Muitos dos movimentos espiritualistas modernos, em especial aqueles vinculados ao New Age e à cultura hippie/hipster, possuem em comum a característica do desprezo à guerra, vinculando-a ao horror e à insanidade mais baixa de que o ser humano é capaz.

Há aí um grande contraste com as formas religiosas antigas que cultuavam divindades próprias associadas à guerra. São exemplos o deus da tempestade dos hititas, o deus Ares dos gregos, Marte dos romanos, Kartikeya dos hindus, entre outros.

Então, que atributo divino é este que possui a guerra?

De fato, é difícil percebê-lo nos dias atuais, pois as guerras recentes são marcadas por uma falta de sentido completo, operando apenas por justificativas materiais, econômicas e políticas, sejam estas petróleo, território ou qualquer outra coisa do tipo.

Desse modo, é fácil deduzir que a guerra seja uma coisa horrenda, pois o terror da carnificina na história recente ocorreu por motivos que não fazem jus à sua gravidade. Entretanto, talvez esse modo de julgar a guerra seja o mesmo de julgar um carro que esteja sendo usado para andar na água.

O fato é que a guerra está na natureza. Um rio está em constante guerra para chegar ao oceano, o fogo desafia a gravidade ao elevar suas chamas ao céu, as ondas batem com força para encontrar as areais da praia, a tempestade mostra toda a fúria de que o céu é capaz…

E, por mais que pareça contraditório à primeira vista, a guerra está intimamente relacionada ao amor.

Afrodite e Ares eram apaixonados um pelo outro. Os egípcios não tinham palavras diferentes para amor e ódio, mas apenas uma, de modo que poderíamos grafar atualmente como “amoródio”. Trata-se de um complemento, dois lados de uma mesma moeda, onde ambos com seus recursos nos movem para chegar a algum lugar de transcendência.

De modo mais objetivo e cotidiano, o filósofo contemporâneo José Ortega y Gasset parece ter traduzido bem esta ideia:

"Com a moral corrigimos os erros de nossos instintos, e com o amor os erros de nossa moral." - josé ortega y gasset | citação | o valor da guerra

A guerra justa – ou santa – consiste na luta para que prevaleça e seja rei o que há de mais nobre e belo (tanto no indivíduo quanto na sociedade). É a destruição das formas gastas, para que o puro, verdadeiro e nobre volte a reinar em sua era de ouro.

Esse processo é representado na figura de Shiva do hinduísmo, no nigredo alquímico, entre outras tradições que buscaram por traduzir e louvar o aspecto guerreiro da natureza, em seus variados sentidos e profundidades.

 

Hoje

É tão verdade que a guerra é um atributo que deve ser cultuado, que nosso atual desprezo a ela nos causa grandes problemas.

O seu valor para nós enquanto seres humanos está no desenvolvimento da resiliência psíquica e na formação do caráter. Assim como uma vacina é capaz de nos tornar mais fortes e resistentes a microorganismos através de nosso contato voluntário com eles, do mesmo modo a passagem por todo tipo de provações nos faz mais poderosos e resistentes, mais capazes de lutar em nossa própria guerra interna.

Entretanto, o absurdo conforto da modernidade somado à cultura do menor esforço cria uma população de débeis.

Não aguentamos ficar sem ar condicionado, qualquer crítica nos sensibiliza a ponto de cortarmos relações e guardar as mais vampirescas mágoas, comemos uma enorme quantidade de alimentos industrializados e horrendos, tomamos “um remedinho” para qualquer dor que nos possa acometer, ficamos mau humorados se não dormimos as oito horas diárias recomendadas pelos especialistas, e nos consideramos o centro do universo, achando um absurdo se qualquer um de nossos desejos não são atendidos.

O instinto de autopreservação prevalece e os mais diversos vícios e defeitos se alastram.

Ao mesmo tempo, no contexto das camadas sociais menos favorecidas, as milhares de provações da pobreza fazem a população desconhecer o mimo dos confortos modernos, desenvolvendo a garra e a força que a guerra contempla.

Entretanto, sem inúmeros fatores materiais e espirituais básicos, tais virtudes são muitas vezes encaminhadas para o crime e a amoralidade, fortalecendo o poder das máfias e quadrilhas.

O político inglês do século XIX Benjamin Disraeli certa vez disse: “o momento exige que os bons tenham a audácia dos canalhas”.

Este momento perdura até hoje. Ou você acha que os pré-adolescentes de classe média alta cujo maior esforço é o de apertar o botão da TV ou do videogame enquanto comem cheetos são mais audaciosos do que os meninos-falcões do tráfico?

 

Ontem

Ao contrário das guerras atuais, muitas das guerras da Antiguidade não diziam respeito a riquezas ou poder. Em muitos casos, o desenvolvimento das virtudes da força, honra, defesa de valores íntegros, além da necessidade de defender sua cidade e/ou nação, era o que estava por trás de uma guerra.

Durante os tempos áureos da civilização Romana, em que não havia ainda decaído moralmente, a anexação de territórios não dizia respeito à simples conquista, mas a espalhar a luz da civilização pelo mundo. Muitos povos que eram governados por tiranias foram anexados ao Império.

Ao mesmo tempo, a cultura dos povos conquistados não era extinta ou subjugada à romana, mas aceita e tolerada, de modo que o Império contasse com uma grande diversidade religiosa e cultural, personificada no Panteão romano. Era a ideia estóica dos “cidadãos do mundo”: um ideal de fraternidade e unidade entre todos os povos e culturas.

Assim, a guerra não estava a serviço de algum interesse material ou egoísta.

Águia romana, símbolo da propagação da civilização. | O valor da guerra
Águia romana, símbolo da propagação da civilização.

Prova disso é o deus da guerra romano Marte, que era representado banhado com seu próprio sangue, ou seja, o sacrifício do guerreiro que luta por uma causa justa. O guerreiro não é um bárbaro troglodita, mas antes de tudo um cavalheiro governador de si mesmo que não luta por outra coisa senão a justiça e a nobreza.

A cidade-estado grega de Esparta foi também outra potência que tinha a guerra em suas entranhas.

A cidade sem muralhas, pois os próprios cidadãos faziam esse papel, era detentora de um modelo educacional que hoje nos pode parecer quase aterrorizador.

Os meninos espartanos eram educados para a guerra, passando pelas mais diversas e pesadas provações. Entretanto, via-se não apenas o lado prático de tal modelo educacional – já que os espartanos realmente guerreavam muito – mas também espiritual.

O romance Portões de Fogo, de Steven Pressfield, autor com bastante conhecimento no assunto, retrata a instrução de um guerreiro espartano a um pré-adolescente que se inicia nas artes guerreiras, contemplando o espírito que animava cidade como nenhuma explicação racional e acadêmica pode supor:

“A guerra, não a paz, produz a virtude. A guerra, não a paz, purga o vício. A guerra, e a preparação para a guerra, suscita tudo o que é nobre e digno em um homem. Une-o a seus irmãos e os liga em um amor altruísta, erradicando no cadinho da necessidade tudo que é vil e ignóbil. Ali, no moinho sagrado do assassínio, o homem mais vil pode buscar e encontrar essa parte de si mesmo, oculta sob a corrupção, que reluz intensa e virtuosa, digna de honra diante dos deuses. Não despreze a guerra, efebo, nem imagine que a misericórdia e a compaixão sejam virtudes superiores a andreia, à bravura viril.” (pg. 147)

Platão afirma que Esparta foi uma timocracia, que segundo o filósofo é a segunda melhor forma de governo. Sua imperfeição consiste em dar excessiva ênfase na ginástica (o desenvolvimento moral e da virtude) e negligenciar a música (o desenvolvimento da sensibilidade da alma), de modo que a educação de uma sociedade ideal contemplaria ambos os fatores.

Em uma comparação chula e injusta, mas de certa forma útil, podemos pensar que, enquanto Esparta caiu nesse extremo, nossa sociedade atual cai no outro, quando preza por educação excessivamente intelectual e teórica, junto a uma libertinagem e frescuras que evidenciam uma notável fraqueza de caráter de nossos cidadãos.

Mas, gostemos ou não, sendo a guerra uma força da natureza digna de ser representada por uma divindade, as mazelas de nosso mundo deverão se dissolver nas páginas ensanguentadas da História que advirá, pois tudo o que vive está sujeito a padecer.

E padecer, para que outra coisa (re)nasça.


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escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.


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