Este é o segundo texto de três (leia o primeiro aqui), em que mostrarei a estrutura dos veículos de mídia e explicarei nossa própria ignorância através das câmaras de eco ao ponto de nos tornarmos vítimas em potencial.


Ryan Holiday: o cara que manipulou a mídia internacional

Ryan Holiday se autoproclama um manipulador de media digital. E não é pra menos. Utilizando técnicas de publicidade e propaganda, e sem gastar um único tostão com anúncios, Holiday manipulou e induziu os maiores portais de notícias do mundo.

Poster do Tucker Max pichado em protesto das feministas ao filme

Tucker Max, autor de Espero que sirvam cerveja no inferno, livro em que narra suas aventuras sexuais e lifestyle boêmio, contratou Holiday para fazer uma campanha sem muito dinheiro. Holiday, conhecendo o comportamento das pessoas na internet e como as notícias são espalhadas, publicou comentários com perfis fakes em redes sociais e enviou e-mails com imagens adulteradas a jornalistas, sempre se apresentando como uma feminista. Em suma, Ryan Holiday usou a tática comum de justiceiros sociais: acusar uma pessoa nas redes sociais com a finalidade de condená-la socialmente. Mas seu objetivo era promover sua “vítima”.

E deu certo. Muitos portais famosos foram manipulados (Huffington Post, The New York TimesBusiness Insider, Gawker, Jezebel e Gizmodo). Não demorou muito e os jornalistas começaram a convidar Tucker Max para que explicasse o que estava acontecendo. A controvérsia fez seus livros terem um salto de vendas.

Em um artigo para a revista norte-americana Forbes, Holiday mostra como o Greenpeace manipulou jornais ao criar um vídeo falso, que supostamente mostrava uma festa da companhia de petróleo Shell, na qual havia um bolo em formato de plataforma, vazando óleo num dos convidados.

O Greenpeace também criou notificações judiciais falsas em nome da Shell, na qual a companhia ameaçava quem havia publicado o vídeo na internet.

Como Holiday aponta no artigo, a mídia não se importa em publicar informações sem conferir as fontes e os fatos, pois os veículos de comunicação ganham dinheiro de qualquer forma, seja a notícia falsa ou não. Por exemplo, o site Gawker, ao publicar a matéria tratando o vídeo da Shell como real, obteve trinta mil pageviews (pageviews são acessos únicos de visitantes a um site — quanto mas pageviews, maior o faturamento com publicidade). Após a confirmação de que se tratava de um vídeo falso, o site ainda aumentou o número de pageviews para noventa mil.

Na internet, após uma notícia falsa ter sido veiculada amplamente, fixando-se na cabeça das pessoas, uma retratação posterior acaba sendo irrelevante: ou o público já perdeu o interesse, ou prefere continuar acreditando na notícia falsa.

E quanto mais trágica ou polêmica for uma notícia, maior será a quantidade de pageviews, pois esse tipo de matéria estimula as emoções mais básicas do público, aumentando as chances de o compartilhamento em massa. Quando se percebe, já é tarde demais e o prejuízo já foi consumado.

porcentagem-usuarios-utilizam-redes-sociais-noticias
Quantidade de usuários que interagem com as notícias através das redes sociais. Instituto Pew Research.

O milionário russo que nunca existiu

O cara nessa foto se chama Boris Kudryashov, e é um milionário russo. Ou, pelo menos, era isso que seus seguidores no Instagram pensavam.

Boris Kudryashov sentado em um restaurante, lendo uma revista e tomando vinho.

Na verdade, Boris é um russo comum, sem dinheiro algum e com baixa visibilidade nas redes sociais em seu país. Era o tipo de pessoa que um jovem consultor de marketing chamado Roman Zaripov procurava.

A ideia de Zaripov era gastar o mínimo possível em uma campanha publicitária. Com 800 dólares, ele enganou 18.000 de usuários do Instagram e ludibriou jornalistas russos, apresentando nas redes sociais um milionário com lifestyle de “rei do camarote”. Mas o detalhe é que esse milionário nunca existiu.

O publicitário ficou surpreso com a reação do jornalistas, agencias de notícia e revistas. Ele não esperava que nenhuma pessoa fosse conferir a fonte. No fim, Zaripov revelou a verdade num post do Facebook.

O milionário russo não é a primeira pessoa fabricada na internet. Anos atrás, a designer holandesa Zilla van den Born fez um experimento ainda mais ousado: ela photoshopou fotos de si própria tiradas dentro de casa, a fim de simular viagens internacionais.

Zilla van den Born sentada ao lado de criança.Foto da Zilla van den Born dentro de outra foto, antes dela photoshopar.Zilla van den Born após photoshopar a foto da praia.

E essas falhas da mídia não são resultado do acaso. Jornalistas e agências são instruídos a aumentarem pageviews a qualquer custo. Sem pageviews, um site não sobrevive.

Veja a imagem abaixo, um exemplo nacional de como as coisas funcionam. O site Catraca Livre tentou se aproveitar do boom emocional provocado pela tragédia do time da Chapecoense para atrair usuários. A estratégia saiu pela culatra pois não considerou a sensibilidade com a tragédia. Até o presente momento, a página perdeu 400.000 likes. Tratou-se de uma tentativa frustrada de usar as emoções coletivas para obter pageviews.

CatracaLivre se aproveitando do Chapecoense.

Os sites de hoje são a imprensa amarela de ontem. O padrão jornalístico e a estrutura da mídia não mudou desde a criação da prensa de Gutenberg. A internet só deu uma piorada nisso.

A chamada imprensa amarela era um tipo específico de nicho jornalístico que se originou com Randolph Hearst e Joseph Pulitzer (sim, esse é exatamente o Pulitzer que deu nome ao maior prêmio do jornalismo norte-americano). Consistiu em transformar jornais tradicionais em veículos de entretenimento, graças ao uso de manchetes sensacionalistas, imagens cativantes e linguagem emocional destinada a atrair eleitores e aumentar as vendas.

Imprensa Amarela | Jornalismo Amarelo | A imagem mostra uma página do The New York Journal utilizando chamadas sensacionalistas e usando técnicas de fidelização de leitor.
“Destruição de navio de guerra Maine foi obra de um inimigo” – essa manchete de 1890 e a estrutura do New York Journal de então não é diferente dos sites que acessamos.

Se antigamente ficávamos limitados a apenas algumas opções de jornais na cidade, com a internet temos acesso a todos os veículos de comunicação. Porém, ao menos escolhemos o que queremos ver, sem imposição.

 

Câmaras de eco: quando cultivamos a nossa

No mundo atual, o cara de esquerda que lê a Carta Capital é o mesmo que acessa os sites Brasil 247 ou Jornal GGN. O mesmo vale para um cara de direita que acompanha o Spotniks e o Mercado Popular.

Não é uma novidade que pessoas preferem acompanhar nas redes sociais quem tem mesmas ideologias ou gostos que elas. A empatia é algo que nos conecta com outro ser humano. As redes sociais, com seus algoritmos de segmentação, utilizam essa tendência humana de forma eficiente, a fim de entregar a melhor experiência possível a seus usuários.

Se você for um fã fanático de rock, não gostaria de receber conteúdo ou recomendações de páginas de funk ou sertanejo, não é mesmo?

Três colunas com diversos sites. A esquerda: carta capital, ocafézinho, br247 | Meio / Liberais: Spotniks, MBL, Libertarianismo, Mises, Mercado Popular | Direita: Reaçonaria, Implicante, Veja, Época
Provavelmente você não conseguiria filtrar notícias reais ou falsas, vindo de alguns desses sites. Se você é alinhado com os da coluna esquerda, você dará mais credito a eles do que os outros. E vice-versa.

Na imagem acima, cada coluna representa um tipo de ideologia. O usuário não limita o acesso a apenas um dos sites; dependendo do conteúdo abordado, caso alguém compartilhe o post na rede social, pode haver um leve engajamento entre as ideologias diferentes, caso o tema não tenha um conflito de interesses. Ex: prisão do Cunha.

Essa estrutura criada nas redes sociais nos prende em uma câmara de eco: todos os nossos posts, fotos, videos, músicas e likes são enclausurados em uma grande bolha, composta por pessoas que respiram as mesmas fontes de conteúdo e pensam da mesma forma, resultando em um eco de informações que volta para nós mesmos.

Estudos sobre as câmaras de eco mostraram que existe o reforço de ideias, crenças, preconceitos, distorção de notícias e censura para tudo que é exterior às bolhas.

Usuários de diferentes comunidades não interagiam entre si, apenas reforçavam suas conexões com pessoas da mesma opinião. O conteúdo compartilhado entre eles é baseado no viés de confirmação, criando informações em cascata dentro da bolha. Na busca por informações, procuram apenas aquelas que reforçam a própria narrativa, rejeitando outras.

Quando informações falsas são colocadas dentro dessas câmaras, acabam absorvidas e vistas como confiáveis, mas apenas se endossarem a narrativa principal. Caso surjam informações desmentindo o boato, o usuário acabará reforçando ainda mais a crença na notícia mentirosa.

Sites de jornais e blogs criam suas notícias com base em dois elementos:
  1. Público-alvo; e
  2. Tendências.

Se a sociedade estiver pautando ocupações, a prisão do Lula ou corrupção da Petrobrás, todos os veículos irão cobrir, pois é onde está o interesse do público. Um site que não cubra ou faça um conteúdo que engaja seus usuários, com base no que eles gostam, não sobreviverá.

Não à toa blogs apoiados pelo antigo governo federal, que perderam a verba publicitária para apoiar o establishment, começaram a vender espaços publicitários e a pedirem doações, para conseguirem se manter. Sem pageviews (visualizações), um site morre.

Qual é o papel de um manipulador de media/publicitário em sites? Transformar usuários que estão navegando na internet em consumidores do conteúdo produzido ou usar de efeito de manada para atrair visitas com manchetes contraditórias ou provocativas.

E isso se torna um trabalho extremamente fácil para aqueles que dominam a linguagem da comunicação e da propaganda: eles conseguem ver por fora das “câmaras de eco”.

Como portais de notícias são manipulados: 
  • E-mails com relatos falsos;
  • Não checam a veracidade de informações na internet e compartilhamentos em redes sociais;
  • Enganam jornais de cidades pequenas, o conteúdo é replicado nos blogs de médio porte e é puxado por portais grandes, que usam esses pequenos blogs como filtro de conteúdo.
Angela Phillips, colunista do The Guardian, descreve uma suposta conspiração dos homens na criação da pílula: mulheres não poderão mais escolher se vão querer ter filhos. Ela também não leu os estudos, no primeiro paragráfo diz que homens compartilhariam dos mesmos efeitos colaterais. https://www.theguardian.com/commentisfree/2006/apr/28/malepillwomensloss
Angela Phillips, colunista do The Guardian, descreve uma suposta conspiração dos homens na criação da pílula: mulheres não poderão mais escolher se vão querer ter filhos. Ela também não leu os estudos, mas mesmo assim, no primeiro parágrafo, diz que homens compartilhariam dos mesmos efeitos colaterais.

Esses são os três métodos mais básicos de como esses sites falham. Tudo gira em torno de checar as informações, mas eles nunca fazem e nem irão fazer. Sites precisam de pageviews; checar fontes significa perder tempo e perder tempo é ficar sem o que publicar, pois tudo que passa de um dia na internet, morre.

É um ótimo modelo de negócios e é perfeito para espalhar boatos, principalmente por usar das câmaras de ecos que nós mesmos criamos.


 

Jean F.
Entusiasta de empreendedorismo, marketing digital/SEO/fitness sem bullshit/cultura pop, viagens, arte e filosofia. Se deixar, a lista de coisas ficará mais longa que o sobrenome do Dom Pedro I.
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  • Darksoner

    Por isso que entendo e concordo com o PewDiePie em relação a mídia, maioria das vezes ela só quer atrair público e seu “pageview”, independente se for verdade o conteúdo ou não.
    Vide aquele caso onde acusaram Pewds por estar recebendo dinheiro da Warner para “falar bem” do game sem colocar que foi patrocinado, e ele se defendeu dizendo que é mentira e inclusive, nos vídeos como exemplo, estava na descrição do vídeo que foi patrocinado ou não
    https://youtu.be/9JqJDRkKlt8