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Trump e o primeiro sinal de que estamos ferrados

Em Consciência, Política por Victor LisboaComentário

No momento em que este texto é publi­cado, pas­sa­ram-se dez dias do ano de 2017, e 30 pes­soas foram mor­tas num ata­que ter­ro­rista na Tur­quia, 56 deten­tos foram mor­tos na rebe­lião de um pre­sí­dio em Manaus (a mai­o­ria deca­pi­ta­dos) e 5 ino­cen­tes foram assas­si­na­dos por um ati­ra­dor maluco no aero­porto da Fló­rida.

Essas e outras tra­gé­dias que ocor­re­ram nesse período pode­riam suge­rir que 2017 será um ano ter­rí­vel.

Mas não sou pes­si­mista. A noção de “ano novo” é mera con­ven­ção, e seria supers­ti­ci­oso supor que dias ini­ci­ais ter­rí­veis pre­nun­ci­a­riam, neces­sa­ri­a­mente, um ano ter­rí­vel.

Só que ontem pela manhã ocor­reu um fato que deve dei­xar todos nós pre­o­cu­pa­dos: diante de um dis­curso de Meryl Streep afir­mando que os imi­gran­tes tem e sem­pre tive­ram uma con­tri­bui­ção impres­cin­dí­vel para Hollywood, Trump res­pon­deu da seguinte forma:

"Meryl Streep, uma das mais superestimadas atrizes em Hollywood, não me conhece mas me atacou noite passada no Globo de Ouro. Ela é uma..."

Meryl Streep, uma das mais supe­res­ti­ma­das atri­zes em Hollywood, não me conhece mas me ata­cou noite pas­sada no Globo de Ouro. Ela é uma…”

Para come­çar, vamos por par­tes.

Em pri­meiro lugar, eu estava na costa oeste ame­ri­cana durante as últi­mas sema­nas da cor­rida pre­si­den­cial. Assisti aos dois últi­mos deba­tes e todas as manhãs ao des­per­tar e de noite antes de dor­mir, acom­pa­nhava na TV notí­cias da cam­pa­nha, mudando con­ti­nu­a­mente de canal da Fox News (canal defen­sor de Trump) para a CNN (canal defen­sor da Hil­lary).

E durante todo esse tempo não con­se­gui me defi­nir em rela­ção a ambos os can­di­da­tos. Os dois eram muito ruins, e os dois tam­bém tinham algu­mas coi­sas posi­ti­vas. Hil­lary é uma pes­soa tão detes­tá­vel a seu jeito quanto Trump — e quanto a esse último, sem­pre pai­rava a dúvida sobre se real­mente ele era um dese­qui­li­brado emo­ci­o­nal com incon­ti­nên­cia ver­bal ou se isso não pas­sava de um genial tru­que de cam­pa­nha. Quando Trump ven­ceu, todo o mundo livre pas­sou a obser­var aten­ta­mente qual­quer sinal de que ele real­mente era daquele jeito — pois nesse caso está­va­mos todos fer­ra­dos.

Em segundo, é bem pos­sí­vel que Meryl Streep tenha incor­rido em falá­cias no seu dis­curso. Afi­nal Trump não com­bate todo e qual­quer imi­grante, mas ape­nas aque­les em situ­a­ção ile­gal no país, e prin­ci­pal­mente aque­les que tem regis­tro cri­mi­nal con­tra si. Além disso, tal­vez ele não tenha debo­chado de um defi­ci­ente físico. Em suma, é pos­sí­vel que a atriz tenha falado merda.

Mas essa (se Meryl Streep estava ou não com a razão) não é a ques­tão. Na ver­dade, se for assim, tudo é ainda muito pior. É que Trump pode­ria ter facil­mente argu­men­tado que há falá­cias e até inver­da­des no que a atriz ame­ri­cana disse. Porém, ao con­trá­rio, deci­diu res­pon­der como uma cri­ança de 12 anos. Ao invés de argu­men­tos, resol­veu ata­car a com­pe­tên­cia pro­fis­si­o­nal da Meryl Streep e, com reti­cên­cias, chamá-la de “bitch”.

Isso, em uma cam­pa­nha, tal­vez fosse até defen­sá­vel para um “can­di­dato” que está ten­tando se comu­ni­car com o seu elei­to­rado mais sim­pló­rio. Tal­vez o elei­tor médio repu­bli­cano entenda esse tipo de res­posta como ade­quada e repre­sen­ta­tiva de sua forma de pen­sar (duvido muito — conheci mui­tos repu­bli­ca­nos nos EUA e eles não fecham com essa ima­gem).

Mas, agora, Trump já não é mais can­di­dato: é o chefe de estado e de governo da maior potên­cia econô­mica e bélica do mundo, alguém cujas deci­sões afe­ta­rão, na prá­tica, o mundo inteiro.

Trump e o apresentador do programa "Além da Imaginação".

Trump e o apre­sen­ta­dor do pro­grama “Além da Ima­gi­na­ção”.

Por isso é extre­ma­mente assus­ta­dor ver um homem que está para tomar as rédeas de uma nação como os EUA per­der o con­trole emo­ci­o­nal no twit­ter feito um meni­ni­nho fias­quento de 12 anos e demons­trar-se inca­paz de res­pon­der com argu­men­tos a uma crí­tica qual­quer. É muito pre­o­cu­pante, e uma con­fir­ma­ção de nos­sas pio­res sus­pei­tas, que o futuro “líder do mundo livre” revele dese­qui­lí­brio emo­ci­o­nal e inca­pa­ci­dade de con­tro­lar-se mesmo diante de peque­nas con­tra­ri­e­da­des pas­sa­gei­ras (algo que ocor­rerá quase todos os dias de seu man­dato).

Trump não é um idi­ota, e está longe de ser estú­pido. Afi­nal, no jogo da com­pe­ti­ção empre­sa­rial ele se deu muito bem. Mas é pos­sí­vel (e a res­posta dele sugere isso) que aque­las qua­li­da­des agres­si­vas e tem­pe­ra­men­tais que fize­ram de Trump um ganha­dor na lógica da com­pe­ti­ção no mer­cado finan­ceiro e empre­sa­rial impli­quem em efei­tos cola­te­rais (a cabeça quente, a pre­sun­ção de que sem­pre se tem razão, a irra­ci­o­na­li­dade no ata­que de quem dis­corda — coi­sas legí­ti­mas nas regras do jogo que ele joga tão bem, o mer­cado) que, quando des­lo­ca­dos do ambi­ente em que ele se for­ta­le­ceu e inse­ri­dos na lógica da admi­nis­tra­ção pública e da che­fia de governo e de estado, repre­sen­tam ris­cos estra­té­gi­cos sig­ni­fi­ca­ti­vos na con­du­ção da soci­e­dade que agora ele irá capi­ta­near. Pior ainda: repre­sen­tam um risco sig­ni­fi­ca­tivo para os rumos do deli­cado jogo da geo­po­lí­tica inter­na­ci­o­nal.

Espero estar sin­ce­ra­mente errado (e vejam bem, eu não sim­pa­ti­zava com Hil­lary), mas a res­posta de Trump (igual a de um menino de 12 anos) a um dis­curso qual­quer de uma atriz num evento qual­quer, sugere vee­men­te­mente que ele é real­mente um dese­qui­li­brado emo­ci­o­nal. Da pers­pec­tiva his­tó­rica e geo­po­lí­tica, Meryl Streep e o Globo de Ouro são coi­sas insig­ni­fi­can­tes, irri­só­rias. Já um pre­si­dente nor­te­a­me­ri­cano que perde a linha quando uma cele­bri­dade de Hollywood faz um dis­curso qual­quer é algo que deve dei­xar o mundo inteiro pre­o­cu­pado, pois sina­liza alguém inca­paz de rea­gir com o mínimo de equi­lí­brio e matu­ri­dade diante da mínima con­tra­ri­e­dade.

Nossa única espe­rança, se isso for um sinal sobre quem é real­mente Donald Trump (um dese­qui­li­brado emo­ci­o­nal, com incon­ti­nên­cia ver­bal e com resis­tên­cia a frus­tra­ções igual a de um menino de 12 anos), será que os meda­lhões do Par­tido Repu­bli­cano con­se­gui­rão gover­nar os EUA pelos bas­ti­do­res, con­tendo esse idi­ota e man­tendo o deli­cado equi­lí­brio de for­ças no plano inter­na­ci­o­nal? Se esses velhos repu­bli­ca­nos não con­se­gui­rem fazer isso, esta­re­mos todos fodi­dos.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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