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A verdade sobre as pesquisas eleitorais que vai te deixar espantado

Em Consciência, O MELHOR DO AZ, Política por Douglas DoninComentário

E se eu te dis­sesse que 80 pes­soas podem deci­dir pre­vi­a­mente em quem 200 milhões irão votar?

E se eu te dis­sesse que votando, você está deci­dindo não só esta elei­ção, mas a pró­xima?

Sim, é exa­ta­mente isso. Coi­sas estra­nhas acon­te­cem em período elei­to­ral, com a divul­ga­ção das pes­qui­sas de inten­ção de votos. Tal­vez você já tenha per­ce­bido que as pes­qui­sas de inten­ção de voto criam um efeito harmô­nico que se pro­paga pela soci­e­dade e coloca todos para dan­çar uma música estra­nha, que ima­gi­nam estar can­tando jun­tos. Como naque­las vezes em que anda­mos com alguém e aca­ba­mos fazendo um tra­jeto mis­te­ri­oso, sim­ples­mente para acom­pa­nhar a outra pes­soa, e sem saber que ela estava tam­bém sim­ples­mente nos acom­pa­nhando.

Isso é um pen­sa­mento comum. Mas a ver­dade pos­sui vários anda­res, e se olhar­mos o edi­fí­cio inteiro — o que inclui um vasto sub­solo — vere­mos que as coi­sas são bem mais estra­nhas do que pare­cem.

Vamos supor que em deter­mi­nado país, com 1 milhão de habi­tan­tes, um ins­ti­tuto de pes­qui­sas seja con­tra­tado para fazer uma pes­quisa de inten­ções de voto para cinco can­di­da­tos ao cargo de Pre­si­dente da nação. Este ins­ti­tuto, obvi­a­mente, não entre­vis­tará cada um dos 1 milhão de habi­tan­tes do país, o que seria caro e impos­sí­vel (e tor­na­ria, na ver­dade, a elei­ção des­ne­ces­sá­ria). Em vez disso o ins­ti­tuto faria o que todos os ins­ti­tu­tos fazem: esco­lhe­ria uma amos­tra repre­sen­ta­tiva e vari­ada, de um número ade­quado de pes­soas, e con­du­zi­ria a entre­vista só com elas, espe­rando que essa amos­tra cor­res­ponda o melhor pos­sí­vel ao con­junto da popu­la­ção. No caso deste país do exem­plo, o ins­ti­tuto decide que ape­nas mil pes­soas, de dife­ren­tes luga­res e com dife­ren­tes carac­te­rís­ti­cas, já está de bom tama­nho.

As pes­soas são entre­vis­ta­das e o resul­tado apa­rece: 50% dos entre­vis­ta­dos vota­rão no can­di­dato A, 30% vota­rão no can­di­dato B, e o res­tante fica divi­dido entre C, D, E, branco, nulo ou inde­ciso. A pes­quisa é publi­cada no jor­nal, cau­sando como­ção. Todos falam sobre ela. Os que tor­cem pelo can­di­dato A pulam de ale­gria: soma­dos os votos de todos os outros, mesmo assim ele ganha. Os que tor­ciam por B entram e deses­pero e par­tem para o tudo-ou-nada. Quem vota em C, D e E migra para A ou B, para ter alguma chance de inter­fe­rir no pro­cesso elei­to­ral, pre­o­cu­pa­dos em “não jogar o voto fora”. Vários inde­ci­sos se deci­dem. Os votos tomam a sua forma final na cabeça das pes­soas.

Tal­vez você não tenha per­ce­bido, Neo, mas neste ins­tante uma coisa bas­tante curi­osa ocor­reu. Um pen­sa­mento que, obser­vado com mais calma, vai te mos­trar uma coisa espan­tosa.

O voto de duzen­tos milhões de habi­tan­tes (a popu­la­ção do Bra­sil, em 2013), é como algo eté­reo, incerto, em sus­pen­são no plano das ideias. Rela­ti­va­mente pou­cos já pos­suem seu voto defi­nido de iní­cio — de regra, ape­nas aque­les que pos­suem uma liga­ção mais forte com algum par­tido, o que não é o caso do elei­tor médio bra­si­leiro. Os demais con­tem­plam pos­sí­veis votos, em dife­ren­tes can­di­da­tos, com níveis dife­ren­tes de con­si­de­ra­ção em dife­ren­tes momen­tos da cor­rida elei­to­ral. Como o famoso expe­ri­mento men­tal do Gato de Schrö­din­ger, que só des­co­bri­mos vivo ou morto ao abrir a caixa, exis­tindo de fato nos dois esta­dos ao mesmo tempo até que a obser­va­ção eli­mine a incer­teza, o voto tam­bém tem essa carac­te­rís­tica hei­sen­ber­gi­ana. Enquanto estou escre­vendo este texto, cogito em quem vota­rei, e a incer­teza só se esvairá com­ple­ta­mente quando o mal­dito botão verde for aper­tado.

Mas, como disse, não só eu faço isso: a mai­o­ria da popu­la­ção tam­bém é assim. E aqui está o ponto. Lite­ral­mente cen­te­nas de milhões de votos pai­ram “no éter”, se soli­di­fi­cando em pas­sos brus­cos, prin­ci­pal­mente pela obser­va­ção de resul­ta­dos de pes­qui­sas de opi­nião de… qua­tro mil pes­soas.

Não quero dizer, com isso, que qua­tro mil pes­soas têm o poder de deci­dir o que duzen­tos milhões farão. Não, Neo, o buraco do coe­lho é mais pro­fundo ainda. Um número muito MENOR de pes­soas já tem esse poder.

Supo­mos que o can­di­dato A tem 49% de votos, o can­di­dato B tem 25% de votos e o can­di­dato C tem 24% dos votos. Aqui a situ­a­ção é mais deli­cada: uma dife­rença de mísero 1% impede o can­di­dato A de ven­cer já no pri­meiro turno. Da mesma forma, uma dife­rença de 1% impede o can­di­dato C de ir ao 2° turno. O que acon­tece?

Pode ocor­rer uma deban­dada dos poten­ci­ais elei­to­res de C, que “não que­rendo jogar o voto fora”, votam em A ou B, para “influir de ver­dade na demo­cra­cia”. Um voto em C, pen­sam, é como ati­rar o Cora­ção do Oce­ano no fundo do mar. Um voto é pre­ci­oso, e deve ser útil.


O que eles falham em ver — estas DEZENAS DE MILHÕES de elei­to­res falham em ver — é que estão se aco­var­dando perante a mera opi­nião de… ape­nas 80 pes­soas, o número real que cor­res­ponde àque­les 2% na amos­tra­gem dos entre­vis­ta­dos. Deze­nas de milhões de elei­to­res soli­di­fi­cam seu voto e aban­do­nam seu can­di­dato por causa da opi­nião (que nem é tão sólida assim, elas podem muito bem estar dando uma res­posta casual e pro­vi­só­ria ao entre­vis­ta­dor) de meros 80 pedes­tres. Opi­nião que, vejam só, pode ser ela mesma uma res­posta influ­en­ci­ada por uma pes­quisa ante­rior. E aquela por outra, e aquela por uma outra ainda, colhida quando os entre­vis­ta­dos nem conhe­ciam bem os can­di­da­tos, e todos, com a exce­ção de um ou dois, eram ape­nas meros nomes estra­nhos.

Esse é o poder cata­li­sa­dor das pes­qui­sas, que ins­ti­tuem, aos pou­cos, uma pro­fe­cia auto-rea­li­zá­vel. As pes­qui­sas dese­nham as raias por que cor­re­mos, bali­zam nosso pro­cesso de for­ma­ção de opi­nião, fazem e des­troem can­di­da­tos.

Bom, como sei que a esta hora os esta­tís­ti­cos devem estar malu­cos de raiva comigo, dei­xem-me expli­car: não estou dizendo que ten­dên­cias pré­vias não exis­tem, e que os prin­cí­pios da esta­tís­tica estão erra­dos, longe disso. Ape­nas estou dando um enfo­que mate­rial ao pro­cesso de deci­são.

Mas eu tenho uma segunda pílula. E se eu te dis­sesse que aban­do­nando o voto no seu can­di­dato do cora­ção para obe­de­cer ao des­tino esco­lhido a você por aque­las 80 pes­soas, você está votando tam­bém na pró­xima elei­ção? Sim, aquela, daqui a 4 anos?

Vamos supor que você goste de san­duí­ches. Você ama san­duí­ches. De noite, asso­lado por uma von­tade incon­tro­lá­vel de comer san­duí­ches, você vai à lan­cho­nete mais pró­xima na espe­rança de matar a fome com sua igua­ria favo­rita.

Che­gando lá você olha ao redor, e todos estão comendo piz­zas. Nin­guém, em mesa alguma, está comendo san­duí­ches. Você olha no car­dá­pio, e só piz­zas. Deso­lado, você chega no aten­dente e pede…uma pizza.


A per­gunta é: por que você não pedi­ria san­duí­ches? A sua von­tade é de comer san­duí­ches. Você pode­ria dizer ao aten­dente “seria muito bom se vocês ser­vis­sem tam­bém san­duí­ches”, e nin­guém sai­ria ferido. Na ver­dade, você sai­ria com a mesma coisa (uma pizza), mas o aten­dente sai­ria com uma coisa adi­ci­o­nal muito vali­osa: a infor­ma­ção de que você gosta de san­duí­ches.

Aliás, várias das pes­soas que estão ali podem estar comendo piz­zas ape­nas por­que não haviam san­duí­ches sendo ofe­re­ci­dos. E os san­duí­ches não são ofe­re­ci­dos jus­ta­mente por­que, ao pedir ape­nas piz­zas, as pes­soas não sina­li­zam ao dono do esta­be­le­ci­mento que de fato san­duí­ches teriam tam­bém uma ótima acei­ta­ção.

Tro­que o exem­plo das piz­zas e san­duí­ches por tipos de can­di­da­tos e pro­pos­tas polí­ti­cas, e ima­gine o aten­dente e o dono do res­tau­rante como os par­ti­dos. Recla­ma­mos que sem­pre nos são ofe­re­ci­das as mes­mas opções, mas o fato é que não sina­li­za­mos aos par­ti­dos que esta­mos aber­tos a outras. No exem­plo dos 2%, acima: se todos aban­do­na­rem suas inten­ções de votar em C e vota­rem em A e B, no final C não terá de fato quase nada. A elei­ção, em si, é uma pes­quisa, e a mais fiel. Os par­ti­dos, no futuro, se lem­bra­rão disso na hora de lan­çar can­di­da­tos, fazer ali­an­ças e nego­ci­a­rem apoio: o can­di­dato C (ape­sar de ser que­rido por 24%) é um “can­di­dato de 1%”.

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Mesmo que um can­di­dato não tenha chan­ces de ganhar uma elei­ção, há pro­veito em man­ter o voto nessa pes­soa: é infor­ma­ção útil pas­sada aos par­ti­dos. Acre­di­tar que vai jogar o voto fora (mesmo com a cer­teza de que seu can­di­dato não vai para o 2º turno) é um pen­sa­mento sim­plista demais. Não há ver­go­nha em “per­der” a elei­ção. Nin­guém cobrará de nós que nosso can­di­dato não foi adi­ante.

Seu voto, seja em quem for, é um sina­li­za­dor: sina­liza a exis­tên­cia de um público que con­corda com aquele pro­grama. Se o can­di­dato aca­bar o pri­meiro turno com 25%, 10% ou mesmo 5%, mesmo que não vá para o segundo turno, isso sina­liza à classe polí­tica a exis­tên­cia de um público com aque­les valo­res, o que faz os par­ti­dos muda­rem seus pro­gra­mas e ações naquele sen­tido.

A polí­tica muda para ofe­re­cer pro­du­tos (can­di­da­tos) que cana­li­zem cer­tas deman­das elei­to­rais. Se não sina­li­zar­mos a demanda, só nos serão ofe­re­ci­das sem­pre as mes­mas opções — afi­nal, para que ofe­re­cer san­duí­ches, se só com­pra­mos piz­zas?


Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".

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