imagem sobre o texto que aborda a utopia, em Ano Zero, por Victor Lisboa.

Como se constrói uma utopia possível?

Em Consciência por Victor LisboaComentários

Enten­der o que faz uma uto­pia não é algo sim­ples, mas aque­las pes­soas que “nunca se encai­xam” tal­vez pos­sam dar uma pista.


Conheço muita gente que “nunca se encaixa”. Você sabe o que quero dizer. Para essas pes­soas, sem­pre há uma sen­sa­ção de estra­nha­mento diante da soci­e­dade. Sen­tem-se “ali­e­ní­ge­nas”, “estran­gei­ros”, visi­tan­tes de outro mundo.

Na ver­dade, alguns dos meus melho­res ami­gos e per­so­na­li­da­des que mais admiro pre­en­chem esse per­fil. De Kafka a Len­non, de Bukowski a Tho­reau.

O escri­tor e malu­cão Colin Wil­son os cha­mava de “out­si­ders”, e já escrevi sobre eles. Mas tanto faz qual a eti­queta que se dê, nenhuma eti­queta cola por muito tempo em tais pes­soas. Como o per­so­na­gem Don­nie Darko do filme de mesmo nome, esse tipo de indi­ví­duo observa a soci­e­dade e per­cebe mui­tos de seus ritos como ence­na­ções des­pro­vi­das de sen­tido. Como Chris McCan­dless, do filme Na natu­reza Sel­va­gem, anseiam por uma vida mais autên­tica e plena. Como Tyler Dur­den de O Clube da Luta, aspi­ram uma rup­tura com tudo o que ali­ena o ser humano e o afasta de sua ver­da­deira natu­reza.

Os moti­vos pelos quais tais pes­soas se colo­cam à mar­gem da ence­na­ção social podem ser mul­ti­fa­to­ri­ais: tal­vez uma pre­dis­po­si­ção inata em cer­tos casos, tal­vez em outros uma infân­cia em que pais pro­ble­má­ti­cos falha­ram em trans­mi­tir uma visão posi­tiva e con­vi­da­tiva da ade­são social.

De qual­quer forma, ainda que se possa expli­car sua pos­tura como o resul­tado de um des­vio aci­den­tal da nor­ma­li­dade, isso não sig­ni­fica que a visão que essas pes­soas têm da soci­e­dade não seja, em mui­tos aspec­tos, mais lúcida do que a visão daque­les que “se encai­xam”.

Na ver­dade, as ideias de um his­to­ri­a­dor isra­e­lense suge­rem que tais pes­soas têm muita razão no seu sen­ti­mento de estra­nha­mento diante do nosso mundo.

O flautista que criou o mundo

Em Sapi­ens, livro do his­to­ri­a­dor Yuval Harari, há mui­tas lições a apren­der. E uma das prin­ci­pais é a cons­ta­ta­ção de que somos dife­ren­tes dos outros ani­mais em um aspecto muito curi­oso, seja o único ou não. É que o ser humano, dife­rente do tigre que mora nas sava­nas e do gol­fi­nho que vive nos oce­a­nos, sem­pre está pre­sente em dois habi­tats ao mesmo tempo.

O pri­meiro é o mundo con­creto, o segundo é seu pró­prio ima­gi­ná­rio.

É que, para o desen­vol­vi­mento da civi­li­za­ção, é pre­ciso a cola­bo­ra­ção de cen­te­nas, senão de milha­res, de pes­soas. Porém gran­des gru­pos huma­nos, como Harari demons­tra, não podem se man­ter coe­sos se uti­li­za­rem os vín­cu­los que fun­ci­o­nam para unir as pes­soas em peque­nas tri­bos. É pre­ciso um fun­da­mento dife­rente da rela­ção de paren­tesco e da vizi­nhança, pois você não pode ser parente ou vizi­nho de todas as milha­res de pes­soas de uma grande soci­e­dade.

E con­se­gui­mos criar esse sis­tema uti­li­zando nada mais do que con­cei­tos abs­tra­tos. Ou seja, con­cei­tos que não guar­dam qual­quer cor­res­pon­dên­cia com o mundo real, mas que nos inse­rem den­tro de uma espé­cie de alu­ci­na­ção cole­tiva - na qual pode­mos coo­pe­rar em larga escala.

Esse algo é a fic­ção.

Somos, segundo Harari, uma espé­cie de pri­mata meio maluca, que cria nar­ra­ti­vas para si mesma e passa a tra­tar essas nar­ra­ti­vas como ver­da­des. E não ape­nas indi­vi­du­al­mente. Na ver­dade, cri­a­mos nar­ra­ti­vas con­sen­su­ais, fic­ções com­par­ti­lha­das por toda uma comu­ni­dade como se fos­sem des­cri­ções de fatos con­cre­tos, embora resi­dam ape­nas em nos­sas cabe­ças. Esse é nosso mundo ima­gi­ná­rio.

Somos aquele flau­tista de Hame­lin, cuja lenda diz que tocava uma melo­dia capaz de hip­no­ti­zar qual­quer ser vivo. Mas, ao con­trá­rio dele, não hip­no­ti­za­mos ratos. Hip­no­ti­za­mos a nós mes­mos.

Mas o ponto inte­res­sante é que nossa capa­ci­dade de pro­du­zir e acre­di­tar em cer­tas fic­ções foi, longe de uma lou­cura, o grande salto his­tó­rico que nos per­mi­tiu ir além dos outros ani­mais e desen­vol­ver a civi­li­za­ção.

Na ver­dade, nossa capa­ci­dade de criar fic­ções e tratá-las como “ver­da­des con­sen­su­ais” é algo tão impac­tante que pode ser con­si­de­rada uma ver­da­deira revo­lu­ção que ocor­reu há milha­res de anos atrás: a Revo­lu­ção Cog­ni­tiva.

Afi­nal, ideias impor­tan­tes como nações, dinheiro, jus­tiça, empre­sas, lei, pro­pri­e­dade, con­tra­tos e outras tan­tas coi­sas fun­da­men­tais para o fun­ci­o­na­mento de nossa soci­e­dade são ape­nas fic­ções. Na natu­reza, não há cré­dito, leis, ban­cos, direi­tos huma­nos, demo­cra­cia e outras tan­tas coi­sas das quais depende nossa atual soci­e­dade.

Orga­ni­zando o esforço de mul­ti­dões, a tota­li­dade des­sas fic­ções per­mite que modi­fi­que­mos o mundo real ao nosso redor de uma forma sem pre­ce­den­tes na his­tó­ria das espé­cies ani­mais. Ape­nas soci­e­da­des orga­ni­za­das em torno de fic­ções efi­ca­zes são capa­zes de criar meios de trans­porte com larga escala, for­mas de comu­ni­ca­ção a grande dis­tân­cia e armas de des­trui­ção em massa.

O imaginário domestica os homens, torna-os manipuláveis (utopia).

O ima­gi­ná­rio domes­tica os homens, torna-os mani­pu­lá­veis, pela reli­gião ou pela ide­o­lo­gia.

Pen­se­mos ape­nas no dinheiro (que merece uma aná­lise apar­tada) e em todas as outras fic­ções a ele cor­re­la­tas: cré­dito, dívida, banco, sis­tema finan­ceiro, mer­cado e tan­tos outros con­cei­tos sem exis­tên­cia real. Tudo isso não existe senão ape­nas enquanto abs­tra­ção cons­truída em nosso ima­gi­ná­rio, mas nossa soci­e­dade rui­ria se, em deter­mi­nado momento, todos nós parás­se­mos de acre­di­tar em alguma delas con­sen­su­al­mente.

É nesse habi­tat ima­gi­ná­rio que vive­mos a maior parte de nossa vida cons­ci­ente. Mui­tos de nos­sos pra­ze­res, alen­tos e espe­ran­ças pes­so­ais exis­tem ape­nas ali. O român­tico pedido de casa­mento e a pro­mo­ção numa grande empresa são coi­sas que exis­tem ape­nas den­tro de nos­sas cabe­ças (matrimô­nio e emprego são ideias, não coi­sas con­cre­tas), mas na prá­tica são viven­ci­a­das como even­tos capa­zes de tra­zer feli­ci­dade.

E essas mes­mas fic­ções, claro, podem nos tra­zer pro­fundo sofri­mento. O con­ceito de fide­li­dade e infi­de­li­dade, bem como de desem­prego e salá­rio são cri­a­ções con­sen­su­ais da huma­ni­dade. No entanto, ser demi­tido ou traído não se tor­nam menos dolo­ro­sos se você con­sola a pes­soa dizendo que ela está sofrendo por fic­ções con­sen­su­ais.

Essa é a van­ta­gem de tais fic­ções: elas real­mente nos per­mi­tem alte­rar o mundo real de forma efi­ci­ente, elas afe­tam genui­na­mente a forma como sen­ti­mos e agi­mos. Gra­ças a essas ideias, ven­ce­mos com larga mar­gem a com­pe­ti­ção evo­lu­tiva com os outros ani­mais. O casa­mento pode resul­tar na pro­cri­a­ção e a pro­mo­ção no tra­ba­lho pode tor­nar a vida de nos­sos des­cen­den­tes mais segura e prós­pera. A fide­li­dade serve a cer­tos sis­te­mas soci­ais como forma de garan­tir que os pais criem seus filhos jun­tos. A ideia de emprego per­mite que as for­ças de todos os indi­ví­duos sejam orga­ni­za­das para asse­gu­rar a sobre­vi­vên­cia cole­tiva.

Toda­via, a crença na efe­ti­vi­dade des­sas cons­tru­ções fic­ci­o­nais depende de uma grande ade­são à soci­e­dade. Por isso, aque­las pes­soas que “não se encai­xam” per­ce­bem com mais cla­reza a natu­reza fic­ci­o­nal de mui­tas coi­sas, as quais as outras pes­soas acham muito impor­tan­tes.

Para elas, os outros pare­cem meio enlou­que­ci­dos ao lidar com tanta seri­e­dade e com­pro­misso com coi­sas que, no fundo, pare­cem for­mas de embuste. Mais ainda, esses que “não se encai­xam” mui­tas vezes sus­pei­tam que essas coi­sas estão apri­si­o­nando os outros em um sis­tema que não passa de uma forma de pri­são.

E elas estão cer­tas. Como Tyler Dur­den disse, a maior parte das pes­soas tra­ba­lha em empre­gos que detes­tam para com­prar coi­sas de que não pre­ci­sam em busca do reco­nhe­ci­mento de gente que não importa.

A prisão no imaginário evolutivo

Quando se diz que o homem é um ani­mal que, dife­ren­te­mente dos demais, habita seu pró­prio ima­gi­ná­rio, não é per­fei­ta­mente cor­reto afir­mar que o homem se serve de fic­ções úteis à sua sobre­vi­vên­cia. Por mais irô­nico e ter­rí­vel que seja, um olhar atento e impar­cial cons­tata que é justo o con­trá­rio: são as fic­ções úteis que escra­vi­zam os homens.

Pen­se­mos no dinheiro (uma fic­ção con­sen­sual) e como pes­soas per­dem suas vidas dedi­cando-se a acu­mulá-lo. Lem­bre­mos de outros que fazem de tudo para obter grande pres­tí­gio social (outra fic­ção con­sen­sual). E daque­les que mor­rem ou matam em nome de ide­o­lo­gias polí­ti­cas ou dog­mas reli­gi­o­sos. E esses são ape­nas os exem­plos mais cla­ros do quanto nossa ade­são incon­di­ci­o­nal ao nosso ima­gi­ná­rio pode pro­du­zir sofri­mento. Pois há for­mas mais insi­di­o­sas de sofrer.

Como o poeta Walt Whit­man disse, a maior parte das pes­soas parece viver em um cons­tante estado de tran­quilo deses­pero.

É que a Revo­lu­ção Cog­ni­tiva tor­nou pos­sí­vel a orga­ni­za­ção social neces­sá­ria a outra rup­tura em nossa his­tó­ria: a Revo­lu­ção Agrí­cola, pela qual abdi­ca­mos do noma­dismo para esta­be­le­cer comu­ni­da­des em peque­nos povo­a­dos que mui­tas vezes evo­luíam para gran­des cida­des e, até mesmo, impé­rios.

Do ponto de vista do indi­ví­duo, a revo­lu­ção agrí­cola repre­sen­tou perda de auto­no­mia e de qua­li­dade de vida. Por mais con­train­tui­tivo que seja, há indí­cios de que nos­sos ante­pas­sa­dos pré revo­lu­ção cog­ni­tiva eram não só mais sau­dá­veis em média do que o homem moderno (sua ali­men­ta­ção era mais diver­si­fi­cada e rica): eram tam­bém, em média, mais inte­li­gen­tes que nós somos hoje em dia.

A vida exposta aos rigo­res do mundo natu­ral exi­gia de nós uma fle­xi­bi­li­dade cog­ni­tiva supe­rior à era da espe­ci­a­li­za­ção que se inau­gu­rou com a cri­a­ção da civi­li­za­ção. Antes, para sobre­vi­ver, você pre­ci­sava saber caçar, sele­ci­o­nar boas fon­tes de ali­mento entre fru­tas e raí­zes, ela­bo­rar fer­ra­men­tas de defesa e de ata­que, extrair medi­ca­men­tos e cica­tri­zan­tes do mundo vege­tal. Hoje, tudo o que você pre­cisa saber é como ser um bom fun­ci­o­ná­rio ou empre­gado em uma tarefa espe­cí­fica e de regra repe­ti­tiva.

Frase sobre o dinheiro, de Yuval Noha Harari (utopia): "O dinheiro é o mais universal e eficiente sistema de confiança mútua que já conseguimos conceber." Ano Zero

E isso ocorre por­que o mundo ima­gi­ná­rio com­posto por nos­sas fic­ções con­sen­su­ais é uma van­ta­gem que não serve ao indi­ví­duo, mas ao ins­tinto de sobre­vi­vên­cia cego da uni­dade bio­ló­gica mais fun­da­men­tal: o DNA.

Como Daw­kins expõe com crua pre­ci­são em seu livro O Gene Egoísta, pra­ti­ca­mente todo o com­por­ta­mento humano pode ser redu­zido a um deno­mi­na­dor comum: a sobre­vi­vên­cia e pro­li­fe­ra­ção do DNA. É como se o DNA fosse uma espé­cie de dita­dor ego­cên­trico, que governa nos­sas con­du­tas no nível micros­có­pico. O obje­tivo desse dita­dor não é asse­gu­rar o bem-estar do indi­ví­duo, mas uti­li­zar esse indi­ví­duo para garan­tir a pro­li­fe­ra­ção cega e cons­tante de sua pró­pria con­fi­gu­ra­ção espe­cí­fica de áci­dos ribo­nu­clei­cos.

Essa cegueira do dita­dor que mani­pula todos nós, o DNA, é evi­den­ci­ada por um fato cor­ri­queiro e ter­rí­vel: do ponto de vista da bata­lha gené­tica entre as diver­sas espé­cies ani­mais, pou­cos foram mais bem feli­zes do que o DNA das vacas. Afi­nal, nossa depen­dên­cia da carne de gado mul­ti­pli­cou feno­me­nal­mente os mem­bros de sua espé­cie e garante que seja pre­ser­vada gra­ças a enor­mes áreas de pasto no mundo inteiro, com­pro­me­tendo inclu­sive o equi­lí­brio ambi­en­tal. Porém, pou­cos ani­mais na face da Terra têm, hoje, uma vida mais sofrida do que o gado que enca­mi­nha­mos sis­te­ma­ti­ca­mente aos mata­dou­ros.

Da mesma forma, o desen­vol­vi­mento da civi­li­za­ção arran­cou em tempo rela­ti­va­mente curto o ser humano de um estilo de vida tal­vez desa­fi­a­dor e até difí­cil, mas que satis­fa­zia suas neces­si­da­des fun­da­men­tais de auto­no­mia, liber­dade e rea­li­za­ção emo­ci­o­nal, colo­cando todos nós em um sis­tema que vio­lenta nossa natu­reza mais íntima: horá­rios pré-esta­be­le­ci­dos, trân­sito engar­ra­fado, tra­ba­lhos buro­crá­ti­cos, cons­tante busca de sta­tus social, fana­tis­mos, con­sumo desen­fre­ado, pre­con­cei­tos, degra­da­ção do meio ambi­ente e outras tan­tas carac­te­rís­ti­cas da civi­li­za­ção moderna são sen­ti­das com estra­nha­mento por nos­sos ins­tin­tos fun­da­men­tais.

"Compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas de quem não gostamos." - Clube da Luta | Ano Zero (utopia)

As des­van­ta­gens para o indi­ví­duo nesse sis­tema e o sofri­mento dele decor­rente são tão gri­tan­tes que mui­tos pes­qui­sa­do­res se per­gun­tam qual a razão de nos­sos ante­pas­sa­dos o terem cri­ado. Após a revo­lu­ção cog­ni­tiva, seguiu-se a Revo­lu­ção Agrí­cola, que Harari chama de “a maior fraude da his­tó­ria”, pois sujei­tou o ser humano médio a uma quan­ti­dade de sofri­mento e sacri­fí­cio que não jus­ti­fi­cava os pou­cos bene­fí­cios disso decor­ren­tes.

Parece, ao que tudo indica, que foi ape­nas um des­vio do cami­nho humano. Ou um erro dúbio, que trouxe algu­mas van­ta­gens mas muito sofri­mento. Nos­sos ante­pas­sa­dos fize­ram esco­lhas que pare­ciam sen­sa­tas no momento, mas que de, uma pers­pec­tiva mais dis­tan­ci­ada, têm con­si­de­rá­veis des­van­ta­gens.

Quan­tos jovens uni­ver­si­tá­rios recém-for­ma­dos acei­tam empre­gos exi­gen­tes em empre­sas impor­tan­tes”, per­gunta Harari, “pro­me­tendo que darão duro para ganhar dinheiro que lhes per­mi­tirá se apo­sen­ta­rem ou irem atrás de seus inte­res­ses ao che­ga­rem aos 35? Mas, quando che­gam a essa idade, eles têm gran­des hipo­te­cas para qui­tar, filhos para edu­car, casas em zonas resi­den­ci­ais que neces­si­tam pelo menos de dois car­ros por famí­lia e uma sen­sa­ção de que a vida não vale a pena sem um bom vinho e férias caras no exte­rior? O que se espera que façam, vol­tem a arran­car raí­zes? Não, eles redo­bram seus esfor­ços e con­ti­nuam se escra­vi­zando”.

Aque­les que “não se encai­xam” assim se com­por­tam por sus­pei­ta­rem que o encaixe cobra um preço não só caro, mas irre­cu­pe­rá­vel. Pior, des­con­fiam que esta­mos sendo leva­dos por um flau­tista irres­pon­sá­vel à beira do abismo. E é difí­cil ques­ti­o­nar­mos essa des­con­fi­ança quando lem­bra­mos dos estra­gos irre­ver­sí­veis ao meio ambi­ente que uma soci­e­dade vici­ada no con­sumo, no reino das gri­fes e mar­cas ima­gi­ná­rias, está pro­du­zindo.

E tal­vez isso não seja exclu­sivo dos out­si­ders de Wil­son. Tal­vez no fundo todos nós per­ce­ba­mos mui­tas das ence­na­ções des­ne­ces­sá­rias de nosso jogo social, cogi­tando se o preço pago com­pensa alguns de seus dis­sa­bo­res. Quem “não se encaixa” ape­nas é menos tímido que nós.

Evolução ao invés de revolução

Esta­mos tão imer­sos no ima­gi­ná­rio cole­tivo que seria uma inge­nui­dade assom­brosa acre­di­tar que pode­mos nos liber­tar dele. Mesmo indi­vi­du­al­mente, tal liber­ta­ção não é pos­sí­vel, pois nossa pró­pria iden­ti­dade é, em parte, pro­duto desse pró­prio ima­gi­ná­rio.

Mais ainda, sequer seria dese­já­vel, neste momento da his­tó­ria, liber­tar-se do mundo de fic­ções con­sen­su­ais que a huma­ni­dade cons­truiu para si. Embora nos­sos ante­pas­sa­dos tenham sofrido con­si­de­ra­vel­mente com a escra­vi­dão e a ser­vi­dão em sis­te­mas soci­ais arcai­cos e os out­si­ders de Colin Wil­son tenham razão em des­con­fiar das ence­na­ções e ritos soci­ais, o homem moderno usu­frui de tan­tas van­ta­gens resul­tan­tes do pro­gresso civi­li­za­tó­rio que seria impen­sá­vel retor­nar ao mundo natu­ral.

Mas a ques­tão vai além da cari­ca­tu­ri­za­ção do hip­pie natu­reba que abdica dos con­for­tos moder­nos para morar em uma caverna e comer só raí­zes. Se todos os pre­con­cei­tos e fana­tismo sur­gi­ram e resi­dem ape­nas em nosso ima­gi­ná­rio, o mesmo se pode dizer dos ide­ais de igual­dade, jus­tiça e tole­rân­cia.

Por isso é muito fácil cri­ti­car os aspec­tos nega­ti­vos do mundo, mas quase sui­cida ten­tar modi­ficá-lo. É o que nos diz o século pas­sado: ao longo dos últi­mos cem anos, um pouco mais, as melho­res inte­li­gên­cias se dedi­ca­ram a fazer a crí­tica de nosso mundo e pro­por mudan­ças. E nunca jor­rou tanto san­gue na his­tó­ria humana em nome de ide­o­lo­gias e nobres aspi­ra­ções quanto no século XX.

É que, antes de agir, pre­ci­sa­mos con­si­de­rar todas as pos­si­bi­li­da­des. E quando fala­mos em ima­gi­ná­rio humano, supo­mos erro­ne­a­mente um mundo fle­xí­vel, maleá­vel à nossa von­tade. Mas esque­ce­mos que esta­mos falando de um sis­tema con­sen­sual que define não ape­nas nossa soci­e­dade, mas tam­bém quem somos, qual a nossa iden­ti­dade, quais nos­sos valo­res e qual o sig­ni­fi­cado das expe­ri­ên­cias mais impor­tan­tes de nos­sas vidas. Esse sis­tema é resis­tente. Pior: quando cutu­cado, ele cutuca de volta, e mui­tas vezes de um jeito ines­pe­rado.

Além disso, como Daw­kins demons­trou, o mundo ima­gi­ná­rio é pode­roso pois os gri­lhões que nos pren­dem a ele são fei­tos de molé­cu­las de DNA. As esco­lhas de nos­sos ante­pas­sa­dos esta­vam base­a­dos em um dos ins­tin­tos huma­nos mais fun­da­men­tais: a sobre­vi­vên­cia da espé­cie. Em outras pala­vras, esta­mos falando de estru­tu­ras con­cei­tu­ais que tem impacto na coe­são social ao mesmo tempo que mani­pu­lam sen­ti­men­tos bási­cos como medo, desejo e aver­são.

Por isso, embora mui­tos dos que “não se encai­xam” aspi­rem ou por uma rup­tura ico­no­clasta como a de Tyler Dur­den ou por uma fuga defi­ni­tiva como a de Chris McCan­dless, o segredo não é des­truir­mos nem esca­par­mos das fic­ções con­sen­su­ais que nos apri­si­o­nam e sedu­zem.

O segredo é reco­nhe­cer­mos cla­ra­mente sua natu­reza fic­ci­o­nal e apren­der­mos não só a con­trolá-las, sele­ci­o­nando aque­las que nos con­vém e aque­las que são heran­ças arcai­cas de nos­sos ante­pas­sa­dos. Isso é só parte do que­bra-cabeça. A outra parte é apren­der­mos tam­bém a con­tro­lar o quanto nos dei­xa­mos sedu­zir e apri­si­o­nar por elas.

Pois não nos enga­ne­mos diante das evi­dên­cias: as fic­ções con­sen­su­ais são neces­sá­rias e, sendo neces­sá­rias, só fun­ci­o­nam se nelas acre­di­ta­mos em algum nível. Não só isso: se por um lado as fic­ções con­sen­su­ais são res­pon­sá­veis por mui­tos de nos­sos des­gos­tos, elas tam­bém são a causa de grande parte de nos­sas ale­grias e con­ten­ta­men­tos coti­di­a­nos.

A ques­tão, por­tanto, é apren­der­mos indi­vi­du­al­mente e soci­al­mente o nível ideal em que a ade­são a tais fic­ções, seja por sua inten­si­dade ou frequên­cia, não pro­duz sofri­mento des­ne­ces­sá­rio.

Como o flau­tista de Hame­lin de que fala­mos no iní­cio, o tru­que não está em que­brar a flauta, mas em des­co­brir quando con­vém hip­no­ti­zar a nós mes­mos e qual melo­dia tocar. Pois se o flau­tista pode seques­trar nosso futuro, como fez aquele da fábula, tam­bém é útil para nos livrar de ratos.

Falando no espí­rito da música, não é a toa que Nietzs­che con­si­de­rava que a arte seria capaz de sal­var a huma­ni­dade — sabia que na gene­a­lo­gia dos valo­res huma­nos encon­tra-se uma von­tade de cri­a­ção artís­tica. É dela que pre­ci­sa­mos para refor­mar­mos o nosso mundo.

Esta­mos em um está­gio do pro­gresso humano em que final­mente pode­mos cons­ta­tar, com obje­ti­vi­dade, que nossa civi­li­za­ção nas­ceu e está ali­cer­çada na capa­ci­dade humana de criar fic­ções atra­ti­vas e fun­ci­o­nais que, ao nos sedu­zi­rem, orga­ni­zam e mobi­li­zam os esfor­ços cole­ti­vos. Demo­cra­cia, jus­tiça, dinheiro, capi­ta­lismo, mer­cado, emprego, reli­gião. Coi­sas que só exis­tem por­que todos acre­di­ta­mos nelas — e enquanto todos acre­di­tar­mos nelas.

Per­ce­be­mos, porém, que algu­mas das esco­lhas fei­tas por nos­sos ante­pas­sa­dos com base nesse mundo ima­gi­ná­rio são hoje incon­ve­ni­en­tes e obso­le­tas. O machismo parece um dos mais óbvios. Tam­bém sabe­mos que acre­di­tar dema­si­a­da­mente nes­sas fic­ções con­sen­su­ais é o cami­nho direto para o mundo das neu­ro­ses. A ano­re­xia é a con­fu­são do ano­ré­xico sobre qual a sua ima­gem, por exem­plo. Por fim, per­ce­be­mos que nos­sas pri­mei­ras ten­ta­ti­vas raci­o­nais de inter­pre­tar e mexer nesse sis­tema pro­du­zi­ram guer­ras e revo­lu­ções san­gui­ná­rias. Essa é a his­tó­ria das ide­o­lo­gias por trás da Segunda Guerra Mun­dial e da Guerra Fria.

Jamais outra gera­ção teve tanta sorte quanto nós, neste momento. Pela pri­meira vez, temos uma per­cep­ção clara daquilo que nos faz ser o que somos. Pela pri­meira vez, pode­mos con­si­de­rar a pos­si­bi­li­dade de mudar alguns aspec­tos inde­se­já­veis do mundo revi­sando e exa­mi­nando como fun­ci­o­nam as coi­sas em nosso ima­gi­ná­rio cole­tivo. Mas fazendo isso sem ten­tar apli­car ao mundo real e com­plexo sis­te­mas teó­ri­cos fecha­dos, e sim pon­tu­al­mente, com raci­o­na­li­dade e sen­si­bi­li­dade.

Esta­mos lidando com for­ças pode­ro­sas, e sem­pre é um erro menos­pre­zar o ima­gi­ná­rio que move as mul­ti­dões, seja na forma de reli­giões ou ide­ais patrió­ti­cos. Mas a huma­ni­dade já se nota­bi­li­zou por ser capaz de mani­pu­lar coi­sas peri­go­sas como o fogo e a ener­gia nuclear, e não se medrará diante de potên­cias con­cei­tu­ais como dinheiro e poder polí­tico. E isso por­que há, nas pro­fun­de­zas desse mesmo mundo ima­gi­ná­rio, uma ideia que um dia pode tor­nar-se tão real para nós quanto dinheiro e poder polí­tico real­mente aca­bam se tor­nando em nosso coti­di­ano. Essa ideia tem força sufi­ci­ente para nos dar cora­gem, é sedu­tora o sufi­ci­ente para nos hip­no­ti­zar.

Basta lem­brar­mos e acre­di­tar­mos nela cole­ti­va­mente, ainda que seja aos pou­cos, ainda que só em alguns aspec­tos da vida, naque­les mais con­sen­su­ais. Quem sabe em nos­sas rela­ções, para come­çar? Basta saber­mos ajus­tar a arqui­te­tura de nosso ima­gi­ná­rio que, aos pou­cos, nos apro­xi­ma­re­mos dessa ideia. E o quanto mais nos apro­xi­mar­mos dela, mais pode­re­mos nos con­gra­tu­lar reci­pro­ca­mente.

Pois em algum dos futu­ros que pode­mos cons­truir com nos­sas esco­lhas aqui e agora, há algu­mas uto­pias pos­sí­veis nos aguar­dando.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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