Desde o surgimento da pílula anticoncepcional durante a década de 60, é inegável que o modo como a sociedade vem discutindo a sexualidade sofreu grandes transformações. Naquele período, o movimento hippie, que pregava o amor livre, vivia o seu auge e a juventude gozava de uma liberdade até então nunca experimentada no que diz respeito ao modo de se relacionar com o outro. A comercialização da pílula trouxe um certo conforto para as relações sexuais, pois com seu uso poderia evitar-se uma gravidez indesejada. Assim, o sexo, desprendido deste risco, tornava-se mais licencioso e justificado enquanto busca por prazer.

De lá para cá, pode-se dizer que ganhamos maior abertura para discutir um tema que sempre foi tabu. Contudo, é precipitado afirmar que desfrutamos de uma verdadeira autonomia sexual. Não em um mundo regido pela lógica do machismo, cerceado pelo preconceito ao homossexual e sectário de padrões morais e estéticos que aprisionam o corpo.

Basta ver o alvoroço causado pelo episódio da série americana Girls, que exibiu uma cena em que o parceiro de uma das personagens lhe presenteia com um beijo grego, ou em outras palavras, com uma boa lambida no cu. Sim! Cu. Por que temos tanto medo de pronunciar essa monossílaba? Por que assistir a uma cena de sexo sem música tocando ao fundo perturba tanta gente?

Ilustração de Marcos Chin

Infelizmente, muitas pessoas seguem regime até no modo de fazer sexo, ingerindo tendências da mídia que continua vendendo e norteando as normas de comportamento para cada gênero. Revistas nos oferecem uma seção sobre sexo indicando as melhores posições sexuais, blogs retratam as 30 maneiras de agradar uma mulher na cama e as 7 sobre como satisfazer um homem. Entretanto, a grande maioria das mulheres não ousa dizer que se masturbam e os homens ainda não se sentem livres para manifestar sua sensibilidade e nem para fazer o exame de próstata.

A verdade é que não existem “melhores” posições sexuais, nem 30 maneiras de agradar uma mulher na cama ou 7 sobre como satisfazer um homem. Tanto na vida como no sexo, para que descubramos o que nos apetece é preciso experimentar, inventar, como brilhantemente declarou Foucault em uma entrevista sobre sexo, poder e a política da identidade, traduzida e publicada em 2004 pela revista PUC de São Paulo, devemos entender que “a sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo, e o sexo não é uma fatalidade, mas a possibilidade de aceder a uma vida criativa.”

Precisamos perder a vergonha na cara e da tara, nosso corpo necessita ser visto com zoom e não com Photoshop. Até que o homem não consiga se emancipar sexualmente, permaneceremos estagnados em nossa luta por uma sociedade livre e democrática, absolvida de patéticas divisões binárias que reduzem e encarceram os gêneros sexuais. Enquanto o homem não puder falar e dissertar sem constrangimentos e recatos sobre sexo, persistiremos reféns de cartilhas que direcionam o nosso desejo, seguiremos sem permissão para nos tocar e tocar o outro e, essas amarras que engasgam nosso corpo também impedirão que nos agitemos para outras lutas.

O escritor e psiquiatra Roberto Freire, criador da somaterapia, sugere em sua obra Soma – Uma Terapia Anarquista que a alma e a arma estão no corpo e, seguindo o pensamento do psicólogo alemão Wilhelm Reich, vê no aprisionamento deste um jogo de poder para nos manter neuróticos e dóceis, encouraçados e bloqueados afetivamente por não sermos capazes de gozar, no sentido mais amplo que esse verbo possa tomar. Freire defende, assim como Reich, que a neurose pode ser compreendida como um desequilíbrio energético provocado pela repressão à expressão de nossa sexualidade, que descende da inibição imposta pelo Estado e suas instituições para garantir sua dominação arbitrária. Ambos concordam que através do orgasmo, tal desequilíbrio poderia ser corrigido, pois este tem como função mobilizar e libertar essa energia.

Arnaldo Antunes em seu álbum O Corpo, coloca mão, pé, umbigo, pele e sexo em cena:

Ele insiste que o CORPO EXISTE e é incisivo quando canta como se recitasse um poema:

E então, nesse corpo meio ainda há corpo, que corpo abriga o meio do teu corpo?

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.


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