Passei um carnaval num hotel com restaurante vegetariano. Nada contra, e é sempre interessante conhecer pratos alternativos. Provavelmente por causa dessa orientação gastronômica da casa, havia algumas revistas de nicho, voltadas para o público vegetariano, no saguão e, movido por curiosidade profissional, me pus a folheá-las.

Tomei um susto: eu nunca tinha visto tanta pseudociência, e nem pseudociência tão perigosa, quanto a que encontrei nas páginas de publicidade dessas publicações. Nem mesmo em revistas de estética e “bem-estar” feminino, e quem conhece esse tipo de periódico, com seus anúncios de suplementos milagrosos de colágeno, suas promessas de rejuvenescimento via micro-ondas e de “cura” quântica da celulite sabe do que estrou falando.

O público vegetariano é assediado por mascates que prometem coisas que vão da mera tolice (remédios florais para “nervosismo e agitação”) à mentira deslavada (um anúncio jura que o consumo de algas marinhas faz maravilhas pela saúde porque, afinal, “os seres do mar não envelhecem e sua fecundidade não é afetada pelos anos de vida“) e que chegam a um nível de irresponsabilidade quase homicida (“como reverter o diabetes naturalmente” usando “nutrição espiritual”). Além disso tudo, havia ainda o apenas ridículo, como diagramas de supostas “fotos Kirkian” (imagino que o infeliz publicitário queria dizer “Kirlian”), mostrando o “antes” e “depois” da administração de florais.

A questão que surgiu (imediatamente após “onde está a Anvisa nessas horas?”) foi: por que vegetarianos? O que faz do grupo o público-alvo preferencial desse tipo de bobagem? O que os magos da publicidade acreditam que os vegetarianos têm em comum, além do hábito de não consumir carne?

Sempre houve charlatões, mas por que os atuais enxergam os vegetarianos como alvo fácil?
Sempre houve charlatões, mas por que os atuais enxergam os vegetarianos como alvo fácil?

Há muitos motivos que levam uma pessoa a se tornar vegetariana. Estudos a respeito, como este e este, apontam razões como preocupação ética com os animais, questões ambientais, gosto pessoal e considerações religiosas. Mas as revistas que vi no hotel, e principalmente os anúncios nessas revistas, sugerem um traço cultural que talvez esteja submerso em “considerações religiosas”, mas que possivelmente também toca, até certo ponto, os outros motivos: vitalismo.

Na história da ciência, “vitalismo” é a teoria de que o que distingue os seres vivos da matéria inanimada seria um fluido, a “força vital”. Essa “força” estaria por trás de uma suposta geração espontânea de vida (por exemplo, transformando lixo orgânico em larvas de mosca). A “força vital” poderia existir em várias modalidades (a de um tigre seria diversa da de um coelho) e o desequilíbrio entre os diferentes modos estaria na raiz de diversas doenças. A morte seria a extinção da força vital de um corpo, ou sua transferência para outros corpos.

Como teoria científica (isto é, como hipótese racional articulada com base em evidências, para explicar um conjunto de fenômenos naturais) o vitalismo está morto e enterrado há mais de cem anos.

O golpe de misericórdia costuma ser atribuído a Louis Pasteur, mas diversos desenvolvimentos paralelos, tanto anteriores quanto posteriores, como a descoberta da existência real de átomos e moléculas, a definição do Número de Avogadro, a análise do movimento browniano por Albert Einstein e, não menos importante, os avanços da biologia e da bioquímica a partir da formulação da Teoria da Evolução e da redescoberta do trabalho de Mendel sobre hereditariedade só fizeram acumular mais pás de cal sobre o cadáver vitalista.

O vitalismo inspirou obras como o Frankenstein de Shelley.
O vitalismo inspirou obras como o Frankenstein de Shelley – no caso, a eletricidade era a “força vital”.

Mas o vitalismo tem um certo apelo intuitivo que é difícil de eliminar. A ideia de que seres vivos têm “forças” ou “auras” que definem suas propriedades, e que essas propriedades podem ser trocadas ou transmitidas por meio de “fluidos” (hoje em dia, graças às interpretações bastardas da física quântica, fala-se muito em “energias” e “frequências”) parece lógica e autoevidente para muitas pessoas. A maioria das religiões tem algo de vitalista, ainda que, em alguns casos, vestigial (como a veneração católica por relíquias de santos, por exemplo).

Também há uma certa afinidade emocional entre a crença no vitalismo e a preocupação com o tratamento ético dos animais e o meio ambiente. A ideia de que não existimos realmente em corpos separados, mas que na verdade somos todos parte do mesmo “campo de força vital” ajuda a escorar uma consciência ambiental mais firme. O problema, claro, é que é perfeitamente possível encontrar motivos ruins para atitudes boas. Este é um caso.

Ninguém precisa engolir a narrativa vitalista para justificar uma preocupação com a natureza: há ampla evidência científica de que estamos, todos os seres vivos do planeta, no mesmo barco, mesmo que não sejamos todos “frequências de luz divina”. Se a ideia de uma origem comum é mais emocionalmente satisfatória, existe a evolução — ou, para quem prefere narrativas mais grandiosas, a cosmologia. Para além das considerações de saúde a favor de um consumo moderado de carne, há razões éticas e filosóficas de peso a favor de uma dieta vegetariana, e que passam longe de qualquer especulação vitalista.

Mas todos tendemos a olhar com simpatia para teses e hipóteses que confirmam nossas crenças e preferências pré-existentes. Se essas teses nos fazem sentir especiais e superiores, melhor ainda. Para quem tem uma visão romantizada da natureza, é fácil aceitar, por exemplo, que os alimentos ditos “orgânicos” são mais saudáveis, embora não exista evidência disso, ou engolir estudos que sugerem que os transgênicos são ruins, mesmo que se trate de trabalhos desacreditados pela comunidade científica e de péssima qualidade. Tendemos a alocar o benefício da dúvida seguindo nossos preconceitos.

Por conta disso tudo, imagino, vitalismo e vegetarianismo parecem sofrer de atração mútua: embora um não seja necessário para o outro (dá para construir uma defesa vitalista do consumo de carne, baseada, por exemplo, nos supostos poderes da “força vital” dos animais), no fim são sistemas que convivem de modo confortável. Mas assimilar ideias falsas porque elas parecem confirmar aquilo em que queremos acreditar (ou que preferimos fazer) abre a porta para todo tipo de vulnerabilidade. Como a explorada pelos anúncios que vi.

  • Prezado Carlos,

    Parabéns pelo texto, muito bom mesmo, apesar de eu não ter entendido a relação que tentou estabelecer entre o vitalismo “morto e enterrado há mais de cem anos” e o ataque do marketing aos vegetarianos. Talvez essa minha incapacidade de compreender tal vínculo se dê, dentre tantas razões possíveis, porque eu não tive a oportunidade de analisar acuradamente o material que suscitou a escrita de seu texto.

    Eu gostaria muito, até como uma forma muito particular de vaidade, poder refutar a sua tentativa de desqualificar tudo aquilo que, neste texto, você engloba no conceito de vitalismo. Porém eu devo admitir que até para se ser vaidoso, há de se ter capacidade para tal, coisa de que neste caso eu realmente não disponho. Assim, despindo-me da minha vaidade pessoal, gostaria de fomentar a discussão acerca do tema por você proposto citando dois excelentes artigos que, de tão bem escritos e formulados, senti-me em dificuldades de se quer fazer recortes para aqui parafraseá-los. Ambos os artigos são do mesmo autor e site, que refuto serem da mesma envergadura intelecto-moral deste onde nos encontramos agora.

    O primeiro deles dá conta de sugerir a reflexão acerca da hipótese de o que chamamos de Ciência ser, em seus meandros, uma forma fundamentalista de religião. O autor discorre com grande maestria, ao meu ver, sobre os dogmas científicos disfarçados de verdades objetivamente comprovadas por métodos intrínsecos a esse sistema de crenças, que acaba por funcionar em uma lógica circular, qual seja a de moldar um mundo de tal forma que tudo nele se justifica pelo método que o criou. Creio valer a pena tal leitura e reflexão de seus postulados, aqui https://introspeccaoexposta.wordpress.com/2015/03/29/irmao-voce-ja-aceitou-a-ciencia/.

    Já o segundo texto, que é uma extensão e aprofundamento das ideias lançadas pelo primeiro, sugere que reflitamos sobre as postulações feitas pelo

    “[…]Método Científico [que] assume que há um universo “objetivo” e “exterior” pronto para ser explorado; consultado experimentalmente; usado para determinar se uma certa teoria é verdadeira ou falsa. Sem essa suposição, todo o conceito de “fato” torna-se vago — talvez até incoerente. Com raízes no latim, factio, ou o “ato de fazer”, sugere uma antiga ambiguidade entre existência e percepção, ser e fazer, o que é e o que é feito. Enfim, por que não aceitamos que os fatos, tal como artefatos ou manufaturados, também são produzidos por nós?

    Esse universo “exterior”, em princípio, não tem ligação alguma com qualquer observador — daí a replicabilidade dos experimentos científicos. Se eu e você “consultarmos o universo” com um experimento idêntico, chegaremos ao mesmo resultado. Cegos por nossa ontologia, não enxergamos isso como suposição, mas como necessidade lógica. Sim, é mesmo difícil imaginar uma linha de pensamentos convincente que não incorpore a objetividade. Tampouco podemos imaginar alguma que dispense o determinismo — expressão da noção moderna de causalidade. Assim, encaramos ambos não mais como suposições condicionais da nossa cultura, mas como princípios básicos da lógica.”

    Também, como já dito, a meu ver, um excelente texto reflexivo de descomunal potencial meditativo que pode ser degustado aqui https://introspeccaoexposta.wordpress.com/2015/04/25/a-ciencia-e-seus-mandamentos/.

    A proposta deste comentário é simples e tão somente a de sugerir uma reflexão honesta e desprendida acerca de dogmas e crenças, verdadeiros artigos de fé que permeiam nossa cultura, o senso comum e mesmo os meios ditos científicos, instalando “fatos” e “verdades”acerca de meia dúzia de assuntos sobre os quais tais dogmas se sustentam, em uma lógica circular, como explana o autor dos textos que sugeri. Afinal, o que se observa em termos de “jingles” científicos é que o que não pode ser demonstrado não existe.

    Cabe citar, já que a proposta do texto em voga é usar a Ciência como fundamentação, este pequeno informe http://super.abril.com.br/ciencia/placebo-pode-ser-o-melhor-remedio, que discorre em traços aligeirados sobre o efeito placebo.

    Assim, parece-me, superficialmente e sem uma investigação mais detida, que a grande “sacada” dos mestres sofistas do marketing é na verdade se aproveitar do efeito placebo.

    Para finalizar meu comentário, gostaria de deixar claro que não estou defendendo nenhuma corrente de pensamento, credo, cor política, ideia A ou B, muito menos atacando ou desqualificando este ou aquele pensador, mas tão simplesmente fomentando a reflexão e o debate acerca de assuntos relevantes que nos são apresentados de forma incontestável.

    O que parece aconselhável à luz da razão a um sem número de situações senão a todas, é que as pessoas busquem se esclarecer, examinando racionalmente os pressupostos dos produtos e serviços oferecidos a todo e qualquer mercado consumidor, tendo em vista que, em uma lógica capitalista, o objetivo precípuo de qualquer empresa é gerar lucros reduzindo custos, e não “ajudar” as pessoas a viver mais ou melhor. Os grandes laboratórios farmacêuticos, por exemplo, no meu entendimento, não têm uma postura altruísta, que apesar de seus produtos, muitas vezes, auxiliarem sim as pessoas a viver mais e melhor, não são postos com essa intenção primária, mas com a visão de que aquela possibilidade de maior e melhor vida das pessoas lhes trará grandes lucros gerados com os menores custos.

    Um grande abraço! 🙂