “nuvem”, sem depender dessa ou daquela máquina em particular. Há, nessa rede, um sistema operacional para cada computador, para que cumpra suas funções, mas todos os computadores são coordenados por um sistema operacional que se situa num nível acima, no ambiente de rede.

O mesmo ocorre com cada um de nós no âmbito de nossas diversas versões alternativas neste mundo. Seu cérebro é como um computador que processa informações específicas sobre a versão que você é, e que tem seu próprio sistema operacional para processar memórias e pensamentos da vida que você leva na realidade em que está. É esse cérebro que, por exemplo, está processando a leitura deste texto e vivenciando o ambiente circundante que você sente e vê.

Porém, você é, na verdade, um sistema de cérebros sobrepostos no continuum [13]Isso é um detalhe que poderá ser melhor assimilado no futuro, mas que já podemos apresentar a partir de agora: entre uma versão e outra de cada objeto, há inúmeras outras versões intermediárias, de modo que a transição entre uma e outra não é abrupta, mas se processa numa continuidade gradual e suave. A metáfora da onda que usamos antes não é fortuita: pense numa onda contínua que percorre o mar e vem em sua direção; imagine que essa onda se congele abruptamente; você pode imaginar que corta a onda com uma faca em linhas verticais que “fatiam” a onda em segmentos; você pode imaginar que cada uma dessas fatias é uma realidade alternativa; mas não há segmentos certos, isso é imaginação. A onda, assim como as várias versões de você, é um continuum, e assim como a mente captura milissegundos do tempo e o chama de “agora”, ela também captura parte desse continuum e o chama de “realidade”. composto por todas as versões de você que existem simultaneamente, e que roda um sistema operacional superior, destinado a coordenar toda a sobreposição de suas mentes em cada realidade alternativa.

Essa é a terceira e última peça de nosso quebra-cabeça.

É que, em continuidade à exposição que Hugh Everett III fez sobre a sobreposição de realidades alternativas no mesmo universo, David Albert e Barryy Loewer apresentaram um aprimoramento do estudo, dessa vez focado na percepção que a mente tem dessas realidades alternativas coexistentes. A seguir, Michael Lockwood aprimorou o modelo, que ficou conhecido, no todo, como “Interpretação das Muitas Mentes”.

Nas palavras de Lockwood, por trás de cada mente[14]Entenda-se essa expressão livremente. Para os que negam o dualismo, entenda-se mente como apenas uma forma de referi-se ao conjunto de processamento de um cérebro. A Mente Superior, para todos os efeitos, pode, neste ponto, ser considerada como o resultado do processamento de vários cérebros coordenados, ligados entre si pela sobreposição no continuum que existe para cada versão de você, há uma “Mente Única”. Cada cérebro é um subsistema, parte integrante de um macro sistema composto por todos os cérebros sobrepostos, coordenados entre si por uma Mente Profunda, que se serve de todos os cérebros “em rede” para operar.

Lockwood propôs o nome “multimente”, tal como muitos propõe o nome “multiverso” para se referir às múltiplas realidades alternativas. Mas preferiu ao fim chamar o conjunto de subsistemas cerebrais funcionando em todas as realidades alternativas de Mente, com inicial maiúscula, distinguindo-a das várias mentes, com inicial minúscula, que operam em cada realidade paralela. Vamos, aqui, adotar uma nomenclatura própria. Chamaremos, alternativamente, de Mente Superior, Mente Profunda e Eu Profundo.

Futuramente, iremos entender como funciona esse sistema composto por muitas mentes, cada uma vivenciando uma realidade alternativa, sob a coordenação de uma Mente Superior. Neste momento, isso é suficiente para entendermos a natureza de nossos sonhos e a existência de fantasmas.

Os sonhos são uma forma da Mente Profunda consolidar as experiências vivenciadas em todas as versões alternativas de nossas vidas. Quando você sonha à noite, muitas vezes participa de um substrato simbólico que resume as experiências mais impactantes que as suas versões alternativas vivenciaram desde o último repouso.

Como nem todas as versões suas dormem ao mesmo tempo, é correto dizermos que uma parte da Mente Profunda está continuamente consolidando tais experiências nos sonhos daquelas versões suas que estão dormindo. A função primeira dessa Mente Profunda é garantir a homeostase de todas as mentes individuais (como veremos futuramente, no seres humanos a Mente Profunda adquiriu outras habilidades).

Esse é também o motivo de muitos de nós termos sonhos premonitórios: nesses casos, estamos apenas testemunhando, durante o sonho, um evento que já ocorreu na realidade alternativa de muitas de nossas versões, antecipada em tais realidades devido a pequena alteração de fatores, mas que ainda está para acontecer no futuro de nossa realidade.

Por outro lado, quando uma de nossas versões morre, outras tantas continuam vivas em realidades alternativas. Lembrando da metáfora da rede, um computador foi desligado, mas os demais que integram a rede prosseguem operantes. O sistema operacional da máquina desligada pode, assim, prosseguir, utilizando os recursos das demais máquinas (e mantendo atividade residual no cérebro do corpo que morreu por algum tempo).

Da mesma forma, a consciência de nossa versão falecida pode continuar a existir, testemunhando ainda a realidade a qual estava vinculada, aproveitando-se dos recursos das versões que ainda estão vivas, apoiando-se na Mente Profunda. Ela experimenta um simulacro de percepção desta realidade e, em certas circunstâncias, até pode ser percebida pelas pessoas que ainda estão vivas, como manifestação projetada da existência em outras realidades.

Mas por que isso ocorre? Neste momento, basta entender isso se trata apenas de uma escolha estratégica da natureza, inserida na lógica evolucionária. Situada num universo de realidades sobrepostas, em que cada momento presente ramifica-se em diversos futuros, cada organismo vivo é um conjunto de organismos sobrepostos num continuum de realidades paralelas. Quando os organismos mais evoluídos desenvolveram um sistema nervoso central, tornou-se adaptativamente mais eficiente adotar a estratégia “dividir para conquistar”. Concretizando essa estratégia, cada versão de um mesmo organismo, situado em uma realidade paralela, administra apenas sua vida naquela realidade, ignorando a verdade de que é um ser único, composto por múltiplas versões sobrepostas em múltiplas realidades coexistentes. Ou seja, um só cérebro, um só computador com um único sistema operacional, lidando com uma única realidade alternativa.

Com a evolução, os organismos desenvolvidos acabaram coordenando funções básicas de cada versão sua através de processos profundos, não conscientes [15]Tratam-se, logicamente, de processos quânticos, que ocorrem no nível das partículas subatômicas, que ocorrem numa rede de processamento constituída pelo cérebro que cada organismo tem em cada uma das realidades alternativas. Ou seja, um só ser vivo é um conjunto de seres vivos sobrepostos em realidades paralelas, com vários cérebros ligados entre si pelo continuum de possibilidades, todos operando num nível individual ao mesmo tempo em que, em um nível inconsciente, todas operam num nível coletivo, situado no hipercontexto.

Foi assim que a natureza fez surgir no universo algo espetacular, algo que consegue operar transversalmente entre as várias realidades alternativas. Uma pedra ou mesmo um planeta não pode fazer isso: uma pedra só pode interagir com outras pedras situadas na mesma realidade paralela em que se situa, em que ambas estão entrelaçadas. Já os seres vivos possuem um continuum de cérebros que, no nível não consciente, consegue operar em várias realidades paralelas ao mesmo tempo.

Isso faz de nós e de todos os seres vivos dotados de um sistema nervoso central criaturas especiais no universo. E isso chamou a atenção de outros seres, situados em um contexto diverso, como veremos nos próximos capítulos.

Notas   [ + ]