Informação é a realidade fundamental?

E se a “substância” fundamental do universo não for matéria nem energia, mas informação?

Essa é a ideia que alguns teóricos estão cogitando enquanto buscam descrições cada vez mais elegantes e concisas das leis que governam nosso universo. Pode nosso universo, em toda sua riqueza e diversidade, realmente ser apenas um monte de bits?

Para entender porque tanto interesse em informação, nós temos que começar do início: o que é informação?

Isto é informação.

Da mesma forma, também é informação uma imagem como esta:

E uma equação como esta:

“Não importa se algo consiste em equações, palavras, imagens ou sons – você pode codificar tudo isso em sequências de zeros e uns”, ou bits, diz Scott Aaronson, professor associado de engenharia elétrica e ciências da computação no MIT. Seu computador está fazendo isso agora, utilizando pequenos imãs, capacitores e transistores para armazenar bilhões ou trilhões de dígitos binários. “Esses podem ter sido conceitos difíceis para as pessoas entenderem há um século, mas por causa da revolução computacional, lidamos com esses conceitos o tempo todo”, diz Aaronson. Numa época em que um drive USB pode ser levado no chaveiro e um iPhone estica as costuras do bolso da calça, não é exagero afirmar que qualquer coisa pode ser expressada em informação.

Para alguns teóricos, porém, informação é mais do que apenas uma descrição do nosso universo e das coisas que existem nele: é a moeda mais básica da existência, ocupando o que o teórico Paul Davies chama de ‘’fundamento ontológico’’ da realidade.

As regras da informação quântica fornecem a mais “compacta” descrição da física, diz Vlatko Vedral, professor de teoria da informação quântica na Universidade de Oxford e na Universidade Nacional de Singapura. “Informação, ao que me parece, exige menos pressupostos em relação a qualquer outra coisa que possamos postular. Assim que você fala sobre matéria e energia, você deve escrever leis que governam matéria e energia.”

Isso significa que nosso universo é feito de informação, como algumas manchetes afirmam?

“Isso me parece uma questão sem conteúdo”, diz Aaronson. “Dizer que matéria e energia são importantes na física é dizer algo com conteúdo’’. Você pode imaginar um universo desprovido de matéria e energia. Afinal, afirmar que nosso universo é formado por matéria e energia diz algo a seu respeito e distingue-o de outros possíveis universos. “Mas, por outro lado, eu não sei como você poderia até mesmo conceber um universo sem nenhuma informação”, diz ele.

Porém, enquanto nova forma de pensar sobre do que é feito o universo, a informação desencadeou um trabalho provocativo entre ciências da computação e astrofísica teórica, campos aparentemente distintos mas que podem compartilhar uma profunda conexão revelada por aquela Pedra de Rosetta cósmica, o buraco negro. Mas antes de nos aprofundarmos na questão do buraco negro, vamos dar um passo para trás e olhar com maior atenção a informação em si mesma.

Todas as mensagens contêm informações, mas nem todas as mensagens são criadas da mesma maneira. “Coisas inesperadas têm alto conteúdo de informação”, diz Vedral. Pense no nascer do Sol, por exemplo. “Se o sol surgir amanhã, você não verá nenhum jornal escrevendo sobre isso. Mas é claro que se não surgisse, isso seria um grande evento”.

Sentimos intuitivamente que “surpresas”, como um nascer do sol que não ocorreu, trazem mais informações do que eventos rotineiros. Claude Shannon, amplamente considerado o pai da teoria da informação, formalizou essa intuição definindo uma quantidade que agora é conhecida como “entropia de Shannon”. A entropia de Shannon relativa a uma determinada mensagem está relacionada à soma do logaritmo da probabilidade de cada bit da mensagem assumir um valor particular. Isso parece complicado, mas Vendral explica que essa entropia captura matematicamente duas características importantes da informação: o valor das surpresas e o fato de que a informação é “aditiva” – isto é, a informação total contida em dois, três, quatro ou em bilhões de eventos não relacionados é igual à soma das informações em cada um deles.

Os físicos descrevem a entropia de um modo um pouco diferente, muitas vezes falando em termos de “desordem” de um sistema. Mais precisamente, entropia é o número de diferentes maneiras de reorganizar as menores partes de um sistema e ainda assim obter o mesmo grande sistema. Um balde cheio de peças de Lego vermelhas, por exemplo, tem alta entropia. Agite-o, gire-o, e você continua com o que começou: um balde com peças de Legos vermelhos. Monte esses mesmos blocos em um castelo de Lego, porém, e você cortou a entropia; mova um único bloco desse castelo você terá um sistema “macroscópico” diferente.

Em qualquer perspectiva que você escolha, o resultado essencial será o mesmo. Pegue o parágrafo que você está lendo agora, por exemplo, com suas muitas letras diferentes, marcas de pontuação e espaços dispostos em uma ordem muito particular. Ele contém mais informações e, portanto, tem maior entropia do que um parágrafo como este, embora ambos tenham o mesmo número de caracteres:

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Entropia, portanto, fornece uma medida não apenas do tamanho mas o conteúdo da informação de uma mensagem.

Agora imagine construir o disco rígido definitivo, um que contenha a quantidade máxima de informações permitida pela física. Por que a física deve colocar um limite na capacidade de armazenamento de informações desse disco rígido hipotético? Pensando nisso de uma perspectiva puramente clássica, parece que você poderia armazenar uma quantidade infinita de informações. Mas quando adicionamos mecânica quântica à mistura, introduzimos limites fundamentais na precisão de nossas medidas. Esses limites indicam uma entropia máxima de cerca de 1069 bits por metro quadrado. “Se você tentasse empacotar informações mais densamente que isso”, diz Aaronson, “seu disco rígido colapsaria em um buraco negro”. Essa última frase não é apenas uma nota de rodapé lunática. Os buracos negros, afinal de contas, são os maiores repositórios de informação do universo (claro, Aaronson ressalta, eles não seriam discos rígidos muito práticos, a não ser que você estivesse disposto a esperar cerca de 1070 anos para recuperar seus dados).

Mas há algo estranho sobre a forma como a entropia de um buraco negro cresce. Como os físicos Stephen Hawking e Jacob Bekenstein descobriram na década de 1970, a entropia de um buraco negro aumenta com a área de superfície bidimensional do buraco negro, conforme definido por um escudo esférico imaginário com raio Rs. Isso é bizarro, pois você esperaria que a quantidade máxima de informação que se pode colocar em qualquer objeto, como um livro ou disco rígido, seja proporcional ao volume tridimensional desse objeto, e não à área de sua superfície.

Essa discrepância é mais do que apenas um arcano teórico. Para os físicos, sugere que as leis fundamentais da física podem ter uma representação mais simples em duas dimensões, em vez das três tradicionais. Em 1997, o físico argentino Juan Maldacena, agora no Instituto de Estudos Avançados, aproveitou-se dessa ideia para elaborar “dualidade” matemática entre nosso universo e outro com menos dimensões espaciais, uma dimensão de tempo e sem gravidade. Isso propiciou um atalho matemático bem útil: os problemas que são difíceis de resolver em um universo (domínio) podem ser superados com facilidade no outro.

Para alguns teóricos, a dualidade não é apenas matemática. O universo como nós o experienciamos, dizem eles, pode ser na realidade a projeção de informações codificadas em algum limite cósmico distante. Onde essa fronteira reside e como a projeção ocorre ainda são perguntas abertas, mas esses teóricos argumentam que nossa realidade pode ser, em essência, um holograma análogo às imagens prateadas nos cartões postais da loja de um museu.

Nós temos que agradecer à teoria da informação por essa peculiar reviravolta na trama. Mas se é difícil imaginar uma aplicação prática para este “princípio holográfico”, é muito mais fácil ver como a informação quântica está mudando a computação. Isso porque a informação quântica não possui as mesmas propriedades básicas da informação clássica. Os bits que compõem a informação clássica podem ser ou um ou zero. Mas os “qubits” que compõem as informações quânticas podem existir em uma superposição dos estados “um” e “zero”; Em certo sentido, eles podem assumir ambos os estados ao mesmo tempo. Para manter essa sobreposição, porém, os qubits devem existir em perfeito isolamento. Assim que esse isolamento é perturbado, a sobreposição desmorona.

“A informação quântica é como a informação em um sonho”, explicou Charles Bennett, cientista de informação quântica da IBM Research, em uma recente palestra na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. “Ao descrevê-la, você muda sua memória sobre ela.” Isso pode não soar como uma qualidade desejável em um computador, mas em combinação com o entrelaçamento, isso pode ser explorado para acelerar dramaticamente certos tipos de cálculos e enviar mensagens criptografadas perfeitamente seguras. Como observa Steve Girvin, físico teórico da Universidade de Yale, isso também pode ser usado para gerar números genuinamente aleatórios, adequados para chaves de criptografia. A criptografia quântica já está sendo utilizada comercialmente para algumas transferências bancárias e outras transmissões de dados altamente seguras.

“Essa segunda revolução quântica, a revolução da informação, é uma surpresa completa”, diz Girvin. “Levamos décadas para lidar com a estranheza e perceber que a informação dos sistemas mecânicos quânticos é diferente do conteúdo da informação dos sistemas clássicos, e não ter certeza sobre algo pode na verdade ser bom em vez de ruim”.

A informação quântica é uma coisa útil – mas o que ela está nos dizendo sobre a natureza fundamental da nossa realidade? Alguns pensadores argumentam que isso sugere que nosso universo inteiro é ele mesmo um computador quântico. “Eu gosto dessa imagem”, diz Vedral, enquanto admite que a analogia é imperfeita. “Você poderia perguntar, posso tratar o resto do universo como algo que eu possa programar da mesma maneira que programo meu simples computador?” Não, responde Vedral. “Você ainda está limitado pelas leis da física, e você tem uma certa quantidade de recursos que são finitos. Há cálculos que você nunca será capaz de executar”. A computação que só este computador quântico é capaz de realizar é a computação de sua própria evolução.

Se a informação é só uma forma útil de pensamento sobre o universo ou algo mais profundo, continuamos sem saber. “Nós ainda estamos lutando para entender aquilo nossas teorias realmente estão nos dizendo”, diz Vedral. “Você tem que dar um salto de imaginação para entender”.

(fonte)

Inteligência é de família

Dê uma boa olhada na família Darwin. Charles Darwin publicou uma série de trabalhos, foi o pioneiro na observação do mundo natural e no desenvolvimento das teorias da seleção natural e seleção sexual. Seu primo, Francis Galton, estima-se que possuía um QI de quase 200 pontos (a média populacional é cerca de 100), foi um polímata prolífico com centenas de trabalhos publicados e com importância fundamental no ramo da estatística.

Dê agora uma boa olhada na família Huxley. Aldous Huxley foi um escritor, autor do famoso Admirável Mundo Novo, além de diversos ensaios. Foi neto de Thomas Henry Huxley, o Buldogue de Darwin, partidário da teoria da evolução numa época em que todos torciam o nariz para a proposta. Escreveu trabalhos sobre teoria da evolução, altruísmo e natureza humana.

Essas podem ser evidências anedóticas, mas servem para ilustrar a hereditariedade de traços psicológicos como a inteligência. Em alguns círculos ainda existe certa resistência em aceitar as pesquisas que mostram relação entre genética e comportamento. Se dizer que a hipótese das múltiplas inteligências é um engodo já ferve os ânimos, imagine as consequências de se alegar que a inteligência é hereditária.

O fato é que a maioria parece não entender o que é exatamente hereditariedade. Não tem nada a ver com a inteligência ser determinada geneticamente, por exemplo — muito embora poucas pessoas saibam o que realmente significa determinação genética. O mais complicado talvez seja compreender que a variação de inteligência e a hereditariedade é uma propriedade de populações, não de indivíduos (seria impossível estabelecer o quanto a inteligência de um indivíduo é explicada pela hereditariedade e quanto, pelo ambiente), então seria incorreto discutir essa questão tomando como ponto de partida questões de natureza individual.

Sendo assim, ao longo desse texto tentarei mostrar o que significa atribuir hereditariedade a traços psicológicos, e como isso é diferente de determinação genética (não confundir com determinismo genético), e quais as consequências para nossa compreensão da inteligência.

Traços psicológicos podem ser tão hereditários quanto a altura

O termo hereditariedade remete popularmente a características que são passadas entre gerações, de pai para filho, por herança genética. Isso explica a cor do olhos dos filhos, cor de pele, altura e até mesmo a probabilidade de desenvolverem alguma doença, como câncer de mama e depressão.

Nenhum desses exemplos, no entanto, são 100% explicados pela genética. Por exemplo, o câncer de mama parece ser 30% hereditário, o que é um percentual baixo. O índice de massa corporal, por outro lado, é quase 60% explicado pela hereditariedade, o que é uma porcentagem moderada. A diabetes é quase 90% explicada pela hereditariedade, número alto. Isso significa que fenômenos “bem biológicos” são explicados em diferentes graus de importância pela hereditariedade.

Apesar de contraintuitivo, traços psicológicos podem variar da mesma maneira. Por exemplo, a esquizofrenia tem um índice de hereditariedade moderada de pouco mais de 60%, enquanto depressão e alcoolismo, de 50%. Nunca vi sérios problemas na aceitação do fato de que transtornos como depressão e esquizofrenia são parcialmente explicados pela genética — exceto talvez psicanalistas e relativistas pós-modernos. Mas o mesmo não vale para traços como a inteligência.

O que é inteligência/QI?

Para começar, a maioria ainda se debate sobre o significado dessa palavra. A inteligência é uma das variáveis psicológicas mais estudadas e mais consistentes cientificamente. Tecnicamente, inteligência é um construto relacionado à capacidade de resolver problemas. O que chamamos de inteligência na verdade é uma consequência operacional de uma série de outros atributos psicológicos, como a capacidade de usar conhecimentos adquiridos para resolver problemas, memória, controle cognitivo e habilidade verbal (dos traços associados à inteligência, o raciocínio verbal é o que chega mais perto do QI geral). Diferentes pessoas têm diferentes níveis de cada uma dessas habilidades.

A forma como essas habilidades variam em cada indivíduo é explicada estatisticamente por um fator chamado inteligência geral ou QI. É mais ou menos o raciocínio utilizado em relação à depressão. Pessoas deprimidas costumam ter falta ou excesso de apetite, tristeza persistente e ideação suicida. Esses elementos variam um em relação ao outro consistentemente, de modo que podemos estatisticamente estabelecer uma única variável que explica a covariação consistente entre eles, a depressão.

A variação desses elementos, que formam o construto inteligência, ocorre por razões ambientais e hereditárias (ver Efeito Flynn). Por exemplo, grau educacional e índice nutricional parecem explicar bastante a variação da inteligência entre os indivíduos. A porcentagem de explicação fornecida pela hereditariedade muda conforme a idade. Em crianças o estímulo dos pais e do ambiente familiar conta muito mais, mas quanto mais velhas as pessoas se tornam, mais seu nível de inteligência passa a ser explicado pela hereditariedade. Isso ocorre principalmente por causa do amadurecimento cognitivo que vem com a idade. Considerando 100 pessoas de 50 anos com níveis educacionais muito semelhantes, a diferença de inteligência entre elas vai ser explicada mais por fatores hereditários do que ambientais. A maioria dos estudos mensura a hereditariedade da inteligência entre 80% e 90%.

Hereditariedade, um conceito populacional

A hereditariedade é um conceito estatístico usado na genética populacional. A inteligência ser 80% explicada pela hereditariedade não quer dizer que um indivíduo tem 80% da sua inteligência explicada pela genética. Essa porcentagem só pode ser encontrada em estudos populacionais (ou melhor, amostras populacionais).

Hereditariedade diz respeito à variação. Calcula-se o quanto fatores hereditários e ambientais explicam a variação do grau de QI em determinada recorte populacional. Não existe uma medida mágica e essencial da inteligência de cada indivíduo para pesar o que é hereditário e o que é ambiental; o que fazemos é mensurar a variação do nível de QI na população. Quando um teste dá um resultado para o seu QI, o que ele está dizendo é em que posição você está em relação ao QI populacional médio (que hoje é 100).

Sim, é estranho, mas hereditariedade e determinação genética são conceitos completamente diferentes. Um traço X pode ser altamente determinado geneticamente, mas muito pouco explicado pela hereditariedade. Por exemplo, seres humanos possuem 5 dedos em cada mão porque isso está inscrito nos seus genes como característica da espécie. No entanto, a variação dessa característica na população é muito pouco explicada pela hereditariedade. Em outras palavras, apesar de uma mão com 5 dedos ser um produto da programação genética típica da espécie, os indivíduos podem acabar com 4 dedos nas mãos ao longo da vida por alguma causa ambiental (como amputação). A determinação genética explica por que nascemos com 5 dedos em cada mão, mas o ambiente explica muito melhor por que continuamos ou não tendo essa mesma característica ao longo da vida.

O oposto também acontece, isto é, um traço pode ser muito pouco ou nada determinado pela genética, mas ser altamente hereditário. Por exemplo,não existem que determinam a escolha político-ideológica de um indivíduo. Porém, o quanto uma população varia em seus votos a candidatos de direita e de esquerda é moderadamente explicado pela hereditariedade.

Um elixir contra mitos populares a respeito da hereditariedade do QI

Em resumo, esse texto deve deixar clara cinco mensagens essenciais. Primeiro, algumas variáveis psicológicas são causadas pela genética. Segundo, certas variáveis psicológicas podem variar ao longo da vida dos indivíduos, e entre indivíduos, por motivos hereditários. Coincidentemente, o melhor exemplo para ambos os casos é a inteligência. Terceiro, certos fenômenos psicológicos podem ter origem genética, mas isso não significa que sua variação se deva a motivos hereditários, e vice-versa. Quarto, variar devido à hereditariedade não é o mesmo que desprezar causas ambientais, afinal, fenômenos como a inteligência parecem sofrer influência tanto do ambiente quanto da genética; portanto, a dicotomia nature X nurture aqui é inútil. Quinto, as diferenças de inteligência são fundamentalmente entre-indivíduos, portanto, não faz sentido falar do QI como um valor intrínseco ao indivíduo.

Esses pontos devem ser tomados como uma espécie de antídoto contra mitos muito comuns ao se considerar a hereditariedade de qualquer característica.

Todo mundo está errado, você também

Man arguing with woman

Todo mundo acredita em bobagens. Cada um dos leitores deste artigo. E eu também, claro. É óbvio: o ser humano é falível. Qualquer pessoa mentalmente sã deve ser capaz de admitir que, em algum canto do cérebro, haverá pelo menos uma crença falsa, uma convicção inválida, uma opinião que não corresponde aos fatos. Uma bobagem.

Isso, em teoria. Mas, e na prática? Quando analisamos criticamente o conteúdo de nossas mentes e verificamos as crenças que temos, uma a uma, é raro conseguirmos achar algo de errado: mesmo quando nossos amigos ou adversários nos oferecem argumentos que contrariam nossas opiniões, caímos muito facilmente num diagnóstico do tipo “eu sou racional, meu amigo é teimoso, meu adversário é um idiota”.

Enfim, todas as crenças que mantemos nos parecem certas. Mas, ao mesmo tempo, o mais simples bom-senso nos garante que algumas estão erradas. Que paradoxo é este?

Existe muita pesquisa em psicologia sugerindo que a inteligência humana é excelente para defender as próprias crenças, e não tão boa assim em discriminar as crenças corretas das bobagens. Um dos principais mecanismos dessa defesa é o viés de confirmação – a busca de casos que confirmam nossas ideias preconcebidas, e uma espécie de cegueira seletiva em relação aos exemplos contrários.

Digamos: você pode estar orgulhoso porque o desemprego caiu durante o governo do seu político favorito. Mas o que aconteceu com a inflação? E como comprovar que foram as políticas dele, e não uma outra coisa, que fizeram o desemprego cair?

Outro mecanismo mental bem documentado recebe o sugestivo nome de “fez sentido, pare”: reflete a tendência que temos de parar de buscar explicações para algo assim que encontramos uma que nos pareça “fazer sentido” – isto é, que se casa bem com nossas emoções e preconceitos.

Digamos: você lê na internet que o político que você mais detesta é citado num documento da CIA. Isso faz sentido – esse sujeito tem que ser um agente estrangeiro! Mas, será que a citação existe mesmo? O documento é legítimo? E, por falar nisso, o que a citação diz? Você se daria ao trabalho de checar todos esses dados, ou clicaria, gostosamente, em “compartilhar”, deixando-se levar pela emoção?

Quando uma afirmação nova agrada nossas preconcepções, a reação emocional imediata é de entusiasmo, é de perguntar “posso acreditar nisso?” E a busca sôfrega por argumentos a favor da nova crença tem início. Já quando uma afirmação desafia as preconcepções, a emoção é de desalento, é de perguntar “mas eu preciso mesmo acreditar nisso?” E a busca sôfrega, aí, é por desculpas para pôr a crença de lado.

A culpa, como de costume, é provavelmente da evolução. Milênios de luta por sobrevivência e sexo, em comunidades de primatas hierárquicos, fofoqueiros e ciumentos, produziu um cérebro para o qual status e reputação, incluindo o status e a reputação que ganhamos quando nossos amigos, amantes, chefes e parentes acreditam que acreditamos nas mesmas coisas que eles, muitas vezes são mais importantes do que os fatos da realidade.

Mas, à medida que os grupos humanos foram se tornando cada vez maiores e mais interligados, e o impacto de nossas crenças sobre vida dos outros cresceu, os fatos da realidade começaram a ganhar uma importância para a qual nossos instintos primitivos não estavam – não estão… – muito bem preparados. O preço da verdade, para citar uma frase célebre, é a eterna vigilância.

Uma das definições usuais de “animal racional” é um ser que age de modo coerente com suas crenças. Crenças falsas, portanto, dão um verniz de racionalidade às ações mais estúpidas. Crenças falsas, defendidas com arte e competência, podem levar nações inteiras ao abismo, como vimos acontecer algumas vezes no século passado.

Ainda antes, no século 19, o matemático e filósofo britânico William Clifford propôs uma “ética da crença” – o princípio de que, e eu cito, “é sempre errado, para qualquer um e em qualquer lugar, acreditar em algo sem evidência suficiente”.

Clifford foi criticado por outros filósofos, que acharam sua regra exagerada, mas o espírito dessa ética da crença – a de que cada um de nós tem a responsabilidade de fazer uma espécie de curadoria do conteúdo da própria mente – é mais importante hoje do que nunca, num momento em que crenças se espalham pelo mundo à velocidade da luz, e a humanidade é chamada a decidir coletivamente sobre questões de relevância global.

Essa curadoria é algo muito difícil de fazer sem ajuda: as mesmas pesquisas que apontam a existência de vieses, como o de confirmação, mostram que somos cegos para a maioria de nossos próprios vícios de raciocínio. Em compensação, com um pouco de treino, tornamo-nos muito bons em enxergar os vieses dos outros.

Conversar e debater sem ódio, tratando quem discorda de nós não como um adversário numa disputa, mas como um colega na busca pela verdade, é uma das poucas formas de escaparmos de nossas limitações.

É claro que a boa vontade para debater pode ser manipulada e explorada, mas sem ela continuaremos, para sempre, presos nas bolhas construídas pelas mentiras que contamos a nós mesmos, e que podem acabar nos transformando em verdadeiras ameaças, sem que percebamos.

William Clifford dizia que a pessoa que foge dos questionamentos sobre aquilo em que acredita comete um “pecado contra a humanidade”. Dá para criticar a retórica sisuda, mas, cada vez mais, fica difícil discordar do sentimento.

Uber juntou-se à NASA para produzir o primeiro carro voador

Quando pensamos em carros voadores, podemos imaginar o que se vê em filmes como O Quinto Elemento Harry Potter. Há uma atmosfera de ficção científica ou magia quando se fala do assunto. Mas, de acordo com a empresa Uber, não demorará para que carros voadores se tornem realidade. Na verdade, eles podem estar nos céus de algumas cidades do mundo em 2020.

Ano passado, a empresa anunciou seus planos para introduzir um serviço de carro voador em documento oficial. O novo programa é chamado de “Uber Elevate”. Agora, Jeff Holden, chefe de produto da Uber, disse ao público na Web Summit, realizada em Portugal, que a empresa acaba de assinar junto com a NASA um Space Act Agreement, para formar uma parceria destinada desenvolver um sistema de controle de tráfego aéreo que gerenciará esses carros voadores (potencialmente autônomos). O acordo firmado entre Uber e NASA significa que as duas empresas poderão comercializar tecnologia e conhecimento.

Holden também informou que a novidade será testada em Los Angeles e algumas outras cidades do mundo até 2020. Assim, em três anos os clientes dessas primeiras cidades poderão viajar em veículos semelhantes a helicópteros.

Então, como esse esquema funcionaria?

Da mesma forma como  faria ao chamar um carro normal, você pediria seu táxi voador no aplicativo da empresa. A seguir, você se dirigiria até um “skyport” em cima de um prédio próximo. Isso envolverá a passagem por uma catraca (um recurso do aplicativo deixará você passar) e ser de alguma forma pesado antes do embarque, para garantir que você não seja muito pesado para o veículo.

Veja o procedimento no vídeo:

Isso parece exagerado e irreal para você? Bem, existem outras 19 empresas atualmente desenvolvendo carros voadores neste momento. “Houve um grande progresso que é difícil de ver se você está do lado fora”, disse Holden. “Foi um processo realmente interessante obter nossos parceiros de fabricação de veículos alinhados com as especificações de desempenho, de modo que eles estão construindo veículos que se alinham com o que precisamos para criar Uber Elevate com sucesso”.

Mas vai ser caro, certo? Holden promete que não: “Cobrar caro não é o modus operandi da Uber. Se estamos fazendo isso, você tem que acreditar que vamos conseguir um preço muito baixo”. O “suficientemente barato”, disse, de modo que ainda seja mais barato usar o serviço do que possuir um carro.

Se você ainda se sente cético, Holden assegurou a todos o seguinte: “Nós estudamos isso com cuidado e acreditamos que é possível escalável. Nós fizemos o trabalho duro para que possamos construir skyports e construir a sistemática operacional que permita o tráfego de dezenas de milhares de vôos por dia na cidade de Los Angeles”.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o lobby para acabar com serviço terrestre de empresas como Uber e Cabify continua forte…

(Fonte)

O Corno da Realidade

Não sei quem inventou o conceito de corno da realidade. Talvez tenha sido eu mesmo, talvez tenha sido um de vocês, já não me lembro. Em todo caso, creio que é uma categoria fundamental para se entender os rumos da esquerda nos últimos anos no Brasil.

O que é o corno da realidade? Bem, como diz o nome, o corno da realidade é o sujeito que sempre se sente traído quando o real se revela como o que ele é, e não como o mundo cor-de-rosa que o corno imagina. Ele tem políticos de estimação e acha que a realidade se pauta pela Constituição. Daí, quando políticos atuam como políticos, ou seja, defendendo os seus interesses, como sempre fazem, o corno brada indignado: “que absurdo! como podem me trair assim?”

Na verdade o político não o traiu coisa nenhuma. O político fez o que sempre faz. Foi ele, o corno, que construiu um castelinho imaginário e depois despencou da construção que ele próprio erigiu. Se você quiser o exemplo perfeito do que é a indignação do corno da realidade, é só clicar aqui.

Lula foi a Minas Gerais e declarou que “perdoa os golpistas”. Claro que Lula jamais acreditou que o seu partido tivesse sido vítima de um golpe. O seu partido foi partícipe de uma transação política na qual ninguém mais queria ficar com Rousseff, nem ele mesmo, Lula, cujas chances eleitorais para 2018 aumentaram exponencialmente com o impeachment.

Mas o corno acha que Lula está “errando”. Ele chama a fala de Lula de “alienada”. Lula pode ser acusado de qualquer coisa, menos de alienado. O alienado, obviamente, é o próprio corno, que não entende que Lula está jogando o jogo que sempre jogou, com muita habilidade, aliás. Mas o corno reclama que Lula não está enxergando a “violência do golpe”.

O problema é que as supostas vítimas da “violência do golpe” estão fazendo churrasco com os supostos golpistas, juntinhos, ambos tentando encontrar um caminho para se livrar da Lava Jato. Mas o corno insiste: “vocês estão sendo vítimas de uma violência!”, enquanto as supostas vítimas pedem mais uma rodada de picanha no Bistrô Expand de Brasília.

O corno da realidade bradará indignado que os pilantras do MBL já não estão batendo panelas contra a corrupção. “Onde estão os verde-amarelos agora?!”, grita revoltado o corno da realidade. A resposta é óbvia: os pilantras do MBL não estão batendo panelas porque já conseguiram o que queriam, que era derrubar a Rousseff, enquanto o corno da realidade choraminga que eles deveriam estar nas ruas.

Para usar a analogia de que mais gosto, a do futebol: o corno da realidade é aquele lateral-direito que corre ao banco para reclamar com o treinador “o ponta adversário está me enganando! Ele finge que vai abrir e corta pelo meio! Isso não vale!”.

A esquerda vive hoje em agudíssima crise de cornitude do real. E vai demorar um bom tempo para superá-la.

Qual a origem da linguagem humana?

Imagine que você é um viajante em uma terra estranha. Um habitante local se aproxima e começa a falar em uma linguagem desconhecida. Ele parece ser sincero e está apontando para algum lugar. Mas você não consegue decifrar as palavras, não importa o quanto tente.

Essa é praticamente a situação de uma criança pequena quando encontra uma linguagem falada pela primeira vez. Na verdade, ela parece estar em uma posição ainda mais desafiadora. Ao contrário do nosso hipotético viajante, ela nem sabe que essas pessoas estão tentando se comunicar.

E, no entanto, com a idade de quatro anos, cada criança cognitivamente normal do planeta se transformou em um gênio linguístico: antes da escolaridade formal, antes de poderem andar de bicicleta, amarrar seus próprios cadarços ou fazer adição e subtração rudimentares. Parece um milagre. Pense apenas na dificuldade que você teria para, enquanto adulto, aprender a falar mandarim ou sânscrito – uma criança nascida na China ou Índia aprende sua língua materna quase sem perceber. A tarefa de explicar este milagre tem sido, sem dúvida, a preocupação central do estudo científico da linguagem por mais de 50 anos.

Na década de 1960, o linguista e filósofo norteamericano Noam Chomsky propôs o que parecia ser uma solução. Ele argumentou que as crianças na verdade não aprendem a língua materna – ou, pelo menos, não todos os blocos de construção gramatical. O processo é muito rápido e indolor para ser considerado um “aprendizado”. Ele concluiu que as crianças devem nascer com um tipo rudimentar de conhecimento gramatical (uma “gramática universal”) escrita no DNA humano. Com esta predisposição hard-wired para a linguagem, é uma questão relativamente trivial aprender as diferenças superficiais entre, digamos, inglês e francês. O processo funciona porque os bebês têm um instinto de linguagem: um conjunto de ferramentas gramaticais que funciona em todas as línguas de todo o mundo.

De uma só vez, essa proposta elimina a dificuldade de aprender a língua materna e explica como uma criança pode dominar um idioma nativo em tão pouco tempo. É brilhante. A idéia de Chomsky foi prevalente na ciência da linguagem por quatro décadas.

E, no entanto, é um mito. Um amontoado de novas evidências surgiu nos últimos anos, demonstrando que Chomsky está errado.

Vamos voltar um pouco. Há um ponto em que todos concordam: nossa espécie exibe uma clara preparação biológica para a linguagem. Nossos cérebros estão realmente “preparados para a linguagem” no seguinte sentido limitado: o cérebro humano tem o tipo certo de memória para processar a sintaxe no nível da sentença e um córtex pré-frontal excepcionalmente grande, que nos dá a capacidade de aprendizagem associativa para o uso de símbolos.

Da mesma forma, nossos corpos também estão prontos para a linguagem: nossa laringe situa-se abaixo da posição da laringe em outras espécies de hominídeos, deixando-nos expulsar e controlar a passagem do ar. E a posição do pequeno osso hióide em nossos maxilares nos dá um controle muscular profundo sobre nossas bocas e línguas, permitindo-nos fazer centenas de sons fala distintos. Ninguém nega que essas coisas sejam completamente inatas e importantes para a linguagem.

O que está em disputa é a afirmação de que o conhecimento da própria linguagem (o software de linguagem) é algo com o qual cada criança humana nasce. A idéia de Chomsky é a seguinte: assim como desenvolvemos órgãos humanos distintivos (corações, cérebros, rins e fígados), também desenvolvemos a linguagem no cérebro, que Chomsky compara com um “órgão de linguagem”. Este órgão começa a se desenvolver no início da infância. Ele contém um modelo válido para todos os possíveis conjuntos de regras de gramática em todos os idiomas do mundo.

Hoje há pouco suporte para a teoria de Chomsky.

E por isso é brincadeira de criança assimilar qualquer linguagem humana natural nos primeiros anos de vida. Uma criança nascida em Tóquio aprende a falar japonês enquanto uma nascida em Londres assimila o inglês – e, na superfície, essas línguas parecem muito diferentes. Mas na sua base, elas são essencialmente as mesmas, funcionando em um sistema operacional gramatical comum. O cientista cognitivo canadense Steven Pinker apelidou essa capacidade de nosso “instinto linguístico”.

Existem dois argumentos básicos para a existência desse instinto linguístico. O primeiro é o problema dos professores incompetentes. Como Chomsky apontou em 1965, as crianças parecem assimilar a língua materna sem muita instrução explícita de seus pais. Quando uma criança bem pequena diz algo gramaticalmente errado como “Papai, as galinha faz ovo”, seus pais não corrigem, eles apenas sorriem e se maravilham com o quão fofo seu filho é. Além disso, tais erros aparentemente elementares escondem incríveis conquistas gramaticais. De alguma forma, a criança entende que existe uma classe lexical – substantivos – que podem ser singulares ou plurais, e que essa distinção não se aplica a outras classes léxicas.

Este tipo de conhecimento não é explicitamente ensinado. A maioria dos pais não possui nenhum treinamento explícito de gramática. E é difícil ver como as crianças podem resolver as regras apenas ouvindo atentamente: parece fundamental compreender como funciona uma linguagem. O fato de que aprendem rapidamente, por exemplo, que há substantivos que podem ser pluralizados e que são distintos dos verbos, é um ponto em que hipótese de um instinto de linguagem encontra seu apoio. As crianças não precisam descobrir tudo a partir do zero: certas distinções básicas parecem cair em seu colo.

As crianças pequenas não recebem instrução formal sobre sua língua materna, então como adquirem competência em gramática?

O segundo argumento de Chomsky muda o foco para as habilidades da criança. Pense nisso como o problema dos alunos pobres. Que recursos de aprendizagem em geral as crianças trazem para o processo de aquisição de linguagem? Quando Chomsky estava formulando suas ideias, as teorias mais influentes sobre o aprendizado (por exemplo, a abordagem comportamental do psicólogo norte-americano B. F. Skinner – o behaviorismo) pareciam inadequadas ao desafio representado pela linguagem.

A abordagem behaviorista de Skinner via todo o aprendizado como uma questão de reforço de estímulo-resposta, da mesma forma que o cão de Pavlov poderia ser treinado para salivar ao ouvir um sino anunciando o jantar. Mas, como afirmou Chomsky, em uma devastadora revisão de 1959 sobre as alegações de Skinner, o fato de as crianças não receberem instrução formal na língua materna significa que o comportamento não pode explicar como adquirem competência em gramática.

Chomsky concluiu que as crianças devem encontrar o processo de aprendizagem da linguagem já preparado de alguma forma. Se elas não são explicitamente ensinadas como a gramática funciona, e se suas habilidades de aprendizado inatas não estão prontas para a tarefa de aprender apenas por observação, então, por processo de eliminação, sua capacidade para a gramática deve estar presente desde o nascimento.

Esses são mais ou menos os argumentos que sustentaram o projeto de Chomsky desde então. Eles parecem bastante simples, não? E, no entanto, a bagagem teórica que suportam esses argumentos é extremamente significativa. Ao longo das últimas duas décadas, a hipótese instinto linguístico tem cambaleado sob o próprio peso.

Vamos começar com um ponto bastante básico. Quanto sentido faz chamar qualquer base inata para a linguagem de “instinto”? Pensando bem, não muito. Um instinto é uma disposição inata para certos tipos de comportamento adaptativo. Um aspecto importante é que esse comportamento deve surgir sem treinamento. Uma aranha jovem não precisa observar uma aranha mais velha para aprender a fazer uma intrincada rede de captura com sua teia: a aranha apenas lança sua teia e constrói a rede, não sendo necessária nenhum aprendizado.

A linguagem é diferente. A cultura popular pode celebrar personagens como Tarzan e Mowgli, seres humanos que crescem entre os animais e, em seguida, dominam a fala humana na idade adulta. Mas agora temos vários casos bem documentados de crianças chamadas “ferais”, crianças que não estão expostas à linguagem por acidente ou desígnio, como na história terrível de Genie, uma garota nos EUA, cujo pai a manteve dentro uma sala trancada até que foi descoberta em 1970, aos 13 anos de idade.

A lição geral desses indivíduos infelizes é que, sem exposição a um meio humano normal, uma criança simplesmente não vai assimilar uma linguagem. As aranhas não precisam crescer ao lado de outras aranhas mais velhas para assimilar como fazer uma teia, mas os bebês humanos precisam ouvir muita linguagem antes que possam falar. Não importa como se analise a questão, a linguagem não é um instinto da maneira que a tela da aranha definitivamente é.

Mas isso é pouco. Um problema mais importante é o seguinte: se o nosso conhecimento dos rudimentos de todas as 7.000 línguas do mundo é inato, então, em algum nível, todas essas línguas devem ser iguais. Deve haver um conjunto de regras gramaticais “universais” absolutas, comuns a todas as línguas do mundo. Mas não é isso que descobrimos. O que encontramos ao analisar as diversas línguas do mundo é uma incrível diversidade.

Os diversos idiomas do mundo do mundo variam enormemente em relação à quantidade de sons distintos que usam, de modestos 11 aos impressionantes 144 sons de algumas línguas Khoisan (as línguas africanas que empregam consoantes de “clique”). Elas também diferem em relação à ordem das palavras usadas para sujeito, verbo e objeto – havendo todo o tipo de ordem possível. O inglês usa um padrão bastante comum: sujeito, verbo, objeto (O cão mordeu o carteiro). Mas outros idiomas fazem tudo de forma bem diferente. Em Jiwarli, uma língua australiana indígena, os componentes da frase inglesa “Esta mulher beijou aquele limpador de janela careca” seriam organizados na seguinte ordem: Aquele esta careca beijou mulher limpador de janelas.

Muitas línguas usam a ordem das palavras para indicar quem está fazendo o que a quem. Outras não o usam ordem alguma: em vez disso, alguns idiomas elaboram “frases” criando palavras gigantes compostas de pequenas partes de palavras. Os lingüistas chamam essas partes de palavras de “morfemas”. Muitas vezes, você pode combinar morfemas para criar palavras, como a palavra “in-feliz-mente”. A palavra tawakiqutiqarpiit da língua inuktitut, falada no leste do Canadá, é aproximadamente equivalente a: Você tem algum tabaco à venda? A ordem das palavras importa menos quando cada palavra é uma frase completa.

Os ingredientes básicos da linguagem, pelo menos da nossa perspectiva ocidental, são partes do discurso: substantivos, verbos, adjetivos, advérbios e assim por diante. Mas muitas línguas não têm advérbios, e algumas, como o Lao (falado no Laos e partes da Tailândia), não têm adjetivos. Até foi afirmado que o Straits Salish, uma língua indígena falada na região da Columbia Britânica, dispensa substantivos e verbos.

Além disso, algumas línguas possuem categorias gramaticais que parecem positivamente estranhas para nossa perspectiva eurocêntrica. Minha favorita é o ideófono, uma categoria gramatical que algumas línguas empregam para apimentar uma narrativa. Um ideófono é um tipo de palavra de pleno direito que integra diferentes experiências sensoriais decorrentes de uma única ação: para escolher um exemplo, a palavra ribey-tibuy, da língua do norte Mundari, descreve a visão, o movimento e o som das nádegas de uma pessoa gorda enquanto ela caminha.

E é claro que não é necessário falar o idioma: as 130 línguas de sinais reconhecidas do mundo funcionam perfeitamente sem som. É um fato notável que o significado lingüístico possa ser transmitido de múltiplas formas: na fala, nos gestos, na página impressa ou na tela do computador. Não depende de um meio específico para sua expressão. É estranho imaginar que, se há algum elemento comum a toda linguagem humana, ele esteja escondido sob uma tão desconcertante profusão de diferenças.

À medida que essas descobertas surgiram ao longo dos anos, o lobby a favor do instinto de linguagem gradualmente foi reduzindo o tamanho do suposto componente universal da linguagem que haveria no cérebro humano. Em uma versão de 2002, Chomsky e colegas da Harvard propuseram que talvez a única coisa exclusiva da linguagem humana seja uma capacidade computacional de propósito geral conhecida como “recursão” ou “recursividade”.

A recursão nos permite reorganizar palavras e unidades gramaticais para formar frases de complexidade potencialmente infinitas. Por exemplo, eu posso incorporar recursivamente frases em frases relativas – frases que começam com quem ou qual – e assim criar frases sem fim: a loja, que está na quadra do posto de gasolina, que está perto da casa de João… Mas sabemos que os humanos são não únicos na sua capacidade de recursão: os estorninhos europeus também podem fazê-lo. Essa propriedade “única” da gramática humana pode não ser tão única afinal de contas.

Também não está claro se a recursão é realmente universal entre as línguas humanas. Alguns pesquisadores sugerem que, na verdade, a recursão pode ser um resultado tardio da evolução dos sistemas de gramática, uma conseqüência e não uma causa. E em 2005, o antropólogo norte-americano Daniel Everett afirmou que Pirahã (uma língua indígena da floresta amazônica) não usa recursão, e isso seria algo muito estranho de descobrir caso a gramática realmente estivesse conectada ao cérebro humano.

Mas chega de universalidades. Talvez um problema mais grave para a hipótese do instinto linguístico seja sua explicação sobre como aprendemos a falar. Pretendia-se explicar como a aquisição de linguagem é tão rápida e automática nas crianças. O problema é que a explicação faz o processo de aquisição parecer muito mais rápido e automático do que realmente é.

Infelizmente, sua proposta não resiste a descobertas no campo da psicolinguística do desenvolvimento. Pelo contrário, as crianças parecem pegar sua gramática de forma bastante fragmentada. Por exemplo, em relação aos artigos, por um longo período de tempo as crianças aplicarão um artigo específico (por exemplo, o) apenas para os substantivos que já ouviram sendo precedidos com ele. Só mais tarde as crianças expandem o que ouviram, aplicando gradualmente artigos a um conjunto mais amplo de substantivos.

Esta descoberta parece ser válida para todas as nossas categorias gramaticais. As “regras” não são aplicadas em saltos indiscriminados, como seria de esperar se houvesse realmente um modelo inato para a gramática. Parece que construímos o nosso idioma ao detectar padrões no comportamento linguístico que encontramos no ambiente em que crescemos, e não pela aplicação de regras internas. Ao longo do tempo, as crianças lentamente descobrem como aplicar as várias categorias que encontram. Assim, embora a aquisição de linguagem possa ser estranhamente rápida, é muito pouco automática: a aquisição é resultado de um processo minucioso de tentativa e erro.

E como seria um “instinto de linguagem”, caso ele existisse? Bem, se a linguagem emerge de um gene de gramática, que estabelece um órgão especial em nossos cérebros durante o desenvolvimento humano, parece natural supor que a linguagem deva constituir um módulo distinto em nossa mente. Deve haver uma região específica do cérebro que seja sua reserva exclusiva, uma área especializada apenas para linguagem. Em outras palavras, presumivelmente o processador de linguagem do cérebro deve ser encapsulado – impermeável à influência de outros aspectos do funcionamento da mente.

Mas as pesquisas de neurociências cognitivas nas últimas duas décadas começaram a levantar o véu sobre como a linguagem é processada no cérebro. A resposta curta é que está em toda parte. No passado se acreditava que uma região conhecida como “Área de Broca” era o centro de linguagem do cérebro. Agora sabemos que ela não se dedica exclusivamente à linguagem, mas que está envolvida em uma série de outros comportamentos motores e não linguísticos.

E outros aspectos do conhecimento e processamento linguístico estão implicados em quase todos os lugares do cérebro. Se por um lado o cérebro humano exibe especialização para o processamento de diferentes gêneros de informação, como a visão, por outro parece não haver um local dedicado apenas para a linguagem.

Mas talvez a singularidade da linguagem não decorre de um “onde”, mas de um “como”. Se houver um tipo de processamento neurológico exclusivo do idioma, importa onde ele é processado no cérebro? Esta é a ideia da modularidade “funcional” e não “física”. Uma maneira de demonstrá-lo seria encontrar indivíduos cujas habilidades de linguagem fossem normais mesmo enquanto seus intelectos estivessem comprometidos e vice-versa. Isso proporcionaria o que os cientistas chamam de “dupla dissociação” – uma demonstração da independência mútua das faculdades verbais e não-verbais.

Em seu livro The Language Instinct (1994), Steven Pinker examinou várias patologias linguísticas sugestivas, a fim de justificar essa dissociação. Por exemplo, algumas crianças sofrem com o que é conhecido como Deterioração da Linguagem Específica – seu intelecto geral parece normal, mas elas têm dificuldade com tarefas verbais específicas, tropeçam em certas regras de gramática e assim por diante. Isso seria uma evidência convincente, caso não tivesse sido descoberto que o SLI é só uma incapacidade de processar excelentes detalhes auditivos. É conseqüência de um déficit motor, e não de uma falha linguística específica. Histórias semelhantes poderiam ser contadas sobre cada uma das outras alegadas dissociações de Pinker: os problemas verbais sempre se revelam enraizados em algo diferente da linguagem.

Os argumentos anteriores sugerem que não nenhum órgão linguístico específico no cérebro. Uma linha de evidência alternativa implica algo ainda mais forte: que não poderia haver tal coisa. Para que uma gramática universal fosse conectada ao microcircuito do cérebro humano, ela precisaria ser transmitida através dos genes. Mas pesquisas recentes em neurobiologia sugerem que o DNA humano simplesmente não tem nada equiparado ao poder de codificação necessário para fazer isso. Nosso genoma possui uma capacidade de informação altamente restrita. Uma quantidade significativa de nosso código genético é ocupada com a construção de um sistema nervoso, mesmo antes de começar qualquer outra coisa. Escrever algo tão detalhado e específico quanto o conhecimento de uma Gramática Universal dentro do cérebro de um bebê humano usaria recursos informativos enormes – recursos que nosso DNA simplesmente não pode gastar. Assim, a premissa básica do instinto linguístico – que tal coisa poderia ser transmitida geneticamente – parece duvidosa.

Esse é um último grande problema para a idéia de uma gramática universal. Essa é a sua estranha implicação para a evolução humana. Se o idioma é geneticamente codificado, então, evidentemente, precisa ter surgido em algum ponto de nossa linhagem evolutiva. Quando Chomsky estava desenvolvendo sua teoria, a comunidade científica entendia que a linguagem era ausente em outras espécies de nosso gênero, como no caso do Homem de Neandertal. Isso restringia a janela de oportunidade na qual o gene da linguagem poderia ter surgido.

Ao mesmo tempo, a descoberta relativamente recente de uma cultura humana sofisticada há cerca de 50.000 anos atrás (fabricação de ferramentas complexas, jóias, artes em cavernas e assim por diante) parecia confirmar essa emergência tardia. Chomsky argumentou que o gene da linguagem poderia ter aparecido em cena há pouco tempo, como por exemplo há 100.000 anos, e que deve ter surgido de uma mutação genética.

Pare e pense sobre isso: é uma ideia muito estranha. Por um lado, a afirmação de Chomsky é que a linguagem surgiu através de uma macro mutação: um salto descontínuo. Mas isso está em desacordo com a síntese neodarwiniana moderna, amplamente aceita como fato, que não tem lugar para saltos tão amplos e sem precedentes. As adaptações simplesmente não aparecem totalmente formadas.

Além disso, uma conseqüência bizarra da posição de Chomsky é que a linguagem não poderia ter evoluído para o propósito da comunicação: afinal, mesmo que um gene gramatical pudesse ter surgido do nada em um indivíduo sortudo (algo já improvável), as chances de duas pessoas com a mesma mutação aleatória surgirem ao mesmo tempo é ainda menos plausível. E assim, de acordo com a teoria do instinto linguístico, o primeiro homem equipado com linguagem do mundo presumivelmente não tinha ninguém com quem falar.

Algo parece ter dado errado em algum lugar. E de fato, agora acreditamos que vários dos pressupostos evolutivos de Chomsky estavam incorretos. Reconstruções recentes do trato vocal de um Neandertal revela que eles provavelmente tinham alguma capacidade de fala, talvez de qualidade muito moderna. Também está se tornando claro que, longe dos brutos ignorantes do mito popular, os Neandertais tinham uma cultura material sofisticada (incluindo a capacidade de criar gravuras de cavernas e produzir sofisticadas ferramentas de pedra) e não tão diferentes da explosão cultural humana de 50 mil anos atrás. É difícil ver como eles poderiam ter gerenciado a complexa aprendizagem e cooperação necessária para isso se não tivessem idioma.

Além disso, a análise genética recente revela que houve cruzamento entre espécies, e a maioria dos humanos modernos tem alguns pedaços de DNA distintamente neandertal. Longe da imagem de seres humanos modernos chegando e derrotando primitivos ignorantes, parece que o Homo sapiens e Homo Neanderthalensis podem ter vivido em coabitação e acasalado. Não parece excessivo especular que também podem ter comunicado uns com os outros.

Tudo está muito bem, mas as perguntas permanecem. Por que hoje apenas os humanos têm linguagem, o mais complexo dos comportamentos dos animais? Certamente algo deve ter acontecido para nos separar de nossos parentes mais próximos. O desafio para as áreas de pesquisa que rejeitam a hipótese de um instinto da linguagem é dizer o que foi esse “algo”. E uma explicação provável vem do que podemos chamar de nossa “inteligência cooperativa” e dos eventos que a colocaram em funcionamento há mais de 2 milhões de anos.

Nossa linhagem, Homo, remonta a cerca de 2,5 milhões de anos. Antes disso, nossos antepassados ​​mais próximos eram macacos essencialmente bípedes conhecidos como australopithecines, criaturas que provavelmente eram tão inteligentes como os chimpanzés. Mas, em algum momento, algo em seu nicho ecológico deve ter mudado. Esses primeiros pré-humanos passaram de uma dieta à base de frutas (como a maioria dos grandes macacos de hoje) para a carne.

A nova dieta exigiu novos arranjos sociais e um novo tipo de estratégia cooperativa (é difícil caçar sozinho). Isso, por sua vez, parece ter implicado novas formas de pensamento cooperativo de forma mais geral: surgiram arranjos sociais para garantir aos caçadores uma parcela igual da recompensa e para garantir que as mulheres e as crianças que pudessem participar também obtivessem uma parte da caça.

De acordo com o psicólogo comparativo dos EUA, Michael Tomasello, quando o antepassado comum de Homo sapiens e Homo neanderthalensis surgiu há cerca de 300 mil anos, esse ancestral já desenvolveu um tipo sofisticado de inteligência cooperativa. Isso é evidente no registro arqueológico que demonstra a complexidade da vida social e dos arranjos interacionais entre os ancestrais dos humanos e neandertais.

Provavelmente o uso de símbolos – que prefiguram a linguagem – e a capacidade desenvolver pensamento recursivo (uma conseqüência, segundo algumas teorias, do lento surgimento de uma gramática simbólica cada vez mais sofisticada). A nova situação ecológica teria conduzido, inexoravelmente, a mudanças no comportamento humano. O uso de ferramentas e a caça cooperativa tornaram-se necessárias, bem como novos arranjos sociais – como pactos para salvaguardar os privilégios de reprodução monógamas enquanto os machos estavam ausentes na caça.

Essas novas pressões sociais teriam precipitado mudanças na organização do cérebro. Com o tempo, veríamos a capacidade de linguagem desenvolver-se. A linguagem é, afinal, o exemplo paradigmático do comportamento cooperativo: requer convenções (normas acordadas dentro de uma comunidade) e pode ser utilizada para coordenar todos os comportamentos complexos que o novo nicho no ecossistema exigia de nossos antepassados.

Nesta perspectiva, não temos que presumir um instinto linguístico especial; precisamos apenas olhar que tipo de mudanças nos tornaram quem somos, as mudanças que abriram o caminho para a fala humana. Isso nos permite imaginar o surgimento da linguagem como um processo gradual de muitas tendências sobrepostas. Poderia ter começado como um sistema gestual sofisticado, por exemplo, apenas depois avançando para suas manifestações vocais. Mas certamente o impulso mais profundo no caminho para a fala teria sido o desenvolvimento do nosso instinto de cooperação. Com isso não quero dizer que sempre chegamos a esse ponto. Mas quase sempre reconhecemos outros seres humanos como criaturas conscientes, como nós, que têm pensamentos e sentimentos que podemos tentar influenciar.

Vemos esse instinto no esforço de bebês humanos enquanto tentam adquirir sua língua materna. As crianças têm capacidades de aprendizagem muito mais sofisticadas do que Chomsky previu. Elas são capazes de implantar habilidades sofisticadas de reconhecimento de intenções desde muito cedo, talvez já com nove meses de idade, para começar a descobrir os propósitos comunicativos dos adultos ao seu redor. E este é, em última análise, um resultado de nossas mentes cooperativas.

Isso não significa menosprezar a linguagem: uma vez que surgiu, ela nos permitiu moldar o mundo para à vontade – para o melhor ou para o pior. Ela desencadeou os tremendos poderes de invenção e transformação da humanidade. Mas não saiu do nada, e não se distingue do resto da vida humana. Por fim, no século 21, estamos em condições de abandonar o mito da gramática universal e começar a ver esse aspecto único da nossa humanidade como realmente é.


Fonte: AeonThe Evidence is in There is no Language Instinct

 

A revolução que fez o século XX

Cem anos depois que os bolcheviques tomaram de assalto o Palácio de Inverno em Petrogrado, onde se refugiara o governo provisório herdeiro do czarismo, a Revolução Russa continua a dividir opiniões e a se reproduzir como um dos fatos mais importantes da História moderna.

O que parecia ser um putsch tradicional, destinado a ter vida curta, estendeu-se no tempo, converteu-se em um Estado poderoso, deu origem a uma nova sociedade e a uma nova ideia de vida coletiva. Incendiaram-se as ideias e os parâmetros com que se pensava o futuro.

Os Partidos Comunistas ganharam fôlego no imaginário social como construtores de um novo mundo e só não avançaram de modo mais célere na Europa porque a Rússia revolucionária mergulhou na guerra civil, foi levada a endurecer o regime político progressivamente após a morte de Lênin em 1924 e porque o mundo entre as duas guerras era hostil a planos generosos de reforma. Havia o nazismo e o fascismo em ascensão, a crise de 1929 espalhou seus efeitos com rapidez e a democracia representativa foi forçada a se conter. Mesmo assim, os comunistas se converteram em políticos de respeito, capazes não só de organizar um país como de lutar pelos interesses das maiorias e dos trabalhadores, as mesmas massas que emergiriam com força na política sob impulso da Revolução de 1917, ainda que não somente dela.

O século XX, a rigor, começou ali, como bem lembrou o historiador inglês Eric Hobsbawm. Em sua evolução, o comunismo e a reforma social ganharam corpo como utopias plausíveis, capazes de fornecer diretrizes para a atividade política e de fixar o anticapitalismo como meta possível.

Foram muitas as versões do que deveria ser essa macro-transformação. Os próprios revolucionários nem sempre se entenderam a respeito, dividindo-se sobre o peso que seria preciso dar ao Estado, aos partidos, à democracia, às liberdades, ao indivíduo. Foram divisões contundentes, que com o tempo minaram as forças comunistas e despejaram desentendimento em todas as esquerdas pelo mundo afora.

Que sacrifícios teriam de ser feitos para que um novo mundo pudesse emergir e se consolidar? Que estratégias deveriam ser seguidas nos países “orientais” como a Rússia – marcada por um agrarismo renitente e por um autoritarismo secular que forjara todo um leque de hábitos e procedimentos –, e nos países “ocidentais” do centro-oeste europeu, já industrializados e com sociedades civis mais complexas e estruturadas? Qual o ritmo da revolução?

A utopia modelada por Marx e Engels no século XIX cairia como uma luva ao se abrir o século XX. O capitalismo avançara em escala global, os trabalhadores industriais se reproduziam e queriam sair das fábricas para as ruas, alcançar o sistema político e o Estado, obter ganhos e conquistas que haviam amadurecido ao longo de décadas de trabalho infame e lutas de emancipação. Anunciava-se claramente que o novo século seria urbano e industrial e que, nele, espaços expressivos teriam de ser concedidos às massas e o próprio capitalismo precisaria ser “reinventado” para escapar do cerco a que estava sendo submetido. Lênin percebeu isso com clareza e sua liderança política e intelectual foi decisiva para impulsionar o movimento revolucionário.

A Revolução Russa forneceu parte do arsenal com que as lutas políticas passaram a ser travadas. A outra parte veio da socialdemocracia, empenhada em projetar reformas progressivas que aos poucos abriram brechas na couraça capitalista. O próprio nazi-fascismo exploraria o anticapitalismo, mas seria tragado pela estupidez e pelo irracionalismo violento que o caracterizavam.

A Segunda Grande Guerra fecharia uma etapa e dela os comunistas sairiam valorizados como combatentes da liberdade e da justiça social. Em alguns países da Europa passariam a integrar os governos de reconstrução nacional, nos quais consolidariam sua disposição de atuar em alianças e de modo unitário. Foi assim na Itália, por exemplo, país em que o PCI cresceu expressivamente. Em outros países, a socialdemocracia redesenharia as políticas de Estado e também se afirmaria como força política.

Mas a Revolução Russa seguiria um caminho explosivo, condicionado pela cultura política do país, pelo vazio de liderança que se seguiu à morte de Lênin, pelas lutas internas do partido comunista e pelos estragos da Primeira e depois da Segunda Guerra. A partir dos Anos Trinta, Stálin irá se impor, reduzindo o partido ao Estado e promovendo ajustes de contas que se somariam a um autoritarismo que só fazia crescer e se disseminar por toda a sociedade. A União Soviética, ao mesmo tempo, se convertia em potência, organizava suas indústrias e seus arsenais, ameaçava disputar o centro da ordem internacional. Com o fim da Guerra, o desfecho foi inevitável. A URSS se tornou o alter perfeito dos EUA e a “Guerra Fria” tomou conta do mundo.

A utopia comunista foi obrigada, a partir daí, a lidar com o problema de manter distância ou legitimar passivamente o que ocorria na União Soviética. O Relatório Krushev de 1956, apresentado para denunciar os crimes e os erros de Stálin, santificado inadequadamente, tentou ser um balão de oxigênio para animar os comunistas. No lugar de Stálin “guia genial dos povos”, emergia o ditador sanguinário. Pegou a todos de surpresa. Muitos não acreditaram, passaram mal, viram em Krushev um traidor. O Relatório só seria impresso décadas depois. O que circulou na época foram versões de um discurso congressual, fazendo com que crescesse a confusão.

Os cúmplices de Stálin, porém, eram muitos. Convictos ou ingênuos, bem-intencionados ou simples reprodutores das ordens vindas de cima, conseguiram frear o que poderia ter sido uma renovação. O stalinismo continuou vivo, ainda que menos legitimado. Converteu-se em sistema, que pouco a pouco engessaria a URSS e faria crescer a insatisfação social. Somente nos anos 1980 é que surgiria Mikhail Gorbachev, com sua Glasnot e sua Perestroika, para pregar a necessidade da transparência, da democracia e da reforma econômica. Foi tarde demais. Os satélites soviéticos explodiram e a URSS ruiu como um castelo de areia.

A utopia comunista, que já vinha perdendo vigor, registrou o golpe. A “vida líquida” do capitalismo globalizado completou o quadro, impondo um ajuste forte na ideia mesma de esquerda e de partido político, algo difícil de ser feito. Com isso, o que poderia haver de legado cultural no comunismo histórico ficou rarefeito.

A “utopia” da Grã-Rússia, porém, se manteve. Foi de certa maneira reativada por Vladimir Putin, fiel caudatário do autoritarismo russo. A Rússia de hoje está distante da Rússia de 1917, mas Putin está próximo de Stálin. Seu governo nem sequer comemora os 100 anos da Revolução. Recusa-se até mesmo a refletir sobre o legado de 1917, que foi controvertido e sinuoso, mas sem o qual não existiria o século XX tal como o conhecemos.

A Revolução Russa é parte da História dos nossos tempos. Ignorá-la ou desprezá-la em nome de uma polarização com a esquerda e o comunismo é expressão não só de intolerância, mas de regressismo intelectual.

A linguagem pode alterar como percebemos o Tempo

No filme de Arrival (Chegada), Amy Adams interpreta a linguista Louise Banks, que tenta decifrar uma linguagem alienígena. Ela descobre que a forma como os alienígenas falam sobre o tempo dá a eles o poder de ver o futuro – e quando Banks aprende sua linguagem, ela também começa a ver através do tempo. Como um personagem do filme diz, “aprender uma língua estrangeira cria novas conexões no seu cérebro”.

Meu novo estudo (no qual trabalhei junto ao linguista Emanuel Bylund) mostra que os bilíngues realmente pensam sobre o tempo de forma diferente, dependendo do contexto linguístico em que estão estimando a duração dos eventos. Mas, ao contrário de Hollywood, os bilíngues, infelizmente, não podem ver o futuro. No entanto, este estudo mostra que aprender uma nova maneira de falar sobre o tempo realmente cria novas conexões no cérebro. Nossas descobertas são a primeira evidência psicofísica de flexibilidade cognitiva em bilíngues.

Sabemos há algum tempo que os bilíngues vão para trás e para frente entre suas línguas rapidamente e muitas vezes inconscientemente – um fenômeno chamado code switching. Mas diferentes idiomas também incorporam diferentes visões de mundo e diferentes formas de organizar o mundo que nos rodeia. A maneira como os bilíngues lidam com essas diferentes maneiras de pensar tem sido um mistério para os pesquisadores de línguas.

Tempo, imaginação e linguagem

O tempo é um exemplo. O tempo é fascinante porque é muito abstrato. Não podemos tocá-lo ou vê-lo, mas nós organizamos toda a nossa vida em torno dele. A coisa mais legal sobre o tempo é que a forma como o experimentamos é de certa forma determinada pela nossa linguagem e imaginação. Como o tempo é tão abstrato, a única maneira de falar sobre isso é usando a terminologia de outro domínio de experiência mais concreto, isto é, o espaço. Por exemplo, em sueco, a palavra para futuro é framtid, que literalmente significa “tempo frontal” (front time). Visualizar o futuro como algo na nossa frente (e o passado como atrás de nós) também é muito comum em inglês.

Mas para falantes de Aymara (língua falada no Peru), olhar para a frente significa olhar para o passado. A palavra para o futuro (qhipuru) significa “atraso do tempo” – de modo que o eixo espacial é invertido: o futuro está atrasado, o passado está por vir. A lógica em Aymara parece ser a seguinte: não podemos olhar para o futuro, assim como não podemos ver atrás de nós sem virar a cabeça. O passado já é conhecido por nós, podemos vê-lo como qualquer outra coisa que aparece em nosso campo de visão, na nossa frente.

Em outro estudo, voluntários bilíngues em chinês e inglês foram convidados a organizar fotos de Brad Pitt e Jet Li quando jovens, adultos e mais velhos. Os voluntários arrumaram o primeiro horizontalmente, com o jovem Brad Pitt à esquerda e o velho Brad Pitt à direita. Mas as mesmas pessoas organizaram as fotos de Jet Li verticalmente, com o jovem Jet Li aparecendo no topo e o antigo Jet Li aparecendo no fundo. Parece que a cultura e o significado formam um vínculo estreito, como essa mudança de comportamento dependente do contexto mostra.

Nosso estudo mostrou que essas diferenças de linguagem têm efeitos psicofísicos na mente bilíngue: elas alteram a forma como o mesmo indivíduo experimenta a passagem do tempo, dependendo do contexto de linguagem em que está operando. Por exemplo, falantes de sueco e inglês preferem marcar a duração dos eventos referindo-se a distâncias físicas – uma curta interrupção, uma longa festa. Mas falantes de grego e espanhol tendem a marcar o tempo referindo-se a quantidades físicas – uma pequena pausa, uma grande festa. Os falantes de inglês e sueco vêem o tempo como uma linha horizontal, como distância percorrida. Mas falantes de espanhol e grego vêem isso como quantidade, como volume ocupando espaço.

Como consequência, os monolíngues ingleses e suecos estimam quanto tempo leva para que as linhas se prolonguem em uma tela de computador com base em quão longe as linhas se expandem. Se duas linhas se estendem em comprimentos diferentes durante o mesmo tempo, os participantes julgam que a linha mais curta se estendeu por tempo menor e que a linha mais longa se estendeu por mais tempo, embora não haja diferença. Os monolíngues espanhóis e gregos, por outro lado, tem sua percepção do tempo influenciada pela noção de quantidade física – como quando um recipiente se enche de líquido. Se água for colocada em dois contêineres em níveis diferentes durante o mesmo tempo, os participantes julgarão que o contêiner com a menor quantidade de líquido levou menos tempo para ser cheio do que o outro.

Bilíngues flexíveis

Mas bilíngues espanhol-sueco são flexíveis. Quando solicitados a estimar o tempo com a palavra sueca para duração (tid), eles estimaram o tempo usando o comprimento de uma linha e não foram afetados pelo volume do contêiner. Quando solicitado com a palavra em espanhol para duração (duración), eles estimaram o tempo com base no volume do contêiner e não foram afetados pelo comprimento da linha. Parece que, aprendendo um novo idioma, você de repente entra em sintonia com dimensões perceptivas que não conhecia antes.

O fato de os bilíngues transitarem entre essas diferentes maneiras de estimar o tempo sem esforço e inconscientemente se enquadra com um crescente número de evidências que demonstram a facilidade com que a linguagem pode influenciar nossos sentidos mais básicos, incluindo nossas emoções, nossa percepção visual e, como demonstrado, nossa sensação de tempo.

Mas também revela que os bilíngues são pensadores mais flexíveis e há evidências de que ir e voltar entre diferentes línguas diariamente confere vantagens sobre a capacidade de aprender e executar multitarefas, e até benefícios de longo prazo para o bem-estar .

Portanto, nunca é tarde para aprendermos uma nova língua. Você não verá o futuro, mas definitivamente verá as coisas de maneira diferente.

Aprender novas palavras ativa mesmas regiões cerebrais que sexo e drogas

Embora não seja algo mais gratificante do que sexo e drogas para muita gente, novas pesquisas descobriram que simplesmente aprender uma nova palavra pode ativar os mesmos circuitos de recompensa no cérebro que são ativados durante atividades tão apreciadas ​​como essas.

A linguagem humana é um fenômeno único, que nos separa de outros membros do reino animal, mas até hoje os pesquisadores da área não conseguiram comprovar sua origem. O surgimento da linguagem foi um passo extremamente importante em nossa evolução porque permitiu que os humanos cooperassem e compartilhassem o conhecimento mais facilmente. Mas o que nos motiva a adquirir um novo idioma desde uma idade muito precoce tem sido um mistério. Uma hipótese é que os mecanismos de aprendizagem da linguagem podem ter sido vinculados a circuitos de recompensa no cérebro, reforçando a vontade de aprender novas palavras. Até agora, no entanto, faltavam evidências experimentais apoiando essa proposta.

Mas em recente estudo publicado na Current Biology , pesquisadores da Espanha e da Alemanha analisaram a atividade cerebral de 36 participantes adultos usando uma técnica chamada ressonância magnética funcional (fMRI). As varreduras foram tomadas enquanto os participantes estavam realizando atividades diferentes: aprender o significado de novas palavras no contexto de uma frase e uma atividade de aposta.

Durante a aprendizagem de palavras e o jogo, os participantes exibiram atividade no corpo estriado ventral, que é uma área central do cérebro relacionada à recompensa e motivação. Esta mesma região é ativada durante uma ampla gama de atividades prazerosas, como comer boa comida, ter relações sexuais e tomar drogas. Durante as atividades de aprendizagem de palavras, a sincronização entre as regiões de linguagem cortical e o corpo estriado ventral também foi aumentada. Além disso, aqueles com melhores conexões entre esses dois circuitos foram capazes de aprender mais palavras do que aqueles com conexões mais fracas.

Tomados em conjunto, esses resultados sugerem que a união desses dois circuitos cerebrais concedeu aos humanos uma vantagem importante que, em última análise, resultou no surgimento de habilidades linguísticas. “Do ponto de vista da evolução, é uma teoria interessante que este tipo de mecanismo poderia ter ajudado a desenvolver a linguagem humana”, disse o pesquisador principal Antoni Rodriguez-Fornells a La Vanguardia . As descobertas, diz ele, questionam se a linguagem é produto exclusivo da evolução do córtex cerebral e pode até sugerir que as emoções podem influenciar o processo de aquisição da linguagem.


Fonte: Universidade de Barcelona – The pleasure of learning new words.

Que tal votar para juiz?

Uma característica da democracia brasileira é o fato de um dos três poderes — o Judiciário — estar totalmente isento de qualquer tipo de supervisão por parte dos contribuintes que o sustentam.

A ideia clássica por trás da divisão de poderes no Estado se baseia num princípio de freios e contrapesos, onde agentes que constituem os poderes, por independentes, viriam a acomodar-se naturalmente de forma a limitar os abusos cometidos numa ou outra esfera.

A metáfora é a de um maquinismo, como um relógio analógico, onde molas e engrenagens não só trabalham juntas e impulsionam-se entre si, mas também resistem umas aos movimentos das outras, de forma a impedir que um excesso de entusiasmo aqui faça adiantarem-se os ponteiros, ou uma eventual leseira ali cause atrasos.

O governo dos homens não é, infelizmente, preciso como a operação de um relógio ideal (nem os relógios reais são precisos como os relógios ideais!), mas, ao menos no papel, o Legislativo e o Executivo do Brasil estão sob a influência de pesos e freios: o Legislativo presta contas ao eleitor e ao Judiciário; o Executivo deve explicações ao Legislativo, ao eleitor e ao Judiciário. Já o Judiciário deve explicações a… quem, mesmo?

A pressuposição de que o Judiciário vigia-se a si mesmo é ou de uma hipocrisia inenarrável, ou de um crasso desconhecimento da natureza humana. É simplesmente falso esperar que pessoas que partilham da mesma formação, privilégios e interesses serão, com alguma consistência, fiscais eficazes umas das outras. Iniciativas de autorregulamentação só são funcionais quando existem incentivos concretos à regulação mútua.

Basta apenas olhar para a operação nefasta do espírito de corpo no Legislativo e no Executivo, mesmo com todas as pressões externas que os integrantes desses poderes sofrem, para imaginar o quanto maior deve ser a complacência num poder historicamente isento do olhar perscrutador da imprensa, da opinião pública, dos demais poderes! Os exemplos que chegam a chamar a atenção da imprensa são desanimadores, para dizer o mínimo.

Não se trata, antes que as fúrias corporativas se levantem, de desqualificar os juízes e desembargadores como profissionais ou seres humanos, ou de lhes imputar desvios de “honra” (seja lá o que isso signifique), mas de constatar que o ambiente de incentivos e cobranças em que estão imersos é ineficiente e distorcido, ao menos do ponto de vista de quem está pagando a conta.

Confundir privilégios do cargo com prerrogativas pessoais de quem o ocupa; passar a lutar pela ampliação dessas prerrogativas; confundir críticas pontuais com ameaças institucionais; sentir-se “docemente constrangido” a aceitar vantagens pessoais em nome do prestígio da instituição — tudo isso é da natureza humana, como constata este artigo sobre os vícios de personalidade desenvolvidos pelos reitores das universidades britânicas.

(A Teoria da Escolha Pública, na qual os agentes do Estado são vistos como indivíduos motivados pelos mesmos tipos de interesse que os cidadãos privados, e não por uma abnegada paixão heroico-místico-sacerdotal pelo Interesse Público – mais uma vez, seja lá o que isso for – não só já não é mais novidade, como até já levou uma penca de prêmios Nobel.)

A questão passa a ser, portanto, como desestimular esse lado (auto)complacente de nossa natureza, da forma como se manifesta no Judiciário. Mandatos fixos e eleições periódicas podem ser uma boa ideia. O pleito não substituiria os concursos para a magistratura, mas poderia complementá-los: para se candidatar, um pretendente a juiz teria de, primeiro, ser aprovado num exame técnico.

Já imagino gente temendo a eleição de populistas dispostos a instaurar a flagelação pública de motoristas embriagados, ou dúvidas mais sérias a respeito de alianças espúrias entre juízes e financiadores de campanha.

Minha resposta a isso é que os dois riscos, populismo e corrupção, já existem no sistema atual, com a desvantagem de que seus efeitos, atualmente, são muito menos evidentes do que seriam num sistema de disputa aberta, onde situações não realmente ilegais, mas potencialmente imorais (como viagens nababescas pagas por partes interessadas em processos) seriam adjudicadas nas urnas.

Para fechar a postagem com um lugar comum, a luz do Sol continua a ser o melhor desinfetante.

A NATUREZA DE NOSSA PRISÃO – PARTE I

Que “Escutei a chave
Girar na porta uma vez e só uma vez.
Nós pensamos na chave, cada um em sua prisão.
E pensando na chave,
Cada um confirma uma prisão.” – T. S. Eliot

Imagine o leitor um peixe que sempre esteve em cativeiro, criado para o abate. Esse peixe nasceu num tanque e ali viveu toda sua vida. Para ele, o tanque é o mundo, o tanque é tudo, e a existência da água é algo que não percebe pois foi onde nasceu e sempre esteve imerso. Assim, esse peixe não conhece os oceanos e tampouco percebe aqueles que o mantêm no tanque. Se não percebe a água e a natureza de sua prisão, como entenderá os seres que vivem na superfície e o capturaram?

Imagine-se ainda que há outro peixe no tanque, um que nasceu livre nos oceanos e sabe o caminho para escapar do cativeiro pouco antes do abate. O peixe cativo também poderia beneficiar-se desse conhecimento, desde que, antes, entendesse que está preso, que nasceu num tanque e que está destinado a morrer.

Mas como o peixe que nasceu livre poderia apresentar ao seu companheiro essas coisas? Como explicaria ao seu colega de cativeiro o que é água? Como descreveria a natureza do tanque, sua finalidade, e a identidade de quem o aprisiona?

“O ser humano nasce livre, mas por todo o lugar está acorrentado”, disse Rousseau, sem suspeitar do significado mais profundo de suas palavras. O ser humano está cativo em uma prisão que sequer pode conceber, pois toma o cativeiro pelo mundo a seu redor. O prisioneiro ignora o propósito de sua prisão, e a natureza de quem o mantém em tal condição, pois é como o peixe que sequer reconhece a natureza da água.

FAMILIARIDADE COM O DESCONHECIDO

A fábula dos peixes é útil para expor claramente que o desafio é de natureza informacional: o peixe cativo não entende o que é água (e assim ignora seus captores na superfície) e toma o tanque pelo mundo (e assim ignora a prisão e os oceanos).

Quando se tenta transmitir uma informação fundamentalmente contraintuitiva [1]Nota do editor: antes da reforma ortográfica da língua portuguesa de 1990, havia hífen em contraintuitivo (“contra-intuitivo”). Não há mais., o destinatário da mensagem não consegue compreendê-la. Sua mente não encontra nenhuma referência, em seu universo de vivências, para o que lhe foi transmitido. Portanto, ele não sabe como categorizar, e muito menos o que fazer com a informação.

Logo, só é possível superar a barreira pela gradual familiarização com o contraintuitivo, usando recursos que associam o desconhecido ao familiar, empregando-se metáforas, alegorias, parábolas e símbolos. E como chegamos à terceira etapa do processo de aprendizado, a etapa principal e por isso mesmo a mais difícil, todos os recursos à disposição precisam ser usados para familiarizar o ego humano com uma realidade surpreendente.

Por isso foi um notável caso de sincronicidade o fato de o diretor de cinema Darren Aronofsky ter lançado, no exato momento em que se começa esta terceira etapa, um filme de título “Mother!”, que atualiza o mito hebraico da criação do mundo usando situações e personagens que correspondem a história do Jardim do Éden conforme narrada por uma importante heresia judaico-cristã.

Como será exposto, o mito do Jardim do Éden foi, como tantos outros mitos da região da antiga Mesopotâmia, uma das formas de registrar e transmitir às gerações futuras um importante evento histórico, ocorrido ao sudeste da atual Turquia, há doze mil anos, e que revela a natureza da “prisão” em que agora estamos.

Cartão distribuído a críticos na exibição de “Mother!”: um octógono, o símbolo de Peixes e um ponto de exclamação.

Não se pretende afirmar que o autor do filme, Darren Aronofsky, apesar de sua origem judaica (e da influência de mitos bíblicos, da gematria e da cabala em seus trabalhos), tentou conscientemente modernizar a história da criação segundo uma antiga heresia, a fim de informar ao espectador a natureza da prisão cognitiva em que vivemos (embora sua afirmação de que associou a arquitetura à forma octogonal por essa forma “ser a perfeita forma para um cérebro” seja um indício relevante). Isso pouco importa, e a real intenção de Aronofsky é totalmente irrelevante. O fato é que o filme pode ser perfeitamente interpretado conforme mitos da região em que há doze mil anos algo importante aconteceu, o que convém ao processo de aprendizado.

A QUEDA HUMANA

Faz parte da loucura ignorar-se o quão louco se é, faz parte da estupidez subestimar o quanto se ignora. Qualquer ser racional que observar a humanidade a distância concluirá que a raça humana é, a um só tempo, louca e estúpida.

Só a necessidade de dar exemplos desse fato já é um exemplo em si, mas outros não faltam. O filme de Aronofsky, Mother!, mostra uma síntese de todos os horrores perpetrados pela humanidade circunscritos ao cenário de uma casa. Guerras, genocídios, linchamentos, infanticídios, fratricídios, fanatismos, degradação ecológica, histeria coletiva, exaltação do terror: basta abrir os livros de história ou os jornais do dia para ter-se essas e tantas outras provas de que o ser humano não só parece vocacionado à violência e à destruição, mas agride e destrói justificando-se em motivações claramente insanas.

No fundo, todos intuímos isso. No limiar do inconsciente, todos temos a impressão de que algo está errado com o ser humano. Intimamente, sem conseguir explicar porque, sentimos que algo vai mal com o mundo, e há muito tempo.

Algo está fora dos eixos. Desconfiamos em nosso íntimo que o mundo não deveria ser assim, que a humanidade não precisava ser assim, que poderíamos viver de outro modo. Suspeitamos que a humanidade como um todo, e cada ser humano em particular, tem sido e é mais infeliz nesta vida do que precisava ser.

Porém, a mentalidade que herdamos do século XX refuta essa suspeita, e propõe que se trata de uma sensação sem fundamento. Argumenta-se que é mera ilusão, decorrência da eterna insatisfação humana com o momento presente. Mas essa mentalidade reflete um século em que o espírito humano perdeu todo seu ânimo ao tentar realizar a utopia através de ideologias políticas, encontrando sua primeira mais eloquente voz com o pai da psicologia moderna, Sigmund Freud.

Em 1895, Freud afirmou que a função da terapia deveria ser “a troca da miséria neurótica do paciente pela infelicidade comum”, forma “normal e adaptada” de vivermos neste mundo. Para ele, a “infelicidade comum”, ordinária, era o estado natural do ser humano, o melhor que podemos esperar da vida. Tal lógica disseminou-se da psicanálise para todo o espírito do século XX e deixou seu legado à geração atual.

“Ignis natura renovatur integra.”

Mas é fácil demonstrar o quanto a retórica propugnada por Freud e seus filhos é equivocada, já que ignora um dos aspectos fundamentais da evolução e prende-se à superstição de que a história humana é um caminho de constante progresso. Mas nem todos os caminhos da evolução prosperam, e muitos de seus caminhos levam a becos sem saída. E a história humana também, guardadas as devidas proporções, está sujeita a acidentes e erros irreversíveis, até mesmo fatais.

É o que o arqueólogo Ian Hodder, responsável pelas recentes escavações em uma região da Anatólia, expõe ao descrever nosso atual enredamento num mundo que criamos após um erro desastroso cometido há doze mil anos.

Nossa intuição está certa. Há algo errado com o ser humano. Há algo errado com o nosso mundo. Alguma coisa saiu mesmo fora dos eixos em determinado momento, desviou-se mesmo de seu devido caminho e nos colocou aqui, enredados como um peixe capturado pelas redes do pescador.

O sofrimento humano além da proporção do que nosso senso comum considera minimamente suportável sempre esteve presente em toda nossa história registrada e ainda está por toda parte ao nosso redor. Mas esse sofrimento não é uma regra, e sim um acidente recente (na história de nossa evolução, dez mil anos é um minuto). Por muito tempo, o ser humano está enredado em um estado de cegueira involuntária, no qual não pode aspirar a nada melhor do que viver alguns anos de “infelicidade comum”, pontuados por descansos casuais em felicidades transitórias, até que a morte, sempre inexorável, chame seu nome, não sem antes deixar herdeiros para repetir o mesmo ciclo.

Mantida a cegueira involuntária, a melhor opção continua sendo a normalização da angústia. Ao menos a prosperidade da indústria neurofarmacológica, com seus antidepressivos e ansiolíticos, estará assegurada.

Mas se houve um erro em nosso passado, se as coisas nem sempre foram assim, quando, onde e como ele ocorreu?

Para compreender como ele ocorreu, pode ser útil o estudo de uma antiga interpretação herética sobre o mito bíblico da criação do mundo.

O MITO

É provável que um evento ocorrido entre as populações pré-neolíticas que viviam na atual Turquia, e que causou tamanho impacto humanidade até os dias de hoje, tenha sido de algum modo registrado por quem o vivenciou, e assim transmitido às gerações seguintes.

Em um tempo sem escrita, fatos importantes eram registrados na forma de mitos. Assim, é possível que alguns dos mitos da região em que localizado o sítio arqueológico de Göbekli Tepe, onde o evento ocorreu, tratem do grande desvio de curso da humanidade. E Göbekli Tepe está na borda mais noroeste da Mesopotâmia, justo a região de gênese dos primeiros impérios registrados na história e das culturas suméria, babilônica, assíria e hebraica.

Mas que tipo de mito? A própria natureza do erro, como se verá, recomenda que se pesquise entre os mitos que contam a história da criação do mundo, pois o erro está relacionado com aquilo que tomamos, desde então, pelo mundo ao nosso redor.

Portanto, é possível que mitos da região que contam a criação do mundo contenham pistas sobre a natureza do grande desvio de curso da humanidade.

De todos os mitos dessas culturas, adota-se o mito do Jardim do Éden não só por dispensar a apresentação da lenda ao leitor, mas por ser a variação de um mito mais antigo, de origem babilônica.

Relato babilônico do Jardim do Éden.

Além disso, há uma interpretação da história Jardim do Éden que encontra correspondência com a narrativa do filme de Aronofsky e com o assunto principal desta etapa. Essa interpretação tem origem em uma heresia que, por sua vez, nasceu da lenda sobre quatro sábios que visitaram o Éden muito tempo depois de Adão e Eva serem expulsos.

E o que esses quatro sábios lá viram faz com que repensemos aquilo que nossos antepassados chamavam de Paraíso.

O ÉDEN

Diz uma antiga lenda hebraica que apenas quatro sábios visitaram o Jardim do Éden. O primeiro olhou o Éden e morreu, o segundo olhou e ficou louco, o terceiro olhou e blasfemou, e apenas um olhou e voltou em silêncio.

É curioso o Éden dessa lenda. Sempre nos foi dito que o Jardim do Éden era a glória de Deus manifesta em bosques idílicos, lugar de deleite e santidade, em que todos os animais vivem em comunhão. Porém, a lenda dos quatro sábios sugere um local bem diferente, capaz de enlouquecer ou matar de parada cardíaca mesmo um sábio que apenas ouse olhar ao redor. Da perspectiva dessa lenda, o Éden parece menos com um lugar geográfico e mais com uma realidade de nível superior, que pode desafiar os limites da compreensão humana até o limiar de um colapso.

Na primeira etapa desse ciclo de aprendizado, expôs-se a maior descoberta da história, feita no início do século XX. Essa descoberta é sobre a natureza da realidade que está ao nosso redor.

Apesar de sua importância e de estar devidamente documentada, a verdade sobre a realidade é tão contraintuitiva que não a reconhecemos, mesmo estando diante de nossos olhos. Foi preciso décadas para que um cientista, Hugh Everett III, sugerisse a interpretação mais evidente sobre o cenário que havia se descortinado aos olhos dos cientistas em laboratórios por todo o mundo. Bastou a Everett não impor uma limitação arbitrária ao modelo matemático de Erwin Schrödinger, que descreve com perfeição a descoberta, para que a natureza da realidade fosse revelada.

E o cenário que a ciência descobriu foi que vivemos em um lugar em que múltiplas realidades alternativas coexistem e emergem a cada instante diante de nossos olhos. Um lugar em que todos os elementos de cada uma dessas realidades estão entrelaçados entre si, em uma relação de complementaridade fundamental.

Posters de divulgação de “Mother!”. Clique para ampliar.

Por isso não vemos nem percebemos as outras realidades emergentes. Elas não estão entrelaçadas com nossos órgãos sensoriais e com nada que percebemos ao nosso redor no nível macroscópico, nível em que as realidades alternativas são intangíveis umas em relação às outras. Só observando o mundo microscópico das partículas subatômicas é que percebemos a existência do hipercontexto.

Este é o universo do lado de fora, despido de todos os seus véus: um universo em que tudo o que existe está em contínua emergência diante de novas possibilidades de entrelaçamento com tudo a seu redor, criando novas configurações de mundos a cada instante. A riqueza de probabilidades concretizadas desde o início deste universo é inconcebível pela mente humana.

Retomando a história dos quatro sábios, Santo Agostinho talvez explicasse o fato de que alguns deles entraram em colapso ao visitar o Éden atribuindo esse tipo de reação à condenação humana após o Pecado Original. Esses sábios seriam filhos de uma época em que o ser humano acostumou-se tanto com a lama deste mundo, enredou-se tanto nas armadilhas da condenação de Adão e Eva, que um vislumbre do Paraíso pode ser o suficiente para matá-los. Diferente do primeiro casal, as gerações futuras de seres humanos, com a expulsão do Éden, seriam como o cão criado toda vida numa cela escura e pequena, e que entra em surto quando de súbito se vê a céu aberto, no meio da natureza, em um dia ensolarado.

Se for assim, o problema que pode levar à morte ou à loucura não está no Paraíso em si, e sim na mente do ser humano atual, que não suporta sua visão por estar habituado à sua prisão. Essa explicação agostiniana, vista dessa perspectiva, nos daria uma pista importante não só sobre a natureza do Jardim do Éden, mas sobre a natureza da condenação pelo chamado “Pecado Original”.

No filme de Aronofsky, a residência do casal está no que parece ser uma clareira ensolarada e verdejante, cercada por árvores altas e exuberantes. O espaço lá fora parece imenso e iluminado. Contudo, toda a história se passa dentro da casa, um espaço que parece sempre escuro e claustrofóbico.

A casa de “Mother!”

Qualquer ocidental conhece a fábula de como o ser humano teria sido expulso do Paraíso. Mas uma reflexão mais detida faz saltar aos olhos como essa é uma ideia estranha. A própria intuição humana sugere que o Paraíso, como manifestação da glória divina, deveria ser maior, mais amplo, que o lugar miserável em que pecadores são condenados a viver. Além disso, quando alguém é condenado, de regra ocorre justo o contrário: não sai de um lugar no qual não poderá mais entrar, mas entra em um lugar do qual não poderá sair.

O fato de raramente nos causar estranheza a noção de que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso deveria nos dizer alguma coisa. É como se estivéssemos aprisionados em algo que consideramos ser “o” mundo, pois nele nascemos e fomos criados, e nos causa estranheza que alguém possa ser condenado a entrar neste mundo. O mito assim relata pois é a única forma de explicar o inconcebível: fomos expulsos para a prisão.

Mas qual é a natureza dessa prisão que, apesar de nos encerrar, tratamos como “o lado de fora”? Qual é a natureza da casa no filme de Aronofsky? Porque não percebemos que esse lugar é uma prisão?

A antiga lenda que conta a história do Demiurgo, presente no filme de Aronofsky, Mother, tenta dar a resposta com uma linguagem alegórica.

SOFIA E DEMIURGO

No filme de Aronofsky, temos dois personagens principais: o poeta e sua esposa. O poeta está obcecado com a missão de escrever o poema de sua vida, que parece ser inspirado na vida do casal. Mas, paradoxalmente, ele não dá suficiente atenção à mulher, e permite que estranhos disponham do seu lar até construírem um inferno repleto de dor, crime e destruição – um microcosmo que reflete nossa sociedade. O poeta se envaidece facilmente com a admiração de estranhos, e usa literalmente a esposa para tentar construir o mundo perfeito, que jamais se concretiza. Na verdade, parece haver uma identidade mais profunda entre o poema e a própria realidade em que ambos vivem, como a leitura dos versos pela esposa revela.

Já esposa é devota ao marido, e claramente se confunde com a própria casa – a casa é também a esposa, o cenário todo ao redor dos personagens é criado a partir dela e sustentado por ela. “Ela trouxe vida para toda casa”, o poeta afirma, referindo-se à mulher. A esposa diz aos convidados que precisa “terminar a casa”. Ao reclamar ao marido que ele não conclui sua poesia, ela afirma que construiu a casa inteira, “parede por parede” enquanto ele nada escreveu. Em certos momentos, quando conectada com essas mesmas paredes, ela consegue sentir o coração pulsante da casa.

Na verdade, se o filme for interpretado segundo uma antiga heresia sobre a criação e o Jardim do Éden, a esposa não é só a casa, mas todo o cenário ao redor.

Essa heresia tem raízes que remontam às origens do Talmude, numa polêmica e obscura lenda sobre “Dois Poderes nos Céus”. O primeiro herético teria sido o personagem dessa lenda, um rabino de nome Elisha ben Abuyah, também chamado “Archer” (“o outro”).

E quem é Archer? Ele é um dos quatro sábios que teriam visitado o Jardim do Éden. Mais exatamente, aquele que proferiu uma blasfêmia.

Segundo a lenda, ao chegar no Jardim do Éden, Archer viu ali não a Deus, mas a outra entidade, uma segunda força que ele tomou por uma segunda divindade. Assim, Archer teria blasfemado que “há dois poderes no Céu”, e não um só. E ao retornar do Jardim do Éden, ele teria começado a defender entre que os ensinamentos originais da tradição hebraica eram entendidos da forma errada, exortando aos estudantes do Torá que abandonassem seus estudos para dedicarem-se a uma atividade prática mais importante. Qualquer que fosse essa atividade, não ficou registrada oficialmente para a posteridade.

Os fatos por trás dessa lenda resultaram no desenvolvimento de um conjunto de heresias pré-cristãs que propunham uma releitura da narrativa bíblica de criação do mundo. Segundo essa releitura, na criação do mundo haveria dois personagens centrais: o Demiurgo e Sophia.

Sophia era considerada uma espécie de manifestação feminina do “Poder Transcendente” de Deus. Devido a um “erro” de Sophia, dela nasceu o Demiurgo, uma criatura imperfeita, que se ilude e que acredita ser o próprio Deus do Velho Testamento (“Eu sou o que sou”, diz o poeta na cena final do filme de Aronofsky). Preso a esse delírio, o Demiurgo usa a própria Sophia para construir este mundo em que vivemos, aprisionando em cada ser humano uma centelha divina retirada do âmago de Sophia – e, portanto, uma manifestação do verdadeiro Deus.

Portanto, segundo essa antiga tradição, todos nós estamos presos a este mundo, condenados por uma potência que se apresenta a nós como se fosse o Deus verdadeiro, mas que apenas nos mantém separados do verdadeiro Poder Transcendente, do qual somos parte e Sophia é manifestação imediata.

Nossos antepassados, justo por apresentarem a narrativa de eventos históricos com o uso de alegorias, conferiam humanidade aos elementos principais de suas histórias. Que alternativa tinham para descrever eventos que estavam além de sua compreensão?

O “erro” de Sophia não precisa ser considerado como o engano de uma divindade, mas no sentido de um sistema que apresenta uma falha. O “Nascimento” do Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido humanizado de gestação e parto. O sexo de Sophia talvez tenha a ver muito mais com uma representação arquetípica profunda que relaciona mulher à espacialidade e à matéria (talvez por causa da experiência primordial no útero) do que com gêneros biológicos.

E, mais importante, o “mundo” criado por um Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido literal do universo físico que conhecemos. Afinal, hoje sabemos que “o universo físico que conhecemos” é, na verdade, um mundo simulado por nossos cérebros com uma fração dos dados que nossos órgãos sensoriais filtram da realidade exterior.

No filme “Mother”, de Aronofsky, temos também uma mulher que não é uma mulher, mas uma outra coisa, que doa a sua própria essência para que se construa uma casa que não é uma casa, na qual um poeta, que não é um poeta, possa atuar como se fosse Deus, arruinando tudo em virtude de sua delirante vaidade diante de uma poesia que não é uma poesia. A única coisa literal neste filme é que o resultado disso tudo são as guerras, o fanatismo, os genocídios, a degradação ambiental e todo o inferno que nós construímos aqui na Terra.

Mas o que exatamente seriam Sophia e Demiurgo, o que a esposa e o poeta do filme de Aronofsky representam?

O TÚNEL DA CONSCIÊNCIA

Quando o século vinte fez a maior descoberta da humanidade e constatou a existência do hipercontexto, o mistério também passou a ser o funcionamento da mente humana. Macroscopicamente, não percebemos as outras realidades alternativas pois não estão entrelaçadas, e toda e qualquer interação entre dois corpos macroscópicos só ocorre se estiverem entrelaçados na mesma realidade. É o mesmo fenômeno subjacente à gravidade.

Mas ainda assim, se vivemos no hipercontexto, então a vida de cada um de nós é como uma árvore, que ramifica-se em várias versões desde o momento do nascimento, conforme escolhas e acasos fazem emergir novas realidades.

Mas como não percebemos isso? Como sequer suspeitamos dessa ramificação da realidade quando fazemos uma escolha? Como o cérebro e a consciência humana lidam com o hipercontexto? É como se a vida fosse um labirinto no qual adiante de nós há múltiplos caminhos sinuosos, mas por algum motivo quando olhamos para trás vemos só uma estrada reta.

Após pesquisar dezenas de definições sobre o que é a “consciência”, o filósofo Thomas Metzinger surpreendeu-se ao encontrar elementos comuns a todas elas, que podem levar a uma definição simples, embora não intuitiva: consciência é a aparência de um mundo construída pelo cérebro.

Símbolo de Peixes presente no isqueiro oculto nos posters do filme “Mother!”, com o qual a mulher incendeia a casa.

Mas nossos sentidos são limitados e condicionados por razões evolutivas. Portanto, a consciência não é tanto uma imagem da realidade quanto um “túnel” que nossa mente constrói para que “atravessemos” o mundo real, rejeitando a cognição de tudo aquilo que seja desnecessário para nossa sobrevivência.

Há um outro motivo para a consciência construir um modelo de mundo o mais simplificado possível. É que esse processo consome energia, pois é preciso construir e atualizar dinamicamente, a cada fração de segundo, um modelo de mundo tridimensional e detalhado que represente aspectos importantes da realidade circundante. E economia de energia é um fator crítico para qualquer organismo. Portanto, esse mundo virtual, que representa o universo exterior, precisa ser o mais simplificado possível.

A consciência, portanto, pode ser considerada um sistema de informação sofisticado, que tem a função de representar para o organismo um modelo de mundo com o qual pode operar, a fim de assegurar sua sobrevivência. A consciência desempenha esse papel construindo, com as informações que representa, um modelo de mundo coerente, que serve de túnel para o organismo operar adequadamente na realidade circundante. Esse modelo omite todos os aspectos do mundo exterior que não sejam remotamente importantes para a sobrevivência do organismo.

Um conceito importante que o estudo da consciência tomou da arquitetura é a “transparência fenomênica”. A transparência fenomênica ocorre, por exemplo, quando observamos atentos o vôo de um pássaro através de uma janela, e nesse momento a janela desaparece de nosso campo de consciência. Algo semelhante ao que ocorre quando assistimos a um filme e deixamos de perceber os contornos da tela.

A consciência constrói uma “aparência de mundo” que tomamos por realidade, e os elementos estruturantes dessa construção são “fenomenicamente transparentes”. É como esconder nos bastidores, atrás das cortinas do palco, as cordas e estruturas que sustentam o cenário de uma peça. Se não houvesse essa transparência, não confundiríamos esse modelo tridimensional de mundo construído pela consciência com a própria realidade, e tampouco nossos antepassados descreveriam um erro nessa consciência como “a criação mítica do mundo”.

A transparência fenomênica, por fim, também é a chave para explicar porque o ser humano não percebe a natureza de sua prisão.

O mundo construído pela consciência, a realidade virtual sofisticada, é o mundo que o leitor observa ao seu redor nesse momento. Embora você confunda o túnel construído pela sua mente com o mundo real, e seus sentidos lhe passem a percepção de que esse “mundo real” é exatamente aquilo que “está lá fora” (conferindo-lhe espacialidade, perspectiva, tato, cor, forma e som), na verdade o mundo real é uma coisa bem diferente.

Esse túnel ou construção da aparência de um mundo é representada alegoricamente na lenda segundo a qual o Demiurgo fez Sophia construir o universo em que vivemos. Essa é a casa que a mulher do filme Mother!, constrói e sustenta.

A figura mítica de Sophia e a personagem da obra de Aronofsky são a própria consciência humana, construindo um espaço que será representado para o indivíduo como se fosse o próprio mundo, mas que é apenas uma versão simplificada de uma realidade infinitamente mais complexa.

Mas quem é o Demiurgo no mito, quem é o poeta no filme?

UMA VOZ QUE NARRA UMA HISTÓRIA

O cérebro humano precisa construir, através da consciência, um modelo de mundo que seja uma representação de baixa dimensionalidade da realidade exterior, como se esse modelo de mundo fosse uma realidade “virtual”. A finalidade desse modelo é justamente executar duas tarefas importantes para o organismo que o criou. A primeira tarefa é descrever o mundo exterior a fim de identificar potenciais fontes de perigo, alimento ou reprodução (função cognitiva). A segunda é escolher, entre as ações possíveis do organismo, aquela que seja mais adequada ao que está acontecendo no mundo assim descrito (função decisória).

A consciência, portanto, é um sistema cognitivo/decisório. E para desempenhar suas atribuições, ela desenvolve, no centro desse modelo de mundo, um tipo de identidade, uma imagem que a consciência equipara ao próprio organismo a que pertence: é o sujeito de toda a experiência do mundo exterior, o protagonista que decide e age.

Tal sujeito é o ego, e embora Metzinger pareça por vezes confundir a consciência com ego (a ponto de utilizar a expressão “túnel do ego”), tratam-se de coisas distintas. O ego é algo distinto da consciência, e só é definido como “centro da consciência” porque ela própria, a consciência, “escolheu” representar o ego como o protagonista que anda por esse “túnel”. Não há, na verdade, nenhum sujeito no túnel, pois o ego é apenas uma ilusão da consciência, e uma ilusão que está desempenhando uma função que usurpou há doze mil anos atrás.

No mito gnóstico de Sophia e Demiurgo, atualizado para o imaginário contemporâneo na alegoria de Aronofsky, a manifestação feminina do Poder Transcendente é a consciência humana. É a mãe/esposa que constrói um mundo para um poeta que usurpa um lugar e se declara Deus. Um mundo em que ele troca um ambiente vasto e iluminado por um lugar escuro e enclausurado. E isso apenas para que possa escrever a si próprio uma narrativa sobre como será magnífica a vida que não poderá viver, pois sabota esse projeto de vida, enchendo sua consciência de vozes alheias, invasores desconhecidos. O resultado disso tudo é ódio, fanatismo, opressão, guerras, crimes e miséria.

A melhor metáfora para o atual ego humano é a de uma voz que conta uma história para si mesma, e que continuamente repete a palavra “Eu”. Essa voz é como alguém que está em uma biblioteca, consultando um livro, um “manual de como interpretar o mundo exterior e reagir ao que acontece”. Esse livro é composto de memórias do passado e definições sobre quem se é – uma mistura de tudo que o cérebro registrou. Além disso, esse livro possui muitas instruções sobre como reagir a um só determinado tipo de situação. O conteúdo do livro não obedece qualquer ordem, e apresenta informações e instruções contraditórias.

O ego só existe no instante presente, e está continuamente contando uma história para si mesmo sobre quem é e sobre o que está fazendo neste exato momento. Para contar essa história, ele faz contínuas consultas àquele livro, e as páginas e capítulos que escolhe ler é que definem como deve se sentir e agir quando algo ocorre lá fora. A escolha de como faz a consulta é um pouco arbitrária, e baseada em hábitos e condicionamentos: as páginas mais marcadas pelo uso tendem a ser novamente consultadas e servir de guia para o que sente e faz. Mas também é possível que às vezes a escolha do ego seja induzida, ou até mesmo que algo altere sua capacidade de focar em determinados conteúdos, ou mesmo de conhecer todas as linguagens em que esse livro pode ser escrito.

O ego em si não é um mal, o ego em si não é o erro: o problema é que o ego, conforme a lenda do Demiurgo, acha que é Deus. Decifrado-se o mito sobre Sophia e Demiurgo com a desumanização de todos os personagens, parece que a lenda descreve que um módulo do sistema informacional da consciência acabou alocado para uma posição que não lhe é destinada, sendo-lhe atribuídas funções que não tem competência algorítmica para desempenhar. Essa é uma primeira percepção mais definida que temos do erro, mas ainda é incompleta.

No segundo texto, veremos o quanto o poema que o personagem do filme de Aronofsky escreve é a chave para entendermos o grande erro da história humana, e qual a verdadeira natureza do insondável mito do Pecado Original que nos “expulsou” do Éden, prendendo-nos em uma prisão que não enxergamos. Basta lembrar que, no filme de Aronofsky, só após a pedra (fruto proibido) ser “quebrada” pelo casal de visitantes (Adão e Eva) e seus filhos (Caim e Abel) participarem de um crime é que o poeta consegue inspiração para escrever sua história, não tendo escrito uma só linha até aquele momento.

Precisamos, antes, fixar alguns pontos sobre o sistema Sophia/Consciência e Demiurgo/Ego.

CINCO PONTOS

Em outras palavras consciência é um sistema informacional autoconsciente (como diria Descartes, a consciência não apenas sabe – ela sabe que sabe). Esse sistema informacional filtra as informações transmitidas pelos órgãos sensoriais e constrói um modelo de mundo que simula o mundo real em uma versão de baixa dimensionalidade, com atualização dinâmica e transparência fenomênica de sua estrutura. Esse modelo de mundo, ou “túnel”, é o que tomamos por realidade, e em seu centro está o ego humano, cujo protagonismo é mantido por uma narrativa interna obsessiva e que naturalmente resulta em sofrimento e destruição.

Temos, assim, os elementos principais para prosseguir e compreender a origem do maior erro da história humana. E alguns pontos precisam, porém, ser fixados sobre as noções apresentadas a seguir.

O primeiro ponto é que, conforme demonstrado, a consciência é responsável pela construção de um modelo de mundo que, tal como um túnel, ajuda o organismo a passar pelo hipercontexto sem perceber a contínua emergência de novas realidades alternativas. Esse modelo é aquilo que vemos ao nosso redor quando estamos despertos. Essa construção é como uma obra de engenharia da natureza (espontânea e não intencional como todas as edificações da natureza). E obras podem ser executadas de várias maneiras, sendo possível construir vários tipos de túneis, adotar estratégias diferentes de design e tecnologias diferentes de material de construção. Ou seja, a consciência pode construir outros túneis, poderia representar a realidade circundante de outras formas além dessa que vemos. No filme de Aronofsky, a esposa sustentava a casa com sua própria essência para tentar realizar o mundo que o poeta desejava e descrevia em seus versos – em termos literais, a consciência humana está, neste momento, aprisionada em determinada representação da realidade moldada pelo ego.

Projeto da casa de “Mother!”.

O segundo ponto é que, tratando-se de uma obra de engenharia informacional extremamente complexa, o material de construção desse túnel é algo que chamamos de linguagem, entendendo-se como tal não apenas a linguagem verbal, mas qualquer sistema de símbolos que possa representar e transmitir informação complexa. E há várias linguagens possíveis para a construção de um modelo de mundo, sendo a verbal a mais restrita. No filme de Aronofsky, o poeta está obcecado em escrever uma narrativa poética que evoca, na própria consciência, um projeto de mundo que ele mesmo sabota, conduzindo tudo à destruição – e ele precisa sabotar, pois o projeto é inviável. Em termos literais, há um erro na estrutura desse sistema representacional, que resulta no sofrimento do organismo e numa espiral de destruição retroalimentada que se replica também no contexto social em que vivemos.

O terceiro ponto é que a consciência desenvolveu um determinado tipo de protagonista para ser o centro das vivências desse modelo de mundo construído pelo cérebro: o ego, que não tem substância, sendo ele próprio uma simulação dentro de uma simulação, um protagonista criado pela consciência para viver no centro de mundo criado por ela. Tal como Sophia e Demiurgo na lenda, poeta e esposa no filme. Porém, o ego humano, tal como o vivenciamos, é apenas uma dentre tantas outras formas que a consciência poderia escolher para articular a ação do organismo com base no modelo de mundo de baixa dimensionalidade que simula. Em outras palavras, não só o mundo construído pela consciência poderia ser outro, mas também o protagonista no centro desse mundo poderia diferente. No filme de Aronofsky, essa outra possibilidade está representada nas diversas formas com as quais a consciência sugere ao ego qual caminho deve ser tomado para que o erro seja equacionado e corrigido antes que se destrua a própria estrutura da consciência.

Detalhe do poster do filme “Mother!”, revelando a solução simbólica do erro na consciência, que é sabotada pelo poeta.

é que o modelo de mundo em que cada um de nós vive em sua cabeça é, em grande parte, consensual. Como diz Metzinger, é uma realidade virtual que roda em tempo real e online, comunicando-se com outras realidades virtuais. Se não fosse assim, a sobrevivência da espécie seria comprometida pela dificuldade de comunicação entre os membros de um grupo de seres humanos – e, como veremos, a formação de redes de transmissão de informação é um padrão básico na história da evolução. A consciência, enquanto sistema informacional, existe inclusive com a função de tornar mais eficiente a comunicação entre membros de uma tribo que busca coletivamente pela sobrevivência, e tem seu desenvolvimento retroalimentado pelas soluções encontradas pelo grupo para aprimorar essa comunicação. Assim, o erro em um sistema pode rapidamente replicar-se em outros sistemas cognitivos pelas vias de comunicação humanas, que moldam o mundo consensual, como a cultura e a família. Replicações de erro são eventualidades comuns na história da evolução, podendo resultar na extinção de espécies.

O quinto ponto é lembrar que a evolução não segue uma trajetória evolutiva em linha reta na direção ao progresso. A trajetória é tortuosa, pois a evolução ocorre em passos cegos, sem intencionalidade manifesta, e por vezes dá círculos até um ponto sem saída. A natureza ensaia todos os caminhos possíveis da evolução num processo de tentativa e erro, e faz frente aos erros com a força bruta dos números: quanto mais espécies, quanto mais variabilidade de organismos, melhor. Os vestígios de espécies extintas a milhares de anos, como os dinossauros, são testemunhas de quantas foram as vítimas dos erros e acasos da história evolutiva. Porém, na natureza, alguns erros não são fruto do acaso, mas podem ser provocados, induzidos ou facilitados, e até mesmo parasitas podem tirar proveito de más escolhas evolutivas. Do ponto de vista dos lobos selvagens que a humanidade domesticou e manipulou geneticamente até produzir criaturas tão indefesas quanto o chihuahua, tratou-se de um erro provocado pelo mero capricho de uma outra espécie.

O mais importante, o emergencial nesse tipo de situação, não é identificar se o erro foi acidental ou provocado, mas reconhecer que se trata de um erro que produz muito sofrimento entre nós, e que pode levar à destruição da espécie humana. E, a partir disso, tentar identificar qual a natureza do erro original, sua origem e como foi replicado.

Trata-se de uma análise objetiva, que parte de princípios autoevidentes e não se apoia apenas no mito do Jardim do Éden. Embora o erro esteja presente em mitos de criação do mundo tal como aquele modernizado no filme de Aronofsky, ele foi factual, teve data e local para ocorrer. Deixou vestígios arqueológicos tão eloquentes quanto sua primeira e maior consequência.

No mito bíblico, a primeira e maior consequência da Queda do Homem foi um crime, um homicídio entre irmãos. A descrição mítica dessa história descreve claramente o primeiro grande impacto do erro na vida humana, que se reproduz até hoje.

A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA

No filme de Aronofsky, o mito de Adão e Eva é atualizado para nossos tempos, uma forma hábil de sobrepor origem e consequências do Erro Original. Não temos o primeiro casal no auge de sua vida de semideuses no Éden, mas como casal envelhecido, que precisa confrontar a mortalidade humana. A lembrança da morte e da velhice após uma vida de decepções acumuladas está sempre presente. Adão está doente, irá enfrentar em breve o fim da vida. O terror existencial da finitude humana se insere na narrativa, para estabelecer onde está a fratura original do erro que se perpetuou na consciência.

Contrasta-se a origem mítica da humanidade com o resultado final da queda do homem: tem-se um casal típico de classe média, um tanto ridículo, emaranhado em conflitos familiares e tentando buscar alguma transcendência no culto ao poeta. Com a chegada do casal de visitantes, também surge o primeiro sinal de culto e religiosidade: o casal tem a foto do poeta, ambos tratam seu escritório de criação um lugar sagrado, e lá sabem de uma pedra importante, um objeto do qual não podem se aproximar. Essa pedra, essa “coisa” é também objeto de fetiche e culto pelo próprio poeta.

A seguir, após a pedra ser quebrada pelo casal, surgem seus filhos, em uma cena na qual culmina num homicídio que tem semelhança com a história do Gênese em que Caim mata seu irmão Abel. No filme, o irmão homicida parece estar excessivamente preocupado com dinheiro de uma herança, evocando novamente a relação do ser humano com a riqueza material.

Na história bíblica, Caim mata Abel por inveja, já que Deus aceitou sua oferenda na forma de um animal sacrificado, rejeitando a oferta de Caim, consistente no produto de seu trabalho na agricultura. Como consequência, Caim tornou-se o único filho vivo de Adão e Eva e, literalizada a fábula, pode ser considerado como o ancestral comum de toda a humaniadade.

O mistério dessa lenda, a razão pela qual Deus teria rejeitado a oferenda de Caim, produto da agricultura. Os estudiosos do Torah também sempre discutiram qual a verdadeira natureza do fruto proibido. Tradições mais antigas como o Sefer Ha Yetzirah afirmam que o fruto proibido não era a maçã, mas o trigo. No Talmude Babilônico, Rabbi Yehuda também menciona uma tradição mais antiga segundo a qual o fruto proibido era, na verdade, o trigo. Na verdade, em hebraico, a palavra para trigo (חיטה) tem origem na palavra “pecado” (חט).

É uma ideia estranha, que só é compreendida se decifrarmos o mito do Jardim do Éden. Temos, de qualquer forma, uma associação entre o erro e o trigo, por mais inconsistente que possa parecer neste momento.

Decifrar o mito de Caim e Abel, e desvendar a associação entre trigo e fruto proibido depende de lembrarmos que nossos antepassados viveram por centenas de milhares de anos em pequenos grupos nômades. Esses grupos obtinham seu sustento da caça de animais e, principalmente, da coleta de vegetais que encontravam à livre disposição no meio ambiente.

Em determinado momento (da perspectiva histórica, da noite para o dia), tudo mudou. Foi um evento que ocorreu em vários povos ao redor do planeta sem que houvesse contato entre essas populações. E seu impacto na história humana foi tão profundo que historiadores e arqueólogos o chamam de revolução: a “Revolução Neolítica”.

Modelo de primeira residência no início da “Revolução Neolítica”. O culto religioso era realizado dentro da própria moradia de cada família.

Muitos também chamam a Revolução Neolítica de ” Agrícola” pois sua característica mais notável foi a transição do estilo de vida da caça e coleta para um estilo de vida baseado no cultivo de trigo. Já foi confirmado por sítios arqueológicos como Çatalhöyük que a “domesticação” de trigo selvagem pela agricultura foi a primeira etapa dessa revolução. A transição da caça de animais para a criação e abate de rebanhos foi posterior.

Por muitos anos, historiadores e arqueólogos consideraram a Revolução Neolítica como um “mal necessário”, um pressuposto inevitável de nosso progresso. Ela representaria um passo importante e inevitável no caminho que nos conduziu ao domínio do mundo, ao aumento de nossa inteligência, a uma maior qualidade de vida e ao fim da violência no mundo selvagem. Tratava-se da hipótese acalentada por Hobbes: o estado natural era um estado de brutalidade e privação, e apenas através do sacrifício e concessões recíprocas abandonamos esse estágio primitivo e alcançarmos o progresso humano.

Porém, com o prosseguimento das descobertas arqueológicas, essa noção acabou refutada pelos fatos. Na verdade, a Revolução Neolítica foi um passo em falso, e evidências demonstram que Rousseau tinha, de certa forma, razão: o ser humano havia nascido livre, mas um tipo de contrato escravizou-o e agora estamos, por todos os lados, preso a correntes.

Há cerca de dez mil anos atrás, a humanidade tomou um desvio em sua rota que resultou naquilo que Harari afirma ser “a maior fraude da história”.

Um erro que tornou o cotidiano de cada ser humano mais difícil e menos gratificante, empobreceu nossa dieta, piorou as condições gerais de vida e foi até mesmo contrário à nossa disposição anatômica, representando uma concreta violência para nosso corpo. No sítio arqueológico de Çatalhöyük (sul da Anatólia), em que se descobriu uma das primeiras aglomerações humanas após a Revolução Neolítica, os ossos de adultos tinham lesões próprias de osteoperiostite e osteoartrite, sinal de uma vida sujeita a transporte de muito peso e de trabalho excessivo. Esse tipo de agressão ao próprio corpo era algo sem precedentes no período pré-Neolítico.

Ao lado das desvantagens, essa transformação no nosso estilo de vida não trouxe nenhuma vantagem. Descobertas da equipe do arqueólogo Klaus Schmidt em Gobekli Tepe (no sudeste da Turquia) revelaram como é falaciosa a tese de que a revolução agrícola deixou o ser humano mais inteligente, ou que foi condição necessária ao desenvolvimento da civilização, ciência e tecnologia. Como o historiador Yuval Harari conclui, há qualquer evidência suportando tais crenças. Ao contrário, há evidências de que nossos antepassados que coletavam e caçavam tinham domínio de técnicas sofisticadas, capazes de espantosas proezas arquitetônicas e com um notável conhecimento de astrologia.

Além disso, tampouco essa mudança melhorou nossa dieta, aumentou nossa segurança ou diminuiu a violência entre seres humanos, ao contrário do que supunha Hobbes. Na verdade, há indicativos de que após a Revolução Neolítica a vida humana passou a sujeitar-se maiores riscos, inclusive com o aumento de agressões e hostilidades entre grupos e perpetração sistemática da violência dentro de cada grupo. A escravidão começou com a Revolução Neolítica, e o sacrifício de seres humanos também.

Todos os indicativos apontam hoje para o fato de que a Revolução Neolítica, tal como se deu, não era um passo necessário ao progresso humano. Na verdade, em outras tramas de realidade existentes no hipercontexto, em que a história da humanidade seguiu caminhos diferentes daqueles tomados por nossos antepassados no momento da última singularidade, a evolução da civilização entre os seres humanos ocorreu de outra forma, e inclusive a passos mais largos, sem resultados tão nocivos para a qualidade da vida humana.

Na verdade, além do historiador Yuval Harari, arqueólogos como Ian Hodder e David Lewis-Williams demonstraram que a Revolução Neolítica foi a responsável por uma organização da vida humana que resultou na criação de castas sociais, repressão da mulher, degradação ambiental, instrumentalização da religião como forma de domínio e imposição das principais injustiças humanas registradas na história e ainda presentes no mundo atual.

Como o Pecado Original, a Revolução Neolítica teria sido um erro, um desvio do caminho que ocorreu na singularidade de doze mil anos atrás. Por isso o trigo está associado ao fruto proibido, como um indicativo de onde, no mito bíblico, deve-se procurar a origem do erro.

O fruto proibido porém, não é o trigo, pois o erro cometido pelo homem não começou com a sedentarização de grupos nômades e invenção da agricultura. Como o arqueólogo Jacques Cauvin propôs e as pesquisas de campo de Klaus Schmidt e Ian Hodden confirmaram, o erro cometido pelo ser humano ocorreu não no mundo exterior, mas em primeiro lugar na sua consciência, o local que há doze mil anos foi palco de uma singularidade. Pelo que se descobriu em Göbekli, a Revolução Neolítica, nas palavras de Jacques Cauvin, não começou com uma revolução da agricultura, mas com uma revolução cognitiva.

O UMBIGO DO MUNDO

Em outubro de 1994, um velho pastor curdo, Savak Yildiz, notou algo estranho numa pequena colina próxima a cidade de Sanliurfa. A colina era chamada pela tradição de Göbekli Tepe, ou seja “Colina do Umbigo”, e já havia sido explorada superficialmente pelo arqueólogo Peter Benedict em 1963, que se equivocou ao interpretar o local como um cemitério bizantino sem importância. Mas ao limpar a terra que cobria o objeto que viu, o velho curdo constatou que se tratava de uma grande pedra esculpida de forma curiosa. Yildiz era um simples pastor, mas não um tolo. Ele sabia que não era o tipo de coisa que se esperava encontrar em um cemitério.

Foto real de Savak Yildiz.

No ano seguinte, em 1995, os arqueólogos Harald Hauptmann e Adnan Misir começaram as escavações, e logo o arqueólogo alemão Klaus Schmidt assumiu os trabalhos. As escavações prosseguem até hoje, pois o que o pastor curdo descobriu é esplêndido. Tratava-se da, nas palavras de Lewis-Williams, “do sítio arqueológico mais importante do mundo”.

Em Göbekli Tepe há um complexo de estruturas arquitetônicas de tamanho considerável. Tratam-se de pedras com mais de cinco metros de altura, cada qual pesando mais de quinze toneladas, sempre dispostas ao redor de duas outras pedras com altura e peso semelhantes. Muitas dessas pedras estão repletas de relevos de animais dispostos de formas curiosas, junto a estranhas figuras geométricas. As duas pedras centrais, em particular, possuem relevos que deixam clara a intenção de que representassem figuras humanas.

O que torna Göbekli Tepe extraordinário é uma série de constatações arqueológicas impressionantes.

Em primeiro lugar, as construções ali escavadas foram datadas entre 10.000 e 9.000 A.C., ou seja, justo no início da Revolução Neolítica. Em segundo lugar, os responsáveis por erguer aqueles monumentos ainda eram nômades que viviam da caça de animais e da coleta de alimentos.

Em terceiro, próximo dali descobriu-se a primeira variedade de trigo selvagem domesticado pelo ser humano, ou seja, o trigo que começamos a plantar e que deu origem a todas as espécies de trigo utilizadas pela nossa civilização hoje em dia. Em quarto lugar, tratam-se de estruturas que exigem um sofisticado conhecimento de arquitetura e astronomia, além de uma operosa organização do trabalho. São habilidades que até então não se pensava ser do domínio de nossos antepassados pré-Revolução Neolítica.

Por fim, em quinto lugar tratam-se de construções que não têm qualquer objetivo prático, inexistindo qualquer indício de habitação humana na região. Na verdade, o único propósito das construções ali descobertas era religioso, a serviço de uma casta de sacerdotes. Assim, em Göbekli Tepe está aquilo que se pode chamar de o mais antigo templo da humanidade, construído justamente no momento em que a Revolução Neolítica começou.

Essas constatações levam a conclusões inevitáveis.

Por muito tempo, tentou-se descobrir o que levou a humanidade a abandonar o estilo de vida de coleta e caça para adotar a vida sedentária de um agricultor, com impacto tão negativo na sua qualidade de vida. Predominavam entre os arqueólogos as hipóteses de que uma abrupta mudança climática, crise populacional ou escassez de alimentos teria imposto a nossos antepassados a Revolução Neolítica.

Porém, em Göbekli Tepe há construções erguidas imediatamente antes de a Revolução Neolítica acontecer, e essa Revolução ocorreu exatamente ali, pois a primeira domesticação de trigo selvagem foi feita nas proximidades. Além disso, seu gigantismo deixou claro que a agricultura não era um requisito para a emergência de sociedades complexas. Na verdade, Göbekli Tepe demonstrou que os povos nômades eram muito mais inteligentes e tinham uma cultura muito mais sofisticada do que se supunha, eliminando a presunção de que a revolução agrícola nos tornou mais inteligentes e hábeis.

As descobertas em Göbekli Tepes foram assim reunidas às descobertas por arqueólogos como Ian Hodder (em Çatalhöyük), Jean Perrot (em Ain Mallaha) e Jacques Cauvin (em Mureybit). O cenário formado pela reunião de evidências não deixou dúvidas de que a Revolução Neolítica não foi determinada por pressões climáticas, populacionais ou ambientais, embora esses fatores possam ter colaborado, mas por uma mudança na estrutura da consciência humana.

Nas palavras de Cauvin, a Revolução Neolítica, que tornou a vida humana tão pior sem qualquer razão aparente, é uma “clara demonstração do fato de que o homem não poderia transformar completamente a forma como explora seu ambiente natural sem adotar ao mesmo tempo uma diferente concepção de mundo e de si mesmo enquanto inserido neste mundo”. Houve, antes de tudo, uma mudança na psicologia coletiva que é expressa na emergência de novos mitos.

Portanto, a Revolução Neolítica, antes de ser uma revolução agrícola, foi em primeiro lugar uma Revolução Simbólica. Mais exatamente, uma revolução da consciência – se entendermos por “revolução” algo cujos resultados são desastrosos.

Os sítios arqueológicos em Göbekli, Çayönü e Nevali Çori, todos relacionados ao surgimento da Revolução Neolítica, estavam associados à uma explosão do simbolismo religioso sem precedentes na história humana. Nas palavras do arqueólogo Lewis-Williams, tratou-se de um contrato da consciência afiançado por castas sacerdotais. No termo cunhado por Julian Jaynes, foi o momento da reestruturação do túnel da consciência naquilo que chamou de Mente Bicameral. Como Cauvin disse, foi o momento em que nasceram os deuses em nossas mentes. Como os mitos do Jardim do Éden e do Demiurgo/Sofia, foi a “origem do mundo”.

Porém, há mais um detalhe que os arqueólogos não deixaram passar. O fato é que o complexo religioso encontrado em Göbekli Tepe foi completamente enterrado pela ação humana consciente, e não como resultado de algum evento natural. Na verdade, o que ocorreu em Gobekli Tepe é tão hediondo que em algum momento nossos antepassados tentaram enterrar as memórias dos crimes ali cometidos, embora as consequências já fossem irreversíveis.

Na última parte dessa terceira etapa, será exposto o que é o verdadeiro fruto proibido que nossos antepassados retiraram da árvore do conhecimento em Gobekli, qual a natureza daquilo que Archer viu no Jardim do Éden e qual o motivo de o poeta do filme de Aronofsky jamais expulsar os visitantes de sua casa.

Notas   [ + ]

Políticos Imperfeitos

Na conhecida conferência A política como vocação, proferida em 1919, o sociólogo alemão Max Weber sugeriu que o verdadeiro homem político deveria possuir ao menos três qualidades essenciais: precisaria combinar a paixão por uma causa, o sentimento de responsabilidade e o senso de proporção. Poderia ter uma dessas qualidades em maior dose, mas não poderia deixar de ter as três. Com elas, entre outras coisas, haveria como controlar a vaidade, o desejo de permanecer sempre no primeiro plano, e dar o devido peso à missão política propriamente dita.

A sugestão é útil para que se discuta, por exemplo, a conduta de parlamentares e governantes, seu maior ou menor sucesso, seu estilo de liderança, as razões que os fazem mais eficientes na representação política e na gestão e lhes dão maior capacidade pedagógica de interagir democraticamente com as massas.

Há governantes que se seguram tão somente na paixão pela causa, conseguindo compensar a ausência (relativa) das outras qualidades mediante a organização de uma boa equipe de auxiliares. Enquanto o chefe faz política e enfatiza sua causa, os assessores cuidam da administração e garantem alguma margem de responsabilidade e senso de proporção no processo de tomada de decisões. Lula pode ser aqui tomado como exemplo positivo. Dilma seria um exemplo negativo.

Em seus dois mandatos, o ex-presidente não deixou um minuto sequer de fazer política e reverberar sua causa. Conseguiu terminar seus governos nos braços do povo, sua equipe de auxiliares se encarregou, com eficiência, de fazer a máquina administrativa funcionar e estabilizar a base política, que forneceu ao governo a necessária sustentação. As circunstâncias nacionais e internacionais foram-lhe favoráveis e o beneficiaram com os ventos da Fortuna, mas é evidente que houve Virtù e bom desempenho entre 2013 e 2010.

Com Dilma Rousseff ocorreu o contrário. Apresentada ao mundo como “gestora rigorosa e técnica competente”, não mostrou aptidão particular para a política, não conseguiu expressar causa alguma nem exibiu a exaltada competência administrativa. Seu senso de proporção e responsabilidade foi reduzido, o que impulsionou a crise. Em decorrência, entrou em atrito com amigos, aliados e auxiliares, não estruturou uma equipe leal e eficiente, teve de aceitar a contragosto a transferência da operação política para outros personagens e não conseguiu organizar um Estado administrativo vigoroso. As circunstâncias não a beneficiaram e passaram, em decorrência, a exigir sempre mais talento político, que lhe era escasso. Dilma plantou, assim, os ventos que iriam transformar-se na tempestade perfeita do impeachment. A desgraça configurou-se quando ela, em 2014, bateu pé e fez questão de concorrer à reeleição. Sua vitória nas urnas foi de Pirro e só serviu para bloquear as chances que o PT teria de ajustar o curso do navio.

Faltaram a Dilma, portanto, as três qualidades essenciais estabelecidas por Weber, com o que ela foi devorada pela vaidade e pela dificuldade de interagir democrática e pedagogicamente com as massas. Sua queda foi uma espécie de profecia que se autorrealizou.

Trazendo o argumento para os dias correntes, encontramos Michel Temer como exemplo de político com dificuldades para combinar as três qualidades. Falta-lhe antes de tudo a devoção a uma causa, já que a ideia de fazer de seu governo um artífice da retomada do crescimento econômico e do ajuste fiscal não aquece mentes e corações. Com o tropeço nas pedras que surgiram pelo caminho (Joesley e Janot), Temer viu evaporar o que tinha de força para aprovar reformas, sobretudo porque não soube reunir os consensos sociais necessários para fazê-las e foi sendo desconstruído pelo próprio Congresso, que esperava ver apoiá-lo. O presidente também não demonstra possuir um apurado senso de proporção e responsabilidade, o que fez com que vacilasse na composição de seu Ministério, para o qual convocou pessoas que pouco o ajudam e têm opaca imagem pública, e se entregasse desmesuradamente ao jogo político miúdo e fisiológico. Foi, assim, sendo devorado por predadores de várias espécies, perdendo condições de fazer política abrangente, a ponto, por exemplo, de influenciar sua própria sucessão. Tornou-se um governante inercial, refém do Congresso e sustentado pelos relacionamentos que amealhou durante a longa carreira parlamentar. Seus baixíssimos índices de aprovação e popularidade fecham a moldura.

Mas a crítica a ele deve ser bem calibrada. Temer é produto do quadro político atual, que está majoritariamente ocupado por políticos imperfeitos. Alguns têm causas, outros se declaram responsáveis, mas há poucos que se dediquem a unir uma qualidade à outra. Não porque não as tenham, mas porque não se dispõem a confrontar as bandas podres do sistema e recuperá-lo.

Bons políticos existem e continuarão a existir sempre. O que falta é que eles se reúnam, se articulem, se imponham nos espaços políticos institucionais e dialoguem abertamente com a sociedade. Sem a paixão que promove a entrega a uma causa e sem um sentido superior de responsabilidade (pública), os políticos são atraídos mais pelo brilho do que pela realidade do poder; e terminam por usufruir o poder pelo poder, sem cumprirem funções positivas. Precisam romper com isso.

Constatar que um país como o Brasil esteja entregue nos últimos 15 anos às desventuras de políticos “imperfeitos” – e imperfeitos porque “incompletos” – certamente levaria Max Weber a tremer no silêncio sepulcral em que repousa.

Quanto a nós, pobres seres viventes, a constatação provoca pasmo e uma perturbadora inquietação. O momento é exigente, pede empenho e discernimento. Não precisamos de “chefes”, mas de políticos dispostos ao sacrifício e vocacionados para colocar os dedos nas engrenagens da História, assumindo compromissos claros com uma agenda corajosa.

Onde estarão eles?

O Pior Erro na História da Raça Humana

A ciência é a responsável por mudanças traumáticas em nossa autoimagem presunçosa. A astronomia nos ensinou que nossa Terra não é o centro do universo, mas apenas um dos bilhões de corpos celestes. Com a biologia, aprendemos que não fomos criados especialmente por Deus, mas evoluímos junto com milhões de outras espécies. Agora, a arqueologia está demolindo outra crença sagrada: a de que a aventura humana nos últimos milhões de anos tem sido uma longa história de progresso.

Em particular, as descobertas recentes sugerem que a adoção da agricultura, supostamente nosso passo decisivo para uma vida melhor, foi, em muitos aspectos, uma catástrofe da qual nunca nos recuperamos. Com a agricultura, surgiram as graves desigualdades sociais e sexuais, a doença e o despotismo que amaldiçoam nossa existência.

Em primeiro lugar, as supostas evidências contra essa proposta de interpretação revisionista serão consideradas como irrefutáveis pelos norte-americanos do século XX. Estamos em melhor situação em quase todos os aspectos do que as pessoas da Idade Média, que por sua vez viviam mais facilmente do que os homens das cavernas, que por sua vez viviam melhores do que macacos. Basta enumerar nossas vantagens. Nós apreciamos os alimentos mais abundantes e variados, as melhores ferramentas e bens materiais e as vidas mais longas e saudáveis da história. A maioria de nós está a salvo da fome e dos predadores. Nós recebemos nossa energia de óleo e máquinas, não de nosso suor. Que neoludita entre nós trocaria sua vida pela de um camponês medieval, um homem das cavernas ou um macaco?

Durante a maior parte da nossa história, fomos sustentados pela caça e coleta: caçávamos animais selvagens e nos alimentávamos de plantas selvagens. Era uma vida que os filósofos tradicionalmente consideraram desagradável, brutal e curta. Uma vez que nenhum alimento é cultivado e pouco é armazenado, há (nessa visão) nenhum alívio da luta que começa de novo a cada dia para encontrar alimentos selvagens e evitar morrer de fome. Nossa fuga dessa miséria foi facilitada há apenas 10 mil anos, quando, em diferentes partes do mundo, as pessoas começaram a domesticar plantas e animais. A revolução agrícola se espalhou até os dias de hoje, é quase universal e poucas tribos de caçadores-coletores ainda sobrevivem.

Do ponto de vista progressista no qual fui educado, perguntar “Por que quase todos os nossos antepassados ​​caçadores-coletores adotaram a agricultura?” seria uma tolice. Claro que eles a adotaram porque a agricultura é uma maneira eficiente de obter mais alimentos por menos trabalho. As culturas plantadas produzem muito mais toneladas por hectare do que raízes e bagas. Basta imaginar um bando de selvagens, exaustos de procurar nozes ou perseguir animais, de repente parando pela primeira vez num pomar carregado de frutas ou numa pastagem cheia de ovelhas. Quantos milissegundos você acha que levariam para perceber as vantagens da agricultura?

A linha desse partido progressista às vezes chega até a dar crédito à agricultura pelo notável florescimento da arte, que ocorreu ao longo dos últimos milênios. Uma vez que as colheitas podem ser armazenadas, e uma vez que leva menos tempo para colher alimentos numa plantação do que encontrá-los na natureza, a agricultura nos teria dado um tempo livre que os caçadores-coletores nunca tiveram. Assim, teria sido a agricultura que nos permitiu construir o Partenon e compor a Missa em B-menor de Bach.

Embora os argumentos da visão progressista pareçam esmagadores, são difíceis de provar. Como você mostra que a vida das pessoas 10.000 anos atrás ficou melhor quando abandonaram a caça e reuniram-se para a agricultura? Até recentemente, os arqueólogos tiveram que recorrer a testes indiretos, cujos resultados (surpreendentemente) não conseguiram suportar a visão progressista.

Aqui está um exemplo de um teste indireto: os caçadores-coletores do século XX estão realmente pior do que os agricultores? Espalhados em todo o mundo, várias dezenas de grupos de pessoas chamadas “primitivas”, como as tribos que vivem no Kalahari, continuam a se sustentar da caça e coleta. Acontece que essas pessoas têm muito tempo de lazer, dormem muito e trabalham menos do que seus vizinhos agricultores. Por exemplo, o tempo médio dedicado a cada semana na obtenção de alimentos é de apenas 12 a 19 horas para um grupo de bosquímanos, 14 horas ou menos para os nômades da Tanzânia. Um Bushman, quando perguntado por que não havia imitado as tribos vizinhas adotando a agricultura, respondeu: “Por que faria isso, quando há muitas nozes no mundo?”

Enquanto os agricultores concentram-se em culturas com alto teor de carboidratos, como o arroz e as batatas, a mistura de plantas e animais selvagens nas dietas dos caçadores-coletores sobreviventes proporciona mais proteínas e um equilíbrio mais seguro de outros nutrientes. Em um estudo, a ingestão média diária dos bosquímanos (durante um mês em que a comida era abundante) era de 2.140 calorias e 93 gramas de proteína – consideravelmente maior do que a dose diária recomendada para adultos. É quase inconcebível que os bosquímanos, que comem mais de 75 tipos de plantas selvagens possam morrer de fome da maneira que centenas de milhares de agricultores irlandeses e suas famílias morreram durante a fome de batata da década de 1840.

SAÚDE PIOR, CONDIÇÕES DE VIDA PIORES

Assim, pelo menos as vidas dos caçadores-coletores sobreviventes não são desagradáveis ​​e brutais, mesmo que a construção de estradas os tenham empurrado para alguns dos piores imóveis. Mas as atuais sociedades caçadoras e coletoras que convivem com as sociedades agrícolas não nos dizem nada sobre as condições antes da revolução agrícola. A visão progressista é realmente uma reivindicação sobre o passado distante: de que a vida das pessoas primitivas melhorou quando passaram da caça e colheita para a agricultura. Os arqueólogos podem estabelecer a data dessa mudança distinguindo os restos de plantas e animais selvagens daqueles dos domesticados em lixeiras pré-históricas.

Como se pode deduzir a saúde dos fabricantes pré-históricos de lixo e, portanto, testar diretamente a teoria progressista? Passamos a poder responder a essa questão apenas nos últimos anos, em parte graças às novas técnicas emergentes de paleopatologia e ao estudo de sinais de doença nos vestígios de povos antigos.

Em alguns casos de sorte, o paleopatologista tem quase tanto material para estudar como um patologista que estuda um indivíduo moderno. Por exemplo, os arqueólogos dos desertos chilenos encontraram múmias bem preservadas cujas condições médicas no momento da morte poderiam ser determinadas por autópsia. E as fezes de indígenas mortos há muito tempo e que viviam em cavernas em Nevada permaneceram suficientemente bem preservadas para serem examinadas a fim de analisar vestígios de ancilostomíase e outros parasitas.

Normalmente, os únicos restos humanos disponíveis para estudo são esqueletos, que permitem um número surpreendente de deduções. Para começar, um esqueleto revela o sexo, o peso e a idade aproximada do seu dono. Nos poucos casos em que há muitos esqueletos, pode-se construir tabelas de mortalidade como as que as companhias de seguros de vida usam para calcular a expectativa de vida e o risco de morte em qualquer idade. Os paleopatólogos também podem calcular as taxas de crescimento medindo ossos de pessoas de diferentes idades, examinando os dentes na busca de defeitos no esmalte (sinais de desnutrição infantil) e os ossos na busca das cicatrizes deixadas por doenças como anemia, tuberculose e lepra.

Um exemplo do que os paleopatologistas aprendem com os esqueletos é o caso das variações históricas na altura das pessoas. Esqueletos da Grécia e da Turquia mostram que a altura média dos caçadores-coletores no final das eras de gelo era um generoso 1m80cm para homens e 1m70cm para mulheres. Com a adoção da agricultura, a altura caiu, e em 3.000 A.C. atingiu um mínimo de apenas 1m60cm para homens e 1m50cm para mulheres. No período clássico, as alturas passaram a novamente a se elevar, mas lentamente, de forma que os gregos e turcos modernos ainda não recuperaram a altura média de seus antepassados ​​distantes.

Outro exemplo de paleopatologia é o estudo de esqueletos indígenas em túmulos nos vales do rio Illinois e Ohio. Em Dickson Mounds, localizado perto da confluência dos rios Spoon e Illinois, os arqueólogos escavaram cerca de 800 esqueletos que forneceram uma ideia das mudanças na saúde que ocorrem quando uma cultura caçadora-coletora deu lugar a uma agricultura de milho intensiva em torno de 1150 DC. Estudos de George Armelagos e seus colegas mostram que esses primeiros agricultores pagaram um preço alto por seus novos meios de subsistência.

Em comparação com os caçadores-coletores que os precederam, os agricultores tiveram um aumento de quase 50 por cento nos defeitos de esmalte indicativos de desnutrição, um aumento de quatro vezes na anemia ferropriva (evidenciada por uma condição óssea chamada hiperostose porótica), aumento de lesões ósseas que refletem doenças infecciosas em geral e um aumento nas condições degenerativas da coluna vertebral, provavelmente decorrente de árduo trabalho físico. “A expectativa de vida no nascimento na comunidade pré-agrícola era de vinte e seis anos”, diz Armelagos, “mas na comunidade pós-agrícola reduziu-se para dezenove anos. Portanto, esses episódios de estresse nutricional e doenças infecciosas afetaram seriamente a capacidade daquelas pessoas de sobreviver.”

A evidência sugere que os índios de Dickson Mounds, como muitos outros povos primitivos, adotaram a agricultura não por escolha, mas por necessidade, para alimentar seu número cada vez maior. “Eu não acho que a maioria dos caçadores-coletores adotou a agricultura até serem obrigados a fazê-lo, e quando o fizeram foi para trocar qualidade por quantidade”, diz Mark Cohen, da Universidade Estadual de Nova York em Plattsburgh, co-editor com Armelagos de um dos livros seminais no campo, Paleopatologia nas Origens da Agricultura. “Quando comecei a fazer essa pesquisa há dez anos, muitas pessoas concordaram comigo. Agora, tornou-se um lado respeitável, embora controverso, do debate”.

Os indígenas de Dickson Mounds pagaram um alto preço pela revolução agrícola.

Há pelo menos três conjuntos de razões para explicar a descoberta de que a adoção da agricultura foi ruim para a saúde. Primeiro, os caçadores-coletores gozavam de uma dieta variada, enquanto os primeiros agricultores obtiveram a maior parte de seus alimentos de uma ou algumas colheitas de amido. Os agricultores ganharam calorias baratas ao custo da má nutrição. Hoje, apenas três plantas com alto teor de carboidratos – trigo, arroz e milho – fornecem a maior parte das calorias consumidas pelas espécies humanas, mas cada uma é deficiente em certas vitaminas ou aminoácidos essenciais para a vida.

Em segundo lugar, devido à dependência de um número limitado de culturas, os agricultores correm o risco de fome se uma safra falhar. Finalmente, o simples fato de que a agricultura encorajou as pessoas a se aglomerarem em sociedades lotadas, muitas das quais estabeleceram comércio com outras sociedades lotadas, levou à disseminação de parasitas e doenças infecciosas. As epidemias não podiam tomar conta quando as populações estavam dispersas em pequenos grupos que mudavam constantemente de acampamento. A tuberculose e a doença diarréica tiveram que aguardar o surgimento da agricultura, o sarampo e a peste bubônica tiveram de esperar o surgimento das grandes cidades.

O SURGIMENTO DA OPRESSÃO

Além da desnutrição, da fome e das doenças epidêmicas, a agricultura ajudou a trazer outra maldição para a humanidade: profundas divisões de classes. Os caçadores-coletores têm pouco ou nenhum alimento armazenado, e nenhuma fonte concentrada de alimentos, como um pomar ou um rebanho de vacas: vivem das plantas selvagens e dos animais que obtêm a cada dia. Portanto, não pode haver reis, nenhuma classe de parasitas sociais que engordam com alimentos confiscados dos outros.

Somente após a revolução agrícola é que uma elite saudável e não produtiva se estabeleceu acima das massas adoecidas e debilitadas pelo trabalho excessivo. Esqueletos de túmulos gregos em Micenas no ano de 1500 AC sugerem que a realeza desfrutou de uma dieta melhor do que os plebeus, já que os esqueletos reais eram dois ou três centímetros mais altos e tinham melhores dentes (em média, um em vez de seis cavidades ou dentes faltantes). Entre as múmias chilenas de 1000 DC, a elite distinguia-se não só por ornamentos e grampos de cabelo dourados, mas também por uma taxa menor (de um quarto) em lesões ósseas derivadas de doenças.

Os contrastes similares em nutrição e saúde continuam a uma escala global hoje. Para pessoas em países ricos como os EUA, parece ridículo exaltar as virtudes da caça e da coleta. Mas os americanos são uma elite, dependente de petróleo e minerais que muitas vezes devem ser importados de países com saúde e nutrição mais pobres. Se alguém pudesse escolher entre um fazendeiro camponês na Etiópia ou um coletor no Kalahari, qual você acha que seria a melhor escolha?

A agricultura também pode ter incentivado a desigualdade entre os sexos. Liberadas da necessidade de transportar seus bebês durante uma existência nômade e sob pressão para produzir mais mãos para cultivar os campos, as mulheres agricultoras tendiam a dar a luz com mais frequência do que suas antepassadas caçadoras-coletoras: com consequências à sua saúde. Entre as múmias chilenas, por exemplo, mais mulheres do que homens apresentavam lesões ósseas de doenças infecciosas.

As mulheres nas sociedades agrícolas eram às vezes tratadas como animais de carga. Nas comunidades agrícolas da Nova Guiné de hoje, muitas vezes vejo as mulheres cambaleando com lenha e vegetais nas costas, enquanto os homens andam com as mãos vazias. Uma vez, em uma viagem de campo para pesquisar pássaros, contratei alguns aldeões para que transportassem suprimentos de uma pista de pouso até meu campo de pesquisas nas montanhas. O item mais pesado era um saco de arroz de 50 quilos que prendi em uma vara e encarreguei quatro homens para transportar. Quando retornei para ver o trabalho dos aldeões, os homens carregavam cargas leves, enquanto uma pequena mulher pesando menos do que o saco de arroz tinha ele às suas costas.

Quanto à alegação de que a agricultura incentivou o florescimento da arte, proporcionando-nos tempo de lazer, os caçadores-coletores modernos têm pelo menos tanto tempo livre quanto os fazendeiros. Toda a ênfase no tempo de lazer como um fator crítico parece-me equivocada. Os gorilas tiveram amplo tempo livre para construir o seu próprio Parthenon, se tivessem desejado. Enquanto os avanços tecnológicos pós-agrícolas tornaram possíveis as novas formas de arte e a preservação da arte, excelentes pinturas e esculturas já estavam sendo produzidas por caçadores-coletores há 15 mil anos e ainda estão sendo produzidas recentemente no último século por esses caçadores-coletores como alguns esquimós e os índios do noroeste do Pacífico.

Assim, com o advento da agricultura a vida de uma elite melhorou, mas a maioria das pessoas ficou pior. Em vez de aderir à noção do partido progressista de que escolhemos a agricultura porque era bom para nós, devemos perguntar como ficamos presos nessa armadilha.

Uma resposta resume-se ao ditado “Pode dar certo”. A agricultura poderia suportar muitas outras pessoas do que a caça, embora com uma qualidade de vida pior. A densidade populacional de caçadores-coletores raramente excede a uma pessoa por dez milhas quadradas, enquanto a densidade dos agricultores costuma ser 100 vezes superior. Em parte, isso ocorre porque um campo plantado inteiramente em culturas comestíveis permite que se alimente muito mais bocas do que uma floresta com plantas comestíveis dispersas. Em parte também é porque os caçadores-coletores nômades têm que manter o nascimento de seus filhos espaçados em intervalos de quatro anos, uma vez que a mãe deve transportar a criança até que tenha idade suficiente para acompanhar os adultos. Por não terem esse fardo, as mulheres na sociedade agrícola podem e muitas vezes dão luz a uma criança a cada dois anos.

À medida que as densidades populacionais de caçadores e coletores aumentavam lentamente no final da era glacial, os bandos nômades tiveram que escolher entre alimentar mais bocas, dando os primeiros passos em direção à agricultura, ou encontrar maneiras de limitar o crescimento. Alguns grupos escolheram a primeira solução, incapaz de antecipar os males da agricultura e seduzidos pela abundância transitória que desfrutaram até o crescimento da população impor um aumento na produção de alimentos. Esses bandos prosperaram e depois expulsaram, escravizaram ou mataram os bandos que escolheram permanecer caçadores-coletoras, pois uma centena de agricultores malnutridos ainda pode enfrentar um caçador saudável. Não é que os caçadores-coletores abandonaram seu estilo de vida, mas que aqueles sensíveis o suficiente para não abandoná-lo foram forçados a sair de todas as áreas, exceto aquelas que os agricultores não queriam.

Neste ponto, é instrutivo lembrar a queixa comum de que a arqueologia é um luxo, preocupada com o passado remoto e não oferecendo aulas para o presente. Arqueólogos que estudam o surgimento da agricultura reconstituíram um estágio crucial no qual fizemos o pior erro na história humana. Forçados a escolher entre limitar a população ou tentar aumentar a produção de alimentos, escolhemos o último e acabamos com fome, guerra e tirania.

Os caçadores-coletores praticaram o estilo de vida mais bem sucedido e duradouro da história humana. Em contraste, ainda estamos lutando com a bagunça em que a agricultura nos meteu, e não está claro se podemos solucionar a situação.

Suponhamos que um arqueólogo em visita a outro planeta tentasse explicar a história humana aos seus colegas alienígenas. Ele pode ilustrar os resultados de suas escavações com um relógio de 24 horas, no qual uma hora representa 100.000 anos de tempo real do passado. Se a história da raça humana começou à meia-noite, então estaríamos quase no final do nosso primeiro dia. Vivemos como caçadores-coletores durante quase todo esse dia, da meia-noite até o amanhecer, meio dia e pôr-do-sol. Finalmente, às 23h54, adotamos a agricultura.

À medida que nos aproximamos da meia-noite, irá a situação dos camponeses atingidos pela fome gradualmente espalhar-se e engolir a todos nós? Ou, de alguma forma, conquistaremos as bênçãos sedutoras que imaginamos estar por trás da fachada brilhante da agricultura, e que até agora não encontramos?


Fonte: DiscoverThe Worst Mistake in the History of the Human Race.

 

O Túnel do Ego

[Tradução de trechos do livro Ego Tunnel, de Thomas Metzinger, disponível em sua integralidade, em inglês, na biblioteca sobre o Hiper Humanismo. A leitura desse texto serve de apoio à leitura do próximo texto da série “A Descoberta Mais Importante”, e os pontos principais para tal propósito estão em negrito.]

Uso uma metáfora central para a experiência de estar consciente: o “Túnel do Ego”. A experiência consciente é como um túnel. A moderna neurociência revelou que o conteúdo do mundo que vemos não é apenas um construto interno da mente, mas também uma forma extremamente seletiva de representar informação sobre o mundo exterior. É por isso que a consciência é como um túnel: o que vemos e ouvimos, o que sentimos, provamos e cheiramos é apenas uma pequena fração do que realmente existe lá fora.

Nosso modelo consciente de realidade é uma projeção de baixa dimensionalidade de uma realidade física circundante inconcebivelmente mais rica. Nossos órgãos sensoriais são limitados: eles evoluíram para servir à nossa sobrevivência, e não para nos descrever a enorme riqueza e colorido da realidade ao redor, em toda sua insondável profundidade. Portanto, o processo da experiência consciente não é tanto uma imagem da realidade quanto um túnel que atravessa essa realidade. Sempre que nosso cérebro tem sucesso na sua engenhosa estratégia de criar um unificado e dinâmico retrato da realidade, nós nos tornamos conscientes.

Em primeiro lugar, nossos cérebros criam uma simulação de mundo tão perfeita que não a reconhecemos como uma imagem de nossas mentes. A seguir, nossos cérebros geram uma imagem interna de nós mesmos como uma totalidade. Essa imagem inclui não só nosso corpo e nossos estados psicológicos mas também nossa relação com o passado e o futuro, assim como nossa relação com outros seres conscientes. A imagem interna de uma pessoa-enquanto-totalidade é o que chamo de “Ego fenomênico”, o “Eu” que aparece em nossa experiência consciente.

O ego fenomênico não é uma coisa misteriosa ou um pequeno ser humano dentro de nossa cabeça, mas o conteúdo de uma imagem interna: nomeadamente, é um modelo de identidade pessoal consciente. Colocando-se o modelo de identidade dentro do modelo de mundo, um centro é criado. Esse centro é aquilo que experimentamos como sendo nós próprios, o ego. Essa é a origem daquilo que os filósofos frequentemente chamam de “perspectiva de primeira pessoa”. Não estamos em contato direto com a realidade exterior ou com nós próprios, mas temos uma perspectiva interna e podemos usar a palavra “eu”. Assim vivemos nossa vida consciente no Túnel do Ego.

Há duas razões principais para isso. Em primeiro lugar, possuímos uma imagem integrada e subjetiva de nossa identidade que está firmemente ancorada em nossos sentimentos e sensações físicas. A simulação de mundo criada por nossos cérebros inclui a experiência de uma perspectiva. Em segundo, somos incapazes de experienciar e reconhecer introspectivamente nossa identidade como um modelo criado. Muito do modelo de identidade é, como filósofos diriam, transparente.

A realidade que você vê ao seu redor, inclusive a sensação espacial, é uma simulação construída por seu cérebro, um túnel para “atravessar” a realidade.

Transparência simplesmente significa que não estamos cientes do meio pelo qual uma informação chega até nós. Não vemos a janela, mas apenas o pássaro que voa lá fora. Não vemos os neurônios ativando-se em nosso cérebro, mas apenas o que eles representam do mundo para nós. Um modelo consciente de mundo ativo em nosso cérebro é transparente se o cérebro não tem chance ele próprio de descobrir que se trata de um modelo: nós olhamos diretamente através desse modelo, diretamente para o mundo tal como o percebemos.

A proposta central  é que a experiência consciente de ser um ego emerge porque grande parte desse modelo em nosso cérebro é transparente. O ego é simplesmente o conteúdo de nosso modelo fenomênico de identidade neste exato momento (suas sensações corporais, seu estado emocional, suas percepções, memórias, atos e pensamentos). Mas isso tudo torna-se um ego apenas porque você é estruturalmente incapaz de perceber que tudo é só o conteúdo de uma simulação em seu cérebro. Não é a realidade em si mesma, mas uma imagem da realidade – e uma imagem muito especial, na verdade.

O ego é uma imagem mental transparente: você (seu corpo físico, como uma totalidade) olha diretamente através dessa imagem. Você não a vê, mas você vê graças a ela. O ego é uma ferramenta para controlar e planejar nosso comportamento e para entender o comportamento dos outros. Sempre que o organismo precisa dessa ferramenta, o cérebro ativa o modelo fenomênico de identidade. Se (por exemplo, em um sono profundo sem sonhos) esta ferramenta não é mais necessária, ela é desativada.

É preciso enfatizar que embora nossos cérebros criem o Túnel do Ego, ninguém vive neste túnel. Vivemos com e através dele, mas não há um pequeno ser humano dentro de nossa cabeça. O Ego e o Túnel são fenômenos representacionais, resultado da auto-organização dinâmica em muitos níveis. No fim das contas, a experiência subjetiva é um formato de informação biológica, uma forma altamente específica de representar informação sobre o mundo dando a impressão de que há um ego que detém o conhecimento. Mas no mundo não há algo como identidade pessoal. Um organismo biológico não tem uma identidade pessoal. Um ego não é uma identidade, mas apenas uma forma de conteúdo representacional: nomeadamente, o conteúdo de um modelo de identidade ativado pelo cérebro do organismo.

Variações dessa metáfora do túnel ilustram outras novas ideias da ciência da mente: o que significaria para um ego se o túnel da consciência desse origem, numa ramificação, a outros túneis? o que acontece com o túnel durante os sonhos? as máquinas podem desenvolver uma forma artificial de autoconsciência, e podem desenvolver um túnel do ego? Como empatia e cognição social funcionam, como a comunicação pode ocorrer entre dois túneis? E, enfim, claro, precisamos perguntar: é possível ao ego sair do túnel?

A ideia de um túnel do ego é inspirada em uma versão mais antiga que circulou por algum tempo. É o conceito de “Túnel da Realidade”, que pode ser encontrado nas pesquisas sobre realidade virtual e programação de video games avançados, ou em trabalhos populares de filósofos não acadêmicos como Robert Anton Wilson e Timothy Leary.

A ideia geral é a seguinte: sim, existe um mundo exterior, e sim, existe uma realidade objetiva, mas enquanto nos movemos por este mundo, nós constantemente utilizamos mecanismos inconscientes de filtragem. E fazendo isso, nós, sem percebermos, construímos nosso próprio mundo individual, que é nosso “túnel da realidade”. Nós nunca estamos diretamente em contato com a realidade enquanto tal, pois esses filtros nos impedem de ver o mundo tal como é. O mecanismo de filtragem está em nossos sistemas perceptivos e em nosso cérebro, e sua arquitetura foi herdada de nossos ancestrais biológicos, assim como de nossas crenças fundamentais e presunções implícitas. O processo de construção desse túnel é em grande parte invisível, e no fim nós vemos apenas o que o túnel de realidade nos permite ver, e a maioria de nós ignora completamente este fato.

A APARÊNCIA DE UM MUNDO

Consciência é a aparência de um mundo. A essência do fenômeno da experiência consciente é tornar presente uma realidade unificada: se você está consciente, um mundo aparece para você. Isso é verdade para os sonhos e também para o estado desperto, mas no sono sem sonhos, nada aparece: o fato de que há uma realidade lá fora e que você está inserido nela é algo inacessível para você; você nem mesmo sabe, naquele momento, que existe.

A consciência é um fenômeno muito especial, porque faz parte de um mundo e contém esse mundo ao mesmo tempo. Todos os nossos dados indicam que a consciência é parte de um universo físico e é um fenômeno da biologia evolutiva. Porém, a experiência da consciência é muito mais do que física somada à biologia: mais do que um fantástico padrão de ativações neurais em seu cérebro.

O que coloca a consciência humana à parte de todos os fenômenos biológicos é que ela faz uma realidade aparecer dentro de si mesma. Ela cria a subjetividade. O processo de vida torna-se consciente de si próprio.

Analisando os dados disponíveis sobre o cérebro animal e a continuidade evolutiva, o surgimento de sistemas nervosos capazes de construir internamente um modelo de mundo é um fenômeno recente, que talvez tenha apenas alguns milhões de anos. Na evolução darwiniana, uma primeira forma de consciência deve ter surgido cerca de duzentos milhões de anos atrás no primitivo córtex de mamíferos, dando-lhes consciência do corpo, a sensação de um mundo circundante e conduzindo o comportamento do organismo. Minha opinião é de que aves, répteis e peixes há tempos possuem alguma espécie de consciência também. De qualquer forma, um animal que não pode pensar ou falar pode certamente ter estados fenomênicos transparentes – e isso é o necessário para um mundo ser construído dentro da consciência.

Pesquisadores célebres da consciência e neurobiologistas teóricos como Anil Seth, Bernard Baars e D.B. Edelman estabeleceram dezessete critérios para estruturas cerebrais desenvolverem a consciência, e as evidências sobre a existência dessas estruturas não apenas em mamíferos mas também em aves e até mesmo potencialmente em polvos é gigantesca. A evidência empírica sobre a consciência nos animais agora está além da dúvida razoável.

Se a consciência é com um túnel ou corredor, há passagens insuspeitas?

Um fenômeno muito mais recente emergiu há algumas centenas de anos: a formação consciente de teorias na mente de filósofos e cientistas. Desse modo o processo de viver começou a refletir-se não só em organismos conscientes individuais mas também em grupos de seres humanos que tentam compreender a emergência da mente autoconsciente enquanto tal (ou seja, o que significa algo que “emerge dentro de si mesmo”).

A característica mais fascinante da mente humana talvez não seja que possa tornar-se consciente, ou mesmo que possa permitir a emergência de um modelo fenomênico de ego. O fato realmente notável é que possamos observar o conteúdo de nosso modelo fenomênico de identidade e formular conceitos a seu respeito. Podemos comunicar nossas ideias com os outros e podemos experimentar o fenômeno como nossa própria atividade. O processo de observar nossos pensamentos e emoções, nossas percepções e sensações corporais está integrado nesse modelo. Essa capacidade, como se nota, provavelmente é o que nos distingue da maioria dos outros animais neste planeta: a habilidade de voltar atenção da perspectiva de primeira pessoa para dentro de si mesma, para explorar nossos estados emocionais e observar nossos processos cognitivos. Como os filósofos costumam dizer, essas habilidades estão em níveis “mais elevados” do modelo fenomênico de identidade pessoal. Elas permitem que nos tornemos conscientes do fato de que somos sistemas representacionais.

Ao longo dos séculos, as teorias que elaboramos gradualmente mudaram nossa imagem de nós mesmos, e fazendo isso elas sutilmente mudaram o conteúdo de nossa consciência. É verdade, a consciência é um fenômeno robusto, que não muda simplesmente devido às opiniões que temos a seu respeito. Mas ela muda através da prática (pense nos expecialistas em vinho, os criadores de perfumes e os gênios musicais).

Os seres humanos de outros períodos históricos (durante o período veda na antiga Índia, por exemplo, ou na Europa da Idade Média, quando Deus era percebido como uma presença real e constante) provavelmente conheciam tipos de experiências subjetivas que são quase inacessíveis para nós hoje em dia. Muitas formas profundas de autopercepção consciente tornaram-se impossíveis de serem vivenciadas após o iluminismo intelectual e o surgimento da ciência e da tecnologia – ao menos para muitos milhões de pessoas instruídas e cientificamente informadas. As teorias mudam as práticas sociais, e as práticas sociais eventualmente alteram o próprio cérebro, modificando a forma como percebemos o mundo. Com a teoria das redes neurais, aprendemos que na distinção entre estrutura e conteúdo (entre o portador de um estado mental e seu significado) não há uma clara divisão como muitos achavam. Significado muda a estrutura, embora lentamente. E a estrutura, por seu turno, determina nossa vida subjetiva, o fluxo da experiência coletiva.

VIVEMOS EM UM MUNDO VIRTUAL

A história da filosofia mostrou-nos que metáforas tecnológicas têm limitações consideráveis. Contudo, a realidade virtual é uma das metáforas úteis. A realidade virtual criada pela natureza é a consciência: um modelo de mundo em tempo real que pode ser considerado como uma simulação permanente que roda online, permitido a interação entre os organismos. Milhões de anos atrás, a realidade virtual feita pela natureza conseguiu realizar aquilo que os engenheiros de software de hoje lutam para alcançar: as propriedades fenomênicas da “presença” e “imersão total”.

Do ponto de vista da engenharia, o problema em criar um ambiente virtual é um problema de design avançado de interface. Uma interface de realidade virtual é um sistema de transdutores, processadores de sinais, hardware e software. Esse sistema cria um ambiente virtual interativo que transmite informação aos sentidos do usuário enquanto constantemente monitora o comportamento do usuário e o mundo exterior para atualizar e manipular o ambiente virtual.

A experiência de estar consciente também é uma interface, um ambiente interno perfeito e invisível que permite ao organismo interagir flexivelmente dentro dele. É um dispositivo de controle, que funciona criando uma interface interna para o usuário: uma realidade virtual. Esse dispositivo filtra informação, tem uma alta largura de banda, não é ambíguo, é confiável e produz uma sensação de presença no mundo. Mais importante, produz uma sensação de identidade pessoal. O modelo de identidade pessoal, de ego, é como o pointer de um mouse no desktop de seu computador, ou a pequena seta vermelha no mapa que diz “Você está aqui.” Esse modelo coloca seu ego no centro de um espaço de atuação situado no modelo de mundo que você conscientemente vivencia como a realidade externa, mas que é sua realidade virtual interna.

O ego é uma parte especial dessa realidade virtual. Ao produzir uma imagem interna do organismo como um todo, ele permite com que o organismo aproprie-se de seu hardware. É a resposta evolutiva para a necessidade de explicar as ações internas e externas para si mesmo, prevendo o comportamento do organismo e monitorando suas ações e sua história (a memória autobiográfica, claro, é uma das camadas mais importantes do modelo de identidade humana, permitindo que nos apropriemos de nossa própria história, dentro e fora do tempo, no presente e no passado).

A consciência dá flexibilidade ao organismo, e o controle global lhe dá o ego. No nível da experiência consciente, este processo de apropriar-se funcionalmente do próprio hardware (seu corpo) com um modo holístico é espelhado como o senso de apropriação global, de protagonismo fundamental.

Se a consciência é um túnel, para onde nossa atual consciência está nos levando?

A natureza, aparentemente, dedicou-se a elaborar designs avançados de interface muito antes dos seres humanos. É interessante notar que os melhores teóricos pesquisando hoje ambientes de realidade virtual não apenas empregam conceitos filosóficos como “presencialidade” e “situacionalidade”, mas também falam sobre “corpo virtual”. Para eles, um corpo virtual é uma extensão de um ambiente de realidade virtual. É uma ferramenta que funciona como aquela seta do mouse na tela. Se um corpo virtual é utilizado como interface, ele pode então ser utilizado para controlar um robô a distância.

O conceito relacionado de “robô escravo” é particularmente interessante. Para conseguir esse tipo de telepresença, é preciso haver uma alta correlação entre os movimentos do operador humano e as ações do robô escravo. Idealmente, um operador humano identificaria seu próprio corpo com o do robô escravo, conseguindo fazer isso com um corpo virtual, que funcionaria como uma interface.

Novamente, a natureza fez isso há milhões de anos: como um corpo virtual, o modelo fenomênico de identidade é uma interface avançada e destinada a controlar o corpo. Se no caso do robô escravo o controlador pode estar a centenas de quilômetros de distância, no caso do ego o sistema simulado e o sistema que deve ser controlado são idênticos: a experiência consciente de ser um indivíduo emerge quando um organismo aprende a “escravizar” a si mesmo.

A emergência de um Túnel do Ego criou uma forma muito mais eficiente de controlar o corpo. Controlar o corpo significa controlar o comportamento e a maquinário perceptivo de um alguém. Mas também significa direcionar os pensamentos desse alguém e regular seus estados emocionais. O modelo integrado de identidade consciente é uma região especial da interface do usuário de alta dimensionalidade que emerge em nossos cérebros. É uma interface particularmente user friendly, permitindo ao organismo biológico direcionar sua atenção para um subconjunto crítico de suas propriedades globais.

Ter um modelo de identidade é como um modelamento adaptado ao usuário, exceto que é autodirecionada e ocorre internamente. Em um sentido importante, o ego resultante é uma ficção. Contudo, é um dispositivo de controle virtual incrivelmente eficiente. Você poderia dizer que é uma janela totalmente nova para a realidade. Eu afirmo que a experiência de primeira pessoa e a emergência de uma identidade consciente são formas complexas de realidade virtual. E uma realidade virtual é uma realidade possível.

Como qualquer pessoa que colocou um capacete de realidade virtual e jogou um video game moderno sabe, nós podemos às vezes esquecer completamente que é uma simulação: o possível pode ser experienciado como se fosse real. De certo modo, as partes conscientes de nosso cérebro são como capacetes de realidade virtual: eles emergem o organismo em um espaço comportamental simulado. Juntos, o cérebro e o modelo fenomênico de identidade, trabalham como um simulador de voo.

ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA

Há um aspecto positivo na nova imagem que temos dos seres humanos, e que no permitirá enxergar a nós próprios sob uma luz diferente. Esse aspecto consiste na inconcebível profundidade de nosso espaço fenomênico. A teoria matemática das redes neurais revelou o enorme número de possíveis configurações neuronais em nossos cérebros e o enorme número de diferentes tipos de experiências subjetivas.

A maioria de nós ignora completamente o potencial e profundidade de nosso espaço experiencial. A quantidade de configurações neurofenomenológicas em um único cérebro humano e a variedade possível de túneis é tão grande que você pode explorar apenas uma pequena fração delas em seu tempo de vida. De qualquer modo, sua individualidade, a singularidade de sua vida mental, tem muito a ver com qual trajetória você adotará no espaço fenomênico. Ninguém jamais viverá a sua vida consciente novamente. Seu Túnel do Ego é único, singular.

Uma imagem naturalística e neurocientífica da humanidade repentinamente deixa óbvio não apenas que temos um enorme número de estados fenomênicos a nossa disposição: isso também deixa claro que o explícito conhecimento desse fato e a habilidade de fazer uso disso sistematicamente pode agora tornar-se comum a todos os seres humanos.

De certa forma, pesquisas experimentais sistemáticas têm sido conduzidas por milênios pelos iogues, dervixes, monges e místicos. Em todos os tempos e culturas, os seres humanos têm explorado o potencial de nossas mentes conscientes: através de tambores rítmicos e técnicas de transe, pelo jejum e pela privação do sono, através de ervas e cogumelos. A novidade hoje é que nós estamos lentamente começando a compreender a estrutura neural subjacente a esses túneis de realidade alternativos. Assim que descobrirmos as configurações neuronais correlacionadas com formas específicas de conteúdo do túnel, seremos capazes, ao menos em princípio, de manipular esses conteúdos de muitas formas – amplificando-os ou inibindo-os, mudando sua qualidade, gerando novos tipos de conteúdo. Próteses de cérebro e tecnologia neuronal já estão a caminho.

Quando surgir uma tecnologia da consciência e olharmos o túnel por fora, encontraremos algo ou alguém que não deveria estar lá?

A neurotecnologia irá inevitavelmente converter-se em tecnologia consciente. A experiência fenomênica irá gradualmente tornar-se tecnologicamente disponível, e seremos capazes de a manipular de formas cada vez mais efetivas e sistemáticas. Aprenderemos a fazer uso dessas descobertas para superar as limitações de nossos Túneis de Ego biologicamente condicionados pela evolução. O fato de que podemos ativamente desenhar a estrutura de nossas mentes conscientes foi negligenciado e se tornará crescentemente óbvio através do desenvolvimento da neuroantropologia.

A ideia de ser um indivíduo autônomo e de assumirmos responsabilidade nossas próprias vidas terá um significado completamente novo no momento em que a neurotecnologia começar a converter-se em tecnologia neurofenomênica, ou em algo que poderíamos chamar de fenotecnologia. Nós definitivamente podemos aumentar nossa autonomia ao assumirmos o controle de nosso cérebro-mente consciente, explorando-o em algumas de suas dimensões mais profundas.

Esse aspecto particular da nova imagem da humanidade é uma boa notícia. Mas também é uma notícia perigosa. Ou encontramos um modo de lidarmos com essas novas possibilidades neurotecnológicas com inteligência ou responsabilidade, ou enfrentaremos uma série de riscos sem precedentes históricos. Precisamos começar a pensar sobre o que queremos fazer com todo esse conhecimento. E, em primeiro lugar, descobrir o que é um “bom estado de consciência”.

Biblioteca sobre o Hiper Humanismo

“O objetivo dos textos da série A Descoberta Mais Importante/Quem você realmente é não é provar qualquer coisa ou apenas instruir, mas fazer um alerta”, diz o autor a seguir, na apresentação da “biblioteca”. Esse alerta, no programa didático, está inserido na terceira etapa. O texto dessa terceira etapa, A Natureza da Prisão Humana, seria publicado hoje, após idas e vindas de revisões e de reformulações do autor em consulta a seus colaboradores, por tratar-se de um assunto que exige extrema prudência na exposição.

Mas um colaborador nesta semana mesmo levou ao conhecimento do autor o conteúdo de um filme, Mother!, de Darren Aronofsky, que apresenta em alegoria o mito judaico da criação. Esse era justo o mito que estava na versão inicial no texto a ser publicado hoje, como recurso didático de ilustração, e que acabou sendo retirado por transmitir mais informação do que o autor julgava conveniente.

A correspondência (simbólica) entre o conteúdo do filme e pontos apresentados no próximo texto é impressionante. Por isso, o autor decidiu reformular o texto para retomar o uso ilustrativo do mito judaico-cristão da queda do ser humano. Essa “sincronicidade” dá ao leitor uma oportunidade de imersão única:

Por isso recomenda-se aos leitores, de forma veemente, que assistam o filme Mother! (ainda nos cinemas) antes da publicação do próximo texto, o que ocorrerá quinta-feira que vem, e tentem responder a seguinte pergunta:

Por que o poeta não expulsa os visitantes?

Assistir o filme garantirá uma experiência de imersão no conteúdo do próximo texto. Aos leitores que estão em cidades na qual o filme não está em exibição, por gentileza entrar em contato com a equipe do AZ ([email protected]).

Enquanto isso, temos um cronograma especial no AZ, preparatório do próximo texto. Assim, publicamos abaixo a apresentação da “biblioteca”, que contém documentos que são mencionados pelo autor em seus textos. Seguem, também, comentários elaborados pelo próprio autor a respeito da documentação.

Sexta-feira e na próxima segunda-feira, publicaremos outros dois textos que servirão de conteúdo de apoio para o próximo texto, sendo também recomendada sua leitura. O primeiro do filósofo Thomas Metzinger, sobre a natureza da consciência, o segundo do biólogo Jared Diamond, sobre a Revolução Neolítica.

Ainda antes de quinta-feira, os textos publicados nas etapas anteriores serão apresentados em versão PDF na sua formatação definitiva.

Equipe AZ.

 


A BIBLIOTECA

O objetivo dos textos da série A Descoberta Mais Importante/Quem você realmente é não é provar qualquer coisa ou apenas instruir, mas fazer um alerta, algo que se tem repetido insistentemente. O conhecimento apresentado antecede e é independente das descobertas científicas e da publicação de teorias que servem de embasamento a essas descobertas. Porém, escolheu-se este momento para a publicação desse conhecimento justo porque a humanidade já chegou ela própria no estágio em que pode perceber tudo por si mesma – e essa possibilidade vem acompanhada do risco de lidar com aquilo que não se compreende, o que torna mais urgente o alerta. Graças a isso, já há material o suficiente de pesquisadores e teóricos sobre os temas aqui apresentados, e esse material serve de suporte para tornar o conhecimento mais consistente aos olhos do leitor.

É com esse intuito que se apresenta esta “biblioteca” com material selecionado. Infelizmente, quase todo o material está na língua inglesa, pois é difícil encontrar material relevante produzido na língua portuguesa. De qualquer forma, os colaboradores envidarão esforços para atualizar a biblioteca com material em português.

[Nota do AZ: esta biblioteca será atualizada constantemente, e sempre que houver uma atualização os assinantes da news letter receberão informação a respeito. Por isso, não deixe de assiná-la.]


 

Material sobre a descoberta do hipercontexto:

  • The Emergent UniverseDavid Wallace. O trabalho epistemológico e de divulgação científica mais importante sobre a existência do hipercontexto. Leitura altamente recomendada, embora exija certo conhecimento de lógica formal. Considera-se a obra de divulgação mais consistente a respeito do tema, por apresentar argumentos sólidos e demonstrar que a recusa em aceitar as evidências sobre o hipercontexto não tem qualquer fundamento epistemológico ou científico.
  • Is the Moon there when nobody looks?David Mermin. Artigo importante e histórico de David Mermin, em que expôs todo o desconforto da comunidade científica diante dos paradoxos do Teorema de Bell e das descobertas paradoxais feitas em laboratório, as quais somente a proposta do hipercontexto explica com consistência e embasamento matemático.
  • A Snapshot of Foundational Attitudes Toward Quantum Mechanics Maximilian Schlosshauer, Johannes Kofler e Anton Zeilinger. Uma pesquisa sobre a receptividade da existência do hipercontexto na comunidade científica, revelando que nas últimas décadas tornou-se a segunda interpretação a contar com mais simpatizantes.
  • O Paradoxo EPRFranciele Renata Henrique. Documento útil que tenta explicar os aspectos mais importantes do Paradoxo EPR (em português).
  • Many-Worlds Interpretations Can Not Imply ‘Quantum Immortality’Jacques Mallah. Texto importante por refutar uma das falácias mais populares sobre o hipercontexto (e que pode servir de base para outras falácias do mesmo gênero): a de que haveria uma realidade alternativa na qual determinado indivíduo jamais morreria, como resultado da coexistência de probabilidades.
  • The quantum source of space­time Ron Cowen. Matéria de divulgação científica da Nature, importante por tratar do papel fundamental do entrelaçamento na urdidura do espaço-tempo e da força gravitacional.
  • An Introduction to Backflow Effect J. M. Yearsley e J. J. Halliwell. Estudo que demonstra as possibilidades de medição do efeito Backflow em diferentes pacotes gaussianos.
  • Backflow Time ArrivalM. Ruggenthaler. Estudo em que fica claro que o efeito Backflow depende da diferença de velocidade de chegada ao obstáculo das versões coexistentes de uma mesma partícula.

 

Material sobre a natureza e a evolução no hipercontexto:

  • The Dawn of the Quantum Biology Philip Ball. Matéria de divulgação científica da Nature, publicada em 2011 e importante por fazer uma síntese de todas as linhas de pesquisas relativas às estratégias evolutivas em relação ao hipercontexto.
  • Quantum coherence in photosynthesisElisabet Romero, Ramuns Augulis, Vladimir Novoderenzhkin, Marco Ferreti et al. Estudo sobre como o processo de fotossíntese de qualquer planta utiliza o hipercontexto e as realidades alternativas para maximizar a velocidade do transporte de energia luminosa.
  • A Quantum Origin of LifePaul C. Davies. Uma proposta de surgimento da replicação e uso da entropia a partir da lógica inerente ao hipercontexto.
  • Does quantum mechanics play a non-trivial role in life? Paul C. Davis. Outro estudo do papel do hipercontexto na existência da vida orgânica.
  • Bacteria as Multicelular Organisms James Shapiro. Um estudo que demonstra que bactérias reunidas em colônias se diferenciam e integram um sistema com controle temporal e espacial altamente sofisticado.

 

Material sobre o funcionamento da psique humana no hipercontexto.

  • Many Minds Interpretation of Quantum Mechanics Michael Lockwood. Paper em que o autor propugna uma perspectiva da mente humana no âmbito do hipercontexto (com várias “mentes” controladas por uma só “Mente”) e da interação de sistemas macroscópicos em tramas de realidade distintas.
  • The Ego Tunnel Thomas Metzinger. Obra importante em que Metzinger sintetiza sua proposta de modelo de mundo e identidade pessoal construído pelo cérebro.
  • Beyond the Stalemate Stuart Kauffman. digressão em que Kauffman estuda a relação consciência e corpo com base no hipercontexto, estuda os aspectos do livre arbítrio e de um possível panpsiquismo.
  • Brain and Mind in Everett WorldAndreas Wichert. Estudo em que o autor tenta redefinir a identidade humana e a causalidade da perspectiva da existência do hipercontexto.
  • Quantum features of consciousness, computers and brain – Michael Mensky. Paper em que Mensky analisa o papel da consciência humana na percepção de tramas de realidade no hipercontexto.
  • Extended Everett Concept and consciousness Michael Mensky. Trabalho em que Mensky apresenta sua proposta de que a consciência pode ser definida como “a” separação da percepção do hipercontexto em contextos específicos.
  • Introduction to the Transcendent Function Jeffrey C. Miller. Trecho da obra The Transcendent Function: Jung’s Model of Psychological Growth Through Dialogue With the Unconscious, que trata da Função Transcedente propugnada por Jung.
  • Introdução ao Huig Ming GingCarl Gustav Jung. Texto em que Jung apresenta de forma didática alguns dos conceitos principais de seu mapeamento da Matriz: arquétipos (complexos anímicos parciais), mandalas e individuação (em português).
  • Prefácio ao I Ging traduzido por Richard Willhem Carl Gustav Jung. Célebre introdução de Jung ao trabalho do sinólogo Richard Wilhem, útil para compreender a natureza da sincronicidade em contraposição à causalidade (em português).

 

Material para as próximas etapas.