Este é o primeiro texto de três, em que analiso os instrumentos usados para manipular pessoas por meio da propaganda. Tratarei de vários temas, incluindo a anatomia de um boato e a inserção de notícias falsas.


Guarujá, minha querida cidade que lidera o ranking de roubos no estado de São Paulo, em 2014 foi palco da tragédia que começou com um boato no Rio de Janeiro. Uma mulher foi linchada em plena luz do dia, acusada de ser uma “bruxa” que sequestrava crianças e as sacrificava em rituais de magia negra.

A acusação começou com um boato que se espalhou por diversas cidades via Facebook. As pessoas que compartilhavam os textos e o retrato-falado da suposta bruxa eram das regiões do Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Quando chegou no Guarujá, fiquei espantado. Pensei: “Não acredito que esse boato chegou até essa roça de cidade”.

Na verdade, a cidade já era vítima de um boato cíclico que se dissemina com regularidade em diversas regiões do Brasil: o boato de que um enfermeiro ou enfermeira estaria utilizando uma seringa para infectar pessoas com o vírus HIV.

Boato dos enfermeiros transmitindo AIDS
Print retirado do site e-farsas. Dessa vez o boato estava no Espirito Santo.

É um boato antigo, que volta e meia aparece na internet e é conhecido de muitas pessoas ativas na rede. Para alguém que entende a estrutura de boatos, é fácil perceber que é uma informação falsa. Mas aquelas pessoas não só disseminaram o boato como começaram a alterar a realidade.

Cidadãos de Guarujá começaram a dizer no Facebook (e no mundo offline) que estavam avistando enfermeiros em praças da cidade. Havia dias que era um casal, dias que era um homem, e noutros dias era uma mulher. Existiam múltiplas versões desse boato.

Você não leu errado: centenas de pessoas disseram que interagiram com os enfermeiros, que foram atacadas e conseguiram fugir e que seus amigos foram vítimas e acabaram infectados com o vírus HIV. 

Eu só conseguia pensar: “estou ficando maluco vendo esse monte de pessoas propagando um boato e acreditando realmente nele, alterando a realidade, ou elas são esquizofrênicas?” Porém, é comum pessoas afirmarem com convicção que avistaram ou escutaram algo para obterem prestígio social, chamarem atenção e não se sentirem deslocadas em seus grupos sociais.

 

Histeria em massa e a rejeição da realidade

Enquanto ocorriam esses avistamentos e relatos de pessoas se encontrando com enfermeiros, o boato da bruxa pegava carona e se disseminava ainda mais. As páginas da minha cidade (do Facebook e de notícias), começaram com diversos comentários pedindo publicações a respeito da bruxa, assim como de pessoas alegando que tiveram filhos sequestrados pela mulher e os recuperado depois.

Na página Guarujá Alerta a população começou a publicar fotos do suposto retrato falado da mulher nos comentários. O dono da página, no começo, fez um post com a foto e comentou o boato, dizendo que não havia nada confirmado. Após alguns dias, e com a confirmação de que se tratava de algo falso, pediu para que não compartilhassem mais nada e avisou a polícia.

A declaração do dono da página não foi suficiente para conter os apelos da massa popular, que já estava em histeria por causa dos enfermeiros; movidos por medo, indignação e clamando por justiça.

Outro caso emblemático brasileiro foi o da universitária que fabricou um boato em que havia sido estuprada, resultando no espancamento de um inocente no Rio Grande do Sul.

E não é só no Brasil que isso acontece. No Reino Unido, um homem chamado Terry Brown foi acusado de estupro por uma garota em 2013. Brown foi preso e só foi solto quando a garota admitiu que havia mentido sobre o estupro para ter a atenção da mãe. Brown perdeu a casa, o emprego e hoje vive em uma barraca, pois sua ficha ficou suja e ele não consegue um emprego para poder alugar um imóvel. Ele também sofre com o ostracismo social. Pessoas o chamam de estuprador na rua e já atacaram com pedras a ele e sua esposa grávida.

Tragédias envolvendo boatos e manipulação social acontecem todos os dias, todas elas relacionadas a temas sensíveis, como estupro ou crianças. Esses temas evocam aberturas emocionais nas pessoas, tornando-as suscetíveis à manipulação.

Mas não é tão fácil assim criar um boato.

Nicholas DiFonzo, professor de psicologia no Instituto de Tecnologia de Rochester (Nova York), é um especialista em boatos. DiFonzo foi contratado pela CIA e pelo FBI para fabricar um rumor dizendo que Osama Bin Laden era cristão, visando diminuir a influência dele nas regiões do Oriente Médio. O serviço foi recusado, pois, segundo DiFonzo, um boato precisa ser plausível e todas as facções criminosas já conheciam a trajetória de Osama como seguidor do Islã.

Claro, esse não é o único fator importante na hora de plantar um boato. Antes, é necessário entender realmente o que é um boato.

A estrutura de linguagem de uma acusação

A revista Rolling Stone publicou, em 2014, uma matéria insinuando que estavam ocorrendo estupros em massa na fraternidade da Universidade da Virgínia (UVA). Uma garota, Jackie, alegou ter sido estuprada por 7 pessoas. Os editores da revista e a jornalista que fez a matéria não checaram os fatos.  Após incriminarem a reitora Nicole Eramo por “não prestar suporte” e “ser complacente” com o estupro, ela acabou perdendo o cargo. Jackie acabou desmentindo toda a história.

Após investigações e apuração dos fatos, a Rolling Stone contratou uma auditoria da Escola de Jornalismo de Columbia para revisar suas diretrizes de trabalho. Não foi suficiente; o artigo continuava online, com algumas notas ínfimas sobre a farsa. Nicole Eramo perdeu o emprego, foi ameaçada de morte e estupro por grupos coletivistas. Porém, a justiça não falhou dessa vez. Em novembro de 2016 saiu o resultado do processo que ela abriu contra a revista e a jornalista, chegando em uma indenização de U$ 7.5 milhões.

 

O apelo à emoção

O texto da Rolling Stone possui diversos elementos que disparam gatilhos emocionais nas pessoas. É sabido que as notícias e boatos são difundidos e viralizados quando ativam especificamente duas emoções: felicidade e raiva.

Vamos analisar as emoções do caso do estupro no campus: indignação, impotência, medo e raiva.

  • Indignação: a pessoa acha inadmissível que em um ambiente elitizado, como o acadêmico, aconteçam essas coisas;
  • Impotência: estupro na cultura ocidental é considerado um crime hediondo, que gera exclusão social, por violar totalmente a liberdade individual e autonomia da pessoa. No entanto, as vítimas quase nunca tem possibilidade de se defender e as pessoas que gostariam de lutar contra isso não sabem como fazê-lo;
  • Medo: Ao ver acontecer com uma pessoa na sua esfera social é inevitável pensar: “Será que pode acontecer comigo?”;
  • Raiva: a combinação das três emoções acima; um sentimento destrutivo que cega a razão, com a necessidade de fazer alguma coisa e trazer justiça.

O resultado disso são discussões, comentários e revanchismos espalhados pela internet e na vida real; a raiva vira textão, linchamento virtual e físico, levando à morte ou à exclusão social.

Comentários mostrando pessoas indignadas com o caso e pedindo justiça.
Comentários mostrando uma pessoa indignada e outra que conseguiu ler e identificar os furos da matéria.

Os sentimentos também reforçam laços que as pessoas tem dentro de seus espaços ideológicos. Através do compartilhamento de emoções negativas, indivíduos atribuem valor a si e a seus pares e se destacam em suas relações de hierarquia social interna.

 

Somos máquinas ambulantes, prontas para crer em boatos

Lista completa de todos os vieses cognitivos.
Lista completa de todos os vieses cognitivos.

Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do nobel pela teoria do prospecto, diz em seu livro Rápido e Devagar: duas formas de pensar, que seres humanos são sujeitos a caírem em falsos julgamentos através de vieses cognitivos (déficit de raciocínio) e heurística (tendência de substituir elementos de raciocínio complexo por respostas intuitivas simples), pois o subconsciente não consegue diferenciar uma mentira da verdade, após exposto à familiaridade (teoria da mera exposição). E que essa é uma ferramenta que ditadores e marketeiros usam constantemente. A ilusão da verdade.

No estudo, pessoas que escutaram a frase “a temperatura do corpo de uma galinha” estavam mais dispostas a aceitarem como verdadeiras afirmações como “a temperatura do corpo de uma galinha é 144º” (ou qualquer outro número arbitrário).

“A familiaridade de uma frase na afirmação é suficiente para fazer com que toda a declaração seja familiar e, portanto, verdadeira. Se você não consegue se lembrar da fonte de uma declaração e não tem como relacioná-la com outras coisas que você conhece, não tem outra opção, se não escolher a que tem melhor facilidade cognitiva.”

Assim como a população alemã foi exposta a falsas declarações constantemente durante a Segunda Guerra Mundial, em nossa era digital é muito fácil sermos persuadidos por marketeiros e declarações de jornais/blogs na internet.

Caso esteja acostumado a seguir uma página de notícias que sempre posta algo compromissado com a verdade, quando postarem algo que não seja verdadeiro você não perceberá, principalmente se for um leitor de chamadas sensacionalistas.

Políticos, representantes do governo e jornais que publicam matérias favoráveis ou contra, entram sempre em pauta com matérias sensacionalistas ou controversas. Em um estudo onde foram analisados mais de 7000 posts virais do The New York Times, foi descoberto que conteúdos virais obedecem um padrão específico de ativação de emoções nas pessoas, mais especificamente — raiva e ansiedade.

Não é surpresa que as áreas de comentários em portais e redes sociais sejam totalmente tóxicas, e como diversas estratégias usadas por políticos consistem em incitar parcelas da população uma contra as outras, como se fossem inimigos versus heróis; principalmente com redes sociais estimulando o isolamento de pessoas entre aquelas que apenas pensam da mesma forma.

 

A dissonância cognitiva

A dissonância cognitiva, segundo Leon Festinger, é um fenômeno que resulta da necessidade inconsciente que as pessoas têm de garantir que suas crenças e comportamentos guardem consistência em relação à realidade, particularmente em situações de incompatibilidade de pensamentos.

Por exemplo, um fumante pensa “vou fumar um cigarro” e a seguir lembra-se de que “fumar cigarros causa câncer”. Há uma inconsistência em seu pensamento, o que leva o fumante a uma flexibilização moral. Para não haver mudança de crença, ocorre uma dissonância. No caso, ele pensa algo como “vou morrer de qualquer forma, cigarro não é tão ruim assim”.

Devido à tensão contraditória em seus próprios pensamentos, a dissonância cognitiva atua como flexibilizadora, buscando resolver a sensação de desconforto emocional existente. Em outras palavras, trata-se de ignorar a realidade, convencendo a si mesmo que não há contradição em seu sistema de pensamento.

Qualquer pessoa ou grupo pode ser vítima de dissonâncias cognitivas, principalmente diante de problemas lógicos. E esse fenômeno tem muita influência na crença em boatos e também na sua divulgação.

 

The Backfire Effect: o efeito do contra-ataque

O Backfire Effect é uma espécie de déficit cognitivo, no qual as pessoas fortalecem os laços com suas crenças quando elas são objeto de crítica ou refutação.

Em um experimento, os pesquisadores Brendan Nyhan e Jason Reifler divulgaram artigos falsos em jornais, com o objetivo de espalhar informações consideradas ‘equivocadas’ sobre certas ideias políticas. A seguir, artigos com as informações verdadeiras eram também divulgados nos mesmos jornais.

Os leitores que já tinham opiniões pré-determinadas sobre o tema dos artigos não apenas discordavam do texto que contrariavam suas crenças. Os pesquisadores constataram que, após a leitura dos artigos que refutavam as opiniões dos leitores, as pessoas tinham ainda mais convicção sobre suas crenças. A refutação produzia emocionalmente um fortalecimento do sistema de crenças atacado.

Uma explicação para isso é que as pessoas, nessas situações, têm suas crenças fortalecidas graças à interação com os grupos de que participam e cujos membros compartilham da mesma opinião. A quantidade de vezes em que a mensagem aparece nos veículos midiáticos também parece exercer influência no Backfire Effect.


Na próxima parte, trataremos da estrutura dos veículos de comunicação, apresentando casos reais. Também veremos como cultivamos nossa própria ignorância nas chamadas câmaras de eco.


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Jean F.

Jean F.

Entusiasta de empreendedorismo, marketing digital/SEO/fitness sem bullshit/cultura pop, viagens, arte e filosofia. Se deixar, a lista de coisas ficará mais longa que o sobrenome do Dom Pedro I.
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