Ano Zero também é o momento em que o futuro invade o presente, a expressão de que intuímos este momento da humanidade como decisivo para os rumos da sociedade e de cada indivíduo.

Se a exortação do título pareceu a você, leitor, algo ingênuo e pretensioso, parabéns. É sinal de que o seu senso crítico e sua noção de realidade estão satisfatoriamente calibrados, prontos para rodarem mais cinco mil quilômetros, sem troca de óleo nem revisão dos pneus.

Claro, nenhum site pode mudar o mundo. Palavras, imagens e recursos multimídia não bastam. E mesmo quando há a possibilidade de mudarmos uma pequena parte deste mundo – o real, não o virtual -, nenhuma prudência é excessiva, diante de sua estrutura delicada e complexa: muito mal já foi produzido com as melhores intenções, aquele tipo de boas intenções de que o ditado nos informa estar cheio o inferno.

Por outro lado, como o poeta Augusto de Campos afirmou em entrevista à revista Cult (#187), se a utopia pode resultar num erro, então todos temos o direito ao erro da utopia. Temos o direito de preservar, dentro de nós, uma pequena parcela da ingenuidade de quem deseja ver o mundo um pouco melhor. Todos temos o direito de atuar no mundo de forma ligeiramente pretensiosa, como quem ousa arriscar, se a oportunidade surgir, pequenas mas decisivas transformações na realidade.

Mafalda, de Quino, personagem que sempre equilibrou visão crítica e vontade de melhorar o mundo.
Mafalda, de Quino, personagem que sempre equilibrou visão crítica e vontade de melhorar o mundo.

E se é verdade que um site pode não ser o suficiente para transformar o mundo, também é verdade que ele pode, ao menos, canalizar a aspiração à mudança. Se é verdade que um site pode não bastar para alterar nossas práticas cotidianas, também é verdade que ele pode, ao menos, servir de via para a vontade de todos aqueles que, embora com opiniões nem sempre convergentes, compartilham de um mesmo sentimento de mundo, da mesma intenção de converter tudo aquilo que não-é-tão-legal em algo um-pouco-melhor.

Um site pode ser um catalisador de iniciativas dormentes. Um site pode ser um aglutinador de inspirações que, embora dispersas, tenham um mesmo alvo.

É aí que entra o projeto Ano Zero.

O ano zero, no calendário gregoriano, jamais existiu. Passamos diretamente do ano I Antes de Cristo para o ano I Depois de Cristo. Portanto, Ano Zero é o momento fora do tempo  em que nosso imaginário encontra a aspiração de mudança, de reinício, de restauração das forças coletivas. É o instante fora da cronologia no qual o pagão pré-cristão abraçou o santo evangelizador, em que os novos tempos escoaram no leito de tradições milenares.

Ano Zero também é o momento em que o futuro invade o presente, a expressão de que intuímos este momento da humanidade como decisivo para os rumos da sociedade e de cada indivíduo, diante do embate entre forças antagônicas ancestrais e perante os dilemas modernos, dilemas cuja existência nossos antepassados podiam sequer suspeitar.

Nossa equipe vê a internet como um novo continente, cujo território ainda não foi totalmente mapeado, e no qual a construção de estradas mal começou. Essa construção, felizmente, não depende de nenhum governo central. Cada site, cada blog, cada portal criado é um novo caminho – seja ele uma ruela, seja uma avenida.

Podemos fazer da internet um escoadouro até a sarjeta ou um canalizador de nossas melhores aspirações.
Podemos fazer da internet um escoadouro que nos leva à sarjeta ou um canalizador de nossas melhores aspirações.

E a verdade é que, na internet brasileira, a maior parte desses caminhos nos levam a lugar nenhum, ou nos conduzem a bobagens que apenas servem de distração momentânea. Ou, ainda, são estradas circulares que giram em torno de uma mesma ideologia ou preconceito, de um mesmo conjunto de ideias autorreferenciadas. Aqueles que desejam caminhar em uma via que os poupe de lugares-comuns e os conduza a destinos desafiadores, estão sem bússula ou mapa.

Não é fácil encontrar estradas em cuja caminhada observamos paisagens genuinamente inovadoras e estimulantes. E poucas são as vias que trilhamos com a sensação de estarmos rumando para algo maior que nós todos. E mais raros ainda são os caminhos em que somos tomados pela sensação de estar rumando para um lugar que se situa além da própria internet.

Isso, criar uma nova trilha, nós podemos ousar, e, nisso, nosso projeto é pretensioso. O que vamos construir aqui, neste espaço, é uma trilha, pouco mais que um caminho aberto no meio de um matagal, em direção a um novo mundo – ou, pelo menos, a novas visões do mesmo mundo. Talvez algum dia esse caminho se torne uma estrada. Quem sabe até se torne uma larga avenida, guiando todos nós por outros caminhos, estabelecendo conexões entre novas trilhas criadas a partir de Ano Zero. No momento, porém, apenas o que podemos fazer é perguntar:

Bora lá mudar o mundo?

escrito por:

Victor Lisboa

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