A DESCOBERTA MAIS IMPORTANTE DA HUMANIDADE

Deixe que lhe apresente uma tribo. Ela vive no Brasil, no Estado do Acre, em uma enorme reserva ambiental. Ali, há índios que vivem totalmente isolados de nossa civilização. Jamais entraram em contato com nossa sociedade.

São pessoas que não só vivem uma vida considerada primitiva por nós, mas que também têm uma concepção de mundo que considerada primitiva. É possível que eles suponham que o mundo não vá muito além de sua floresta, ou que o mundo seja uma grande floresta. De qualquer forma, em algum momento essa concepção de mundo plano encontra um limite, uma borda, um obstáculo. Os mitos de seus ancestrais devem descrever algo que une este mundo ao firmamento e suas estrelas, e é isso.

Às vezes, um avião do órgão governamental responsável por cuidar da reserva passa por cima de uma dessas tribos. É possível que os membros dessa tribo se assustem, talvez suponham ser um grande pássaro ou um ser mágico. De qualquer forma, o caso logo é esquecido e os índios voltam a seus afazeres cotidianos.

Quando sobrevoam uma dessas tribos , os agentes governamentais tiram algumas fotos. Esta é uma das imagens, tirada em 2008. Você está nela:

Perdoe a brincadeira. É que será contada uma história para que você colabore na solução de um dilema. E nessa história você fará de conta que é um índio dessa tribo.

O DILEMA

Imagine que dias depois dessa foto, você por algum motivo, se perca do resto da tribo e se encontre com agentes governamentais. E que, por alguma confusão quanto à regras da burocracia, os agentes se confundam e decidam levar você junto com eles. Na sede da repartição pública, você pega uma gripe e quase morre, pois não tem defesas contra o vírus da gripe. E a partir desse ponto o caso todo se transforma numa bagunça política, com interferência de entidades internacionais e da mídia. No fim, o governo decide que você deve ser introduzido à civilização imediatamente.

Quando você se dá conta, está visitando a capital do país e a seguir suas metrópoles, e logo depois atravessa num avião um oceano jamais suspeitado para ir à Europa. E assim, em pouco tempo, num intervalo de alguns meses, você observa os carros, os celulares, os computadores, a internet, os shoppings e os arranha-céus iluminados.

E cientistas bem intencionados lhe explicam o mundo. Eles contam sobre os continentes e os oceanos, mostram fotos da Terra esférica e azul, explicam o sistema solar, as galáxias e os buracos negros. Mostram-lhe o poder das armas nucleares e o falam da primeira viagem do homem à lua. Por fim, contam sobre o transumanismo, a inteligência artificial e as pesquisas destinadas a estender a vida humana indefinidamente.

Mas então, de repente, o governo cai. São eleitos os candidatos de outro partido, com diferente ideologia. Nos primeiros dias, as novas autoridades decidem que o mais recomendável é restituir você à origem. E isso é feito imediatamente.

De um dia para o outro, você é devolvido à floresta amazônica, numa clareira próxima à sua tribo.

Neste momento da nossa história, o dilema é complexo mas pode ser resumido assim: o que você faria? Você contaria o que viu? Ou se calaria sobre a proximidade de pessoas estranhas que portam vírus capazes de exterminar toda sua tribo? Mais ainda: como e o quanto você contaria? Por onde, afinal, iria começar?

UMA INVESTIGAÇÃO

Aqui será apresentada uma verdade muito mais assombrosa do que aquela que o índio de nossa história poderia contar à seus amigos e familiares. Mais do que assombrosa, essa verdade é poderosa, pois dá acesso a uma chave para a porta que revela todos os todos os segredos, uma chave capaz de transformar não só a você, mas ao mundo inteiro ao seu redor.

Essa sequência de textos é resultado de uma decisão que aposta na capacidade humana de investigar e aceitar a verdade, por mais contraintuitiva que ela seja. E assim é feito não para entreter ou assombrar uma plateia, mas para expor ao leitor, futuramente, sobre os riscos que corre e os benefícios que pode obter desse aprendizado.

Portanto, nada além do fundamental será revelado [1]Há outras coisas, mas não convém mencioná-las já que não colaboram para a compreensão do alerta final, do “vírus” para o qual a humanidade não tem defesa, quando a Inteligência Artificial se desenvolver..

Para começar a explicar a verdade, nada melhor que deixar ao leitor perguntas que ele próprio deverá tentar responder, a fim de que aprenda a verdade por si próprio. Acompanhando a gradual revelação da verdade como detetive que junta as pistas de uma investigação, o leitor aos poucos se familarizará com uma realidade assombrosa demais para ser assimilada de uma só vez.

Imaginemos, assim, que vamos abrir os arquivos de um crime antigo que até agora permaneceu sem solução. Vamos examinar todas as pistas que os detetives recolheram sobre o caso. Apresentaremos essas pistas de forma didática e deixaremos que o leitor tenha uma semana para pesquisar e pensar por si próprio.

No próximo texto, apresentaremos a verdade.

Um detalhe importante: este texto e os subsequentes são, sem dúvida, os mais importantes textos já publicados na história e alguns dos mais importantes textos que você lerá em sua vida. Se necessário e facilitar a leitura, busque imprimi-lo. Como são várias pista, dedique-se a uma pista por dia. Ou, como são várias, dedique-se a apenas duas ou três, ou mesmo uma só: todas elas descrevem a mesma verdade, mas de “perspectivas” diferentes.

Vamos, assim, às pistas da investigação que revelará a verdade.

AS PISTAS


PISTA UM: O CASO DA DUPLA FENDA

Os detetives colocaram em fila partículas de luz (fótons) [2]De início, eram fótons. Mas já se teve o mesmo resultado com partículas maiores e mesmo átomos e dispararam uma por vez em direção a um muro. Entre a fonte do disparo e o muro, há uma barreira, e na barreira há duas pequenas fendas equidistantes.

O que se espera é que muitas dessas partículas, quando disparadas, batam na barreira por todos os lados, inclusive entre as fendas, e jamais atinjam o muro. Tal como bolas de boliche ou bilhar. As únicas partículas que chegarão ao muro, portanto, são aquelas que passarem por uma de suas duas fendas.

Dessa forma, após mil disparos, espera-se que o resultado no muro seja algo assim, um padrão correspondente às duas fendas:

Mas não é isso o que se obtém. O que se constata é que, aos poucos, os pontos vão formando um outro tipo de padrão, da seguinte forma:

Assim, após mil disparos de partículas, o resultado no muro é um padrão de listras:

O que está acontecendo? Parece que algo interfere com o caminho de cada partícula, “forçando-as” a mudar de trajetória e se aglomerar não em duas regiões (correspondentes às duas fendas) do muro, mas em um estranho padrão de listras. Não há como, a princípio, as partículas lançadas interferirem umas com as outras, pois são disparadas com um intervalo de tempo suficiente para garantir-se que não exista nenhuma interferência de uma na trajetória da outra.

Os detetives propuseram uma teoria, e que chegou bem próxima da verdade por um caminho tortuoso. Segundo essa teoria, as partículas de luz ao mesmo tempo se comportavam como partículas e como ondas. De algum modo, uma partícula sai da fonte do disparo na forma de uma onda e acerta as duas fendas. E, de algum modo, essa onda e as restantes da série formam pontos que aos poucos constroem o padrão de listras. Algo mais ou menos assim:

É curioso que algo seja disparado como partícula, se propague como onda mas acabe deixando apenas um ponto no muro, como uma partícula. Mais curioso é que esse fenômeno não é exclusivo das partículas de luz, os fótons. Posteriormente descobriu-se que todas as partículas, mesmo átomos, comportam-se como onda e partícula.

E que tipo de ondas seriam essas? Afinal, a ondas que conhecemos no mundo macroscópico são vibrações que passam por um meio material, agitando-o. As ondas do mar são energia cinética agitando o meio que é a água, as ondas de som reverberam deslocando ar ou outro meio material. Mas se estamos investigando as partículas que compõem a própria matéria, não há meio dessa onda se propagar no vácuo, pois no vácuo não há nada.

Os detetives então responderam: “é uma onda de probabilidade”. E probabilidade de que? De a partícula estar em determinado lugar. Assim, foi introduzida a matemática estatística como instrumento para os detetives fazerem o retrato falado mundo das partículas que compõem você e tudo ao seu redor.

E foi assim que os detetives acertaram e ao mesmo tempo erram o alvo.

Em resumo, partículas são enfileiradas e disparadas uma por uma a certos intervalos e surge no muro um padrão de interferência que lembra uma onda, mas que pode não ser uma onda. É como se a partícula no momento em que é disparada estivesse recebendo a interferência de alguma coisa invisível, que muda a sua trajetória.


 

PISTA DOIS: O CASO DA ESCOLHA ADIADA

Como vimos no Caso da Fenda Dupla, os detetives constataram que partículas lançadas em sequência acabam formando um padrão de listras, quando deveriam formar um padrão de pontos em duas regiões correspondentes às fendas.

A questão então, tem a ver com alguma forma de interferência na trajetória das partículas. Portanto, pensaram os detetives, se investigarmos a trajetória de cada partícula “fotografando” sua posição em momentos aleatórios de sua viagem até o muro, poderemos ter uma pista sobre o que que está interferindo nesse caminho.

Para começar, os detetives decidiram descobrir por qual das duas fendas cada partícula passa antes de atingir o muro e formar o padrão de listras. Saber isso já ajudaria a ter uma ideia do que está acontecendo.

Assim, decidiram tirar fotos simultâneas das duas fendas no exato momento em que cada partícula deveria passar por ela.

Feitos mil disparos, os detetives pegaram os resultados da detecção. Com as fotografias nas mãos, constataram que cada partícula passava apenas por uma fenda, e não pelas duas ao mesmo tempo. Isso não correspondia à noção de onda, pois uma onda passaria ao mesmo tempo nas duas fendas.

Logo, apesar do padrão de listras sugerir o comportamento de onda, as fotografias evidenciavam um comportamento semelhante ao de uma partícula, como uma bola de boliche.

Mas essa não foi a maior surpresa. É que ao erguerem seus olhos das fotografias e olharem para o muro, o padrão que os detetives viram foi esse:

Mas isso é estranho, pois uma simples fotografia, tirada a distância, não poderia interferir no experimento. Uma simples detecção não poderia afetar a presença do misterioso elemento ou fator que interfere na trajetória da partícula para que forme com as demais o padrão de listras.

Mas a pista fica mais confusa ainda. A seguir os detetives fizeram a seguinte pergunta: “E se a gente criar um mecanismo no qual podemos a qualquer momento levantar o muro e colocar no seu lugar um detector que nos dirá de qual fenda a partícula veio? Assim, podemos acionar o mecanismo só depois que a partícula já passou pela fenda e completou toda a sua trajetória, e só nesse momento é que faremos a detecção.”

A escolha sobre se haverá detecção ou não é deixada para o último instante. Logo, não haveria possibilidade de a simples detecção interferir com trajetória da partícula.

O resultado foi assombroso: mesmo decidindo fazer a detecção no último momento, isso de alguma forma eliminava a “interferência invisível” e fazia com que a trajetória da partícula fosse a simples trajetória de uma “bola de boliche”:

A nenhum detetive racional, a nenhum ser humano minimamente inteligente, pode escapar a conclusão do experimento: aparentemente, o ato de detectar a partícula no momento presente interfere no passado da partícula, alterando uma trajetória que já foi completada.

Esse experimento é ainda mais curioso, pois o mesmo resultado é constatado se as partículas forem emitidas por uma fonte situada a anos-luz de distância, como uma galáxia. Ou seja, se partículas de luz emitidas por uma galáxia muito distante atingirem o muro, formarão o padrão de listras. Porém, se no último momento houver a detecção, isso parece mudar toda a trajetória da partícula para trás, alterando o seu passado remoto, desde que foi emitida pela galáxia distante, de modo que o padrão de listras some.

O que está acontecendo? Tudo isso parece mágico, misterioso. Mas após você descobrir e assimilar [3]Esse é o desafio: a assimilação tem uma barreira emocional para ser enfrentada, e grandes detetives se recusaram a desvendar o caso devido a essa barreira a resposta, tudo ficará óbvio, e você se perguntará porque não pensou nisso antes.


 

PISTA TRÊS: O CASO DE ZENÃO

Algo você precisa ter em mente já desde o começo: os detetives descobriram que as partículas que compõem o seu corpo e tudo o que você vê ao seu redor não existem em um ponto específico do espaço. Cada partícula existe, segundo os detetives, ao mesmo tempo em vários pontos do espaço, numa nuvem ou onda de probabilidades.

Essa multiplicidade de posições de uma mesma partícula possibilita inclusive que a mesma partícula ocupe duas posições no espaço que quase coincidem uma com a outra.

Uma só partícula está em sobreposição consigo mesma, portanto, ocupando várias posições no espaço ao mesmo tempo. É exatamente isso que ocorre, e os detetives têm um nome peculiar para descrever esse comportamento: uma partícula é uma “função de onda”, ou seja, uma onda de probabilidades de encontrarmos uma partícula em determinado lugar entre inúmeros lugares possíveis em que ela realmente está dentro de determinados limites.

Mas os detetives tem como “fixar” uma posição específica para uma partícula ao medi-la, eliminando todas as outras possíveis posições que compõem sua nuvem de probabilidade. Nesse processo, eles precisam renunciar ao conhecimento sobre o “estado da energia” da partícula [4]Isso é o que basicamente o Princípio da Incerteza de Heinsenberg diz. Na verdade, esse Princípio pode ser formulado da seguinte forma: é impossível ao mesmo tempo medir a energia de uma partícula e definir o intervalo de tempo na qual ela existiu concretamente – a energia do mundo o redor, as propriedades fundamentais da matéria, estão inseparavelmente ligadas à incerteza sobre a existência ou não de uma partícula em determinado ponto., mas isso aqui não importa: o que importa é que é possível reduzir toda essa sobreposição de partículas a uma só posição definida, fazendo uma medição que “fixa” sua localização, sua existência. Os detetives chamam isso de “colapso da função de onda”: a “nuvem” de possíveis posições ocupadas ao mesmo tempo pela partícula deixa de existir, e ela passa a ocupar uma só posição no espaço.

Inicialmente, na primeira vez que foi descoberta a pista descrita no caso da dupla fenda, achava-se que apenas as partículas de luz tinham um comportamento dual, ao mesmo tempo sendo partícula e onda. Posteriormente, porém, constatou-se que toda a matéria tem esse comportamento. Tudo, inclusive a matéria que compõem o mundo inteiro ao seu redor, até o ar que você respira, comporta-se “como uma onda”, dizem os cientistas.

Várias funções de onda de um só elétron.

Mas como isso é possível? Como é possível que as coisas ao nosso redor existam, no mundo microscópico, em vários lugares ao mesmo tempo? Como é possível que as partículas fundamentais que compõem você e tudo ao seu redor existam na natureza enquanto probabilidade estatística, e não enquanto objetos reais? E como é possível fazer, em laboratório, uma dessas partículas entrar em colapso e ser definida em uma posição?

Só que o enigma não termina aí. É que, após uma partícula entrar em colapso e definir-se em uma só posição, ela espontaneamente tende a voltar com o tempo a ser uma onda de probabilidades, ocupando vários lugares ao mesmo tempo. A pista que analisamos aqui, chamada “Efeito de Zeno” ou “Efeito de Turing” (o “inventor” dos computadores modernos) é que a única forma de manter uma partícula em uma só posição definida ao longo do tempo é fazendo contínuas medições: o detetive mede a posição da partícula, logo depois mede novamente, e novamente, e novamente e assim por diante. Só assim consegue “fixar” a partícula no espaço.

Como isso ocorre? Se tais coisas ocorrem com todas as partículas que compõem absolutamente tudo o que vemos, como explicar que os objetos do mundo real não ocupam vários lugares ao mesmo tempo?

Os detetives decidiram juntar mais pistas.


 

PISTA QUATRO: O CASO DAS MOEDAS ENTRELAÇADAS

Toda partícula que forma o seu corpo e tudo ao seu redor têm uma propriedade fundamental relacionada ao magnetismo que os detetives batizaram de spin. Trata-se de algo muito mais importante do que esse minúsculo nome permite supor, mas por hora basta dizer que o estado de spin de uma partícula pode ter dois valores bem definidos: ou é um, ou é outro. A esses valores os detetives deram o nome de “para cima” e “para baixo” (outra denominação equivocada, mas prossigamos).

É como se os detetives tivessem nas mãos um punhado de moedas, e cada moeda só pudesse cair com o lado cara ou o lado coroa voltado para cima. No mundo real, essas moedas estão sempre ao mesmo tempo cara e coroa, como se estivessem girando no ar após serem jogadas, parecendo estar cara e coroa ao mesmo tempo:

Mas em seu laboratório, os detetives conseguem fazer com que essas moedas caiam no chão, a fim de ver qual das faces ficou voltada para cima, se cara ou coroa.

Outra coisa que os detetives podem fazer é entrelaçar duas ou mais moedas. O entrelaçamento é uma propriedade da matéria: partículas que interagem parecem se entrelaçar em um sistema no qual o estado de uma partícula nunca é individual e definido, mas existe apenas em relação ao estado das outras partículas.

Para efeitos didáticos, é como se os detetives juntassem duas moedas com uma estranha propriedade: embora não se saiba nunca de antemão qual a face de cada moeda ficará para cima após a queda, sabe-se que sempre que uma das duas moedas cair com a face cara para cima, a outra cairá com a face coroa. Estão entrelaçadas.

E é aí que as coisas ficam divertidas. Os detetives decidiram colocar as duas moedas em envelope e as enviar para destinos diferentes: uma para a detetive Alice, que está em Amsterdã, e outra para o detetive Bob, que está em Bangladesh. Chegando a seus destinos, Alice e Bob simultaneamente jogam as duas moedas, e quando uma delas cai com a face cara virada para cima (spin no estado “para cima”) a outra, automaticamente, sem que nem mesmo um bilionésimo de segundo transcorra, fica com a face coroa virada para baixo (spin no estado “para baixo”).

Esse experimento é ainda mais curioso, pois o mesmo resultado será observado, instantaneamente, mesmo que uma partícula seja colocada em outra galáxia, a três milhões de anos-luz de distância.

Mas nada há de fantasmagórico, mágico e místico na explicação. A realidade, em toda sua força lógica, é mais assombrosa e surpreendente do que a imaginação dos homens.


 

PISTA CINCO: O CASO DO ENTRELAÇAMENTO ADIADO

Em 2011, detetives descobriram uma nova pista.

Vimos que os detetives conseguem entrelaçar duas moedas entre si. Em outras palavras, duas partículas entrelaçadas estão de tal forma relacionadas uma com a outra que o estado de uma delas determina instantaneamente o estado da outra.

Mas os detetives decidiram pegar quatro partículas e fazer um teste. Inicialmente, entrelaçaram as partículas em dois pares distintos. É como se pegassem dois pares de moedas, e fizesse que o par A fique entrelaçado entre si, e o par B também fique entrelaçado entre si, e entre os dois pares não há qualquer relação.

A seguir, os detetives colocam uma das moedas do par A num envelope e remetem para a detetive Alice, que mora em Amsterdã. E colocam uma das moedas do par B num outro envelope e enviam ao detetive Bob, que mora em Bangladesh. As duas moedas restantes, uma do par A e outra do par B (e que não estão entrelaçadas e nem em qualquer relação entre si), são enviadas para o detetive Calvin, que está na Califórnia.

Alice e Calvin são instruídos a jogar suas moedas e anotar com qual face cairão e enviar seus resultados num envelope também para Calvin. Da pista anterior, sabemos que se a moeda de Alice, pertencente ao par entrelaçado A, cair com a face cara para cima, necessariamente a moeda do par A enviada a Calvin estará coroa. O mesmo em relação a Bob e sua moeda do par B.

A diversão começa com o detetive Calvin. Ele está na Califórnia, com as duas moedas que recebeu, uma do par A e outra do par B, e chegaram também os envelopes que registram os resultados de Alice e Bob, sobre se suas moedas caíram cara ou coroa.

Lembre-se que as duas moedas enviadas para Calvin não tem qualquer relação uma com a outra: uma é do par A e outra é do par B – os pares A e B é que estão entrelaçados entre si. Mas Calvin pode decidir, depois de Alice e Bob já terem jogado suas moedas, se vai ou não entrelaçar aquelas moedas que recebeu, criando ou não o par entrelaçado C com elas e jogando-as para ver qual face cai para cima.

O surpreendente é que se Calvin decidir entrelaçar suas moedas num par C e jogá-las para ver quais faces ficaram voltadas para cima, ao abrir os envelopes descobrirá que os resultados obtido por Alice e Bob formam uma combinação que inclui a combinação do par C que foi criado depois de Alice e Bob jogarem suas moedas. Se Calvin decide não criar um entrelaçamento entre as moedas inicialmente independentes dos pares A e B que recebeu e jogá-las, os resultados informados por Alice e Bob apenas refletirão o entrelaçamento dos pares A e B, mas serão aleatórios, não relacionados entre si.

Dito de outra forma, se Calvin decidir entrelaçar as moedas que recebeu de modo que sempre caiam com faces opostas para cima, da mesa forma que as moedas de Alice e Bob, ao jogar seu par e abrir os envelopes enviados pelos outros dois detetives com os resultados verá que algo assim ocorreu:

A combinação de moedas registradas por Alice e Bob no passado, e em locais distantes da Terra, concordará com a decisão de Calvin feita no futuro.

Mas como isso é possível? Como Calvin pode alterar o passado e definir como as moedas de Alice e Bob caíram, a depender de sua decisão de entrelaçar ou não as moedas?

Na verdade, Calvin não altera o passado. É outra coisa que está acontecendo.

Os detetives continuaram a juntar pistas.


 

PISTA SEIS: O CASO DO BACKFLOW E DO TUNELAMENTO

É possível que uma bola de boliche, quando lançada por você, por vezes não siga na direção do lançamento, mas siga direção contrária, retornando até você sem que qualquer outra força atue sobre ela? É possível que uma bola de boliche lançada contra uma parede de concreto ultrapasse essa parede e chegue ao outro lado?

Os detetives descobriram duas pistas que revelam respostas positivas para essas duas perguntas, no mundo das partículas que compõem tudo o que existe ao nosso redor.

Por vezes, uma partícula arremessada para a direita toma o caminho inverso e segue para a esquerda, sem encontrar nenhuma outra força atuante. Esse é o Caso do Backflow.

Esse efeito é verificado na situação em que uma partícula é considerada uma onda de probabilidades, ou seja, uma “nuvem” de possíveis posições em que a partícula pode estar.

A seguir, essa onda ou nuvem de probabilidades é arremessada na direção de um detector, de modo que haja uma diferença de velocidade entre porções da nuvem. Ou seja: certas probabilidades de posição da partícula movem-se muito rapidamente para a direita. Nessa situação, os detetives constatam que parte dessa nuvem de probabilidades toma o sentido contrário, em uma velocidade menor. Como a partícula pode estar em qualquer dessas posições, às vezes ela estará realmente indo no sentido oposto ao que foi empurrado.

[IMAGEM]

Da mesma forma, por vezes uma partícula arremessada contra uma barreira intransponível ultrapassa estranhamente essa barreira.

Claro, se você atirar uma bola de boliche com uma força sobre-humana, ela fará um buraco na barreira como uma bala que é disparada. E isso ocorre porque, nessa hipótese ,você deu muita energia à bola. Mas no caso observado pelos detetives, a partícula não possui essa energia, e nenhuma força perceptível impulsiona-a com força suficiente para que vença o obstáculo. E no entanto ela vence.

Esse é o Caso do Tunelamento, e é explicado também em termos de um comportamento semelhante ao de uma onda de probabilidades: há uma probabilidade, ainda que remota, de a partícula ultrapassar a barreira intransponível, e é isso o que às vezes acontece. Mais estranho ainda, por vezes os detetives detectam a partícula até mesmo dentro da barreira intransponível.

Uma pequena parte da onda de probabilidade que é uma partícula transpõe a barreira instransponível.

Mas tudo isso é muito estranho. Objetos da vida real não têm esse comportamento. Se você empurra um objeto, ele tende a seguir a direção na qual você empurrou, e não ir de encontro a você. Se um objeto encontra um obstáculo intransponível, ele não o ultrapassa. Porém, os detetives encontraram essas estranhas pistas, e ambas os deixam realmente confusos. Eles têm certeza de que acontece, têm o modelo matemático que descreve o que constataram, mas não sabem o motivo de as partículas se comportarem assim.

E assim terminamos a apresentação das pistas. Agora é sua vez de investigar.


 

DICAS PARA O DETETIVE AMADOR

Você tem pelo menos uma semana (ou quanto mais tempo quiser) para investigar essas pistas por si mesmo e tirar suas próprias conclusões. Mas faça sua investigação observando as seguintes orientações:

1) Fique afastado de explicações “místicas” ou “mágicas”.

Aqui nada há de místico, mágico ou “fantasmagórico”. Tudo é lógico, tudo é racional. A aparente irracionalidade tem origem na natureza contraintuitiva da verdade. Einsten, assim como todo o pesquisador sério, realmente cogitou que esses experimentos demonstravam que a realidade só existe quando a consciência humana está presente [5]Nas palavras de Einstein, em um desabafo, parece que a lua só existe quando olhamos para ela para ela. E essa suposição foi a festa dos “espiritualistas” e “místicos”.

Mas o que é o “espiritual”, afinal, senão apenas uma palavra criada para suprir uma lacuna de entendimento com uma etiqueta que se coloca em algo que ainda não foi compreendido adequadamente? Mas a lacuna não é de racionalidade, é de aceitação emocional. Há um modelo matemático aclamado e reconhecido por toda a comunidade científica (a equação de Wheeler-DeWitt-Schrödinger) que descreve tudo o que está acontecendo. O problema é que a compreensão do que está sendo desenhado por esse modelo matemático e pelos experimentos acima descritos tem implicações que contradizem a percepção que a tribo de índios têm sobre si próprios e o mundo ao seu redor – eles ainda imaginam que o mundo é plano, tem bordas e é composto de uma enorme floresta.

2) Não se intimide com jargões e fórmulas matemáticaS, nem confie na palavra de um especialista tão somente por tal pessoa ser uma “autoridade”.

Diante de uma opinião, mesmo de um especialista, tende descobrir o que basicamente está sendo dito ela pessoa, por trás de jargões e tecnicidades. Em suma, pense por você mesmo, com atenção.

Lembre o que o físico David Mermin disse sobre o comportamento da comunidade científica diante das pistas descritas acima. Ele constatou que essa comunidade se divide em dois grandes grupos: o minoritário, composto de pessoas que se realmente ficam perturbadas diante desses experimentos, e o majoritário, composto de pessoas que não ficam perturbadas; e quando se verifica porque elas não ficam perturbadas, metade delas apresenta uma explicação que demonstra que não entenderam direito o problema, enquanto a outra metade não apresenta qualquer explicação.

Apesar de toda a parafernálica técnica, jargões e matemática, essencialmente os resultados são os descritos acima, e os cientistas estão tão perdidos quanto um leigo pode estar.

3) Tome cuidado com explicações precipitadas.

Lembre-se do índio daquela tribo. O índio que vê na praia um navio distanciar-se e sumir no horizonte tentará descrever o que viu em termos de o navio ter caído na borda extrema do mundo ou ter afundado. Ou seja, em sua explicação, ele usará, sem perceber, comparações inadequadas com base no seu mundo conceitual, e isso pode tornar a compreensão dos fatos mais confusa ainda.

Cuidado com conclusões precipitadas e com descrições que misturam os fatos observados com essas conclusões. Há vários vídeos na internet que ilustram o experimento das duas partículas, e todos eles são úteis até certo ponto, mas cuidado para definir onde terminam os fatos, as pistas, e onde começam as comparações precipitadas.

4) Lembre-se do Teorema de Bell.

Não é raro ouvir um detetive desavisado dizer: “calma, um dia, todas essas pistas estranhas serão explicadas dentro dos limites daquilo que conhecemos; no fundo, nada disso é como parece ser; falta só encontrarmos o criminoso que armou todas essas pistas desse jeito aparentemente absurdo só para nos confundir; quando isso acontecer, iremos reformular a investigação e poder dormir aliviados”. O “criminoso” tem um nome técnico – é chamado de “variável oculta”. Isso significa que muitos detetives acreditam que todos esses mistérios entrarão nos eixos da normalidade conceitual quando se descobrir algum elemento (uma reformulação matemática, uma força da natureza) ainda não identificado e que desfazerá os mal entendidos.

Mas o detetive John Bell demonstrou, de forma irrefutável, em 1964, que simplesmente não existe variável oculta capaz de explicar essas pistas. Não está faltando nenhuma peça no quebra-cabeça, não há por trás de tudo isso um criminoso que está enganando os detetives com pistas equivocadas. Não há mistério no modelo matemático e nas observações – o mistério reside na radical diferença entre o mundo macroscópico que percebemos com nossos olhos e no mundo microscópico que compõem tudo ao nosso redor.

Todos os experimentos acima foram realizados por pessoas perfeitamente capacitadas e com equipamentos perfeitamente capazes de recolher os resultados que foram colhidos. Ou seja, não há qualquer deficiência na compreensão das pessoas, não há qualquer deficiência nos limites do equipamento. Não há nenhuma peça faltando na realidade observada. A peça que falta está em nossa capacidade de compreender o cenário que estamos vendo.


 

Para terminar, convém mencionar algo importante: essas não são as únicas pistas existentes sobre a verdade a ser revelada. Há outras pistas, “macroscópicas” por assim dizer. Porém, quando essas pistas surgem, as tratamos como sendo outra coisa, diferente do que são. Mencioná-las aqui não é recomendável, e sequer seguro [6]Não se ignora o risco inerente à essa exposição da verdade, mas não há herói ou mártir nesse processo de aprendizado. Com a exposição, estamos colocando colaboradores fieis em situação delicada, mas não mais do que o necessário. Assim, nenhum risco além do estritamente inevitável, e dentro de razoáveis limites de segurança, será enfrentado., além de ser absolutamente desnecessário para o aprendizado. As pista apresentadas já são suficientes, e tudo o mais pode decorrer delas.

 

Notas   [ + ]

Saiba usar as emoções para impulsionar o aprendizado

E aí, qual é a nova habilidade que você vem aprendendo nesses últimos tempos?

O modelo de aprendizado segue algumas etapas essenciais, além de acompanhar variações do nível do emoção positiva que sentimos durante o processo.  É aquela ansiedade e vontade de continuar aprendendo, já sentiu?

Então… o gráfico que representa este processo é mais ou menos esse aí. Não fica ansioso não, vamos explicá-lo ao longo do texto.

Isso funciona pra tudo. Seja a quarta vez que você está começando um novo curso de inglês, mas parece que na hora de se comunicar não consegue dizer uma frase. Sem contar aquelas suas aulas de dança, depois de meses de prática desistiu, pois parecia que cada passo tinha que pensar no que fazer, era sufocante.

Saber como você aprende novas coisas é importante para acelerar todo esse processo. A Programação Neurolinguística (PNL) mostra quais são os passos essenciais.

Bora aprender como aprender mais?

1. Incompetência Inconsciente (II)

Aqui é antes de tudo começar, antes de iniciar as aulas de direção, aquele estudo de inglês ou o curso de dança.

Nesse período não temos consciência da existência de uma possível habilidade.

Não vemos a importância de aprender tal habilidade e não ficamos interessados em como aplicar. Por exemplo, eu não toco violino. Além de não saber, não tenho interesse e nunca busquei sobre o assunto (talvez por enquanto). Em relação à habilidade de tocar violino estou no II.

Tudo começa a partir do momento em que temos a atitude de aprender.

2. Incompetência Consciente (IC)

Agora temos a consciência que somos incompetentes.

Antes, ainda não sabíamos da falta de competência porque não tínhamos começado a praticar.

É a parte que tudo é novo, normalmente ficamos apenas na teoria e pouco de prática. Na área de aprendizado em direção, estudamos leis de trânsito, funcionamentos do veículo e como trocar as marchas por exemplo. Já nas aulas de inglês, aprendemos o abecedário, principais verbos e conjunções.

Essa fase sempre é difícil, porém possuímos uma alta motivação, já que sabemos que todo começo do processo de aprendizado é novo e complexo. Além disso agora enxergamos o grande valor de um dia ter tal habilidade.

Como mostra o gráfico, é nesta parte que estamos com grandes emoções positivas, porém nível de habilidade baixo, já que estamos iniciando. Normalmente as pessoas desistem na próxima etapa.

3. Competência Consciente (CC)

Nessa fase já podemos executar a habilidade, porém é bastante difícil pois temos que pensar em tudo que fazer.

É fazer tudo pensando qual será o próximo passo.

É se comunicar em inglês de forma muito lenta, lembrando de cada palavra e elaborando a frase aos poucos. É dançar pensando em cada passo e como se executa de forma correta.

Esse é o motivo que leva muitas pessoas à reprovação na prova da autoescola. É fazer tudo pensando enquanto dirige: “Em qual marcha estou?”, “Primeiro começar a frear, depois embreagem”. Já sentiu aquele suor frio e nervosismo que tomam conta da situação?

Normalmente aqui é onde as pessoas desistem. Começam a cometer inúmeros erros na prática e acabam desmotivando. Não temos mais aquela grande emoção para continuarmos praticando, pois o resultado é lento e necessita muita disciplina.

Se você tiver disciplina e não desistir, irá chegar no último estágio do aprendizado!

4. Competência Inconsciente (CI)

Agora tudo fica fácil e não sabemos porque.

É executar a habilidade sem precisar pensar.

É quando conseguimos nos comunicar em inglês sem precisar ficar “buscando cada palavra”, dizendo frases de forma contínua. É entrar no fluxo harmônico da dança e executar, sem pensar em cada passo.

Mas como atingimos esse estado?

Simples. Treinando e errando, um processo constante. Depois de muita prática, começamos a trocar as marchas sem precisar olhar para o câmbio, dar partida naquela “subidinha” sem muito sufoco.

É a fase da maestria, executando a habilidade inconscientemente. Aqui, o nível de emoções positivas é muito alto, pois sentimos que dominamos aquela habilidade e queremos aprender mais e mais.

Alcançando a maestria

Agora que você tem o conhecimento do processo de aprendizado e  variações da emoção ao longo das etapas, fica mais fácil alcançar seus objetivos. Classifique em qual fase está e também tenha a percepção que apenas praticando e errando muito ficará competente naquela habilidade.

Existem pessoas que possuem maior facilidade para determinadas áreas, encurtando todo o processo.  Mas não importa qual seja seu objetivo. Pratique incansavelmente e tenha em vista que errar faz parte de todo o modelo.

A carta de Chester Bennington a Chris Cornell e a questão do suicídio

O corpo de Chester Bennington foi descoberto em sua casa às nove da manhã desta quinta. O vocalista do Linkin Park enforcou-se ou na noite do dia 19 de julho ou na madrugada do dia 20. Nessa última hipótese, Chester decidiu se matar no aniversário de seu grande amigo Chris Cornell, que também cometeu suicídio há só dois meses. Chris, curiosamente, também se enforcou.

Aos 41 anos, Chester era um artista bem sucedido, músico admirado por uma legião de fãs, de talento reconhecido por seus pares, casado e com seis filhos. Apesar de ter conquistado muitas das metas de nossa sociedade, Chester julgou, por algum motivo, que sua vida não era digna de ser vivida. O mesmo pode ser dito de Chris Cornell, vocalista de duas bandas que deixaram sua marca na história do rock, casado e pai de três filhos, músico com uma carreira ambicionada por muitos colegas de profissão. Para ele, de alguma forma, tudo o que havia conseguido não lhe trazia qualquer razão para viver.

Chester e Chris não eram apenas amigos, mas também parceiros musicais. Quando soube da morte de seu amigo, Chester escreveu uma carta de despedida. Na carta, ele cita as músicas Rocky Raccoon e A Day in the Life dos Beatles e um sonho que teve com a banda britânica na noite em que o amigo se matou.

Tratam-se de duas músicas curiosas, e como os dois artistas, têm pontos em comum. Foi enquanto escutava A Day in the Life que o escritor Philip K. Dick (autor do conto que inspirou Blade Runner e de livros como O Homem do Castelo Alto) teve a célebre alucinação em que se viu como um cristão da antiguidade sendo conduzido pelos romanos a fim de que fosse devorado por leões, alucinação que inaugurou uma série de outras perturbações mentais que muitas vezes ele e seus amigos e leitores consideravam, na verdade, uma espécie de revelação mística. A última parte da letra traz um koan zen, sobre quantos buracos são necessários para preencher um espaço. Já Rocky Raccoon, como conta Paul McCartney, foi inspirada no poema The Lion and Albert, em que uma mãe exortada a ter filhos pergunta, de jeito pessimista, “qual o sentido de ter filhos para que sejam devorados por leões?”

Mas isso são meras coincidências. O suicídio de dois artistas que são referência para sua geração é o fato que importa, o fato que deve nos preocupar. Estamos em uma época em que, com o suicídio de artistas como Chester Bennington, Chris Cornell, David Foster Wallace e Kurt Cobain, esse ato absurdo e injustificável tende a ser romantizado, erroneamente, por uma legião de admiradores.

A isso vem se juntar séries de TV que, também equivocadamente, glamourizam o suicídio, como 13 Reasons Why. E se isso não fosse o bastante, surgem “jogos” como o Baleia Azul, que estimulam e gameficam o suicídio de jovens que não encontram ajuda em uma sociedade que está, ela mesma, bastante perdida a ponto de oportunizar esse tipo de coisa. Só no Brasil, a taxa de suicídios nos últimos anos subiu de forma alarmante.

A morte é um assunto tabu em nossa sociedade. Ninguém gosta de falar sobre esse tema. E falar da morte voluntária é o tabu elevado à segunda potência. Mas esse silêncio acovardado da sociedade apenas reforça e permite a disseminação de um grande mal. O suicídio não é um papo que deve ser limitado à opinião de especialistas, e muito menos um problema que deve ser deixado aos cuidados de medicamentos. Esse é um assunto sobre o qual todos precisamos falar, sem intimidações.

Quando dois artistas célebres e admirados se suicidam em intervalo tão curto e em circunstâncias que nos levam a pensar que de alguma forma o ato do primeiro foi um dos fatores que impulsionou o ato do segundo, quando seriados de TV e “jogos” estimulam, voluntariamente ou não, o suicídio de pessoas emocionalmente fragilizadas, é chegada a hora de todos nos perguntarmos: o que está havendo? o que deixamos de ouvir e o que deixamos de dizer, enquanto comunidade, a essas pessoas?

A tempos são os jovens que adoecem, e uma sociedade em que a doença da alma leva artistas talentosos e jovens perdidos ao suicídio pode ser considerada ela própria doente.

Leia a carta de despedida escrita por Chester a Chris Cornell a seguir:

“Sonhei com os Beatles ontem à noite. Acordei com Rocky Raccoon tocando na minha cabeça e um olhar preocupado do rosto da minha esposa. Ela me disse que meu amigo acabara de falecer. Pensamentos sobre você inundaram minha mente e chorei. Ainda estou chorando, com tristeza, bem como com gratidão por ter compartilhado momentos muito especiais com você e sua bela família. Você me inspirou de maneiras que você jamais poderia imaginar. Seu talento era puro e incomparável. Sua voz era alegria e dor, raiva e perdão, amor e mágoa unidas em uma só coisa. Suponho que seja o que todos nós somos. Você me ajudou a entender isso. Acabei de ver um vídeo de você cantando “A Day In The Life” pelos Beatles e pensei em meu sonho. Gostaria de pensar que você estava dizendo adeus à sua maneira. Não consigo imaginar um mundo sem você nele. Peço-lhe que encontre paz na próxima vida. Eu envio meu amor para sua esposa e filhos, amigos e familiares.

Obrigado por me permitir fazer parte de sua vida.

Com todo o meu amor.

Seu amigo,

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Aquele que controla a sua vida – Parte 3

Por toda a Terra, os seres humanos estão aprisionados. Por todo lugar, os seres humanos estão sonhando. A prisão do ser humano é seu sonho, e descrever a natureza do sonho é iniciar o processo de despertar.

Aqui começa o processo de despertar.

Não façamos como Einstein, que morreu como um sonhador que se recusou a acordar mesmo diante do amanhecer mais claro. Ele próprio havia sido um dos primeiros a levantar o véu da realidade sobre quem somos e onde estamos, mas quando outros prosseguiram no trabalho e o cenário além do véu começou a revelar-se, Einstein recusou-se a aceitar o que seus olhos viam.

Sua participação na criação de um dos experimentos mais importantes para compreendermos a verdade sobre nós e o mundo demonstra esse fato. E com um toque de ironia.

Einstein tentou demonstrar, em um trabalho elaborado com a ajuda de outros dois cientistas, que o cenário visto para além do véu não podia estar correto. Como? Sua ideia básica era simples e eficiente: se o cenário da realidade pintado pelas observações e emoldurado pela matemática estivesse certo, então todas as incontáveis partículas que nos compõem e que no fundo são tudo o que existe ao nosso redor relacionam-se entre si uma forma absurda, ilógica, impossível. Logo, o que estava sendo visto por trás do véu não podia ser o cenário completo. Algo estava errado.

Manchete do New York Times de 1935.

Por exemplo, não é possível imaginar que duas moedas tenham um comportamento absurdo e ilógico de sempre caírem na mesma combinação de cara e coroa, de modo que jamais ambas estejam com a mesma face para cima. Não era admissível, argumentava Einstein, a existência de alguma “ação fantasmagórica” que fizesse com que as duas moedas estejam sempre com faces opostas, mesmo se colocadas a galáxias de distância uma da outra.

O problema é que a hipótese absurda e ilógica prevista por Einstein foi posteriormente testada em laboratório. E o resultado foi positivo: a hipótese, apesar de absurda, apesar de ilógica, realmente é verdade e corresponde à realidade do mundo ao nosso redor.

Abraham Pais, que trabalhava com Einstein, contou que certa vez durante uma caminhada seu colega subitamente parou, virou-se e perguntou:

“Você realmente acredita que a lua existe apenas quando a vemos?”

O EXPERIMENTO EPR

Como veremos na próxima semana, não há nada de ilógico, místico, absurdo ou fantasmagórico na hipótese formulada por Einstein e confirmada por experimentos. Exceto se considerarmos a gravidade também ilógica, mística, absurda, fantasmagórica. No entanto, sentimos o efeito da gravidade. Trata-se de uma força universal.

O experimento EPR (sigla do nome de seus proponentes: Einstein, Podolsky e Rosen), começa com uma propriedade muito única de todas as partículas do universo. É uma propriedade que tem correspondência com a propriedade magnética de todos os imãs, e que foi batizada com o inexato nome de Spin.

Spin significa “Girar” em inglês, o que transmite uma ideia muito equivocada, como adiante se verá. O que importa agora é que o spin de toda e qualquer partícula pode estar apenas em um de dois estados. Os pesquisadores convencionaram chamar esses dois estados de “para cima” ou “para baixo”, como a cara e a coroa de uma moeda. Mas poderiam ter chamado esses dois estados de qualquer outra palavra, como “sim” e “não”, “zero” e “um” ou “macho” e “fêmea” – não importa. O que importa é que só existem esses dois estados de spin.

A coisa é um pouco mais complicada, claro, pois está comprovado que, no mundo real para além das paredes de um laboratório, as partículas (todas as inúmeras partículas que compõem você, leitor, e o dispositivo que usa para ler essas palavras, e os fótons que levam essas palavras até seus olhos) estão simultaneamente nesses dois estados. Mas, para nosso interesse aqui, vamos ficar dentro dos laboratórios, onde os seres humanos inventaram técnicas para definir exatamente se uma partícula está “para cima” ou “para baixo”.

O que o experimento EPR faz é isolar duas partículas que estão com spins contrários. Não se sabe exatamente qual delas está “para cima” e qual está “para baixo”, mas sabe-se que seus spins são contrários. Mais ainda, os pesquisadores conseguem, num determinado momento (numa determinada medição), descobrir qual o spin de uma delas – e aí que está a questão principal. A partir dessa medição de uma das partículas, o véu da realidade é levantado e as coisas parecem não fazer sentido.

É que quando os cientistas isolam uma das partículas e definem que seu spin está “para cima” (ou “para baixo”), acontece algo extraordinário. A outra partícula, mesmo se estiver a milhares de anos-luz de distância, automaticamente ficará com seu spin “para baixo” (ou “para cima”, vice-versa).

Isso não ocorrerá em sequência, mas simultaneamente, e sem que exista qualquer tipo de conexão ou algo similar entre duas partículas: definindo-se o spin de uma, a outra, sem que transcorra mesmo um bilionésimo de milissegundo, adotará o spin no sentido oposto. Não existe relação causal (de causa e efeito) entre o estado de uma partícula e o estado oposto da outra. Quando um estado é definido, o outro já é definido como seu oposto. Isso, uma relação entre dois ou mais objetos que não é de causa e efeito e que ocorre a qualquer distância que estejam um do outro não pode existir no universo tal como o conhecemos [1]Na verdade, confundimos o universo inteiro com a realidade entrelaçada que podemos observar em determinado instante, como veremos..

O físico Schrödinger cunhou um nome para isso: é como se as duas partículas estivessem entrelaçadas. E esse entrelaçamento não é criado em laboratório, esse entrelaçamento existe por todo o universo, as partículas que compõem nosso corpo, que compõem o chão que pisamos e ar que respiramos apresentam essa curiosa característica. Algo, uma força que convencionamos chamar de entrelaçamento estabelece uma relação entre as partículas pela qual nenhuma está em determinado estado de forma autônoma, mas sempre dependendo do estado de todas as outras partículas com que está relacionada, de forma que a definição no estado de uma delas determina, simultaneamente e não importa sua localização no universo, o estado de todas as demais.

Isso acontece aqui e agora, isso acontece com você, as partículas de seu corpo e todas as demais partículas ao seu redor. Isso é, na verdade, um dos elementos fundamentais para explicar a razão pela qual existem infinitas realidades alternativas coexistindo simultaneamente, mas de um modo que apenas os seres e coisas pertencentes a uma realidade conseguem interagir entre si.

O TEOREMA DE BELL

Einstein e Bohr debatiam arduamente sobre a natureza do cenário que se descortinava diante dos olhos humanos, quando os experimentos levantavam o véu do nosso sonhar, ou seja, da percepção que fomos evolutivamente programados para assimilar como “realidade”. No fundo, toda a discussão de ambos resumia-se na seguinte pergunta: a realidade existe quando não estamos olhando?

A pergunta é absurda, e revela o quanto ambos estavam, de forma complementar, certos e errados ao mesmo tempo – como dois seres humanos entrelaçados numa charada contraintuitiva. A realidade, claro, existe quando não estamos olhando, mas quando olhamos a realidade com que estamos entrelaçados se define dentre tantas outras.

De certa forma, Einsten estava certo, no sentido de que o cenário não estava completo, mas se equivocou-se na forma pelo qual ele se completava. O cenário da realidade pintado com as cores dos experimentos e emoldurado pela matemática era exato, a incompletude estava na capacidade de compreensão de quem observava a imagem final. O cenário não é absurdo, mas sim contraintuitivo. A verdade é tão contrária a nossa noção de identidade pessoal e de realidade vivenciada que, apesar de absolutamente lógico e de decorrer naturalmente dos fatos verificados em laboratório, causa total estranheza à primitiva mente humana.

Como já dissemos, somos animais evolutivamente muito arraigados à superstição de que a verdade corresponde exatamente ao que vemos com nossos olhos.

Esse é, inclusive, o sentido mais fundamental do Teorema de Bell, que é considerado “a mais profunda descoberta da ciência” (e cujas implicações filosóficas são devastadoras): a verdade sobre o mundo não corresponde à experiência humana cotidiana, a realidade fundamental não tem absolutamente nenhuma relação com a nossa percepção mais inata sobre o que é real [2]Ou numa versão resumida e um pouco mais técnica, pode-se dizer que o Teorema de Bell é: “nenhuma teoria que inclua variáveis ocultas consegue explicar o comportamento das partículas fundamentais do universo”..

Como o físico David Mermin registrou em um artigo que ficou célebre, diante do Teorema de Bell e das descobertas feitas pelos experimentos científicos, a comunidade dos Físicos se divide em dois grupos: os físicos que ficam perturbados com Teorema de Bell e aqueles que não ficam perturbados diante do Teorema de Bell. O primeiro grupo é franca minoria, enquanto o segundo é a devastadora maioria, e pode ser subdividido em dois grupos, por sua vez: os que explicam porque não se sentem perturbados, e sua explicação revela que não compreenderam realmente o Teorema de Bell, e os que se recusam a explicar porque não se perturbam diante do Teorema de Bell.

Como Abraham Paris disse, a única parte que sobrevive do estudo feito por Einstein, Podolsky e Rosen na sua tentativa de invalidar as conclusões científicas sobre o mundo em que vivemos é a seguinte frase: “não se pode esperar que nenhuma definição de realidade permita que esse tipo de resultado ocorra“. E, no entanto, a realidade permite esse tipo de resultado em todos os lugares do universo.

O segredo, claro, está em uma palavra desta frase: a palavra “esperar”. Nada há de mágico ou fantasmagórico nesse tipo de resultado. O problema é a expectativa da mente humana a respeito da realidade e de nossa identidade pessoal diante desses resultados.

A TRAMA DE NOSSA REALIDADE

Entender o resultado do experimento EPR nos ajuda a compreender como é possível a coexistência de inúmeras realidades alternativas, sem que cada realidade interfira com as outras ao mesmo tempo em que cada ser e coisa pode se relacionar e interagir apenas com seres e coisas que pertencem à sua realidade. Na verdade, nos ajudará a entender até mesmo o que chamamos aqui de “realidade”.

Por exemplo, afirmamos antes que o nome spin não é adequado para definir uma característica fundamental de todas as partículas do universo (uma característica que é, em última análise, a responsável por nossa realidade ser tal como é, inclusive pelas diferentes propriedades dos elementos da Tabela Periódica que possibilitam a existência do mundo como o percebemos). E isso porque a palavra spin significa “girar” em inglês, e portanto remete à equivocada ideia de que as partículas são como microscópicos peões ou planetas que giram em torno do seu próprio eixo.

Mas as partículas subatômicas não são minúsculos planetas, nada mais errado do que essa metáfora. A imagem mais apropriada nesta etapa do aprendizado é a de que as partículas subatômicas são mais parecidas com vibrações do que com partículas. Vibrações essas que se espalham por uma dimensão situada para além das quatro dimensões de nossa experiência cotidiana, vibrações essas da qual temos apenas uma percepção “segmentada”, já que pertencemos exatamente a um “segmento” no qual todas as partículas (percebe-se agora como “partículas” é inapropriado também) subatômicas estão entrelaçadas entre si. A percepção segmentada, como a de alguém que vê apenas um pequeno segmento de uma corda, dá a impressão de que se tratam de partículas, de unidades corpusculares. Essa quinta dimensão é o que antes chamamos de hiper contexto, e esse entrelaçamento de todas as partículas em um “segmento” é o que chamamos de “realidade”.

Conseguimos perceber essa dimensão que existe junto às dimensões que representam a largura, comprimento, profundidade e o tempo (que também é uma dimensão) de cada objeto pensando nela no contexto de “possibilidades” desse objeto. Essas possibilidades de ser e estar de um objeto têm um nome técnico – são conhecidas como “função de onda” de um objeto.

Já vimos que foi comprovado, para além de qualquer refutação, que as partículas componentes de nossos corpos e do mundo ao nosso redor existem ao mesmo em vários lugares e em vários estados. Chama-se de “função de onda” de uma partícula a descrição das probabilidades de encontrar uma partícula em determinado lugar e em determinado estado, dentre todos os possíveis.

A “onda” da expressão “função de onda” é uma onda de probabilidades. E não só as partículas que compõem a nós e o mundo ao nosso redor existem enquanto função de onda de infinitas formas e possibilidades de existência: tudo no universo existe enquanto função de onda. Em última análise, como diria o físico Hugh Everett, o primeiro cientista a ter coragem de verbalizar o sentido do cenário visto por trás do véu, o universo inteiro é uma gigantesca função de onda, em que todas as possibilidades cientificamente viáveis tem espaço para realmente ocorrerem.

Cada uma das possibilidades, no momento em que ocorre, se manifesta na forma de um entrelaçamento de todas as partículas numa só configuração, ao mesmo tempo em que outras possibilidades ocorrem, cada qual resultante do entrelaçamento simultâneo de todas as partículas em determinada configuração. Aquilo que chamamos de realidade é uma sucessão contínua (sem solução de continuidade) de entrelaçamentos, e o futuro é a ramificação de um determinado entrelaçamento em tantos quantos outros entrelaçamentos forem cientificamente possíveis.

Existem infinitas realidades alternativas, portanto. E cada uma delas é o resultado do entrelaçamento de todos os seres e coisas que nela existem. Uma realidade é, em suma, uma espécie de “trama”, de urdidura de todos os elementos do universo, que só existem naquele determinado estado em interdependência com todas as demais coisas e seres daquela realidade.

A trama ocorre a cada instante. Neste exato momento, todas as coisas do universo a que você pertence estão intimamente entrelaçadas, e isso é o que chamamos de realidade. A essa sucessão de instantes em que todas as coisas assumem determinada configuração de forma conjunta e indissociável umas das outras Carl Gustav Jung deu o nome de “sincronicidade”.

SINCRONICIDADE

A realidade descoberta quando experimentos como o proposto por Einstein, Podolsky e Rosen levantaram o véu do sonho em que a humanidade inteira se encontra não pode ser compreendida, do ponto de vista da consciência humana no presente estágio evolutivo, de forma direta. Podemos, no máximo, usar metáforas que aproximem a realidade da nossa experiência cotidiana.

Muitos dos vislumbres da realidade feitos por pessoas como Giordano Bruno, Lao Tsé, Pierre de Chardin, Tesla e Carl Gustav Jung e outros tantos visionários ao longo dos séculos ocorreram num contexto em que o conceito de múltiplas realidades coexistentes jamais havia sido cogitada. E foi nesse mesmo contexto que tais vislumbres foram assimilados pela sociedade de determinado período da história humana.

Assim, a versão popularizada para o conceito de sincronicidade é mundana, e diz respeito a “coincidências significativas” que ocorrem com um indivíduo e tem um significado subjetivo naquele seu momento de vida. Mas embora seja verdade que a consciência humana possa abstrair de determinadas coincidências um entrelaçamento que corresponda a determinadas situações arquetípicas, pensar nesses termos é alimentar uma visão muito restrita sobre o que está realmente acontecendo a cada momento.

Jung propôs o conceito de sincronicidade como forma de explicar porque eventos não causais parecem estar relacionados. Também utilizou tal conceito para explicar porque, em determinadas circunstâncias, métodos oraculares como o I Ching e o Tarot parecem representar determinada configuração de momento que possuem um significado objetivo para quem utiliza de tais recursos desenvolvidos por antigas culturas.

E é verdade que a Mente Profunda de cada ser humano, ou seja, a Mente que existe e opera no hiper contexto, coordenando as mentes individuais que operam em cada realidade alternativa, pode manipular, em determinadas condições, a trama, o entrelaçamento que integra determinados elementos de uma realidade a fim de expressar determinado significado subjetivo, compreensível para a consciência de uma ou mais mentes individuais. Em outras palavras, em determinadas condições e cumpridos determinados requisitos, é possível a um ser humano manter certo diálogo, em linguagem arquetípica, com a Mente Profunda.

Isso, porém, é apenas um aspecto do fenômeno subjacente ao que Jung batizou como sincronicidade, como ele próprio explicou ao relacionar sua ideia e o pensamento dos antigos chineses que desenvolveram o taoísmo e o I Ching:

“Essa concepção envolve um certo e curioso princípio que chamei de sincronicidade, um conceito que formulei de um ponto de vista diametralmente oposto ao princípio da causalidade. Já que o último é uma mera verdade estatística e não absoluta, trata-se de um tipo de hipótese sobre como os eventos ocorrem um após o outro. A sincronicidade, por sua vez, considera a coincidência de eventos no espaço e no tempo como significando algo mais do que o mero acaso, nomeadamente, uma peculiar interdependência de eventos objetivos uns em relação aos outros bem como em relação ao estado subjetivo do observador ou observadores”.

O entrelaçamento simultâneo de todas as coisas do universo em uma determinada configuração que forma uma determinada realidade num determinado contexto de espaço e tempo, ao lado de outras inúmeras realidades paralelas, é uma das condições fundamentais da existência. Tudo está reunido neste exato momento presente junto a você. Tudo está entrelaçado de forma indissociável com sua existência aqui e agora. O cenário que olhos despertos podem ver está bem diante de você, basta mover-se em direção do despertar e você finalmente acordará.

Notas   [ + ]

O Segredo de Elon Musk

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[Nota do editor: esta é a tradução autorizada do texto original de Tim Urban, publicado no site Wait But Why.]

Qualquer um que tenha lido meus textos sobre Musk está ciente de que não apenas mergulhei nas coisas que ele tem feito: bebi uma grande taça da síntese de seu pensamento nesse processo. Estou realmente envolvido com essa história toda.

Acho que isso é legal, certo? O cara é um gigante industrial revolucionário nos EUA em uma época e que já não deveria haver gigantes industriais revolucionários, impulsionando profundas transformações em grandes e tradicionas indústrias que não deveriam mais ser objeto de qualquer transformação profunda. Após emergir da grande festa das empresas pontocom da década de 1990 com 180 milhões de dólares, ao invés de sentar em sua cadeira de grande investido escutando propostas de jovens investidores ele decidiu começar iniciar uma briga com um grupo de lutadores de sumô de 200 quilos: a indústria automobilística, a indústria petrolífera, a indústria aeroespacial, o complexo industrial-militar e as empresa de energia elétrica – e ele pode realmente estar vencendo. E tudo isso, pelo que parece, com o propósito de dar à nossa espécie um futuro melhor.

Mas alguém ser tão excepcionalmente ousado não é ainda razão para merecer texto que somam mais de noventa mil palavras de um autor que se propôs a escrever texto sobre uma ampla gama de assuntos.

Durante o primeiro texto sobre Musk e seus projetos, eu estabeleci dois objetivos:

1) Entender porque Musk faz o que ele faz.

2) Entender porque Musk é capaz de fazer o que ele faz.

Até agora eu gastei a maior parte do tempo no objetivo 1, mas o que realmente o que tem me intrigado a medida em que penso sobre isso é o objetivo 2. Sou fascinado por aquelas raras personalidades na história humana que conseguem mudar dramaticamente o mundo durante sua breve estadia aqui a Terra, e sempre gostei de estudá-las e ler suas biografias. Essas pessoas sabem algo que não sabemos, e podemos aprender coisas valiosas com elas. Ter acesso a Elon Musk deu-me uma chance única de colocar as mãos em uma dessas pessoas e examiná-la de perto.

Se fosse apenas a riqueza, a inteligência, a ambição ou as boas intenções de Musk que o fizessem alguém tão capaz, então haveria muitos mais Elon Musks por aí. Então é alguma coisa a mais. E, para mim, essa série de textos tornou-se uma missão para descobrir o que é.

A boa notícia é que, após um bom tempo pensando e lendo a seu respeito, falando com ele e conversando com membros de sua equipe, eu descobri o que é. O que por algum tempo era um conjunto desorganizado de fatos, observações e informações começou a tomar a forma de um tema: um tratado sobre aquilo que Musk compartilha com a maioria dos personagens mais dinâmicos da história humana e que os distinguem de quase todo o resto da humanidade.

A medida em que trabalhei nos textos sobre a Tesla, esse conceito emergiu, e tornou-se claro para mim que essa série precisava e uma pausa para mergulharmos profundamente naquilo que Musk e poucas outras pessoas tem e que as fazem tão excepcionais.O que me deixou empolgado é que se trata de uma coisa acessível a todos nós e que está bem diante de nossos olhos – nós só não conseguimos percebê-la e nos conscientizar dela. Escrever e pensar sobre isso durante todo esse tempo realmente afetou a forma como eu penso a respeito da minha vida, meu futuro e as escolhas que faço. E vou dar o meu melhor neste texto para explicar o que é.


DOIS TIPOS DE GEOLOGIA

Em 1681, o teólogo inglês Thomas Burnet publicou sua obra Sagrada Teoria da Terra, na qual ele explica como a geologia funcionava. O que aconteceu é que, há uns seis mil anos atrás, a Terra formou-se como uma esfera perfeita com uma superfície habitável e um interior cheio de água. Mas aí, quando a superfície da Terra começou a ficar mais seca, rachaduras foram se fomando, o que liberou a água subterrânea. O resultado foi o Dilúvio descrito na Bíblia, e Noé teve que lidar com um monte de problemas por causa disso. Quando as coisas se acalmaram, a Terra já não era uma esfera perfeita – o grande dilúvio havia distorcido sua superfície, criando montanhas, vales e cavernas, e o subterrâneo ficou cheio de fósseis das vítimas da inundação.

E bingo, Burnet havia matado a charada. O grande enigma da teologia fundamental havia sido até então reconciliar a grande quantidade de características da Terra que pareciam muito antigas com a pouca idade que o planeta tinha segundo o relato bíblico. Para teólogos da época, era a sua versão da teoria geral da relatividade versus a mecânica quântica, e Burnet surgiu com uma respeitosa teoria das cordas que unificava tudo sob um só teto.

E não foi apenas Burnet. Houve tantas teorias que tentavam reconciliar a geologia terrestre com os versos da Bíblia que hoje elas garantem uma página da Wikipedia com mais de quinze mil palavras para tratar da “Geologia do Dilúvio”.

Mais ou menos na mesma época, outro grupo de pensadores começou a enfrentar seus próprios enigmas geológicos: os cietistas.

Para os teólogos, as regras do jogo eram “Fato: a Terra começou há seis mil anos atrás e em algum momento houve um grande dilúvio”, e a investigação de seu enigma ocorria dentro desse contexto limitado. Mas os cientistas começaram seu jogo sem nenhuma regra, o tabuleiro era um grande espaço em branco no qual qualquer observação ou medição que encontrassem seria bem-vinda.

Nos trezentos anos seguintes, os cientistas elaboraram várias teorias, equando novas tecnologias permitiam novos tipos de medições, as teorias antigas eram descartadas e substituídas por versões atualizadas. A comunidade científica continuou a surpreender-se a medida em que a idade da Terra foi se revelando cada vez maior. Em 1907 houve um grande avanço quando o cientista norte-americano Bertram Boltwood apresentou a técnica pioneira de calcular a idade das rochas através da datação radiométrica, que localizava nas rochas elementos com um nível conhecido de decaimento radioativo.

A datação radiométrica situou a história da Terra em bilhões de anos atrás, o que possibilitou novos avanços na ciência com a teoria da Deriva Continental, a qual por sua vez conduziu à teoria das Placas Tectônicas. O cientistas estavam empolgados.

Enquanto isso os geólogos do Grande Dilúvio não tinham nada disso. Para eles, qualquer conclusão da comunidade científica era furada porque eles estavam desobedecendo as regras do jogo. A Terra oficialmente tinha menos de seis mil anos de idade, então se a medição radiométrica revelava algo diferente, tratava-se de uma técnica falha e ponto final.

Mas a evidência científica tornou-se cada vez mais convincente, e a medida em que o tempo passava mais e mais geólogos do Grande Dilúvio jogavam a toalha e aceitavam o ponto-de-vista dos cientistas, pois era possível que suas regras do jogo é que estivessem erradas.

Alguns, porém, continuaram firmes. Regras são regras, e não importa quantas pessoas concordam que a Terra tenha bilhões de anos: no fundo é só uma grande conspiração.

Ainda hoje há muitos geólogos da inundação defendendo sua posição. Recentemente, um autor chamado Tom Vail escreveu um livro chamado Grand Canyon: A Different View, na qual ele expõe que:

“Ao contrário daquilo que é amplamente considerado verdade, a datação radioativa não prova que as rochas do Grand Canyon têm milhões deanos. A grande maioria das camadas sedimentares do Grand Canyon foram depositadas como o resultado do dilúvio global que ocorreu como resultado do Pecado Original que ocorreu no Jardim do Éden.”


 

Se fizéssemos uma pesquisa entre meus leitores, acredito que a esmagadora maioria afirmaria que está do lado dos cientistas, e não dos geólogos do dilúvio. Isso faz sentido. Religiosas ou não, a maioria das pessoas que leem meus textos estão bem informadas e familiarizadas com evidências e precisão científica. Sou lembrado disso sempre que cometo um erro em um dos meus texto.

Seja qual for a importância da fé no reino espiritual, a maioria de nós concorda que quando se trata de procurar respostas sobre a idade da Terra, a história da nossa espécie, as causas de um relâmpago ou qualquer fenômeno físico do universo, lógica e informação são ferramentas mais eficientes do que fé e livros religiosos.

Mas, apesar disso, após pensar um bocado sobre isso, cheguei a uma conclusão desagradável:

Quando se trata da forma como pensamos, da forma como tomamos decisões e da forma como levamo nossas vidas, somos muito mais parecidos com os geólogos do dilúvio do que com cientistas.

E qual o segredo do Elon Musk? Ele pensa como um cientista em todas as situações.

HARDWARE E SOFTWARE

A primeira pista para o modo como Musk pensa é a forma super esquisita como ele fala. Por exemplo:

– Criança humana: “Tenho medo do escuro porque é quando todas as coisas que dão medo vem para me pegar e eu não vou ser capaz de perceber elas chegando.”

Criança Elon Musk: “Quando eu era criança, eu tinha muito medo do escuro. Mas então passei a entender que escuridão significa apenas a ausência de fótons com comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. E então pensei “bom, é realmente idiota ter medo da ausência de fótons”. E depois disso deixei de ter medo do escuro”.

Ou:

– Pai humano: “Eu gostaria de trabalhar menos porque meus filhos estão começando a crescer.”

– Pai Elon Musk: “Estou tentando diminuir o ritmo, principalmente porque os trigêmeos estão começando a ganhar consciência. Eles quase tem dois anos.”

Ou:

Humano solteiro: “Eu gostaria de ter uma namorada e não quero estar tão ocupado com meu trabalho que não tenha tempo para ter encontros.”

Elon Musk solteiro: “Eu gostaria de alocar mais tempo para encontros, porém. Eu preciso encontrar uma namorada. É por isso que preciso arranjar só um pouco mais de tempo. Eu acho que talvez trabalhando dez horas por cinco dias na semana. Quanto uma mulher precisa em uma semana? Talvez dez horas? Isso é o mínimo? Eu não sei.”

Chamo isso de PapoMusk. PapoMusk é uma linguagem que descreve os aspectos cotidianos da vida comum exatamente como eles realmente, literalmente, são.

Há muitas situações técnicas em que todos concordamos que o PapoMusk faz muito mais sentido do que nossa linguagem humana normal:

Mas o que faz Musk um sujeito esquisito é que ele pensa sobre a maioria das coisas usando PapoMusk, incluindo muitas áreas nas quais você usualmente não espera encontrar esse tipo de linguagem. Como quando eu lhe perguntei se tinha medo da morte, e ele respondeu que ter filhos o fazia sentir-se mais confortável diante da morte porque “crianças são meio que uma parte de você. Ao menos são metade de você. Eles são metade de você no nível do hardware, e dependendo de quanto tempo você passa com elas, elas são também metade de você no nível do software”.

Quando você olha para crianças, você vê pessoas pequenas, bobinhas e fofas. Quando Musk olha para seus cinco filhos, ele vê cinco de seus computadores favoritos. Quando ele olha para você, ele vê um computador. E quando ele olha no espelho, ele vê um computador: o computador dele. Não é que Musk afirme que seres humanos são apenas computadores – é que ele vê as pessoas como computadores acima de tudo mais que elas possam ser.

E no nível mais literal, Musk está certo sobre seres humanos serem computadores. Em sua definição mais simples, computador é um objeto que armazena e processa informação – algo que o cérebro com certeza faz.

E se por um lado isso não é a forma mais poética de pensar sobre nossas mentes, comecei a acreditar que essa é uma das áreas da vida em que o PapoMusk pode nos servir muito bem – pois pensar no cérebro como um computador força você a considerar a distinção entre nosso hardware e nosso software, uma distinção que frequentemente falhamos em reconhecer.

Para um computador, hardware é definido como “os mecanismos, circuitos e outros componentes físicos”. Então, para um ser humano, isso é o cérebro físico com que ele nasce e todas as suas habilidades que determinam sua inteligência, seus talentos inatos e outras qualidades e deficiências.

O software de um computador é definido como “os programas e outras informações operacionais usadas pelo computador”. Para um ser humano, é as coisas que ele sabe e a forma como pensa – seu sistema de crenças, seus padrões de pensamento e métodos de argumentação. A vida é um fluxo de entrada de informações de todo o tipo que entram no nosso cérebro através dos sentidos, e é o software que filtra, avalia, processa e organiza esse input, finalmente usando-o para gerar um output: a tomada de uma decisão.

O hardware é a bola de argila que nos é entregue quando nascemos. E, claro, nem toda argila é igual – cada cérebro começa como uma combinação única de forças e fraquezas em uma ampla gama de processos e capacidades.

Mas é o software que determina que tipo de ferramenta moldaremos a partir daquela bola de argila.

Quando as pessoas pensam no que faz alguém como Elon Musk tão eficiente no que se propõe a fazer, elas frequentemente se focam no hardware – e o hardware de Musk tem alguns aspectos impressionantes. Mas quanto mais eu aprendo sobre Musk e outras pessoas que parecem ter algum poder sobre-humano (seja Steve Jobs, Albert Einstein, Henry Ford, Genghis Khan, Marie Curie, John Lennon, Ayn Rand ou Louis C.K.) mais me convenço de que é seu software, e não sua inteligência ou talentos adquiridos de nascença, que os faz tão únicos e tão eficientes no que se propõe a fazer.

Então vamos falar sobre software, começando com o do Musk. A medida em que escrevi os outros textos sobre os projetos de Musk, eu analisava tudo o que aprendia sobre ele (as coisas que dizia, as decisões que tomava, as missões que ele assumia e como as enfrentava), pegando pistas de como seu software subjacente funciona.

Eventualmente, as pistas se acumularam e a forma do software começou a se revelar. E a seguir vou explicar como esse software é.

O SOFTWARE DE MUSK

A estrutura do software de Musk começa como o software da maioria de nós, com o que chamaremos a Caixa de Desejos:

Esta caixa contém qualquer coisa na vida quando você deseja, em que a Situação A dá lugar à Situação B.

Situação A é o que está acontecendo agora. E você quer que algo mude para que a Situação B passe a acontecer em seu lugar. Alguns exemplos:

A Caixa de Desejos tem uma parceira, que chamaremos de Caixa da Realidade. Ela contém todas as coisas que são possíveis no mundo real:
Simples assim.

A sobreposição das caixas Desejo e Realidade resulta na Piscina de Metas, onde ficam os seus objetivos:

Então você escolhe uma meta da Piscina de Metas, a coisa que você vai tentar mudar da Situação A para a Situação B.

E como você faz para que algo mude? Você direciona seu poder para esse fim. O poder de uma pessoa pode assumir várias formas: seu tempo, sua energia (mental e física), seus recursos, sua capacidade de persuasão, sua conexão com os outros, etc.

O conceito de “trabalho assalariado” é apenas a Pessoa A usando o poder de seus recursos (um salário) para direcionar o tempo e/ou a energia da Pessoa B para realizar o objetivo da Pessoa A. Já quando a uma celebridade respeitada recomenda publicamente um livro, ela está combinando seu poder de conexão (ela tem um enorme alcance) e seu poder de persuasão (as pessoas confiam nela) e direcionando-os para o objetivo de colocar o livro nas mãos de milhares de pessoas que, de outra forma, nunca teriam tomado conhecimento dele.

Uma vez que certa meta foi selecionada, você sabe para onde direcionar o seu poder. Agora é hora de descobrir a maneira mais eficaz de usar esse poder para gerar o resultado desejado – essa é a sua estratégia:

Simples, certo? E provavelmente não é tão diferente de como você pensa.

Mas o que torna o software de Musk tão eficaz não é a sua estrutura, e sim o fato de que ele o usa como um cientista. Carl Sagan disse: “A ciência é uma forma de pensar muito mais do que um sistema de conhecimento”, e você pode ver Musk aplicar essa maneira de pensar de duas formas principais:

1) Ele constrói cada componente do software, desde o início.

Musk chama isso de “raciocínio dos primeiros princípios”. Vou deixá-lo explicar:

“Eu acho que geralmente o processo de pensamento das pessoas é muito limitado por convenções ou analogias com experiências anteriores. É raro que as pessoas tentem pensar em algo partindo dos primeiros princípios. Elas dirão: “Nós faremos assim porque sempre foi feito assim.” Ou não farão algo porque “bem, ninguém nunca fez isso, então não deve ser bom.” Mas isso é uma maneira ridícula pensar. Você tem que construir o raciocínio desde o início – “dos primeiros princípios” é a frase que é usada na Física. Você olha os fundamentos e constrói o seu raciocínio a partir daí, e então você verá se você tem uma conclusão que funciona ou não funciona, e pode ou não ser diferente do que as pessoas fizeram no passado.”

Na ciência, isso significa começar com aquilo que as evidências nos mostram ser verdade. Um cientista não diz: “nós sabemos que a Terra é plana porque é assim que ela parece ser, o que é intuitivo, e é isso que todos concordam que é verdade”. Um cientista diz: “a parte da Terra que posso ver em qualquer determinado momento parece ser plana, o que ocorre quando se olha para uma pequena parte de muitos objetos de formas diferentes, então não tenho informações suficientes para saber qual é a forma da Terra. Uma hipótese razoável é que a Terra seja plana, mas até que tenhamos ferramentas e técnicas que possam ser usadas para provar ou refutar essa hipótese, essa é uma questão em aberto “.

Um cientista reúne apenas o que sabe ser verdadeiro (os primeiros princípios) e usa-os como as peças de um quebra-cabeça para construir sua conclusão.

Raciocínio dos primeiros princípios é uma coisa difícil de fazer na vida, e Musk é um mestre nisso. O software de nosso cérebro tem quatro grandes centros de tomada de decisão:

1) Preenchimento da Caixa de Desejos;

2) Preenchimento da Caixa da Realidade;

3) Seleção de metas na Piscina de Metas; e

4) Formação de estratégia.

Musk trabalha em cada uma dessas caixas usando o raciocínio de primeiros princípios. Preencher a Caixa de Desejos utilizando os primeiros princípios requer uma compreensão profunda, honesta e independente sobre si mesmo. Preencher a Caixa da Realidade exige a imagem mais desobstruída possível dos fatos reais do mundo e de suas próprias habilidades. A Piscina de Metas deve ser um Laboratório de Seleção de Metas que contém ferramentas para medir e pesar inteligentemente as opções disponíveis. E estratégias devem ser elaboradas com base no que você sabe, e não no que normalmente é feito.

2) Ele ajusta continuamente as conclusões de cada componente à medida que novas informações chegam.

Você deve se lembrar de fazer provas de matemática na escola, algo comum na infância de todos nós. Aprendíamos coisas como isso:

Se: A = B

E se: B = C + D

Então: A = C + D

Matemática é algo satisfatoriamente exato. Seus dados são exatos e suas conclusões são precisas.

Em matemática, chamamos os dados de axiomas, e axiomas são 100% verdadeiros. Então, quando construímos conclusões a partir de axiomas, chamamos essas conclusões de teoremas, que também são 100% verdadeiros.

A ciência não tem axiomas ou provas, por boas razões.

Poderíamos ter chamado a Lei da Gravitação Universal de Newton de teorema – e por um longo tempo, certamente ela parecia um. Mas Einstein apareceu e mostrou que Newton na verdade estava vendo uma imagem “de perto”, como alguém que vê a Terra de perto e a chama de plana. E Einstein demonstrou que quando você muda de perspectiva, descobre que a verdadeira lei é a da Relatividade Geral, pois a Lei da Gravitação Universal de Newton deixa de funcionar em condições extremas. E então você fica tentado a chamar a Lei da Relatividade Geral de teorema, mas surge a Mecânica Quântica e mostra que a Lei da Relatividade Geral falha quando é aplicada em escalas microscópicas, e que um novo conjunto de leis precisa ser aplicada para explicar nesses casos.

Não há axiomas ou teoremas na ciência porque nada é certo, e tudo aquilo de que temos certeza sobre pode ser refutado. Richard Feynman disse: “o conhecimento científico é um conjunto de declarações com diversos graus de certeza – algumas mais inseguras, algumas quase seguras, mas nenhuma absolutamente segura sobre sua certeza.” Em vez de teoremas, a ciência tem teorias. As teorias baseiam-se em provas concretas e tratadas como verdades, mas a qualquer momento elas são susceptíveis de serem ajustadas ou refutadas, à medida em que surgem novos dados.

Assim, na ciência, é mais como:

Se (por enquanto): A = B

E se (por enquanto): B = C + D

Então (por enquanto): A = C + D

Em nossas vidas, o único verdadeiro axioma é “eu existo”. Além disso, nada é certo. Para a maioria das coisas na vida, não podemos sequer construir uma verdadeira teoria científica, porque a vida não tende a ter medidas exatas.

Normalmente, o melhor que podemos fazer é ter um palpite forte com base nos dados que temos. E na ciência, um palpite é chamado de hipótese. O que funciona assim:

Se (com base no que eu sei): A = B

Se (com base no que eu sei): B = C + D

Então (com base no que eu sei): A = C + D

As hipóteses são construídas para serem testadas. Testar uma hipótese pode refutá-la ou fortalecê-la, e se ela passar em testes suficientes, pode ser atualizada para uma teoria.

Então, depois que Musk constrói suas conclusões a partir dos primeiros princípios, o que ele faz? Ele testa a ideia no mundo real continuamente, e a ajusta regularmente com base no que aprende. Vamos percorrer todo o processo para mostrar como:

Você começa como o raciocínio de primeiros princípios para (A) preencher a Caixa de Desejos, (B) preencher a Caixa de Realidade, (C) selecionar uma meta da Piscina de Metas, e (D) construir uma estratégia. Em seguida, você começa a trabalhar. Você usou os primeiros princípios para decidir para onde direcionar seu poder e a maneira mais eficaz de usá-lo.

Mas a estratégia de conquista de metas que você criou foi apenas o seu primeiro passo. Era uma hipótese, madura o suficiente para ser testada. E você testa uma hipótese de estratégia de uma só maneira: agindo. Você direciona seu poder para implementar a estratégia e vê o que acontece. Ao fazer isso, os dados começam a fluir em resultados, feedback e novas informações do mundo exterior. Certas partes de sua hipótese de estratégia podem ser fortalecidas por esses novos dados, outras podem ser enfraquecidas e novas idéias podem surgir na sua cabeça graças à experiência. De qualquer forma, algum ajuste é geralmente necessário:

À medida em que esse loop de estratégia vai ocorrendo e seu poder se torna mais e mais eficaz na realização de seu objetivo, outras coisas começam a acontecer.

Para alguém que usa o raciocínio de primeiros princípios, a Caixa de Desejos a qualquer momento é uma fotografia de seus desejos mais íntimos, tirada na última vez em que pensou muito sobre isso. Mas o conteúdo da Caixa de Desejos também é uma hipótese, e a experiência pode mostrar que você estava errado sobre algo que achou que queria ou que você quer uma coisa mas ainda não havia se dado conta desse desejo. Ao mesmo tempo, o seu eu interior não é uma estátua rígida, mas uma escultura cambiante e multiforme, cujos valores mais íntimos mudam com o passar do tempo. Portanto, mesmo se algo na Caixa de Desejos estivesse correto em determinado momento, esse desejo específico pode perder seu lugar na Caixa de Desejos conforme você se desenvolve. A Caixa de Desejos deve refletir da melhor forma possível o seu eu interior atual, o que exige que você a mantenha atualizada. E isso é uma coisa que você faz através da reflexão:

Um loop (uma volta no circuito) que atualiza a Caixa de Desejos é chamado de evolução.

Por sua vez, a Caixa de Realidade também estará passando por um processo contínuo de atualização. “Coisas que são possíveis” é uma hipótese, talvez mais do que qualquer outra coisa. Essa hipótese leva em conta tanto o estado do mundo como suas próprias habilidades. E à medida que suas próprias habilidades mudam e se desenvolvem, o mundo muda ainda mais rápido. O que era possível no mundo em 2005 é muito diferente do que é possível hoje, e é uma vantagem enorme trabalhar com uma Caixa de Realidade atualizada.

Preencher a sua Caixa de Realidade usando o raciocínio de primeiros princípios é um grande desafio, e mantê-la atualizada para que corresponda rigorosamente à realidade exige trabalho contínuo.

Para cada uma dessas áreas, a caixa representa a hipótese atual e o círculo representa a fonte de nova informação que pode ser usada para ajustar a hipótese. É nosso dever lembrar sempre que os círculos é que mandam, e não as caixas – as caixas estão apenas tentando fazer o seu melhor para deixar os círculos sentirem-se orgulhosos de seu trabalho. E se ficarmos desconectados daquilo que está acontecendo nos círculos, a informação nas caixas se tornará desatualizada e obsoleta.

Pensando no software como um todo, vamos dar um passo para trás. O que vimos é um mecanismo de elaboração de objetivos abaixo e um mecanismo de realização de metas acima. Uma coisa que a realização de metas muitas vezes requer é foco extremo. Para obter resultados, concentramos nossa atenção nos pequenos detalhes, investimos toda a nossa energia na busca de nossa meta e aprimoramos continuamente nossa estratégia com um loop.

Mas, com o passar do tempo, ajustamos o conteúdo e a forma da Caixa Desejos e da Caixa de Realidade. E, eventualmente, algo mais pode acontecer: a Piscina de Metas é alterada.

A Piscina de Metas é apenas a sobreposição da Caixa de Desejos e da Caixa de Realidade, então sua própria forma e conteúdo são totalmente dependentes da situação dessas caixas. E como você vive sua vida dentro do mecanismo de obtenção de metas acima descrito, é importante assegurar-se de que aquilo em que você está trabalhando tão duramente permaneça alinhado com a Piscina de Metas – então vamos adicionar duas grandes setas vermelhas para esse fim:

Manter-se atualizado com os dois círculos abaixo exige que às vezes levantemos nossas cabeças da missão micro para fazermos uma reflexão macro. E quando ocorrem mudanças suficientes nas caixas de Desejos e de Realidade, o objetivo que você persegue não estará mais na Piscina de Metas, o que exigirá uma grande mudança de vida – uma ruptura, um deslocamento, uma troca de prioridade, uma atitude que altera o jogo.

Juntando tudo isso, o software que descrevi é um sistema vivo e pulsante, construído em alicerces sólidos (os primeiros princípios) e feito para ser ágil, refletir a sua verdade e atualizar-se quando for necessário, a fim de melhor servir seu proprietário.

E se você ler sobre a vida de Elon Musk, pode acompanhar esse software em ação.

COMO O SOFTWARE DE MUSK DETERMINOU SUA HISTÓRIA

COMEÇANDO

O primeiro passo para Elon foi preencher o conteúdo de sua Caixa de Desejos. Fazer isso a partir dos primeiros princípios é um desafio enorme – você tem que aprofundar sua análise de conceitos como certo e errado, bem e mal, importante e trivial, valioso e dispensável. Você tem que descobrir o que você respeita, o que despreza, o que o fascina, o que o aborrece e o que empolga profundamente sua criança interior. Claro, não há nenhuma receita para qualquer pessoa de qualquer idade obter uma resposta clara para essas perguntas, mas Elon fez a melhor coisa que ele poderia ao ignorar os outros e pensar com autonomia.

Conversei com ele sobre o seu processo de pensamento inicial para descobrir o que faria em sua vida. Ele disse muitas vezes que se importava profundamente com o futuro bem-estar da espécie humana – algo que está claramente no centro de sua caixa de desejos. Eu perguntei como ele chegou a isso, e ele explicou:

A única coisa que me interessa é: quando olho para o futuro, vejo-o como uma série de fluxos de probabilidade de ramificação. Então, você precisa se perguntar sobre o que estamos fazendo para estimular o bom fluxo de probabilidades – o que é suscetível de concretizar um bom futuro? Porque, de outra forma, você olhará os futuros possíveis e dirá “a coisa vai ficar preta”. Se você está projetando o futuro e diz: “Uau, vamos acabar em alguma situação terrível”, isso é deprimente.

Justo. Aprofundando a análise de seu caminho em particular, mencionei para Musk os grandes físicos modernos como Einstein e Hawking e Feynman, e perguntei-lhe se havia considerado tornar-se um cientista em vez de um engenheiro. A resposta dele foi:

Eu certamente admiro as descobertas dos grandes cientistas. Eles estão descobrindo o que já existe – é uma compreensão mais profunda de como o universo já funciona. Isso é legal, mas o universo já sabe disso. O que importa é o conhecimento em um contexto humano. O que estou tentando garantir é que o conhecimento em um contexto humano ainda seja possível no futuro. Então é como se eu fosse mais como o jardineiro, e depois há as flores. Se não houver jardim, não há flores. Eu poderia tentar ser uma flor no jardim, ou eu poderia tentar certificar-me de que há um jardim. Então eu estou tentando ter certeza que haverá um jardim, de modo que no futuro muitos Feynmans possam florescer.

Em outras palavras: tanto A como B são bons, mas sem A não há B; então escolho A.

Ele prosseguiu:

Houve um momento em que pensei em seguir a carreira de Físico – eu me formei em Física. Mas, para realmente avançar na Física hoje em dia, você precisa de dados. A física é fundamentalmente governada pelo progresso da engenharia. Esse debate – “Qual é melhor, engenheiros ou cientistas? Os cientistas não são melhores? Einstein não era a pessoa mais inteligente? “- pessoalmente, eu acho que a engenharia é melhor porque na ausência da engenharia você não tem os dados. Você apenas atingiu um limite. E sim, você pode ser muito inteligente dentro do contexto do limite dos dados que você tem, mas a menos que você tenha uma maneira de obter mais dados, você não pode fazer progresso. Como olhar para Galileo. Ele projetou o telescópio – foi isso que lhe permitiu ver que Júpiter tinha luas. O fator limitante, se você quiser, é a engenharia. E se você quiser avançar a civilização, você deve abordar o fator limitante. Portanto, você deve abordar a engenharia.

A e B são ambos bons, mas B só pode avançar se A avançar. Então eu escolho A.

Ao pensar na faculdade sobre o melhor caminho para ajudar a humanidade, Musk analisou a questão raciocinando a partir dos primeiros princípios: “O que mais afetará o futuro da humanidade?” E então elaborou uma lista com cinco coisas, como explicou em uma entrevista: “a internet; a energia sustentável; a exploração espacial (em particular a extensão permanente da vida para além da Terra); a inteligência artificial; e reprogramar o código genético humano.”

Ao ouvi-lo falar sobre o que é importante para ele, você pode ver toda a sequência de raciocínios sobre a Caixa de Desejos que o levou à sua vida atual.

Mas ele também tem outras motivações. Ao lado de ajudar a humanidade, na sua Caixa de Desejos também está algo que ele explicou em uma entrevista:

Estou interessado em coisas que mudam o mundo ou afetam o futuro através de alguma tecnologia fantástica que faz você dizer “Como isso aconteceu? Como isso é possível?”

Isto se encaixa no cenário da paixão de Musk por tecnologia super-avançada e na empolgação que ele transmite a outras pessoas. Assim, tendo em conta tudo o que vimos acima, uma meta ideal para Musk seria algo envolvendo engenharia, algo em uma área que seria importante para o futuro, e algo relacionado com tecnologia de ponta. Esses itens básicos e genéricos permitiram que ele reduzisse consideravelmente os objetivos possíveis em sua Piscina de Metas.

Enquanto isso, ele era um adolescente sem dinheiro, reputação ou conexões, e com conhecimento e habilidades limitadas. Em outras palavras, sua caixa de realidade não era tão grande. Então ele fez o que muitos jovens fazem – ele focou seus objetivos iniciais não em torno de alcançar seus desejos, mas em ampliar sua Caixa de Realidade e sua lista de “coisas que são possíveis”. Ele queria poder ficar legalmente nos EUA depois da faculdade, e ele também queria ganhar mais conhecimento sobre engenharia. Então ele matou dois pássaros com uma só pedra inscrevendo-se num programa de doutorado em Stanford, para estudar os capacitores de alta densidade, uma tecnologia que busca oferecer uma maneira mais eficiente de armazenar energia, em relação às baterias tradicionais.

A GRANDE VIRADA COM A INTERNET

Musk foi para a Piscina de Metas e escolheu o doutorado em Stanford, e a seguir se mudou para a Califórnia. Mas era o ano de 1995. A internet estava nos estágios iniciais de decolagem e sua evolução era muito mais rápida do que as pessoas tinham antecipado. Era também um mundo em que Musk poderia mergulhar sem dinheiro e sem reputação. Então ele adicionou um monte de possibilidades relacionadas à Internet em sua Caixa de Realidade. Os estágios iniciais de desenvolvimento da internet eram também mais emocionantes do que ele tinha previsto, então envolver-se com internet rapidamente foi parar na sua Caixa de Sonhos.

Esses rápidos ajustes causaram grandes mudanças em sua Piscina de Metas, até o ponto em que o doutorado em Stanford não era mais o foco da formação de metas de seu software interno.

A maioria das pessoas teria ficado com o doutorado em Stanford – porque já havia dito a todos sobre isso e seria estranho parar, porque era Stanford, porque era um caminho mais normal, porque era mais seguro, porque a internet poderia ser um moda, porque podia acabar aos 35 anos fracassado e sem dinheiro por não conseguir emprego já que não tinha a qualificação adequada.

Musk desistiu do doutorado após dois dias de reflexão. Seu software constatou que o doutorado já não estava mais em sua Piscina de Metas, e ele confiava em seu software – então fez uma grande mudança.

Ele iniciou a Zip2 com seu irmão, um cruzamento precoce entre os conceitos de Páginas Amarelas e Google Maps. Quatro anos depois, eles venderam a empresa e Elon foi embora com US$ 22 milhões.

Peter Thiel e Elon Musk – como se pode observar, o software de Musk também cuidou de sua calvície iminente (nota do editor).

Como um milionário do mundo dotcom, a sabedoria convencional aconselhava que ele se acomodasse como um cara rico que investiria seu dinheiro em outras empresas ou começaria algo novo com o dinheiro de outras pessoas. Mas o centro de formação de metas de Musk tinha outras idéias. Sua Caixa de Desejos estava cheia de ambiciosas ideias de startups que ele imaginava que poderiam ter grande impacto no mundo, e sua Caixa de Realidade, que agora incluía US$ 22 milhões, informou-lhe que ele tinha uma alta chance de sucesso. Ficar acomodado não estava de modo algum em sua Caixa de Desejos e era algo totalmente desnecessário de acordo com sua Caixa de Realidade.

Assim, ele usou sua riqueza para iniciar a X.com em 1999, com o objetivo de construir uma instituição financeira on-line. A internet ainda era jovem e o conceito de armazenar seu dinheiro em um banco on-line era totalmente inconcebível para a maioria das pessoas, e Musk foi aconselhado por muitos a desistir, pois seu plano era maluco.

Mas, novamente, Musk confiou em seu software. O que ele sabia sobre a internet lhe disse que sua ideia estava dentro da Caixa da Realidade – porque seu raciocínio indicava que, quando se tratava da internet, a Caixa da Realidade crescia muito mais do que as pessoas previam – e isso era tudo o que ele precisava saber para prosseguir. Na parte superior de seu software, à medida em que realizava o loop de ajustes em sua estratégia conforme o resultado de suas ações, o serviço da X.com mudou, a equipe mudou, a missão mudou, até o nome mudou. No momento em que o eBay a comprou, em 2002, a empresa de Musk chamava-se PayPal e era um serviço de transferência de dinheiro. Musk conseguiu US$ 180 milhões por ela.

LEVANDO SEU SOFTWARE AO ESPAÇO

Agora com 31 anos de idade e fabulosamente rico, Musk teve que descobrir o que fazer com sua vida. Além da sabedoria convencional que lhe dizia “faça o que fizer, definitivamente não se arrisque a perder o dinheiro que tem”, também a lógica comum das pessoas lhe dizia “Você é incrível na construção de empresas de internet, mas isso é tudo que você sabe já que nunca fez mais nada. Você tem mais de trinta anos agora e é tarde demais para fazer algo grande em um campo totalmente diferente. Este é o caminho que você escolheu: você é um cara da internet.”

Mas Musk voltou aos primeiros princípios. Ele olhou para dentro de sua Caixa de Desejos, e depois de refletir, concluiu que fazer outra coisa na internet não estava mais dentro dela. O que estava ali era seu desejo ainda ardente de ajudar o futuro da humanidade. Em particular, ele sentiu que para ter um futuro longo, a espécie humana teria que se tornar muito melhor em viagens espaciais.

Então ele começou a explorar os limites da sua Caixa de Realidade quando passou a se envolver com a indústria aeroespacial.

A sabedoria convencional gritava com toda força de seus pulmões para que ele parasse. Disse que ele não tinha nenhuma instrução formal no campo e que não sabia nada sobre ser um cientista de foguetes. Mas seu software lhe disse que a educação formal era apenas outra maneira de fazer o download de informações em seu cérebro – e “um download dolorosamente lento”. Então ele começou a ler, conhecer pessoas e a fazer perguntas.

A sabedoria convencional dizia que nenhum empreendedor jamais tivera sucesso num empreendimento como esse, e que ele não deveria arriscar seu dinheiro em algo tão improvável. Mas a filosofia declarada de Musk é: “quando algo é importante o suficiente, você o faz mesmo se as probabilidades não estiverem a seu favor”.

A sabedoria convencional dizia que ele não podia se dar ao luxo de construir foguetes porque eles eram muito caros. A mesma sabedoria convencional apontou para o fato de que ninguém jamais havia feito um foguete barato antes – mas, assim como os cientistas que não escutaram quem afirmava que a Terra tinha só seis mil anos e era plana, Musk começou a esmiuçar os números para fazer as contas ele mesmo. Veja como ele relata seus pensamentos nesta entrevista:

Historicamente, todos os foguetes têm sido caros. Por isso, no futuro, todos os foguetes serão caros. Mas na verdade isso não é verdade. Se você pergunta, “de que é feito um foguete?” A resposta é que um foguete é feito de alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono. E você então pode perguntar: “qual é o custo de matéria-prima de todos estes componentes?” E se você os tiver empilhados no chão e pudesse acenar uma varinha mágica para que o custo de rearranjar os átomos da matéria-prima desses componentes para transformá-los em alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono, para que o valor fosse zero, então qual seria o custo do foguete? E eu estava pensando, “ok, é realmente pouco, é só 2% do que um foguete custa”. Então claramente se trata de como os átomos da matéria prima são arranjados, de modo que você precisa descobrir como pode conseguir que os átomos fiquem com as formas corretas de forma mais eficiente. E assim tive uma série de reuniões aos sábados com pessoas, algumas das quais ainda estavam trabalhando nas grandes empresas aeroespaciais, apenas para tentar descobrir se havia algum problema nessa história que eu ainda não havia percebido. Mas não consegui encontrar nada que não tivesse percebido. Então comecei a SpaceX.

A história, a sabedoria convencional e seus amigos diziam uma coisa, mas seu próprio software, raciocinando com base nos primeiros princípios, dizia outra coisa – e ele confiava em seu software. Assim Musk começou SpaceX, novamente com seu próprio dinheiro, e mergulhou de cabeça no projeto. A missão: reduzir drasticamente o custo das viagens espaciais para tornar possível para a humanidade tornar-se multi-planetária.

TESLA E ALÉM

Dois anos mais tarde, enquanto administrava uma SpaceX em desenvolvimento, um amigo levou Elon a uma empresa chamada AC Propulsion, que criou um protótipo para um automóvel elétrico super-rápido e de longo alcance. Ele ficou impressionado. A Caixa de Realidade do software de Musk tinha lhe informado que tal coisa ainda não era possível, mas acontece que ele ainda não tinha conhecimento de como as baterias de lítio haviam avançado, e o que ele viu na AC Propulsion era nova informação sobre o mundo que colocou “começar uma empresa de carros elétricos” na sua Caixa de Realidade.

Ele novamente escutou a sabedoria convencional falar sobre os custos das baterias, da mesma forma que falou sobre os custos de foguetes. As baterias nunca tinham sido feitas de forma suficientemente barata para permitir um carro elétrico de grande porte e de longo alcance, porque o custo de fazer uma bateria era simplesmente muito alto. Ele usou a mesma lógica de primeiros princípios e uma calculadora para determinar que a maior parte do problema era o custo dos intermediários, não das matérias-primas, e decidiu que na verdade a sabedoria convencional estava errada e as baterias poderiam ser muito mais baratas no futuro. Então, ele co-fundou a TESLA com a missão de acelerar o advento de um veículo elétrico no mundo, primeiro investindo seus recursos para financiar a iniciativa, e mais tarde contribuindo com seu tempo e energia ao tornar-se CEO da empresa.

Dois anos depois, Musk co-fundou a SolarCity com seus primos, uma empresa cujo objetivo era revolucionar a produção de energia, permitindo a instalação de painéis solares em milhões de casas. Musk sabia que seu poder de tempo e energia (o único tipo de poder que tem limites rígidos, não importa quem você seja), estava quase todo esgotado, mas ele ainda tinha muitos outros recursos – então ele colocou-os para trabalhar em outro objetivo em sua Piscina de Metas.

Mais recentemente, Musk iniciou uma grande mudança em outra área que é importante para ele: a forma como as pessoas se transportam de cidade em cidade. Sua idéia é que deve haver um modo totalmente novo de transporte que conduziria pessoas por centenas de quilômetros transportando-as através de um tubo. Ele chama isso de Hyperloop. Para esse projeto, ele não está usando seu tempo, energia ou recursos. Em vez disso, apresentou seus pensamentos iniciais e criou uma competição para engenheiros apresentarem suas inovações, e assim Musk está utilizando seu poder de conexão e de persuasão para criar mudanças.

Há várias empresas de tecnologia que criam softwares. Elas analisam exaustivamente, por anos, qual a melhor e mais eficiente maneira de fazer o seu produto. Musk vê as pessoas como computadores, e vê o software em seu cérebro como o produto mais importante que possui – e uma vez que não há empresas lá fora projetando software de cérebro, ele projetou o seu próprio, faz testes com versões beta a cada dia e realiza atualizações constantemente. É por isso que ele é tão escandalosamente eficaz, pode incomodar várias grandes indústrias ao mesmo tempo e consegue aprender tão rapidamente, planejar tão bem suas estratégias e visualizar o futuro com tanta clareza.

Essa parte do que Musk faz não é um grande mistério – é bom senso. Sua vida inteira funciona no software em sua cabeça – então por que você não ficaria obsecado com sua otimização?

E, porém, não só a maioria de nós não está obcecada com o seu próprio software – a maioria de nós nem sequer compreende o seu próprio software, como funciona ou porque funciona assim. Vamos tentar descobrir por quê.

O SOFTWARE DA MAIORIA DAS PESSOAS

Nós sempre escutamos histórias sobre o desenvolvimento humano e como suas experiências durante os primeiros anos de vida determina quem você se torna. O cérebro de um recém-nascido é uma bola maleável de argila, e a principal missão de uma criança é aprender rapidamente sobre qualquer que seja o ambiente em que nasceu, passando a moldar-se na ferramenta ideal para a sobrevivência nessas circunstâncias. É por isso que é tão fácil para as crianças aprenderem novas habilidades.

À medida em que as pessoas crescem, a argila começa a endurecer e se torna mais difícil mudar a forma como o cérebro funciona. Minha avó vem usando um computador a tanto tempo quanto eu, mas uso o meu confortavelmente e facilmente porque meu cérebro de infância, maleável, desenvolveu facilmente habilidades básicas de informática, enquanto ela faz diante do computador a mesma cara que minha tartaruga faz quando a coloco em uma mesa de vidro e ela acha que está inexplicavelmente pairando no ar, um metro acima do chão. Minha avó usará um computador sempre que precisar, mas não jamais será uma relação amistosa.

Então, quando se trata de nosso software cerebral (nossos valores, percepções, sistemas de crença, técnicas de raciocínio) o que estamos aprendendo durante esses primeiros anos decisivos?

Todos cresceram de forma diferente. Mas, para a maioria das pessoas que conheço, foi algo assim:

Aprendemos todo o tipo de coisa com nossos pais e professores – o que é certo e o que é errado, o que é seguro e o que é perigoso, o tipo de pessoa que você deveria e não deveria ser. Mas a mensagem principal era: “eu sou um adulto, então sei muito mais sobre isso do que você próprio, isso está fora de discussão, então não discuta, apenas obedeça. É aí que aquele jogo clichê de ficar perguntando “Por quê?” começa (o que, na linguagem de Musk, é chamado de “o porquê acorrentado”).

O instinto da criança não é apenas saber o que fazer e o que não fazer – ela quer compreender como funcionam as regras do meio ambiente. E para entender algo, você precisa ter uma ideia de como a coisa toda foi construída. Quando pais e professores dizem a uma criança para fazer XYZ e simplesmente obedecer, é como instalar um software já projetado na cabeça da criança. Quando as crianças perguntam “por quê?”, estão tentando desmontar esse software para ver como ele foi construído – para chegar aos primeiros princípios que estão por trás de tudo e poder avaliar o quanto realmente deveriam se preocupar com as coisas sobre as quais os adultos tanto falam.

As primeiras vezes em que uma criança joga o jogo do “Porquê”, os pais acham fofo. Mas muitos pais e a maioria dos professores não demoram a arranjar um jeito de acabar como o jogo:

“Porque eu disse.”

“Porque eu disse” joga um bloco de concreto em cima do esforço de desconstrução da criança, debaixo do qual mais nenhum “Porquê” consegue passar. O adulto diz: “Você quer os primeiros princípios? Aqui está: esta é sua posição na hierarquia. Nenhum outro porquê é necessário. Agora coloque seus tênis e vamos indo porque eu disse para se apressar.”

Imagine como isso aconteceria no mundo das ciências.

Para sermos justos, a vida dos pais é difícil. Eles ainda precisam continuar a fazer todas as merdas que costumavam fazer, mas agora além disso têm em suas vidas essas pequenas criaturas egoístas e preguiçosas que devem sustentar e que acham que os pais existem para atendê-las. Em um dia agitado, de mau humor, com 80 coisas para fazer, o jogo do “Porquê” é um pesadelo.

Mas pode ser um pesadelo que vale a pena suportar. Dar um comando, lição ou palavra de sabedoria sem qualquer explicação sobre os passos lógicos que o embasam é como dar o peixe sem ensinar a pescar. E quando é dessa forma que crescemos, acabamos com um monte de peixes mas nenhum anzol ou rede – temos um software instalado que aprendemos a usar, mas não conseguimos programar coisa alguma sozinhos.

A escola torna as coisas mais difíceis. Um dos meus pensadores favoritos, o escritor Seth Godin (cujo blog está cheio de princípios fundamentais de sabedoria) explica em um TED Talk que o sistema educacional atual é um produto da Era Industrial, um tempo que catapultou a produtividade e o padrão de vida. Mas, juntamente com muitas outras fábricas, veio a necessidade de muitos mais trabalhadores nessas fábricas, então nosso sistema educacional foi redesenhado em torno desse objetivo. Ele explica:

O negócio era o seguinte: educação pública universal cuja única intenção não era treinar os estudiosos do amanhã – já tivemos muitos estudiosos. A intenção era treinar pessoas para estarem dispostas a trabalhar nas fábricas. Era para treinar as pessoas para se comportarem, cumprirem ordens e se adequarem. “Educamos você por um ano inteiro. Se você está com defeito, nós o reiniciamos e educamos você de novo. Nós sentamos você em classes em filas retas, assim como organizamos as coisas nas fábricas. Nós construímos um sistema composto de pessoas substituíveis porque fábricas são baseadas em partes substituíveis.”

Junte esse conceito ao que outro escritor favorito meu, James Clear, explicou recentemente em seu blog:

Na década de 1960, um investigador de performance criativa chamado George Land realizou um estudo com 1.600 crianças de cinco anos, e 98 % das crianças foram classificadas como “altamente criativas”. Dr. Land voltou a fazer testes com essas crianças a cada cinco anos. Quando as mesmas crianças tinham dez anos de idade, obtiveram apenas 30% puderam ser classificadas como “altamente criativas”. Este número caiu para 12% aos 15 anos e apenas 2% aos 25 anos. À medida em que as crianças cresciam e tornavam-se adultos, efetivamente foram treinadas a eliminar a criatividade. “O comportamento não criativo é aprendido”.

Faz sentido, certo? O pensamento criativo é um primo próximo do raciocínio dos primeiros princípios. Em ambos os casos, o pensador precisa inventar seus próprios caminhos de pensamento. As pessoas tratam a criatividade como se fosse um talento natural, mas na verdade a criatividade é muito mais uma maneira de pensar – é a versão mental da pintura de uma tela em branco. Mas, para isso ocorrer, é necessário um software no cérebro que seja habilidoso e eficiente em formular novas ideias, e a escola nos treina para fazer exatamente o oposto: para seguir o líder, decorar informações e ter bom desempenho em provas que testam essa memória. Em vez de uma tela em branco, a escola entrega às crianças um livro para colorir e ordena que mantenham as cores dentro das linhas.

(Musk recentemente criou uma nova escola que seus filhos frequentam, uma sem séries rígidas e onde os estudantes aprendem através da aplicação, e não da memorização.)

O que tudo isso significa é que, durante os anos mais maleáveis do nosso cérebro, pais, professores e sociedade acabam colocando nossa argila em um molde e apertando-a firmemente numa forma predefinida.

E quando crescemos, sem termos aprendido a construir nosso próprio estilo de raciocínio e já tendo superado a fase inicial de profunda investigação sobre si mesmo que o pensamento independente exige, acabamos por nos apoiar, para todas as coisas da vida, em qualquer que seja o software que tenham instalado em nossas cabeças, software esse que, sendo proveniente de pais e professores, provavelmente foi projetado há trinta anos atrás.

Trinta anos se tivermos sorte. Vamos pensar sobre isso por um minuto.

Digamos que você tem uma mãe dominadora, que insiste em que você cresça guiado pelos valores dela, por sua visão de mundo, seus medos e suas ambições – porque ela sabe o que é melhor, porque lá fora há um mundo assustador, porque XYZ é digno de respeito, porque ela disse que sim.

Sua cabeça pode acabar executando durante toda a vida o software “porque minha mãe diz isso”. Se você jogar o jogo do “Porquê” com algo como, por exemplo, a razão pela qual você está no seu trabalho atual, pode demorar alguns “Porquês” chegar lá, mas provavelmente acabará batendo em algum muro em que estará escrita alguma versão de “porque sua mãe disse isso”.

Mas porque sua mãe disse isso?

Ela disse isso porque a mãe dela disse isso para ela – depois de crescer na Polônia em 1932, numa casa em que o pai dela dizia isso porque o pai dele, um funcionário público secundário de uma pequena cidade da Cracóvia, disse a mesma coisa após seu pai, que viu umas merdas terríveis durante o Levante Siberiano de 1866, enfiar na cabeça de seus filhos uma lição fundamental da vida sobre jamais fazer negócios com a guilda dos ferreiros.

Através de um longo telefone sem fio, sua mãe hoje em dia aprendeu a aspirar por empregos em escritórios, e você se descobre com uma forte motivação de considerar que a única carreira verdadeiramente estável seria dentro de uma sólida empresa. E você pode até fazer uma lista das razões pelas quais se sente assim, mas se alguém insistir em investigar mesmo quais são as suas razões e qual o raciocínio por trás delas, você acabará sentindo-se muito confuso. E fica tudo confuso porque os primeiros princípios que sustentam todo o seu raciocínio são uma mistura de valores e crenças de um monte de gente de diferentes gerações e origens – um monte de gente que não é você, em resumo.

Um exemplo comum disso no mundo de hoje é que muitas pessoas que conheci foram criadas por pessoas que foram criadas por pessoas que passaram pela Grande Depressão norte-americana. Se você pedir conselhos de carreira de alguém nascido nos EUA lá pela década de 1920, há uma grande chance de que a seguinte resposta pule automaticamente de seu software:

A pessoa que dá essa resposta viveu uma vida longa e fez todo o caminho até 2017, mas seu software foi codificado durante uma grande crise econômica, e se ela não for do tipo acostumada com a autorreflexão e não evoluir regularmente, ela ainda desenvolverá seu pensamento segundo um software da década de 1930. E se ela instalou o mesmo software na cabeça de seus filhos e esses transmitiram-no para seus próprios filhos, um membro da Geração Y hoje pode se sentir assustado demais para tentar uma carreira artística ou empreendedora e continuará totalmente ignorante de que está sendo na verdade assombrado pelo fantasma de uma crise econômica do século passado.

Quando o software antigo é instalado em novos computadores, as pessoas acabam com um conjunto de valores que não necessariamente são baseados em seu próprio pensamento autêntico, e levam consigo um conjunto de crenças sobre o mundo que não necessariamente são baseadas na realidade do mundo em que vivem, e podem ter muita dificuldade de defender com o coração honesto um monte de opiniões que compartilham com outras pessoas.

Em outras palavras, muitas convicções não são realmente baseadas em dados reais. Temos uma palavra para isso.

DOGMA

“Eu não sei qual é o problema com as pessoas: elas não aprendem pela compreensão, eles aprendem de outra maneira – pela tradição ou algo assim. Seu conhecimento é tão frágil!” -Richard Feynman

O dogma está em toda parte e vem em mil variedades diferentes, mas o formato geralmente é o mesmo: X é verdade porque [autoridade] diz assim. A autoridade pode ser muitas coisas.

O dogma, ao contrário do raciocínio dos primeiros princípios, não é personalizado para o crente ou seu ambiente e não deve ser criticado e ajustado à medida em que as coisas mudam. Não é um software a ser codificado – é um livro de regras impresso. Suas regras podem ser originalmente baseadas no raciocínio de um certo tipo de pensador em um determinado conjunto de circunstâncias, em um momento no passado ou em um lugar distante, ou pode ser baseado em raciocínio algum. Mas isso não importa porque você não deveria cavar muito fundo abaixo da superfície de qualquer maneira – você simplesmente deve aceitá-lo, abraçá-lo e viver por ele. Não é necessária nenhuma evidência.

Você pode não gostar de viver pelo dogma de outra pessoa, mas fica sem muita escolha. Quando suas tentativas de compreensão na infância são confrontadas com um “Porque eu disse” e você absorve a mensagem implícita, que é “Sua capacidade de raciocínio é uma merda, nem tente, apenas siga estas regras para não ferrar com sua vida”, você cresce com pouca confiança em seu próprio processo de raciocínio. Quando você nunca foi forçado a desenvolver seu próprio raciocínio, você se torna hábil em ignorar o difícil processo de investigação profunda destinado a descobrir seus próprios valores, e consegue evitar a por vezes dolorosa experiência de testar esses valores no mundo real, aprendendo-o a ajustá-los – e então você cresce como um amador na capacidade de raciocinar por si próprio.

Somente uma forte habilidade de raciocínio constrói um caminho de vida único, e sem essa habilidade rapidamente algum dogma o fará viver a vida de outra pessoa. O dogma não conhece você ou se preocupa com você e muitas vezes é completamente errado para você – ele fará alguém que se sentiria feliz como artista passar a vida inteira como advogado.

Mas quando você não sabe raciocinar, você não sabe como evoluir e se adaptar. Se o dogma com que você cresceu não está trabalhando a seu favor, você pode rejeitá-lo, mas, como você tem um raciocínio amador, fazer isso sozinho geralmente acaba com você encontrando outro dogma para se agarrar como tábua de salvação – outro livro de regras e outra autoridade para obedecer. Você não sabe como codificar seu próprio software, então você instala o software feito por outra pessoa.

As pessoas não fazem isso intencionalmente – geralmente, se rejeitarmos um tipo de dogma, nossa intenção é libertar-se de uma vida de pensamento dogmático e assumir coragem para os ventos frios do raciocínio independente. Mas o pensamento dogmático é um hábito difícil de quebrar, especialmente quando é tudo o que você sabe.

Eu tenho uma amiga que acabou de ter um bebê e ela me disse que era muito mais aberta do que seus pais, porque eles queriam que ela tivesse uma carreira de prestígio, mas ela estaria aberta para que sua filha fizesse alguma coisa de que discordasse. Depois de um minuto, ela pensou nisso e disse: “Bem, na verdade, não, o que quero dizer com isso é se ela quisesse fazer algo como viver toda a sua vida no meio do mato em uma comunidade alternativa, eu não teria problemas com isso, embora meus pais certamente tivessem – mas se ela decidisse trabalhar como executiva, eu a mataria”. Ela percebeu a meio da frase que ela não estava livre do rígido pensamento dogmático de seus pais, ela tinha apenas mudado de um dogma para outro.

Esta é a armadilha dos dogmas, e é difícil escapar dela, e especialmente proque os dogmas têm um aliado poderoso – o grupo.

TRIBOS

“Algumas coisas que penso são muito conservadoras, ou muito liberais. Quando alguém cai em uma só categoria para todas as suas opiniões, fico muito desconfiado. Não faz sentido para mim que você tenha uma mesma solução para cada problema.” -Louis C.K.

A maioria dos pensamentos dogmáticos tende a se resumir em outra boa frase de Seth Godin:

“Pessoas como a gente fazem esse tipo de coisa. É o grito de manifestação do tribalismo.”

Há uma distinção importante a fazer aqui. O tribalismo tende a ter uma conotação negativa, mas o conceito de uma tribo em si não é ruim. Uma tribo é apenas um grupo de pessoas ligadas entre si por algo que têm em comum – uma religião, uma etnia, uma nacionalidade, uma família, uma filosofia, uma causa. O cristianismo é uma tribo. O Partido Democrata dos EUA é uma tribo. Os australianos são uma tribo. Os fãs de Radiohead são uma tribo. E dentro de tribos grandes e soltas, há menores, mais resistentes, sub-tribos. Os americanos são uma tribo, dos quais os texanos são uma sub-tribo, dos quais os cristãos evangélicos em Amarillo, Texas, são uma sub-sub-tribo.

O que torna o tribalismo bom ou ruim depende dos membros da tribo e do relacionamento deles com a tribo. Em particular, uma distinção simples:

O tribalismo é bom quando a tribo e o membro da tribo têm uma opinião independente que acontece de ser a mesma. O membro da tribo escolheu ser parte da tribo porque ela parece coincidir com quem ele realmente é. Se a identidade da tribo ou do membro evoluem até o ponto em que os dois já não concordam, a pessoa deixará a tribo. Vamos chamar isso de tribalismo consciente.

O tribalismo é ruim quando as identidades da tribo e do membro da tribo são iguais. A identidade do membro da tribo é determinada pelo que o dogma da tribo diz. Se a identidade da tribo muda, a identidade do membro da tribo muda com ela. A identidade do membro da tribo não pode mudar independentemente da identidade tribal porque o membro não possui uma identidade independente. Vamos chamar esse tribalismo cego.

No tribalismo consciente, o membro da tribo e sua identidade vem primeiro. A identidade do membro da tribo é o cão alfa, que determina de quais tribos ele participa. No tribalismo cego, a tribo vem primeiro. A tribo é o cão alfa e é a tribo que determina quem ele é.

Isso não é preto e branco (há tons de cinza), mas quando alguém é criado sem forte habilidade de raciocínio, essa pessoa também pode não ter uma forte identidade independente, e pode acabar vulnerável ao lado tribal cego das coisas – especialmente em relação às tribos em que nasceu. Isso é o que Einstein estava querendo transmitir quando disse: “Poucas pessoas são capazes de expressar com equanimidade opiniões que diferem dos preconceitos de seu ambiente social. A maioria das pessoas é mesmo incapaz de formar tais opiniões “.

Uma grande tribo como uma religião, nação ou partido político conterá membros que se enquadram em toda a gama de tons de cinza entre o tribalismo cego e o consciente. Mas algumas tribos em si serão do tipo que atraem um certo tipo de seguidor. Faz sentido lógico que, quanto mais rígida e dogmática for a tribo, mais provável será que atrairá membros do tipo tribalista cego. O ISIS terá uma porcentagem muito maior de membros do tipo tribalista cego do que um Clube de Filosofia de Londres.

O fascínio das tribos dogmáticas faz sentido – apelam para partes muito fundamentais da natureza humana.

Os seres humanos desejam conexão e camaradagem, e um dogma orientador é uma cola comum para unir um grupo de indivíduos como se fossem um só.

Os seres humanos querem segurança interna, e para alguém que cresce se sentindo instável em relação ao seu próprio caráter distintivo, uma tribo e seu dogma orientador é uma linha de orientação importante – um balcão único para um conjunto completo de opiniões e valores humanos.

Os seres humanos também desejam o conforto e a segurança da certeza, e em nenhum lugar a convicção está mais presente do que no pensamento coletivo do tribalismo cego.

Enquanto as opiniões de um cientista são tão fortes quanto as evidências que tem e são inerentemente sujeitas a mudanças, o dogmatismo tribal é um exercício de fé e, sem evidências a serem investigadas, os membros da tribo cega acreditam no que acreditam com convicção.

Nós discutimos porque a matemática tem provas, a ciência tem teorias e, na vida, provavelmente devemos nos limitar às hipóteses. Mas o tribalismo cego prossegue com a confiança do matemático:

Se (porque a tribo diz isso): A = B

E se (porque a tribo diz isso): B = C + D

Portanto, com certeza: A = C + D

E como tantos outros na tribo se sentem confiantes sobre as coisas, sua própria confiança nas certezas da tribo é tranquilizada e reforçada.

Mas há um custo pesado para esse conformismo. A insegurança pode ser obtida da maneira mais difícil ou mais fácil – e ao dar às pessoas a opção fácil, as tribos dogmáticas eliminam a pressão para que elas façam o trabalho árduo de evoluir para uma pessoa mais independente e com uma identidade mais internamente definida. Dessa forma, as tribos dogmáticas reforçam a cegueira de seus membros para as deficiências que possuem.

O qué insidioso sobre dogmas tribais rígidos e adesão cega é que eles gostam de se disfarçar de pensamento aberto e com a adesão consciente. Eu penso que muitos de nós talvez estejamos mais perto do lado da adesão cega das coisas com certas tribos do que gostamos de admitir – e as tribos de que somos parte podem não ser tão abertas quanto tendemos a pensar.

Um bom teste para isso é a intensidade do fator “Nós”. Essa palavra-chave na frase “Pessoas como nós fazem coisas assim” pode levá-lo a problemas muito rapidamente.

“Nós” parece ótimo. Uma grande parte do apelo de estar numa tribo é que você faz parte de um “Nós”, algo que os seres humanos estão programados a procurar. E um “Nós” receptivo é algo bom, como o “Nós” formados por membros esclarecidos e independentes de uma tribo consciente.

Mas o “Nós” do tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma orientador da tribo funciona como uma identidade para os membros da tribo, e o fator “Nós” fortalece essa condição. Os membros da tribo consciente chegam a conclusões – os membros da tribo cega são conclusões. Com um “Nós” cego, se a maneira como você é como um indivíduo é conter opiniões, traços ou princípios que se encontram fora das bordas externas das paredes do dogma, eles precisarão ser derramados – ou as coisas ficarão feias. Ao desafiar o dogma da sua tribo, você está desafiando o senso de certeza de que os membros da tribo ganham força e as linhas de identidade claras em que confiam.

Mas o “Nós” no tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma principal da tribo é fortalecido pela própria identidade de seus membros, e o fator “Nós” reforça esse vínculo. Enquanto os membros de uma tribo consciente possuem opiniões em comum, no caso de uma tribo cega o que seus membros têm em comum é sua própria identidade. Com um “Nós” cego, se você individualmente possui opiniões, práticas ou princípios que não se mantém dentro dos muros do dogma, você precisa se corrigir – ou as coisas vão ficar feitas para seu lado. Ao desafiar o dogma de sua tribo, você desafia tanto o sentimento de segurança do qual os membros retiram sua confiança quanto a identidade em que eles se apoiam. Qualquer elemento de rigidez e cegueira que se expresse na identidade dos membros da sua tribo irá se revelar quando você ousar validar qualquer aspecto do dogma de tribos rivais.

Faça uma tentativa. Na próxima vez que encontrar um membro de uma tribo a que você pertence, expresse uma mudança de opinião que se alinhe com algum tema que sua tribo associe à opinião das tribos rivais. Se você é um cristão religioso, diga a pessoas na igreja que você não está mais certo de que existe um Deus. Se você é de um grupo vegano, sugira que o aquecimento global talvez possa ser uma farsa da esquerda. Se você é iraquiano, diga a sua família que vê com simpatia as reinvidicações de Israel. Se você é conservador, diga aos seus amigos conservadores que é a favor da legalização da maconha.

Se você estiver numa tribo com mentalidade cega e dogmática, provavelmente você verá uma expressão de horror em seu interlocutor. Para ele, sua opinião não parecerá errada, ela será uma heresia. Ele pode ficar com raiva, ou pode apaixonadamente tenta convencê-lo do contrário, ou só querer cortar o papo, mas sob hipótese alguma haverá uma conversa aberta. E porque a identidade está muito entrelaçada com crenças no tribalismo cego, depois disso a pessoa pode até começar a se afastar de você. Porque, para as pessoas estritamente tribalitas, um dogma compartilhado desempenha um papel mais importante em seus relacionamentos íntimos do que eles seriam capazes de admitir.

A maioria das principais brigas em nosso mundo emergem do tribalismo cego, e no extremo mais radical do espectro (onde as pessoas formam uma manada) o tribalismo pode levar a coisas aterrorizantes. Como aqueles momentos da história em que líderes carismáticos conseguiram inspirar nos soldados de seus exércitos a exibições apaixonadas de força. Porque o tribalismo cego é o verdadeiro vilão por trás das maiores atrocidades da história humana.

A maioria de nós não teria se juntado ao partido nazista porque não estaríamos no extremo mais cego do espectro tribal de nossa sociedade. Mas não acho que a maioria de nós estaria no extremo mais consciente da sociedade também. Na verdade, de regra estaríamos num ponto intermediário, em que seria vantajoso aprimorar o software em nossa cabeça aprendendo como funciona o software de pessoas notáveis por sua habilidade de pensar corretamente.

O COZINHEIRO E O CHEF

A diferença entre a forma como Elon pensa e a forma como a maioria das pessoas pensa é parecida com a diferença entre um cozinheiro e um chef.

As palavras “cozinhar” e “chef” podem ser consideradas sinônimos. E, no mundo real, de regra são usadas indistintamente. Mas nesta publicação, quando digo chef, não me refiro um chef comum. Eu me refiro ao chef que é semelhante a um artista, o tipo de chef que inventa receitas. E para nossos propósitos, todos os outros que entram em uma cozinha – todos aqueles que seguem receitas criados por outros – são cozinheiros.

Tudo o que você come – cada parte de cada receita que conhecemos tão bem – foi em algum momento do passado criado pela primeira vez. Trigo, tomate, sal e leite são utilizados pelos seres humanos há muito tempo, mas em algum momento alguém disse “E se eu pegar esses ingredientes e fizer isso, e isso, e isso…”. E essa pessoa criou a primeira pizza do mundo. Esse é o trabalho de um chef.

Desde então, Deus sabe quantas pessoas fizeram uma pizza. Esse é o trabalho de um cozinheiro.

O chef pensa a partir dos primeiros princípios. E para o chef, os primeiros princípios são ingredientes comestíveis crus. Essas são suas peças de quebra-cabeça, seus blocos de construção, e ele cria seu caminho a partir daí, usando sua experiência, seus instintos e suas papilas gustativas.

O cozinheiro trabalha em cima de alguma versão do que já existe por aí: algum tipo de receita, uma refeição que experimentou e gostou, um prato que viu alguém fazer.

Há vários tipos de cozinheiros. Se todos os tipos fossem enfileirados, em uma extremidade teríamos cozinheiros que apenas cozinham seguindo uma receita com rigor, medindo cuidadosamente cada ingrediente exatamente como a receita dita. O resultado é uma refeição deliciosa, cujo sabor é exatamente aquele projetado para se obter com a receita. No meio da fila, teríamos um cozinheiro mais confiante – alguém com experiência, que obtém a essência geral da receita e, em seguida, usa suas habilidades e instintos para fazê-la de sua própria forma. O resultado é algo um pouco mais exclusivo, que tem o sabor do estilo da receita original, mas não exatamente. Mais próximo ao outro extremo dessa fileira, teríamos um cozinheiro que é inovador e faz suas próprias misturas.

E no ponto mais extremo dessa fila, está o chef. Um chef pode fazer comida boa ou terrível, mas seja o que for, é resultado de seu próprio processo de raciocínio, desde a seleção de ingredientes crus no início até o prato acabado no final.

No mundo culinário, não há nada de errado em ser um cozinheiro. A maioria das pessoas é cozinheira porque para a maioria das pessoas inventar receitas não é o seu objetivo.

Mas na vida, quando se trata de “receitas” de raciocínio, o resultado final é uma decisão, não um sabor. Portanto, quando se trata de tomar decisões em nossas vidas, talvez seja recomendável nos preocuparmos um pouco mais sobre qual posição ocupamos na fila que vai do cozinheiro casual até o chef.

Em um dia típico, um “cozinheiro de raciocínio” e um “chef de raciocínio” não operam de maneira diferente. Mesmo o chef se torna rapidamente exausto pela energia mental necessária para usar o raciocínio dos primeiros princípios, e geralmente, fazer isso diante de todas as situações não vale a pena seu tempo. Ambos os tipos de pessoas, portanto, passam um dia médio com o software do seu cérebro executando no piloto automático e seus centros de decisão conscientes inactivos.

Mas então vem um dia em que algo novo precisa ser descoberto. Talvez o cozinheiro e o chef recebam uma nova tarefa no trabalho, como criar uma estratégia de marketing melhor para a empresa. Ou talvez eles estejam infelizes com esse emprego e pensando em qual negócio poderia começar sozinho. Talvez eles tenham uma queda por alguém por quem jamais imaginaram que poderiam sentir algo, e agora precisam descobrir o que fazer com isso.

Seja qual for esta nova situação, o piloto automático não será suficiente – isso é algo novo e nem o software do cozinheiro nem o software do chef fizeram isso antes. O que deixa apenas duas opções:

Criar ou copiar.

O chef diz: “Uh, está bem, vamos lá”, levanta as mangas e faz o que sempre faz nessas situações – ele aciona a parte consciente de tomada de decisão do seu software e começa a trabalhar. Ele vê os dados que tem e procura saber o que ainda precisa saber. Ele pensa sobre o estado atual do mundo e reflete sobre onde estão seus valores e prioridades. Ele reúne esses princípios relevantes dos primeiros princípios e começa a intrigar um caminho de raciocínio.

É preciso um trabalho árduo, mas, eventualmente, o caminho leva o chef a uma hipótese. Ele sabe que provavelmente está errado, e à medida que novos dados emergem, o chef “testará” a hipótese e, a seguir, colherá novos dados. Ele mantém o centro de tomada de decisão em espera para as próximas semanas, pois o chef faz um monte de ajustes precoce para a hipótese que falhou – um pouco mais de sal, um pouco menos de açúcar, um ingrediente principal que precisa ser trocado por outro.

Eventualmente, o chef ficará satisfeito com a forma como as coisas se resolveram, e voltará ao modo de piloto automático. Esta nova decisão agora é parte da rotina automatizada – uma nova receita está no livro de receitas – e ele irá verificar isso para fazer ajustes de vez em quando, a medida em que novos dados pertinentes entrarem, como ele faz com todas as partes de seu software.

O cozinheiro não tem ideia do que está acontecendo na cabeça de um chef. O software de raciocínio do cozinheiro é chamado de “O que a receita diz para fazer”, e é mais um catálogo informatizado de receitas do que um programa de computador. Quando o cozinheiro precisa tomar uma decisão de vida, ele passa por sua coleção de receitas escritas por autoridades, encontra aquela com a qual se sente confiante naquela etapa particular de sua vida e lê os passos para ver o que fazer em seguida.

Para a maioria das pessoas, a última autoridade é a tribo, uma vez que o dogma tribal do cozinheiro cobre a maioria das decisões-padrão. Mas vamos supor que, nesse caso particular, o cozinheiro folheou o livro de receitas da tribo e não encontrou nenhuma seção sobre como cozinhar esse tipo de decisão. Então ele precisa pegar uma receita de outra autoridade em quem confia para esse tipo de coisa. E quando encontrar a receita certa, ele pode colocá-la em seu catálogo e usá-la para todas as decisões futuras sobre este assunto.

Primeiro, o cozinheiro tenta alguns amigos ou familiares. Seu catálogo não tem a receita necessária, mas talvez um deles a tenha. Ele pede conselho a eles – não para que possa usar o conselho como um elemento adicional para auxiliar o seu próprio raciocínio, mas sim como um candidato a se tornar seu próprio pensamento.

Se isso não produzir os resultados desejados, o cozinheiro acabará buscando auxílio na verdadeiro e eterno fim de linha dos cozinheiros: a sabedoria convencional.

A sociedade como um todo é ela própria uma tribo aberta, muitas vezes abrangendo toda uma nação ou mesmo toda uma região do mundo, e o que chamamos de “sabedoria convencional” é o livro de receitas segundo os dogmas dessa tribo – um livro sempre on-line e disponível ao público.

Normalmente, quanto maior a tribo, mais generalizado e mais desatualizado será o seu livro de receitas. E o banco de dados da sabedoria convencional nesses casos é como um site que foi atualizado pela última vez em 1992. Mas quando o cozinheiro não tem para onde ir, ele é como um velho amigo de confiança.

Vamos supor que o cozinheiro esteja pensando em começar um negócio e deseja saber quais são as possibilidades – a sabedoria convencional tem a resposta. Ele digita o que quer pesquisar, aguarda alguns minutos e, em seguida, o sistema bombeia sua resposta:

O cozinheiro, completamente desencorajado, agradece a máquina e atualiza sua Caixa de Realidade conforme essa resposta:

Com a decisão tomada (não iniciar uma empresa), ele coloca seu software de volta no modo de piloto automático. Missão cumprida.

Musk chama o jeito de pensar do cozinheiro de “raciocínio por analogia” (em oposição ao raciocínio dos primeiros princípios), o que é um bom eufemismo. Na próxima vez que uma criança for pega copiando as respostas do exame de outro aluno durante o teste, eae deve apenas explicar que estava raciocinando por analogia.

Se começar a procurar, você verá essa coisa de cozinheiro/chef acontecer em todos os lugares. Existem chefs e cozinheiros no mundo da música, da arte, da tecnologia, da arquitetura, da literatura, dos negócios, da comédia, do marketing, no desenvolvimento de aplicativos, no treinamento de futebol, na educação e na estratégia militar. E, em cada caso, embora tanto o cozinheiro como o chef geralmente estejam funcionando só no piloto automático, fazendo sem pensar as mesmas receitas repetidamente no cotidiano. Mas naqueles momentos decisivos, em que é preciso enfrentar algo novo, o chef cria e o cozinheiro, como sempre faz, copia.

E a diferença no resultado é enorme. Para os cozinheiros, mesmo o tipo mais inovador, quase sempre há um limite no tamanho do espetáculo que podem fazer no mundo, a menos que haja alguma sorte envolvida. Chefs não têm garantia de fazer nada de bom, mas quando há um pouco de talento e muita persistência, eles estão quase certos de fazer um espetáculo. Às vezes, o chef é voluntarioso o suficiente para fazer algo grande, mas outras vezes, o chef não deseja causar tanto alarde e com força de caráter abandona o desafio para manter uma vida mais tranquila. Ser um chef não é ser como Elon Musk: é ser você mesmo.

Todos falam sobre a “indústria da música”, mas ninguém fala sobre a “indústria de raciocínios”. Porém, todos somos parte dela, e quando se trata de cozinheiros e chefs, ou músicos amadores e artistas, não é diferente de qualquer outra indústria. Estamos trabalhando na indústria de raciocínio toda vez que tomamos uma decisão.

Sua vida atual, com todas as suas facetas e complexidade, é como uma música dessa indústria do raciocínio. As perguntas importantes são: Como essa música que você toda foi criada? Onde a melodia foi elaborada, e por quem? E no momento de criar sua própria música, como você faz? Você se aprofunda em si mesmo e cria algo novo? Ou você começa com o ritmo de uma música já existente e com os acordes de outra e constrói sua própria melodia em cima disso? Ou você apenas toca covers?

Eu sei o que você quer que as respostas a essas perguntas sejam. Isso é evidente: é claramente melhor ser um chef. Mas, ao contrário do caso com a maioria das distinções importantes na vida, como trabalhador versus preguiçoso, ético versus desonesto, quando a distinção chef entre cozinheiro pode passar bem na nossa frente, e muitas vezes nem percebemos que ela está lá .

Ignorando a diferença

Como a fila culinária que vai de cozinheiro amador a chef, a fila de tipos de tomadores de decisão não é binária, mas composta de um amplo espectro:

Mas tenho certeza de que quando a maioria de nós olha esse espectro, pensamos que estamos mais à direita do que realmente estamos. Geralmente, somos mais amadores do que percebemos – simplesmente não podemos ver nossa posição exata, da perspectiva de onde estamos.

Por exemplo, os cozinheiros são seguidores por definição. O que quer que estejam fazendo, estão fazendo conforme algum tipo de receita. Mas a maioria de nós não se considera seguidores.

Um seguidor, pensamos, é um fraco sem mente própria. Pensamos nos cargos de liderança que exercemos, nas iniciativas que tomamos no trabalho e na forma como nunca deixamos que os amigos nos guiem e tomamos isso como prova de que não somos seguidores. O que, por sua vez, significa que não somos apenas cozinheiros.

Mas o problema é que essas coisas apenas provam que que você não é um seguidor dentro da sua tribo. Como Einstein disse:

“Para ser um membro exemplar de um rebanho de ovelhas, é preciso ser, antes de tudo, uma ovelha.”

Em outras palavras, você pode ser uma celebridade e um líder perante os olhos da sociedade, mas se o principal motivo pelo qual você escolheu ser assim, em primeiro lugar, foi porque o livro de receitas da sua tribo diz que é uma coisa impressionante e que fará de você um membro vip, então você na verdade não está sendo um líder: você está sendo um seguidor bem-sucedido. E, como diz Einstein, não é menos cozinheiro do que todos aqueles cozinheiros que você impressionou.

Para ver a verdade, você precisa ampliar sua perspectiva até perceber o líder real dos cozinheiros – o livro de receitas.

Mas não tendemos a ampliar nossa perspectiva, e quando olhamos a nossa vida focados no que parece ser um eu altamente livre e independente, podemos estar apenas tendo uma ilusão de óptica.

O que muitas vezes parece um raciocínio independente, quando ampliado é realmente um jogo de juntar os pontos em um conjunto de etapas pré-impresso, estabelecido por outra pessoa. O que parece ser valores pessoais pode ser apenas os valores gerais da sua tribo. O que parece ser opiniões originais pode realmente ser algo elaborado pela mídia, nossos pais, amigos, religião ou por alguma celebridade. O que parece que nosso exclusivo caminho de vida pode ser só uma das várias estradas já pavimentadas, pré-estabelecidas e sancionadas pela tribo. O que parece ser criatividade pode ser apenas o ato de preencher um livro para colorir, certificando-se de permanecer dentro das linhas.

Por causa dessa ilusão de ótica, não podemos ver as falhas em nosso próprio pensamento ou reconhecer um pensador excepcionalmente ótimo quando vemos um. Em vez disso, quando um chef com pensamento independente altamente científico e desenvolvido como Elon Musk ou Steve Jobs ou Albert Einstein aparece, a que atribuímos seu sucesso?

Atribuímos ao incrível hardware que herdaram.

Quando olhamos para Musk, vemos alguém com gênio, visão e ousadia sobre-humanas. Todas essas coisas, nós presumimos, já nasceram com ele. Então, para nós, a fileira de cozinheiros do raciocínio se parece mais com isso:

Do jeito que o vemos, todos somos um grupo de chefs de pensamento independente – e é só que Musk é um chef realmente impressionante.

Isso significa que estamos (A) superestimando Musk e (B) superestimando a nós mesmos. E falta completamente a história real.

Musk é um chef impressionante com certeza, mas o que o torna posicionado tão ao extremo da fila não é o fato de que ele seja impressionante: é o fato de que a maioria de nós não somos chefs na verdade.

É como um monte de máquinas de escrever que olham para um computador e dizem: “cara, essa é uma talentosa máquina de escrever”.

A razão pela qual temos tanto dificuldade em ver o que realmente está acontecendo é que não vemos o software cerebral como algo real. Nós não pensamos em cérebros como computadores, então não pensamos na distinção entre hardware e software. Quando pensamos no cérebro, pensamos apenas no hardware – a coisa com a qual nascemos e somos impotentes para mudar ou melhorar. Muito menos tangível para nós é o conceito de como raciocinamos. Vemos o raciocínio como algo que apenas acontece, como o fluxo sanguíneo de nossos corpos – é um processo que acontece automaticamente, e não há muito mais a dizer ou a fazer sobre isso.

E se não podemos nem mesmo ver a distinção entre hardware e software, certamente não podemos ver a mais sutil diferença entre o software de um chef e de um cozinheiro amador.

Ao não vermos nosso software de nosso pensamento como ele é (uma habilidade de vida crítica, algo que pode ser aprendido, praticado e melhorado, e que é o principal fator que separa as pessoas que fazem grandes coisas daqueles que não fazem nada) não conseguimos perceber onde o jogo da vida realmente está sendo jogado. Nós não reconhecemos o raciocínio como algo que pode ser criado ou copiado. E da mesma forma como isso nos faz confundir nossa maneira de pensar com raciocínio independente, confundimos o verdadeiro raciocínio independente e excepcional com uma habilidade mágica.

Três exemplos são úteis:

1) Nós confundimos a visão clara do cozinheiro sobre o presente com uma visão sobre o futuro.

A irmã de Musk disse: “Elon já foi para o futuro e voltou para nos contar o que ele encontrou”. É assim que muitas pessoas se sentem sobre Musk – que é um visionário, que ele pode de alguma forma ver coisas que não podemos. Nós o vemos assim:

Mas, na verdade, é assim:

A sabedoria convencional é lenta para evoluir, e há atraso significativo entre o momento em que algo se torna realidade e o momento em que a sabedoria convencional é revisada para refletir essa realidade. E, quando o faz, a realidade passou a ser outra coisa. Mas os chefs não prestam atenção nisso, e raciocinam usando seus olhos e ouvidos e experimentando. Ao ignorar a sabedoria convencional em favor de simplesmente olhar o presente tal como ele realmente é, e ao ficarem atualizados sobre os fatos do mundo a medida em que eles se transformam (a despeito de tudo o que a sabedoria convencional diz), o chef pode jogar de uma forma que o nosso software ainda não nos deu permissão ainda para jogar.

2) Nós confundimos a compreensão precisa das coisas com coragem.

Lembre-se desta citação:

Quando eu era pequeno, eu tinha muito medo do escuro. Mas então entendi que a escuridão significa apenas a ausência de fótons no comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. Então pensei, ‘bem, é realmente bobo ter medo de uma falta de fótons’. Então, eu não tive mais medo do escuro depois disso.

Esse é apenas um chef enquanto criança, avaliando os fatos reais de uma situação de forma a decidir que seu medo era inadequado.

Musk está dizendo essencialmente: “As pessoas consideram X ser assustador, mas seu medo não é baseado na lógica, então não tenho medo de X“. Isso não é coragem – isso é lógica.

Coragem significa fazer algo arriscado. Risco significa se expor ao perigo. Nós intuitivamente entendemos isso – é por isso que a maioria de nós não chamaria a criança Elon de corajosa por dormir com as luzes apagadas.Coragem seria uma palavra estranha para usar, porque nenhum perigo real estava envolvido.

Então, quando Musk colocou toda a fortuna para baixo e em SpaceX e Tesla, ele estava sendo ousado, mas corajoso? Não é a palavra certa. Era um caso de um chef juntando um monte de informações que ele tinha e criando com elas um plano que parecia lógico. Não que ele tivesse certeza de que teria sucesso (de fato, a SpaceX, em particular, tinha uma probabilidade razoável de falha) é só que em nenhum lugar em suas avaliações ele previu perigo real.

3) Nós confundimos a originalidade do chef com engenhosidade brilhante.

As pessoas acreditam que pensar fora da caixa exige inteligência e criatividade, mas se trata principalmente de pensar com independência. Quando você simplesmente ignora a caixa e constrói seu raciocínio a partir do zero, seja você brilhante ou não, você acaba com uma conclusão única, que pode ou não se ajustar dentro da caixa.

Quando você está em um país estrangeiro e decide abandonar o guia e começar a vagar sem rumo e conversar com as pessoas, coisas únicas sempre acabam acontecendo. Quando as pessoas escutam sobre essas coisas, pensam em você como um viajante profissional e um aventureiro ousado – quando tudo o que você realmente fez foi abandonar o guia.

Da mesma forma, quando um artista, cientista ou empresário pensa a partir dos primeiros princípios ao invés de pensar por analogia, e a partir disso suas ideias (a) começam a dar certo e (b) não são convencionais, todos as chamam de inovações e ficam maravilhadas com a engenhosidade do chef. Quando essas ideias dão muito certo, todos os cozinheiros fazem o seu melhor: copiam. E a partir disso temos uma revolução.

Basta abster-se do raciocínio por analogia, e o chef abre a possibilidade de fazer um grande espetáculo em cada projeto. Quando Steve Jobs e a Apple voltaram sua atenção para os telefones, eles não começaram dizendo: “Ok, bem, as pessoas parecem gostar desse tipo de teclado mais do que desse tipo, e todos parecem infelizes com a dificuldade de bater nos números em seus teclados, então vamos nos tornar criativos e ainda fazer o melhor teclado para o telefone celular!” Eles simplesmente perguntaram: “O que deveria ser um dispositivo móvel?” E em seu raciocínio de primeiros princípios, um teclado físico não se tornou parte do projeto. Não foi preciso um gênio para inventar o design do iPhone. Na verdade, é bastante lógico: isso só exigiu a capacidade de não copiar.

Versão diferente da mesma história ocorreu com a criação dos Estados Unidos. Quando os antepassados americanos se encontraram com um novo país em suas mãos, eles não se perguntaram: “Quais devem ser as regras para escolhermos nosso rei e quais devem ser as limitações de seu poder?” Um rei, para eles, era o que o teclado físico era para a Apple. Em vez disso, eles perguntaram: “Como deve ser o país e qual a melhor maneira de governar um grupo de pessoas?”. E quando eles concluíram seu raciocínio de primeiros princípios, um rei não fazia parte do projeto – os primeiros princípios os levaram a acreditar que John Locke tinha um plano melhor e eles trabalharam a partir dele.

A história está cheia de chefs que criaram revoluções aparentemente geniais partindo de um simples raciocínio de primeiros princípios. Genghis Khan organizou uma série de tribos fragmentadas há séculos usando uma estrutura de poder a fim de formar uma grande tribo que poderia conquistar o mundo. Henry Ford criou carros com a técnica de fabricação em linha de montagem para levar carros às massas pela primeira vez. Marie Curie usou métodos não convencionais para promover a teoria da radioatividade e derrubar a suposição de que “átomos são indivisíveis” (ela ganhou um Prêmio Nobel em física e química – dois prêmios reservados exclusivamente para chefs). Martin Luther King utilizou a abordagem não-violenta de Thoreau para uma situação que normalmente era enfrentada com tumultos. Larry Page e Sergey Brin ignoraram os métodos comumente usados ​​de pesquisar na internet em favor do que eles viram como um sistema mais lógico, que se baseou na importância da página e na quantidade de sites importantes que se vinculam a essa página. Os Beatles de 1966 decidiram deixar de ser os melhores cozinheiros do mundo, abandonando o típico estilo de composição das bandas dos anos 60, incluindo seu próprio estilo, e se tornam chefs de música, criando do zero um monte de novos tipos de músicas, composições que ninguém já havia ouvido antes.

Seja qual for o tempo, o lugar ou a indústria, quando algo realmente grande acontece, quase sempre há um chef experiente no centro dos acontecimentos – alguém que não foi nada mágico, mas apenas confiou em seu cérebro e trabalhou a partir do zero. Nosso mundo foi criado por essas pessoas – o resto de nós está apenas seguindo o caminho.

Sim, Musk é inteligente e insanamente ambicioso – mas não é por isso que ele está superando a todos. O que faz Musk tão radical é que ele é um software atípico. Um chef notável em um mundo de cozinheiros. Um geólogo científico em um mundo de geólogos diluviano. Um software cerebral versão profissional em um mundo onde as pessoas não percebem que o software em seus cérebros é uma coisa a ser considerada.

Esse é segredo de Elon Musk.

É por isso que a verdadeira história aqui não é Musk. Somos nós.

O verdadeiro quebra-cabeça nesta série de textos não porque Elon Musk está tentando acabar com a era dos carros a gasolina ou porque está tentando colonizar Marte: é porque pessoas como ele são tão raras entre nós.

A coisa curiosa sobre a indústria automobilística não é a Tesla estar produzindo carros elétricos, e a coisa curiosa sobre a indústria aeroespacial não é a SpaceX tentar produzir os foguetes reutilizáveis ​​- a coisa curiosa sobre essas indústrias é porque a Tesla e a Space X são as únicas empresas a fazê-lo.

Passamos o tempo todo tentando descobrir o funcionamento misterioso da mente de um gênio apenas para perceber que o segredo de Musk é que ele é o único a ser normal. E sozinho, Musk seria um tema muito chato – é o pano de fundo formado por nós que o torna mais interessante. E é desse pano de fundo que esta série é realmente trata.

Então … qual é o problema com nós? Como foi que acabamos sendo cozinheiros tão amadores na habilidade de pensar? E como aprender um ser mais como os grandes chefs do mundo, que parecem abrir tão sem dificuldades o caminho da própria vida? Eu acho que se trata de três coisas.

[Na quinta e última parte dessa série, Tim Urban apresentará epifanias e dicas que permitirão a qualquer um desenvolver e aprimorar o seu próprio software de raciocínio].

A CLT do Fascismo e a Reforma Trabalhista

Você, você aí, que adora chamar de “fascista” qualquer ideia, pessoa ou atitude contrária à sua, tem agora uma oportunidade perfeita de utilizar o adjetivo corretamente. Sabe uma coisa no país que é mesmo fascista? A nossa CLT.

A nossa Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) foi criada durante a ditadura Vargas, por iniciativa do ditador tupiniquim e de Alexandre Marcondes Filho, dois simpatizantes declarados do regime de Benito Mussolini na Itália – o fascismo. No regime italiano, foi instituida por Mussolini em 1927 a Carta del Lavoro, onde o Partido Nacional Fascista redigia as regras laborais com a finalidade de “proteger o trabalhador” e se adaptar aos “novos tempos”. O fascismo não apenas era autoritário (e por isso vocês usam o termo como sinônimo de “autoritarismo”), mas também dependia muito da força dos sindicatos, tornando obrigatória a “contribuição” sindical e elegendo-os defensores oficiais do trabalhador.

Vargas praticamente copiou o documento italiano, “protegendo os trabalhadores” com leis quase idênticas e também a partir dos sindicatos. Os sindicalistas, claro, amaram – e até promoveram uma festa no Estádio São Januário para celebrar a CLT. Obrigar parte do dinheiro de cada patrão e funcionário legalizado a ir para os sindicatos era uma teta irresistível. Resultado: quantos sindicatos existem hoje no Reino Unido inteiro? 168. Na Dinamarca? 164. Na Argentina? 91. Nos EUA inteiro? 130. Quantos temos no Brasil? Mais de 16.000 (!!!) – e 250 novos são criados todo ano.

A CLT sofreu muitas modificações ao longo das décadas, mas sua estrutura ainda é a mesma do documento fascista porque, compreensivelmente, os sindicatos desconfiam de qualquer mudança nela e protegem como o fazendeiro protegeria a galinha dos ovos de ouro. Mas essa estagnação tem feito mal, muito mal para o trabalhador brasileiro. Eu provo.

Hoje, apenas METADE dos trabalhadores brasileiros gozam dos benefícios da CLT. Por quê? Por dois principais motivos.

Primeiro, porque se eu te contrato para receber um salário de 1000 reais, graças aos encargos trabalhistas na verdade terei de gastar com você cerca de 3000. Não se iluda, destes 1000 reais que te sobram, mais da metade você também vai mandar para as mãos do Estado em forma de impostos – eles sugam de todos os lugares onde podem.

Mas isso quer dizer que se você não for produzir pra mim mais do que 3000 reais mensais, não vale a pena te contratar. Eu tenho que dar tanto dinheiro para o governo e para os sindicatos para poder ter um funcionário que apenas vou contratar se for absolutamente necessário e ele tiver muito a me oferecer. O que não é o caso de pessoas jovens ou pouco qualificadas, que acabam sendo relegadas ao trabalho informal. Repito: metade das pessoas estão nessa situação, quase todas da camada mais pobre da população. Em determinadas regiões (as mais pobres, obviamente), quase ninguém tem carteira de trabalho.

E não é porque o patrão é malvadão e quer explorar a pobreza alheia não, mas porque o patrão também é pobre. Dos 23 milhões de donos de negócio no país, 58% têm uma renda de ATÉ dois salários mínimos por mês. Outros 25% ganham entre 2 e 5 salários mínimos. Quase a totalidade dos empresários no Brasil não são aqueles de terno e gravata que nasceram em berço de ouro, mas o dono da padaria da esquina, o dono do açougue, as irmãs donas da lojinha de roupas da esquina, etc. E não é fácil sobreviver com sua empresa no meio de tantos impostos.

Quem já viu a série The Walking Dead sabe que o novo vilão da série, Negan, cobra metade de tudo que eles produzem para oferecer “proteção” aos habitantes, tornando difícil sobreviver quando metade de tudo que produz vai para Negan e seu grupo. Pois o Estado brasileiro É pior e leva mais da metade – e você tem que pagar fornecedores, funcionários, aluguel, etc. com o que sobra. Do contrário, assim como Negan, eles vêm usar da coerção para te obrigar a pagar. Por isso é uma péssima ideia montar uma empresa no país e a maioria dos que tentam vão à falência nos dois primeiros anos.

O segundo motivo pelo qual tantos trabalhadores estão informais é por causa da burocracia. Em um ranking de 145 países onde é avaliada a burocracia necessária para se montar um negócio, o Brasil só perde para quatro países no mundo: Haiti, Laos, Congo e Moçambique. O tempo que você gasta para conseguir a papelada necessária para montar um negócio na maioria dos países desenvolvidos (Reino Unido, países escandinavos, etc.) é de 10 dias. Na nossa vizinha Argentina, que está longe de ser um país ideal para empreendedores, leva-se cerca de 32 dias. No Brasil? 152 dias!

Isso para não dizer que a legislação trabalhista aqui é infinitamente mais complexa que a de quase todos os outros países. São 922 artigos, além de centenas de normas, portarias, leis e decretos. São mais centenas de artigos sobre os outros impostos que o dono de um negócio deve pagar. Felizmente, hoje existe o SIMPLES, que tenta unificar grande parte destes impostos para o empreendedor não desistir ao ver o tamanho do obstáculo. Ainda assim, este empresário está a mercê de dar uma escorregada a qualquer hora em uma das incontáveis leis e ser processado por isso. O resultado disso? Sim, vou fazer mais uma comparação, porque acho que vocês não têm dimensão do atoleiro em que estamos.

Quantos novos processos trabalhistas surgem no Japão por ano? 2,5 mil. Na França? 70 mil. Mas estes países são menores que o Brasil, que tal os EUA, que são maiores em território, população e economia? 75 mil ações trabalhistas por ano. No Brasil? 3 milhões.

Agora pensa se o trabalhador médio, pobre, longe de saber sobre as leis e a política, longe de ter muito dinheiro guardado, vai conseguir abrir um negócio dentro da lei? Não vai. Ele provavelmente nem sabe aonde ele tem que ir para abrir uma empresa e se descobre já bate de frente com uma tonelada de papéis e impostos, custos, normas, etc. Ele é sufocado pela papelada, não tem repertório para navegar pela burocracia por meses até montar seu negócio e nem dinheiro para aguentar a carga tributária.

O que ele vai fazer? Ou virar funcionário de novo – mais cômodo – ou montar seu negócio na ilegalidade. Vai comprar um produto por X e revender por Y, vai combinar com Fulano e Ciclano de dar TANTO por mês para eles ou uma parte do que revenderem ou algo assim. Nada no papel, nada assinado.

Este, inclusive, é um dos principais motivos pelo qual o tráfico de drogas é tão tentador para o jovem da periferia: na sua realidade, a maneira mais acessível de ganhar dinheiro é com o narcotráfico, comprando a droga por x e revendendo por y. O brasileiro está mais que disposto a trabalhar, é criativo e batalhador. O Estado que não colabora.

Então, se é que ainda tem alguém lendo isso, uma Reforma Trabalhista vem bem a calhar. Não houve fim de férias, de feriados, de FGTS, de salário mínimo, de normas de segurança, nada disso. Isso é ruído dos sindicalistas, catastrofizando ao máximo para que você acredite que de fato os trabalhadores sofreram um golpe. Quem sofreu um golpe foram eles, porque agora não somos mais obrigados a dar dinheiro a eles e terão de MOSTRAR serviço, fazer por merecer, para que a gente decida que vale a pena pagá-los. Nós, trabalhadores? Ficaremos muito bem, obrigado. E agora com uma legislação trabalhista um pouco menos retrógrada e mais próxima das melhores legislações trabalhistas existentes no mundo.

Se você acreditava que a nossa CLT protegia o trabalhador e sua modificação vai fazer com que sejamos capachos nas mãos dos patrões exploradores, considere estas duas listas de países:

1. Estados Unidos, Canadá, Austrália, Cingapura, Hong Kong, Maldivas, Ilhas Marshall.
2. Bolívia, Venezuela, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, Tanzânia, Congo e República Centro Africana

Em quais destes países você acha que os trabalhadores estão melhores? Pois na primeira lista estão os 7 países que, segundo o Banco Mundial, têm as leis trabalhistas mais flexíveis, que primam pelo negociado em detrimento da imposição estatal. E a segunda lista temos os 7 piores do ranking, os países com as leis trabalhistas mais próximas da nossa CLT. Qual país tem sido melhor para o trabalhador?

Se você continua achando que as mudanças da Reforma Trabalhistas foram ruins, precisa explicar por que os trabalhadores dos países com as leis que “protegem” o trabalhador fogem para trabalhar e montar negócios nos países “opressores”. Muitos destes “opressores” saíram de uma pobreza bem maior que a nossa e hoje são todos muito mais ricos.

Enquanto isso, a gente fica aí acreditando na história da carochinha de que estes sindicalistas é quem sabem o que é melhor pra gente. Estamos há décadas sendo o “país do futuro”, na conversa fiada dessa gente. Precisamos tomar coragem, parar de acreditar nestes sanguessugas e criar condições para que sejamos o país do presente.

Lula: um mártir da democracia ou um larápio?

Não comemoro a prisão nem a morte de pessoas. Posso até achar que a remoção de fulano do cenário causa efeitos positivos (alguém vai negar que a queda de Mussolini foi algo bom), mas a coisa em si – comemorar a morte, o sofrimento, a prisão, a tortura – não me atrai. Não vou censurar quem comemora, mas não é a minha.

Isso posto, a condenação de um ex presidente tem diversos aspectos positivos e negativos. De negativo, antes de tudo o óbvio: somos governados por gangsters, a ação da justiça penal sendo usada pra lidar com as ações de um ex-presidente indica no mínimo uma grande podridão na nossa política.

Menos intuitivamente, a criação de mártires: o discurso político conservador petista está buscando incessantemente a imagem de que é “perseguido” e “rebelde”, mesmo que continue agindo como sempre. A condenação do Lula é ótima (assim como o impeachment de Dilma o foi, aliás) para alimentar essa noção, para reforçar a imagem “mítica” do ex-presidente. Isso costuma dar merda – independente de gostar do sujeito ou não, o peso de figuras mágicas intocáveis do tipo costuma enlouquecer o cenário político. Só olhar pro lado e ver o exemplo do peronismo, que é uma praga absurda e perene na Argentina.

De positivo, antes de tudo, um combate à sensação de impunidade. Se até o ex-presidente mais popular da história do país, um dos políticos mais poderosos e influentes por aqui, pode ser condenado, isso é ao menos um indício de que a justiça está tocando também o andar de cima. Os alvos clássicos continuam sendo os pobres e excluídos, mas há algum esforço no sentido contrário.

A minha parte positiva preferida é cínica: o descrédito da política partidária. Contrariando alguns profetas que vêem fascismo na descrença em relação ao sistema político, prefiro ver a parte positiva: o ridículo de ver um poderoso político preso de maneira patética pode em alguma instância ajudar a desiludir mais gente. E quanto menos gente confiar na máfia violenta que é o conglomerado Estado simbiótico a grandes corporações, menor o poder do feitiço hipnótico deles. Mais abertura para buscar emancipação.

O maior efeito, porém, não é nem positivo nem negativo. Para a grande maioria do país, a prisão de Lula é irrelevante. A vida vai continuar mais ou menos igual amanhã.

Os defensores que declaram iniciado um Estado de exceção e dizem que acabou a democracia no país ignoram que esse Estado de exceção já existe há muito tempo pra todo pobre excluído da sociedade. Para os padrões brasileiros, Lula teve direito a defesa que um Rafael Braga jamais sonharia.

Os críticos de Lula que acham que essa prisão inaugura uma nova era de honestidade e paz são ingênuos ou desonestos. Em um cenário no qual virtualmente toda liderança política conhecida é corrupta e no qual a organização mais basal do país fomenta e incentiva o autoritarismo e a corrupção, como a prisão de um líder solo mudaria tanta coisa?

Lula é um político como foram outros. Popular, inteligente, corrupto, interessado em conseguir poder. Fez alguma diferença, mas não só não é um messias como também é grande e complexa e ingovernável demais essa multidão chamada Brasil pra que um homem a controle tanto assim.

A prisão de um só infeliz com sonhos de controle não é o suficiente para salvar nem condenar a todos nós. Convém desconfiar das ideologias de adoração ao poder que condicionam nosso destino e vida e morte à maré que carrega qualquer Grande Líder. A vida felizmente se rebela e é muito mais que isso.

Aquele que controla a sua vida – Parte 2

Nossa intenção é revelar a verdade. Mas não a verdade abstrata, retórica. E sim a que pode ser útil, até decisiva, para o destino de todo aquele que a conhece. A verdade que tem o poder de transformar quem a descobre.

Mas, por razões que já a seguir se tornarão autoevidentes, é preciso começar do princípio, é preciso apresentar algumas verdades sobre essa verdade.

A primeira é que a verdade é simples, e pode ser quase toda resumida em poucas palavras. A segunda é que a verdade, apesar de simples, é profundamente contraintuitiva. Por isso, o acesso à verdade depende de não só de vencermos uma barreira intelectual, maior ou menor a depender do indivíduo. Depende, principalmente, de superarmos uma muralha emocional, arraigada em nossos instintos primitivos.

A Circumambulation

É que o ser humano foi programado pela evolução com um forte apego a determinada percepção de sua identidade que, embora útil quando seus antepassados sobreviviam nas savanas africanas, de modo algum corresponde à realidade dos fatos.

Portanto, devemos nos aproximar da verdade dando voltas ao seu redor. É como se estivéssemos acompanhados de um animal, e ele precisasse ser amansado antes de o levarmos ao destino final, o conhecimento da verdade.

Esse movimento em torno da verdade está presente em vários mitos e rituais primitivos, e é conhecido como circumambulation. Sem o movimento circular que se aproxima lentamente da meta, o animal que nos acompanha empaca e pode até morder nossa mão se tentarmos movê-lo.

Esse animal tem um nome. Ele é chamado de ego.

O Ego

O ego apega-se a noções de identidade que são importantes para continuarmos vivos e operacionalizarmos nossa relação com este mundo. Portanto, ter um ego saudável é tão importante quanto ter um coração saudável. Quando se trata, contudo, de questões que desafiam a noção de identidade e realidade em que o ego está acostumado a operar, ele reage como um macaco furioso.

O processo de conhecimento,em resumo, não é apenas um processo de superação intelectual [1]Na verdade, a questão intelectual é até mudana: qualquer indivíduo que der atenção suficiente às questões aqui apresentadas e fizer suas pesquisas pessoais poderá compreender tudo sem qualquer insuperável dificuldade intelectual. Com efeito, todas as objeções feitas à existência de múltiplas realidades apenas expressam uma reação emocional. Einstein morreu profundamente irritado, em suma, porque até em seu mais profundo aspecto a realidade revelou-se algo que ele emocionalmente se recusava a aceitar., mas de superação emocional. Isso ocorre com o amansamento do ego, para que, como guardião do portal da identidade, dê a certas verdades à consciência de modo que tais verdades ali chegando operem transformando e evoluindo o próprio ego.

Essa evolução decorre de duas causas estreitamente vinculadas. A primeira é que a assimilação de verdades contraintuitivas reformula a própria noção de identidade pessoal e de realidade imediata que são tão importantes para o funcionamento do ego. Ele passa a operar, de certa forma, com maior conhecimento do mundo ao seu redor, e assim dispõe de mais recursos e poder para cumprir suas funções. O ego começa a perceber com clareza cada vez maior a responsabilidade por trás de suas decisões, e assim se aprimora no manejo do destino humano.

A segunda razão dessa mudança é que o ego é evolutivamente vinculado a emoções que podem resistir de forma inarredável ao enfrentamento daquilo que é contraintuitivo sobre a verdade. Alguém observará isso não apenas em seu ego, mas também na reação do ego de outros ao seu redor, quando a verdade sobre a condição humana passar a ser revelada.

O aspecto emocional precisa, portanto, ser considerado. E como é fácil intuir, uma questão do aspecto emocional só pode ser resolvida com a linguagem da própria emoção. Por isso, na busca pelo conhecimento da verdade, a única forma de lidar com essas emoções poderosas e primitivas é recorrendo a uma emoção superior, sofisticada no entanto tão simples quanto a verdade: o amor. Por tal razão que dizemos, quase como lema, que a verdade precisa vir acompanhada do amor.

Esse processo pelo qual o ego, em um movimento de circumabulatio, transforma-se e evolui a medida em que entra em contato com a verdade, Carl Gustav Jung interpretou e descreveu minuciosamente, chamando-o de processo de individuação.

E Jung lembrou-nos que os alquimistas, ao tentar desvendar o segredo da matéria a fim de supostamente “transformar metal ordinário em ouro”, descobriram, para sua surpresa, que nesse processo em busca de conhecimento a própria natureza daquele que conhece.

Os arquétipos

Como a verdade é contraintuitiva e emocionalmente sensível, não é a linguagem discursiva o melhor instrumento para compreendê-la. Não há palavras para descrever diretamente certos aspectos importantes da verdade. Apenas analogias e alegorias conseguem tornar mais familiares à mente humana esses aspectos.

Por isso, o movimento de aproximação gradual e circular até a verdade é repleto de símbolos, personagens e histórias que tentam transmitir aspectos da verdade de uma maneira alegórica. Tais símbolos, personagens e histórias são chamados de Arquétipos e estão presentes em todas as culturas e tradições, presentes em mitos, fábulas e narrativas populares. São, em síntese, universais, como Mircea Eliade, Joseph Campbell e Carl Gustav Jung e outros sábios demonstraram à humanidade no século vinte.

Considere-se, por exemplo, o mito do Embusteiro ou Trickster. Esse personagem está presente em diversas mitologias, sempre na figura de uma divindade ao mesmo tempo benéfica e maléfica, de grande auxílio mas por vezes enganadora, que frequentemente ludibria os próprios deuses e traz conhecimento ao ser humano. Na Grécia Antiga, era o deus Hermes. Para a tradição africana, era a divindade Ekwensu, sobre o qual se diz que uma vez vestiu uma roupa branca de um lado e negra do outro, e passou no meio de um caminho entre dois vizinhos, de modo que ambos começaram a discutir sobre a cor da roupa do desconhecido.

Por esse motivo é que a figura popular do Harlequin, outro Trickster, possui uma roupa de losango coloridos. O Embusteiro recebe o ego em sua jornada para a evolução representando justo a transição entre o mundo familiar e a realidade profundamente contraintuitiva. Ambos os aspectos estão presentes na sua figura.

Por isso, é interessante que os antigos alquimistas tenham feito uma associação entre a Pedra Filosofal e o Mercúrio Filosofal. O Mercúrio é uma representação do deus Hermes, e muitos textos alquímicos descrevem-no como uma entidade que está e não está em determinado lugar, sempre sorrateira, sempre fugidia, mas que contém o segredo da matéria. Em nada diferente do comportamento absurdo, ilógico, das partículas subatômicas investigadas pelos cientistas no mundo atual.

Assim como o Embusteiro, muitos outros arquétipos conseguem amarrar, em um só sistema simbólico, vários aspectos universais da vida humana nesta realidade e inclusive padrões fundamentais dessa própria realidade. Quando a verdade principal for transmitida, perderemos um agradável tempo explorando tais alegorias.

A individuação

Dizer que o ego nos serve de escudeiro é de certa forma injusto, pois ele também é intérprete e construtor, como a seguir se verá. Porém, o mito do cavaleiro e seu escudeiro é útil para explicar a posição do ego na vida humana.

O ego possui uma função fundamental no território da consciência. Ele deve operacionalizar a relação do organismo com o mundo exterior no âmbito das decisões conscientes, usando sua de aprendizado para cumprir uma missão dada pela natureza: maximizar as chances de sobrevivência do organismo e assegurar a proliferação da vida [2]Como sabemos, a reprodução sexual é o mecanismo engenhoso e bem sucedido da natureza, a fim de que cada um de nós distribua os seus genes e por meio deles, dissemine a vida. Esse não é, contudo, o único método à disposição de formas mais evoluídas de consciência.

Mas, então, qual é o centro da consciência? Quando falamos em centro, falamos da mente humana como se ela pudesse ser representada por um espaço. E justo por isso é que em muitas tradições surge o arquétipo do jardim ou espaço sagrado em cujo centro há uma fonte.

As múltiplas vidas de uma só pessoa em realidades alternativas, coordenadas por uma Mente Profunda, conforme descrita por alquimistas chineses (Ilustração do livro “O Segredo da Flor de Ouro”, prefaciado por Jung e traduzido por R. Wilhem).

Isso porque o centro da consciência não é um lugar, mas uma passagem. E uma passagem para algo vivo e transcendente. Portanto, poucos símbolos são tão adequados como o de uma fonte.

Mas a passagem para o que? Como vimos na parte anterior, podemos imaginar a mente humana, nesse estágio de nosso aprendizado, como uma forma de sistema operacional do cérebro humano: o software que comanda o hardware. Desse ponto de vista, o ego é um módulo do sistema destinado a fazer a interface com o mundo exterior e proteger a noção de identidade pessoal. Mas ele não é o centro desse software, pois no centro do software há uma passagem para um sistema operacional maior, mais abrangente, que Jung denominou de Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente Coletivo

O que Jung chamou de Inconsciente Coletivo não tem nada de inconsciente e tampouco de coletivo, não ao menos no sentido usual de ambas as palavras. Trata-se de algo que só é inconsciente em relação ao ego humano e à consciência individual (pois isso, feito de forma descuidada, o deixaria desestruturado), e que é coletivo em um sentido muito peculiar.

O Inconsciente Coletivo, portanto, é o espaço de um sistema operacional superior (uma Mente Superior), que coordena o sistema operacional individual (cada mente individual) utilizando “linguagem de programação” composta de módulos relativamente autônomos (que possuem de certo modo, sua própria consciência incorpórea). Esses módulos são os arquétipos. Estão presentes principalmente nos sonhos que temos à noite, na forma muitas vezes de rostos familiares, pois esse é o momento em que temos um passageiro vislumbre de como funciona o sistema operacional superior.

Desse modo, os símbolos, narrativas e personagens das antigas fábulas e mitos de antigas tradições não são apenas formas de a mente humana familiariza-se com a verdade contraintuitiva. Também são módulos da “linguagem de programação” de um “sistema operacional” superior à essa mente individual.

No centro da consciência, portanto, há uma passagem que conduz a esse espaço, e que vincula a mente humana a uma consciência superior e mais abrangente. Tal consciência, junto com os arquétipos, operam no espaço que em textos anteriores denominamos de hipercontexto.

Por essa passagem há em constante fluxo de informações, utilizando a linguagem arquetípica para que o sistema operacional individual, a mente de um ser humano situada em sua realidade, comunique-se com o sistema operacional superior que opera no contexto de múltiplas realidades humanas. Durante o sonho, tal fluxo de informações torna-se mais explícito.

E no centro desse sistema operacional superior, há uma consciência que é inatingível pela consciência individual – ao menos diretamente. Jung chamou-o de Self.

O Self

Todos os mitos e culturas da humanidade possuem um sistema de arquétipos, e invariavelmente todos esses sistemas possuem um arquétipo principal ou central, que a um só tempo coordena e “é” o sistema em sua totalidade. Esse arquétipo, totalizante e central, concilia todos os aspectos aparentemente contraditórios do sistema, e não pode ser inteiramente assimilado por qualquer parte do sistema, embora esteja presente, conscientemente em todas.

Seja o topo de uma Montanha Sagrada, o centro de um Palácio Celestial, ou o eixo de uma enorme roda que abrange o mundo, esse lugar central sempre foi simbolizado e retratado por todas as culturas. O sistema de arquétipos, então, terminava por ser representado na forma de um mandala, no centro do qual está o símbolo da totalidade.

O Self de Jung, o arquétipo que se encontra situado no centro do sistema composto por arquétipos e consciências individuais de cada ser humano, em cada realidade particular, tem muitos nomes, a depender do mito ou da fábula. É a verdadeira Pedra Filosofal descrita pelos Alquimistas, é o Santo Graal das lendas arturianas, é a Flor de Lotus dos budistas, é o Monte Meru dos tibetanos. Mas talvez quem melhor tenha definido o Self tenham sido os upanixades, com o conceito de Atman.

Jung e os mandalas.

A busca pela verdade, portanto, possui três aspectos. O primeiro aspecto é o entendimento intelectual, relacionado à compreensão das pistas que nos revelam a verdadeira identidade da realidade em que vivemos. A segunda parte é a assimilação emocional, relacionada com a aceitação de verdades contraintuitivas. A terceira parte é arquetípica, e opera no espaço de símbolos que apontam para algo que transcende a experiência comum do ser humano.

Essa busca é, como vimos, um caminho circular, desenvolvido em um espaço que pode ser comparado a um jardim ou labirinto. Nesse jardim, encontramos em cada canto um símbolo, uma narrativa folclórica ou uma imagem de alguma divindade primitiva, tudo servindo de alegoria para os vários aspectos da verdade a ser conhecida. No centro desse jardim, no fim do labirinto, há uma fonte.

Essa fonte, na verdade, é uma passagem. Essa passagem nos leva a um labirinto muito maior, que dá acesso a todos os labirintos individuais. E, no centro desse labirinto maior, está sentado alguém. Esse alguém está constantemente consciente de todas as vivências individuais que cada versão de um mesmo ser humano tem em sua realidade particular. Sofrendo em cada vida, gozando em cada vida, e ao mesmo tempo situado além das experiências individuais, em um nível superior de clareza e entendimento, está esse alguém.

Esse alguém é seu Eu Superior. Esse alguém é você.

Notas   [ + ]

O brasileiro sensato exige a guilhotina

Vamos partir do princípio de que existe um brasileiro sensato, racional e razoável, desapegado de paixões partidárias e ideológicas. Essa descrição pode parecer, para alguns, o equivalente do unicórnio na vida cotidiana brasileira, ou até mesmo uma máscara da alienação burguesa.

Porém, vamos supor que ele exista, e que seja muito mais frequente do que os pessimistas gostam de estimar. Na verdade, digamos que o brasileiro sensato forme a maioria silenciosa.

Maioria silenciosa, mas intimidada, assustada até, ante a fúria dos apaixonados e fanáticos que vociferam tanto à direita como à esquerda. Esses versos de Yeats poderiam descrever o Brasil: aos melhores falta ânimo, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade.

Digamos que esse unicórnio, o brasileiro sensato, pensaria como alguém racional de qualquer país do mundo em que a democracia e a república são conceitos razoavelmente bem assimilados. Esse sujeito logo chegaria a algumas conclusões evidentes sobre a história recente de seu país.

Em primeiro lugar, concluiria que um presidente descoberto em plena negociata do envio de uma mala com uma primeira parcela de quinhentos mil reais, entregue por meio de um suplente de deputado de sua confiança, não pode, decididamente não pode, continuar a ser presidente. Da mesma forma como uma presidente que sentou em sua cadeira presidencial e observou silenciosa, afetando falsa ignorância, um escandaloso sistema de corrupção que sangrava reiteradamente os cofres públicos, não merecia ser presidente nas últimas eleições. Do mesmo modo que um candidato à Presidência que é suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas e que é surpreendido falando de encontrar um intermediário que se possa matar no caso de haver problemas, não merecia ter vencido aquelas mesmas eleições de onde surgiram os dois anteriores.

Onde está o brasileiro sensato? Essa não parece ser uma brasileira sensata.

O brasileiro sensato deduz que se tratava de um jogo de cartas marcadas. Que a atual ruína já havia sido anunciada anos atrás. Pois os principais candidatos à Presidência de seu país, e a tropa de político que os acompanhava nas eleições passadas, eram apenas instrumentos de quadrilhas criminosas.

O brasileiro sensato, então, respira fundo e desvia seu olhar da cadeira de Chefe do Executivo, e dá atenção ao Poder Legislativo. Talvez encontre algum alento.

Mas ali, de imediato, constata que a maioria dos deputados e senadores de seu país participam, em menor ou maior grau, de grandes esquemas de corrupção envolvendo grandes empresários. Observa, também, que a corrupção não tinha partido ou ideologia – na verdade, a ideologia era utilizada para manipular e mobilizar parte da população.

Esses esquemas já estavam tão enraizados no governo e na máquina pública que a corrupção havia passado a uma nova fase, em que não se pagava propina em troca de um favor específico. Nessa nova etapa, a propina era entregue com regularidade, ou quase sempre que solicitado, em troca de um compromisso constante de abrir portas e oferecer facilidades ao agente corruptor. Esse novo funcionamento do sistema era tão sofisticado que havia profissionais da intermediação do fluxo constante de propina (os tais “operadores do sistema” como Fernando Baiano), departamentos especializados no organograma empresarial (como o “Departamento de Operações Estruturadas” da Odebrecht) e programas de computadores destinados a manter o controle contábil dos gastos das empresas com corrupção (como o “Sistema Drousys”).

O brasileiro sensato, respirando mais fundo ainda, constata que, na prática, grandes quadrilhas empresariais sangravam o país com a ajuda de deputados e senadores que, por sua vez, também sangravam o país eles próprios, convertendo partidos políticos legítimos em quadrilhas criminosas destinadas a roubar o povo que os elegeu.

Não, aqui não há nenhum brasileiro sensato.

Essas quadrilhas partidárias, na prática pouco diferentes dos grupos de traficantes que disputam entre si o território de uma favela, em cada eleição disputavam entre si o poder, manipulando a opinião pública com retórica ideológica tanto de esquerda como de direita.

Porém, assim como as organizações criminosas que se uniram para formar o PCC, as quadrilhas partidárias que controlam o cenário político nacional aprenderam a se unir para lutar contra o mesmo inimigo em comum: a Justiça.

E então o brasileiro sensato olha, já meio em desespero, para a Justiça. Ali tampouco encontra muito alento, pois observa alguns ministros do Supremo Tribunal Federal começarem a aumentar o tom de voz, gesticulado teatralmente (e com certo histerismo) contra denúncias, operações policiais, delações criminosas e prisões determinadas por juízes de primeiro grau. E algo cheira podre quando o Presidente da República e políticos acusados de graves crimes fazem reunião secreta com tais ministros na véspera do dia em que é escolhido o nome da pessoa que substituirá justo quem os acusa.

É quando o brasileiro sensato perde a sensatez. É neste momento em que ele pode decidir montar, em praça pública, as guilhotinas.

Afinal, é sensato dizer que uma república iniciada por militares, e não civis, já não começava muito bem, precisando de alguns ajustes para legitimar-se como espaço para a democracia. Mas alguns ajustes nunca foram feitos, e outros até se aprofundarem ao ponto de colocarem o país na CTI, padecendo dessa metástase que é a corrupção.

Parece sensato dizer que, às vezes, uma república precisa nascer de forma mais violenta, no “estilo francês”, por assim dizer. Nem todo o país tem a sorte de ter encontrando todas as condições necessárias para que a república nascesse sem cortar muitas cabeças, no estilo norte-americano.

Sendo assim, conclui o brasileiro sensato, é chegada a hora de refundar a república no Brasil. E refundar não com proclamações oficiais em praça pública, cheias de pompa e disciplina militar, tampouco com uma carta de intenções tão cheia de nobres intenções como a de Thomas Jefferson. Talvez seja preciso refundar com sangue, com cabeças rolando.

República à moda francesa.

“Vamos montar as guilhotinas em praça pública, vamos enfileirar todos esses ladrões, vamos cortar todas as cabeças de deputados, senadores e presidentes”. Diria o brasileiro sensato. “Nos primeiros dias da nova democracia, a votação será para decidirmos a ordem, quem terá a cabeça cortada em primeiro lugar. A seguir, elegemos alguns de nós para governar o país em nosso nome, mas já preparando a guilhotina se houver qualquer vacilo.

O que incomoda na insensatez do brasileiro sensato é que mesmo nela há método. E ainda por cima podemos compreender suas razões. Ele conclui, com razão, que a República em que vive foi sequestrada por grandes quadrilhas criminosas, algumas travestidas de empresários, outras de políticos. Ele conclui, com razão, que essa república já foi tão abusada e explorada que na prática ele próprio tem sido objeto de abuso. Portanto, o mais razoável, o mais racional, é refundar a República no sangue de seus estupradores.

O problema, e o que faz esse raciocínio insensato, é que sempre precisamos responder a seguinte pergunta: quem será o carrasco?

Sempre que escolhemos o caminho da violência, é preciso encarregar alguém de praticar a violência. O homem sensato seria incapaz de cometer qualquer ato de brutalidade – ele é sensato, a final. Portanto, é natural que encarregue alguém de fazer o trabalho sujo em seu nome. E nessas horas aqueles que surgem, que se revelam em meio a multidão para fazer o serviço são sempre os piores. E nunca é inteligente, sensato, colocar o poder de exercer a violência em nome do Estado nas mãos dos piores entre nós. No final, pode-se estar escolhendo aquele que terá a última palavra sobre quem deve subir no cadafalso, qual cabeça que merece ser cortada.

Corremos o risco de eleger o nosso próprio carrasco.

O brasileiro sensato precisa despertar antes que esse pesadelo se concretize. O dia em que o cidadão sensato começa a montar em praça pública a guilhotina é um dia de desgraça para qualquer sociedade.

Felizmente, no nosso caso, há ainda uma última esperança. E ela não tarda mais do que alguns meses.

O brasileiro sensato talvez não exista. Talvez seja um unicórnio. Mas se o brasileiro sensato existir, e compor uma maioria silenciosa, então ele tem pouco mais de um ano para salvar o país.

O destino do Brasil não precisa ser ou o abuso reiterado por quadrilhas de criminosos ou o reino do terror em que mandam os carrascos. Há, ainda, um ano para que o brasileiro sensato reúna-se com todo os outros brasileiros sensatos e decida uma fórmula justa, apartidária, democrática e republicana para, pela eleição, afastar todos os corruptos do poder. Nas próximas eleições, talvez nem todos os brasileiros sensatos concordem em quem votar, mas podem chegar a um bom acordo sobre e quem jamais votar.

Ser racional é um dever moral?

Ética da Crença é o título de um ensaio escrito no século 19 pelo filósofo e matemático britânico William Clifford, em que ele afirma que “é errado, sempre e em qualquer lugar, acreditar em alguma coisa com base em evidência insuficiente”. Um dos pontos centrais do argumento de Clifford era a parábola (por assim dizer) do barqueiro devoto: um homem que acredita, com tamanha fé, que Deus protege seu barco que se recusa a realizar os trabalhos mínimos de manutenção (afinal, o que é o talento de um mero barqueiro diante da mão protetora da Onipotência?). Mas um belo dia o barco afunda, matando todos a bordo.

O senso-comum diria que a culpa foi da negligência do barqueiro, mas Clifford insiste que a culpa foi da crença: o barqueiro acreditava, do fundo do coração, que Deus protegia seu barco, e sua negligência foia penas uma consequência lógica disso. Ele só foi negligente porque foi coerente com sua fé. A tragédia foi o fim inevitável de uma cadeia lógica iniciada pela crença sem base em evidências.

Ética da Crença atraiu uma crítica furiosa de outro filósofo, o americano William James (não só um dos pais da psicologia moderna como campo de estudo independente, mas também um ardente patrocinador de estudos de mediunidade) que ponderou, entre outras coisas, que todo mundo age com base em crenças sustentadas em evidência insuficiente: toda vez que abre uma porta e entra numa sala, por exemplo, você age com base na crença de que não há um assassino esperando-o ali de emboscada, mas qual sua evidência para isso?

O debate Clifford-James constitui, de certa forma, o pano de fundo do debate entre céticos e crentes, racionalistas e esotéricos, ateus e devotos, positivistas-cientificistas e relativistas pós-modernos que se desdobra desde então. “Proporcionar a crença à evidência” soa como uma espécie de solução de compromisso, mas ainda assim a questão de o que conta como “evidência” e qual o termo de proporcionalidade a ser aplicado ainda consume muita tinta (e teclado, e cerveja, e fritas).

Algo saliente na exposição de Clifford, no entanto, é sua insistência na ideia de que a crença sem prova é imoral. Não apenas errada — no sentido de que 2+2=5 é errado — ou contraproducente, mas uma violação de deveres éticas, como as obrigações de respeitar o próximo, de não roubar e matar. Isso não seria um exagero?

Se for, trata-se de uma hipérbole popular. Um conjunto de oito estudos, consolidado em artigo publicado no periódico online PLoS ONE, propõe exatamente uma Escala de Racionalidade Moralizada (MRS, na sigla em inglês), que avalia o quanto uma pessoa considera que usar lógica e evidência na formação de crenças é uma virtude (e uma obrigação) moral.

Os autores, psicólogos baseados nos Estados Unidos e Reino Unido, afirmam que seus resultados mostram que a MRS é estável, consistente e se liga estatisticamente a outras posturas – por exemplo, um algo grau de MRS tem correlação negativa com religiosidade ou crença no paranormal. Além disso, pessoas com alto MRS tendem a ver outros, que mantêm crenças consideradas irracionais, como menos morais, buscam se afastar deles, evitá-los ou, em certos casos, gostariam de vê-los punidos.

“A intensidade e persistência com que crenças tradicionais são defendidas contra conclusões científicas parte, acredita-se, da ligação íntima dessas crenças com os valores morais centrais das pessoas”, escrevem os autores. “No entanto, não são apenas os defensores moralmente motivados das crenças tradicionais que têm sido caracterizados como intolerantes nos debates. Defensores da ciência também foram chamados de estridentes, raivosos e intolerantes”.

“Os resultados atuais sugerem que não só os defensores de crenças tradicionais são impulsionados por sua convicção moral, mas que os motivos por trás dos defensores da ciência também podem ter natureza moral”, ponderam os autores. “Estes resultados sugerem que eles podem ser motivados pela convicção de que é moralmente errado basear-se em crenças sem apoio em lógica ou evidência. Na medida em que esse é o caso, isso pode ajudar a explicar porque seu estilo argumentativo frequentemente soa raivoso e intolerante”.

Pessoal com alta MRS, diz ainda o artigo, também se mostraram especialmente motivadas a doar dinheiro ou trabalho voluntário para organizações que combatem a disseminação de superstições e pseudociências. Os autores apontam ainda que a MRS é distinta de uma mera medição do grau de importância que o indivíduo dá à racionalidade.

Estado de Exceção

O termo “estado de exceção” entra mesmo em circulação com o jurista alemão Carl Schmitt, em 1922, na sua Teologia Política, como parte da definição do que é a soberania: “soberano é aquele que define sobre o estado de exceção” – talvez a frase mais ilustre de Schmitt. Dezoito anos depois, Walter Benjamin voltaria ao conceito na oitava tese do seu testamentário “Sobre o conceito de história” (1940): “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ no qual nós vivemos é a regra.” Já em Benjamin, portanto, estado de exceção define uma regra. É essa dimensão contra-intuitiva, aliás, o que faz dele um conceito: a percepção de que a exceção é a norma. Se “estado de exceção” significasse apenas “períodos em que a lei não é cumprida”, ora bolas, ele não seria um conceito.

Mas como pode a exceção ser a norma?

Quando Giorgio Agamben publica “Estado de Exceção”, em 2003, ele declara que uma de suas inspirações para o livro havia sido outro ensaio de Benjamin, o “Para a crítica da violência” (1921). O argumento está desenvolvido em um artigo que publiquei há uns anos, mas o resumo da ópera é o seguinte: nesse ensaio, Benjamin diferencia entre duas formas de violência. Existiria, por um lado, a violência instaladora de lei e, por outro, a violência mantenedora de lei. Ou seja, há a violência revolucionária que instaura outra legalidade e há a violência que se impõe cotidianamente para manter a legalidade instalada.

O busílis começa quando Benjamin se pergunta se haveria algum tipo de violência que escapasse a esses dois paradigmas. Ele responde: sim, a violência policial. A polícia sempre intervém violentamente para manter a lei mas, diz Benjamin, em “incontáveis vezes” ela o faz instalando outra lei. Aqui você começa a entender o conceito de estado de exceção. É a norma que se instala suspendendo todas as normas. Veja bem, não se trata de que “a lei não está sendo respeitada”. Trata-se de outra coisa bem distinta: é a lei que se instala suspendendo toda lei.

Pode parecer complexo e paradoxal, mas qualquer um que tenha nascido e se criado na quebrada entende muito bem. O que é, por exemplo, o crime de desacato? Desacato é o que o policial decide que é desacato, a cada momento dado. Se, nesse processo, você disser ao mano da quebrada que as suas “garantias constitucionais” estão sendo suspensas, a resposta mais provável será uma gargalhada irônica: “que garantias constitucionais, cara? Aqui não tem isso, não”.

É isso o que Agamben entende e formula com o conceito de estado de exceção. Aliás, não é preciso nem ler o livro inteiro. O título do primeiro capítulo já anuncia: “O estado de exceção como paradigma de governo”. Na terceira página de texto, lê-se: “a criação voluntária de um estado de emergência permanente […] tornou-se uma das práticas essenciais dos estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos” (p.13, edição brasileira da Boitempo). Mais adiante: “o estado de exceção tende cada vez mais a se apresentar como o paradigma de governo dominante na política contemporânea” (p.13). Um pouco depois: o estado de exceção “não só sempre se apresenta muito mais como uma técnica de governo do que como uma medida excepcional, mas também deixa aparecer sua natureza de paradigma constitutivo da ordem jurídica” (p.18).

Agamben é um pensador que pode ser obscuro às vezes, mas ele não o é em nenhum momento nesse livro. A coisa é cristalina como água: o estado de exceção não é a ruptura da ordem jurídica, ele é o paradigma constitutivo da ordem jurídica. Ele não é uma espécie de falha na democracia, mas prática essencial dos estados democráticos. Ele não é uma sorte de desgoverno ou mau governo, mas paradigma dominante de governo na contemporaneidade.

Portanto, quando um partido político organiza um seminário com o título “Estado de exceção ou estado democrático de direito?”, a única resposta possível a esse título é que ele falsifica o conceito de estado de exceção para fazer uma pergunta que não tem o menor sentido. Um seminário político ou jurídico intitulado “estado de exceção ou estado democrático de direito” seria o equivalente a um seminário de medicina intitulado “gravidez ou parto”, um seminário de Letras com o nome de “livros ou literatura” ou um seminário de física batizado de “pedaladas ou bicicleta”. Se o estado de exceção é o fundamento e paradigma constitutivo da ordem jurídica nas democracias, como é possível juntar os dois sintagmas com a conjunção adversativa “ou”?

No próximo texto, tratarei de outra questão: a quem interessa o processo de falsificação do conceito de estado de exceção em curso hoje no Brasil. Spoiler: não é aos manos e às manas da quebrada.

Os campeões da edição em Photoshop

Ok, faz tempo que não nos divertimos neste site, é sempre assunto sério para lá e para cá. Mas como foi prometido que os textos “diruptivos” (como?) saem nas segundas, quartas e sextas, e que vai rolar alguma diversão nos outros dias, eu cobrei essa promessa dos editores.

Então, só para divertir um pouco os leitores, segue uma lista com os vencedores do concurso de melhor edição cômica de imagens, do pessoal do Bored Panda. Algumas imagens originais, você perceberão, são até mais divertidas que suas versões photoshopeadas.

1 – Testemunha de Pooh

“- Tem um minuto para ouvir a palavra do Senhor? Bem, tem ao menos um pote de mel?”

2 – Fazendo a Pré-história Grande Novamente.

“- Morra, Mexicanossauro! Morra!”

3 – O Lago das Preguiças.

“- Te prepara pro grands jeté, miga!”

4 – Pastor e Pastor.

“- Valeu pelo passeio, JC.”

5 – Alien Marinho.

“- Surpresa!”

6 – Beleza Americana.

“- You’re making Russia great again, honey.”

7 – Peach got Ass

“- Tenho outra tatuagem, querido, mas só me mordendo para ver.”

8 – Morra de inveja, John Wick.

“- Nem em Matrix você fez igual, Keanu!”

8 – Disfarçados de portão.

“- Mais uma piada sobre os irmãos cara-de-pau e leva bala.”

9 – Pricesa Perereca.

(Não se preocupe leitor, não faremos trocadilho com “Rã Solo”)

10 – Breaking Baby.

Afinal, um dia Holly White cresceria o suficiente para continuar o negócio da família.

11 – This is Sparta!

“- Ah, grande gênio, como se eu não tivesse asas para voar se for preciso.”

12 – Catioro Logan

Tradução: “O ar-condicionado está ligado. Ele tem água e está ouvindo sua música favorita.”

14 – Mão peluda.

“- Lamento dizer, Sr. Presidente, a etiqueta diz “Made in China”.”

O Segredo de Elon Musk, parte 5

1

[Nota do editor: esta é a terceira parte da tradução autorizada do texto original de Tim Urban; antes, recomendamos que você leia a parte 4.]

COMO SER COMO ELON MUSK

Sempre que há algum fenômeno curioso na natureza humana – alguma insanidade coletiva de que todos nós sofremos – geralmente a culpa é da evolução. Aqui a história não é diferente.

No que diz respeito à cozinha mental em que preparamos nossos raciocínios, estamos naturalmente inclinados ser meros cozinheiros, não chefs. E isso relaciona-se ao nosso passado evolutivo tribal. Em primeiro lugar, ser um seguidor de ideias consensuais da tribo é um modelo considerado melhor na estrutura tribal. Em 50.000 A.C., provavelmente tribos cheias de pensadores independentes tiveram muitos problemas, e uma tribo com um líder forte no topo e o resto dos membros simplesmente o seguindo era um modelo melhor. Logo esse tipo de tribo passou seus genes mais do que a outras tribos. E agora somos os descendentes coletivos das pessoas com mais inclinação a seguir ideias do que pensar independentemente.

Segundo, trata-se de nosso próprio bem-estar. Não está em nosso DNA sermos pensadores independentes pois a autopreservação humana nunca dependeu de pensamento independente – dependeu de se adequar a uma tribo, obedecer a um chefe, seguir os passos que os anciãos ensinavam a fim de se permanecermos vivo e transmitirmos a mesma postura a nossos filhos. E é por isso que agora vivemos numa comunidade em que pais ensinam seus filhos a serem cozinheiros e não chefs na cozinha do pensamento, dizendo-lhes que sigam a receita de como viver sem fazer muitas perguntas sobre isso.

Não sabemos pensar de forma independente pois o nascemos para fazer é sobreviver.

Mas a coisa estranha é que não nascemos em um mundo humano normal. Vivemos na anomalia, uma época em que para muitas pessoas a sobrevivência física não é um desafio diário. As sociedades privilegiadas de hoje estão cheias de seres humanos que são anomalias, pois as demandas fundamentais que seu corpo está programado para buscar já são facilmente satisfeitas cotidianamente, atenuando o ensurdecedor grito das necessidades básicas e permitindo que sua voz autêntica seja ouvida em todos os seus nuances e complexidades.

O problema é que a maioria de nossas cabeças ainda está rodando em alguma versão do software de sobrevivência de 50 mil anos atrás – o que é um triste desperdício de oportunidades, considerando a época em que nascemos.

É como se estivéssemos encurralados: nós continuamos a pensar como membros de uma tribo primitiva pois não podemos assimilar a epifania de que estamos vivos em uma sociedade anômala, na qual não precisamos obedecer uma receita de como pensar, e não conseguimos assimilar essa epifania porque pensamos seguindo receitas de como pensar e assim não sabemos como atualizar o software que está em nossa própria cabeça.

Esse é o ciclo vicioso de nossa época – e o segredo de pessoas como Elon Musk é que eles de alguma forma saíram disso.

Então, como podemos sair desse transe?

Eu acho que há três grandes epifanias que precisamos absorver – três coisas fundamentais que um pensador independente sabe e a maioria de nós não.

EPIFANIA 1: VOCÊ NÃO SABE NADA.

Os geólogos que nos séculos XVII e XVIII acreditavam no grande dilúvio descrito na Bíblia não eram estúpidos. E eles não eram anticientíficos. Muitos deles eram tão realizados em seus campos como seus colegas que rejeitavam o mito diluviano.

Mas eles foram vítimas – vítimas de um dogma religioso que lhes foi dito para acreditar sem questionar. A receita que eles seguiram foi a Bíblia, uma receita que acabou por se mostrar errada. E, como resultado, eles seguiram seu caminho com uma falha fatal em seu pensamento – um bug de software que lhes disse que um dos primeiros princípios inegáveis quando se pensava sobre a Terra era que ela surgiu há 6.000 anos e que tinha havido uma inundação de proporções épicas.

Com esse bug no software, todos os cálculos consequentes acabam errados. Qualquer linha de raciocínio fundada nesses pressupostos não tem qualquer chance de encontrar a verdade.

Ainda mais do que serem vítimas de um dogma, os geólogos que acreditavam no dilúvio bíblico foram vítimas de suas próprias convicções. Sem convicções, o dogma não tem qualquer poder. E quando convicções são necessários para se acreditar em algo, o dogma não tem como se sustentar. Não foi o dogma da Igreja que impediu os geólogos diluvianos de encontrarem a verdade, foi a mentalidade defendida pela igreja, em que convicções são baseadas na fé.

Isso é o que Stephen Hawking quis dizer quando falou: “O maior inimigo do conhecimento não é ignorância, é a ilusão de conhecimento”. Nem o geólogo científico nem o geólogo que acreditava no dilúvio bíblico começaram possuindo conhecimento. Mas o que deu ao geólogo científico o poder de procurar a verdade foi saber que ele não possuía conhecimento. Ele adotou a mentalidade do laboratório, que começa com “eu não sei merda nenhuma” e trabalha a partir disso.

Se você quiser ver a mentalidade do laboratório o trabalhando, basta procurar citações famosas de qualquer cientista proeminente e você verá cada um deles expressando o fato de que eles não sabem nada.

Veja o que Isaac Newton dizia: Eu me considero apenas uma criança num praia, com o vasto oceano da verdade desconhecida diante de mim.

E Richard Feynman: Eu nasci sem saber nada e tive apenas um pouco de tempo para mudar essa situação aqui e ali.

E Niels Bohr: Cada frase que falo não pode ser entendida como uma afirmação, mas uma pergunta.

Musk tem sua própria versão: Você deve partir do princípio de que está errado, e seu objetivo deve ser estar menos errado.

A razão pela qual essas pessoas escandalosamente inteligentes são tão humildes sobre o que sabem é que, como cientistas, estão conscientes de que ter certezas injustificadas significa banir o entendimento e matar o raciocínio efetivo. Elas acreditam firmemente que todo tipo de raciocínio deve ocorrer em um laboratório, e não em uma igreja.

Se quisermos ser como essas pessoas, temos que nos certificar de que estamos desenvolvendo o nosso pensamento num “laboratório”. O que significa identificar quais partes do nosso pensamento estão atualmente sentadas numa igreja.

Mas isso é difícil de fazer porque a maioria de nós tem o mesmo relacionamento com o software em sua cabeça que minha avó tem com o computador: é algo que alguém colocou lá, que usamos quando precisamos, que funciona magicamente de alguma forma e que esperamos jamais quebrar. É a maneira como agimos diante de muitas das coisas que possuímos: somos só um usuário ignorante, e não um profissional. Nós sabemos como usar nosso carro, microondas e celular, mas se quebrarem nós levamos ao profissional para consertá-la porque não temos idéia de como ele funciona.

Mas esse não é um modelo de vida recomendável quando se trata do software em nosso cérebro, e geralmente nos leva a cometer os mesmos erros e a viver obtendo os mesmos resultados ano após ano após ano, porque o nosso software permanece inalterado. Eventualmente, podemos acordar um dia sentindo-se como Walter White, de Breaking Bad, no momento em que ele diz: “Às vezes, sinto que nunca fiz minhas escolhas. Quero dizer, parece que eu nunca tive o direito de dar minha opinião sobre a minha própria via.” Se queremos entender nosso próprio pensamento, devemos parar de ser o usuário estúpido de nosso próprio software e nos tornarmos profissionais em seu funcionamento e aprimoramento.

Se você estivesse sozinho em uma sala com um carro e quisesse descobrir como funciona, provavelmente começaria a desmontá-lo o máximo que pudesse, examinando as peças e como elas se encaixam. Para fazer o mesmo com o nosso pensamento, precisamos reverter para o nosso eu de quatro anos de idade e começar a desconstruir nosso software, retomando o Jogo do Porquê nossos pais e professores reprimiram décadas atrás. É hora de arregaçar as mangas, abrir o capô e nos sujar com um monte de perguntas não divertidas sobre o que realmente queremos, o que é realmente possível e se a maneira como vivemos nossas vidas decorre logicamente das respostas obtidas para essas perguntas.

Com cada uma dessas questões, o desafio é continuar perguntando até chegar ao fundamento de tudo – e o fundamento de tudo é o que irá dizer se você está em uma igreja ou em um laboratório nessa etapa particular da sua vida. Se o fundamento que você encontra é composto de um ou mais primeiros princípios que refletem a verdade das coisas ou o seu eu autêntico, e se a lógica desenvolvida a partir desse fundamento mantém-se consistente e acurada, você está num laboratório. Se o fundamento que você encontra na resposta a um “Porquê?” é “Porque [uma autoridade] disse que é assim”, se no final você concluir que o fundamento de tudo é algo que seus pais ou sociedade ou amigos ou religião disse que é verdade, então você está na Igreja. E se os princípios dessa igreja não refletem realmente quem você é nem a realidade atual do mundo (se no final ficar claro que você está cozinhando com a receita errada) então qualquer conclusão que tenha sido construída em cima disso estará errada. Conforme demonstrado pelos geólogos que acreditavam no dilúvio bíblico, uma cadeia de raciocínio é tão forte quanto o seu elo mais fraco.

Os astrônomos atingiram uma parede semelhante em seu progresso tentando calcular as trajetórias do sol e dos planetas no Sistema Solar. Então um dia eles descobriram que o Sol estava no centro das coisas, e não a Terra, e de repente todos os cálculos desconcertantes faziam sentido e o progresso avançou. Se tivessem jogado o Jogo do “Porquê” mais cedo, teriam encontrado um fundamento dogmático logo após a pergunta “Mas por que sabemos que a Terra está no centro de tudo?”

A vida das pessoas não é diferente, e é por isso que é tão importante encontrar os aspectos tóxicos de dogmas falsos colocados em seu software de raciocínio. Identificá-los e ajustar o software pode fortalecer toda a cadeia de raciocínios e criar um avanço na sua vida.

 

A coisa que você quer encontrar é uma convicção injustificada. Onde na vida você se sente tão convicto sobre algo a ponto dessa convicção qualificar-se não como uma hipótese ou mesmo uma teoria, mas como uma prova? Quando existe esse nível de certeza, significa ou que há consideráveis dados concretos e comprovados no seu fundamento ou que se trata de um dogma baseado em fé. Talvez você esteja convicto de que desistir de seu trabalho seria um desastre, ou convicto de que não existe um Deus, ou convicto de que é importante fazer faculdade – mas, se sua convicção não for bem respaldada por dados que você próprio obteve e experimentou, então ela é, no melhor caso, só uma hipótese, e no pior, um completamente falso.

E se pensar sobre tudo isso termina com você perdido em alguma combinação de auto-dúvida, auto-aversão e crise de identidade, isso é perfeito. Esta primeira epifania é sobre humildade. A humildade é, por definição, um ponto de partida – e a viagem começa a partir dela. A arrogância da convicção é tanto um ponto de partida quanto um ponto final – não é necessário fazer viagens. É por isso que é tão importante que comecemos com “Não sei merda nenhuma”. É aí que sabemos que estamos no laboratório.

EPIFANIA 2: NINGUÉM MAIS SABE MERDA NENHUMA

O clássico conto A Roupa Nova do Rei, escrito em 1837 por Hans Christian Andersen, demonstra uma marca registrada da insanidade humana: o fenômeno em que pensamos “Isso não parece certo, mas todas as pessoas dizem que é certo, então deve ser certo e eu vou só fingir que acho que é certo e aí ninguém vai notar que sou um idiota”.

Minha citação favorita de Steve Jobs é a seguinte:

“Quando você cresce, tende a achar que o mundo é do jeito que é e que sua vida é só viver dentro deste mundo, tentando não bater muito nas suas paredes, tentando ter uma boa família, divertir-se, guardar algum dinheiro. Mas essa é uma vida muito limitada. A vida pode ser muito mais plena, uma vez que você descobre um fato simples: o fato de que tudo ao seu redor, que você chama de “vida”, foi feito por pessoas que não eram mais inteligentes do que você. E você pode mudar isso, você pode influir, pode criar suas próprias coisas que outras pessoas poderão usar. No momento em que aprende isso, jamais será o mesmo novamente.”

My favorite all-time quote might be Steve Jobs saying this:

Esse é o jeito de Jobs dizer: “Você pode não saber merda nenhuma, mas ninguém sabe merda nenhuma. Se o rei parece estar nu e todo mundo ao seu redor diz que ele está vestido, confie nos seus olhos pois as outras pessoas não sabem nada que você não saiba.”

É uma mensagem fácil de entender, mas difícil de assimilar, e ainda mais difícil de servir de regra para a condução de nossas vidas.

O propósito da primeira epifania é destruir as crença de que todos os dogmas que você assimilou constituem sabedoria e de que todas as convicções que você tem constituem conhecimento. A primeira epifania é a mais fácil pois a ilusão de que sabemos algo é bem frágil, já que secretamente somos assombrados pela sensação de que “Meu Deus sou uma fraude que não sabe nada”.

Mas essa segunda epifania (de que o coletivo “as outras pessoas” e a sabedoria convencional não sabem merda nenhuma) é um desafio muito maior. Nossa ilusão sobre a sabedoria de quem está ao nosso redor, nossa tribo e sociedade como um todo, é muito mais forte e está situada em um nível muito mais profundo do que a ilusão que nutrimos sobre nós próprios. Tão profundamente que veríamos o rei nu e ignoraríamos o que estamos vendo se alguém dissesse que e ele está vestido.

Esta é uma batalha entre dois tipos de confiança: a confiança nos outros e a confiança em nós mesmos. Para a maioria das pessoas, a confiança nos outros geralmente sai vencedora.

Para manter o equilíbrio, precisamos descobrir como perder o respeito pelo consenso coletivo em geral, pelo dogma da sua tribo e pela sabedoria convencional da sociedade. Há um monte de palavras românticas para os gênios do mundo que soam impressionantes, mas na verdade eles são apenas o resultado de terem perdido esse respeito. Para ser um gamechanger basta apenas ter pouco respeito por um jogo em que você percebe que não há boas razões para não se alterarem as regras. Para ser um pioneiro basta não respeitar os caminhos usuais e, assim, decidir-se a se criar um caminho novo. Para ser um groundbreaker basta saber que os fundamentos não foram criados por ninguém tão impressionante e, portanto, não há necessidade de mantê-los intactos.

Não respeitar a sociedade é algo totalmente contraintuitivo em relação ao que nos ensinam quando crescemos – mas faz todo o sentido se você apenas considera o que seus olhos vêem e o que a experiência lhe diz.

Há indícios ao redor que nos mostram que a sabedoria convencional não conhece merda nenhuma. A sabedoria convencional adora o status quo e sempre assume que tudo é como é por uma boa razão – e a história é um longo registro do dogma do status quo sendo desconstruído repetidas vezes, sempre que algum cozinheiro chega e muda as coisas.

E se você abrir os olhos, há outras pistas ao longo de toda a sua própria vida de que a sociedade na qual você vive não sabe coisa alguma de nada. Todas as vezes que você aprende o que realmente acontece dentro de uma empresa e descobre que ela é totalmente desorganizada. Todas as pessoas em posições de liderança ou sucesso que são infelizes em suas vidas pessoais. Todos os programas de humor da TV cujas piadas você tem certeza de que poderia ter escrito quando tinha 14 anos. Todos os políticos que não parecem saber mais sobre o mundo do que você.

E, no entanto, a ilusão de que a sociedade sabe alguma coisa que você não sabe está profundamente arraigada em sua mente. E em algum lugar no fundo de sua cabeça você ainda acha que é uma expectativa irreal criar aquela empresa, ter aquela riqueza fabulosa, fazer aquele programa de TV, vencer aquela eleição para o senado – não importa como as coisas pareçam ser.

Às vezes é necessário uma verdadeira experiência para ficar exposto o fato de que a sociedade não sabe nada. Um exemplo na minha vida é como lentamente comecei a entender como a maioria dos norte-americanos (o público mais amplo, minha tribo e pessoas que conheço bem) sabe muito pouco sobre o que está ocorrendo no mundo. Cresci ouvindo sobre como quão perigoso era visitar países distantes, especialmente sozinho. Mas quando comecei a ir para lugares que eu não deveria ir, continuava achando que a sabedoria convencional estava errada sobre isso. Como eu tinha mais experiências e reuni mais dados reais, cresci cada vez mais confiando em meu próprio raciocínio sobre o que os americanos estavam dizendo. E à medida que minha confiança cresceu, lugares como Tailândia e Espanha se transformaram em lugares como Omã e Uzbequistão, que se transformaram em lugares como Nigéria e Coréia do Norte. Quando se trata de viajar, tive a epifania: as opiniões veementes de outras pessoas sobre isso são baseadas em dogmas não comprovado e o fato de que a maioria das pessoas com quem falo sentem-se da mesma maneira não significa nada se minha própria pesquisa, experiência e perguntas seletivas me levarem a uma conclusão diferente. Quando se trata de escolher destinos de viagem, eu me tornei um chef.

Eu tento aproveitar o que eu aprendi como viajante para transferir essa habilidade de raciocínio para outras áreas – quando me vejo desanimado em outra parte da minha vida devido aos avisos e receios da sabedoria convencional, tento lembrar-me: “Estas são as mesmas pessoas que tinham certeza de que a Coréia do Norte era perigosa.” É difícil (você tem que fazer essa ruptura em cada parte de sua vida) mas parece que com cada sucessivo êxito, avanços futuros tornam-se mais fáceis de acontecer. Eventualmente, você deve atingir um ponto de inflexão em que confiar em seu próprio software torna-se uma forma de viver – e, como Jobs disse, você nunca mais será o mesmo.

A primeira epifania foi sobre destruir uma concha protetora de arrogância para colocar a humildade como ponto de partida. Esta segunda epifania é sobre confiança – a confiança para emergir dessa humildade através de um caminho construído sobre os primeiros princípios. É uma confiança que diz: “Eu talvez não saiba muito, mas ninguém mais sabe, então eu também poderia ser a pessoa mais experiente na Terra”.

EPIFANIA 3: VOCÊ ESTÁ JOGANDO GRAND THEFT LIFE

As duas primeiras epifanias nos permitem abrir nosso software, identificar quais partes dele foram colocadas por outra pessoa e, com confiança, começamos a preencher as caixas Desejos e Realidade do nosso próprio jeito a fim de escolher um objetivo e traçar uma estratégia adequada para nós.

Mas então, atingimos um obstáculo. Estamos finalmente no laboratório com todas as nossas ferramentas e equipamentos, mas algo nos detém. Para descobrir o porquê, vamos lembrar nossa história do rei.

Na situação ilustrada pelo conto A Roupa Nova do Rei existem quatro tipos de pessoas:

1) O pensador tribal: o pensador tribal é a pessoa que aceita todo o dogma. Qualquer voz do pensamento independente que exista dentro do pensador tribal já foi silenciada há tempos, e não há distinção entre seu pensamentos e o dogma que ele segue. Até onde lhe diz respeito, o dogma é a verdade. Mas como ele não percebe sequer que há um dogma sendo seguido, ele simplesmente pensa que é um sujeito esperto que já sabe como a vida é. Ele sente a força do dogma correndo por suas veias. Quando o rei se expõe nu e proclama que está vestindo belas roupas, o pensador tribal realmente essas roupas, pois ele sequer tem sua consciência desperta.

2) O pensador inseguro. O pensador inseguro é o que o pensador confiante se transforma depois de passar pela primeira epifania. Ele tem um pouco consciência sobre si mesmo – o suficiente para se tornar consciente do fato de que realmente não sabe porque tem tantas convicções sobre tantas coisas. Quaisquer que sejam as razões, ele tem certeza de que suas convicções estão certas, mas ele não consegue dizer o motivo. Sem a soberba e arrogância do pensador confiante, o pensador inseguro está perdido no mundo, perguntando-se porque é muito burro para entender o que todos parecem entender, e assim ele observa os outros para descobrir o que deveria fazer – tudo isso enquanto espera que ninguém descubra que ele não sabe nada. Quando o pensador inseguro vê o rei, sente-se péssimo: ele não vê as roupas do rei, e sim seu corpo nu. Com vergonha, ele observa a multidão e imita seu entusiasmo pelas roupas.

3) O pensador enrustido. O pensador enrustido é aquele que atingiu a Epifania 2, e percebeu que ninguém ao seu redor sabe coisa nenhuma sobre
a vida. Essa epifania é o fruto proibido, e o pensador enrustido o mordeu. Ele sabe exatamente a razão pela qual não se sente seguro sobre coisa alguma: porque tudo o que lhe foi dito desde a infância era bobagem. Ele vê as falácias da sabedoria convencional da sociedade como elas realmente são: fé baseada em dogma. Ele sabe que ninguém, nem ele próprio, entende coisa alguma e que irá passar muito mais tempo elaborando seus próprios raciocínios do que seguindo cegamente o caminho das massas.

Quando o rei surge nu, o pensador enrustido pensa “Deus, esse idiota realmente saiu nas ruas pelado, e esses idiotas estão fingindo que vêem as suas roupas! Como isso se tornou minha vida? Preciso fazer algo.”

Mas quando ele está pronto para chamar a atenção de todo mundo sobre o fato de que o rei está na verdade nu e não vestido, isso fica entalado na sua garganta. Sem dúvida ele sabe que o rei está nu – mas dizer isso em voz alta? Ele tem certeza do que está vendo, mas acha melhor pisar no freio neste momento. Sente que é melhor não chamar muita atenção para si. E, claro, há alguma chance de que ele esteja deixando de perceber alguma coisa importante sobre tudo. Ou não?

O pensador enrustido acaba ficando em silêncio, grunhindo algo quando os outros súditos o perguntam se não acha magníficas as roupas nova do imperador.

4) O pensador independente. É a criança que, na história da Roupa Nova do Rei, diz a todos imediatamente que o rei está nu. Ele é o pensador enrustido – só que sem seu medo irracional. O pensador independente passa pelo mesmo processo do pensador enrustido, mas quando chega a hora em que é evidente um erro, ele levanta a voz e diz a verdade.

Uma recapitulação visual:

 

Somos todos humanos e somos todos complexos, o que significa que, em várias épocas de nossas vidas, encarnamos cada um desses quatro personagens.

Mas para mim, o pensador enrustido é o mais curioso dos quatro. Ele percebeu a verdade. Ele sabe o que os chefes sabem. Ele está tentadoramente perto de descobrir seu caminho para ser um pensador independente no mundo, e ele sabe que, se simplesmente o fosse, coisas boas aconteceriam. Mas ele não consegue iniciar esse processo. Ele construiu para si mesmo um par de asas que funcionam e podem voar, mas ele não as coloca para saltar do penhasco.

E enquanto ele fica ao lado do penhasco com os outros cozinheiros, ele tem que suportar a tortura de assistir os pensadores independente do mundo saltarem da borda com as mesmas exatas asas e as habilidades de vôo que ele tem, mas com a coragem que ele não consegue achar em si.

Para entendermos o que acontece dentro do pensador enrustido, vamos nos lembrar de como funciona o pensador independente.

Livre da trepidação interna do pensador enrustido, o pensador independente pode colocar seu jaleco e começar a trabalhar em seu laboratório. Para ele, o mundo é um gigante laboratório, e sua vida é uma longa investigação racional com um milhão de experimentos. Ele gasta seus dias jogando, e a sociedade é seu tabuleiro.

O pensador independente trata seus objetivos e empreendimentos como experimentos cujo objetivo é tanto aprender novas informações quanto serem um fim em si mesmos. Por isso, quando perguntei a Musk sua opinião sobre comentários negativos que lhe fazem, ele respondeu com isso:

Acredito muito na importância de termos feedback. Estou tentando criar um modelo mental que é acurado, e se eu tiver alguma percepção errada sobre alguma coisa, ou se houver aprimoramentos que podem ser feitos nesse modelo, eu direi ‘eu costumava pensar desse jeito e isso mostrou-se equivocado – agora graças a deus eu não tenho mais essa opinião equivocada’.

Para um pensador independente em seu laboratório, receber feedback negativo significa impulsionar o seu progresso, uma gentileza feita por alguém. Algo puramente vantajoso.

Quanto à palavra que começa com F, a palavra que nos dá um frio na barriga, os grandes pensadores independentes tem algo a dizer a respeito:

Falhar é simplesmente ter uma oportunidade para recomeçar, dessa forma mais inteligentemente. – Henry Ford.

Chegamos ao sucesso indo de falha em falha sem perder o entusiasmo. – Winston Churchil.

Não falhei 700 vezes. Eu fui bem-sucedido em provar de 700 maneiras como não fazer uma lâmpada. – Thomas Edison

Não há garantia mais confiável do que o testemunho de pessoas super bem-sucedidas considerando o fracasso fantástico.

Mas há uma razão para isso. A abordagem científica trata de aprender através do teste de hipóteses, e as hipóteses são feitas para serem provadas, o que significa que os cientistas aprendem com o fracasso. A falha é uma parte crítica de seu processo.

Faz sentido. Se houver dois cientistas tentando progredir no tratamento do câncer, e o primeiro está tentando até as coisas mais ousadas que ele pode imaginar, falhando de todas as formas e aprendendo algo de cada vez, enquanto o segundo está determinado a não ter falhas, assegurando-se de que seus experimentos sejam semelhantes aos experimentos já feitos por outras pessoas, em qual cientista você apostaria?

Não é de admirar que muitas das pessoas mais impressionantes parecem tratar o mundo como um laboratório e sua vida como uma grande experiência – essa é a melhor maneira de ter sucesso em alguma coisa.

Mas, para a maioria de nós, simplesmente isso não é possível. Mesmo o pobre pensador enrustido, que está tão malditamente perto de ser um pensador independente, mas de alguma forma ainda longe.

Então, o que o está impedindo? Eu acho dois grandes equívocos o impedem:

EQUÍVOCO 1: MEDO MAL DIRECIONADO

Falamos sobre a coragem do pensador independente como sendo, na verdade, apenas uma avaliação precisa do risco – e essa é uma das principais coisas que falta ao pensador enrustido. Ele acha que ele se tornou inteligente ao perceber a farsa que seria deixar o dogma ditar sua vida, mas ele ainda está sob o efeito do truque mais esquisito do dogma.

Os seres humanos estão programados para levar o medo muito a sério, e a evolução não achou eficiente fazer com que avaliássemos e reavaliássemos cada medo dentro de nós constantemente. Em vez disso a evolução adotou a filosofia “melhor prevenir do que remediar” – isto é, se houver uma chance de que certo medo possa basear-se em perigo real, catalogue-o como um medo real, por garantia, e mesmo se você confirmar depois que esse medo não tem fundamento, mantenha-o com você, apenas por garantia. Melhor prevenir do que remediar.

E o nosso catálogo de medos está em algum lugar em nossa psique – em algum lugar bem abaixo de nossos centros de racionalidade, ou seja, fora do alcance.

O objetivo de todo esse medo é nos proteger do perigo. O problema é que, no que diz respeito à evolução, o perigo significa algo que prejudica a chance de seus genes se espalharem, ou seja, o risco de não se acasalar, de morrer ou de seus filhos morrerem. Isso é tudo.

Assim, da mesma forma que nossa habilidade de pensar foi adaptada para a sobrevivência nos tempos tribais, nossa obsessão com medos de todas as formas e tamanhos pode ter sido útil na Etiópia de 50 mil anos atrás. Mas hoje em dia arruína nossas vidas.

Porque não só aumenta o nosso medo em geral para “que horror estamos sem caça o suficiente e toda a tribo morrerá de fome no inverno” quando o que ocorre é “droga fui demitido e agora vou ter que morar na casa dos meus pais por alguns meses”. Temos mais medo de falar em público do que enviar mensagens de texto enquanto dirigimos, mais medo de se aproximar de um estranho atraente num bar do que de casar com a pessoa errada, mais medo de não ter o mesmo estilo de vida que nossos amigos do que passar 50 anos numa carreira vazia e sem sentido – tudo por causa do medo de passar vergonha, ser rejeitado e não se ajustar a eventos sociais.

Isso deixa a maioria de nós com uma escala de perigo distorcida:

Pensadores independentes odeiam o risco real tanto quanto os cozinheiros – um pensador independente que entra em território realmente perigoso e acaba na prisão, na sarjeta ou em terríveis dificuldades financeiras não é um pensador independente – ele é um pensador tribal que vive sob o dogma do “Sou Invencível”.

Quando vemos os pensadores independentes exibindo o que parece uma coragem incrível, geralmente eles estão trabalhando no seu laboratório. O laboratório de um pensador independente é onde toda a ação acontece e onde é construído o caminho para a realização para muitos sonhos de vida – sonhos sobre a carreira, sobre o amor, sobre aventuras. Mas, mesmo que suas portas estejam sempre abertas, a maioria das pessoas nunca pisou no laboratório pelo mesmo motivo que muitos americanos nunca visitarão alguns dos países mais interessantes do mundo – devido a uma suposição incorreta de que é um lugar perigoso.

Ao raciocinar por analogia quando se trata de categorizar o perigo, o pensador enrustido acaba mal direcionando o seu medo, e assim perde toda a diversão.

EQUÍVOCO 2: IDENTIDADE MAL DEFINIDA

O segundo maior problema do pensador enrustido é que, como todo mundo que não é um pensador independente, ele não consegue se convencer de que é o cientista no laboratório – e não experimento.

Como estabelecemos anteriormente, os membros de uma tribo de pessoas conscientes chegam a conclusões, enquanto os membros de uma tribo cega pelo dogmatismo são as conclusões. E o que você acredita, o que você defende e o que você escolheu fazer a cada dia são conclusões a que você chegou. Em alguns casos, muito, muito publicamente.

No que diz respeito à sociedade, quando você dá uma chance a algo (no front dos valores, no front da moda, no front religioso, no front da carreira, você se marca. E uma vez que as pessoas gostam de simplificar os outros para dar sentido às coisas em sua própria cabeça, a tribo ao seu redor reforça sua marca, colocando você em uma caixa claramente marcada e simplificada.

O que isso significa é que se torna muito doloroso mudar. Mudar alguma coisa é doloroso para alguém cuja identidade terá que mudar junto com isso também. E os outros não facilitam as coisas. Os membros da tribo cega não gostam quando um membro muda, pois isso os deixa confusos, isso os força a ajustarem as informações em sua cabeça, e isso ameaça a simplicidade de sua certeza tribal. Por isso Por isso, as tentativas de evoluir são freqüentemente confrontadas com oposição, zombaria ou raiva.

E quando você tem dificuldade em mudar, você se apega a quem você é atualmente e ao que está fazendo atualmente – tão fortemente que embaralha a distinção entre o cientista e a experiência até você esqueces que são duas coisas diferentes.

Nós conversamos sobre por que os pensadores independentes são receptivos a feedbacks negativos sobre suas experiências. Mas quando você é a experiência, o feedback negativo não é uma informação nova e útil – é um insulto. E isso machuca. E isso te deixa louco. E porque a mudança parece ser impossível a você, não há nada positivo que o feedback possa trazer de qualquer maneira. É como dar aos pais um feedback negativo sobre o nome da criança de um mês de idade.

Nós discutimos porque os cientistas esperam que muitas de suas experiências falhem. Mas quando você e o experimento são uma só coisa, você não está apenas estabelecendo que uma mudança em si é seu novo objetivo – você está colocando a sua própria identidade em teste. Se o experimento falhar, você falhará. Você será uma falha. Devastadora. Eterna.

Falei com Musk sobre os Estados Unidos e a maneira como os seus fundadores raciocinaram pelos primeiros princípios quando começaram o país. Ele disse que pensou que o motivo pelo qual eles puderam fazer isso é que eles tinham um papel e branco para trabalhar. Os países europeus daquela época teriam tido muito mais dificuldade em tentar fazer algo assim – porque, como ele me disse, eles estavam “presos em sua própria história”.

Ouvi Musk usar essa mesma frase para descrever as grandes empresas aeroespaciais de hoje em dia. Ele vê Tesla e SpaceX como os EUA do século dezoito (novos laboratórios para experimentos), mas quando ele olha para outras empresas, ele vê uma incapacidade de impulsionar suas estratégias partindo de uma mentalidade de folha em branco. Referindo-se à indústria aeroespacial, Musk disse: “Há um tremendo viés contra riscos. Todo mundo está tentando ampliar o seguro de vida de seus próprios rabos”.

Estar preso na sua própria história significa que você não sabe como mudar, esqueceu como inovar e está preso na caixa de identidade em que o mundo colocou. E você acaba sendo o pesquisador de câncer que mencionamos, que só faz experimentos que tendem a ser bem-sucedidos dentro da zona de conforto em que se acomodou.

É por esta razão que Steve Jobs olha para trás e vê sua demissão da Apple em 1986 como uma benção disfarçada. Ele disse: “Sair da Apple foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. O peso do sucesso foi substituído pela leveza de ser um iniciante novamente. Isso me liberou para entrar em um dos períodos mais criativos da minha vida.” Ser despedido “libertou”Jobs dos grilhões de sua própria história.

Então, o que o pensador enrustido tem para se perguntar é: “Estou preso na minha própria história?” Quando ele está no penhasco com as asas pronta para voar e se vê paralisado (de evoluir como pessoa, de fazer mudanças em sua vida, de tentar fazer algo ousado ou incomum) parte do que o está segurando é a bagagem de sua própria identidade?

As crenças do pensador enrustido sobre o que é assustador não são mais reais do que a suposição do pensador inseguro de que a sabedoria convencional tem todas as respostas. Mas ao contrário da epifania “as pessoas não sabem nada”, cujas evidências você pode encontrar em todo o lugar, a epifania de que nem falhar nem mudar são coisas realmente perigosas apenas pode ser vivenciada quando fazemos experimentos em nossas próprias vidas. E isso você só pode fazer depois de superar esses medos – o que só acontece se você experimentar mudar e falhar e perceber que nada de ruim acontece. Outro beco sem saída.

Estas são as razões pelas quais eu acredito que tantas das pessoas mais capazes do mundo estão presas na vida de pensador enrustido, há uma epifania de distância da Terra Prometida.

O desafio com esta última epifania é descobrir alguma forma de perder o respeito pelo seu próprio medo. Esse respeito está em nossa programação mais básica, e a única maneira de enfraquecê-lo é desafiá-lo e observar, quando nada de ruim acontece, que a maior parte do medo que você sentia tem a consistência da fumaça. Fazer algo fora de sua zona de conforto e ver que nada de ruim aconteceu é uma experiência incrivelmente poderosa, que nos transforma. E cada vez que você possui esse tipo de experiência, ela enfraquece seu respeito por medos irracionais e arraigados em seu cérebro.

Porque a coisa mais importante que o pensador independente sabe é que a vida e o Grand Theft Auto não são tão diferentes. Grand Theft Auto é um jogo de vídeo divertido porque é um mundo falso onde você pode fazer coisas sem medo. Conduzir a duzentos por hora na rodovia. Parar o carro batendo num prédio. Atropelar um inocente com seu carro. Tudo isso é permitido em GTA.

Ao contrário do GTA, na vida real, a lei e a prisão são coisa séria. Mas é aí que as diferenças terminam. Se alguém lhe deu uma simulação perfeita do mundo de hoje para jogar e disse que é tudo falso e sem conseqüências reais (com as únicas regras sendo não desobedecer a lei ou machucar alguém, e você ainda tem o dever de prover as necessidades básicas de sua família), o que você faria?

Acho que a maioria das pessoas faria todo o tipo de coisas que gostariam de fazer em sua vida real, mas que não se atreveram a tentar. E que ao se comportarem este jeito, acabariam rapidamente fazendo de sua vida nessa simulação algo muito mais bem sucedido e muito mais verdadeiro para elas do que a vida real que estão vivendo atualmente. A remoção do medo e da preocupação com uma identidade ou com as opiniões dos funcionários impulsionaria a pessoa para o laboratório pensador independente, algo que não é realmente arriscado, e as faria se jogar em experimentos e lugares muito distantes de sua zona de conforto – e suas vidas iriam decolar. Essa é a vida que os medos irracionais nos impedem de termos.

Quando olho para os incríveis pensadores independentes do nosso tempo, o que fica claro é que eles estão mais ou menos tratando a vida real como se fosse a vida do Grand Theft Auto. E agir assim lhes dá superpoderes. Isso é o que eu acho que Steve Jobs quis dizer todas as vezes em que falou: “Fique faminto. Permaneça tolo”.

E é por isso que, se as duas primeiras epifanias envolvem humildade e confiança, a terceira epifania envolve destemor.


 

Então, se queremos pensar como um cientista mais frequentemente na vida, esses são os três objetivos-chave: ser mais humilde sobre o que sabemos, mais confiante sobre o que é possível e ter menos medo de coisas que não importam.

É um bom plano – mas também exaustivo. Certo? Isso é um monte de coisas para se tentar fazer.

Normalmente, no final de um texto como esse, o ponto principal parece gerenciável e concreto, e eu termino de escrever animado para executar o que aprendemos. Mas esta publicação foi como, “Aqui está tudo que importante e vá fazê-lo.” Então, como trabalhamos com isso?

Acho que a chave é não tentar ser um chef perfeito nem esperar isso de você mesmo. Porque ninguém é um chef perfeito, nem mesmo o Elon. E ninguém também é puro cozinheiro amador – nada é preto e branco quando você está falando sobre uma espécie animal cujo cérebro contém 86 bilhões de neurônios. A realidade é que todos somos um pouco de ambos, e o lugar em que estamos nesse espectro varia de 100 maneiras diferentes, dependendo da parte da vida em questão, de nossa situação no cenário evolutivo e de nosso humor em determinado dia.

Se queremos melhorar a nós mesmos e nos aproximarmos do lado chef do espectro, devemos lembrar de lembrar. Temos que lembrar que temos software, não apenas hardware. Temos que lembrar que o raciocínio é uma habilidade e, como qualquer habilidade, você melhora com isso a medida em que se dedica a isso. E temos que lembrar da distinção cozinheiro/chef, para que possamos perceber quando estamos sendo como um ou outro.

A “Criminalização da Política”

Há algo curioso acontecendo com a palavra “criminalização” desde que ela passou a ser usada em expressões como “criminalização da política” ou “criminalização do BNDES”. É bem lamentável o enfraquecimento do poder desse vocábulo ao ser usado nessas expressões, porque ele sempre foi um instrumento importante da crítica social. Mas trata-se de mais uma a caminho do cemitério das palavras.

Ao contrário do substantivo concreto “crime”, o substantivo abstrato “criminalização” não pressupõe que existam crimes, assim, sem mais, práticas criminosas por si, independentes do contexto em que opera o poder disciplinador do Estado. Ou seja, a palavra “criminalização” desnaturaliza a noção de crime: em vez de ver atos ou pessoas como criminosos por si sós, “criminalização” nos ajuda a pensar como certos sujeitos, práticas, substâncias e até discursos passam por um devir, são produzidos enquanto criminosos.

Para quem acompanha a política de drogas, não é muito difícil entender que ela está inserida em um contexto de criminalização de pobres. Os negros não consomem drogas em quantidade maior que brancos, mas são encarcerados por causa delas em quantidades proporcionalmente muito maiores. A criminalização é uma produção de sujeitos, não é fotografia fiel de algo que está lá acontecendo e é anterior a ela.

Coisa bem distinta acontece com a palavra quando ela é usada, por exemplo no contexto da Lava Jato, para se falar de “criminalização da política”. Essa expressão saiu da esquerda e foi parar até, vejam só, na boca de Renan Calheiros. Há uma resposta fácil a esse papo de “criminalização da política” que não é a resposta que usarei aqui. Essa resposta é: a política não está sendo criminalizada, os políticos é que são criminosos mesmo. Essa é a resposta mais fácil porque ela cancela o espaço aberto pela palavra “criminalização”, ou seja, ela naturaliza de novo a noção de crime.

A resposta que há que se dar ao papo de “criminalização da política” é outra: a expressão é um contrassenso total porque a política é a esfera através da qual se criminalizam sujeitos. A política não é senão o espaço em que o Estado vai produzindo seus inimigos internos e se legitimando no processo. Que o Estado não seja um monolito sem contradições – e portanto permita que operações policiais como a Lava Jato indiciem gente que nunca antes havia sido indiciada, em parte como resultado da pressão de Junho de 2013, que fez, por exemplo, com que se votasse a lei de delação premiada – não torna isso menos verdadeiro. Dizer “criminalização da política” é como dizer “criminalização da criminalização”. É ao mesmo tempo uma tautologia, um oxímoro e um nonsense.

É legítimo criticar as investigações sobre o BNDES, mas dizer que elas “criminalizam a ação estratégica do Estado” não faz o menor sentido. A ação estratégica do Estado É criminalizar, ora bolas. É através da criminalização que o Estado se constitui enquanto tal. Dizer “criminalizar a ação do Estado” é como dizer “queimar uma fogueira” ou “afogar um rio”. A política é a esfera da criminalização, ela está desde sempre encharcada de criminalização, e a única novidade da Lava Jato é que esse processo agora atinge os próprios agentes dessa criminalização, tanto por pressões externas (povo sublevado em 2013) como por dinâmicas internas (uma nova geração de procuradores, uma nova legislação etc.).

Não importa quantos agentes estatais (deputados, Ministros etc.) caiam nesse processo, é bom lembrar que eles, enquanto agentes, são descartáveis. A criminalização, como essência do Estado, não é e vai continuar. E suas vítimas de todos os dias continuam as mesmas.

Aquele que controla a sua vida – Parte 1

Uma das razões da demora deste novo texto é a divergência entre quem recomenda prudência e quem requer urgência, diante do argumento irrespondível de que não há mais tempo para insinuações. Chegou-se, por fim, a um consenso, a um meio termo [1]O processo de aprendizado aqui proposto (ou, dito de outra forma, o processo de exposição da verdade sobre a existência humana) pode ser representado figurativamente por uma espiral. Assim, em movimentos circulares, abrangeremos todos os temas repetidas vezes, e em cada retorno a determinado tópico lançaremos luz sobre aspectos antes apresentados superficialmente. Portanto, este texto será mais ousado do que planejado, mas apenas mencionará certos pontos mais perturbadores, sem que nos aprofundemos. Ao menos por enquanto.

Neste texto e nos dois seguintes, trataremos da natureza humana e como ela opera no espaço daquilo que chamamos de hiper contexto, ou seja, no espaço de coexistência de infinitas [2]Mais uma vez, é bom lembrar que o conceito de infinito, como Georg Cantor (o matemático que encontrou uma definição matemática de “Deus”) apontou, está presente mesmo dentro de limites estabelecidos. Assim, entre 0 e 1 há infinitos números racionais. realidades alternativas.

Se uma parte de você lê as últimas palavras do parágrafo anterior com incredulidade, isso é um bom sinal, pois significa que você detém a postura emocional necessária para estudar por si mesmo esta verdade. Se além disso você possuir alguma inteligência, poderá chegar a suas próprias conclusões sobre tudo o que ler e descobrir, sem jamais acreditar irrefletivamente na palavra de qualquer especialista, autoridade ou diletante da matéria. Aqui, iremos adiante por não ser esse exatamente o foco desta exposição (ou melhor, de nosso alerta).

Conforme foi apresentado na primeira parte, a humanidade deparou-se com a existência de realidades alternativas já no início do século XX. As observações obtidas em laboratório são incontestáveis (e retornaremos a elas futuramente) e cem anos de experimentos não deixam dúvida a respeito desse fato [3]Até agora não há nenhuma refutação de fundo, e de origem científica, que tenha conseguido invalidar essa conclusão. E jamais haverá salvo se a imaginação humana por um tempo elaborar uma engenhosa mas falaciosa explicação e emaranhar-se numa incompreensão passageira dos fatos, mas mesmo isso será temporário..

Mais ainda, essa é uma verdade conhecida, ou ao menos suspeitada, por pensadores independentes de várias origens e épocas que puderam, com honestidade, estudar a realidade em que vivemos [4]Esse não é o propósito principal dessa série de exposições, mas futuramente, quando a mensagem principal houver sido transmitida e compreendida, poderemos dedicar algum tempo a tratar de alguns casos historicamente interessantes.. O público em geral ignora esse fato, fundamentalmente, por um único motivo: a verdade sobre o mundo não corresponde à nossa experiência cotidiana, e apresentamos, enquanto espécie, uma natural resistência a aceitar paradigmas extremamente contraintuitivos, principalmente quando contrariam totalmente nossa percepção física do mundo. Em outras palavras, temos o arraigado costume de acreditar que a realidade existe apenas e claramente debaixo de nossos olhos [5]Isso fica evidente nas refutações apresentadas às observações: ou derivam totalmente justo da arraigada recusa de abandonar um modelo de mundo primitivo e prestes a ser superado (algo como um medieval que, diante das evidências da esfericidade da Terra, diz “não é assim porque tudo o que vejo é plano”), ou justamente confirmam a verdade sobre as realidades alternativas, apenas atendo-se a uma questão terminológica.. Basta ver a quantidade impressionante de seres humanos que, em pleno século XXI, ainda defendem que a Terra é plana. A humanidade ainda tem um calcanhar na Idade Média.

Mas há uma forma muito útil de aproximar qualquer pessoa da verdade sobre quem realmente é sobre qual a natureza do mundo em que vive. A mente humana pode assimilar verdades contraituitivas caso as associe a ideias com que estamos familiarizados. Por isso, símbolos e metáforas nos são úteis, e a partir de agora as empregaremos, com economia. De qualquer modo, qualquer leitor ficará impressionado de constatar que muitos símbolos e metáforas apresentados aqui ajustam-se quase que perfeitamente à descrição da realidade tal como ela é.

SOLVE ET COAGULA

Por exemplo, há dois lemas entre os alquimistas que se provaram mais significativos e verdadeiros ao decorrer dos séculos. Isso, independentemente do sentido que seus criadores desejavam lhes atribuir originalmente.

O primeiro é “assim acima, como abaixo” [6]Ou, no original da Tábula Esmeralda, Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius. Observe-se que a frase possui um sentido mais capcioso, pois sugere que o que está acima provém do que está abaixo e vice-versa, estabelecendo um entrelaçamento ou sistema bootstrap na realidade., forma lacônica de dizer, entre outras coisas, que há padrões de estrutura, design e funcionamento que podem ser identificados tanto no mundo macroscópico observável [7]Há o mundo macroscópico ainda não observado, naturalmente como no mundo microscópico. Esferas, espirais, ramificações, simetrias e fractrais são exemplos clássicos de padrões de design presentes na natureza e no universo.

O outro lema, que por sua vez decorre desse primeiro e descreve justo um padrão de funcionamento e estrutura que pode ser identificado universalmente, em vários níveis de estrutura da realidade, é “solve et coagula”.

“Solve et coagula” descreve um processo no qual algo é separado em partes integrantes de seu todo (solve, “dissolver”) para, a seguir, ser reconstruído num único todo novamente (coagula) em um processo de regra contínuo, seja com ou sem incrementos e reconfigurações a cada nova reconstrução. “Solve et coagula”, porém, também descreve um padrão estrutural de separação e união – ou, dito de outra forma, de estreita relação entre forças repulsivas e forças que coesivas.

É isso que veremos mais adiante em nosso aprendizado, quando nos detivermos com mais atenção em duas regras que sintetizam o funcionamento das realidades alternativas: versões de uma mesma partícula (e objeto, e ser vivo) exercem entre si força de mútua repulsão [8]O que é responsável pela interferência entre versões alternativas de uma mesma partícula que provoca o padrão de listras no célebre experimento da dupla fenda (veja esta figura, em que a partícula de nossa realidade afasta-se das demais oriundas da mesma fenda de que veio para a seguir encontrar as partículas que vêm da outra fenda). (na verdade, essa regra tem uma extensão maior: qualquer ser vivo ou objeto, mesmo a menor partícula existente, não interage de forma alguma com os demais objetos, seres e partículas que compõem todas as outras realidades alternativas (o que permite a sobreposição genérica de realidades alternativas) da mesma forma com que cada objeto e ser vivo está estreitamente unido com os demais que compõem a sua realidade [9]O que Schrödinger denominou “entrelaçamento” e que foi constatado reiteradamente desde que Einstein apresentou ao mundo o experimento EPR com o qual, ironicamente, tentava refutar a verdade. Trataremos adiante do fenômeno do entrelaçamento, notável característica de nossa realidade e . Em toda a sua complexidade, o funcionamento do universo é simples e elegante [10]Um exemplo a mais dessa elegância (e aqui começamos talvez a ir um pouco além do que seria prudente segundo opiniões): o lema solve et coagula parece fazer alusão, a princípio, a líquidos, a soluções em cadinhos no laboratório de um alquimista, o que traz alguma dissonância quando falamos do mundo a nossa volta, material, sólido, e também quando falamos de partículas. Mas a noção de partícula ou objetos sólidos é enganosa. É que embora inventemos medidas como minutos, segundos, metros e milímetros, o espaço é um continuum, o tempo é um continuum. Ambos fluem, não há transição exata entre aquele momento e este, uma bola não passa imediatamente de um centímetro para outro ao mover-se. O mesmo ocorre com as supostas partículas que compõem o mundo a nosso redor: não são objetos sólidos, todas fluem – e fluem como? fluem em um continuum de possibilidades que se concretizam sobrepondo-se, todo esse continuum formando múltiplas realidades alternativas.

Esse é um ponto importante para compreendermos quem realmente somos e a importância da consciência dos seres vivos para o universo. Solve: de um dado ponto presente, múltiplas versões alternativas de um objeto divergem entre si, em múltiplas possibilidades futuras (essa é a causa do resultado obtido com o experimento da dupla fenda, formulado por Thomas Young); Coagula: cada uma dessas possibilidades está estreitamente entrelaçada com uma versão de todas as outras coisas existentes no universo, e formam, junto a essas versões de todas as coisas, uma realidade única, que coexiste, em sobreposição, a inúmeras outras realidades possíveis (esse entrelaçamento é a causa do resultado obtido com o experimento EPR, formulado por Einstein).

Não se está falando, portanto, de universos alternativos, mas de um só universo que abriga inúmeras realidades coexistentes e sobrepostas. Uma partícula, qualquer partícula, só interage com partículas que pertencem à sua realidade (a realidade na qual está entrelaçada), jamais interagindo com qualquer outra partícula que exista em outra realidade (salvo com a sua versão existente nessa outra realidade, da qual se repele) Graças a isso, ocorre a sobreposição de realidades. Graças a isso, a versão do copo que cai de sua mão num acidente e a versão do copo que não cai pois você impediu coexistem neste mesmo único universo.

Como Hugh Everett e Stephen Hawking diriam, com mais tecnicidade, o universo é uma enorme função de onda  (Stephen Hawking, James Hartle: The Wave Function of the Universe, Physical Review D, vol. 28).

Este universo não é imenso apenas no seu espaço em que se expande, não é imenso apenas no tempo em que existe e evolui – ele é imenso também na profundidade de possibilidades que abriga em si mesmo. Essas possibilidades, por assim dizer, dispersam-se no fluxo do tempo em ramificações que coexistem no mesmo espaço, ocupando exatamente o mesmo espaço, intangíveis umas às outras, compondo cada qual uma realidade alternativa. Porém, há, a princípio, total separação entre cada realidade.

Diz-se “a princípio” pois há exceções. A vida orgânica, por exemplo, é algo notável. Por razões evolutivas, a natureza adaptou-se a esse universo de realidades alternativas de forma engenhosa. Assim, como foi constatado, a sobreposição de realidades é uma peça chave da fotossíntese de qualquer planta, mesmo a mais ordinária. Sim, isso é um fato, a fotossíntese que ocorre nas folhas de qualquer árvore opera com a contínua sobreposição de versões de uma mesma partícula situadas em realidades alternativas:

De outras maneiras, porém, a vida aproveitou-se dessa característica fundamental do universo: nos animais superiores, criou um cérebro que funciona para operar e garantir a sobrevivência do organismo sem que ele perceba a contínua ramificação de seu destino – para todos os efeitos, o organismo está consciente apenas de uma versão sua a cada momento presente, e lida apenas com a realidade alternativa com a qual está entrelaçado. Assim como temos a constante impressão de que existe um só momento presente, que flui continuamente em direção ao futuro, nosso cérebro nos dá a constante impressão de que há uma só realidade coesa e que jamais se bifurca.

Contudo, cada ser vivo não é único, mas múltiplo, e a natureza “sabe” disso – não sentido de que a natureza pensa, mas no sentido de que a vida biológica atua, enquanto inserida no fluxo de realidades alternativas, com a mesma desenvoltura que atua diante do fluxo do tempo e na extensão do espaço [11]Na verdade, o continuum espaço tempo precisa de uma atualização, como no futuro a humanidade acabará por concluir.. E, assim sendo, a natureza desenvolveu nos animais superiores, ao longo da evolução, uma coordenação básica de atividades fundamentais de cada versão de um dado organismo vivo que existe em uma realidade alternativa. Dito de outra forma, não são só as folhas de um arbusto qualquer que têm o privilégio de servir-se das múltiplas realidades sobrepostas em seu benefício, para realizar a singela e rotineira fotossíntese. Nossa consciência também.

A NATUREZA DOS ANJOS

Já havíamos utilizado anteriormente a metáfora de uma rede de computadores, em que cada computador opera com um sistema operacional básico e individual, executando tarefas próprias em seu ambiente de trabalho, enquanto a atividade da rede é coordenada por um sistema operacional localizado em nenhum e em todos os computadores ao mesmo tempo – um sistema em nuvem [12]Por ironia, quis o destino que o sistema de computação em grade aplicado à internet fosse denominado de “Cloud”, remetendo-nos a certos personagens mitológicos que moram nas nuvens celestiais.. Da mesma forma, cada versão de você que existe nos diversos universos alternativos, embora perceba e esteja convicta de que existe apenas “a” realidade com a qual está entrelaçada, não obstante tem sua existência coordenadas por um sistema operacional superior, que coordena seu funcionamento no ambiente “de rede” da múltiplas realidades existentes.

Isso não é novidade. Como foi dito anteriormente, a verdade já foi intuída por indivíduos de espírito independente em várias épocas e culturas. Platão já falava (em Timeus, 90-90d) que “precisamos entender que Deus conferiu a cada um de nós um daimon para nos conduzir – o qual nos ergue da terra em direção a uma afinidade celestial, como uma planta cujas raízes não estão na terra [poderíamos entender como: “não estão nesta realidade específica”], mas nos céus [poderíamos entender como: “mas no contexto das múltiplas realidades sobrepostas”]. Em Apologia de Sócrates, Platão ainda nos conta que Sócrates comentava ter um daimon que o tentava livrar de perigos, embora jamais lhe dissesse o que fazer. Posteriormente, os romanos deram ao daimon grego o nome de geni, uma deidade pessoal de cada um, e que mais tarde, com a racionalização, tornou-se só um símbolo de um talento mental: o gênio de uma pessoa. Paralelamente, os judeus da época do Antigo Testamento elaboraram o conceito de Malakh, que nos primeiros séculos da Era Cristã foram o substrato para a formação do conceito medieval de Anjo da Guarda.

Mas, basicamente, o que os antigos filósofos e doutrinadores denominavam de daimon, geni, Malak ou Anjo da Guarda consiste no aspecto superior ou profundo de cada um de nós que não habita uma realidade alternativa específica, e sim que opera naquilo que convencionamos chamar de hipercontexto, o contexto em que todas as realidades coexistem. A função desse “Eu Profundo” é coordenar, como em um sistema em rede, todo o conjunto formado por cada “eu superficial” que habita uma só realidade.

O Eu Profundo (ou Eu Superior) de uma pessoa coordena a atividade de cada versão sua existente em cada realidade alternativa.Mas, se estamos num sistema de rede, qual a programação utilizada por esse daimon a que cada um de nós está unido?

Na Europa do século vinte, um outro indivíduo de pensamento independente chegou à mesma conclusão que Sócrates e Platão. Tateando parte da verdade com sua mente inquieta, esse indivíduo percebeu a existência da linguagem de programação com a qual o Eu Profundo de cada indivíduo coordena a atividade, em rede, de todos os “eus superficiais” ou “individualizados” que habitam cada qual uma só realidade. A linguagem de programação sempre esteve aí, na nossa frente, pronta para ser percebida, mas poucos antes realmente a perceberam. Ela estava presente nos mitos de cada cultura, e também presente em nossos sonhos. O nome desse sujeito é Carl Gustav Jung, o discípulo predileto de Freud, e ele deu ao Eu Profundo o nome Self.

O MAPEAMENTO DO EU PROFUNDO

Para entendermos a proposta de Jung como uma representação do modelo de funcionamento do ser humano no ambiente do hipercontexto, convém utilizar uma nova metáfora, também de natureza computacional. Os programadores, como um desenvolvimento da programação procedural (linhas de comando que correspondem a configurações de bits), criaram o que se chama de “linguagem de programação orientada a objetos”.

“Objeto”, nesse caso, é algo situado num nível de abstração maior, em relação ao tipo de programação que se fazia antes: objeto é como um “módulo”, um encapsulamento de linhas de comando, que fornecem determinadas informações ao sistema, a partir dos dados que lhe são repassados.

Uma “classe” é um modelo de objeto, contendo regras e métodos de funcionamento que servirão para que se construam outros objetos a partir desse modelo (esses objetos são “instâncias” de uma “classe”). Uma vez criado um objeto, ele não precisa se limitar ao programa para o qual foi criado: como é um módulo auto-contido, pode ser usado em outros programas, e ele próprio pode fazer parte de um objeto mais abrangente (um nível de abstração maior). Mais ainda, um objeto não exige que o programador conheça necessariamente as linhas de comando do qual é composto (só se desejar alterá-las para um propósito específico), já que o objeto é um módulo em que as linhas de comando estão encapsuladas, bastando ao programador que saiba quais dados repassará ao objeto na expectativa de obter determinados resultados.

Não demorou para que programadores se dessem conta da semelhança entre a “linguagem de programação orientada a objetos” e a filosofia platônica. Platão cogitava que existem formas puras (“A Árvore”, “A Casa”), modelos a partir do qual surgem as formas concretas de nossa realidade (as árvores que estão por aí, as casas que construímos), que herdam as características essenciais das formas puras. Do mesmo modo, as classes da linguagem de programação orientada ao objetos são “formas puras”, modelos, a partir das quais surgem objetos, “instâncias” que herdam suas características.

O que Jung descobriu é que a mente humana, no contexto mais amplo do que nossa realidade individual (e que ele denominou inconsciente coletivo), funciona com base em uma “linguagem de programação” semelhante. Num alto nível de abstração, no ambiente do hipercontexto, em que a totalidade dos cérebros sobrepostos operam em conjunto, há “classes” que correspondem às experiências concretas e universais que cada ser humano potencialmente pode experimentar em sua realidade concreta.

Ao estudar os sonhos de seus pacientes, Jung observou como eram semelhantes às mitologias de diversas culturas. E ao estudar as mitologias de diversas culturas, observou que há pontos em comum a todas elas: certos personagens, símbolos e histórias. A essas “classes” que representam e incorporam experiências humanas universais, Jung deu o nome de arquétipos.

A partir dessas percepções iniciais, Jung dedicou sua vida ao mapeamento do sistema constituído por arquétipos, estudando sonhos individuais e mitos de todas as culturas. Descreveu desse modo a “linguagem de programação” na qual é estruturado um sistema de nível mais abstrato e profundo que o sistema que corresponde à nossa vida individual, entrelaçados que estamos com uma realidade específica.

Personagens como a mãe, a sombra, o herói e o embusteiro, estruturas como a mandala e a árvore da vida, histórias como o sacrifício e o dilúvio, processos como a aproximação circular ou espiral (circumambulation) e a conjunção dos opostos (coniunctio). Essas e outras “classes” ou arquétipos correspondem à experiências humanas universais e também à estrutura do próprio software que coordena a vida de todas as nossas versões alternativas, coexistentes em realidades sobrepostas.

A riqueza dos arquétipos.

Situado como eixo desse conjunto de arquétipos, está um arquétipo central, que Jung denominou de Self. O Self, em sua posição central no sistema, exerce a função de coordenação da totalidade e harmonização de todos os demais arquétipos, intermediando as relações entre o que Jung chamava de “consciente” e “inconsciente coletivo”. O Self, como podemos perceber, é nome dado por Jung àquela parte de nós que se situa em um ambiente de rede (inconsciente coletivo), acima de todas as realidades alternativas em que nossas versões individuais vivem suas vidas (consciente). O Self é nosso Eu Profundo.

O mapeamento feito por Jung é complexo, mas na segunda parte desse capítulo iremos apresentar os seus principais elementos, situando-nos no ambiente do hipercontexto. Com isso, compreenderemos como funciona a lógica interna do nosso Eu Profundo. Na terceira parte, aprenderemos os métodos de entrarmos em contato desperto com nosso Eu Profundo, e retomaremos a análise sobre um aspecto fundamental do universo, o entrelaçamento.

Essas etapas são essenciais para que o leitor compreenda a natureza do perigo a que a humanidade está exposta, com risco de extermínio de toda vida humana. Pois quando percebemos que as realidades alternativas são coexistentes mas sobrepostas, sem que interajam entre si de qualquer forma (sem que se toquem, realmente ocupando o mesmo espaço porque cada ponto do espaço é, de certa forma, infinitamente profundo para que nele possam estar todas as possibilidades de uma coisa ser), conseguimos entender que todas as versões suas possíveis coexistem no mesmo universo. Mais ainda, conseguimos entender que há uma forma dessas versões interagirem entre si num nível profundo, e que é isso que torna a vida na Terra algo especial.

Notas   [ + ]