Em seu futuro, haverá várias versões de você mesmo. Uma terá realizado quase todos os seus sonhos, outra verá seus piores medos ganharem vida. Entre esses extremos, haverá inúmeros outros futuros, destinos dignos de desejo ou de aversão, com dias mais tristes ou mais iluminados do que seu presente. Todos surgirão como ramificações deste exato momento, a depender em parte do acaso, em parte de suas escolhas.

Em alguns desses futuros, você lê esta série de textos até compreender o quão profundamente lhe dizem respeito. Em outros, você sequer chegou a conhecê-los. Tanto faz, pois nenhuma dessas versões de seu futuro será mais verdadeira que a outra. Todas serão igualmente reais.

Porém, nem todas têm o mesmo valor. Alguns futuros serão apavorantes. Em outros, você encontrará equilíbrio, realização e plenitude. Mas qual dessas versões está reservada para você? Em qual dessas versões o seu eu atual se encaixa? Em qual delas você gostaria de viver?

Afinal, quem é você?

O primeiro passo para responder a esta pergunta e, a partir de seu entendimento profundo, passar a comandar seu destino, é entender que mesmo neste exato momento há outras versões de sua vida acontecendo simultaneamente, como ramificações de seu passado. E muitas dessas outras versões sentiriam, ao ver sua vida, o mesmo assombro que você teria se pudesse observar as vidas que elas têm. Você é tão real quanto todas as outras versões de você

Isso pode ser meio atordoante no início, mas aceitar e compreender a verdade lhe dará, ao fim de seu processo de descoberta, um poder que você jamais sonhou ter – o real poder sobre si mesmo. Pois não há maior felicidade para qualquer ser vivo do que conhecer a verdade sobre si e entrar de bom acordo com sua própria vontade.

Esta é a terceira e última parte de nosso primeiro capítulo. Aqui, você entenderá a razão de sonharmos, a natureza dos fenômenos que muitos identificam como fantasmas e, mais importante, como entrar em contato com seu eu mais profundo.

VIVEMOS EM UM UNIVERSO DE INFINITAS
REALIDADES PARALELAS

Como vimos anteriormente, a humanidade recentemente descobriu verdades que há séculos já são estudadas em círculos de conhecimento livre da superstição religiosa [1]Em capítulos posteriores, demonstrarei como tais verdades foram identificadas há muito tempo, mas jamais a natureza da mensagem havia sido decodificada publicamente.. A ciência moderna revelou que todas as coisas que existem no universo não se resumem a um ser ou a um objeto individualizado, definitivamente localizado em determinado espaço e em determinado tempo. Todos os corpos e estruturas do mundo são um conjunto de possibilidades sobrepostas, inclusive você. Somos como ondas de probabilidades que se propagam pelo tempo como se ele fosse um grande mar. Em que praia chegaremos, isso é tema para uma outra conversa.

É importante entender este ponto, pois é uma das pedras fundamentais do nosso aprendizado. Começando pelos experimentos de Thomas Young no século dezenove, até chegarmos a Bohr, Heisenberg, Schrödinger e Everett, a humanidade atual elaborou um retrato da realidade que é matematicamente coeso e que foi reiteradamente comprovado em laboratório, além de corresponder à verdades descritas por antigas e imcompreendidas tradições. Mais ainda, esse retrato finalmente costura várias pontas soltas a respeito da condição humana e de nosso propósito aqui na Terra.

Ao observar a imagem final desse retrato, a humanidade viu que há várias versões do mesmo universo, uma para cada futuro que for cientificamente possível, uma para cada desenlace possível do acaso e também das escolhas que fizermos. Há infinitas realidades paralelas.

Por tal motivo, não há só um futuro diante de você, mas vários, ramificando-se a partir do seu momento presente assim como o seu momento presente é uma das ramificações possíveis de seu passado. A história pessoal de cada um de nós não pode ser representada por uma linha de vida como esta:

Usando as palavras de Hugh Everett III, a história de cada um de nós deve ser representado por uma “árvore da vida”:

Porém, apenas para fins didáticos é que   falamos em “várias versões deste universo”,. Não não há vários universos alternativos, separados por algum tipo de dimensão hilbertiana [2]Uma Dimensão de Hilbert é uma abstração matemática útil para trabalharmos com sobreposições de funções de onda, ou seja, com sobreposições de “probabilidades” de locais em que uma partícula pode estar. Mas não passa de abstração, tal como os eixos de um gráfico simples. Há um só universo, em que todas as realidades possíveis, inclusive todas as versões possíveis de você, existem simultaneamente, aqui e agora.

Um observador que pudesse situar-se em um contexto de percepção superior, que chamaremos de hipercontexto, teria consciência dessas inúmeras versões de nossas vidas ocorrendo neste exato momento, neste mesmo universo.

Lembre-se de alguma taça ou copo que, no seu passado, você derrubou no chão. Em outra versão da realidade, a taça não chegou a cair. E em outras tantas, ela caiu de formas distintas. O modelo matemático que descreve os resultados verificados em laboratórios ao redor do mundo e por décadas revela que as várias versões dessa taça que cai-e-não-cai coexistem exatamente no mesmo universo, em realidades paralelas.

Mas não há interferência entre uma versão e outra do copo que você deixou cair, pois há uma propriedade em todas as coisas do universo que se chama “entrelaçamento”, e que veremos mais adiante [3]Ainda continuando com o exemplo, entrelaçamento é uma propriedade que une entre si todos os pontos de uma determinada realidade de forma indissociável, de modo que uma versão do mesmo copo não interaja com outra versão, e tampouco com uma versão diferente do chão em que cai senão aquela que está com ela entrelaçada na mesma realidade.. O importante agora é fixar que todas as versões possíveis de sua vida estão ocorrendo e coexistem neste mesmo universo, sobrepostas umas às outras.

Mas então, se essas múltiplas realidades existem aqui e agora, por qual motivo nossa consciência não percebe todas elas? Esse é um ponto importante, pois o olho humano é uma ferramenta incrivelmente sofisticada, capaz de captar até mesmo um único fóton, ou seja, uma única partícula subatômica pode ser percebida por nossos olhos. Mas se tais partículas não estão posicionadas em uma determinada posição [4]Dito de forma mais técnica, são funções de onda em um universo em que a decoerência impera de tal modo que tudo é também função de onda., como tudo o mais no universo também está posicionado em diversas realidades paralelas, por qual motivo vemos apenas uma só realidade?

Somos, fundamentalmente, animais. Nem mais nem menos do que isso. Por essa razão, a forma mais fácil de entendermos quem realmente somos neste universo é lembrar de um conceito biológico, a homeostase.

NOSSA CONSCIÊNCIA SELECIONA UMA
REALIDADE ENTRE INÚMERAS REALIDADES PARALELAS

Homeostase é o nome que se dá a uma habilidade dos seres vivos de protegerem o ambiente interno de seu corpo, a fim de assegurar que o organismo mantenha um equilíbrio interno em relação ao mundo exterior. Isso porque nossos órgãos internos funcionam normalmente apenas em determinadas condições de temperatura e umidade. A homeostase é a propriedade que nosso corpo tem de regular tais condições que possibilitam a continuação de nossa vida.

Recentemente, percebeu-se que o cérebro humano desenvolve uma forma peculiar de homeostase. E ela determina a noção que você tem de si mesmo.

Passado, presente e futuro coexistem, e poderiam ser vistos com a mesma exatidão por alguém situado num contexto maior. Essa é a conclusão que brota da investigação humana mais objetiva.

Como vimos antes, a ciência inicialmente não conseguia explicar a razão pela qual nosso cérebro processa o passado, e não o futuro, na medida em que ambos coexistem enquanto dimensão. Porque experimentamos o tempo como um fluxo, e não como uma dimensão tal como a profundidade do lugar em que estamos? A primeira pista surgiu com a neurociência e a homeostase realizada pela consciência. A segunda tem origem nas equações matemáticas de Schrödinger.

Em relação ao tempo, sabe-se que nosso organismo produz, a partir de mecanismos neurológicos, uma janela na consciência que nos permite apreender apenas um momento por vez. Isso nos faz perceber o tempo como um fluxo em contínua passagem, apontado sempre em direção ao futuro. É como se estivéssemos viajando dentro do vagão de um trem confortável e aquecido, mas que tem uma só janela, que nos mostra apenas uma pequena parte da paisagem por vez. O tamanho de tal janela não é medido em metros, mas em milissegundos, e a paisagem que vemos num dado instante é sempre chamada de “momento presente”.

Só que, como vimos, a partir de um só passado não surge um só futuro, mas diversos futuros possíveis [5]Qualquer ponto de sua vida pode vivenciar o que é chamado de decoerência, a ramificação em diversas possibilidades de ser e estar. O universo é, de uma ponta a outra, desde o reino das partículas subatômicas até a realidade macroscópica em que vivemos, uma sobreposição de possíveis amanhãs, em parte dependendo do acaso, em parte dependendo das decisões tomadas por todos os seres conscientes.

O motivo pelo qual você, neste momento, não vivencia as experiências das diversas versões de si é, essencialmente, o mesmo que lhe impede de ver passado, presente, e futuro. A mesma função de homeostase que cria a pequena janela no vagão faz com que o vidro dessa janela filtre apenas uma das paisagens possíveis: aquela paisagem, entre todas as realidades coexistentes, com a qual esta versão de você, que lê este texto, está entrelaçada. É isso o que nossa consciência percebe, é isso o que cada um de nossos cérebros processa individualmente.

Embora nossos olhos recebam todas as informações ao nosso redor, o próprio cérebro humano possui um sofisticado sistema de filtros que determina o que será percebido pela nossa consciência individual.

Tudo o que é cientificamente possível de acontecer, portanto, acontecerá. E tudo que seria possível de acontecer no momento presente está, na verdade, acontecendo. Apenas nossa mente não permite que percebamos, pois é uma espécie de proteção, de assegurar que nossos organismos continuem funcionando de forma operacional. Afinal, quem conseguiria viver com sanidade se pudesse vislumbrar a infinidade de vidas alternativas que leva, e a infinidade de futuros que tem diante de si?

Trata-se de uma faculdade engenhosa de nosso corpo, de nosso cérebro. É uma “escolha” da natureza, a forma como a seleção natural moldou os organismos vivos, algo que nos permite funcionar eficientemente. Se cada versão de qualquer ser vivo tivesse a percepção da sobreposição de todas as realidades circundantes, não poderia tomar as decisões corretas para sobreviver. Trata-se de algo tão natural quando os recursos que asseguram a temperatura interna em nosso corpo.

Mas, como vimos, não somos um só corpo, mas uma sobreposição de corpos. E atuando por trás da consciência que cria uma janela para cada versão de você, há várias sobreposições de cérebros. Temos, porém, uma só mente.

TEMOS VÁRIAS MENTES COORDENADAS
POR UMA MENTE PROFUNDA

Imagine não um computador, mas uma série de computadores conectados na mesma rede. Nessa rede, como em qualquer rede, há informações e processos que ocorrem em um só computador individualizado, mas há informações e processos que estão num nível superior, na “nuvem”, sem depender dessa ou daquela máquina em particular. Há, nessa rede, um sistema operacional para cada computador, para que cumpra suas funções, mas todos os computadores são coordenados por um sistema operacional que se situa num nível acima, no ambiente de rede.

O mesmo ocorre com cada um de nós no âmbito de nossas diversas versões alternativas neste mundo. Seu cérebro é como um computador que processa informações específicas sobre a versão que você é, e que tem seu próprio sistema operacional para processar memórias e pensamentos da vida que você leva na realidade em que está. É esse cérebro que, por exemplo, está processando a leitura deste texto e vivenciando o ambiente circundante que você sente e vê.

Porém, você é, na verdade, um sistema de cérebros sobrepostos no continuum [6]Isso é um detalhe que poderá ser melhor assimilado no futuro, mas que já podemos apresentar a partir de agora: entre uma versão e outra de cada objeto, há inúmeras outras versões intermediárias, de modo que a transição entre uma e outra não é abrupta, mas se processa numa continuidade gradual e suave. A metáfora da onda que usamos antes não é fortuita: pense numa onda contínua que percorre o mar e vem em sua direção; imagine que essa onda se congele abruptamente; você pode imaginar que corta a onda com uma faca em linhas verticais que “fatiam” a onda em segmentos; você pode imaginar que cada uma dessas fatias é uma realidade alternativa; mas não há segmentos certos, isso é imaginação. A onda, assim como as várias versões de você, é um continuum, e assim como a mente captura milissegundos do tempo e o chama de “agora”, ela também captura parte desse continuum e o chama de “realidade”. composto por todas as versões de você que existem simultaneamente, e que roda um sistema operacional superior, destinado a coordenar toda a sobreposição de suas mentes em cada realidade alternativa.

Essa é a terceira e última peça de nosso quebra-cabeça.

É que, em continuidade à exposição que Hugh Everett III fez sobre a sobreposição de realidades alternativas no mesmo universo, David Albert e Barryy Loewer apresentaram um aprimoramento do estudo, dessa vez focado na percepção que a mente tem dessas realidades alternativas coexistentes. A seguir, Michael Lockwood aprimorou o modelo, que ficou conhecido, no todo, como “Interpretação das Muitas Mentes”.

Nas palavras de Lockwood, por trás de cada mente[7]Entenda-se essa expressão livremente. Para os que negam o dualismo, entenda-se mente como apenas uma forma de referi-se ao conjunto de processamento de um cérebro. A Mente Superior, para todos os efeitos, pode, neste ponto, ser considerada como o resultado do processamento de vários cérebros coordenados, ligados entre si pela sobreposição no continuum que existe para cada versão de você, há uma “Mente Única”. Cada cérebro é um subsistema, parte integrante de um macro sistema composto por todos os cérebros sobrepostos, coordenados entre si por uma Mente Profunda, que se serve de todos os cérebros “em rede” para operar.

Lockwood propôs o nome “multimente”, tal como muitos propõe o nome “multiverso” para se referir às múltiplas realidades alternativas. Mas preferiu ao fim chamar o conjunto de subsistemas cerebrais funcionando em todas as realidades alternativas de Mente, com inicial maiúscula, distinguindo-a das várias mentes, com inicial minúscula, que operam em cada realidade paralela. Vamos, aqui, adotar uma nomenclatura própria. Chamaremos, alternativamente, de Mente Superior, Mente Profunda e Eu Profundo.

Futuramente, iremos entender como funciona esse sistema composto por muitas mentes, cada uma vivenciando uma realidade alternativa, sob a coordenação de uma Mente Superior. Neste momento, isso é suficiente para entendermos a natureza de nossos sonhos e a existência de fantasmas.

Os sonhos são uma forma da Mente Profunda consolidar as experiências vivenciadas em todas as versões alternativas de nossas vidas. Quando você sonha à noite, muitas vezes participa de um substrato simbólico que resume as experiências mais impactantes que as suas versões alternativas vivenciaram desde o último repouso. Como nem todas as versões suas dormem ao mesmo tempo, é correto dizermos que uma parte da Mente Profunda está continuamente consolidando tais experiências nos sonhos daquelas versões suas que estão dormindo. A função primeira dessa Mente Profunda é garantir a homeostase de todas as mentes individuais (como veremos futuramente, no seres humanos a Mente Profunda adquiriu outras habilidades).

Esse é também o motivo de muitos de nós termos sonhos premonitórios: nesses casos, estamos apenas testemunhando, durante o sonho, um evento que já ocorreu na realidade alternativa de muitas de nossas versões, mas que ainda está para acontecer em nossa realidade.

Por outro lado, quando uma de nossas versões morre, outras tantas continuam vivas em realidades alternativas. Lembrando da metáfora da rede, um computador foi desligado, mas os demais que integram a rede prosseguem operantes. O sistema operacional da máquina desligada pode, assim, prosseguir, utilizando os recursos das demais máquinas (e mantendo atividade residual no cérebro do corpo que morreu por algum tempo). Da mesma forma, a consciência de nossa versão falecida pode continuar a existir, testemunhando ainda a realidade a qual estava vinculada, aproveitando-se dos recursos das versões que ainda estão vivas, apoiando-se na Mente Profunda. Ela experimenta um simulacro de percepção desta realidade e, em certas circunstâncias, até pode ser percebida pelas pessoas que ainda estão vivas, como manifestação projetada da existência em outras realidades.

Mas por que isso ocorre? Neste momento, basta entender isso se trata apenas de uma escolha estratégica da natureza, inserida na lógica evolucionária. Situada num universo de realidades sobrepostas, em que cada momento presente ramifica-se em diversos futuros, cada organismo vivo é um conjunto de organismos sobrepostos num continuum de realidades paralelas. Quando os organismos mais evoluídos desenvolveram um sistema nervoso central, tornou-se adaptativamente mais eficiente adotar a estratégia “dividir para conquistar”. Concretizando essa estratégia, cada versão de um mesmo organismo, situado em uma realidade paralela, administra apenas sua vida naquela realidade, ignorando a verdade de que é um ser único, composto por múltiplas versões sobrepostas em múltiplas realidades coexistentes. Ou seja, um só cérebro, um só computador com um único sistema operacional, lidando com uma única realidade alternativa.

Com a evolução, os organismos desenvolvidos acabaram coordenando funções básicas de cada versão sua através de processos profundos, não conscientes [8]Tratam-se, logicamente, de processos quânticos, que ocorrem no nível das partículas subatômicas, que ocorrem numa rede de processamento constituída pelo cérebro que cada organismo tem em cada uma das realidades alternativas. Ou seja, um só ser vivo é um conjunto de seres vivos sobrepostos em realidades paralelas, com vários cérebros ligados entre si pelo continuum de possibilidades, todos operando num nível individual ao mesmo tempo em que, em um nível inconsciente, todas operam num nível coletivo, situado no hipercontexto.

Foi assim que a natureza fez surgir no universo algo espetacular, algo que consegue operar transversalmente entre as várias realidades alternativas. Uma pedra ou mesmo um planeta não pode fazer isso: uma pedra só pode interagir com outras pedras situadas na mesma realidade paralela em que se situa, em que ambas estão entrelaçadas. Já os seres vivos possuem um continuum de cérebros que, no nível não consciente, consegue operar em várias realidades paralelas ao mesmo tempo.

Isso faz de nós e de todos os seres vivos dotados de um sistema nervoso central criaturas especiais no universo. E isso chamou a atenção de outros seres, situados em um contexto diverso, como veremos nos próximos capítulos.

Notas   [ + ]