transarás por puro prazer

Transarás por puro prazer, essa é a única lei

Em Comportamento, Consciência por Bruna ReginaComentário

Desde o sur­gi­mento da pílula anti­con­cep­ci­o­nal durante a década de 60, é ine­gá­vel que o modo como a soci­e­dade vem dis­cu­tindo a sexu­a­li­dade sofreu gran­des trans­for­ma­ções. Naquele período, o movi­mento hip­pie, que pre­gava o amor livre, vivia o seu auge e a juven­tude gozava de uma liber­dade até então nunca expe­ri­men­tada no que diz res­peito ao modo de se rela­ci­o­nar com o outro. A comer­ci­a­li­za­ção da pílula trouxe um certo con­forto para as rela­ções sexu­ais, pois com seu uso pode­ria evi­tar-se uma gra­vi­dez inde­se­jada. Assim, o sexo, des­pren­dido deste risco, tor­nava-se mais licen­ci­oso e jus­ti­fi­cado enquanto busca por pra­zer.

De lá para cá, pode-se dizer que ganha­mos maior aber­tura para dis­cu­tir um tema que sem­pre foi tabu. Con­tudo, é pre­ci­pi­tado afir­mar que des­fru­ta­mos de uma ver­da­deira auto­no­mia sexual. Não em um mundo regido pela lógica do machismo, cer­ce­ado pelo pre­con­ceito ao homos­se­xual e sec­tá­rio de padrões morais e esté­ti­cos que apri­si­o­nam o corpo.

Basta ver o alvo­roço cau­sado pelo epi­só­dio da série ame­ri­cana Girls, que exi­biu uma cena em que o par­ceiro de uma das per­so­na­gens lhe pre­sen­teia com um beijo grego, ou em outras pala­vras, com uma boa lam­bida no cu. Sim! Cu. Por que temos tanto medo de pro­nun­ciar essa monos­sí­laba? Por que assis­tir a uma cena de sexo sem música tocando ao fundo per­turba tanta gente?

Ilustração de Marcos Chin

Infe­liz­mente, mui­tas pes­soas seguem regime até no modo de fazer sexo, inge­rindo ten­dên­cias da mídia que con­ti­nua ven­dendo e nor­te­ando as nor­mas de com­por­ta­mento para cada gênero. Revis­tas nos ofe­re­cem uma seção sobre sexo indi­cando as melho­res posi­ções sexu­ais, blogs retra­tam as 30 manei­ras de agra­dar uma mulher na cama e as 7 sobre como satis­fa­zer um homem. Entre­tanto, a grande mai­o­ria das mulhe­res não ousa dizer que se mas­tur­bam e os homens ainda não se sen­tem livres para mani­fes­tar sua sen­si­bi­li­dade e nem para fazer o exame de prós­tata.

A ver­dade é que não exis­tem “melho­res” posi­ções sexu­ais, nem 30 manei­ras de agra­dar uma mulher na cama ou 7 sobre como satis­fa­zer um homem. Tanto na vida como no sexo, para que des­cu­bra­mos o que nos ape­tece é pre­ciso expe­ri­men­tar, inven­tar, como bri­lhan­te­mente decla­rou Fou­cault em uma entre­vista sobre sexo, poder e a polí­tica da iden­ti­dade, tra­du­zida e publi­cada em 2004 pela revista PUC de São Paulo, deve­mos enten­der que “a sexu­a­li­dade faz parte de nossa con­duta. Ela faz parte da liber­dade em nosso usu­fruto deste mundo, e o sexo não é uma fata­li­dade, mas a pos­si­bi­li­dade de ace­der a uma vida cri­a­tiva.”

Pre­ci­sa­mos per­der a ver­go­nha na cara e da tara, nosso corpo neces­sita ser visto com zoom e não com Pho­toshop. Até que o homem não con­siga se eman­ci­par sexu­al­mente, per­ma­ne­ce­re­mos estag­na­dos em nossa luta por uma soci­e­dade livre e demo­crá­tica, absol­vida de paté­ti­cas divi­sões biná­rias que redu­zem e encar­ce­ram os gêne­ros sexu­ais. Enquanto o homem não puder falar e dis­ser­tar sem cons­tran­gi­men­tos e reca­tos sobre sexo, per­sis­ti­re­mos reféns de car­ti­lhas que dire­ci­o­nam o nosso desejo, segui­re­mos sem per­mis­são para nos tocar e tocar o outro e, essas amar­ras que engas­gam nosso corpo tam­bém impe­di­rão que nos agi­te­mos para outras lutas.

O escri­tor e psi­qui­a­tra Roberto Freire, cri­a­dor da soma­te­ra­pia, sugere em sua obra Soma – Uma Tera­pia Anar­quista que a alma e a arma estão no corpo e, seguindo o pen­sa­mento do psi­có­logo ale­mão Wilhelm Reich, vê no apri­si­o­na­mento deste um jogo de poder para nos man­ter neu­ró­ti­cos e dóceis, encou­ra­ça­dos e blo­que­a­dos afe­ti­va­mente por não ser­mos capa­zes de gozar, no sen­tido mais amplo que esse verbo possa tomar. Freire defende, assim como Reich, que a neu­rose pode ser com­pre­en­dida como um dese­qui­lí­brio ener­gé­tico pro­vo­cado pela repres­são à expres­são de nossa sexu­a­li­dade, que des­cende da ini­bi­ção imposta pelo Estado e suas ins­ti­tui­ções para garan­tir sua domi­na­ção arbi­trá­ria. Ambos con­cor­dam que atra­vés do orgasmo, tal dese­qui­lí­brio pode­ria ser cor­ri­gido, pois este tem como fun­ção mobi­li­zar e liber­tar essa ener­gia.

Arnaldo Antu­nes em seu álbum O Corpo, coloca mão, pé, umbigo, pele e sexo em cena:

Ele insiste que o CORPO EXISTE e é inci­sivo quando canta como se reci­tasse um poema:

E então, nesse corpo meio ainda há corpo, que corpo abriga o meio do teu corpo?

Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

Compartilhe