Vercingetórix rende-se a César, por Lionel Royer. Museu Crozatier , em Le Puy-en-Velay | O valor da guerra

O valor da guerra

Em Consciência, Filosofia, Sociedade por Rodolfo Dall'AgnoComentário

Mui­tos dos movi­men­tos espi­ri­tu­a­lis­tas moder­nos, em espe­cial aque­les vin­cu­la­dos ao New Age e à cul­tura hippie/hipster, pos­suem em comum a carac­te­rís­tica do des­prezo à guerra, vin­cu­lando-a ao hor­ror e à insa­ni­dade mais baixa de que o ser humano é capaz.

Há aí um grande con­traste com as for­mas reli­gi­o­sas anti­gas que cul­tu­a­vam divin­da­des pró­prias asso­ci­a­das à guerra. São exem­plos o deus da tem­pes­tade dos hiti­tas, o deus Ares dos gre­gos, Marte dos roma­nos, Kar­ti­keya dos hin­dus, entre outros.

Então, que atri­buto divino é este que pos­sui a guerra?

De fato, é difí­cil per­cebê-lo nos dias atu­ais, pois as guer­ras recen­tes são mar­ca­das por uma falta de sen­tido com­pleto, ope­rando ape­nas por jus­ti­fi­ca­ti­vas mate­ri­ais, econô­mi­cas e polí­ti­cas, sejam estas petró­leo, ter­ri­tó­rio ou qual­quer outra coisa do tipo.

Desse modo, é fácil dedu­zir que a guerra seja uma coisa hor­renda, pois o ter­ror da car­ni­fi­cina na his­tó­ria recente ocor­reu por moti­vos que não fazem jus à sua gra­vi­dade. Entre­tanto, tal­vez esse modo de jul­gar a guerra seja o mesmo de jul­gar um carro que esteja sendo usado para andar na água.

O fato é que a guerra está na natu­reza. Um rio está em cons­tante guerra para che­gar ao oce­ano, o fogo desa­fia a gra­vi­dade ao ele­var suas cha­mas ao céu, as ondas batem com força para encon­trar as are­ais da praia, a tem­pes­tade mos­tra toda a fúria de que o céu é capaz…

E, por mais que pareça con­tra­di­tó­rio à pri­meira vista, a guerra está inti­ma­mente rela­ci­o­nada ao amor.

Afro­dite e Ares eram apai­xo­na­dos um pelo outro. Os egíp­cios não tinham pala­vras dife­ren­tes para amor e ódio, mas ape­nas uma, de modo que pode­ría­mos gra­far atu­al­mente como “amo­ró­dio”. Trata-se de um com­ple­mento, dois lados de uma mesma moeda, onde ambos com seus recur­sos nos movem para che­gar a algum lugar de trans­cen­dên­cia.

De modo mais obje­tivo e coti­di­ano, o filó­sofo con­tem­po­râ­neo José Ortega y Gas­set parece ter tra­du­zido bem esta ideia:

"Com a moral corrigimos os erros de nossos instintos, e com o amor os erros de nossa moral." - josé ortega y gasset | citação | o valor da guerra

A guerra justa — ou santa — con­siste na luta para que pre­va­leça e seja rei o que há de mais nobre e belo (tanto no indi­ví­duo quanto na soci­e­dade). É a des­trui­ção das for­mas gas­tas, para que o puro, ver­da­deiro e nobre volte a rei­nar em sua era de ouro.

Esse pro­cesso é repre­sen­tado na figura de Shiva do hin­duísmo, no nigredo alquí­mico, entre outras tra­di­ções que bus­ca­ram por tra­du­zir e lou­var o aspecto guer­reiro da natu­reza, em seus vari­a­dos sen­ti­dos e pro­fun­di­da­des.

 

Hoje

É tão ver­dade que a guerra é um atri­buto que deve ser cul­tu­ado, que nosso atual des­prezo a ela nos causa gran­des pro­ble­mas.

O seu valor para nós enquanto seres huma­nos está no desen­vol­vi­mento da resi­li­ên­cia psí­quica e na for­ma­ção do cará­ter. Assim como uma vacina é capaz de nos tor­nar mais for­tes e resis­ten­tes a micro­or­ga­nis­mos atra­vés de nosso con­tato volun­tá­rio com eles, do mesmo modo a pas­sa­gem por todo tipo de pro­va­ções nos faz mais pode­ro­sos e resis­ten­tes, mais capa­zes de lutar em nossa pró­pria guerra interna.

Entre­tanto, o absurdo con­forto da moder­ni­dade somado à cul­tura do menor esforço cria uma popu­la­ção de débeis.

Não aguen­ta­mos ficar sem ar con­di­ci­o­nado, qual­quer crí­tica nos sen­si­bi­liza a ponto de cor­tar­mos rela­ções e guar­dar as mais vam­pi­res­cas mágoas, come­mos uma enorme quan­ti­dade de ali­men­tos indus­tri­a­li­za­dos e hor­ren­dos, toma­mos “um reme­di­nho” para qual­quer dor que nos possa aco­me­ter, fica­mos mau humo­ra­dos se não dor­mi­mos as oito horas diá­rias reco­men­da­das pelos espe­ci­a­lis­tas, e nos con­si­de­ra­mos o cen­tro do uni­verso, achando um absurdo se qual­quer um de nos­sos dese­jos não são aten­di­dos.

O ins­tinto de auto­pre­ser­va­ção pre­va­lece e os mais diver­sos vícios e defei­tos se alas­tram.

Ao mesmo tempo, no con­texto das cama­das soci­ais menos favo­re­ci­das, as milha­res de pro­va­ções da pobreza fazem a popu­la­ção des­co­nhe­cer o mimo dos con­for­tos moder­nos, desen­vol­vendo a garra e a força que a guerra con­tem­pla.

Entre­tanto, sem inú­me­ros fato­res mate­ri­ais e espi­ri­tu­ais bási­cos, tais vir­tu­des são mui­tas vezes enca­mi­nha­das para o crime e a amo­ra­li­dade, for­ta­le­cendo o poder das máfias e qua­dri­lhas.

O polí­tico inglês do século XIX Ben­ja­min Dis­ra­eli certa vez disse: “o momento exige que os bons tenham a audá­cia dos cana­lhas”.

Este momento per­dura até hoje. Ou você acha que os pré-ado­les­cen­tes de classe média alta cujo maior esforço é o de aper­tar o botão da TV ou do vide­o­game enquanto comem che­e­tos são mais auda­ci­o­sos do que os meni­nos-fal­cões do trá­fico?

 

Ontem

Ao con­trá­rio das guer­ras atu­ais, mui­tas das guer­ras da Anti­gui­dade não diziam res­peito a rique­zas ou poder. Em mui­tos casos, o desen­vol­vi­mento das vir­tu­des da força, honra, defesa de valo­res ínte­gros, além da neces­si­dade de defen­der sua cidade e/ou nação, era o que estava por trás de uma guerra.

Durante os tem­pos áureos da civi­li­za­ção Romana, em que não havia ainda decaído moral­mente, a ane­xa­ção de ter­ri­tó­rios não dizia res­peito à sim­ples con­quista, mas a espa­lhar a luz da civi­li­za­ção pelo mundo. Mui­tos povos que eram gover­na­dos por tira­nias foram ane­xa­dos ao Impé­rio.

Ao mesmo tempo, a cul­tura dos povos con­quis­ta­dos não era extinta ou sub­ju­gada à romana, mas aceita e tole­rada, de modo que o Impé­rio con­tasse com uma grande diver­si­dade reli­gi­osa e cul­tu­ral, per­so­ni­fi­cada no Pan­teão romano. Era a ideia estóica dos “cida­dãos do mundo”: um ideal de fra­ter­ni­dade e uni­dade entre todos os povos e cul­tu­ras.

Assim, a guerra não estava a ser­viço de algum inte­resse mate­rial ou egoísta.

Águia romana, símbolo da propagação da civilização. | O valor da guerra

Águia romana, sím­bolo da pro­pa­ga­ção da civi­li­za­ção.

Prova disso é o deus da guerra romano Marte, que era repre­sen­tado banhado com seu pró­prio san­gue, ou seja, o sacri­fí­cio do guer­reiro que luta por uma causa justa. O guer­reiro não é um bár­baro tro­glo­dita, mas antes de tudo um cava­lheiro gover­na­dor de si mesmo que não luta por outra coisa senão a jus­tiça e a nobreza.

A cidade-estado grega de Esparta foi tam­bém outra potên­cia que tinha a guerra em suas entra­nhas.

A cidade sem mura­lhas, pois os pró­prios cida­dãos faziam esse papel, era deten­tora de um modelo edu­ca­ci­o­nal que hoje nos pode pare­cer quase ater­ro­ri­za­dor.

Os meni­nos espar­ta­nos eram edu­ca­dos para a guerra, pas­sando pelas mais diver­sas e pesa­das pro­va­ções. Entre­tanto, via-se não ape­nas o lado prá­tico de tal modelo edu­ca­ci­o­nal – já que os espar­ta­nos real­mente guer­re­a­vam muito – mas tam­bém espi­ri­tual.

O romance Por­tões de Fogo, de Ste­ven Pres­s­fi­eld, autor com bas­tante conhe­ci­mento no assunto, retrata a ins­tru­ção de um guer­reiro espar­tano a um pré-ado­les­cente que se ini­cia nas artes guer­rei­ras, con­tem­plando o espí­rito que ani­mava cidade como nenhuma expli­ca­ção raci­o­nal e aca­dê­mica pode supor:

A guerra, não a paz, pro­duz a vir­tude. A guerra, não a paz, purga o vício. A guerra, e a pre­pa­ra­ção para a guerra, sus­cita tudo o que é nobre e digno em um homem. Une-o a seus irmãos e os liga em um amor altruísta, erra­di­cando no cadi­nho da neces­si­dade tudo que é vil e ignó­bil. Ali, no moi­nho sagrado do assas­sí­nio, o homem mais vil pode bus­car e encon­trar essa parte de si mesmo, oculta sob a cor­rup­ção, que reluz intensa e vir­tu­osa, digna de honra diante dos deu­ses. Não des­preze a guerra, efebo, nem ima­gine que a mise­ri­cór­dia e a com­pai­xão sejam vir­tu­des supe­ri­o­res a andreia, à bra­vura viril.” (pg. 147)

Pla­tão afirma que Esparta foi uma timo­cra­cia, que segundo o filó­sofo é a segunda melhor forma de governo. Sua imper­fei­ção con­siste em dar exces­siva ênfase na ginás­tica (o desen­vol­vi­mento moral e da vir­tude) e negli­gen­ciar a música (o desen­vol­vi­mento da sen­si­bi­li­dade da alma), de modo que a edu­ca­ção de uma soci­e­dade ideal con­tem­pla­ria ambos os fato­res.

Em uma com­pa­ra­ção chula e injusta, mas de certa forma útil, pode­mos pen­sar que, enquanto Esparta caiu nesse extremo, nossa soci­e­dade atual cai no outro, quando preza por edu­ca­ção exces­si­va­mente inte­lec­tual e teó­rica, junto a uma liber­ti­na­gem e fres­cu­ras que evi­den­ciam uma notá­vel fra­queza de cará­ter de nos­sos cida­dãos.

Mas, gos­te­mos ou não, sendo a guerra uma força da natu­reza digna de ser repre­sen­tada por uma divin­dade, as maze­las de nosso mundo deve­rão se dis­sol­ver nas pági­nas ensan­guen­ta­das da His­tó­ria que advirá, pois tudo o que vive está sujeito a pade­cer.

E pade­cer, para que outra coisa (re)nasça.


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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