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Os vegetarianos estão na mira

Em Consciência por Carlos OrsiComentário

Pas­sei um car­na­val num hotel com res­tau­rante vege­ta­ri­ano. Nada con­tra, e é sem­pre inte­res­sante conhe­cer pra­tos alter­na­ti­vos. Pro­va­vel­mente por causa dessa ori­en­ta­ção gas­tronô­mica da casa, havia algu­mas revis­tas de nicho, vol­ta­das para o público vege­ta­ri­ano, no saguão e, movido por curi­o­si­dade pro­fis­si­o­nal, me pus a folheá-las.

Tomei um susto: eu nunca tinha visto tanta pseu­do­ci­ên­cia, e nem pseu­do­ci­ên­cia tão peri­gosa, quanto a que encon­trei nas pági­nas de publi­ci­dade des­sas publi­ca­ções. Nem mesmo em revis­tas de esté­tica e “bem-estar” femi­nino, e quem conhece esse tipo de perió­dico, com seus anún­cios de suple­men­tos mila­gro­sos de colá­geno, suas pro­mes­sas de reju­ve­nes­ci­mento via micro-ondas e de “cura” quân­tica da celu­lite sabe do que estrou falando.

O público vege­ta­ri­ano é asse­di­ado por mas­ca­tes que pro­me­tem coi­sas que vão da mera tolice (remé­dios flo­rais para “ner­vo­sismo e agi­ta­ção”) à men­tira des­la­vada (um anún­cio jura que o con­sumo de algas mari­nhas faz mara­vi­lhas pela saúde por­que, afi­nal, “os seres do mar não enve­lhe­cem e sua fecun­di­dade não é afe­tada pelos anos de vida”) e que che­gam a um nível de irres­pon­sa­bi­li­dade quase homi­cida (“como rever­ter o dia­be­tes natu­ral­mente” usando “nutri­ção espi­ri­tual”). Além disso tudo, havia ainda o ape­nas ridí­culo, como dia­gra­mas de supos­tas “fotos Kir­kian” (ima­gino que o infe­liz publi­ci­tá­rio que­ria dizer “Kir­lian”), mos­trando o “antes” e “depois” da admi­nis­tra­ção de flo­rais.

A ques­tão que sur­giu (ime­di­a­ta­mente após “onde está a Anvisa nes­sas horas?”) foi: por que vege­ta­ri­a­nos? O que faz do grupo o público-alvo pre­fe­ren­cial desse tipo de boba­gem? O que os magos da publi­ci­dade acre­di­tam que os vege­ta­ri­a­nos têm em comum, além do hábito de não con­su­mir carne?

Sempre houve charlatões, mas por que os atuais enxergam os vegetarianos como alvo fácil?

Sem­pre houve char­la­tões, mas por que os atu­ais enxer­gam os vege­ta­ri­a­nos como alvo fácil?

Há mui­tos moti­vos que levam uma pes­soa a se tor­nar vege­ta­ri­ana. Estu­dos a res­peito, como este e este, apon­tam razões como pre­o­cu­pa­ção ética com os ani­mais, ques­tões ambi­en­tais, gosto pes­soal e con­si­de­ra­ções reli­gi­o­sas. Mas as revis­tas que vi no hotel, e prin­ci­pal­mente os anún­cios nes­sas revis­tas, suge­rem um traço cul­tu­ral que tal­vez esteja sub­merso em “con­si­de­ra­ções reli­gi­o­sas”, mas que pos­si­vel­mente tam­bém toca, até certo ponto, os outros moti­vos: vita­lismo.

Na his­tó­ria da ciên­cia, “vita­lismo” é a teo­ria de que o que dis­tin­gue os seres vivos da maté­ria ina­ni­mada seria um fluido, a “força vital”. Essa “força” esta­ria por trás de uma suposta gera­ção espon­tâ­nea de vida (por exem­plo, trans­for­mando lixo orgâ­nico em lar­vas de mosca). A “força vital” pode­ria exis­tir em várias moda­li­da­des (a de um tigre seria diversa da de um coe­lho) e o dese­qui­lí­brio entre os dife­ren­tes modos esta­ria na raiz de diver­sas doen­ças. A morte seria a extin­ção da força vital de um corpo, ou sua trans­fe­rên­cia para outros cor­pos.

Como teo­ria cien­tí­fica (isto é, como hipó­tese raci­o­nal arti­cu­lada com base em evi­dên­cias, para expli­car um con­junto de fenô­me­nos natu­rais) o vita­lismo está morto e enter­rado há mais de cem anos.

O golpe de mise­ri­cór­dia cos­tuma ser atri­buído a Louis Pas­teur, mas diver­sos desen­vol­vi­men­tos para­le­los, tanto ante­ri­o­res quanto pos­te­ri­o­res, como a des­co­berta da exis­tên­cia real de áto­mos e molé­cu­las, a defi­ni­ção do Número de Avo­ga­dro, a aná­lise do movi­mento brow­ni­ano por Albert Eins­tein e, não menos impor­tante, os avan­ços da bio­lo­gia e da bioquí­mica a par­tir da for­mu­la­ção da Teo­ria da Evo­lu­ção e da redes­co­berta do tra­ba­lho de Men­del sobre here­di­ta­ri­e­dade só fize­ram acu­mu­lar mais pás de cal sobre o cadá­ver vita­lista.

O vitalismo inspirou obras como o Frankenstein de Shelley.

O vita­lismo ins­pi­rou obras como o Fran­kens­tein de Shel­ley — no caso, a ele­tri­ci­dade era a “força vital”.

Mas o vita­lismo tem um certo apelo intui­tivo que é difí­cil de eli­mi­nar. A ideia de que seres vivos têm “for­ças” ou “auras” que defi­nem suas pro­pri­e­da­des, e que essas pro­pri­e­da­des podem ser tro­ca­das ou trans­mi­ti­das por meio de “flui­dos” (hoje em dia, gra­ças às inter­pre­ta­ções bas­tar­das da física quân­tica, fala-se muito em “ener­gias” e “frequên­cias”) parece lógica e auto­e­vi­dente para mui­tas pes­soas. A mai­o­ria das reli­giões tem algo de vita­lista, ainda que, em alguns casos, ves­ti­gial (como a vene­ra­ção cató­lica por relí­quias de san­tos, por exem­plo).

Tam­bém há uma certa afi­ni­dade emo­ci­o­nal entre a crença no vita­lismo e a pre­o­cu­pa­ção com o tra­ta­mento ético dos ani­mais e o meio ambi­ente. A ideia de que não exis­ti­mos real­mente em cor­pos sepa­ra­dos, mas que na ver­dade somos todos parte do mesmo “campo de força vital” ajuda a esco­rar uma cons­ci­ên­cia ambi­en­tal mais firme. O pro­blema, claro, é que é per­fei­ta­mente pos­sí­vel encon­trar moti­vos ruins para ati­tu­des boas. Este é um caso.

Nin­guém pre­cisa engo­lir a nar­ra­tiva vita­lista para jus­ti­fi­car uma pre­o­cu­pa­ção com a natu­reza: há ampla evi­dên­cia cien­tí­fica de que esta­mos, todos os seres vivos do pla­neta, no mesmo barco, mesmo que não seja­mos todos “frequên­cias de luz divina”. Se a ideia de uma ori­gem comum é mais emo­ci­o­nal­mente satis­fa­tó­ria, existe a evo­lu­ção — ou, para quem pre­fere nar­ra­ti­vas mais gran­di­o­sas, a cos­mo­lo­gia. Para além das con­si­de­ra­ções de saúde a favor de um con­sumo mode­rado de carne, há razões éti­cas e filo­só­fi­cas de peso a favor de uma dieta vege­ta­ri­ana, e que pas­sam longe de qual­quer espe­cu­la­ção vita­lista.

Mas todos ten­de­mos a olhar com sim­pa­tia para teses e hipó­te­ses que con­fir­mam nos­sas cren­ças e pre­fe­rên­cias pré-exis­ten­tes. Se essas teses nos fazem sen­tir espe­ci­ais e supe­ri­o­res, melhor ainda. Para quem tem uma visão roman­ti­zada da natu­reza, é fácil acei­tar, por exem­plo, que os ali­men­tos ditos “orgâ­ni­cos” são mais sau­dá­veis, embora não exista evi­dên­cia disso, ou engo­lir estu­dos que suge­rem que os trans­gê­ni­cos são ruins, mesmo que se trate de tra­ba­lhos desa­cre­di­ta­dos pela comu­ni­dade cien­tí­fica e de pés­sima qua­li­dade. Ten­de­mos a alo­car o bene­fí­cio da dúvida seguindo nos­sos pre­con­cei­tos.

Por conta disso tudo, ima­gino, vita­lismo e vege­ta­ri­a­nismo pare­cem sofrer de atra­ção mútua: embora um não seja neces­sá­rio para o outro (dá para cons­truir uma defesa vita­lista do con­sumo de carne, base­ada, por exem­plo, nos supos­tos pode­res da “força vital” dos ani­mais), no fim são sis­te­mas que con­vi­vem de modo con­for­tá­vel. Mas assi­mi­lar ideias fal­sas por­que elas pare­cem con­fir­mar aquilo em que que­re­mos acre­di­tar (ou que pre­fe­ri­mos fazer) abre a porta para todo tipo de vul­ne­ra­bi­li­dade. Como a explo­rada pelos anún­cios que vi.

Carlos Orsi
Carlos Orsi é jornalista, divulgador de ciência e escritor. É autor das obras de não-ficção “O Livro dos Milagres”, “O Livro da Astrologia” e, em parceria com o físico Daniel Bezerra, “Pura Picaretagem”. Foi por duas vezes agraciado com o Prêmio Argos de melhor conto brasileiro de ficção científica, em 2013 e 2015. Seus contos já foram publicados em antologias e revistas nos EUA e no Reino Unido. Atualmente, mantém o blog carlosorsi.blogspot.com e edita a coluna “Telescópio” do Jornal da Unicamp.

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