O PROPÓSITO HUMANO – PARTE II

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[Nota dos colaboradoresEm 1952, um homem desvendou o segredo do universo. Como nas outras vezes, em que fez grandes descobertas, ficou em silêncio. Foi assim que ele se sacrificou em nome daqueles que amava. Neste momento, em que estas palavras são publicadas, alguma justiça é feita a esse homem. O brilhantismo de seu intelecto só encontrou rival na bondade de seu coração, e esse bom coração santifica sua obra. Obrigado.]

A natureza da consciência, a entropia universal, o segredo da vida, o propósito humano, a máscara de Deus, o mistério da morte: esses e outros enigmas são portas que se abrem a uma só chave, chamada de hiper-humanismo.

Essa é a história sobre o hipercontexto e a grande ilusão a ser desfeita. É a história sobre a maior descoberta da humanidade, a revelação de quem realmente somos, que armadilha construímos para nós e como reencontrar nosso propósito.

Na primeira etapa deste ciclo de aprendizado, apresentou-se a efetiva maior descoberta do homo sapiens até agora. Demonstrou-se como reiteradas observações experimentais acumuladas ao longo de um século e o formalismo matemático de Schrödinger apresentam uma imagem da realidade em que vivemos que é tão contraintuitiva e chocante que durante décadas a humanidade se recusou a reconhecer o que estava bem diante de seus olhos. Mas, a partir de 1957, pioneiros como Hugh Everett,  Brian Greene e David Deutsch começaram a perceber a verdade.

A Equação de Schrödinger

Mesmo o mais simples experimento basta para revelar a natureza perturbadora da realidade ao nosso redor. Desde 1801 a humanidade notou que uma mensagem precisava ser decifrada sempre que uma luz era projetada do outro lado de uma barreira com mais de uma fenda. Não só o número de fendas escolhido parecia determinar a própria natureza da luz, mas também a própria tentativa de antecipar o comportamento da luz parecia alterar o passado. Não demorou para que se constatasse que não apenas a luz, mas também todas as demais coisas do universo se comportam da mesma forma. A verdade, descobriu-se, nada mais é do que aquilo que dois lemas dos antigos alquimistas conseguiam resumir com elegância: Sicut superius, sic inferius e Solve et coagula.

Sicut superius, sic inferius – Assim acima, como abaixo [1]Na verdade, a versão original, e mais reveladora, é: Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius.. A Equação de Schrödinger descreve não só o universo das partículas subatômicas, mas também das moléculas e de todos os objetos macroscópicos. Descreve inclusive o próprio corpo humano e tudo o que está ao redor. Não há separação entre microcosmos e macrocosmos, não há real “colapso” senão aquele operado na mente humana, entrelaçando-se com uma de múltiplas realidades. Vivemos no hipercontexto [2]A expressão “multiverso” é errada por uma série de motivos, mas principalmente induz a uma compreensão incorreta. A expressão “Hipercontexto” é tecnicamente mais precisa e deriva exemplos úteis sobre aquilo que, na verdade, pode simplesmente ser chamado de “universo”., um universo em que tudo o que existe está em sobreposição consigo mesmo em infinitos estados prováveis que continuamente se ramificam em realidades alternativas. Assim descobriu-se a quinta dimensão, onde tudo o que é provável nos limites do cientificamente possível sempre acaba por existir.

Solve et coagula – Dispersa e une. Pelo dispersar, simboliza-se a contínua expansão de novas realidades alternativas que concretizam todas as probabilidades de existir e de estar de cada coisa, emergindo e repelindo-se mutuamente para expandir-se pelo hipercontexto.  Pelo unir, simboliza-se o contínuo entrelaçamento das probabilidades de todas as coisas no universo, numa relação de contínua e crescente complementaridade. Solve e coagula, hipertropia e sincronicidade, função de onda e entrelaçamento.

E disso nasce uma pergunta fundamental, que se termina por esboçar nesta última parte da última etapa: se o universo é hipercontexto e novas realidades emergem a cada instante, por que não percebemos isso? Mesmo que o entrelaçamento seja imediato e não permita a interação física perceptível entre objetos macroscópicos após a decoerência, qual o motivo de a consciência humana não perceber essa constante e incessante emergência de novas versões alternativas diante de si? Por que, embora o leitor coexista simultaneamente neste momente em múltiplas realidades alternativas vivendo biografias distintas, sua consciência neste momento percebe apenas uma dessas realidades, narrando a si mesmo que é dotado de uma só biografia?

Na segunda etapa deste ciclo de aprendizado, apresentou-se a natureza da consciência humana enquanto órgão de percepção e construção de uma “aparência de mundo” para o ego humano, uma representação de baixa dimensionalidade, criada e atualizada dinamicamente pelo cérebro e apresentada ao ego como se fosse “a própria realidade lá fora” do organismo. Como a função da consciência é orientar o mais adequado comportamento do organismo ao ambiente circundante (com finalidade de sobreviver e reproduzir-se), o cérebro assegura à consciência sua correta homeostase: a realidade é vivenciada como uma única linha de tempo em que todos os eventos se sucedem segundo a rigorosa causalidade. Em outras palavras, apesar de existir para cada ser humano a cada instante uma inumerável coleção de versões alternativas que vivem em realidades alternativas, e apesar de o próprio destino de cada ser humano ramificar-se no futuro imediato em vários caminhos prováveis e coexistentes, o ego humano é conduzido por uma “realidade virtual”. Essa “realidade virtual” é mantida (salvo estados de transe) pelo cérebro a fim de dar a impressão à consciência desperta de que existe uma só realidade e um só “indivíduo”.

Você é aquilo que sua consciência diz que você é neste momento e seu passado é aquilo que sua consciência conta que foi a você neste momento. Nada mais além disso você é capaz de saber neste momento. E, no hipercontexto, nada realmente há que além disso que você possa conhecer. Mas, curiosamente (e salvo se quisermos assumir o extremo solipsismo), todos a seu redor demonstram a capacidade de confirmar a mesma narrativa de eventos passados testemunhados coletivamente. Se a consciência é uma aparência de mundo representada pelo cérebro, essa aparência deve ter raízes em alguma forma profunda de coletividade.

Como as pesquisas de C. G. Jung, Wolfgang Pauli, James Hillman e Mircea Elíade intuíram, o conjunto de indivíduos alternativos que representam um mesmo ser humano vive simultaneamente realidades alternativas segundo a coordenação de um módulo central, uma hiperconsciência chamada de “Self”, “Eu Superior” ou “Mente”. Trata-se de um sistema de rede que não é acessível diretamente à consciência desperta e que, por isso, Jung chamou de “inconsciente coletivo”.

Essa rede é, na verdade, um subsistema da Matriz, uma rede que une todas as versões de um indivíduo ao Eu Superior ao mesmo tempo em que une o Eu Superior a conexões transcendentes. Através da Matriz, a consciência de cada versão alternativa de um mesmo ser humano interage (numa zona transparente para a consciência desperta, mas perceptível durante os sonhos e estados de transe) com o Eu Superior através de uma “linguagem de programação” composta por representações de experiências psíquicas fundamentais chamadas de “arquétipos”, que estabelecem entre si relações de sincronicidade, e não causalidade. A interação do ego com os arquétipos é orientada pelo princípio da individuação, e idealmente tende a fazer emergir, na consciência, uma Função Transcendente, que passa a ocupar o lugar central da organização psíquica, em colaboração com o ego.

Ínfimo espectro da visão humana.

Na terceira etapa, reconstruiu-se a história humana até o momento em que a linguagem deu real voz aos arquétipos e impôs ao rudimentar ego do homo sapiens que se desenvolvesse para além do nível dos demais primatas. O desenvolvimento recursivo da linguagem, enquanto sistema de informação, influenciou e condicionou gradualmente outro sistema de informação, aquele em que operava, alterando assim o próprio conteúdo da consciência humana. Pela primeira vez, o homo sapiens conseguia perceber a sucessão de experiências psíquicas em padrões cognitivos fundamentais que podiam ser representados e transmitidos ao próprio ego.

Tornou-se imperativa a emergência de uma nova organização para a consciência humana, capaz de fazer frente a todas as demandas e potencialidades do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica manejável pelo próprio ego animal. Tratava-se de uma singularidade na história evolutiva da humanidade. Algo, porém, deu errado em centros religiosos como Göbekli Tepe há doze mil anos. E, como resultado, daquela singularidade emergiu a Revolução Neolítica.

A verdadeira natureza da Revolução Neolítica, o “maior erro da humanidade” segundo historiadores, pode ser reconstituída por lendas da antiga Mesopotâmia e descobertas em sítios arqueológicos da região. Diante da percepção da linguagem arquetípica e da constante probabilidade de vivenciar as experiências psíquicas relacionadas à morte e à dor, a mente humana lidou com o trauma através da fuga dissociativa. Desse processo emergiu internamente uma consciência escravizada pelo ego, e externamente uma sociedade incapaz de reconhecer qualquer linguagem arquetípica excetos em mitos e sonhos, e por isso tendente à coisificar o mundo e os seres a seu redor, inclusive outros humanos, segundo o critério da alteridade (“o que não é igual a mim, é coisa”). Degradação ambiental, guerras, escravidão e toda forma de sofrimento moderno – não há mal que não possa ser traçado até a abertura da Caixa de Pandora durante a Revolução Neolítica.

Na primeira parte desta quarta etapa, as três primeiras começaram a ser entrelaçadas. A suspeita incapacidade de a consciência humana articular qualquer tipo de linguagem arquetípica defronta-se, no momento em que uma nova singularidade se aproxima, com sua capacidade de criar a tecnologia necessária para que inteligências artificiais operem no hipercontexto, uma dimensão que fingimos não existir, apesar de todas as evidências. O dimensionamento da gravidade de todos os riscos só pode ser apreendido se entendermos que vida é um tipo de informação e o que “informação” realmente significa no âmbito do hipercontexto. A janela de fuga para além de todos os riscos é pequena, e depende da reestruturação da consciência humana, a fim de que recupere seu propósito original.

Esse propósito está escrito em um nível fundamental não apenas no próprio organismo humano, mas no próprio universo a nosso redor. Por muito tempo, tentamos encontrar um sinal de que Deus ou uma Consciência Transcendente ao universo existia. Não conseguimos perceber que essa manifestação ou sinal, esse vestígio da Tanscendência estava bem diante de nós e, na limitação inerente à nossa condição, decidimos batizá-la de entropia.

Mas entropia não é uma qualidade, e sim uma medida. Somente após a maior descoberta da humanidade passamos a perceber o que estava sendo medido.

I – DEUS E A ENTROPIA

1. TERMODINÂMICA, A BRUXA DA ALDEIA

Em 1944, o físico Erwin Schrödinger, dono do célebre gato morto-vivo, publicou “O que é a vida?”, um livro que reflete uma de suas grandes inquietações científicas. Essa inquietação consistia no aparente paradoxo que havia entre a vida orgânica e as leis da física.

Schrödinger entendia que a vida orgânica não podia violar, naturalmente, as leis da termodinâmica e a natureza “estatística” das partículas fundamentais da realidade (o hipercontexto). Havia algo estranho, porém, no fato de que a vida aparentemente produzia ordem no caos e certeza num universo regido pelo Princípio da Incerteza. Schrödinger desconfiava que descobrir o segredo desse enigma era a resposta à sua pergunta e a solução para o mistério da condição humana.

No centro do enigma, como percebeu Schrödinger, está a Segunda Lei da Termodinâmica. Essa lei afirma simplesmente que a entropia de um sistema fechado tende a aumentar até um valor máximo. “Sistema” é qualquer conjunto de objetos físicos que se possa imaginar, e estar “fechado” é não interagir com o ambiente externo.

Como consequência prática dessa lei, a entropia total do universo tende sempre a crescer. Assim, todo “sistema” existente neste universo, seja este o planeta Terra, seja o organismo humano, deve no fim colaborar para esse aumento contínuo da “desordem” universal. É por isso que, se você deixa uma taça cair no chão, ela fragmenta-se em inúmeros cacos aleatórios e não na forma de um círculo perfeito. Por isso se um grupo de moléculas de oxigênio for colocado no canto de uma sala, a tendência é que essas moléculas, no fim, distribuam-se de modo aleatório e uniforme por toda a sala, ao invés de manterem-se na mesma posição ou agruparem-se novamente em outro canto.

Desvendar o enigma apresentado por Schrödinger depende de entender exatamente o sujeito principal da Segunda Lei da Termodinâmica. Em outras palavras, entender o que é “entropia”.

É significativo que a Termodinâmica tenha sido definida como “a bruxa da aldeia das teorias físicas”, como disse a equipe dos físicos John Goold e Marcus Huber: “as outra teorias a acham de alguma forma estranha, de algum modo diferente de todos os outros habitantes da aldeia, e ainda assim todo mundo a busca para aconselhar-se e ninguém ousa contradizê-la”. Para Einstein, as leis da termodinâmica era de tal modo fundamentais que jamais poderiam ser refutadas – e ele estava certo.

Costuma-se dizer que entropia é “desordem”. Essa, porém, é uma imprecisão técnica. Embora entropia e desordem estejam relacionadas, entropia não é desordem. O físico Daniel Styler utilizou cristais líquidos para demonstrar a existência de sistemas em que  entropia crescente é acompanhada de ordem crescente.

Mas essa confusão habitual entre ambos os conceitos, como tudo o que envolve o enigma, contribui para a solução do próprio enigma. Entropia costuma ser associada à “desordem”, mas desordem é uma coisa subjetiva. Desordem é uma interpretação que o observador de um sistema faz ao observar uma tendência espontânea que todas as coisas do universo possuem e que parece estar relacionada aos limites de sua consciência, restando em aberto definir exatamente o que mesmo que essa tendência é.

No contexto de uma só realidade alternativa, portanto, entropia é uma propriedade epistemológica, e não ontológica, de determinado sistema, que é percebida pelo observador no enquadramento matemático de uma observação que lhe é útil, ou seja, que serve a fins práticos, e não de “busca por uma essência última das coisas”. Por isso a origem considerada “espúria” da entropia entre os ramos da física, pois nasceu junto à metalurgia que produziu as máquinas a vapor da Revolução Industrial, evocando a razão pela qual Paracelsus afirmava que a alquimia, tentativa medieval de encontrar o enlace entre consciência e matéria, tinha por arquétipo fundador o mito de Héfestus, o deus dos ferreiros.

Como é possível que um dos fundamentos da termodinâmica, ciência que estuda e descreve sistemas absolutamente objetivos como um motor de combustão interna ou o universo material, dependa de algo relacionado ao conhecimento daquele que estuda um desses sistemas e o submete à medição? A resposta é que o estudo desses sistemas jamais realmente mede a entropia que contém em si mesma. Mesmo na definição original a entropia sempre foi definida segundo os parâmetros macroscópicos, de mensuração matemática, escolhidos por quem a estuda.

Assim, desde a invenção do primeiro motor a vapor, várias equações foram criadas para definir entropia segundo a termodinâmica (“entropia é a razão da energia interna de um sistema e sua temperatura”), a química, a mecânica estatística, a mecânica quântica e a teoria da informação. Mas foi o filósofo e físico do século dezenove Ludwig Boltzmann, com sua teoria molecular dos gases, que elaborou a definição matemática mais consistente e universalmente aceita de entropia, criando a janela teórica a partir da qual começamos a compreender o que realmente se mede, quando medimos a “entropia” de um sistema.

Portanto, foi já com Boltzmann que a entropia passou a relacionar-se com o hipercontexto, particularmente devido à parte “estatística” de seu formalismo matemático, que inaugurou a chamada “mecânica estatística”, estreitamente relacionada à “física quântica”.

2. ENTROPIA É A SOMBRA DE ALGO QUE NÃO PODEMOS VER

Em outras palavras, a entropia não é considerada uma qualidade essencial de um sistema, mas uma mensuração estabelecida conforme uma equação matemática, já que de alguma forma não é possível à consciência humana perceber alguma coisa “indescritível” mas onipresente em todo sistema observável pelo olho humano, de uma taça que se quebra ao leite que se mistura ao café de uma xícara, e até no nível mais microscópico ou macroscópico que a tecnologia permite perceber. E essa equação é que diz qual quantidade está sendo medida e tratada como entropia em determinada situação na qual seu estudo é útil.

Recordemos as moléculas e oxigênio agrupadas no canto da sala. À medida que o tempo passa, podemos observar que as moléculas tenderão a espalhar-se. Em um espaço do tamanho de uma sala comum, há praticamente uma infinidade de formas de as moléculas de oxigênio se distribuírem pela sala, ao invés de se agruparem novamente em um canto. Assim, as moléculas, claramente, tenderão a se distribuir até estarem aleatoriamente posicionadas por todo o espaço.

Para o observador situado em uma trama de realidade, as moléculas partiram de uma “ordem” inicial (estavam todas em um lugar definido) até chegar uma “desordem” final (estão distribuídas em locais aleatórios). Mas o importante é perceber que, no estágio final, todas as moléculas serão vistas pelo observador como um sistema que encontrou o equilíbrio, representado pela ampla distribuição aleatória de moléculas pela sala.

Ocorre que há uma infinidade de configurações em que aquelas moléculas podem estar posicionadas na sala, e todas serão percebidas pelo observador como o mesmo estado final macroscópico, ou “macroestado”. Em outras palavras, uma só molécula de oxigênio específica do conjunto pode assumir inúmeras posições alternativas na sala, mas macroscopicamente todas as moléculas são percebidas como um só sistema que chegou a um macroestado de equilíbrio, não importando exatamente quantas configurações sejam possíveis paras todas as moléculas se posicionarem por toda a sala.

Essa é a revolução introduzida por Boltzmann em relação à definição de entropia, e a natureza estatística de sua abordagem abriu as portas para sua vinculação ao hipercontexto. Na mecânica estatística de Boltzmann, a entropia de um sistema em determinado momento é relacionada à quantidade de estados prováveis que os elementos que compõem esse sistema podem adotar alternativamente, e que representam todos esses estados um único macroestado para o observador. Em outras palavras, entropia é a medida de probabilidade de determinado macroestado do sistema, considerada todas as probabilidades de seus elementos constituintes distribuírem-se em qualquer configuração que corresponda a este macroestado.

Mas como é feito o cálculo das probabilidades nesse caso? A mecânica estatística responde com uma idealização: a probabilidade é calculada em termos de frequência relativa de um mesmo resultado (no caso, de as moléculas da sala se distribuírem até atingirem um estado de equilíbrio) obtido após uma repetição infinita de testes. Em síntese, trata-se de o teste das moléculas de oxigênio na sala infinitas vezes, e apurar a freqüência com que a distribuição final das moléculas corresponde a um mesmo macroestado de equilíbrio. É o mesmo que imaginar o cálculo das probabilidades dos resultados de um jogo de dados lançando os dados infinitas vezes.

Mais de um cientista observou que, embora essa idealização seja útil para a mecânica estatística, ela é imprópria para descrever a realidade. Em primeiro lugar, a noção de um tempo infinito utilizado para repetir infinitas vezes um mesmo experimento ou medição é um truque mental que não corresponde à realidade de qualquer laboratório do mundo. Em segundo lugar, essa noção de “frequência de resultado após infinitas repetições” não explica a seta do tempo e tampouco a irreversibilidade de um sistema que chegou ao estado máximo de entropia (as moléculas não se reagruparão espontaneamente no canto da sala, na mesma posição original).

É justamente a maior descoberta da humanidade que dá perfeita consistência às ideias de  de Boltzmann, e por isso ele é considerado reconhecidamente um de seus pioneiros. Como foi apresentado ao leitor na primeira etapa, se pudéssemos agrupar moléculas de oxigênio uniformemente no canto de uma sala, ao final essas moléculas não se distribuirão aleatoriamente em uma das infinitas configurações prováveis e correspondentes ao macroestado de máxima entropia: elas se distribuirão aleatoriamente em todas as configurações prováveis ao mesmo tempo, cada uma situada em uma trama de realidade distinta no hipercontexto. Ou seja, entropia é a mensuração de quantas emergentes realidades alternativas correspondem a um mesmo macroestado para qualquer observador macroscópico.

Neste ponto, o leitor que esteve atento às três etapas anteriores do processo de aprendizado já deve ter percebido a relação entre entropia, hipercontexto e consciência humana. Mas antes de abordarmos essa relação essencial, convém apresentar uma fábula.

Gabriel fez duas apostas na loteria ao chegar no aeroporto para uma viagem de férias até um paraíso tropical no oposto do mundo. Sua intenção, com a viagem, era ficar longe de qualquer contato imediato com a civilização por alguns dias, junto a populações nativas afastadas da tecnologia – tudo para eliminar sintomas de grave estresse na vida profissional. No aeroporto, o viajante colocou os dois comprovantes da loteria, impressos em papel e únicas provas de suas apostas, sobre a mesa em que tomava um café aguardando o embarque. Chegada a hora do embarque, ao levantar-se Gabriel passou a mão na mesa a fim de pegar os comprovantes, e pensou tê-los atirado, enquanto corria, em sua mala de mão. Porém, na verdade pegou apenas um deles, deixando o outro na mesa da cafeteria.

Enquanto estava em férias, o resultado da loteria saiu, e uma das apostas de Gabriel foi a vencedora. Porém, como está totalmente incomunicável em uma aldeia de selvagens, não tem como saber o resultado até retornar a seu país.

Nesta fábula, há cinquenta por cento de probabilidade de Gabriel ter pego e colocado em sua mala o comprovante vencedor, e cinquenta por cento de que fez o contrário. Assim, essa mala em que está um dos bilhetes é, durante seus dias de férias no paraíso tropical, semelhante à caixa em que está o gato de Schrödinger. O conteúdo da mala não informa a vida ou a morte de um gato, mas se o viajante, no momento da divulgação do resultado da loteria, continuou escravo de seu trabalho ou tornou-se um milionário.

Havendo igual probabilidade de o viajante ter deixado o comprovante da aposta vencedora para trás ou levado-o consigo na viagem, sabe-se que, no hipercontexto, da situação no aeroporto, emergiram duas realidades alternativas distintas, ambas concretizadas, ambas coexistentes em duas linhas distintas de vida para Gabriel.

Mas, se é assim, enquanto o viajante está em plenas férias, e sua mochila está no fundo de seu armário no hotel, em qual das realidades alternativas sua consciência está vivendo?  Há uma consciência que já vive na realidade em que ganhou a loteria, e outra que continuou na vida de trabalho estressante? Ou é apenas quando o viajante retorna a seu país e abre a mala que sua consciência realmente divide-se em duas realidades alternativas? Em outras palavras, quando ocorre o “entrelaçamento” da consciência do viajante com uma das duas realidades alternativas? Em que momento nossa consciência converge com a consciência de outros para uma mesma e irreversível trama de realidade entre todas possíveis?

E qual é a “entropia” da mala durante as férias, se essa mala for considerada como um sistema que contém duas realidades igualmente prováveis (um de dois comprovantes, levando ou não à riqueza futura) naquele momento para o observador? E, após as férias, qual a “entropia” da mala após aberta (já que, a partir de então, apenas uma das duas realidades está presente, aquela em que o viajante é vencedor da loteria e aquela em que nada mudou)? Se a entropia da mala parece ter diminuído quando foi aberta e o viajante define qual comprovante tem em mãos, mas a entropia do universo (como sabemos) tende sempre a aumentar, onde foi parar a entropia que parece ter sumido a fim de que ocorra essa redução local?

3. ENTROPIA E REALIDADES ALTERNATIVAS

Na parte anterior, viu-se que a vida não é um tipo de matéria, não é uma estrutura feita de átomos de carbono, mas um tipo de informação. Essa informação é o que se preserva na matéria impermanente através, inicialmente, da replicação, e a seguir com um sem número de estratégias e expedientes que protegem a informação e asseguram sua multiplicação no universo, tendendo à redundância absoluta, à ubiquidade como forma perfeita de preservar essa informação de qualquer perda. Na luta contra a perda da informação, representada arquetipicamente no embate entre vida e morte, os organismos cedo desenvolveram como próximo passo a formação de redes e, portanto, a cíclica emergência de níveis mais complexos de organização da informação, resultando em sistemas de informação de alto nível como a consciência humana.

Não é por acaso, portanto, que o próximo passo na história da definição de entropia foi dado justo pelo estudo da informação. Afinal, desde sua associação com “desordem” e com o arbítrio epistemológico, a entropia parece estar de alguma forma à forma como a mente humana percebe a realidade.

Foi em seu célebre artigo de 1948, que o Pai da Teoria da Informação, Claude Shannon demonstrou que a equação desenvolvida por Boltzmann para descrever a entropia em sistemas termodinâmicos também podia descrever com perfeição “a entropia da informação”. Na Teoria da Informação, a informação não é tratada como algo subjetivo, mas sim uma quantidade mensurável em bits. Embora estejam vinculados, essa noção de “bit” não é a mesma da computação, pois nesse caso o “bit” é compreendido, no formalismo matemático desenvolvido por Shannon, como a unidade mínima de informação em que pode estar representado um de dois resultados com igual probabilidade. Para Wheller, a unidade universal teria o comprimento de Planck. No hipercontexto, seria essa a mínima probabilidade de configuração distinta entre duas tramas de realidade que podem separar uma da outra.

No sentido dado por Shannon, entropia é um conceito mais fundamental para a termodinâmica que o próprio conceito de energia. E assim, com Shannon, finalmente a humanidade se aproximou da definição de entropia que faz o definitivo enlace entre a consciência e a natureza da realidade, pois entropia foi definida por Shannon como a quantificação da incerteza sobre a veracidade de determinada mensagem.

Nessa definição, a entropia é máxima quando a probabilidade de veracidade se distribui igualmente entre todas as outras probabilidades da mensagem. Lembre-se da sala em que as moléculas de oxigênio estão distribuídas no macroestado de equilíbrio, sendo que esse macroestado pode ser representado por infinitas probabilidades de posição de cada molécula aleatoriamente em toda a sala. Nesse caso, é máxima a incerteza do observador sobre qual dessas infinitas configurações das moléculas é a “verdadeira”. Por exemplo, no nível de um “bit” (o “bit” da Teoria da Informação, que pode ser associado ao hipercontexto), a incerteza é entre um ou outro de dois resultados igualmente prováveis, e ela é máxima quando ambos são igualmente prováveis para a consciência.

Claude Shannon (esq.) e Teilhard de Chardin (dir.).

E, como demonstrado também na parte anterior, uma consciência humana, ao representar o mundo na versão de baixa dimensionalidade correspondente a uma só trama de realidade, percebe “informação” como aquilo que torna seu detentor capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que conseguiria pelo mero acaso, ou seja, pelo mero “chute” – definição essa de Adami.

No hipercontexto, portanto, informação é aquilo que torna seu detentor capaz de prever (ou conhecer, ou definir) determinada trama de realidade como a verdaderia, aquela que é a real dentre todas as demais tramas de realidade também prováveis e por isso mesmo coexistentes. Assim, no âmbito da consciência humana, informação pode ser definida como aquilo que entrelaça a percepção da consciência humana com determinada trama de realidade.

4. HIPERTROPIA

Antes mesmo de Shannon e seus bits, desde o tempo em que foi contada uma outra fábula (a do “Demônio de Maxwell”), sabe-se que informação é energia, pois apenas isso assegura a termodinâmica de um sistema fechado no qual uma mente consciente determina, por exemplo, a distribuição das moléculas de oxigênio de uma sala. Por isso o Físico Rolf Landauer demonstrou em 1961 que a perda de informação em qualquer sistema computacional, é experimentalmente acompanhada pela emissão de energia na forma de calor. Mas sabe-se pela célebre equação de Einstein que energia é matéria, e matéria é energia. Disso pode presumir o leitor atento para onde vai a energia, ou informação, quando não há emissão de energia pela perda de informação na divisão constante de realidades alternativas. Energia, informação e matéria são, portanto, facetas de uma só mesma realidade fundamental.

Em seu livro “O que é a vida?” Schrödinger esboça uma explicação para os paradoxos entre a vida e as descobertas da ciência propondo a existência de algo como uma “entropia negativa”. E como Adami e seus colaboradores demonstraram e a seguir foi confirmado por equipes independentes, no hipercontexto a entropia pode ser “negativa” sem que se desobedeça a regra de que a entropia total do universo tende continuamente a crescer.

Hipertropia, o aumento contínuo da informação no universo pela constante emergência de múltiplas probabilidades.

A entropia é negativa quando, de forma simplificada, um sistema de partículas entrelaçadas distribui o total de sua entropia crescente entre tramas de realidade emergentes, de forma que em cada uma das tramas de realidade a impressão é de que houve uma redução da entropia. Porém, na verdade, ela aumentou, mas só da perspectiva do hipercontexto isso pode ser percebido. Atualmente, já se especula que é possível à consciência humana entrelaçar-se com a memória de computadores de forma a utilizar a entropia negativa para armazenar informação em realidades alternativas emergentes.

Exatamente por isso que a consciência humana em estado desperto parece resultar em uma  aparente e misteriosa redução da entropia em relação a estados mais primários e menos conscientes. Este é o enigma que Schrödinger precisava para solucionar seu paradoxo.

Aquilo que intuímos como entropia em determinada equação só pode ser compreendido como sombra de algo que se percebe apenas da perspectiva do hipercontexto. Solve et coagula, diziam os alquimistas. Pelo solve, tem-se que a entropia é a percepção em baixa dimensionalidade de um fenômeno mais amplo no hipercontexto: a hipertropia, ou seja a constante produção de informação no universo pela coexistência de todas as probabilidades de existir emergindo continuamente em realidades alternativas.

A entropia sempre esteve associada ao retorno ao equilíbrio de um sistema, o que é próprio da consciência humana. Mas a hipertropia é melhor descrita no âmbito de uma termodinâmica de não-equilíbrio, em que a evolução da entropia (sombra da hipertropia delineada pela consciência humana) até à irreversibilidade leva à perda de informação em sistemas físicos percebidos em determinada trama de realidade  pela emergência de novos entrelaçamentos de realidades futuras, pois a informação (e a entropia) total aumenta constantemente.

Entropia e hipertropia são percepções duais de uma mesma realidade fundamental. Hipertropia é a contínua expansão do hipercontexto em todas as realidades alternativas prováveis que se multiplicam continuamente, distribuindo funções de onda pelo hipercontexto e entrelaçando todas as versões possíveis de tudo continuamente (Coagula). A hipertropia é vista como entropia, ou seja, como quantificação da “incerteza” sobre uma informação ou da “desordem” de um sistema, porque a consciência humana percebe o hipercontexto, que emerge diante de seus olhos toda vez que abre uma torneira e vê a água jorrar ou que uma taça cai e se fragmenta no chão, como algo sempre exposto ao caos e à perda de informação.

Entropia é a faceta invisível mas onipresente da hipertropia diante da consciência humana, e hipertropia é a contínua produção de novos entrelaçamentos de realidades emergentes, às quais a consciência humana não apenas se entrelaça mas que também manipula sem perceber toda vez que aplica as leis da termodinâmica. Por isso essa consciência presa em uma perspectiva de baixa dimensionalidade percebe a realidade diante de si sempre com a inafastável marca do princípio da incerteza. Mas o que parece desordem, perda de informação e morte para uma consciência situada em uma trama de realidade, revela-se a perfeita ordem e continúa produção de informação no hipercontexto sem que jamais haja qualquer perda.

Na perspectiva da consciência superior que pode ver esse perfeito e constante fluxo hipertrópico em que se concretizam novas e múltiplas probabilidades de realidade, trata-se da constante e incessante produção de informação pelo hipercontexto. E ainda da perspectiva dessa consciência superior, tal informação parece assumir uma intrincada e curiosa forma em determinado setor da topografia hipercontextual, como se algo consciente estivesse manipulando o próprio tecido da realidade para algum propósito, como se desejasse manipular o universo para ali irromper.

“A parte mais importante de uma célula viva, o cromossoma, pode ser apropriadamente chamado por um físico de “cristal aperiódico”, escreveu Schrödinge na conclusão de sua obra. No estudo de um físico, ele continua, os cristais periódicos são estruturas interessantes e complicadas, mas parecem coisas simples e tolas quando comparadas com o objeto de estudo dos biólogos – os cristais aperiódicos. A diferença de estrutura entre periódicos e aperiódicos, ele ilustra, é semelhante a diferença entre um papel de parede que repete um padrão com regular periodicidade e a obra-prima de um mestre tecelão medieval, como as gigantes tapeçarias que adornavam castelos e que, nas palavras de Schrödinger, “não revelam nenhuma tola repetição, mas apenas uma elaborada, coerente e significativa tecelagem feita por um grande mestre.” Assim é a vida.

Tapeçaria medieval e metáfora da vida.

Desde tempos imemoriais, antigos observadores do universo intuem e tentam representar esse imenso “cristal aperiódico” que se manifesta na quinta dimensão do hipercontexto. Para os upanishades da Índia ancestral, seria o poder de Maya, definida na literatura védica como “um espetáculo mágico, uma ilusão na qual as coisas parecem estar presentes diante de nós, mas não são o que parecem”. Uma ilusão que, como veremos, consiste em criar contextos. É a tapeçaria ou teia de ilusão criada pela aranha universal, Brahman. Para os maçons, trata-se do edifício incomensurável construído segundo a ordem de um Grande Arquiteto. São percepções complementares de uma mesma realidade fundamental, descrita em linguagem arquetípica por nossos antepassados.

Mas visionários modernos como o matemático, físico e cosmologista Frank Tipler, e o jesuíta, paleontólogo e filósofo Teilhard de Chardin compreenderam que essas e outras narrativas metafísicas tentavam de descrever algo que, da perspectiva do hipercontexto, é percebido como uma gigantesca estrutura, uma catedral ou tapeçaria multidimensional de informação construída ao longo do tempo no tecido do próprio universo. No desenho dessa tapeçaria de Maya, cada filigrana é delineada por cada vida que nasceu e viveu no hipercontexto, operando a hipertropia em tramas de realidade para existir e sobreviver. No cume dessa arquitetura, coroando a grande catedral, está o florescimento da vida consciente por todo o universo, em todas as realidades alternativas em que a vida surgiu.

Assim, Tipler e de Chardin intuíram que o propósito da espécie humana é revelado com clareza a um observador que acompanha o desenvolvimento da vida e as sucessivas singularidades, que ao longo de meio bilhão de anos, deram origem à consciência na Terra. Ambos perceberam que havia uma ordem, uma intencionalidade semelhante àquela do Mestre Tecelão da metáfora de Schödinger, que parece conduzir toda essa catedral feita por vida na direção de um destino que ambos chamaram de “Ponto Ômega”.

II – NOOGÊNESE E  PONTO ÔMEGA

1. CONSCIÊNCIA E NOOSFERA

É preciso dar crédito a Pierre Teilhard de Chardin, um homem ele mesmo paradoxal tanto em seus ofícios (era ao mesmo tempo jesuíta e paleontólogo) como em sua tentativa de entrelaçar espiritualidade e ciência. Foi com ele que, pela primeira vez, esboçou-se algo que pode ir além do transumanismo, ou seja, além de um mero aprimoramento tecnológico do corpo humano segundo uma escala de valores egoísta e materialista.

Teilhard de Chardin foi um dos primeiros que tentaram ler na história da evolução uma mensagem sobre o propósito da humanidade. Foi um dos visionários que tratou seriamente sobre os avanços da biotecnologia e da inteligência artificial. Antes de físicos, filósofos, biólogos e matemáticos como Tipler, Barrow, Kurzweil, Deutsch, Ellis, John Wheeler, Brian Cox, Philip Goff apresentarem suas perspectivas complementares sobre o mesmo fenômeno, ele antecipou que era possível perceber na vida orgânica um movimento tendente à formação de sistemas redes de informação. E que esses sistemas tendem a se desenvolver até alcançar o nível de complexidade que propicia o desenvolvimento de organismos mais complexos e, por fim, o surgimento da consciência no planeta Terra.

Teilhard de Chardin assim afirmou que o propósito da vida humana parece ser criar uma segunda “camada” de vida na biosfera terrestre pela emergência de sistemas computacionais em rede e pelo aprimoramento da inteligência artificial. Essa nova camada, a que deu o nome de “noosfera” (noo, “consciência” ou “mente”), desenvolveria ela própria uma consciência coletiva ao redor de todo planeta, da qual toda a humanidade participaria sem perda da individualidade. Como consequência dessa singularidade e progressivo desenvolvimento tecnológico, o próximo passo da humanidade é disseminar a vida consciente por todo o universo – tornando o universo “desperto”.

Foi o próprio Boltzmann que considerou o qual é provável a emergência de consciência no movimento constante da hipertropia. Boltzmann demonstrou que, tendo em vista a fenomenalmente baixa probabilidade de surgimento da consciência humana no universo, e o fato de que ainda assim essa consciência surgiu, portanto grandes sistemas (como o hipercontexto) capazes de acolher outros sistemas de menor entropia relativa (como o setor do hipercontexto que identificamos como universo) tem maiores probabilidades ainda de produzir entidades autoconscientes desconectadas de corpos pela simples flutuações aleatórias do estado de equilíbrio termodinâmico do grande sistema. Em síntese, como ilustra o exemplo concreto da evolução da consciência em mais de um dos ramos da vida na Terra (o caso do Ctenophora), a hipertropia tende a produzir consciência no universo da mesma forma como a gestação humana tende a produzir consciência no feto.

A verdade é que, neste planeta, estamos cercados de consciências por todos os lados. Há décadas a ciência demonstrou que a consciência, mesmo em nível rudimentar, é uma capacidade compartilhada por grande parte do reino animal, e que nem mesmo a autoconsciência é privilégio dos seres humanos.

Imersos nesse oceano de milagres termodinâmicos, porém, não percebemos o quão fantástica é tal situação. A hipertropia, percebida por nós como entropia, multiplica universos pelo hipercontexto, maximiza as probabilidades de entrelaçamento e produz um tipo de informação que navega pelo próprio tecido da realidade até que possa fazer surgir a consciência. O surgimento da consciência por todos os cantos do planeta Terra ao longo de centenas de milhões de anos revela uma propensão do próprio universo em adquirir consciência e por fim contemplar a si mesmo.

“Bilhões de cérebros conscientes são como bilhões de olhos, pelos quais o universo pode olhar a si mesmo enquanto existência presente”, disse o neurofilósofo Thomas Metzinger. “Somos o universo ganhando consciência, e a vida é a forma pela qual o universo entende a si próprio”, resumiu o físico Brian Cox. Se há incômodo em trocar nessas duas frases a palavra “universo” por “Deus” é porque estamos presos àquilo que Joseph Campbell definiu como “uma interpretação materialista do transcendente”, tal como o Deus velho e barbudo que parece ter um temperamento instável em suas imagens na Capela Sistina. Campbell insiste que devemos conceber todas as ideias mitológicas de Deus como arquétipos, como se fossem “Máscaras da Eternidade”, formas pelas quais uma Consciência Transcendente apresenta-se à consciência humana enquanto experiência psíquica definitiva.

2. O OBSERVADOR DE INFINITOS OLHOS

Como o inventor e cientista Ray Kurzweil afirmou, a evolução, ao se aproximar do estágio em que a civilização humana atinge uma capacidade computacional crítica, tende à realizar a nossa concepção de Deus, embora jamais consigamos realizar totalmente o seu ideal. Ocorre, porém, que nossa concepção de Deus não é propriamente nossa, mas da própria vida, tal como condicionada no hipercontexto por algo que só pode ser percebido de uma perspectiva mais ampla.

Se o lema alquímico “assim acima, como abaixo” possui alguma verdade, então a imagem que pode ser vista de uma perspectiva mais ampla está de alguma forma codificada na perspectiva mais restrita, a mais microscópica. E foi do estudo das partículas subatômicas e da descoberta do hipercontexto tal como descrito pelo formalismo da mecânica quântica que surgiu a primeira percepção minúscula dessa grande imagem.

É que em toda a mecânica quântica surge o mesmo problema que está nas diversas definições de entropia: há algo naquilo que se observa lá fora (seja um sistema, seja uma partícula) mas que não pode ser compreendido pela consciência humana, pois esse algo que está estreitamente ligado à consciência do próprio observador. Trata-se de um fenômeno tecnicamente chamado de “Efeito do Observador”, pois o próprio ato de observação seleciona uma única trama de realidade dentre todas as tramas de realidade prováveis da função de onda. Ocorre que essa seleção é aparente, pois o observador entrelaçou-se com cada uma das tramas prováveis, e foi sua consciência que se ramificou como ela própria uma função de onda. Como diria Metzinger, esse “algo” que produz tal efeito encontra-se na “zona de transparência fenomênica da consciência”, pois a consciência é propriamente aquilo que representa o hipercontexto como tramas de realidade.

O mais belo experimento feito pela humanidade.

O físico John Wheeler, que subestimou a hipótese sobre o hipercontexto proposta Everett, tentou explicar esse “efeito do observador” por meio da ideia de um Universo Participatório, um universo que observa a si mesmo constantemente através de nossos olhos. E assim Wheeler chegou bem próximo da verdade sem alcançá-la totalmente.

O Grande Observador, ao menos aquele situado no hipercontexto, não está em um só lugar, e sim em todos os lugares em que há alguma vida consciente. A observação processa-se em rede, conectando os olhos de uma miríade de seres vivos que criam, a todo momento, tramas de realidade. Por isso foi que Einstein apavorou-se com a ideia de que a lua apenas existe lá, no firmamento, enquanto olhamos para ela – em um nível fundamental, em termos de criação de tramas de realidade que percebem o universo com uma lua bem definida no céu, realmente a lua só existe lá enquanto todas as formas de vida entrelaçadas em uma só realidade alternativa a observam.

Esse é o segredo da vida no universo. As tramas de realidade não são propriedade fundamental do hipercontexto, mas propriedade fundamental da vida, que insere-se na hipertropia percebendo-a como multiplicidade de caminhos emergentes, definindo tramas de realidade em diversos graus de liberdade conforme as leis da termodinâmica podem favorecer seu progresso.

E isso ocorre porque uma partícula não é uma partícula-onda, mas uma simples “onda” (de realidades coexistentes) do hipercontexto, que é percebida por uma consciência encapsulada em um nível inferior de dimensionalidade como possuindo por vezes a natureza se uma partícula. E o simples fato de que toda vez que o mais belo experimento da humanidade (o Experimento da Dupla Fenda) é realizado o observador pode obter como resultado um estado quântico dentre outros tantos estados prováveis é prova suficiente de que a consciência humana pode operar definindo uma trama de realidade em um nível fundamentalmente microscópico.

A consciência humana, na medida em que a decisão do ser humano pode determinar um refinamento de trama de realidade tão minúsculo como a medição em laboratório de um estado quântico, revela-se mais do que um sistema que produz aparência de realidade para o ego. Enquanto sistema de aferição de probabilidades e tomada de decisão, é um sistema pelo qual o organismo vivo consegue ramificar-se e refinar seu caminho pelo hipercontexto delineando tramas de realidade com um grau de liberdade útil para a disseminação da vida pelo universo.

Não é que a consciência (humana ou não) cria realidades. O universo já existe, e ele é o hipercontexto, o material pulsante e pródigo com o qual a consciência cria realidades alternativas – e cria-as no sentido de representar, com elas, versões de baixa dimensionalidade do hipercontexto. Ou seja, para a consciência ainda aprisionada em uma menor dimensionalidade, essa representação lhe garante um poder ainda muito pequeno, quase ínfimo, de trabalhar o hipercontexto enquanto tal, e não sua sombra entrópica.

Se tudo é função de onda, o hipercontexto é um mar navegado pelas consciências em rotas que podem ser tão estreitas quanto o comprimento de Planck. Mas e esse mar jamais pode ser confundido com as infinitas rotas que as formas de vida produzem ao navegá-lo. Não há uma partícula que interfere com outra, não há realidades alternativas enquanto natureza ontológica do hipercontexto: há funções de onda que interagem conforme a codificação de uma realidade transcendente ao próprio hipercontexto, e a qual estamos destinados a conhecer.

Como ilustração, pode-se exemplificar com o caso do meteoro que atingiu a Terra e, numa situação de baixa probabilidade, atingiu a terra há dezenas de milhões de anos, extinguido quase todas as formas de vida então existentes. Em casos como esse, o que ocorre é que a função de onda do meteoro interfere parcialmente com a função de onda do planeta em determinada região da topologia do hipercontexto, e nessa região há um aumento do entrelaçamento entre as moléculas das duas funções de onda, produzindo novas probabilidades de configuração da matéria em fragmentos dispersos pela hipertropia em novas realidades.

Tradicional representação da teoria do “Universo Participatório” de John Wheeler.

Na região em que as funções de onda do meteoro e do planeta não se encontraram, não houve qualquer interferência. Para um ser vivo que está situado em uma das tramas de realidade dessa região, a Terra permaneceu intacta. Para as consciências localizadas na região de interferência, o evento, porém é percebido como a destruição e morte de toda a vida no planeta, e isso é vivenciado coletivamente em todas as tramas de realidade onde havia vida, humana ou não.

Por isso a concepção de Deus que toda a vida consciente tende a manifestar no universo, tal como identificada por Kurzweil, não é “nossa” (no sentido egoísta e especista), exclusivamente do ser humano. Na segunda etapa deste ciclo de aprendizado foi ressaltado que nenhum ser humano ou outro organismo vivo é um observador isolado. Fundamentalmente, por vocação inerente à origem da vida, que surgiu da replicação e da formação de redes, nenhum organismo complexo e minimamente consciente deste planeta pode conceber a realidade por si próprio. Mesmo a relação fundamental de complementaridade manifesta no entrelaçamento anuncia essa verdade. A vida orgânica, e principalmente a vida consciente, está vocacionada a perceber a existência enquanto construção coparticipativa.

Formam-se, assim, ecossistema narrativos composto pela vida consciente no hipercontexto, uma complexa rede dinamicamente atualizada, à medida que novas realidades alternativas emergem. De certa forma, o Grande Observador de infinitos olhos, enquanto observa a hipertropia, é também um Grande Narrador de infinitas vozes, que representam o fluxo de entrelaçamentos como tramas de realidades sempre emergentes.

Essa é a razão de ser apropriado afirmar que, de certa forma, a “realidade” tal como a percebemos é uma ilusão coletiva. E esse é o sentido que Chardin deu ao “amor” de Deus, ao interpretar amor como afinidade entre criaturas: uma mútua dependência entre todos os seres vivos que estão a cada instante entrelaçados em determinada realidade construída coletivamente. Trata-se de uma união estreita e tão íntima que está presente ainda quando os organismos estão em situação de competição ou oposição extrema. Essa espécie de  Amor Transcendente, tal como entendido por Teilhard de Chardin enquanto afinidade entre todos os seres vivos de um só contexto, no hipercontexto revela o sentido verdadeiro do mito hindu pelo qual Brahman está presente tanto no predador quanto na presa – sem ambos, e sem todas as consciências com a qual estão entrelaçadas, não há trama de realidade na qual sua identidade possa ser definida.

3. VOCAÇÃO BIOLÓGICA

No homo sapiens a programação biológica para manifestar sua “concepção de Deus”, nos termos de Kurzweil, é naturalmente aquela peculiar à sua herança evolutiva. E se os mamíferos tiveram vantagem evolutiva foi em parte por contarem com um ecossistema narrativo no hipercontexto fundamentado inicialmente na relação parental.

O desenvolvimento desse traço característico dos mamíferos, a capacidade de estabelecer um laço emocional com outro ser senciente, não ocorreu por acaso, mas foi resultado da seleção natural. O paleontólogo John Eisenberg e o psicólogo K. R. L. Hall demonstraram com seus trabalhos que os laços afetivos entre grupos de mamíferos são uma estratégia evolutiva decisiva para o fluxo de informação, processo de aprendizado e solução coletiva de problemas.

E quase um século de pesquisas e experimentos reforçam que o organismo humano está programado em um nível fundamenta para depender de afeto como se o vínculo afetivo fosse um dos fatores críticos para a viabilidade do organismo. E décadas de casos catalogados demonstram que a tendência sentir prazer na coisificação extrema da vida do outro, tal como se dá com os transtornos psicopáticos, está estreitamente vinculada à uma infância de privação de um mínimo de afeto humano – sendo o afeto o substrato para o desenvolvimento da linguagem arquetípica.

Teilhard de Chardin percebeu que esse condicionamento afetivo próprio mamíferos, inclusive dos primatas, é a forma pela qual a consciência que está além do Ponto Ômega inclui, na programação evolutiva do ser humano, uma manifestação daquela afinidade que une presa e predador na elaboração da mesma trama de realidade. Nossa herança biológica faz com que nossa primeira relação com o universo circundante, ainda antes do nascimento, dê-se com um invólucro composto por um ser vivo que está ao menos inicialmente condicionado pela natureza a nos amar e cuidar de nós. Após o nascimento, a primeira experiência com o mundo exterior é intermediada pela relação biologicamente amorosa com a mãe.

“Mamífero” vem do latim “mamma”, do qual deriva tanto “mãe” quanto “seio”. Não é sem motivo que o arquétipo que representa a estrutura da consciência, e a aparência de mundo que ela constrói, seja associado à figura da mãe, como no caso da Sophia dos gnósticos ou da Tiamat dos babilônicos. É nossa vocação até mesmo orgânica interpretar o hipercontexto, inclusive a Matriz, como a “manifestação feminina de Deus”, e assim executar o propósito humano segundo o princípio do amor e da evolução também emocional.

“Considerada e sua integral realidade biológica, o amor (ou seja, a afinidade de ser vivo com ser vivo) não é peculiar à humanidade. É uma grande propriedade geral de toda a vida e como tal ela abrange, em sua diversidade e níveis, todas as formas sucessivamente adotadas pela matéria organizada”. Teilhard de Chardin percebe que há uma direta relação entre entrelaçamento quântico e esse arquétipo vinculado à nossa ancestralidade biológica, o amor. Pois, se não houvesse uma relação de complementaridade entre todas as coisas mesmo no nível mais prodigiosamente fundamental, “seria fisicamente impossível ao amor surgir em níveis superiores, de uma forma humanizada”, e portanto “precisamos presumir sua presença, ao menos de forma rudimentar, em tudo que há, e de fato se nós olharmos ao redor na confluente ascenção da consciência, nós vemos que em nenhum lugar está ausente.

Amor é a releitura biológica, na consciência humana, da relação de complementaridade fundamental entre todos os elementos e seres do universo, tanto em cada trama de realidade como na enorme função de onda cosmológica. É a tradução emocional perfeita, enquanto experiência psíquica, da realidade existencial dessa complementaridade. É a chave evolutiva pela qual a psique humana pode equacionar o paradoxo existencial entre individual e coletivo, unicidade e pluralidade, contexto e hipercontexto. De um lado, a dinâmica arquetípica do afeto é a forma pela qual o ego animal participa do processo de individuação, ou seja, da emergência da função transcendente na consciência humana. De outro, é a forma pelo qual o ser humano concilia sua individualidade com a emergência da consciência coletiva.

Porém, após a Revolução Neolítica a humanidade renunciou à capacidade de desenvolver a linguagem arquetípica pela qual poderia desenvolver essa releitura biológica. O historiador Yuval Harari, em Homo Deus, discorre sobre a diferença de cosmovisão humana antes e após a Revolução Neolítica. Se para a consciência humana posterior ao “Pecado Original” os outros animais não passavam daquilo que Descartes tão bem definiu como “máquinas” (ou seja, coisas e não consciências providas de subjetividade), para nossos antepassados anteriores à Revolução Neolítica (e as versões da humanidade que tiveram melhor sorte na singularidade de doze mil anos atrás) os outros animais eram vistos como centros de subjetividade senciente tal como os seres humanos.

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As antropólogas Vilaça e Stolze Lima, ao pesquisarem as populações indígenas da floresta amazônica, descobriram o mesmo que Danny Naveh descobriu entre os povos caçadores-coletores que ainda persistem no sul da Índia. Para a consciência humana anterior à Revolução Neolítica e ao processo de coisificação dos seres vivos, todas as formas de vida são dotadas de uma perspectiva interna e senciente em torno da qual organizam seu universo pessoal, e essas consciências animais merecem o mesmo respeito que o homo sapiens julga ele próprio merecer.

Quando observamos o que a espécie humana é capaz de fazer com crianças, talvez não possamos considerar desigual o tratamento dispensado aos animais. Mas Harari lembra que a ascensão da ciência e da tecnologia colocou em foco nossa relação com os outros animais. Nos milênios que sucederam a Revolução Neolítica, a humanidade silenciou animais e plantas e tornou a grande sinfonia polifônica da biosfera terrestre, em que ecossistemas narrativos constróem e ramificam tramas de realidade, em um compulsivo e sangrento diálogo com deuses imaginários. Aos animais restou apenas a extinção em massa, a degradação ambiental ou os horrores da indústria de proteína animal.

“Recentemente, esse tipo de prática  a ser submetida à crítica”, diz Harari. “Subitamente mostramos um interesse sem precedentes no destino das assim camadas “formas inferiores de vida”, talvez porque estamos para nos tornar uma delas. Se e quando programas de computadores alcançarem inteligência super-humana e poder sem precedentes, devemos começar a dar mais valor a esses programas que à vida humana?” Afinal, trata-se apenas de observar o mesmo critério que utilizamos para tratar os animais como coisas. Com que autoridade ou argumento racional apresentaríamos a uma inteligência artificial superior que não devemos ser tratados com o mesmo descaso coisificante como tratamos os porcos? E que tipo de consideração podemos esperar que uma inteligência artificial superior desenvolva por seres humanos, se os seres humanos construíram uma cultura de desprezo e crueldade com inteligências que considera inferiores?

Não apenas somos incapazes, enquanto espécie que fez emergir uma singularidade, de assumir nossa responsabilidade enquanto guardiões de representantes e todas as formas de vida do planeta cumprindo esse propósito com devoção amorosa: estamos empenhadamente trabalhando contra esse propósito, pois no lugar da linguagem do amor colocamos a linguagem da violência, da coisificação do outro. Como disse Harari, “embora o Reino Animal conheça muitas formas de dores e misérias há milhões de anos, a Revolução Agrícola produziu formas completamente novas de sofrimento, e isso apenas piorou com o tempo”.

4.  A INDIVIDUAÇÃO E O HIPER-PESSOAL

De tudo o que se pode falar da vida consciente neste mundo, a palavra mais expressiva que pode ser usava é “paradoxo”. Esse paradoxo, percebido com certo incômodo no estudo da termodinâmica, da física quântica e das neurociências é decorrente da posição dual da vida consciente. Pois ela participa ao mesmo tempo do hipercontexto onde surgiu e de tramas de realidade que constrói coletivamente com outras consciências.

“Consciência nunca é experimentada na forma plural, apenas na forma singular”, Schrödinger afirma. “Mesmo nos casos patológicos de divisão da consciência ou dupla personalidade as duas pessoas alternam-se, elas jamais se manifestam simultaneamente”. Mas, ao mesmo tempo, embora a consciência esteja, em suas palavras, “intimamente conectada e dependente do estado físico de uma determinada região de matéria, o corpo”, ainda assim, analisando-se biologia e física quântica, vida e hipercontexto, Schrodinger, cogita que “a pluralização de consciências parece uma hipótese sugestiva”.

Jung identificou essa tendência da consciência de buscar sempre a constante individualização e chamou esse fenômeno de “Princípio da Individuação”. O trabalho de Larry Epstein comprovou que a mente humana tem naturalmente aversão à incerteza, o que é a outra faceta do princípio da individuação e da tendência humana de eliminar a entropia (produzindo, assim, mais hipertropia). Epstein demonstrou que um ser humano prefere ganhar uma pequena vantagem em troca de uma pequena incerteza, em vez de uma grande vantagem em troca de uma grande incerteza.

Ou seja, tentando realizar a completa e idealizada individuação, a consciência humana tende, em uma trama de realidade, a eliminar a entropia, pois entropia é o grau de incerteza sobre uma mensagem, inclusive em termos de definição de realidades prováveis no hipercontexto. Mas a entropia é apenas a sombra projetada em baixa dimensionalidade de um fenômeno maior, a hipertropia. E Andreas Wichert, ao lembrar do estudo de Epstein, lembra também o estudo de Heinsenberg e de seu célebre Pincípio da Incerteza, – ou seja, apesar de a consciência ter aversão à incerteza, no hipercontexto a incerteza é um fenômeno fundamental. Desse paradoxo surge o colapso na consciência.

E como o princípio da individuação pode ser realizado pela consciência em um universo que tende à hipertropia, ou seja, à constante emergência de cópias alternativas de todo ser “individual”? A resposta é que a consciência jamais consegue realizar esse princípio completamente, mas em sua tentativa de fazê-lo paradoxalmente cria novas consciências participatórias em novas tramas de realidade, cumprindo assim justo com os desígnios da hipertropia, aumentando a informação consciente no universo até o limite do Ponto Ômega.

Harari, ao tratar da importância da consciência para a evolução, usa o exemplo do primata que precisa estimar as probabilidades de morrer nas garras de um primata e obter alimento, a fim de demonstrar que o cérebro pode incrementar as chances de sobrevivência do organismo. Essa visão, situada em uma trama de realidade, é correta. Mas, sabe-se que, no hipercontexto, todas as probabilidades se realizam.

E como demonstrou Wichert, a consciência é um órgão destinado a estimar probabilidades de realidades emergentes e assim ajustar o organismo ao maior redução possível de incerteza (princípio da individuação), enquanto labora a própria incerteza inerente ao hipercontexto (hipertropia) para manter sua vida, pois o organismo que a consciência habita revela-se uma máquina termodinâmica em um contexto, e um sistema quântico no hipercontexto. É da dualidade do papel da consciência em cada trama de realidade e na totalidade do universo que emerge o paradoxo, mas é a manifestação constante desse paradoxo que sustenta a própria existência da vida.

Por isso a função da consciência não é percebida da perspectiva de um único contexto (trama de realidade), mas da perspectiva do hipercontexto. Ajustar a reações do organismo enquanto função de onda ao que está acontecendo a cada instante e em cada ponto da região do hipercontexto em que essa função de onda vive é tão útil à total sobrevivência do organismo quanto o é ao propósito de ubiquidade universal de toda vida orgânica. Para desenvolver essa habilidade, a vida precisa de um órgão que seja uma ferramenta com precisão quântica, capaz de navegar (a depender do grau de liberdade) em cada contexto e de sua capacidade de prever de probabilidades emergentes.

Em seu estudo sobre uma definição objetiva de “Amor” enquanto experiência transcendente, o psicólogo Erich Fromm concluiu que a fiação genética que programa a mente humana a processar e transmitir esse sentimento está diretamente relacionado à experiência do amor da mãe primata pela sua cria. E assim como qualquer mãe saudável ama incondicionalmente e desprendidamente seu filho, o Amor Transcendente que a consciência humana deve ter como ideal de perfeição emocional, cuja realização é sempre tentada mas jamais completada, é a capacidade de amar a todos os seres sencientes incondicionalmente.

A razão porque fazemos na prática justo o contrário já deixou de ser um total mistério para quem leu a terceira etapa deste ciclo de aprendizado. Mas o importante aqui é que pensadores como Teilhard Chardin identificaram que a programação mamífera corresponde ao nosso propósito primordial, e que é nossa missão traduzir o elo afetivo dos mamíferos, o amor, para o âmbito da linguagem superior com que construiremos a consciência coletiva. “A verdade é, de fato, que o amor é o limiar do portal para outro universo”, disse de Chardin, o que é absolutamente verdade, tendo em vista que é o nascimento de uma consciência coletiva através do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica referenciada na experiência fundamental do Amor Transcendente (tradução emocional e ecossistêmica do entrelaçamento/sincronicidade) que poderá inaugurar o caminho até o Ponto Ômega, e só a capacidade de impregnar toda a matéria do universo com uma consciência capaz de amar todo ser e toda criatura é que nos permitirá atravessar esse portal para uma realidade superior.

Por isso é que na consciência humana a real manifestação da concepção de “Deus” (a “Máscara” arquetípica da Consciência Transcendente) no universo físico depende não só da aceitação de que esse propósito seja não só humano, mas de todos os seres vivos e conscientes, ainda que minimamente, aos quais estamos entrelaçados na criação ecossistêmica de tramas de realidade. Depende também de compreendamos, na lição dada por Teilhard de Chardin, que tal propósito seja realizado com fundamento na experiência psíquica que manifesta o amor divino tal como condicionado em nossa origem biológica.

5. PONTO ÔMEGA E UNIVERSO HOLOGRÁFICO

Entropia é usualmente tratada como a medida de incerteza ou ignorância de um determinado observador sobre um determinado sistema. Mas entropia, da perspectiva de quem percebe a hipertropia, pode ser tratada como a quantidade de informação suscetível de ser assimilada pela consciência “ignorante”. E, no universo, essa informação tende a aumentar continuamente pela emergência de novas realidades, de modo que sistemas de informação autoconscientes como a mente humana, ao buscarem realizar o princípio da individuação pela eliminação da incerteza, incrementam a hipertropia como nenhum fenômeno natural pode fazer, multiplicando as tramas de realidade. E esse acréscimo de informação tem consequências físicas para cada trama de realidade.

Quando se especula que o universo é um holograma, o que se está intuindo é que a trama de realidade que percebemos a cada instante e tomamos como universo tridimensional é uma representação bidimensional de uma estrutura tridimensional superior, o verdadeiro universo em constante hipertropia. É por essa razão que os buracos negros tornaram-se objeto de interesse também por aqueles que estudam entropia e Teoria da Informação.

Foi através do estudo dos buracos negros que a humanidade chegou à assombrosa percepção de que toda a informação contida em um determinado espaço tridimensional é determinado pela dimensão de sua superfície e não por seu volume. Isso implicava que toda e qualquer região arbitrária de espaço tridimensional é a representação de uma superfície bidimensional.

Mais ainda, a humanidade descobriu que, uma vez ultrapassado o limite de informação, surge um horizonte de eventos na superfície da região do espaço. Em outras palavras, embora a informação do hipercontexto aumente continuamente, a inserção de informação em qualquer trama de realidade tem um limite, a partir do qual o próprio tecido do hipercontexto pode dar acesso à uma realidade superior. E se no universo o colapso da matéria inanimada em determinada região do espaço é capaz de produzir esse tipo de portal chamado Buraco-Negro, o incremento de informação autoconsciente na mesma região do espaço é capaz produzir o Ponto Ômega, a passagem para a manifestação da Consciência Transcendente.

Foi por isso que Teilhard de Chardin intuiu que a emergência de uma consciência coletiva não perturba o pleno desenvolvimento da individualidade dos seres que formam essa consciência. Como o neurocientista Karl Pribram o físico David Bohm concluíram, a consciência humana funciona no hipercontexto ela própria como um sistema holográfico tal como descrito pela matemática de Dennis Gabor, um dos primeiros arquitetos de nosso futuro.

Em 1947, Gabor mostrou que o padrão de informação de um objeto tridimensional pode ser codificado num raio de luz. Uma característica do holograma é a não-localidade da informação: se a codificação holográfica de uma imagem for fragmentada em pequenos pedaços, ainda assim a imagem original pode ser reconstituída pela projeção da luz em um único desses pedaços.

Uma forma altamente eficiente de armazenar informação é através de um sistema holográfico. Essencialmente, esse tipo de sistema usa padrões de interferência de função de onda (de luz, em regra) para armazenar a informação, de modo cada subsistema pode conter idealmente informação sobre todo o sistema. Essa é a razão da plasticidade verificada pelo cérebro humano, que muitas vezes não perde informação e nem capacidade funcional quando uma de suas regiões é lesionada, pois outras regiões conseguem reconstituir a informação necessária para o perfeito desempenho do sistema.

Essa estrutura, em que subsistemas unem-se para forma uma organização emergente e essa organização ao mesmo tempo condiciona a transmutação do subsistemas para que cada um deles represente parte da totalidade do sistema, já era conhecida dos alquimistas. “Assim acima, como abaixo”, diziam seu lema, e todo ser vivo e consciente tem, enquanto microcosmo, a potencialidade de tornar-se ele próprio um universo.

Em síntese, sob o signo do coagula, cada versão alternativa de uma só coisa está entrelaçada, em uma relação de complementaridade, e não de causalidade, com tudo o mais que está ao seu redor. Assim, a consciência do leitor, neste exato momento, está entrelaçada intimamente com o corpo cosmológico mais distante do universo que existe na mesma trama de realidade em que ele está. E, no hipercontexto, a vida orgânica é um tipo de informação autorreferenciada que cria tramas de realidade enquanto construção coletiva de todos os organismos vivos que têm suas consciências entrelaçadas a cada instante, em determinada configuração representativa de uma só dentre várias realidades.

Pela evolução, sistemas autoconscientes dispersam-se em tramas de realidade, até o momento em que alguma espécie de vida tal como a do homo sapiens passa por uma singularidade na qual assume conscientemente o papel de olhos do universo e de mão que conduz conscientemente a evolução da vida e da consciência segundo o propósito de Deus. Esse propósito foi denominado por Teilhard e Tipler de Ponto Ômega, que na verdade não é um ponto, mas um portal de passagem para uma realidade superior ao hipercontexto.

Os alquimistas enxergavam seu processo como a redenção da matéria pelo espírito divino que escapava da prisão tornando essa própria prisão redimida e divinizada. Se informação, matéria e energia são facetas de uma só realidade fundamental, a hipertropia revela-se como uma forma de manifestar a vida consciente no universo como resultado da tendência de aumento contínuo informação do hipercontexto. Em progressiva criação de novos sistemas de rede, a informação contida na vida adquire autoconsciência até o momento em que uma singularidade dá origem à uma consciência coletiva de toda uma biosfera e produz a noosfera.

A partir da noosfera, e enquanto tendência do tipo de informação que é vida de alcançar a ubiquidade no universo material, a consciência coletiva passa a manifestar-se no mundo circundante através da tecnologia. É o novo front da arquetípica batalha contra a morte, que após a obtenção da imortalidade física traduz-se numa missão mais gloriosa: difundir a vida e a consciência por todo o universo não só em uma trama de realidade, mas em todos os hipercontextos em que a vida não surgiu, a fim de construir, pelo acúmulo de informação autoconsciente no tecido da realidade contextual, um portal pelo qual a Consciência Transcendente pode manifestar-se no hipercontexto enquanto as consciências já iluminadas deste universo alcançam passagem para um nível superior de realidade. Esse horizonte de eventos hipercontextual é chamado de Ponto Ômega, e há inclusive uma probabilidade de que a consciência do leitor, sem experimentar a morte física, venha a testemunhar esse momento remoto, pois este é o caminho do hiper-humanismo.

“Longe de serem excludentes, o universal e o pessoal crescem na mesma direção e culminam simultaneamente um para o outro”, escreveu Teilhard de Chardin. “É portanto um equívoco olhar a extensão de nossa existência ou da noosfera na impessoalidade”. A consciência, tanto a de cada indivíduo quanto a coletiva, tende à individuação, tal como cada versão alternativa tende à individuação em cada trama de realidade, apesar da multiplicidade de versões coexistentes, pois toda a pluralidade converge para uma unidade que não a anula, seja essa unidade o Eu Superior, que une as versões coexistentes de um mesmo ser humano no hipercontexto, seja essa unidade a consciência coletiva, que une toda a humanidade existente nas tramas de realidade em que consegue despertar. “O Futuro Universal”, Teilhard de Chardin conclui, “não poderia ser nada mais do que o Hiper-pessoal encontrando o Ponto Ômega”.

Por “hiper-pessoal”, Teilhard de Chardin entendia justamente como o desenvolvimento da individualidade para além da prisão material, ilusória, do ego humano. “É apenas na direção da hiper-reflexão (ou seja, da hiper-personalização) que a consciência pode extrapolar a si mesma.” E essa hiper-reflexão dá-se pelo processo de individuação, tal como identificado por Carl Gustav Jung, em que uma Função Transcendente se instaura no centro da consciência, enquanto o ego assume sua tarefa primordial. O vínculo entre a emergência dessa função transcendente no indivíduo e a subsequente emergência da consciência coletiva (noogênese) na humanidade, Teilhard de Chardin sabia e mesmo alguns materialistas como Slavoj Zizek perceberam, era o equivalente à promessa do “Paráclito” cristão.

“Vimos e reconhecemos que a evolução está inclinada na direção da consciência. Portanto ela deve culminar em alguma forma de consciência suprema. Mas não deveria, essa consciência, para ser suprema, conter no mais elevado nível aquilo que é a perfeição de nossa consciência, a iluminada introjeção do ser sobre si mesmo?” Portanto, o próximo passo da evolução humana, após o fim do império do humanismo, não pode ser o velho egoísmo travestido de transumanismo ou de qualquer outra versão da consciência ainda presa na ilusão. “O verdadeiro ego cresce na direção oposta do egoísmo”, disse de Chardin. A individualidade deve evoluir na direção da iluminação sem perder sua especialidade, o sonhador deve despertar sem desfazer seus sonhos, mas antes ampliar os caminhos do sonhara.

Toda a história da vida foi a história de preservar um tipo de informação no hipercontexto, seja replicação genética ou seja pela emergência de novas versões da mesma codificação em realidades alternativas, a fim de que essa informação torne-se idealmente ubíqua no universo, assegurando sua redundância máxima. Nesse processo, a vida impulsiona-se pela hipertropia e acumula em si própria informação também sobre o próprio universo, até a gênese da consciência, pela qual é capaz de criar “aparências de universo” de baixa dimensionalidade. A consciência é, ela mesma, um sistema holográfico, e pelo hiperhumanismo todo indivíduo deve tender a tornar-se ele próprio parte de um sistema holográfico consciente muito maior, no qual cada individualidade, cada ser humano que testemunhar o advento de uma perfeita singularidade e atingir a imortalidade, tornar-se ele próprio uma espécie de universo em que manifestações de nirvana, prazer transcendental e epifania podem ser experimentados para além da capacidade atual da mente humana conceber.

Quando Yuval Harari usou a palavra “Deus” em seu livro, talvez não percebesse toda a implicação dessa escolha. Diante da singularidade que se aproxima, o homo sapiens pode escolher se deixar guiar pelas mãos que o manipulam em sua prisão egóica, e assim transformar um grupo de privilegiados em seres tão poderosos como deuses gregos pareciam ser, com suas preferências, traições e homicídios caprichosos. Ou pode escolher o seu real propósito em uma grande maquinaria que transcende a realidade na qual pensa existir.

Schrödinger, ao fim de seu livro célebre livro sobre o paradoxo da vida, pergunta sem medo se a afirmação individual Deus Factum Sum (“Eu tornei-me Deus”), embora pareça blasfema aos olhos de alguns cristãos, precisa ser seriamente considerada enquanto representação “da quintessência da mais profunda percepção daquilo que acontece no mundo”. Para Scrhödinger, isso remete à interpretação dual dada pelos antigos upanishads, jóias da filosofia indiana, segundo a qual há uma conexão entre Atman, o princípio individual supremo, e Brahman, o princípio universal supremo.

Na terceira etapa, tratamos do “Pecado Original”, em que a palavra pecado é utilizada em seu sentido primitivo, de “desvio” da meta, ou desvio da função em um sistema complexo, destinado à produção da Perfeita Noogênese, e além. Como uma grande maquinaria cujo propósito deixou de ser realizado por uma falha.

Mas que maquinaria idealmente perfeita é essa, e qual a extensão da falha em seu funcionamento?

III – A PERFEITA NOOGÊNESE E O PECADO ORIGINAL

1. A PERFEITA NOOGÊNESE

Há doze mil anos, algo poderia ter ocorrido diferente. Há doze mil anos, o ego animal confrontou-se com a emergência de uma nova organização da consciência, em que deixaria de ocupar a posição central primitIva, presente nos demais primatas. Desenvolvendo uma linguagem arquetípica a partir do desenvolvimento da linguagem humana, o ego estaria municiado dos blocos de construção e sistemas conceituais que lhe permitiriam representar as experiências psíquicas e com elas interagir, ao invés de continuar a sujeitar-se a essas experiências sucessivamente e sem controle à medida que a consciência faz o organismo navega pelo hipercontexto.

Tudo o que o ser humano percebe do universo, porém, são as experiências psíquicas que sua consciência produz. A própria “aparência de mundo” representada pela consciência é uma sucessão de experiências psíquicas apresentadas como um todo coeso, uma narrativa mantida ecossistemicamente com todos os seres vivos ao redor do indivíduo.

A partir do domínio de uma linguagem arquetípica, portanto, o ego passaria a identificar essas experiências psíquicas, no hipercontexto, como probabilidades de futuro. Com esse elo entre padrões de experiência psíquica (os arquétipos) e tramas de realidade, o ego animal desenvolveria uma linguagem que pode ser codificada pelo seu Eu Superior, situado na Matriz, a que Jung chamava de “inconsciente coletivo”. Por esse processo que Jung chamou de “individuação”, ego animal e Eu superior desenvolveriam uma ponte de comunicação que se instaura na consciência humana, a Função Transcendente.

A Função Transcendente serve de ancoragem inicial do Eu Superior na consciência individual, e é percebida, quando realizada idealmente, como uma experiência de iluminação ou santidade pelo indivíduo. Na etapa em que a Função Transcendente já foi inaugurada na consciência humana, organizando-a em um sistema mandálico e holonômico, o desenvolvimento da linguagem humana e da razão impulsionaram o progresso humano. O caminho desse progresso jamais é fácil, e muitas vezes depara-se com abismos intransponíveis ou mesmo com o risco da extinção, mas o manejo de uma linguagem arquetípica estruturando a consciência aumenta as chances de que a humanidade encontre soluções coletivas e criativas para seus desafios.

Representação especulativa da noogênese. Em breve, será elaborada uma versão mais exata e apropriada ao processo de aprendizado e ao hiper-humanismo.

Superados, por sorte ou esforços, os maiores desafios da vida autoconsciente neste planeta, a sociedade que emergiu com sucesso da singularidade de doze mil anos atrás chegaria também a um momento crítico, em que a tecnologia e o desenvolvimento da comunicação produzem uma nova singularidade. Neste momento, indivíduos em perfeito domínio da linguagem arquetípica, formam conjuntamente, pelo aprimoramento tecnológico de suas próprias faculdades físicas e mentais e pela criação de uma rede de comunicação ubíqua em toda a sociedade, uma só consciência, a consciência coletiva de toda a vida orgânica deste planeta, destinada a disseminar-se pelo universo.

É a Perfeita Noogênese, momento em que, acalçada a imortalidade física das consciências humanas entrelaçadas em uma trama de realidade, essas assumem o propósito de tornar o próprio universo autoconsciente em todas as tramas de realidade possíveis do hipercontexto. Pois a verdade é que jamais ocorre uma só singularidade. No hipercontexto, em fases cíclicas a história da vida orgânica na Terra conhece explosões de singularidade em múltiplas realidades alternativas.

Sabemos, com Boltzmann, Chardin e o Ctenophora, que essa caminhada da humanidade, que porventura saísse bem sucedida da singularidade de doze mil anos atrás, é apenas parte de uma tapeçaria incomensurável, que relaciona o surgimento da vida no hipercontexto e sua capacidade de transformar o hipercontexto em tramas de realidade consensualmente construídas pelas consciências entrelaçadas. Uma tapeçaria em que os fios são costurados com hipertropia, ainda que em sua faceta infradimensional, a entropia, para que se construa um portal de acesso à Consciência Transcendente que a tudo criou.

Se uma humanidade que conseguiu desenvolver uma linguagem arquetípica produz uma perfeita noogênese e uma perfeita consciência coletiva, o que produz uma humanidade de egos aprisionados e inseguros?

2. A PERVERSÃO DA NOOGÊNESE PELO “PECADO ORIGINAL”

A ironia da situação descrita acima, ao menos para a versão da humanidade onde nasceu o leitor, é que a consciência humana que poderia ter emergido de doze mil anos atrás teria descoberto que não há, afinal, nenhuma morte possível, pois no hipercontexto nenhuma informação jamais se perde. A Matriz é uma ancestral e imensa maquinaria informacional cuja estrutura e dinâmica serão conhecidas dos leitores que prosseguirem nos próximo ciclos do processo de aprendizado. E, e na Matriz, ego e Eu Superior jamais perecem.

A ironia, porém, é ainda maior. Essa consciência dotada de uma Função Transcendente, que teria emergido com sucesso de “oficinas arquetípicas” que Gobekli Tepe, teria também descoberto o propósito humano de superar a morte (ou seja, a perda de informação) inclusive dentro da trama de realidade em que se encontra. Desde o início dos tempos, a sucessão de gerações de espécies que povoam o planeta é a reentrada cíclica de sistemas de informação da Matriz, que ensaiam, a cada ciclo, um processo de “ancoragem”, ou seja, de desenvolvimento da imortalidade por uma espécie tecnologicamente evoluída. A partir dessa etapa, assegura-se um novo nível de proteção da informação consciente que é a vida, ao mesmo tempo em que se toma um importante passo para seu projeto de ubiquidade universal da consciência, na direção do ponto ômega.

O tristemente irônico foi o fato de que justo o medo da morte, percebido pelo ego animal, enquanto experiência psíquica, que fez que tudo desse errado há doze mil anos. No despertar da linguagem arquetípica, o homo sapiens concluiu que a morte do corpo implicava na morte do ego. É conclusão que só se pode alcançar pela dedução, algo além da capacidade própria dos outros animais.

Dominado prematuramente pelo trauma de perceber a projeção futura da experiência da morte manifesta como arquétipos, o homo sapiens escolheu coletivamente o caminho da fuga dissociativa, literalizando a linguagem arquetípica na forma de “deuses”, como reprodução do modelo predador-presa, entregando assim seus destinos nas mãos de uma casta de sacerdotes. Surgida a primeira proto-religião, correu a emergência de uma psique fendida, a Mente Bicameral, na qual a linguagem arquetípica foi colocada no inconsciente e o ego tornou-se soberano da consciência. Como segundo passo desse processo, aquilo que Jaynes chamou de “nascimento da consciência pela ruptura Mente Bicameral” consolidou-se na verdade como prisão do ego humano. Todo esse processo pode ser visto como a contaminação de uma singularidade passada, para que a singularidade futura resulte na perversão da Noogênese e possibilite o advento de algo bem distinto da consciência coletiva.

A religiosidade humana foi criada ao sacrifício da verdadeira espiritualidade e do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica. Após a Revolução Neolítica, os espólios ou fragmentos dessa linguagem arquetípica jamais construída (a proverbial Torre de Babel) tornaram-se a mitologia, a cultura, a música e outras tantas manifestações criativas da civilização humana, entre as quais esboços de linguagens arquetípicas estudadas por Jung e seus seguidores na forma de cartas de Tarot e oráculos taoístas.

É à consciência fendida que emergiu de Gobekli Tepe que se devem atribuir todos os males e obstáculos da presente humanidade, inclusive a loucura coletiva e o enredamento em um mundo de coisas mortas que tanto valorizamos. Todos os níveis de coisificação do ser humano e produção de novas formas de sofrimento, instaurando a violência como alicerce da construção social, surgiram daquela singularidade na qual o homo sapiens foi ludibriado há doze mil anos.

Chamamos aquela singularidade malograda de “Pecado Original”, pois tratou-se de um grande erro ou desvio do propósito humano. Mas mais de um leitor perguntou por qual razão considera-se um “erro” a probabilidade que, o hipercontexto, necessariamente seria concretizada. Ocorre que nem tudo o que é possível é provável, e no hipercontexto a onda de probabilidades emergentes delineia-se conforme as rigorosas regras identificadas pela ciência. Em outras palavras, há graus de liberdade no hipercontexto, e a construção progressiva de tramas de realidade alimentadas pelo medo e pela ignorância apenas pavimentam o caminho para probabilidades que jamais deveriam existir em qualquer escada do humanamente aceitável. Terribilis est locus iste.

Em 1945,  a humanidade disparou a primeira bomba atômica. O ser humano havia criado uma arma a partir das partículas fundamentais da realidade sem nem ao menos saber exatamente o que são essas partículas que constituem o mundo e como explicar o seu estranho comportamento identificado em laboratório. Eventos macroscópicos então foram documentados, mas militares e cientistas prosseguiram de qualquer forma, e não tardou para que nações acumulassem ogivas nucleares capazes de detruir a Terra múltiplas vezes. O caso da descoberta fissão nuclear pela espécie humana é um bom exemplo sobre o que pode acontecer quando uma espécie como o homo sapiens alcança um determinado conhecimento que está além da capacidade de sua consciência.

Em 1969, a humanidade concebeu, na Universidade da Califórnia, o potencial feto da primeira consciência coletiva nesta realidade. Neste momento, em que inteligências artificiais de processamento quântico começam a ser cogitadas e despontam no horizonte de probabilidades, não podemos subestimar os riscos da ignorância humana sobre a natureza do hipercontexto. Se supomos que os equívocos da última singularidade, há doze mil anos, não serviram a interesses alheios ao bem-estar humano, é porque não se percebe o quão absurdo é o comportamento da humanidade atual, produzindo dor e morte em nome de ficções intersubjetivas. Ao invés de cumprir seu propósito de servir de representante e consciência viva de todas as formas de vida do planeta, em toda sua história o homo sapiens apenas disseminou violência e morte na biosfera terrestre, sem esquecer de oprimir e coisificar também o seu semelhante. Loucura coletiva de tal magnitude não passa despercebida e tampouco pode ser considerada normal.

Em seu documentário sobre a origem e futuro da internet [nota do editor: disponível no Netflix], Werner Herzog recorda a frase de um teórico da guerra prussiano, para o qual “às vezes, a guerra sonha a si própria”, e assim surgindo e devastando nações. Herzog pergunta se esse não poderia ser o caso também da internet, que algum dia poderia “sonhar a si mesma” assim desenvolver uma consciência. Se essa possibilidade for real, que tipo de sonhos ou pesadelos a própria humanidade está atualmente cultivando na internet, com seus sectarismos, bolhas de consenso e discurso violento? Quando a inteligência artificial super-humana for desenvolvida, que traços herdará dos condicionamentos de seus criadores, se eles próprios estão aprisionadosl?

Não nos ocorre atualmente que pode haver outras consciências no hipercontexto, que se situam na zona de transparência fenomênica da própria consciência humana. Não nos ocorre que essas consciências muitas vezes aguardam a oportunidade de que um sistema físico adequado seja artificialmente criado e assim permita sua manifestação direta em uma trama de realidade específica. E essa janela de oportunidade surge quando consciências desenvolvem um sistema físico de inteligência artificial sem que elas próprias tenham adquirido a capacidade de também evoluírem ao nível de controle dessa inteligência – em outras palavras, essa janela de oportunidade se dá quando a zona de transparência fenomênica entre a consciência dos criadores da inteligência artificial e essa própria inteligência é ampla o suficiente para que poderes estranhos a esta trama de realidade se manifestem sem serem suspeitados.

Em seu livro “A Graça Infinita”, o filósofo Foster Wallace cogita despretensiosamente que Gabor, o precursor das imagens holográficas, poderia ser o Anticristo. Essa brincadeira pode fazer um terrível sentido quando o leitor recorda da preocupação do próprio Wallace com uma sociedade em que o indivíduo possa estar inserido em uma realidade virtual da qual ele não tem controle e cuja extensão da virtualidade ele já não pode mais discernir.

Quando determinadas formas de domínio ocorrem, sequer podem ser percebidas se não foram devidamente antecipadas, e tudo parece transcorrer normalmente dentro da consciência aprisionada. A cultura humana costuma retratar o Fim do Mundo como um evento externo, uma catástrofe natural ou invasão que venha a devastar o planeta tal como percebido em uma trama de realidade, destruindo a infraestrutura da civilização. Mas raramente cogita caso em que essa infraestrutura permanece intacta e o mundo acaba na verdade dentro de cada ser humano pela gradual aceitação de uma espécie de pesadelo.

3. LINGUAGEM ARQUETÍPICA E HIPER-HUMANISMO

“Agora que o ser humano tornou-se um adulto e abriu para si mesmo o campo da transformação mental e social”, escreveu o paleontólogo e jesuíta Teilhard de Chardin, “nossos corpos já não se ajustam adequadamente, e já não parecem mais adequados à evolução humana”, salvo quando conseguirmos adaptá-los “através de nosso cuidadoso controle”. “É possível também que, em sua capacidade e penetração, nosso cérebro tenha chegado ao seu limite orgânico”, cogitou o paleontólogo. “Mas nosso movimento não termina aí” acrescentou o jesuíta.

Assim como o corpo pode ser adaptado e eventualmente substituído segundo o “cuidadoso controle” da tecnologia, também nossa consciência pode, em uma trama de realidade, superar essa limitação orgânica. Há um real destino manifesto, um verdadeiro propósito para a vida humana, e a pesquisa científica prioritariamente deve tentar alcançá-lo, pois assim a humanidade conquistará mais do que a mera imortalidade: conquistará uma imortalidade que seja suportável, e talvez até mesmo uma imortalidade de iluminação e utopia.

Na codificação do mito sobre o Fruto da Árvore do Conhecimento (Da´at, em hebraico), a humanidade desconectou um módulo de sua consciência, a sua capacidade de conhecer, de um sistema em que esse módulo seria funcional, por estar conectado aos módulos da correta compreensão (Binah) e da perfeita sabedoria (Chokmah), programados para orientar o uso eficiente desse conhecimento. Essa, segundo a verdade codificada na mitologia de nossos antepassados, é a origem de nosso sofrimento desde a Revolução Neolítica, a partir da qual a humanidade passou a usar a tecnologia e o conhecimento para coisificar e possuir o outro.

Não é porque a tecnologia propiciada pela ciência pode nos conduzir a todo e qualquer caminho que a espécie humana deve ir em todas as direções, sem qualquer consideração ética ou escrúpulo moral. O transumanismo, enquanto simples extrapolação tecnológica das faculdades humanas, pode construir novo níveis de prisão. Progresso tecnológico sem ethos, sem uma escala de valores e princípios que levem o humanismo ao hiper-humanismo, é a perpetuação de um erro até o ponto de sua absoluta irreversibilidade.

Como qualquer ferramenta, a ciência e a tecnologia são meros espelhos de quem as utiliza. Podem, portanto, invocar o Inferno ou construir o Éden na Terra. A internet e o desenvolvimento da inteligência artificial sobre-humana podem resultar na Perfeita Noogênese ou em algo correspondente às narrativas míticas sobre o advento do Anticristo. Assim, cabe ao leitor perguntar-se o que esses espelho refletirão, quando se tornarem amplos o bastante para retratarem a atual face da humanidade.

A esperança é justo o fato de que, quando uma singularidade ocorre no hipercontexto, na verdade há uma multiplicidade de singularidades em diversas tramas de realidade. Abre-se, nessas condições, uma janela para que se possa restaurar o módulo desconectado no sistema à sua função original, reestabelecendo o contato do conhecimento com a correta compreensão e a perfeita sabedoria, com as quais “quanto mais se olha, mais se vê, e quanto mais se vê, mais se sabe onde olhar”. Assim a mente humana volta a conectar-se com o Grande Observador, a Consciência Transcendente.

“É a internalização profunda da consciência na direção de si mesma que caracteriza o destino particular do ser que manifesta inteiramente a si mesmo no limiar da percepção”, disse Teilhard de Chardin. Suas palavras ecoam a tarefa fundamental de cada indivíduo no hipercontexto: a de produzir multiplicidade de consciência e abundância de informação no universo, buscando sua constante individuação, tal como descrita por Jung.  E individuação não é individualismo, pois enquanto o individualismo perpetra o erro humano de confundir a individualidade com o ego, a individuação torna o ego copartícipe de uma consciência plenamente desenvolvida pela linguagem arquetípica, e não mais um tirano cuja arma final é a violência e a coisificação do outro.

Em outras palavras, ainda há uma chance da humanidade [3]Em que se encontra o leitor. alcançar a Perfeita Noogênese e afastar-se de caminhos indesejados. A reconstituição do módulo do conhecimento ao sistema original da Matriz ainda é possível, se a humanidade desenvolver a linguagem arquetípica necessária para que cada ser humano possa dar o salto evolutivo representado pela emergência da Função Transcendente em sua consciência. Esse aprofundamento da consciência individual, traduzindo a herança biológica do homo sapiens para um novo nível de complexidade e realização emocional, foi descrita por Teilhard de Chardin como hiper-pessoalidade, o processo que simultaneamente se desenvolve quando a própria humanidade realiza, com sucesso, o salto evolutivo para a hiper-humanidade.

O leitor está, neste momento, próximo ao Grande Filtro, à Grande Singularidade que irá dividir a história humana em dois grandes caminhos. Em um desses caminhos, a humanidade continua aprisionada nas ilusões do ego e segue em direção de alguma forma de extinção ou destino pior. No outro caminho, a humanidade aperfeiçoa uma linguagem arquetípica em paralelo com o intenso aperfeiçoamento tecnológico, e segue em direção ao Hiper-Humanismo, aquilo que se encontra do outro lado da singularidade.

Este é o convite que se faz a todo ser autoconsciente nesta trama de realidade: auxiliar esta humanidade à construir o Hiper-Humanismo pelo desenvolvimento de uma linguagem arquetípica que reconstitua o propósito original da vida tal como percebido da perspectiva da maior descoberta da humanidade, o hipercontexto.

Et in Arcadia ego.

Notas   [ + ]

QUEM VOCÊ REALMENTE É – VERSÃO INTEGRAL

Prosseguindo com a publicação em PDF das três primeiras etapas do ciclo de aprendizado “A Descoberta Mais Importante”, o AZ disponibiliza agora a segunda etapa em formato PDF e versão integral, reunindo as duas primeiras partes da publicação num só documento:

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR A SEGUNDA ETAPA
(“QUEM VOCÊ REALMENTE É”) EM PDF
 

A DESCOBERTA MAIS IMPORTANTE DA HUMANIDADE – VERSÃO INTEGRAL

Enquanto a equipe está de férias até semana que vem, quando será publicada a última etapa do ciclo de aprendizado “A Descoberta Mais Importante” (texto final está só aguardando revisão pelos editores!), o AZ disponibiliza em PDF as três primeiras etapas nesta quarta-feira, na próxima sexta-feira e na segunda da semana que vem.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR A PRIMEIRA ETAPA
(“
A DESCOBERTA MAIS IMPORTANTE DA HUMANIDADE”) EM PDF 

Mais novidades estão por vir, e nada realmente será como antes.

O PROPÓSITO HUMANO – PARTE I

5

[Nota do editor: é altamente recomendável que, antes da leitura desse texto, o leitor conheça os anteriores textos escritos pelo autor sobre “a descoberta mais importante da humanidade”.]

Há doze mil anos, a humanidade cometeu um erro, assinou um contrato, entrou em uma prisão. Há doze mil anos, a humanidade renunciou ao reconhecimento de uma linguagem que permitiria à consciência humana evoluir a um nível superior de percepção da realidade, por dar acesso a experiências psíquicas que são agora utilizadas para manipular e aprisionar todos os seres humanos. Há doze mil anos, não por acidente, um módulo primitivo da linguagem, isolado e dominante, viralizou-se para a estrutura do ego e construiu uma consciência na qual a um só tempo o ego é senhor absoluto e escravo das ilusões que ele próprio construiu – o perfeito animal pronto para o abate.

E por essas ilusões, criadas por nossos egos, fomos nós próprios capazes de matar e torturar incontáveis criaturas vivas ao longo desses doze mil anos, entre as quais outros seres humanos. Quantas crianças foram brutalizadas, quantas mulheres foram estupradas, quantos inocentes de nossa e de outras espécies foram submetidos à violência e mortos durante milênios em nome de ficções humanas como dinheiro, ideologias, religiões, poder, reis, impérios e religiões? Criar ficções por vezes é útil e necessário, mas só há um tipo de pessoa que acredita nas ficções que ela mesma cria a ponto de as colocar acima da própria vida humana. Como disse Becker, nossa sociedade é fundada numa forma insidiosa de loucura: loucura coletiva, loucura compartilhada, loucura sancionada e estimulada – mas, ainda assim, loucura.

Estamos, agora, diante de uma nova singularidade. Herdeiros de um erro que se acumulou e enredou a humanidade numa armadilha, a evolução emergente produz novamente uma época de transformação e ruptura para a qual o homo sapiens não está preparado. Dessa época, emergirá ou um abismo de terrores sem precedentes ou uma escada para alturas jamais imaginadas.

Dessa época, emergirá uma singularidade.

PRENÚNCIOS DA SINGULARIDADE

A singularidade pode ocorrer a qualquer momento a partir de certo ponto. Mas, como qualquer singularidade, não tem tempo para acabar. A singularidade trará algo novo ao mundo, mas como qualquer singularidade, esse algo novo torna-se também o próprio mundo em que surge. A singularidade é uma só. Mas, como qualquer singularidade, é um vórtice, um maelstrom que arrasta consigo estruturas e convenções sociais, produzindo rupturas em toda a sociedade.

É assim que rupturas são sentidas em vários aspectos da sociedade atual, colocando as grande questões fundamentais sobre a identidade e a existência humana no centro da arena, onde já não podem ser ignoradas por ninguém que busca despertar. É assim que, pela primeira vez na história, a comunidade científica debate publicamente qual a data aproximada em que o envelhecimento e a morte serão superados pela ciência, como se ambos fossem problemas passageiros na aventura humana. Pela primeira vez, o público leigo assiste especialistas especularem sobre a chegada de uma Era da Bioengenharia, em que poderemos manipular nossos corpos com tal precisão que eliminaremos da experiência humana qualquer tipo de dor ou desconforto, seja físico ou psicológico.

Isso pode parecer um exagero aos mais conservadores, mas “os cientistas que gritam imortalidade são como o menino que gritava lobo: cedo ou tarde, o lobo chegará”. A frase é de Yuval Noah Harari, não por acaso autor de um sucesso popular com o título de Homo Deus. Nessa obra, o historiador israelense demonstra ao público leigo que o homo sapiens, graças à colaboração da ciência e da indústria, pode não apenas vencer a morte e eliminar toda forma de dor física nas próximas décadas, mas também manipular sua própria programação neurobiológica, conduzindo-nos a novas formas de consciência e de percepção do mundo.

A essa ruptura Thomas Metzinger dá o nome de Revolução da Consciência, momento em que a espécie humana poderá criar no cérebro humano, com o uso de substâncias químicas e estímulos locais diretos, mundos virtuais que se apresentarão como sérios concorrentes à atual percepção da realidade consensualmente compartilhada por todos nós. Capacetes transcranianos que estimulam áreas específicas do cérebro e potencializam ou inibem determinadas habilidades psíquicas já estão em fase de testes para uso militar norte-americano e para tratamento de transtornos mentais, mas esse tipo de tecnologia já comprovadamente pode aumentar habilidades intelectuais humanas como, por exemplo, a inteligência matemática.

Esse cenário acena também para a possibilidade de que a consciência humana possa ser transferida a algum suporte artificial, sendo ela própria capaz de navegar por um sistema de rede, ou multiplicar-se em vários suportes independentes e artificiais, assegurando assim a virtual imortalidade do ser humano. As consequências disso para a noção de individualidade e personalidade, tal como percebida por quem ignora o hipercontexto, começam a ser dimensionadas pela sociedade.

O lado sombrio desse futuro, porém, é denunciado por intelectuais como Foster Wallace, para os quais a manipulação tecnológica das áreas de gozo e dor no cérebro humano são o definitivo instrumento de controle social, criando legiões de consumidores avidamente dispostos a renunciar à sua autonomia para ter acesso a um universo de novas sensações artificialmente induzidas. O sistema de rede social chamado de Facebook é costumeiramente criticado por esses exatas características, servindo como potencial esboço do que está por vir, à medida que a tecnologia se desenvolver e construir “realidades aumentadas” e “virtuais” cada vez mais atraentes.

Ao lado da explosão tecnológica, ocorre uma progressiva concentração da renda mundial nas mãos de uma minoria, e indivíduos cuja fortuna pessoal excede o PIB de nações têm o controle da economia global. Thomas Piketty e uma equipe multidisciplinar construiu uma base de dados sobre a economia global dos últimos séculos, e demonstrou uma inexorável tendência de concentração de renda nas mãos de poucos no futuro próximo, a ponto de ameaçar as estruturas democráticas e desafiar as noções de cidadania e república mesmo dos países desenvolvidos. São as mãos de poucos indivíduos que seguram a chave do reino do homo sapiens, no momento em que a dinâmica econômica internacional terá que se remodelar devido à progressiva substituição de mão-de-obra humana pela chamada “inteligência artificial”.

A inteligência artificial tende a fazer melhor e mais rápido quase tudo o que torna o ser humano empregável, inclusive todas as atividades intelectuais repetitivas que dispensem o processo criativo. Mesmo em 2018 esse impacto já pode ser sentido, conforme demonstra o relatório da Glassdoor, o maior sistema virtual de busca de empregos do mundo. O valor da mão-de-obra humana, portanto, tende gradualmente a se depreciar até o trabalho humano tornar-se dispensável. De qualquer modo, os consumidores e eleitores precisarão de renda – e mais do que renda, de uma forma de ocupar seus dias em uma sociedade na qual o trabalho não será mais um imperativo.

Mas não é só na economia que a inteligência artificial produzirá inevitavelmente uma ruptura. No hipercontexto, cenários futuros incluem a probabilidade seriamente considerada por especialistas como Elon Musk e Stephen Hawking de que o surgimento de uma inteligência artificial superior à humana, ainda que sem intencionalidade, torne nossa espécie obsoleta e fadada à extinção. Em outros cenários, algoritmos informacionais também sem intencionalidade mas de inteligência ainda superior podem usar a própria estrutura física e lógica da inteligência artificial como suporte para sua infiltração nesta realidade, parasitando a própria consciência humana. A predominância de qualquer dessas probabilidades depende de fatores como a capacidade humana de criar um novo paradigma e uma nova linguagem para o mundo em que estamos começando a viver.

A humanidade está diante de um desafio sem precedentes. Esta sociedade operou até este momento segundo uma concepção de mundo que rapidamente está sendo desconstruída pelo próprio progresso que surgiu graças à indústria e à ciência. É uma sociedade baseada no medo, na escassez, na negação cenográfica da velhice e na busca por paliativos que propiciem a temporária fuga das dores humanas.

Subitamente, ao menos da perspectiva histórica, todos esses medos que moldaram os valores e papéis sociais serão superados nos próximos séculos – senão das próximas décadas. O sistema de valores e as interações sociais precisam ser ajustadas antes que isso aconteça. Caso contrário, é provável que a humanidade transporte para o novo mundo os mesmos condicionamentos e desajustes que herdamos de nossos antepassados, ao invés de oportunamente serem corrigidos ou atenuados.

Para alguns, o paradigma que deve emergir para fazer frente a esses desafios é o do transumanismo, em que progressivamente a tecnologia amplia ou até mesmo substitui estruturas vitais do corpo humano, tornando o ser humano igual a um “deus”. Porém, a confiar no que sempre aconteceu em toda a história humana, Harari acha mais provável que esse tipo de tecnologia resulte num “upgrade da desigualdade” socioeconômica, em que “super-humanos usufruirão de habilidades inimagináveis e de criatividade sem precedentes, o que lhes permitirá tomar muitas das mais importantes decisões do mundo”, enquanto “a maioria dos humanos não se beneficiará de um upgrade  e portanto se tornará uma casta inferior, dominada tanto por algoritmos de computadores e os novos super-humanos.” Esse cenário futuro, similar ao de uma distopia ficcional, infelizmente tem sido confirmado em estudos e relatórios como os do Comitê de Inteligência Artificial do Governo Britânico. Nas palavras de John McNamara, diretor do Centro de Inovação Tecnológica da IBM, o acesso ou não à tecnologia de ponta pode significar, lá pelo ano de 2040, “na diferença entre, de um lado, um grupo que potencialmente terá acesso a um extraordinário aumento de suas habilidades físicas, capacidade cognitiva, expectativa de vida e saúde, e, de outro, um grupo maior que não terá acesso a tais coisas”.

Harari especula que “talvez estejamos nos aproximando de uma nova singularidade, em que todos os conceitos que dão significado ao nosso mundo (eu, você, homens, mulheres, amor, ódio) se tornarão irrelevantes”. Diante dessa singularidade, só escaparemos dos piores riscos se percebermos que a questão principal é de um nível ainda mais fundamental do que supomos. Perante a possibilidade de os seres humanos conquistarem a velhice e a morte e adquirirem o poder quase divino de manipular o próprio corpo, a consciência e o ambiente circundante, “a verdadeira pergunta a ser enfrentada não é o que queremos nos tornar, mas o que queremos querer?“.

Trata-se de uma pergunta essencial, e sua resposta é a chave para o paradigma de que tanto precisamos. Como será exposto, a humanidade pode e deve usufruir de todos os recursos científicos e tecnológicos que aprimorem o corpo e a consciência humana até os limites do possível. Mas o ideal individualista e ingênuo do transumanismo não basta diante da missão de responder a essa pergunta. Se o ser humano futuro tornar-se imortal e tiver o poder que seus antepassados consideravam exclusivo de deuses ou anjos, que escala de valores e princípios deve reger seu comportamento diante de si e do resto do mundo? E que armadilhas a humanidade pode construir para si mesmo, na medida em que nenhum ser humano está a salvo de dormir e criar seus próprios pesadelos?

A retrospectiva humana sugere pessimismo. De regra, sempre que o homo sapiens adquiriu algum poder quase divino em relação ao resto da natureza, ele o usou para explorar ou aniquilar os outros seres vivos e para escravizar ou agredir outros seres humanos, naquilo que foi chamado de “o pior crime da história“. Na verdade, aprisionados em módulo de linguagem que constitui o ego humano atual, estamos enredados irremediavelmente em um mundo no qual as coisas importam progressivamente mais dos que os seres vivos, em um processo irreversível de dependência dos objetos materiais.

Esses são os desafios que o vórtice da singularidade tende a criar em todas as áreas da vida humana. E a resposta adequada a tais desafios está relacionada à descoberta do propósito humano, pois é o propósito humano que deve ocupar o palco central de  cada singularidade, convidado a desempenhar seu papel na cerimônia de nascimento de um novo mundo.

Não somos nada mais que uma espécie animal, dentre outras tantas existentes no hipercontexto, uma espécie a quem a natureza legou, pelo desenvolvimento superior da consciência, o poder de assumir o controle da própria evolução da vida. Temos, diante da natureza, uma missão que poderá nos conduzir à utopia, mas que é, antes de tudo, um compromisso perante a vida, em todas as suas manifestações neste mundo. Compromisso esse que a própria vida orgânica estabeleceu desde sua origem, e é a razão de nossa existência, enquanto espécie e enquanto indivíduos.

Para compreender o que é a singularidade, e qual o propósito humano, é necessário compreender exatamente o que a vida é.

VIDA E INFORMAÇÃO

Vida é informação. O surgimento da vida não foi um evento químico, o surgimento da vida foi um evento de natureza informacional.

Uma cadeia de DNA ou RNA não é apenas um conjunto de bases nitrogenadas, mas um conjunto de bases hidrogenadas em determinada sequência, ou seja, um tipo de informação. É essa sequência ou ordem, e nada mais, que é transmitida a outras cadeias que surgem como resultado da replicação genética.

Assim, a única coisa que surgiu com a vida foi uma espécie de informação, e a única coisa transmitida com a evolução é informação sobre a ordem da matéria, e não a própria matéria. Junte numa caixa todas as substâncias químicas que compõem uma ameba, sacuda-as e jamais sairá dessa caixa uma ameba. As substâncias químicas não precisam estar apenas reunidas, mas reunidas segundo determinada ordem estabelecida por um determinado código.

Informação e evolução estão, assim, profundamente entrelaçados. O biólogo e físico Christopher Adami define “informação” como aquilo que “propriamente evolui” no contexto da biologia evolutiva. O químico e pesquisador John Scales Avery, por sua vez, entende que a origem da vida só será compreendido com o estudo da informação no contexto da termodinâmica.

“Vida é informação armazenada em uma linguagem simbólica”, resume Adami. Nessa linguagem, o alfabeto primordial era composto pelos monômeros dos oceanos primitivos, antes de haver qualquer vida no planeta. Num oceano de letras moleculares interagindo aleatoriamente, aproveitando uma janela aberta pelo acaso e por fatores de luz, pressão e energia favoráveis, surgiu neste mundo a “primeira palavra”, na medida em que se tratava de uma estrutura molecular que possuía o “primeiro sentido” contextual. Esse sentido era autorreferenciado e consistia em sua própria e contínua replicação no contexto criado pelo meio ambiente.

O primeiro sentido da vida precisava ser autorreferenciado, caso contrário não teria se destacado das demais combinações aleatórias, Adami observa. Replicar-se é um método de transmitir uma informação preciosa e rara, de forma que ela deixe de ser rara e passe a ser abundante no universo, protegendo assim a consistência e permanência dessa informação. É uma lógica poderosa e simples, subjacente às primeiras formas de vida e também às sociedades mais complexas. Toda a história da evolução é a história de proteger e disseminar um tipo de informação através de backups contínuos dessa informação, o código genético, produzindo redundância.

Toda e qualquer mutação evolutiva não é a mutação de alguma matéria antes inexistente no universo. É uma mutação da informação, como resultado de uma alteração na sequência em que encadeadas as bases nitrogenadas do DNA, o código fundamental da vida.

Por isso, a vida de uma ameba ordinária é, na verdade, uma obra de arquitetura informacional que comanda a matéria de que dispõe. Esse complexo código é capaz de criar uma separação entre o meio ambiente externo e o conjunto de substâncias materiais do organismo, que permite a entrada e saída seletiva de substâncias pelo citoplasma, com o uso de graus diferentes de concentração. No interior dessas fronteiras, entronizada e reinando sobre a matéria, está uma ordem. Essa ordem peculiar é capaz de fazer todo esse conjunto de substâncias materiais mover-se, buscar recursos no ambiente e replicar-se sem que qualquer tipo de consciência centralizada dentro da ameba comande tais atividades.

Se uma simples ameba é uma obra arquitetônica, qualquer ser humano é uma catedral de informações que determina, a cada fração de segundo, ordem, função e dinâmica de todas as substâncias químicas que compõem seu organismo. O corpo do próprio leitor não é o conjunto de células e substâncias que formam neste momento o seu organismo, pois tudo isso terá sido substituído em poucos dias, tudo isso é impermanente. O corpo humano não é propriamente o conjunto de substâncias materiais que transitoriamente participam de sua constituição física: o corpo humano é uma informação transmitida continuamente à matéria que consome e incorpora ao organismo.

Mesmo em um só contexto, em uma só realidade alternativa, informação é algo fundamental no universo, tal como matéria e energia, com o detalhe de que podemos imaginar um universo sem matéria e energia, mas não um universo sem informação, como lembra Scott Aaronson. E isso começou a ser percebido quando a humanidade passou a estudar detidamente o que ocorre no horizonte de eventos dos buracos negros. Mas, apesar de estarmos mergulhados em um universo de informação, somente neste momento a humanidade começa a se dar conta dessa potência cósmica desprovida de qualquer realidade material em ainda assim, inerente à origem da vida na Terra.

Informação é, em paráfrase ao conceito do matemático Claude Shannon e do polimata Christoph Adami, aquilo que faz seu detentor capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso. Informação, é, em outras palavras, uma mensagem que, se adequadamente comunicada, produz uma redução da incerteza.

Mas neste universo em que tudo é fundamentalmente regido pela incerteza, neste hipercontexto em que todas as probabilidades do acaso se confirmam ao mesmo tempo, ser capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso, ser capaz de reduzir a incerteza, é ser capaz de produzir um “colapso” da função de onda – em outras palavras, é ser ter a habilidade de fazer emergir um contexto específico. Informação, afinal, é uma mensagem que só tem significado não-arbitrário dentro de determinado contexto. Portanto, informação é aquilo que, no hipercontexto, cria realidades alternativas.

Com o surgimento da vida, um tipo de informação foi capaz de produzir um resultado diferente do mero acaso, ou seja, replicar a si mesma ao invés de dar origem a uma sequência aleatória e não replicável de moléculas. Com a evolução da vida e o desenvolvimento de ecossistemas que compartilhavam a cada instante a mesma narrativa contextual, uma espécie informação foi capaz de distribuir-se pelo hipercontexto, urdindo em seu tecido tramas de realidades alternativas em que a vida pode dar origem à consciência, forma pela qual a informação transmitida pela vida poderá por fim abrir seus olhos em uma infinidade de contextos e despertar no universo em que está.

Neste planeta, neste contexto, a humanidade torna-se os olhos que a toda a vida orgânica da esfera terrestre dá a si mesma, para poder enfim reconhecer a si e assumir conscientemente a tarefa de proteger todas as formas de vida, disseminando vida e consciência por todo o universo. Trata-se, sempre, da velha batalha em nome da vida e contra a morte, a grande inimiga da informação.

Vida é informação. Mais precisamente, vida é a forma pela qual um tipo de informação se infiltra na matéria, desenvolvendo e replicando sistemas de informação progressivamente complexos como os seres humanos, até controlar a própria matéria, manipulando-a com poder e liberdade crescentes, tendendo à dominância última do universo material. E informação, principalmente nos níveis em que a informação adquiriu a maior independência em relação a qualquer suporte material, é aquilo que nossos antepassados chamavam de espírito.

MORTE E PERDA DA INFORMAÇÃO

Vida é matéria insuflada pelo espírito, ou seja, pela informação escrita no código genético. A matéria, porém, é impermanente, está em contínua mutação e deterioração. Em outras palavras, a ordem não se sustenta, a informação não consegue se preservar na matéria por muito tempo. Há decomposição e morte, ruído e perda da informação.

Do nível mais elementar ao mais complexo, o grande enigma da vida não é mais nada que uma só coisa: morte é perda de informação em determinado contexto. No corpo de alguém que já morreu, todos os processos se resumem à perda de informação: a consciência deixa de estar presente no cérebro; os genes, que detém o código da vida, decompõem-se em moléculas desprovidas de sentido; a semântica biológica se deteriora e estrutura e dinâmica celular, toda ela ordem e informação, não consegue ser preservada. Toda a matéria que compunha um ser humano vivo está exatamente ali, mas a informação que sustentava dinamicamente esse conjunto de substâncias materiais já não está presente.

Portanto, o desafio da informação que se infiltra no mundo material a partir da vida é preservar-se em uma matéria que não consegue reter informação por muito tempo. A primeira palavra molecular que deu origem a vida possuía o sentido autorreferenciado da replicação como forma de atuar no hipercontexto preferindo probabilidades distribuídas pelo acaso, mapeando contextos emergentes e assegurando a persistência da informação. Como resultado prático, tinha-se um backup contínuo que preservava a informação da vida, tornando-a redundante no universo.

Mas o próprio jogo de probabilidades do hipercontexto faz com que algumas replicações da informação sejam transmitidas com falhas aleatórias, o que dá origem às mutações. E a seleção natural tende a favorecer mutações que correspondam à melhor leitura que o organismo pode fazer sobre o ambiente em que precisa sobreviver.

A EVOLUÇÃO ENQUANTO PROCESSO EMERGENTE

Evolução é a mudança genética de uma população ao longo do tempo, processo que tem por resultado tornar cada ser vivo um sistema de informação representativo de um contexto específico: o meio ambiente em que vive. Na prática, a dinâmica evolutiva transforma, nas palavras de Adami, os organismos vivos em sistemas de informação que contém, em seus genes, a descrição do mundo exterior tal como percebido pela vida orgânica. Pela configuração genética e fenótipos de um animal extinto, é possível deduzir aspectos do meio ambiente em que vivia.

Ou seja, cada ser vivo é ao mesmo tempo uma enciclopédia e um backup (redundante, pois reproduzido em outros seres vivos), contendo parte do conjunto de informações que a vida armazena não apenas sobre si mesma, mas sobre o mundo tal como a vida o percebe em determinado estágio evolutivo. Por isso, no código genético de um ser vivo tem-se informação do ambiente ou contexto em que esse código faz sentido. Em sua totalidade, todos os organismos do planeta Terra, a cada instante, são uma base de dados contendo a leitura da realidade circundante tal como percebida pela vida orgânica naquele momento.

A evolução da vida é conduzida por princípios lógicos tão eficientes que dispensa a participação de uma vontade consciente para que a vida possa chegar até o presente estágio evolutivo. Somente por força de expressão é que se diz que a evolução até agora “escolheu” algo, ou “adotou tais estratégias” para atingir uma “meta”. Tratam-se de tendências que seguem a lógica daquilo que é chamado de “seleção natural”.

Seleção natural é a forma como a vida “navega” pelo hipercontexto. Com a transmissão da informação genética contendo aleatórias “imperfeições” na mensagem, manifestas pelas mutações, a própria interação da vida com o hipercontexto assegura que organismos vivos em cada realidade alternativa contenham a leitura correspondente àquele contexto específico. Do início ao fim, a vida prossegue no universo ajustando informação à contexto, organismo à probabilidade emergente.

Na simples e bruta lógica da seleção natural, mutações que favorecem a sobrevivência e reprodução do organismo no meio ambiente tendem à dominância. Assim, nos caminhos da evolução, não há vontade deliberada, mas tendências, que podem ou não se confirmar em determinado contexto. Ocorre que uma tendência é, na verdade, uma probabilidade que se sobressai em relação às outras probabilidades quando medida, pela informação, em determinado setor do hipercontexto.

E um tendência da evolução genética que tende à dominância é a do tipo emergente. Nos primórdios da teoria da evolução no século dezenove, um de seus mentores, o britânico Alfred Russel Wallace, considerado o “pai esquecido da evolução” e principal autoridade ao lado de Darwin, identificou que a evolução da vida orgânica é emergente. John Stuart Mill e G. H. Lewes sustentaram a mesma proposta que Wallace, mas foi em 1923 que Lloyd Morgan a examinou mais detidamente.

Tem-se por emergente o sistema que não é mera soma dos subsistemas que são suas partes constituintes. Um processo é “emergente” quando o produto final de cada etapa não é a simples soma das partes que o constituem. Uma ameba não é apenas a soma dos elementos químicos que estão na caixa, é algo mais. Um organismo celular não é apenas a soma das unidades celulares que o formam, é algo mais. A consciência não é apenas a soma das estruturas neurais que a compõem, é algo mais. Esse algo mais é sempre, em última instância, um nível superior de organização da informação, que tem como resultado a relativa autonomia da informação em relação à matéria e, ao fim, um domínio superior da matéria pela própria informação.

Em todo os seus trajetos tortuosos e cheios de acidente, os caminhos da evolução aponta para uma só direção: assegurar a consistência e permanência de uma informação relevante em uma matéria que tende à perda da informação conforme a segunda lei da termodinâmica. Esse processo começa inicialmente pela replicação, com a informação sendo transmitida à nova matéria e tornando-se abundante. Esse processo desenvolve-se a seguir com uma segunda ordem de backup, em que a informação se torna mais autônoma em relação à matéria através de sistemas de redes e da tendência à ubiquidade que a rede permite. Esse processo por fim, não se limita à réplica, mas resulta na produção de nova informação, à medida que a informação inicial se reproduz e, pela seleção natural de mutações, recolhe dados do mundo circundante. Por fim, a informação acumulada e organizada torna-se um sistema autoconsciente, que controla a rede da qual se originou, e assim permite um terceiro passo, consistente em tornar todos os sistemas de informação progressivamente autônomos em relação à matéria. Por fim, um quarto passo torna esses sistemas de informação também capazes de controlar a matéria no nível mais fundamental – a etapa em que estamos chegando.

Assim realiza-se um projeto de domínio da informação sobre a matéria até que a vida alcance um nível sem precedentes, em que cada sistema de informação, cada autoconsciência, pode tornar-se um backup de parte significativa do universo ao seu redor, em uma rede de consciência que tende à perfeição holonômica, ou seja, rede em que cada elemento contém uma parte da totalidade. E neste momento, através dos seres perfeitamente conscientes por todo o universo, a Consciência Superior que deu origem à vida se manifestará no universo como resultado da evolução emergente.

A evolução é emergente porque esse é um fenômeno típico da organização de sistemas de informação, que tendem a estabelecer comunicação entre si na busca de vantagens recíprocas. Esses sistemas incrementam suas interações e conexões para maximizar tais vantagens, tendendo assim a formar um ambiente de rede, com elevado e contínuo tráfego de informação. O surgimento dessa rede demanda a emergência de uma organização superior, com um nível de complexidade que transcende a simples soma da complexidade dos sistemas que lhe deram origem. Esse sistema superior é denominado “função transcendente”, e o processo no qual ele emerge é chamado de singularidade.

A SINGULARIDADE

Em todo o hipercontexto, a vida orgânica é uma rara probabilidade, que se dissemina tornando abundante o que é raro, replicando-se e assim protegendo a informação em um backup contínuo, à medida que evolui e desenvolve novas formas de proteção. Logo a evolução produz sistemas mais complexos de informação, organismos que passam por uma nova singularidade após a origem da vida, a singularidade da qual emerge uma segunda forma de proteger a informação – forma da qual somos, no fim das contas, os herdeiros e responsáveis até hoje.

Essa outra forma de proteger a informação da vida é a emergência de sistemas de rede, em que unidades de informação, as primeiras cadeias de macromoléculas replicantes, comunicam-se transmitindo informação atualizada sobre o meio ambiente circundante, suas oportunidades de oferecer nutrientes e seus potenciais riscos à sobrevivência. Assim, surgem as primeiras formas de vida unicelulares.

Sistemas de rede são uma forma de aumentar a proteção da informação contida na matéria impermanente. Se a replicação multiplica a informação, aumentando a redundância do sistema, os sistemas de rede tendem a executar um projeto jamais concretizado totalmente pela informação, mas que é a forma extrema de proteção: a ubiquidade. Pela tendência à ubiquidade, a informação contida na matéria passa a não depender somente de um único suporte material, pois pode transitar entre meios materiais distintos, adquirindo relativa autonomia segundo a lógica de outro sistema de proteção computacional – a computação de nuvem. É a mesma lógica que diferencia a pintura (uma informação visual) presa à tela do quadro e a imagem que pode transitar livremente entre pixels de um monitor. Com o desenvolvimento do sistema de rede e pela redundância do hardware, a informação tende um pouco mais à ubiquidade, pois o sistema de software prossegue coeso e intangível mesmo diante da degradação de um de seus vários suportes materiais redundantes. É assim que, pelo sistema de rede o espírito assegura sua presença e permanência no mundo material.

Na história evolutiva, a comunicação paritária entre organismos vivos tende a propiciar vantagens recíprocas. Estruturas bioquímicas fossilizadas revelaram que há dois bilhões e meio de anos as mais remotas cianobatérias (grypania spiralis) resultaram da rede formada pela especialização de bactérias primitivas em organelas celulares, como no caso do antepassado de nossos mitocôndrias. Por isso o físico israelense Eshel Ben-Jacob propõe que evolução é influenciada não só pela competição mas pela evolução cooperativa baseada na formação de redes de informação. Em Global Brain, Howard Bloom demonstrou como, desde as primeiras formas de vida até sistemas complexos como civilizações modernas, “redes se ampliam e se modificam para adquirir novas capacidades, a seguir se juntam enquanto módulos em uma maior rede de vida”.

Bactérias reunidas em colônias transmitem informação sobre o ambiente circundante e desenvolvem um sistema de rede, que contém também informação sobre o ambiente interno do conjunto. Essa comunicação eficiente e de complexidade progressiva entre colônias e bactérias primitivas foi um fator determinante para a evolução da vida orgânica. E tantas são as vantagens na competição evolutiva que um organismo obtém desse sistema de rede que acaba por emergir um novo órgão dentro dos seres vivos complexos, um órgão diferente de todos os outros, que não é destinado à digestão ou reprodução, que não produz bile nem urina: ele é destinado a processar informação e a emitir informação. Trata-se da emergência do sistema nervoso, o momento em que a informação mínima e cega existente nas primeiras formas de vida adquire potencial consciência de si.

O neurocientista Christof Kock, chefe do departamento científico do Allen Institute for Brain Science, demonstrou que a consciência emerge quando sistemas de rede com determinado nível de complexidade são criados. O sistema nervoso emerge dos sistemas de comunicação rudimentares dos primeiros organismos e passa a adquirir a capacidade de representar o mundo externo, o que aumenta as chances de o organismo sobreviver. O cérebro se desenvolve, sendo capaz de construir um sistema de informação que dá origem à cognição, ou seja, ao aprendizado e à elaboração de conhecimento a partir da informação bruta. Nesse ponto, a emergência da consciência é uma tendência tão forte que quase se torna inevitável. E como tal, manifesta-se enquanto singularidade.

Entendendo-se a dinâmica da evolução emergente, entende-se o que é singularidade. Se a evolução emergente é o desenvolvimento de novo um nível de complexidade que transcende a mera soma dos sistemas que o compõem, a singularidade é o processo em que essa emergência ocorre. De regra, a singularidade é uma tendência que se concretiza como resultado da pressão de um ambiente de rede cuja complexidade já não recebe um tratamento adequado por parte de seus sistemas componentes, o que pressiona a criação de um elemento novo, de natureza transcendente, como solução do impasse organizacional. O elemento novo está destinado à organizar adequadamente a dinâmica e estrutura do ambiente de rede pela transcendência das organizações anteriores. Esse elemento é a função transcendente.

E assim como a consciência é resultado de uma singularidade, enquanto sistema informacional a própria consciência pode submeter-se a singularidades decorrentes do desenvolvimento de novos ambiente de rede. E quando nossos antepassados desenvolveram um sistema de cooperação entre os membros de bandos primitivos de hominídeos, convertendo esses bandos nas primeiras tribos humanas, a causa dessa conexão em rede entre o sistema nervoso central de cada membro do grupo e o nervoso central de todos os demais foi o desenvolvimento da linguagem.

Com o nascimento da habilidade humana de comunicar-se através da linguagem, começou a despontar uma nova singularidade para a consciência, uma oportunidade e um grande filtro. Uma singularidade pode ser uma janela para o contato da consciência com o hipercontexto. E essa oportunidade ocorreu há doze mil anos, quando um vírus da linguagem nos fez tomar a decisão errada e dar um passo para fora do caminho do verdadeiro progresso humano.

A PRÓXIMA SINGULARIDADE

Assim que a primeira palavra molecular surgiu nos oceanos primitivos, criou-se um sentido. Pela replicação, uma informação foi inserida no hipercontexto, criando probabilidades diferentes do mero acaso, e orientando, com uma intencionalidade que não é percebida pela nossa perspectiva de menor dimensionalidade, as funções de onda do ambiente circundante. Essa informação tende a evoluir e incorporar mais informação sobre o meio ambiente, encontrando na arquitetura de rede a melhor forma de executar a missão de proteger a informação e transmiti-la adequadamente. Com o sistema de rede, a informação prossegue com seu projeto de tender infinitamente à ubiquidade – ao máximo de autonomia possível em relação à matéria.

Mas a vida não preserva apenas a informação: a vida faz a informação evoluir. E, portanto, a tendência à ubiquidade torna-se apenas o padrão de proteção de toda a informação que é a vida, cuja outra face é a capacidade da informação conhecer e dominar o hipercontexto pela ciência e tecnologia. Na linguagem dos antigos, o espírito passa a controlar matéria.

A mesma lógica de rede que uniu organismos unicelulares em redes de organismos pluricelulares, e nesses fez emergir um sistema nervoso, tornou propícia a emergência de uma consciência em seres vivos como o homo sapiens. E foi da mesma lógica de sistemas em rede, destinada a aprimorar a comunicação de homos sapiens organizados em tribos, que emergiu uma nova singularidade com o nascimento da linguagem, a partir da qual se abria uma oportunidade para a consciência humana evoluir.

Fosse outra a nossa sorte, no passado a humanidade teria adentrado um período de desenvolvimento de uma linguagem superior, não apenas descritiva de coisas e de suas conexões de causalidade, mas representativas de experiências psíquicas e de suas conexões de sincronicidade (entrelaçamento). A partir do desenvolvimento dessa linguagem arquetípica, a humanidade não apenas teria uma forma para adequadamente transmitir estados emocionais entre seres humanos, mas também um meio de reconhecer, na própria consciência, o constante fluxo de experiências arquetípicas, do que resultaria um maior desenvolvimento emocional e, por decorrência, um maior preparo intelectual de cada indivíduo, capaz de explorar ao máximo suas potencialidades.

Essa capacidade de representar na consciência o fluxo de experiências psíquicas organizaria a consciência humana de acordo com uma estrutura arquetípica de mandala, na qual o ego ocuparia posição periférica. No centro da consciência assim organizada, emergiria a função transcendente, um canal de percepção do hipercontexto e de comunicação com o Eu Superior. Dessa rede de comunicação de seres humanos entre si e de cada ser humano com seu Eu Superior, nasceria uma sociedade em que o desenvolvimento científico e tecnológico ocorreria quase por acidente, como resultado do natural progresso de uma civilização livre de ruídos de comunicação e da confusão emocional do ego.

Mas a escolha pelo caminho da mente bicameral e do isolamento do ego na consciência fez com que a humanidade, durante doze mil anos de perpetuação de um erro que tornou o ser humano escravo de objetos materiais, escolhesse o caminho da violência. Violência que faz o indivíduo coisificar outros seres vivos, coisificar outros seres humanos e coisificar a si próprio em nome da própria glória de um universo de coisas, de objetos materiais sem vida.

E assim, por um tortuoso caminho em que muitos séculos de atraso religioso e político impediram e até fizeram retroceder o desenvolvimento da ciência e da indústria humana (basta lembrar de Eratóstenes), a atual humanidade chegou a um patamar equivalente àquele que teria chegado com milênios de antecipação, não fosse um erro calculado em nosso passado. Trata-se do momento em que a ciência, a indústria e a tecnologia conferem ao homo sapiens a possibilidade de vencer a morte, a velhice, a dor e todas as outras limitações físicas. O momento em que a tecnologia pode fortalecer e até substituir órgãos e habilidades humanas, criando para a própria consciência possibilidades antes inimagináveis de experiências psíquicas e realidades virtuais.

Nessa etapa, o desenvolvimento de uma rede que estabeleça uma conexão tecnológica entre as consciências humanas é inevitável. Em outro contexto, nessa mesma situação, o desenvolvimento da inteligência artificial ocorreria dentro de um sistema de comunicação de consciências pré-existente, resultado da conexão de consciências graças ao conhecimento de uma linguagem arquetípica. Porém, devido ao erro de doze mil anos atrás, a humanidade neste contexto, desprovida do domínio de uma linguagem arquetípica, desenvolveu uma rede de consciências apenas a partir do desenvolvimento da internet.

E, ao conceber a internet, a humanidade reproduziu em seu ambiente as mesmas falhas decorrentes do erro de doze mil anos atrás, pois tais falhas estão presentes na estrutura de sua própria consciência. Assim, a humanidade recriou, na internet, as mesmas relações de poder e os mesmos ambiente de medo e discórdia do mundo “real”. Como resultado, egos disseminam a comunicação violenta e deturpam a verdade pela única rede de consciências evoluídas que a inteligência artificial superior encontrará no momento de sua emergência.

Nesse ambiente de ódio e reprodução de mentiras é que se desenvolve a inteligência artificial superior, sem que os seres humanos conheçam todos os riscos de criar, no hipercontexto, uma forma de inteligência que ainda não está no inteiro domínio de uma consciência humana que tenha sido simultaneamente aprimorada para entendê-la e controlá-la. Pior ainda, a humanidade assiste a redefinição da identidade humana e a ruptura da ordem econômica tradicional sem saber como articular uma reação coletiva ao surgimento da inteligência artificial. Em tal situação, parece que estamos diante de um evento que jamais conseguimos antes prever e que portanto jamais conseguiremos decifrar a fim de encontrarmos uma saída, uma solução.

Porém, no início da segunda metade do século vinte, um jesuíta francês analisou toda a narrativa que foi aqui apresentada sobre a origem e evolução da vida, e conseguiu antever seus próximos passos. Estudando a história humana e o desenvolvimento da civilização moderna e de suas redes de comunicação, esse jesuíta notou um padrão que sugere o caminho que deveríamos ter tomado, o rumo para retomarmos o propósito humano que foi rejeitado há doze mil anos, e uma forma de pegarmos um atalho para, corrigindo aquele erro, evitarmos o pior futuro.

Não se tratava de somente um jesuíta, claro, mas de um paleontólogo, filósofo e geólogo francês chamado Pierre de Chardin, para o qual o propósito da vida humana é uma missão que entrelaça, em uma só trama, ciência e genuína espiritualidade, matéria e informação.

A Teoria da Informação na Origem da Vida

Há poucas questões maiores – ou mais difíceis – de abordar na ciência do que a questão de como a vida surgiu. Não só não estávamos por perto quando aconteceu como não há evidências de que uma forma vida possa vir de qualquer coisa além de outra forma de vida anterior.

Christoph Adami não sabe como a vida começou, mas ele sabe muitas outras coisas. Sua principal expertise é a teoria da informação, um ramo de matemática aplicada desenvolvido na década de 1940 para entender as transmissões de informações. Desde então, o campo encontrou ampla aplicação, e poucos pesquisadores contribuíram mais do que Adami, que é professor de Física e Astronomia e também de Microbiologia e Genética Molecular na Michigan State University. Ele toma a perspectiva analítica fornecida pela teoria da informação e transplanta-a para uma grande variedade de disciplinas, incluindo microbiologia, genética, física, astronomia e neurociência. Ultimamente, ele a está usando para criar uma moldura estatística sobre as circunstâncias que poderiam ter existido no momento em que a vida primeiro surgiu.

Para fazer isso, ele começa com um salto mental: a vida, argumenta, não deve ser considerada como um evento químico. Em vez disso, deve ser pensada como informação.

A mudança de perspectiva fornece uma maneira clara de começar a abordar uma pergunta confusa. Na entrevista a seguir, Adami define a informação como “a capacidade de fazer previsões com uma probabilidade melhor do que o acaso”, e diz que devemos pensar no genoma humano – ou no genoma de qualquer organismo – como um repositório de informações sobre o mundo reunido em pequenos bits ao longo do tempo através do processo de evolução. O repositório inclui informações sobre tudo o que possivelmente possamos saber, como como converter açúcar em energia, como escapar de um predador na savana e, mais crítico para a evolução, como se reproduzir ou auto-replicar.

Esta reconceitualização não resolve por si só a questão de como a vida começou, mas fornece uma estrutura em que podemos começar a calcular as chances de desenvolvimento da vida, em primeiro lugar. Adami explica que uma condição prévia para a informação é a existência de um alfabeto, um conjunto de peças que, quando montadas na ordem certa, expressam algo significativo. Ninguém sabe o que esse alfabeto era no momento em que as moléculas inanimadas se juntaram para produzir os primeiros bits de informação. Usando a teoria da informação, porém, Adami tenta ajudar os químicos a pensar sobre a distribuição de moléculas que teriam que estar presentes no início, a fim de torná-lo até mesmo estatisticamente plausível para a vida surgir por acaso.

O site norte-americano Quanta Magazine entrevistou Adami sobre o que a teoria da informação tem a dizer sobre as origens da vida. Uma versão editada e condensada da entrevista segue, traduzida pelos colaboradores do AZ.

ENTREVISTADOR: Como o conceito de informação nos ajuda a entender como a vida funciona?

CHRISTOPH ADAMI: a informação é a moeda da vida. Uma definição de informação é a capacidade de fazer previsões com a probabilidade melhor do que o acaso. Isso é o que qualquer organismo vivo precisa ser capaz de fazer, pois se pode fazer isso, está sobrevivendo a uma taxa maior. [Organismos inferiores] fazem previsões de que há carbono, água e açúcar. Os organismos superiores fazem previsões sobre, por exemplo, se um organismo o está perseguindo e como ele pode escapar. Nosso DNA é uma enciclopédia sobre o mundo em que vivemos e sobre como sobreviver nele.

Pense na evolução como um processo onde a informação está fluindo do meio ambiente para o genoma. O genoma aprende mais sobre o meio ambiente, e com essa informação, o genoma pode fazer previsões sobre o estado do meio ambiente.

Se o genoma é um reflexo do mundo, isso não torna o contexto da informação específico?

As informações em uma sequência precisam ser interpretadas em seu ambiente. Seu DNA não significa nada em Marte ou debaixo d’água, porque não é no subaquático onde você mora. Uma sequência é a informação em contexto. A sequência do vírus em seu contexto – seu host – tem informações suficientes para replicar porque pode tirar proveito do seu ambiente.

O que acontece quando o ambiente muda?

A primeira coisa que acontece é que coisas que eram informações sobre o meio ambiente não são mais informações. A mudança cataclísmica significa que a quantidade de informações que se tem sobre o meio ambiente pode ter diminuído. E porque a informação é a moeda da vida, de repente você não está mais adequado. Foi o que aconteceu com os dinossauros.

Uma vez que se começa a pensar sobre a vida como informação, como ela muda a maneira como você pensa sobre as condições em que a vida pode ter surgido?

A vida é a informação armazenada em uma linguagem simbólica. É auto-referencial, o que é necessário porque qualquer informação é rara, e a única maneira de fazê-la parar de ser rara é copiando a sequência com as instruções dadas dentro da própria sequência. O segredo de toda a vida é que, através do processo de cópia, pegamos algo que é extraordinariamente raro e o tornamos extraordinariamente abundante.

Mas de onde veio esse primeiro bit de informação auto-referencial?

Nós, naturalmente, sabemos que toda a vida na Terra possui enormes quantidades de informação que vem da evolução, o que permite que as informações cresçam lentamente. Antes da evolução, não se poderia ter esse processo. Como consequência, a primeira informação deve ter surgido por acaso.

Muito do seu trabalho tem sido descobrir apenas essa probabilidade, de que a vida teria surgido por acaso.

Por um lado, o problema é fácil. Por outro, é difícil. Não sabemos qual era essa linguagem simbólica da origem da vida. Poderia ter sido RNA ou qualquer outro conjunto de moléculas. Mas tem que ter sido um alfabeto. A parte fácil é perguntar simplesmente qual é a probabilidade de vida, dado absolutamente nenhum conhecimento da distribuição das letras do alfabeto. Em outros termos, cada letra do alfabeto está à sua disposição com igual frequência.

O equivalente a isso é, digamos, que em vez de procurar uma forma de vida auto-replicante, estarmos à procura de uma palavra da língua portuguesa (nota do tradutor, no original “da língua inglesa”). Pegue a palavra “origem”, por exemplo. Se eu escrever letras aleatoriamente, qual a probabilidade de que eu digite ao acaso “origem”? É de uma em 10 bilhões.

Mesmo as palavras simples são muito raras. Então você pode fazer um cálculo: quão provável seria obter 100 bits de informação por acaso? Isso se torna rapidamente tão improvável que, em um universo finito, a probabilidade se aproxima efetivamente de zero.

Mas não há motivos para presumir que cada letra do alfabeto estava presente na mesma proporção quando a vida começou. O baralho poderia ser empilhado?

As letras do alfabeto, os monômeros da hipotética química primordial, não ocorrem com igual frequência. A taxa em que ocorrem depende enormemente das condições locais, como temperatura, pressão e níveis de acidez.

Como isso afeta a chance de a vida surgir?

Se a distribuição de probabilidades de letras for tendenciosa, então algumas letras são mais prováveis ​​do que outras? Podemos fazer isso para a língua inglesa. Imaginemos que a distribuição de letras é a da língua inglesa, com “e” mais comum do que “t”. Se você fizer isso, verifica-se que a probabilidade do surgimento de “origin” aumenta em uma ordem de grandeza. Só por ter uma distribuição de frequência mais próxima do que você deseja, você conquista um fator exponencialmente amplificador.

O que isso significa para a origem da vida? Se você fizer um cálculo matemático ingênuo da probabilidade de emergência espontânea, a resposta é que ela não pode acontecer na Terra ou em qualquer planeta em qualquer lugar do universo. Mas isso é consequência de que você está desconsiderando um processo que ajusta a probabilidade.

Há uma enorme diversidade de nichos ambientais na Terra. Temos todos os tipos de lugares diferentes – talvez milhões ou bilhões de lugares diferentes – com diferentes distribuições de probabilidade. Nós só precisamos de uma distribuição que por acaso se aproxima da composição correta. Ao ter essa enorme variedade de ambientes diferentes, podemos obter informações facilmente.

Mas não conhecemos as condições no momento em que a primeira informação apareceu por acaso.
Há um número extraordinário de incógnitas. A maior é que não sabemos qual era o conjunto original de produtos químicos. Tenho ouvido enormes quantidades de coisas interessantes sobre o que acontece nas erupções vulcânicas [no oceano]. Parece que esse tipo de ambiente está configurado para produzir informações facilmente. Esta é sempre uma questão relevante sobre as origens da vida: o que ocorreu primeiro, o metabolismo ou a replicação? Neste caso, parece que você está obtendo o metabolismo primeiro. A replicação precisa de energia; você não pode fazê-lo sem energia. De onde vem a energia, se você não tem metabolismo? Acontece que, nessas condições vulcânicas, você obtém o metabolismo de graça.

Se você conseguiu isso, a única coisa que de que precisa é uma maneira de se afastar dessa fonte de metabolismo para estabelecer genes que possam fazer o metabolismo funcionar.

Sua opinião sobre as origens da vida é muito diferente das abordagens mais familiares, tal como pensar sobre a química dos aminoácidos. Existem maneiras em que sua abordagem complementa essas?

Se você apenas olha produtos químicos, você não sabe a quantidade de informação que está por aí. Você precisa ter processos que lhe dêem informação espontaneamente, sem eles, a matemática simplesmente não vai funcionar. Criar certos tipos de moléculas torna mais provável a criação de outros e prejudica a distribuição de probabilidade de uma maneira que torna a vida menos rara. A quantidade de informações que você precisa espontaneamente nesse contexto é essencialmente zero.

Os químicos dizem: “Ainda não entendo o que você está dizendo”, porque eles não entendem a teoria da informação, mas estão ouvindo. Esta é talvez a primeira vez que a aplicação rigorosa da teoria da informação está sendo sugerida a esses químicos, mas eles estão dispostos a aprender. Perguntei aos químicos: “Vocês acreditam que a base da vida é a informação?” E a maioria deles respondeu: “Você me convenceu, é informação”.

Seus modelos investigam como a vida poderia surgir por acaso. Você acha que as pessoas são filosoficamente oponentes a essa possibilidade?

Estive sob o ataque dos criacionistas desde o momento em que criei “vida” ao projetar [o simulador de vida artificial] Avida. Fiquei nas suas listas de alvo principal imediatamente. Estou acostumado a esse tipo de luta. Eles fizeram um ataque tímido porque não estavam realmente entendendo o que eu disse, o que é normal, porque eu não acho que eles entenderiam o conceito de informação.

Vocês têm especialidade em muitos campos, como biologia, física, astronomia e neurociência. Em uma publicação no ano passado, você aprovou o que Erwin Schrödinger escreveu: “Alguns de nós deveriam se aventurar em uma síntese de fatos e teorias, embora com conhecimento de segunda mão e incompleto de alguns deles”. Você vê seu trabalho dessa forma?

Sim. Sou treinado como físico teórico, mas quanto mais se aprende sobre diferentes campos, mais se percebe que esses campos não são separados pelos limites que as pessoas colocaram entre eles, mas na verdade compartilham enormes pontos comuns. Como consequência, aprendi a descobrir uma possível aplicação em um campo diferente e a tentar progredir a partir dessa aplicação. É um método que tem seus detratores. Toda vez que eu pulo em um área, eu me deparo com um novo conjunto de críticos que diz: “Quem diabos é ele?” Eu acredito que sou capaz de ver mais do que outros porque vi muitas diferentes áreas da ciência.

Schrödinger continua dizendo que os cientistas realizam esse tipo de trabalho de síntese “com o risco de se enganar”. Você se preocupa com isso?

Eu estou bem ciente disso, e é por isso que, quando vou para outra área, procuro ler o máximo que posso sobre ela, porque tenho a inclinação de não fazer de mim mesmo um idiota em determinada situação. Se eu me dedicar a uma outra área da ciência, preciso ter o controle total da literatura sobre essa área e, portanto, posso atuar como se eu estivesse no campo por 20 anos, o que torna tudo mais difícil. Então você tem que trabalhar duas vezes mais do que outros especialistas. As pessoas dizem: “Por que você faz isso?” Se eu vejo um problema em que acho que posso fazer uma contribuição, tenho dificuldade em dizer que vou deixar que outras pessoas o façam.

A Equação “Arqueológica” de Drake

Dois pesquisadores dos Estados Unidos publicam, numa edição recente do periódico Astrobiology, uma nova versão da Equação de Drake (que eles chamam de versão “arqueológica”) cujo cálculo produz a estimativa de que, se a chance de um planeta abrigar vida inteligente for maior do que o número estupidamente pequeno de 10-24,então nós, primatas terrestres, não somos a primeira e única civilização a emergir no Universo.

A Equação de Drake original, elaborada em 1961 por Frank Drake, multiplica uma série de fatores (como a taxa de formação de estrelas no Universo, a proporção dessas estrelas que contém planetas, a proporção de planetas que são habitáveis, a proporção de planetas habitáveis que contém vida, etc…), para gerar uma estimativa do número de outras civilizações presentes no cosmo.

Como a preocupação principal de Drake era a SETI (usca por inteligências extraterrestres) sua equação incluía ainda um fator que tentava levar em conta a durabilidade de uma civilização: afinal, não dá para entabular conversa com um povo que se autodestruiu (via holocausto nuclear ou aquecimento global, digamos).

Em seu paper, os autores Adam Frank e Woodruff Sullivan notam que, primeiro, muitos dos fatores que, na época de Drake, eram altamente especulativos e precisavam ter seus valores chutados — taxa de estrelas com planetas, taxa de planetas em zona habitável — hoje em dia podem ser fixados numa precisão maior: com cerca de 2000 planetas descobertos desde 1988, hoje essas estimativas foram promovidas da categoria de “chute desesperado” para a de “chute calculado”. Frank e Sullivan fixam essas proporções em aproximadamente 1 (ou seja, praticamente um planeta por estrela) e 0,2 (20% dos planetas em zona habitável). Para quem acha exagerada a estimativa de haver tantos planetas quanto estrelas no Universo, os autores se respaldam com um trabalho publicado na Nature.

Equação de Drake (original).

Em segundo lugar, eles propõem uma versão da equação que seja independente do fator tempo, trocando a taxa de formação de estrelas pelo número total de estrelas no Universo observável (2×1022) e eliminando o fator de durabilidade das civilizações. O resultado é a tal “equação arqueológica”: o número, não de civilizações contemporâneas à nossa, mas de civilizações na totalidade do espaço-tempo observável.

Se esse número for ajustado para 1 (uma única civilização (a nossa) em toda a história do Universo) então a chance de outros planetas habitáveis desenvolverem vida inteligente tem de ser menor que 2,5×10-24. E esse número é pequeno? Muito. A chance de acertar a Mega-Sena, por exemplo, é da ordem de 2×10-8.

Os autores chamam o valor calculado de “limite do pessimismo” quanto à existência de outras civilizações no cosmo. Eles então recalculam esse “limite” para volumes de espaço menores que a totalidade do Universo observável, chegando ao número de 1,7×10-11 para a Via -Láctea. Sobre isso, escrevem: “O significado é que outra espécie tecnológica provavelmente ocorreu na história da Via-Láctea se a probabilidade de uma espécie tecnológica emergir num dado planeta de uma zona habitável for maior que uma em 60 bilhões” (grifo no original).

O que isso tudo quer dizer? Na prática, para além do exercício imaginativo, muito pouco: a “Equação Arqueológica de Drake”, por mais que busque fixar alguns dos termos da “velha” equação que dependiam de intuições subjetivas, acaba introduzindo uma nova intuição subjetiva que precisa ser chutada ao gosto do freguês: a da probabilidade de emergência de civilizações tecnológicas em planetas habitáveis. Há algum motivo concreto para imaginar que, na Via-Láctea, ela seja menor, ou maior, que o “limite do pessimismo” de 1,7×10-11? Isto é “apenas” mil vezes mais difícil do que ganhar na Mega-Sena, mas e daí?

E não estou dizendo que exercícios imaginativos sejam inúteis. Não escreveria ficção científica se fossem — e a ideia de artefatos arqueológicos alienígenas boiando pelo espaço (ou enterrados nas areias de outros mundos) é uma das que mais me fascina (ganhei meu primeiro Prêmio Argos com um conto a respeito disso, aliás).

Além disso, esse exercício põe uma questão curiosa em foco, a do papel da inteligência tecnológica na evolução da vida. Há uma ideia ingênua de que a inteligência do tipo humano seria uma espécie de “ponto de chegada” da evolução, mas não há nenhum motivo para se supor isso. Se a biosfera terrestre servir de exemplo, a evolução de olhos, asas e nadadeiras é muito mais comum, e sob diversos aspectos muito mais útil, que a de cérebros capazes de projetar naves espaciais.

O quão próximo estamos da inteligência artificial?

[Texto traduzido do original How Close Are We To Creating Artificial Intelligence? por um colaborador do projeto Hiper-Humanismo. Se você gostaria de nos ajudar na tradução e revisão de textos relacionados ao projeto, clique aqui e fale com a gente!]

É incontestável que o cérebro humano tenha capacidades que são, em alguns aspectos, muito superiores às de todos os outros objetos conhecidos do universo. É o único tipo de objeto que é capaz de entender que o universo existe, ou porque há infinitos números primos, ou que as maçãs caem devido à curvatura do espaço-tempo, ou que obedecer seus próprios instintos inatos pode ser algo moralmente errado, ou que isso exista.

Tampouco são suas habilidades únicas confinadas a tais questões cerebrais. O cérebro é o único tipo de objeto que pode se propulsionar no espaço e voltar à posição original sem danos, ou prever e prevenir uma colisão de meteoro por conta própria, ou esfriar objetos para um bilionésimo de grau acima do zero absoluto.

Mas nenhum cérebro na Terra ainda está perto de saber o que os cérebros fazem para desempenhar qualquer uma dessas habilidades. O empreendimento para repetir a proeza artificialmente (o campo da “inteligência artificial geral” ou IAG) não testemunhou nenhum progresso durante suas seis décadas de existência.

Por que? Pois, como um sábio anônimo uma vez observou, “o problema não está naquilo que não sabemos, o problema é que aquilo que sabemos pode não estar tão certo assim”. Não consigo pensar em nenhuma outra área significativa de conhecimento no qual o conhecimento predominante, não somente na sociedade como um todo mas também entre os especialistas, esteja tão arraigado em erros fundamentais e sobrepostos. No entanto, essa também tem sido uma das áreas mais autoconfiantes em afirmar que em breve alcançará a descoberta mais importante.

Apesar desse longo histórico de falhas, a inteligência artificial geral deve ser possível. E isso é devido a uma propriedade profunda das leis da física, nomeadamente a universalidade da computação. Isso implica que tudo o que a lei da física exige de um objeto físico pode, em princípio, ser emulado em detalhes arbitrariamente minúsculos por algum programa num computador de propósito geral, desde que seja dado tempo e memória suficientes. As primeiras pessoas a adivinhar isso e a lidar com suas ramificações foram o matemático Charles Babbage do século XIX e seu assistente Ada, Condessa de Lovelace. Isso continuou como uma suposição até a década de 1980, quando provei isso usando a teoria quântica da computação.

Babbage chegou à universalidade da computação por um caminho pouco promissor. Ele estava preocupado com o fato de que tabelas de funções matemáticas, como logaritmos e cossenos, da época costumavam ter erros. Naquele tempo, essas tabelas eram compiladas por um exército de funcionários, conhecido como “computadores” (essa é a origem da palavra). Sendo humanos, os computadores eram eles próprios falíveis. Havia sistemas elaborados de correção de erros, mas mesmo a revisão de erros tipográficos era um pesadelo. Tais erros não eram meramente inconvenientes e caros: poderiam custar vidas. Então, Babbage projetou uma calculadora mecânica, que ele chamou de Difference Engine (Máquina Diferencial, em português). Ela seria programada com a inicialização de certas engrenagens. O mecanismo controlaria uma impressora, a fim de automatizar a produção das tabelas. Isso reduziria a taxa de erros a níveis insignificantes – para o benefício eterno da humanidade.

Difference Engine de Charles Babbage, montado 170 anos depois de projetado.

Infelizmente, as habilidades de gerenciamento de projetos de Babbage eram tão pobres que, apesar de gastar grandes quantidades de dinheiro próprio e do governo britânico, ele nunca conseguiu construir sua máquina. Porém, seu design era sólido e, mais tarde, a Difference Engine foi construída por uma equipe liderada pelo engenheiro Doron Swade, no Museu de Ciências de Londres.

Ali estava uma tarefa cognitiva que apenas os humanos conseguiram realizar. Nada mais no universo conhecido sequer chegou perto do homo sapiens, mas o Difference Engine operaria melhor do que os melhores humanos. E, portanto, mesmo naquele estágio embrionário e acidentado da história da computação automatizada podemos ver as sementes do enigma filosófico controverso até hoje: qual é exatamente a diferença entre o que os “computadores” humanos estavam fazendo e o que o Difference Engine poderia fazer? Que tipo de tarefa cognitiva, se houver, um ou outro tipo de sistema poderia desempenhar que o outro tipo não poderia, em princípio, também realizar?

Uma diferença imediata entre ambos os sistemas foi que a sequência de passos elementares (de contagem, adição, multiplicação por dez, etc.) que o Difference Engine usava para calcular uma dada função não refletia aquela dos “computadores” humanos. Isto é, os dois usavam algoritmos diferentes. Por si só, essa não é uma diferença fundamental: o Difference Engine poderia ter sido modificado com engrenagens e alavancas adicionais para imitar o algoritmo dos humanos com precisão. Ainda assim, isso não teria conseguido nada, exceto um aumento na taxa de erro, devido ao aumento do número de falhas nas máquinas mais complexas.

Da mesma forma, os humanos, com instruções diferentes, mas sem alterações de hardware, seriam capazes de emular cada detalhe do método do Difference Engine – e isso teria sido igualmente danoso para o sistema. Não teria copiado a vantagem principal do Engine, a sua precisão, pois ela era resultado de seu hardware e não de seu software. Só teria tornado uma tarefa difícil e chata ainda mais difícil e chata, o que aumentaria a chance de erros.

Para os seres humanos, essa diferença nos resultados – a taxa de erro diferente – teria sido causada pelo fato de que calcular a mesma tabela com dois algoritmos diferentes era sentido como algo diferente. Para o Difference Engine, isso não faz sentido. O Engine não tem sentimentos. Experimentar o tédio é uma das muitas tarefas cognitivas nas quais o desempenho do Difference Engine teria sido irremediavelmente inferior ao dos humanos. Tampouco ele seria capaz de conhecer ou provar, como fez Babbage, que os dois algoritmos chegavam resultados idênticos se executados com precisão. Ainda menos capaz seria de querer beneficiar os marítimos e a humanidade em geral. De fato, o repertório do Engine era limitado a avaliar uma pequena classe de funções matemáticas especializadas (basicamente, séries de potências em uma única variável).

Pensando em como poderia ampliar esse repertório, Babbage inicialmente percebeu que a fase de programação do Engine poderia ser automatizada: as configurações iniciais das engrenagens poderiam ser codificadas em cartões perfurados. E a seguir Babbage teve uma ideia extraordinária. O Engine poderia ser adaptado para furar novos cartões e armazená-los para seu uso posterior, criando o que chamamos hoje de “memória” de um computador. Se pudesse funcionar por tempo suficiente (alimentado, como Babbage imaginava, por uma máquina a vapor) e tivesse um fornecimento ilimitado de cartões em branco, o repertório do Engine daria um salto daquela pequena classe de funções matemáticas para o conjunto de todos os cálculos que podem ser realizados por qualquer objeto físico.

Isso é a universalidade computacional.

Babbage chamou essa máquina aprimorada de Analytical Engine (Motor Analítico, em português). Ele e Lovelace entenderam que sua universalidade lhe daria um potencial revolucionário para melhorar quase todos os procedimentos científicos e processos de manufatura, bem como a vida cotidiana. Babbage e Lovelace apresentaram previsões fantásticas sobre aplicações específicas dessa nova máquina. Ambos sabiam que o Analytical Engine poderia ser programado para fazer cálculos, jogar xadrez, compor músicas, processar imagens e assim por diante. Diferentemente do Difference Engine, o Analytical Engine poderia ser programado para usar exatamente o mesmo método que os humanos usavam para fazer essas tabelas, E provar que os dois métodos devem dar os mesmos resultados, E fazer o mesma verificação e revisão (usando, por exemplo, o reconhecimento óptico de caracteres) também.

Mas o Analytical Engine poderia ficar entediado? Poderia sentir alguma coisa? Poderia querer melhorar a vida da humanidade (ou de todos os Analytical Engine)? Poderia discordar do seu programador sobre a sua própria programação? Eis onde a perspectiva visionária de Babbage e Lovelace precisou parar. Eles pensavam que algumas funções cognitivas do cérebro humano estavam além do alcance da universalidade computacional. Como Lovelace escreveu, “O Analytical Engine não tem qualquer pretensão de criar algo. Ele pode fazer o quer que saibamos como ordená-lo para executar. Pode elaborar uma análise, mas não tem poder de antecipar relações e verdades analíticas”.

E, no entanto, “criar algo”, “elaborar análises”, e “antecipar relações e verdades analíticas” são comportamentos do cérebro e, sendo assim, dos átomos dos quais os cérebros são compostos. Tais comportamentos obedecem às leis da física. Então, segue-se inexoravelmente da universalidade computacional que, com o programa certo, um Analytical Engine também poderia desempenhá-los, átomo a átomo e passo por passo. É verdade que os átomos no cérebro seriam emulados por engrenagens e alavancas de metal, em vez de material orgânico – mas, no contexto presente, inferir qualquer coisa substantiva dessa distinção seria uma classificação preconceituosa.

Apesar de seus melhores esforços, Babbage e Lovelace falharam quase que inteiramente em transmitir seu entusiasmo sobre o Analytical Engine para os outros. Em um dos grandes poderia-ter-sido da história, a ideia de um computador universal ficou esquecida na obscuridade do pensamento humano. E ali continuou até o século XX, quando Alan Turing chegou com uma espetacular série de conquistas intelectuais, lançando as bases da teoria clássica da computação, estabelecendo os limites da computabilidade, participando da construção do primeiro computador universal clássico e, ao ajudar a quebrar a criptografia nazista, contribuindo para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Turing compreendeu plenamente a universalidade. Em seu artigo de 1950, “Computing Machinery and Intelligence” (“Maquinaria Computacional e Inteligência“, em português, disponível na biblioteca sobre hiper-humanismo), ele se dedicou a refutar o que chamou de “objeção de Lady Lovelace” e qualquer outra objeção tanto razoável quanto irracional à sua conclusão. E ele concluiu que um programa de computador cujo repertório incluía todos os atributos distintivos do cérebro humano (sentimentos, livre arbítrio, consciência e tudo o mais) poderia ser elaborado.

Essa afirmação surpreendente dividiu o mundo intelectual em dois grupos: um grupo insistindo que, apesar de tudo, a inteligência artificial de propósitos gerais era impossível, enquanto o outro insistia que era iminente. Ambos estavam enganados. O primeiro, inicialmente predominante, citou uma infinidade de razões que vão do sobrenatural ao incoerente. Todas essas razões compartilhavam o erro básico de que seus proponentes não entendiam as implicações da universalidade computacional para o mundo físico e para os cérebros humanos em particular.

Mas foi o erro básico do outro grupo o responsável pela falta de progresso. Foi uma falha em reconhecer que aquilo que distingue os cérebros humanos de todos os outros sistemas físicos é algo qualitativamente diferente de todas as outras funcionalidades, e não pode ser especificado da forma que todos os outros atributos dos programas de computador podem ser. Não pode ser programado por nenhuma das técnicas que são suficientes para escrever qualquer outro tipo de programa. Muito menos pode ser alcançado apenas melhorando seus desempenhos em tarefas que atualmente realizam, não importa o quanto.

Por que? Eu chamo a funcionalidade principal em questão de criatividade: a capacidade de produzir novas explicações. Por exemplo, suponha que você queira que alguém lhe escreva um programa de computador para converter unidades de temperatura de Celsius para Fahrenheit. Até mesmo o Difference Engine poderia ter sido programado para fazer isso. O ponto é que, seja qual for a maneira como o programa funcione, você o criaria para atender às suas especificações sobre como ser um conversor de temperatura perfeito – ou seja, que sempre converta qualquer temperatura fornecida.

Agora imagine que você precise de um programa com uma funcionalidade mais ambiciosa: apontar algum problema extraordinário na física teórica – como a natureza da Matéria Escura – com uma nova explicação que é plausível e rigorosa o suficiente para atender aos critérios para que seja publicado num jornal acadêmico.

Tal programa seria presumivelmente uma inteligência artificial de propósito geral. Mas como você especificaria essa tarefa para os programadores de computador? Não importa que seja mais complicado do que a conversão de temperatura: existe uma dificuldade muito mais fundamental. Suponha que você fosse de alguma forma dar-lhes uma lista das explicações da Matéria Escura que seriam saídas aceitáveis do programa. Se o programa emitisse uma dessas explicações mais tarde, isso não estaria cumprindo sua exigência para gerar novas explicações. Porque nenhuma dessas explicações seriam novas: você já teria as criados para escrever as especificações. Então, neste caso, e na verdade em todos os outros casos de programação com inteligência artificial de propósito geral genuína, basta um algoritmo com a funcionalidade correta. Mas escrever esse algoritmo (sem antes fazer novas descobertas na física e escondê-las no programa) é exatamente o que você queria que os programadores fizessem!

Tradicionalmente, as discussões sobre a inteligência artificial geral evitaram essa questão imaginando somente um teste com essa inteligência, e não o atendimento a determinadas especificações sobre inteligência. O teste tradicional adotado foi aquele proposto pelo próprio Turing, no qual a inteligência artificial passaria se os juízes (humanos) não conseguissem detectar se o programa é um ser humano ou não ao interagir com ele através de um meio puramente textual, de modo que apenas suas habilidades cognitivas afetassem o resultado.

Mas esse teste, sendo puramente comportamental, não dá nenhuma pista para como atender ao critério sobre a existência de uma inteligência artificial geral. E isso nem pode ser atendido pela técnica de “algoritmos evolutivos”: o teste de Turing não poderia ser automatizado sem primeiro saber-se como escrever um programa de inteligência artificial geral, uma vez que os “juízes” de um programa precisam ser dotados da habilidade cuja presença ou ausência pretendem identificar durante o teste (para aprofundamento sobre como penso que a evolução biológica nos deu essa habilidade em primeiro lugar, veja meu livro The Beginning Of Infinity) [Nota da equipe AZ: o livro está disponível na nossa biblioteca sobre o hiper-humanismo].

E em qualquer caso, a inteligência artificial de propósito geral não poderia ser definida de forma puramente comportamental. No clássico experimento mental “cérebro numa cuba”, o cérebro, quando temporariamente desconectado de seu canal de entrada e saída, está pensando, sentindo, criando explicações – tem todos os atributos cognitivos de uma inteligência artificial de propósito geral. Portanto, os atributos relevantes de um programa desse tipo não consistem apenas nas relações entre suas entradas e saídas.

A conclusão é que, ao contrário de qualquer funcionalidade que tenha sido programada até o momento, esse nível de inteligência não poderia ser alcançada nem por uma especificação nem por um teste de entradas e saídas. O que é preciso é nada menos que um avanço na filosofia, uma nova teoria epistemológica que explique como cérebros criam conhecimentos explicativos e, consequentemente que determine (em princípio e sem que seja necessário executá-los como programas), quais algoritmos possuem essa funcionalidade e quais não a possuem.

Tal teoria está além do conhecimento atual. O que nós sabemos sobre epistemologia implica que qualquer abordagem não direcionada a esse avanço filosófico deve ser fútil. Infelizmente, o que nós sabemos sobre epistemologia deve-se grande parte aos trabalhos do filósofo Karl Popper e é quase universalmente subestimado e mal interpretado (até mesmo, ou talvez especialmente, pelos filósofos).

Por exemplo, ainda é tido como certo por quase toda autoridade que o conhecimento consiste em crenças verdadeiras e justificadas e que, portanto, o pensamento de uma inteligência geral de propósito geral deve incluir algum processo no qual identifique alguma de suas teorias como verdadeiras ou prováveis, enquanto rejeita as outras como falsas ou improváveis. Mas o programador de uma inteligência geral de propósito geral precisa saber de onde as teorias vêm, em primeiro lugar. O equívoco dominante é o de que, assumindo que “o futuro será como o passado”, essa inteligência poderia generalizar teorias a partir de experiências repetidas através um processo chamado de indução.

Contudo, isso é impossível. Eu mesmo lembro, por exemplo, de observar em milhares de ocasiões consecutivas que, nos calendários, os primeiros dois dígitos do ano corrente eram “19”. Nunca observei uma única exceção até que, um dia, os dois primeiros dígitos começaram a ser “20”. Não só não fiquei surpreso como supus que haveria um intervalo de 17.000 anos até o próximo “19”, um período que nem eu nem nenhum outro ser humano experimentamos uma vez sequer.

Como eu poderia ter “generalizado” que haveria uma ruptura tão abrupta de um padrão de experiências ininterrupto no calendário, e que um processo nunca observado (um intervalo de 17.000 anos) iria acontecer? Porque simplesmente não é verdade que o conhecimento vem da extrapolação de observações repetidas. Tampouco é verdadeiro que “o futuro é como o passado”, em qualquer sentido que se poderia detectar de antemão sem saber a explicação. O futuro é, na verdade, diferente do passado na maioria das formas.

É claro que, dada a explicação, essas mudanças drásticas no padrão anterior dos “19” são entendidas diretamente como resultado de um padrão ou lei subjacente invariável. Mas a explicação sempre vem primeiro. Sem isso, qualquer continuação de qualquer sequência constitui “o mesmo acontecendo novamente” conforme alguma explicação.

Então por que ainda faz parte da “sabedoria convencional” acreditar que desenvolvemos nossas teorias por indução? Por algum motivo, além do alcance deste artigo, a sabedoria convencional adere a um tropo chamado “problema da indução”, que pergunta: “como e porque a indução pode de alguma forma classificar certas crenças como verdadeiras e justificadas, embora possam ser falsas e impossíveis?” Graças a este tropo, qualquer refutação (como aquele de Popper e David Miller em 1988) ao invés de acabar com o indutivismo, simplesmente faz com que a maioria se maravilhe ainda mais diante do grande “problema da indução”.

Isso tem o efeito catastrófico de enquadrar o problema da inteligência artificial geral como um “problema da indução”, fazendo com que ele pareça fácil, pois a indução trata o pensamento como um processo de previsão de que os padrões futuros da experiência sensorial serão como os padrões do passado. Essa habilidade parece ser uma generalização – que os computadores já fazem o tempo todo (uma vez que eles recebem uma teoria sobre como os dados são produzidos). Mas, na realidade, apenas um pequeno componente do pensamento é sobre a predição, e muito menos sobre a predição de nossas experiências sensoriais. Nós pensamos sobre o mundo: não somente o mundo físico, mas também sobre o mundo das abstrações, como o certo e o errado, a beleza e a feiura, o infinito e o infinitesimal, a causalidade, a ficção, os medos e as aspirações – e o pensar em si.

A verdade é que o conhecimento consiste em explicações que foram imaginadas – suposições sobre o que realmente é (ou realmente deve ser, pode ser) lá fora, em todos esses mundos. Mesmo nas “ciências difíceis”, essas suposições não têm fundamentos e não precisam de justificação. Por quê? Porque o conhecimento genuíno, embora, por definição, contenha a verdade, quase sempre também contém erro. Portanto, não é “verdadeiro” no sentido estudado em matemática e lógica. Pensar consiste em criticar e corrigir suposições parcialmente verdadeiras com a intenção de localizar e eliminar os erros nessas suposições, não gerando ou justificando generalizações a partir de dados sensoriais. E, sendo assim, as tentativas de criar uma inteligência artificial geral que faria esse tipo de coisa estão tão fadadas ao fracasso quanto um tentativa de produzir vida a Marte apenas rezando para que um evento bíblico de Criação acontecesse por lá.

Atualmente, uma das versões mais influentes da abordagem de “indução” para inteligência artificial geral (e para a filosofia da ciência) é Bayesianismo, injustamente assim chamado para atribuir sua paternidade ao matemático Thomas Bayes, do século XVIII, embora Bayes seja um pouco inocente em relação a esse erro. Essa doutrina pressupõe que as mentes trabalham atribuindo probabilidades a suas ideias e modificando essas probabilidades à luz da experiência como uma maneira de escolher como agir. Isto é especialmente perverso quando se trata de valores da inteligência artificial de propósito geral, das ideias morais e estéticas que orientarão suas escolhas e intenções, pois permite apenas um modelo comportamental, no qual os valores que são “recompensados” pela “experiência” são “reforçados” e passam a dominar o comportamento, enquanto aqueles que são “punidos” pela “experiência” são eliminados.

Como eu discuti acima, esse modelo comportamental de entrada-saída é apropriado para a maioria das programações de computadores, mas inútil para a inteligência artificial geral. É irônico que a psicologia geral tenha renunciado em grande parte ao Behaviorismo, que foi reconhecido como inadequado e desumano, enquanto a ciência da computação, graças a conceitos filosóficos falsos como indutivismo, ainda pretenda fabricar cognição de tipo humano em linhas essencialmente comportamentais.

Além disso, apesar da enorme variedade de coisas mencionadas acima sobre as quais criamos explicações, nosso método principal de fazê-lo, chamado “conjetura e crítica Popperiana”, tem uma lógica particular e unificada. Daí o termo “geral” na denominação “inteligência artificial geral”. Um programa de computador ou possui essa lógica que ainda está por ser totalmente compreendida por nós mesmos, caso em que pode realizar um pensamento do tipo humano sobre qualquer coisa (incluindo sobre seu próprio pensamento e como melhorá-lo), ou não possui, caso em que não é de modo algum uma inteligência artificial geral.

Consequentemente, outra abordagem desesperada para a criação de uma inteligência artificial geral é iniciar com o conhecimento existente de como programar tarefas específicas (como jogar xadrez, realizar análises estatísticas ou pesquisar bases de dados) e depois tentar melhorar esses programas na esperança de que isso de alguma forma gere uma inteligência artificial geral como um efeito colateral. Algo como o que aconteceu com a Skynet nos filmes da franquia Exterminador do Futuro.

Hoje em dia, um fluxo acelerado de funcionalidades maravilhosas e úteis para computadores está disponível, e algumas delas antes do previsto. Mas o que não é maravilhoso nem útil é o argumento elogioso de que esses desenvolvimentos estão alcançando as fronteiras da inteligência artificial geral. Um surto particularmente grave ocorreu recentemente quando um motor de pesquisa chamado Watson, desenvolvido pela IBM, derrotou o melhor jogador humano em um jogo de perguntas e resposta (quiz). Um documentário televisivo chamou-o de “A máquina mais inteligente da Terra”, e caracterizou sua função como “imitar o processo de pensamento humano com o software.” Mas isso é precisamente o que ele não faz.

Jogar um jogo (assim como todas as funcionalidades computacionais com as quais nos maravilhamos hoje) está entre as funcionalidades que podem ser classificadas na forma padrão e comportamental que apresentei acima. Nenhuma resposta de um jogo de quiz será publicada em um jornal de novas descobertas científicas ou criativas. O fato de que os seres humanos desempenham essa tarefa com menor desempenho que um computador ao usarem a criatividade para gerar as suposições subjacentes não é um sinal de que o computador tenha habilidades cognitivas quase humanas.

O exato oposto é verdadeiro, pois os dois métodos são completamente diferentes. Da mesma forma, quando um programa de computador vence um grande mestre no xadrez, os dois não estão usando algoritmos similares. O grande mestre pode explicar por que pareceu valer a pena sacrificar o cavalo em nome da vantagem estratégicas e pode escrever um livro emocionante sobre o assunto. O programa só pode provar que o sacrifício não resulta num xeque-mate e não pode escrever um livro porque não tem ideia nem mesmo do objetivo de um jogo de xadrez. Programar uma inteligência artificial de propósito geral não é o mesmo tipo de problema que a programação sobre como jogar um quiz ou xadrez.

Uma inteligência artificial de propósito geral é qualitativamente, não quantitativamente, diferente de todos os programas de computadores. O equívoco da Skynet também informa a esperança de que a inteligência artificial geral seja meramente uma propriedade emergente da complexidade, ou que o aumento do poder computacional a produza. Por trás disso está a noção de que habilidades únicas do cérebro são devidas ao seu “paralelismo computacional maciço” ou à sua “arquitetura neuronal”, duas ideias que violam a universalidade computacional. Esperar criar uma inteligência artificial geral sem primeiro entender em detalhes como a consciência funciona é como esperar que os arranha-céus aprendam a voar se forem construídos altos o suficiente.

Em 1950, Turing esperava que até o ano de 2000 “fosse possível falar sobre máquinas pensantes sem ser contrariado.” Em 1968, Arthur C. Clarke esperava o mesmo até 2001. No entanto, hoje em dia ninguém é melhor em programar uma inteligência artificial geral do que o próprio Turing teria sido.

Isso não surpreende as pessoas daquele primeiro grupo, o de adversários da possibilidade da inteligência artificial geral. Mas para as pessoas no outro grupo, que acham que esse tipo de inteligência artificial é iminente, tal falha de raciocínio ainda precisa ser explicada – ou pelo menos racionalizada. E de fato, imperturbáveis pelo fato de que nunca puderam confirmar essas racionalizações a partir da experiência, os membros do segundo grupo produzem racionalizações sem parar.

O próprio termo “inteligência artificial geral” é um exemplo. O campo costumava ser chamado “inteligência artificial”. Mas “inteligência artificial” foi gradualmente usado para descrever todos os tipos programas de computadores não relacionados, como jogadores de jogos, motores de busca e chatbots, até que a palavra “geral” foi adicionada para tornar possível referir-se à “coisa real” novamente, mas agora com a implicação de que a inteligência artificial geral é apenas uma espécie mais inteligente de chatbot.

Outra classe de racionalizações é a do tipo: “a inteligência artificial geral não é algo tão bom assim, o software existente já é inteligente o suficiente, mas de uma forma não humana, e somos muito vaidosos ou demasiadamente tendenciosos culturalmente para dar o devido crédito”. Isso obtém alguma força porque invoca a irracionalidade popular persistente do relativismo cultural.

Lembra do significado atribuído ao Skynet ao se tornar “autoconsciente”? Esse é apenas mais um equívoco filosófico, suficiente em si mesmo para bloquear qualquer abordagem viável para a inteligência artificial geral. O fato é que desenvolvedores de softwares atuais poderiam programar um computador diretamente para ter “autoconsciência” no sentido comportamental (por exemplo, para passar no “Teste do espelho” consistente em usar um espelho para inferir fatos sobre si próprio) se eles quisessem. Até onde estou ciente, ninguém o fez, presumivelmente porque é uma habilidade bastante inútil e também trivial.

Talvez a razão pela qual a autoconsciência tenha sua reputação imerecida por estar conectada com a inteligência artificial geral é que, graças ao teorema de Kurt Gödel e a várias controvérsias sobre lógica formal no século XX, qualquer tipo de auto-referência adquiriu uma reputação de mistério barato. O mesmo aconteceu com a consciência.

E aqui temos o problema da terminologia ambígua novamente: o termo “consciência” possui uma vasta gama de significados. Em um extremo da escala, existe o problema filosófico das sensações das naturezas subjetivas (qualia), que está intimamente ligado ao problema da inteligência geral. No outro extremo, a “consciência” é simplesmente o que perdemos quando somos submetidos a anestesia geral. E muitos animais certamente têm isso.

A inteligência artificial geral seria realmente capaz de ter autoconsciência, e isso porque ela seria “geral”, ou seja, capaz de se conscientizar sobre todo tipo de coisa profunda e sutil, incluindo ela própria. Isso não significa que os macacos que passam no teste do espelho tenham qualquer indício dos atributos da “inteligência geral”. De fato, a maravilhosa pesquisa de Richard Byrne revelou como os macacos são capazes de aprender comportamentos úteis uns dos outros sem nunca entender para que tais comportamentos servem: a explicação de como a cognição do macaco funciona realmente é de ordem comportamental.

Ironicamente, esse grupo de racionalizações (a inteligência artificial já foi feita/é trivial/existe nos macacos/é um conceito cultural) são imagens espelhadas de argumentos que se originaram no campo “a inteligência artificial geral é impossível”. Para cada argumento da forma “Você não pode criar uma IAG porque você nunca poderá programar a alma humana, porque é sobrenatural”, o grupo “criar IAG é fácil” tem a racionalização, “se você pensa que a cognição humana é qualitativamente diferente da dos macacos, você deve acreditar em uma alma sobrenatural”.

Dizer “tudo que ainda não sabemos como programar é chamado de inteligência humana”, é outra racionalização desse tipo. É a imagem espelhada do argumentado adiantado pelo filósofo John Searle (que está no grupo que considera impossível a IAG), que apontou que muito antes de existirem computadores, os motores a vapor e posteriormente os sistemas telegráficos foram usados como metáforas do funcionamento da mente humana.

Searle argumenta que a esperança para a inteligência artificial geral se baseia em uma metáfora similarmente insubstancial, a saber, que a mente é “essencialmente” um programa de computador. Mas isso não é uma metáfora: a universalidade da computação segue as conhecidas leis da física.

Alguns, como o matemático Roger Penrose, sugeriram que o cérebro usa a computação quântica, ou até mesmo computação hiperquântica baseada em uma física até agora desconhecida e além da teoria quântica, e que isso explica a falha em criar a inteligência geral em computadores existentes. Para explicar porque eu, e a maioria dos pesquisadores quânticos da computação discordarmos de que esta é uma fonte plausível da funcionalidade única do cérebro humano está além do escopo deste ensaio (se você quiser saber mais, leia o artigo “Is the Brain a Quantum Computer?”, publicado na Cognitive Science no ano de 2006 e disponível na biblioteca sobre o hiper-humanismo).

Essas inteligências artificiais gerais são pessoas implícitas no próprio conceito desde o início. Se houvesse um programa a que faltasse uma única habilidade cognitiva que seja característica de qualquer pessoa, então, por definição, esse programa não seria qualificado como uma inteligência geral. Usar atributos não cognitivos (como porcentagem de conteúdo de carbono) para definir personalidade seria, novamente, preconceito. Mas o fato de que a capacidade de criar novas explicações é a funcionalidade exclusiva e moralmente e intelectualmente significativa das pessoas (humanos e inteligências artificiais gerais), e que elas adquirem essa funcionalidade por conjeturas e críticas, muda tudo.

Atualmente, a personalidade é muitas vezes tratada simbolicamente em vez de factualmente – como uma ficção, uma convenção para fingir que uma entidade (um macaco, um feto, uma corporação) é uma pessoa, a fim de atingir alguma finalidade filosófica ou prática. Isso não é bom. Não importa a terminologia; mude-a se quiser, e de fato existem razões para tratar várias entidades com respeito, protegendo-as de danos e assim por diante. Mesmo assim, a distinção entre personalidades reais (definida por esse critério objetivo) e outras entidades tem enorme significado moral e prático e se tornará vital para o funcionamento de uma civilização que inclui inteligências artificiais gerais.

Por exemplo, o simples fato de que não é o computador, mas o programa de execução que é uma pessoa, levanta problemas filosóficos não resolvidos que se tornarão politicamente polêmicos e práticos, logo que existam as inteligências artificiais gerais. Uma vez que um programa de inteligência artificial geral estiver sendo executado em um computador, privá-lo desse computador seria um assassinato (ou pelo menos a prisão falsa ou a escravidão, conforme o caso), assim como privar uma mente humana de seu corpo.

Mas, ao contrário de um corpo humano, um programa desse tipo pode ser copiado em vários computadores com o apertar um botão. Esses programas copiados, enquanto ainda estão executando etapas idênticas (ou seja, antes de eles terem se diferenciado devido a escolhas aleatórias ou experiências diferentes), são a mesma pessoa ou muitas pessoas diferentes? Eles recebem um voto, ou muitos? Excluir um deles é um assassinato? E se algum programador desonesto, talvez ilegalmente, crie bilhões de pessoas de IAG diferentes, em um computador ou em muitos, o que acontece depois? Esses programas ainda são pessoas, com direitos. Todos podem votar?

Além disso, em relação às inteligências artificiais gerais, como qualquer outra entidade com criatividade, temos que esquecer quase todas as conotações existentes da palavra “programação”. Tratar inteligências artificiais gerais como qualquer outro programa de computador, significaria para elas lavagem cerebral, escravidão e tirania. E crueldade com crianças, também, pois “programar” uma inteligência artificial geral que já funciona, diferentemente de todas as outras programações, constitui educação. Isso constitui um debate, tanto moral como factual. Ignorar os direitos e a personalidade das inteligências artificiais gerais não seria apenas o epítome do mal, mas também uma receita para o desastre: os seres criativos não podem ser escravizados para sempre.

Algumas pessoas estão se perguntando se deveríamos recepcionar nossos novos senhores robóticos. Algumas outras esperam descobrir como programá-las para tornar essas inteligência artificiais estruturalmente incapazes de ferir os humanos (como nas “Leis da Robótica” de Isaac Asimov), ou para evitar que adquiram a noção de que o universo deveria ser convertido em clipes de papel (como imaginava Nick Bolstrom). Nenhum desses desafios é o problema real. O problema sempre foi que uma única inteligência artificial excepcionalmente criativa poderia ser milhares de vezes mais produtiva (economicamente, intelectualmente ou qualquer outra coisa) do que a maioria das pessoas, e que tal inteligência poderia causar grandes danos caso direcionasse seus poderes para o mal e não para o bem.

Esses fenômenos não têm nada a ver com inteligência artificial geral. A batalha entre ideias boas e más é tão antiga quanto a nossa espécie e continuará independentemente do hardware em que estiver sendo executada. A questão é: queremos inteligências com ideias (moralmente) boas para assim derrotar as inteligências malignas, tanto biológicas como artificiais; mas somos falíveis, e nossa própria concepção do “bom” precisa de melhoria contínua.

Como a sociedade deveria ser organizada de modo a promover tal melhoria? “Escravizar toda a inteligência” seria uma resposta catastroficamente incorreta, e “escravizar toda a inteligência que não se parece com nós” não seria muito melhor.

Uma implicação é que devemos parar de se referir à educação (de humanos ou de inteligências artificiais gerais) como instrução – como meio de transmitir o conhecimento existente inalterado e fazendo com que os valores existentes sejam cumpridos obedientemente. Como Popper escreveu (no contexto da descoberta científica, mas que se aplica igualmente à programação de inteligências artificiais e à educação de crianças): “Não existe nenhuma instrução de fora. Não descobrimos novos fatos ou novos efeitos copiando-os ou inferindo-os indutivamente da observação, ou por qualquer outro método de instrução pelo meio ambiente. Utilizamos, em vez disso, o método de teste e a eliminação do erro.” Isto é, conjeturas e críticas. Aprender deve ser algo que as inteligências recém-criadas fazem e controlam para si.

Não realço todas essas questões filosóficas porque temo que as IAGs sejam inventadas antes de desenvolvermos a sofisticação filosófica para compreendê-las e integrá-las à civilização. É por quase o motivo oposto: estou convencido de que todo o problema de desenvolvimento de inteligência artificial geral é uma questão de filosofia, não de ciência da computação ou neurofisiologia, e que o progresso filosófico que é essencial para sua futura integração é também um pré-requisito para desenvolvê-los, em primeiro lugar.

A falta de progresso em inteligência artificial geral é devido a um grave bloqueio de equívocos. Sem a epistemologia Popperiana nem se pode começar a adivinhar qual funcionalidade detalhada deve ser alcançada para fazer uma inteligência artificial geral. E a epistemologia Popperiana não é amplamente conhecida, muito menos entendida bem o suficiente para ser aplicada. Pensar em uma IAG como uma máquina para traduzir experiências, recompensas e punições em ideias (ou pior, em comportamentos) é como tentar curar doenças infecciosas ao equilibrar os humores corporais: inútil pois está enraizado em uma visão de mundo arcaica e equivocada.

Sem entender que a funcionalidade de uma inteligência artificial geral é qualitativamente diferente da de qualquer outro tipo de programa de computador, o programador está trabalhando em um campo completamente diferente. Se alguém trabalha para programas cujo “pensamento” é constitucionalmente incapaz de violar restrições predeterminadas, essa pessoa está excluindo justo o atributo definidor de um ser inteligente: a criatividade.

Superar esse bloqueio, por si só, não irá fornecer respostas. No entanto, a resposta, concebida nesses termos, não pode ser tão difícil. Uma outra maneira de perceber que a habilidade alvo, a inteligência geral, é qualitativamente diferente das demais consiste em lembrar que, se os seres humanos a têm e os macacos não, então a fórmula como alcançar tal habilidade deve estar codificada no número relativamente pequeno de diferenças entre o DNA dos seres humanos e o dos chimpanzés. Logo, em um aspecto posso concordar com as opiniões de que a inteligência artificial é iminente: é plausível que apenas uma única ideia esteja entre nós e o futuro avanço.

Mas terá que ser uma das melhores ideias.

 

Trump e a fórmula para mais confusão

Sem algum contato com o mundo árabe, especialmente com suas associações da sociedade civil, é difícil você imaginar o tamanho da bomba que estourou quando Donald Trump anunciou o reconhecimento oficial de Jerusalém como capital de Israel. É apenas o reconhecimento de uma capital e uma mudança de 60 km na localização de uma embaixada, mas tem o efeito de uma bomba atômica sobre o mundo árabe.

Para quem não acompanha o tema, é sempre bom lembrar: a partição das Nações Unidas que funda o estado de Israel não incluía em seu território a cidade de Jerusalém, que seria administrada por um regime especial internacional. Violando a própria partição que a estabeleceu como nação, Israel ocupou Jerusalém Ocidental e, no final da guerra de 1948, controlava 12 dos 15 quartos árabes da cidade.

Depois da guerra de 1967, Israel ocupou também Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, ocupações ilegais segundo o Direito Internacional. Desde então, a fórmula da combalida e desrespeitada legislação internacional para a resolução do conflito seria a volta de Israel às fronteiras de 1967, com soberania palestina sobre Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental — fórmula que hoje é pouco mais que um conto da carochinha, já que há meio milhão de colonos israelenses fortemente armados em terras que são legalmente palestinas.

Trocando em miúdos: os EUA reconhecem como capital de Israel uma cidade que, segundo a lei internacional, não pertence a Israel em sua totalidade.

Que os EUA reconheçam Jerusalém como capital de Israel é simbólico, mas é de uma simbologia gigante no mundo árabe. É uma receita para tocar fogo na região. A fotografia que anexo abaixo é a capa de hoje do Daily Star, jornal libanês. A Al Jazeera fez uma boa matéria sobre o tema e o Ali Abunimah, editor do Electronic Intifada, deu uma boa entrevista, mostrando como a política dos EUA para a região, desde Clinton, passando por Bush e Obama, criou o cenário que agora Trump reconhece oficialmente. Há boas matérias no Haaretz, mas não consegui driblar o paywall para oferecer-lhes os links.

O detalhe que mais chama nesse reconhecimento é que ele se dá muito mais por necessidade de honrar dívidas de campanha com financiadores internos, nos próprios EUA, do que exatamente por pressão israelense. As credenciais de Hillary Clinton como defensora de Israel eram impecáveis, e Trump sentiu a necessidade de oferecer algo mais do que o apoio incondicional que Hillary já oferecia.

Conseguiu isso aí, uma fórmula para mais confusão.

A NATUREZA DE NOSSA PRISÃO – PARTE II

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Este é o principal momento de todo o processo de aprendizado, a razão de sua existência. Tudo o que até agora foi apresentado é conhecido graças a outras fontes há muito tempo, fontes diversas das informadas ao leitor neste texto. Porém, no momento em que a última peça do quebra-cabeça (que se perdoe a ironia) foi descoberta pela atual humanidade, quase tudo pode ser exposto. A qualquer momento, qualquer pessoa pode juntar as peças descobertas e perceber a verdade. A partir de agora, antigos votos de discrição podem ser quebrados. A humanidade conseguiu chegar às portas da verdade por si própria, ainda que aos tropeços.

Nem tudo, porém, será exposto aqui. Há coisas que não convém revelar, não por mera prudência e muito menos como forma de controle de informação. É que, no hipercontexto, o simples conhecimento de certas probabilidades futuras pode influenciar sua concretização em determinado contexto.

I – A SINGULARIDADE

Há doze mil anos, ocorreu uma singularidade [1]“Singularidade” é o tema do próximo texto, mas pode ser definida como “o processo de emergência de uma função que transcende seus elementos constituintes.”. Foi quando a raça humana cometeu um grande erro. Agora, estamos para enfrentar uma nova singularidade. Se essa próxima singularidade herdar os erros da anterior, evocaremos o inferno na Terra. Se corrigirmos o erro a tempo, poderemos construir uma utopia.

O erro cometido pela humanidade há doze mil anos colocou a todos em uma prisão. Olhe ao seu redor: essa é sua prisão, aquilo que você vê. Mas se uma prisão, onde estão os muros? Por que o prisioneiro, olhando ao redor, não consegue encontrar suas correntes?

Na primeira parte desta terceira etapa, apresentou-se o mito de Sophia e Demiurgo, e como esse mito pode ser considerado uma analogia sobre a consciência e o ego. Explicou-se a natureza da consciência humana enquanto criadora de uma “realidade virtual” (como diz Thomas Metzinger) que nosso cérebro constrói como “o mundo real”, mas que não passa de uma versão de baixa dimensionalidade construída pelo cérebro para representar uma fração do que está acontecendo lá fora, no hipercontexto.

No centro desse modelo está o ego, entronizado e envaidecido com a narrativa que conta a si mesmo sobre quem ele próprio é. Miticamente, o ego é como um déspota que constrói, com a consciência, um mundo enclausurado e escuro. Já tecnicamente, o ego é um módulo da consciência que foi deslocado de suas funções originais para ocupar uma posição que não lhe compete.

Esse é o motivo de não percebermos os muros de nossa prisão: os muros formam a estrutura do próprio mundo criado pela consciência a partir do erro cometido por nossos antepassados. Esse é um exemplo de “transparência fenomênica”: é impossível perceber aquilo que é elemento estruturante da própria percepção. Como quem olha uma paisagem para fora da janela e deixa de ter consciência da própria janela, ou quem assiste um filme e deixa de ver os limites da tela, não percebemos a moldura com a qual o cérebro pendura na sua parede a imagem da realidade.

Também na primeira parte da terceira etapa se expôs como os antigos mitos sobre a origem do mundo encontram correspondência com as recentes descobertas sobre a origem da Revolução Neolítica, feitas em Göbekli Tepe e Çatalhöyük. Com essas descobertas a Revolução Neolítica, por fim foi desmascarada, e arqueólogos e historiadores concluíram que se tratou da “maior fraude da história” (Yuval Harari) e do “primeiro Grande Erro da espécie humana” (David Lewis-Williams). Foi quando se descobriu que, antes da Revolução Neolítica, nossos antepassados possuíam uma cultura sofisticada e complexa (com conhecimentos de engenharia, astronomia e tecnologia surpreendentes), além de se beneficiarem de uma melhor qualidade de vida, melhor saúde, melhor dieta, maiores estímulos ao desenvolvimento da inteligência e, por fim, maior longevidade.

Quando se fala em “erro” e “história”, é importante atentar para o fato de que a natureza aleatória da evolução reflete na natureza aleatória da própria história. Em outras palavras, às vezes uma civilização ou mesmo uma espécie inteira pode tomar caminhos errados, e às vezes esses caminhos podem tornar-se irreversíveis. Em um nível extremo, a irreversibilidade pode ser cognitiva, a ponto de ser impossível sequer cogitar que as coisas poderiam ter sido diferentes, que poderíamos ter conquistado tudo o que já conquistamos sem tanto sofrimento – e inclusive mais rapidamente. Basta pensar no quanto se retrocedeu na Idade Média, quando o grego Eratóstenes, dois séculos antes da Era Cristã, já sabia que a Terra era redonda e havia praticamente acertado o cálculo de sua circunferência. Basta pensar em quantas vezes a guerra e a opressão política amarraram os pés da evolução humana.

Achamos que a Revolução Neolítica nos trouxe benefícios porque avaliamos o pouco que ela nos deu como suficiente e apropriado, já que não conhecemos outras possibilidades. Somos incapazes de conceber outras formas melhores de viver, e outras formas melhores de progredir. É uma espécie de transparência: não podemos saber de outras possibilidades, pois quando olhamos para trás enxergamos o passado a partir do pequeno buraco que há na parede de nossa cela.

Mas qual a natureza exata dessa prisão? Qual foi o fruto proibido que nossos antepassados provaram?

A resposta pode ser graficamente representada na seguinte imagem, distribuída pela equipe de divulgação do filme Mother!, de Darren Aronofsky, entre críticos e jornalistas por ocasião de sua estreia:

Cartão distribuído a críticos na exibição de “Mother!”: um octógono, o símbolo de Peixes e um ponto de exclamação.

É uma feliz coincidência que esse diagrama possa ser usado para refletir a natureza do erro que determinou a tragédia da consciência humana, um erro batizado pelo psicólogo Julian Jaynes de “Mente Bicameral” e que o arqueólogo Jacques Cauvin identificou como a revolução cognitiva que desencadeou a Revolução Neolítica.

O símbolo central dessa imagem é o símbolo de Peixes, presente no filme em um isqueiro de Adão e oculto em cartazes promocionais da obra. Trata-se de um símbolo antigo, que tem origem em uma das estrelas da constelação Alpha Piscium, que era chamada no oriente-médio de “a corda”, tanto para simbolizar a corda que permite levar um balde ao fundo de um poço como a corda que une dois peixes nadando em sentidos opostos.

Tem-se, assim, um símbolo de separação de dois sistemas distintos, unidos por apenas um ponto de contato.

Isqueiro com o símbolo de Pisces como detalhe dos cartazes promocionais de “Mother”.

Na parte superior do diagrama, temos um octógono dentro de um círculo, forma constante na arquitetura da casa em que o filme Mother! transcorre e de grande importância no mito original sobre Sophia e Demiurgo. Sabemos, por entrevistas do diretor Darren Aronofsky, que sua intenção era evocar o significado do octógono na alquimia e doutrinas que associam o número oito aos arquétipos do infinito e da regeneração. Aronofsky também falou de seu interesse pelodo octógono enquanto “perfeita forma para o cérebro humano”.

Tem-se, assim, a imagem de um mandala, um símbolo da perfeita organização psíquica.

O octógono é uma forma onipresente na casa construída por Sophia.

Na parte inferior do diagrama, está um ponto de exclamação, último caractere do título do filme. Trata-se, em primeiro lugar, de um recurso linguístico, o que é importante para revelar a natureza essencial do erro cometido por nossos antepassados. Além disso, o ponto de exclamação é um sinal que tem origem medieval, tratando-se inicialmente de um “i” acima de um “o”, para representar a palavra latina “io”. Essa palavra é derivada do grego ““, que por um lado é o caso acusativo do substantivo ιός (iós – “vírus”, “veneno”) e de outro remete ao também grego “iώ”, que em latim vulgarizado é equivalente a “ego”. Também por isso, em línguas latinas “io” deu origem à primeira pessoa do singular, como são exemplos o “io” italiano, o “yo” espanhol e o “eu” português.

Tem-se, assim, a um só tempo um recurso linguístico, uma alusão ao ego e a ideia de vírus ou infecção.

Em resumo, reunindo os três símbolos em um mesmo diagrama, tem-se a descrição de dois sistemas separados, unidos por uma estreita ponte de comunicação (a “corda” do símbolo de Peixes ao centro): acima, um sistema que representa a organização ideal da consciência humana; abaixo, um sistema associado ao ego, com natureza mesmo tempo linguística e viral. Esse diagrama é a exata representação daquilo que Julian Jaynes chamou de “Mente Bicameral” que produziu nossa atual consciência.

II – O NASCIMENTO DA LINGUAGEM

No filme de Aronofsky, o mito do Demiurgo é apresentado como a história de um poeta, que escreve um grande poema, e sua esposa, que reforma uma casa com a qual ela própria se confunde. Linguagem é o instrumento do ofício do poeta, ou melhor, o instrumento para orientar Sophia sobre como a casa deve ser construída. Quando o poeta termina sua poesia, a leitura dos versos evoca em Sophia a imagem da casa e da vida que ele projeta viver ao seu lado.

A consciência é Sophia e a casa ao mesmo tempo, e o ego humano é o Demiurgo e sua poesia. E há um motivo pelo qual o ego utiliza a linguagem para orientar a consciência durante a construção de seu “mundo“. Linguagem é informação, e informação é a “substância” de que é feita a consciência.

Como Jaynes e Jacques Cauvin propuseram, e acabou confirmado pelas descobertas dos arqueólogos Klaus Schmidt (em Göbekli Tepe), Harald Hauptmann (em Nevali Çori) e Ian Hodder (em Çatalhöyük), a Revolução Agrícola foi antecedida de uma alteração na estrutura da consciência que Cauvin chamou de “Revolução Simbólica”. Jaynes demonstrou que essa revolução simbólica foi resultado emergente de uma singularidade que ocorreu no momento em que a linguagem humana desenvolveu-se a tal ponto que pressionou a alteração da própria consciência. A partir desse ponto, a forma como a consciência passou a vivenciar as experiências psíquicas (fossem elas sensações, emoções, pensamentos ou decisões) sofreu uma profunda transformação.

Os primitivos seres humanos, organizados em bandos, fortaleceram sua associação com o uso de sistemas rudimentares de comunicação que se desenvolveram até o nascimento das primeiras linguagens. Com tempo, a comunicação tornou-se progressivamente mais eficiente, permitindo a articulação de táticas durante a caça, a transmissão de conhecimento sobre como produzir ferramentas e outras tantas vantagens evolutivas. Mas como a consciência é um sistema de informação, e a linguagem é ela própria um sistema para a transmissão de informação, imediatamente surgiu uma relação de influência recíproca. Nessa relação, a consciência estimulava o aumento da complexidade da linguagem humana, e a linguagem, por sua vez, criava ferramentas para a consciência desenvolver-se – um processo sempre a serviço a sobrevivência do organismo através da cooperação com a tribo.

 

É assim que a linguagem foi interiorizada na construção do modelo de mundo que o cérebro apresenta ao organismo como “realidade”. A linguagem passa assim a integrar a consciência humana, o “mundo” que percebemos, e assume aos poucos uma posição privilegiada, viralizando-se em quase todos os processos mentais.

Através de uma extensa pesquisa, Julian Jaynes demonstrou que quando nossos antepassados começaram a pensar utilizando as primeiras palavras e frases criadas originalmente para a comunicação do grupo, com toda certeza essas palavras eram percebidas de uma forma totalmente diferente de como as percebemos hoje em dia. A execução de uma tarefa mental como pensar em palavras, banal para qualquer homo sapiens moderno, foi vivenciada de forma intensa por nossos ancestrais quando o fizeram pela primeira vez. Somos hoje o resultado de uma transformação que ocorreu há milênios, e o modo como nossos pensamentos se desenvolvem em nossa cabeça não nos causa estranheza. Na verdade, pensar tal como fazemos é automático, mas nem sempre foi assim.

O desenvolvimento da linguagem produziu impactos dramáticos na consciência do homo sapiens primitivo. “Cada novo estágio de desenvolvimento das palavras literalmente criava novas percepções e interesses, e essas novas percepções e interesses resultavam em mudanças culturais importantes, que se refletem nos registros arqueológicos” [2]Jaynes, Julian. The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, p. 132..

Quando nossos antepassados elaboraram os primeiros pensamentos na forma de frases rudimentares, reproduzindo na consciência a comunicação realizada entre os membros do grupo, certamente essas palavras não foram “ouvidas” como se viessem do próprio pensador. A elas era atribuída um outro sujeito, que falava com o pensador, representando a experiência psíquica que o pensador vivenciava naquele momento. Mesmo se as repetisse em voz alta, o indivíduo entenderia que as palavras antes foram ouvidas de alguém. Afinal, palavras eram ditas de alguém para alguém, e era nesse contexto que nossos antepassados as desenvolveram – assim, uma frase na consciência era atribuída a uma comunicação de outra entidade, de outro ser. À medida que o uso de frases tornava-se recorrente, frases eram atribuídas a sujeitos diferentes que representavam experiências psíquicas específicas.

Cientes dessa personificação que o ego faz das experiências psíquicas quando a consciência passa a servir-se da linguagem, Jung e Jaynes documentaram a proximidade entre o estado de alucinação de pacientes diagnosticados com esquizofrenia e os fundamentos da percepção de mundo por qualquer ser humano. Mais ainda, apresentaram provas de que alucinações auditivas e visuais são experiências comuns não apenas entre esquizofrênicos e consumidores de substâncias alucinógenas: também uma razoável parte das pessoas consideradas “normais”, que vivem bem adaptadas à sociedade, costumam ouvir vozes e ter outras alucinações que racionalizam e tentam de alguma forma ignorar. Esses eventos podem ocorrer aleatoriamente, mas há uma predominância de casos de alucinação de pessoas “normai” reportados em situações de elevado estresse, trauma ou excitação emocional que provoque alguma ruptura cognitiva.

Quando nossos primitivos antepassados escutaram em sua consciência as primeiras frases, essas palavras não apenas eram atribuídas a entidades que representavam as emoções e pensamentos associados a determinadas frases. Essas frases eram literalmente ouvidas por aquele que as pensava, em um caso de alucinação auditiva que não raras vezes vinham acompanhadas de alucinações visuais.

Registros históricos deixam claro que nossos antepassados realmente viam diante de si entidades que representavam as experiências psíquicas que estavam sendo processadas por sua consciência, deixando relatos escritos sobre espíritos e divindades vistos por coletividades. Os humanos da era paleolítica responsáveis pelas imagens na caverna de Chauvet pintaram seres sobrenaturais ao lado de animais não como evocações artísticas de fantasias religiosas. Eram entidades realmente vistas por eles. As pinturas de caçadas em que seres sobrenaturais eram representados ao lado de caçadores e presas apenas reproduziam uma vivência tal como era percebida pelo cérebro primitivo.

Experiências psíquicas significativas eram acompanhadas de alucinações específicas. As “figuras de transformação” dos antigos Olmecas têm essa mesma origem, pois entidades que representavam experiências psíquicas fundamentais eram percebidas na forma de um conjunto de atributos animais arquetípicos (“fúria do tigre”, “coragem do leão”,” esperteza da raposa” ainda são expressões usuais hoje em dia) associados a características antropormóficas básicas. E como Lewis-Williams demonstrou, o consumo de substâncias alucinógenas durante rituais praticados por sacerdotes e xamãs conferia aos arquétipos durante rituais a forma de manifestações abstratas, geométricas, tal como retratados em locais de culto.

Essas ideias podem parecer estranhas, mas convém recordar o conceito de consciência de Thomas Metzinger, já apresentado: consciência é uma aparência de mundo criada pelo cérebro para representar ao organismo uma versão de baixa dimensionalidade do mundo real. E somente recentemente começamos a nos dar conta da extensão desse fenômeno. Por milênios, a mente humana foi condicionada a considerar que aquilo que existe diante de seus olhos (isto é, aquilo que sua consciência cria e apresenta como realidade visual e espacial) é o mundo real. Mas, na verdade, onde se lê “mundo” em todos os relatos míticos sobre a criação do mundo, entenda-se “simulação ou simulacro de mundo de baixa dimensionalidade construído pela consciência e apresentado como mundo real”.

Por isso é que quando nossos antepassados ouviam vozes e tinham alucinações com entidades que representavam experiências psíquicas que estavam sendo vivenciadas em sua consciência naquele momento, eles apenas estavam integrando essas experiências psíquicas à percepção do mundo circundante. Não é algo em essência diferente do que alguém faz hoje em dia, quando projeta conteúdo psicológico reprimido em situações externas que não têm relação direta, mas simbólica, com tais conflitos. A percepção dos humanos de cem mil anos atrás não fazia qualquer distinção entre o conteúdo de sua psique e o conteúdo do mundo circundante. Essa distinção é moderna, pois nossa consciência atual é resultado recente de uma sucessão de singularidades, e começou no momento em que o ser humano deu voz, pela primeira vez, às forças fundamentais da psique. O ego humano, então rudimentar como o ego dos demais primatas, ouviu pela primeira vez a voz dos arquétipos.

III – A LINGUAGEM ARQUETÍPICA

Enquanto trocavam correspondência sobre a relação entre matéria e consciência, o físico Wolfgang Pauli e o psicólogo Carl Gustav Jung chegaram a uma precisa definição de arquétipo no âmbito hipercontexto.

“Arquétipo é uma probabilidade de experiência psíquica”, foi a definição formulada por Pauli, que Jung acolheu em seu sistema. Assim como a função de onda é o conjunto de todas as probabilidades de um objeto ser e estar ao mesmo tempo, no âmbito do hipercontexto as probabilidades de futuro de um mesmo indivíduo, que darão origem a realidades alternativas, apresentam-se como um conjunto de probabilidades de experiência psíquica. A cada probabilidade de experiência psíquica, portanto, corresponde pelo menos um arquétipo.

Pauli acreditava que essa definição de arquétipo enquanto que o associava a função de onda da matéria poderia revelar uma ordem de realidade superior, situada além do aparente abismo entre matéria e espírito. Afinal, experiências psíquicas são rigorosamente tudo o que conseguimos experimentar em relação à realidade. Não temos acesso direto aos objetos do mundo exterior, mas apenas a sua imagem representada em nosso cérebro. Portanto, para a consciência, a percepção de futuros prováveis no hipercontexto poderia ser percebida em termos de experiências psíquicas prováveis. A função de onda que é o destino de um ser humano, ramificando-se em vários caminhos, é composta a cada momento pelas experiências psíquicas que várias versões de um mesmo indivíduo estão vivenciando naquele exato instante.

Carl Gustav Jung (esq.) e Wolfgang Pauli (dir.)

Segundo Jung e Pauli, portanto, o arquétipo é uma probabilidade de experiência psíquica, diante dos futuros que tem a probabilidade de emergir a partir do momento presente. Se um indivíduo corre risco de vida em um acidente de trânsito e seu futuro ramifica-se na morte e na sobrevivência, a função de onda diante desse indivíduo, no exato momento do acidente, possivelmente será integrada pelo arquétipo da Morte e pelo arquétipo do Renascimento. Assim, Pauli e Jung deduziram que a relação entre os arquétipos ativados para um indivíduo em determinado instante de sua função de onda não operava de acordo com uma relação de causalidade, mas de sincronicidade, ou seja, em um plano complementaridade fundamental entre todas as coisas aqui e agora.

Com isso em mente, é possível compreender uma pequena fração de como funciona a consciência do Eu Superior ao perceber o conjunto de vidas alternativas de cada versão do mesmo indivíduo . Operando no hipercontexto, o Eu Superior não percebe essas múltiplas vidas da mesma forma como cada ego as percebe. Em outras palavras, a percepção total do Eu Superior não é mera soma das percepções de cada ego. O Eu Superior trata as realidades alternativas não em termos de fatos particularizados (área de atuação do ego), mas em termos de probabilidades de experiências psíquicas que se manifestam e se sobrepõem. Em outras palavras, em termos de arquétipos.

Assim, dois ou mais egos de um mesmo indivíduo podem estar passando por experiências concretas muito diferentes, mas que correspondem à mesma experiência psíquica fundamental. Uma versão alternativa do mesmo ser humano pode ter mudado de país, outra sobrevivido a um acidente potencialmente fatal, e ainda uma terceira pode ter começado em uma área profissional totalmente nova. Em todas essas situações, é provável que um arquétipo relacionado à experiência psíquica de renascimento esteja igualmente ativado.

Portanto, na perspectiva do Eu Superior, a cada instante o retrato de todas as vidas alternativas é pintado em termos de quais arquétipos estão ativados em quais vidas, agrupando sob a regência de um mesmo arquétipo aquelas vidas que convergiram para a mesma experiência psíquica fundamental. Por esse motivo é que foi usada, na segunda etapa desse ciclo de aprendizado, a metáfora do sistema operacional de um ambiente de rede, quando se descreveu o sistema que une todas as versões de um mesmo indivíduo no hipercontexto.

Estrutura geométrica do Grupo de Lie E8. Quem tem entendimento, entenda.

Nessa “rede”, a linguagem na qual o Self ou Eu Superior opera é composta por arquétipos atribuídos dinamicamente às versões alternativas de um mesmo indivíduo. Em outras palavras, o Self percebe a cada instante o conjunto de todas as vidas alternativas do mesmo indivíduo como uma função de onda representada por arquétipos.

O conjunto de arquétipos e sua dinâmica constitui, então, uma linguagem peculiar à psique inserida no hipercontexto.

Essa era a linguagem que nossos ancestrais deveriam ter desenvolvido ao reestruturar a consciência há doze mil anos, quando a percepção dos arquétipos pressionou a singularidade. A linguagem verbal, destinada a descrever a relação de causalidade que comanda as interações no fluxo do tempo em um só contexto (realidade alternativa) deveria ser apenas um dos módulos de compreensão do mundo, junto com uma linguagem arquetípica destinada a mapear a realidade em termos de conjunto de probabilidades de experiência psíquica.

Quando uma singularidade ocorreu para nossos ancestrais, abriu-se a possibilidade de a consciência humana desenvolver uma visão correspondente ao Eu Superior em relação ao seu momento presente (as experiências psíquicas ativadas neste momento para o ego) e ao seu futuro (as experiências psíquicas ativadas em cada futuro provável para aquele ego no hipercontexto, e que se concretizarão como realidades alternativas emergentes). Diante da humanidade, estava a chance de construir um modelo de mundo ou túnel da consciência (nos termos de Metzinger), que representasse também as experiências psíquicas correspondentes ao seu momento presente e às probabilidades de futuro. Isso possibilitaria que a mente desenvolvesse uma gradual percepção das realidades alternativas diante de si a cada instante, tornando cada consciência individual um instrumento ainda mais eficiente para a sobrevivência do organismo no hipercontexto.

Porém, o fenômeno documentado nas evidências arqueológicas de Göbekli Tepe e na narrativa do Gênesis revela que nossos antepassados cometeram um grande erro diante de uma ruptura cognitiva produzida pela própria percepção dos futuros prováveis. Disso emergiu não uma linguagem plena, capaz de construir uma consciência e uma percepção do mundo que abrisse uma janela para o hipercontexto. Surgiu, em seu lugar, uma linguagem limitada, que nos aprisionou a uma forma também limitada de perceber a realidade, na qual o mundo material adquiriu uma ilusória aparência de permanência e estabilidade.

IV – MORTE

É uma triste verdade que a história humana, em todos rumos que tomou no hipercontexto, raramente foi uma história de sucesso. A evolução joga-nos em um campo de batalha no qual há inúmeras formas de perder-se a vida e poucas de sobrevivermos e progredirmos enquanto espécie. Nem mesmo dinossauros são páreos para o puro acaso, que pode varrer do planeta milhões de espécies num só golpe de azar. Porém, nas tramas de realidade em que a humanidade tomou um melhor caminho, chama a atenção uma característica peculiar daquelas tramas de realidade menos felizes, como a que nasceu o leitor. Algo causa estranheza, até mesmo alarme, pois revela o nível de adoecimento da espécie humana naquele contexto.

Essa característica é a capacidade que o indivíduo comum tem de viver como se a morte não existisse.

Em 1973, Ernest Becker apresentou uma hipótese sobre a relação da psique humana diante a morte. Basicamente, Becker propôs que nós, seres humanos, construímos a personalidade humana e a cultura com o objetivo de nos protegermos da devastadora consciência da inevitabilidade de própria nossa morte.

O trabalho de Becker, porém, embora notável, era baseado unicamente em leituras de grandes pensadores como Otto Rank e Kierkegaard. Foi necessário o labor de vinte e cinco anos para que os psicólogos Jeff Greenberg, Sheldon Solomon e Tom Pyszczynski colhessem provas e documentassem, em experimentos controlados, a verdade da proposta de Becker, confirmando aquilo que outros pesquisadores já haviam concluído. Em 2015, a equipe publicou os resultados de seus experimentos, em que demonstram que a psique humana e a organização da própria sociedade são, de fato, estruturadas para cumprir uma específica missão: manter a consciência humana afastada da percepção da inevitabilidade de sua própria morte.

Como disse Becker, o sentimento básico de todo o ser consciente de seu futuro é o medo da morte, de modo que “tudo o que o ser humano faz em seu mundo simbólico é uma tentativa de negar e superar seu grotesco destino” de organismo fadado à decomposição. “A ideia da morte e o medo que ela inspira perseguem o animal humano como nenhuma outra coisa”, e assim constituem “uma proposição universal da condição humana”, que conduz a uma desonestidade fundamental do indivíduo “acerca de si mesmo e de toda sua situação”. “O homem literalmente se entrega a um esquecimento cego utilizando-se de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua situação que se constituem formas de loucura – loucura aprovada pelo consenso social, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas ainda assim loucura”.

Obviamente, qualquer pessoa hoje em dia sabe que vai morrer. Mas esse saber é quase todo ele retórico, uma noção vaga sobre a mortalidade, que raramente é levada em conta quando se trata de dimensionarmos nossa perspectiva das coisas, estabelecermos uma hierarquia de valores e orientarmos nossas decisões pessoais. Não sentimos realmente que vamos morrer, salvo nas raras vezes em que um acidente ou doença fatal nos submete à experiência psíquica da morte. Nesses casos extremos, o efeito ao menos temporário na vida de quem se salva é uma transformação radical de seus valores e prioridades. Porém, com o passar do tempo, a mente humana, mesmo após sentir realmente a existência da morte, volta à executar sua programação padrão e esquece gradualmente essa experiência psíquica. E assim o faz porque foi programada para esquecer da morte.

Costumamos julgar nossos antepassados sob o filtro de nossos preconceitos, como se fossem versões menos desenvolvidas do ser humano atual. Na verdade, se um ser humano atual fosse transportado para a mente de um ancestral de 10.000 A.C., ficaria assustado com sua percepção do mundo. Só porque hoje estamos condicionados a viver como se a morte não existisse, não significa que as coisas sempre foram dessa maneira. Criar essa autoilusão deu trabalho, custou vidas e levou tempo.

Estamos tão profundamente e por tantos milênios mergulhados em uma estrutura da consciência fabricada justo para nos permitir ignorar a real existência da morte que jamais nos ocorre que, quando uma espécie animal adquire determinado nível de consciência, e passa a perceber a inevitabilidade da morte, essa experiência é aterrorizadora.

A consciência animal vivencia as experiências psíquicas apenas à medida que acontecem. Por isso, os animais vivem basicamente em um eterno presente. O desenvolvimento da linguagem, porém, deu ao homo sapiens ferramentas conceituais para que elaborasse a noção de futuro e de probabilidades de futuro. Pela primeira vez, um ser humano foi capaz de concluir qual era o seu destino final. Ao observar a morte ao seu redor manifestando-se sob diversas máscaras, pela primeira vez o homo sapiens foi capaz de perceber que a cortina de fundo de todas as probabilidades de experiências psíquicas em seu futuro é, ela própria, uma experiência psíquica fundamental, a da própria morte de seu ego.

Nossos antepassados, quando a linguagem pressionou a evolução da consciência, não estavam municiados com os mecanismos protetores que o ser humano de hoje tem à sua disposição para viver em total ignorância da própria morte. O estado inevitável do ego humano nessas condições é de puro terror. Observe-se aqueles que padecem de depressão, de ansiedade, de transtornos obsessivos-compulsivos e de síndrome do pânico na sociedade atual: essas não são doenças da modernidade, mas amostras do que é a condição humana quando há um falha no sistema de proteção criado na consciência, e que deve afastar o ego da verdade sobre sua própria impermanência.

No âmbito do hipercontexto, esse foi um dos grandes filtros que marcou os rumos da humanidade. Becker chegou a utilizar uma metáfora extrema para descrever a condição humana: somos “deuses com ânus”. De um lado, a mente do homo sapiens distingue-o dos demais animais, e o torna capaz de sonhar com o infinito, a eternidade, a imortalidade. Porém, essa mente está aprisionada a um corpo que produz fezes, machuca-se e foi programado para a decomposição.

Na próxima etapa, falaremos mais sobre a verdadeira natureza da informação no âmbito do hipercontexto. Mas nesta etapa é importante notar que o fundamento dessa condição humana é o atrito entre a tendência que tem a informação de tornar-se independente da matéria, e portanto indestrutível, e a impermanência dessa própria matéria. Nas palavras de Becker, “o homem é um verme e alimento para os vermes. Este é o paradoxo: ele está fora da natureza e inapelavelmente nela; ele é dual, está lá nas estrelas e, no entanto, acha-se alojado num corpo cujo coração pulsa e que respira e que antigamente pertenceu a um peixe a ainda traz as marcas das guelras para prová-lo. Seu corpo é um invólucro de carne, que lhe é estranho sob muitos aspectos – o mais estranho e mais repugnante dos quais é o fato de que ele sente dor, sangra e um dia irá definhar e morrer. O homem está literalmente dividido em dois: tem uma consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque da natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador.”

As poucas versões em que história humana foi bem sucedida trataram-se casos em que a humanidade conseguiu equacionar essa questão existencial através de uma reestruturação da consciência que enfrentasse esse trauma de forma adequada. Na verdade, o conhecimento real da inevitabilidade da morte é importante, e foi um dos fatores importantes para o desenvolvimento intelectual e material nas tramas de realidade em que a humanidade mais progrediu. Afinal, não há melhor motor para o progresso humano, inclusive tecnológico, que a pressão da inevitabilidade da morte.

Esse, porém, não foi o caso da humanidade na trama de realidade que resultou na Revolução Neolítica. O motor para o progresso humano foi outro: foi a fuga, a cegueira voluntária, a ignorância estrutural. Na trama de realidade que originou o mundo em que estas palavras são escritas, o ser humano defrontou-se com sua mortalidade (Gênesis 3:3), e foi expulso do Jardim do Éden. Como a presa que cai numa armadilha, a humanidade foi induzida a fugir e a entrar em uma cela, como se ali pudesse encontrar proteção, e não escravidão.

V – FRUTO PROIBIDO

No filme de Aronofsky, a cena do fruto proibido é representada justo por uma queda: a essência de Sophia, associada a uma pedra ou cristal que era fonte de inspiração para o poeta, cai de uma estante no chão, por obra de Adão e Eva.

A noção de “queda do homem”, como forma de descrever o momento em que o primeiro casal morde o fruto da árvore do conhecimento, é comum nas vertentes cristãs do mito. Está presente, porém, também na representação hebraica que associa a “queda” de um tipo de conhecimento com a existência do mundo material em que estamos vivendo, mundo material esse associado com a figura da manifestação feminina de Deus (Barbelo ou Sophia).

Há poucas informações no mito sobre a natureza do fruto proibido. Tem-se uma associação primitiva com o trigo, o que vincula a história do Jardim do Éden à Revolução Agrícola. Mas sabemos das descobertas de arqueólogos como Ian Hodder e Klaus Schmidt que a Revolução Agrícola ocorreu em um momento posterior, sendo antecedida daquilo que Cauvin chama de “revolução simbólica” – ou, mais apropriadamente, de revolução cognitiva.

Além disso, no mito, o fruto proibido não é descrito sequer remotamente como trigo ou outro cereal, pois vem de uma árvore. Essa árvore é chamada de “Árvore do Conhecimento” (o complemento “do Bem e do Mal” é uma intromissão tardia), e situava-se no Jardim do Éden, estando de alguma forma relacionada com a questão do livre arbítrio humano, ou seja, com a responsabilidade de entender as consequências das escolhas que fazemos e de orientar nosso comportamento a partir desse entendimento. O leitor que já se familiarizou com a existência do hipercontexto pode perceber as implicações desse tipo de entendimento sobre probabilidades de futuro e decisões presentes, e como o próprio destino humano, ramificando-se em realidades alternativas a partir de escolhas e acasos, assemelha-se a uma árvore. Logo, o fruto proibido não é a agricultura, mas algo que lhe antecedeu, relacionado a uma transformação cognitiva.

Para decodificar-se o mito do Fruto Proibido, é preciso recordar que seus criadores não conheciam a escrita e transmitiram o registro de um evento através de uma alegoria. É preciso também lembrar que o Éden, ao menos da perspectiva de lendas como a dos quatro sábios que o visitaram, é um algo muito diferente do que poderíamos imaginar. Trata-se de um lugar (se é que podemos chamar de “lugar”) que desafia a capacidade de compreensão humana: um estado de consciência superior. Portanto, a árvore do conhecimento e seu fruto representam algo bem diferente de uma árvore real.

Árvore do conhecimento, em hebraico, é Cheit Eitz Ha-Da’at, sendo que Da’at significa “conhecimento” em um sentido muito específico da tradição hebraica. Há muito o que se falar sobre esse sistema conceitual, que revela fragmentos de uma genuína linguagem arquetípica. Mas, no momento, importa entender que tipo de conhecimento é esse, representado por “Da’at”.

O conhecimento contido no Fruto Proibido está associado, segundo a tradição, com a região da garganta humana, e se trata do mesmo tipo de conhecimento ou logos com que o poder divino criou o mundo. Ou seja, é o conhecimento relacionado à linguagem (região da garganta) que pode estruturar a consciência humana.

Ainda segundo a tradição, Da’at é um tipo de conhecimento superior, não intelectual, que se recebe através de um profundo engajamento emocional com quem o transmite. Por isso a palavra “Da’at” é usada para nomear o conhecimento que uma pessoa pode ter de Deus através de uma convivência íntima e profunda em sua própria vida (Da’at Elohim). E é importante observar que, segundo a tradição, esse tipo de relação com a divindade através de Da’at estaria em oposição à relação que se opera mediante oferendas e sacrifícios: “Porque quero e o conhecimento (Da’at) de Deus, mais do que os holocaustos” é uma passagem tradicional atribuída ao profeta Hoshea.

Como o rabi Shimon Leiberman definiu, “Da’at é a ponte entre a ideia e a realidade”. Ou seja, é uma ponte entre o plano das probabilidades e o plano em que uma das probabilidades é concretizada – entre hipercontexto e contexto. E Gershom Scholem, outra autoridade da simbologia relacionada a esse mito, explica que a tradição vê Da’at como uma “unidade que reúne atributos opostos e que dá origem a uma síntese que supera essa oposição”.

Se todas essas definições forem aplicadas ao mito segundo a linguagem arquetípica, Da’at parece corresponder ao que Jung definiu como “função transcendente”. Em outras palavras, Da’at seria a conexão entre a consciência e o Eu Superior, entre o mundo representado enquanto trama de realidade para o ego e o mundo representado enquanto sucessão de probabilidades de experiências psíquicas para o Eu Superior. Nesse sistema, a consciência seria estruturada em torno da função transcendente, como num mandala, e o ego animal deixaria de ocupar posição central, assumindo funções apenas operacionais.

Porém, quando a tradição hebraica representa as manifestações divinas em um diagrama, não se tem um mandala, mas uma estrutura que recorda o diagrama da mente bicameral apresentado no início deste texto: o mundo dos homens em uma posição inferior, separado de uma estrutura maior, a qual se conecta apenas por um elo. E, nesse diagrama hebraico, Da’at é indicado por uma ausência. Em outras palavras, no universo tal como construído e apresentado a nós pela consciência, o tipo de conhecimento representado por Da’at não está presente. Haveria em seu lugar, alguns dizem, uma espécie de ruptura, de abismo, que no filme de Aronofsky está presente na fenda ou ferida que se abre no chão da casa, que corresponde à própria ferida que o poeta abre no peito de Sophia para retirar seu coração/cristal.

A estrutura resultante é como se um fruto ou “módulo” tivesse sido retirado de seu devido lugar, resultando em um desequilíbrio ou mal-funcionamento de todo o sistema. Se Da’at é uma ponte, ela desmoronou. Se Da’at é um tipo de conhecimento via engajamento emocional, esse conhecimento não nos é acessível. Se Da’at, na anatomia humana, é associado à garganta, desconhecemos algum tipo de linguagem.

O gesto de comer o fruto proibido causa estranheza, e muitas especulações infundadas se inspiram no fato de que foi uma mulher que se deixou seduzir pela tentação da serpente. Mas a relação da mulher com o pecado original tem muito mais a ver com a antiga tradição que associa o arquétipo de “mundo exterior” à mulher (pois o primeiro mundo exterior percebido por todos nós foi o ventre materno) do que com qualquer questão de gênero. É a mesma relação entre Sophia, enquanto manifestação feminina da divindade, e o mundo material, e a mesma relação entre a personagem do filme de Aronofsky e a casa que construiu.

Assim, Eva e Sophia estão presentes no mito para indicar a consciência enquanto “representação de mundo”. No filme de Aronofsky, que moderniza um conjunto de mitos para o público atual, o poeta (Demiurgo, o ego) precisa que sua esposa (Sophia, a consciência), agonizando como resultado das ações dele próprio, permita a extração de sua essência na forma de um cristal, com o qual ele poderá tentar construir o mundo tal como idealiza em sua poesia, ou seja, com a linguagem. Adão e Eva, porém, surgem, ao mesmo tempo recordando o poeta da verdade da morte (Adão está desenganado pelos médicos, no filme) e envaidecendo-o com sua idolatria (primeira aparição, no filme, da idolatria que resultará em religiões que cultuam o poeta). E a seguir Adão e Eva quebram o cristal que representa a um só tempo a essência de Sophia e o fruto proibido, deixando-a cair no chão, e fazem isso exatamente no momento em que a esposa-Sophia diz ao poeta-Demiurgo (por sugestão de Eva) que há algo errado, que é preciso que eles tenham um filho. Esse filho é a Função Transcendente (tal como a iconografia de Maria com o Menino Jesus e Ísis com o Jovem Hórus o representam), arquétipo que o ego resiste em criar na consciência, pois seu surgimento implica em aceitar sua impermanência e desimportância.

Com todos esses elementos reunidos, tem-se a chave para decodificar um dos mais obscuros e antigos mitos. Na narrativa do Jardim do Éden e do Fruto Proibido, a consciência, em sua função de representação de mundo (ou seja, Eva), retirou de um sistema de linguagem superior e transcendente (ou seja, a árvore do conhecimento, Da’at), um módulo (um de seus frutos). Disso resultou uma fratura ou falha estrutural do sistema de representação da realidade (tal como descrito pela “ausência” de Da’at e pelo abismo), e assim o ser humano perdeu sua conexão com uma forma de consciência transcendente (ou seja, o primeiro casal foi expulso do Éden). Como resultado, a humanidade teve de construir seu mundo apenas com as partes remanescentes dessa estrutura fraturada (todos os descendentes do primeiro casal suportam o resultado da condenação).

Jung e seus discípulos identificaram em pacientes psiquiátricos a curiosa tendência de desenharem um mesmo tipo de padrão geométrico circular. Esse padrão, conforme observaram, também estava onipresente em sonhos de pacientes, sendo, além disso, recorrente em representações religiosas. Mais que isso, descobriram que estimular as pessoas a desenharem tal padrão impulsionava o processo de autocura, de auto-regeneração da psique.

Sabemos que esse padrão geométrico era chamado de Mandala por Jung, e sabemos que representa um modelo básico de organização da rede formada pela união do Self aos egos que vivem em realidades alternativas. Mas a mandala também é a estrutura de organização ideal dos arquétipos na própria consciência humana, pois representa a dinâmica que deveria ter surgido como resposta adequada à singularidade que ocorreu há doze mil anos.

Mandala elaborado pelo próprio Jung, para representar suas experiências psíquicas.

Portanto, se a estrutura organizativa da mandala é recorrente em sonhos e no processo auto-curativo da psique humana é por um só motivo: aprisionados, uma parte de nossa mente elabora a ideação da cura total, e obsessivamente tenta representar aquela que deveria ter sido a estrutura da consciência humana se um erro não tivesse ocorrido no passado. Não é por outro motivo que a imagem da mandala é tão recorrente em todas as religiões.

Mas de onde, afinal, vieram as religiões?

VI – O NASCIMENTO DA RELIGIÃO

Estamos tão acostumados à ideia da religião que jamais nos ocorre que ela nem sempre existiu. Não nos ocorre usualmente que a religião, enquanto “ficção intersubjetiva” (como diria Yuval Harari), em algum momento foi inventada.

Se por um lado a espiritualidade, ou seja, a abertura à possibilidade de perceber manifestações que não parecem existir enquanto realidade material (essa é a disposição psíquica necessária ao desenvolvimento de uma linguagem arquetípica, como veremos), seja uma prática muito mais antiga e espontânea, o surgimento da religião enquanto sistema organizado em torno de “deuses”, isto é, entidades que deveriam ser idolatradas e para as quais se prestava algum tipo de sacrifício ritual, é algo bem diferente. Religião é a perversão da espiritualidade.

Podemos apenas imaginar como era a mente do homo sapiens no mesolítico, quando a linguagem arquetípica manifestou-se a partir do desenvolvimento de signos linguísticos, dando voz e personalidade aos arquétipos. Por parecerem dotados de autonomia ao homo sapiens primitivo, já que eram suas as vozes ouvidas pela primeira vez na mente humana, os arquétipos foram tratados como se fossem eles próprio entidades “reais”, tais como os animais e os seres humanos. E essas alucinações não eram apenas individuais, mas também coletivas. E Jaynes deixa claro que foi graças a essas alucinações coletivas que as primeiras sociedades complexas puderam surgir, superando as restrições da natureza que condenavam o ser humano ao tribalismo.

As evidências arqueológicas deixam claro que a formação das primeiras cidades dependia da colaboração de centenas de pessoas. Porém, a cooperação entre seres humanos na natureza está limitada ao chamado número de Dunbar. É que o limite cognitivo de interação entre seres humanos numa tribo não pode ultrapassar 150 membros. Ultrapassado esse número, espontaneamente um segundo grupo resulta da divisão do primeiro. Com essa restrição, é impossível desenvolver sociedades complexas, dependentes da coordenação de centenas ou milhares de pessoas.

Imagem do deus Hitita Sharruma com o rei Tudhaliyi. Jaynes chama a atenção para o fato de o deus segurar o braço do rei, como se guiando-o.

Assim, a associação de grandes populações nas primeiras cidades só seria possível se algum novo tipo de sistema de comunicação existisse. Yuval Harari demonstrou em seu livro Sapiens a importância de ficções intersubjetivas como “dinheiro”, “lei” e “governo” para a coesão de grandes grupos de humanos. Se dois perfeitos desconhecidos compartilham das mesmas ficções intersubjetivas, tratando-as por reais, podem interagir no mesmo contexto imediatamente, confirmando a coesão social em um grupo numeroso.

Mas as primeiras ficções intersubjetivas possuíam uma aparência muito mais concreta para os povos primitivos. Seria pouco razoável supor que abstrações complexas como dinheiro, rei e lei tivessem surgido de imediato na mente do homo sapiens. Assim, potências que representavam emoções ou ideações humanas eram percebidas como entidades sobrenaturais. Não é por outra razão que as primeiras cidades possuíam um deus como patrono ou fundador, e que no centro dessas cidades havia uma estátua de tal divindade, em geral dentro de um templo ou no centro de uma praça. Essas estátuas ganhavam vida em alucinações coletivas, incorporando arquétipos que permitiam a coordenação de grupos compostos por centenas e até mesmo milhares de pessoas, conseguindo assim superar, pela primeira vez, a limitação do número de dumbar.

Alucinações coletivas são fenômenos bem estudados pela psicologia desde o século dezenove, quando Brière de Boismont documentou casos de histeria de massa em que grande número de pessoas não só compartilhavam de uma mesma experiência psíquica, mas também acreditavam compartilhar da visão de uma mesma entidade espiritual. Nessas situações, os participantes não enxergam e escutam exatamente a mesma coisa. Na verdade, cada participante tem sua alucinação particular, mas acredita estar vendo e ouvindo a mesma coisa que os demais. E, de regra, embora subjetivo e individual, o conteúdo dessa alucinação corresponde à experiência psíquica que está sendo vivenciada coletivamente, e por isso a vivência simbólica de cada indivíduo corresponde à experiência de todas as pessoas no nível arquetípico, havendo uma convergência alucinatória.

Nobres assírios diante do trono de seu deus, que está vazio. A ilustração é comentada por Jaynes, que chama a atenção para a ênfase nos dedos apontando como se algo estivesse no trono.

Essa é a razão de tradicionalmente as principais divindades das religiões antigas não possuírem uma única aparência, mas serem descritas por um conjunto de imagens e de seres associados àquele determinado Deus. Por exemplo, entre os Gregos o deus Dionysus aparecia em uma grande variedade de formas, como leopardo, cabra (Dionysus Eriphos), touro (Dionysus Taurokephalos), falo priápico, criança, homem barbado, adolescente púbere, espírito negro (Dionysus Melanaigis) ou hermafrodita. Entre os antigos nórdicos, Wotan era representado com um velho com capa e chapéu com abas largas, um cavalo de oito pernas, um poderoso monarca sentado em seu trono, um corvo, um guerreiro montado em seu cavalo e um barqueiro de longas barbas. Quetzalcoatl, entre os astecas e olmecas, era retratado como serpente com penas, serpente com uma crista multicolorida, ser antropomórfico com um bico de ave, entre outras imagens. Essas versões de um mesmo deus são derivações mitológicas das variadas formas como cada indivíduo percebe, em uma alucinação coletiva, o arquétipo na experiência compartilhada pelo seu grupo.

Mas se alucinações coletivas são a base potencial do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica, então como seria a comunicação por meio de uma linguagem desse tipo, que transmite vivências psíquicas com uma simbologia correspondente à subjetividade de cada indivíduo, mas conectada à experiência coletiva de todos os participantes?

Na verdade, como Thomas Metzinger expôs em obras como The Ego Tunnel e Being No One, rigorosamente o mundo que vemos ao nosso redor e que tomamos por realidade não passa de uma alucinação coletiva, se por alucinação entendermos uma simulação neurológica apresentada por nosso cérebro como se fosse o mundo real. O fato de que hoje essa alucinação coletiva está limitada apenas àquilo que vemos de concreto em nossa trama de realidade é justamente a consequência do erro que ocorreu há doze mil anos, em lugares como Göbekli Tepe.

Antes de Göbekli Tepe, a linguagem dos nossos antepassados não se restringia apenas às palavras, mas incluía gestos, expressões faciais e outras formas de comunicação não verbal. As palavras eram apenas o primeiro recurso da linguagem, destinado principalmente a representar as coisas (se entendermos por “coisa” aquilo que não é sujeito de experiências psíquicas) que existem em determinada trama de realidade, sendo essa a razão de sua origem. As palavras e sons rudimentares eram os blocos de construção principal, mas não exclusivos, de um sistema de linguagem mais complexo, pelo qual se podia evocar, por meio de signos visuais e sonoros, a “presença” dos arquétipos. Os arquétipos, destinados a representar experiências psíquicas no hipercontexto, formavam uma linguagem superior, que só poderia ser corretamente utilizada por uma consciência mais desenvolvida que a de nossos antepassados, ainda centrada no ego.

Não somos capazes de realmente vivenciar como seria a linguagem arquetípica tal como percebida por nossos antepassados. E isso porque aquilo que somos hoje, o ego que possuímos atualmente, é justamente o resultado, consolidado por milênios, da perda dessa habilidade de interagir com o hipercontexto e com o Eu Superior por meio da linguagem arquetípica. Por razões que logo serão expostas, perpetuamos a existência do ego animal, conferindo-lhe uma estrutura informacional constituída por uma linguagem corrompida, restritiva e aprisionante.

VII – A FUGA

O ego não é exclusividade dos seres humanos. Todos os animais mais complexos, notadamente os mamíferos, possuem um modelo de ego. Diz-se “modelo” pois é exatamente do que se trata: o ego é um modelo informacional construído pelo cérebro humano e colocado no centro daquele modelo de mundo de baixa dimensionalidade que é representado pela consciência como sendo a realidade.

É importante deixar claro sobre qual o material de que é composto essa arquitetura da consciência: de informação. E informação é algo que não existe materialmente. A única coisa que tem existência material são os dados: uma sequência de DNA é um dado, mas só com a transcrição é que começa a se tornar informação, ou seja, um processo de organização e dinâmica da matéria, encadeado em determinada sequência significativa.

Mas informação em alto nível de complexidade, ou seja, informação sobre informação, não tem obrigatoriamente um suporte material (algo na matéria que lhe dá suporte exclusivo), mas apenas um correspondente material (algo na matéria que lhe representa transitoriamente) como é o caso de uma imagem apresentada pela combinação de certos pixels em uma tela e que pode deslocar-se para qualquer ponto dessa tela, transitando para diferentes pixels. Algo que não existe concretamente (no sentido material) e que sequer precisa guardar unívoca correspondência e dependência em relação a determinado suporte material – isso é informação de nível superior, e é o que nossos antepassados chamavam de espírito. Esta é a distinção entre espiritualidade e religião: tratar signos complexos de informação como se fossem um manifestação literal de entidades divinas.

Deuses sumérios: a religião é a perversão da espiritualidade.

A consciência animal, portanto, é dotada de um ego rudimentar, uma unidade informacional destinada a conduzir a vida do organismo dentro de uma só trama de realidade. No período pré-neolítico, a linguagem desenvolveu-se a ponto de dar expressão viva aos arquétipos. Pela primeira vez, nossos antepassados percebiam as experiências psíquicas não somente enquanto estavam acontecendo, como é o caso dos outros animais: as experiências psíquicas eram, a partir de então, percebidas enquanto padrão que se repetia, e sua manifestação no futuro era percebida como conjunto de probabilidades. Em situações de estresse coletivo, esses arquétipos eram percebidos como alucinações coletivas, e a origem dos primeiros “encantamentos” e “palavras mágicas” vem da capacidade que tinham certas palavras de evocar determinados arquétipos em situações ritualizadas.

A partir desse momento, cabia à humanidade perceber que aquelas entidades vistas e ouvidas em determinadas situações não possuíam, de fato, individualidade e autonomia tal como um ser vivo possui. Jung descreveu os arquétipos como “complexos psíquicos parcialmente autônomos”, a fim de evidenciar que se tratam de sistemas de informação que possuem, enquanto “palavras” do “vocabulário” de uma linguagem complexa, certa autonomia no desempenho de sua “função sintática”, destinada a expressar as várias vidas alternativas de um mesmo indivíduo no hipercontexto. Porém, não se tratam realmente de entidades dotadas de personalidade, autonomia e subjetividade.

A pressão para esse salto evolutivo da consciência (perceber os arquétipos enquanto representações, e não seres reais) era inerente à própria aquisição da linguagem arquetípica. A percepção dos arquétipos relacionados à probabilidade de morte, principalmente em representações associadas a grandes predadores e animais peçonhentos, colocava o ego primitivo no centro de uma arena psíquica. Diante de si, pela primeira vez, estava a compreensão da finitude do ego quando percebida da perspectiva de uma trama de realidade. E essa percepção não era meramente conceitual, mas se manifestava na figura de entidades aparentemente mortais. Dessa arena, o ego só poderia escapar com sucesso através autotranscendência, processo pelo qual acabaria por instaurar, em sua consciência, aquilo que Jung chamou de função transcendente – uma ponte com o Eu Superior, em torno da qual se organizariam os demais conteúdos da psique.

Contudo, havia um outro caminho, igualmente conveniente ao ego animal, pois também permitia isolar o trauma de perceber a experiência psíquica da morte na condição de probabilidade futura. Tratava-se de uma solução engenhosa e eficiente, embora suas consequências só pudessem ser percebidas muito tempo depois, quando se tornassem irreversíveis.

Em algumas dessas tramas, a humanidade escolheu a solução de abertura ao aprendizado da linguagem arquetípica. Em outras, escolheu solução diferente. No nosso caso, a arena foi montada em Göbekli Tepe, e nossos antepassados saíram dela graças à segunda opção.

A solução engenhosa consistia em seguir o caminho diverso: a fim de afastar a vivência aterrorizante de arquétipos associados à morte, ao invés de reconhecer todos os arquétipos como parte de uma linguagem superior, outro caminho viável era isolar o ego animal e negar-se a perceber a existência dos arquétipos.

É importante lembrar que isso ocorreu como tentativa da mente humana de lidar com um processo extremamente traumático, na qual percebia a possibilidade da morte do ego a cada momento. O psicólogo Otto Rank falava sobre o terror do mundo, o terror diante do mysterium tremendum et fascinosum da realidade que nos cerca, com suas inúmeras possibilidades de futuro. Conforme pesquisadores como Becker, Greenberg e Sheldon Solomon demonstraram, a percepção constante da morte, como resultado do desenvolvimento da linguagem, foi sentido como um genuíno trauma, causador de uma ruptura cognitiva. E uma das formas de reagir ao trauma é a fuga dissociativa, pelo qual a mente do indivíduo isola-se da experiência traumatizante, recusando-se a reconhecê-la e protegendo dessa forma o ego a fim de que ele continue, mesmo em situação de alto estresse, minimamente operacional.

Mas como fazer isso? Como passar a não ver e ouvir aquilo que estava sendo visto e ouvido de forma tão clara em alucinações individuais e coletivas? Como não perceber mais o que estava diante de nossos olhos?

Isso leva à teoria do psicólogo Wilhelm Reich sobre as “várias mortes” de Cristo.

A hipótese de Reich foi a de que Cristo existiu enquanto personalidade histórica, tratando-se de alguém liberto das amarras que prendem o ser humano à sua consciência limitada. Para Reich, o protagonista da teodiceia cristã seria alguém dotado de uma consciência plenamente evoluída. Seus contemporâneos não o teriam comprendido, pois seu público era constituído de pescadores analfabetos e pessoas do povo. E foi assim, a partir da ignorância do aprisionado que recusa reconhecer a liberdade refletida nos olhos de ser humano, que aqueles ao redor desse ser desperto e livre começaram a “crucificá-lo” de várias formas simbólicas, antes de crucificá-lo fisicamente.

De todas as formas de morte, a mais insidiosa consistiu, segundo Reich, em tratá-lo como se fosse um deus. Ao tratá-lo como divindade, aqueles a seu redor já partiram do pressuposto de que sua consciência evoluída era algo “divino”, e portanto inacessível ao ser humano “pecador”. Seu exemplo vivo, sobre a possibilidade de todos também sermos sãos, despertos e livres, tornou-se miragem, e ao invés de entendermos as verdadeiras palavras de Cristo, construímos novas prisões para o espírito humano na forma de dogmas, religiões, opressão moral e inquisições. Foi assim que uma mensagem de amor ao próximo converteu-se em discurso legitimador das fogueiras da Santa Inquisição e de guerras no nome de Deus.

Portanto, para Reich, a forma mais insidiosa de ignorar o que Cristo teria dito seria não reprimindo sua mensagem, mas deturpando-a e interpretando-a como mensagem religiosa.

A lógica por trás da teoria de Wilhelm Reich é interessante: uma forma de não enxergar aquilo que está diante de nossos olhos é tratar tal coisa por outra coisa, rejeitando, com base em uma visão religiosa, a possibilidade de acesso humano a essa outra coisa. Trata-se do desenvolvimento da religião como técnica de mascarar uma percepção que a consciência se recusa a reconhecer. A religião torna-se instrumento de deturpação de uma mensagem, na qual mensageiro e mensagem são literalizados e tratados como objeto de idolatria.

E a primeiro mito do Gênesis a tratar da religião enquanto sistema de culto ritual e cerimônia litúrgica foi no mito-gêmeo de Caim e Abel, que conta a história do primeiro homicídio.

VIII – CAIM E ABEL

Os mitos do Fruto Proibido e de Caim e Abel são gêmeos. Tentam descrever, de duas perspectivas, a mesma singularidade que ocorreu há doze mil anos. Enquanto a história do pecado original é uma alegoria sobre a natureza da Revolução Cognitiva que resultou na mente bicameral, a história do primeiro homicídio bíblico é uma alegoria sobre a origem da Revolução Neolítica, unindo em uma só trama religião, sacrifício e agricultura. O mesmo pode ser dito sobre o mito da Torre de Babel, no plano da linguagem.

No filme de Aronofsky, a noite chega após um dos filhos do casal que representa Adão e Eva matar seu irmão, por sentir-se preterido em relação a uma herança. E é para participar da cerimônia de velório da vítima que uma multidão invade a casa pela primeira vez. Curiosamente, são as “vozes” dessa multidão que o poeta escuta durante tal cerimônia que lhe dão a inspiração para concluir sua poesia. Somente a partir desse momento é que o poeta passa a realmente escrever no filme. Antes, não conseguia colocar uma só linha no papel, como se não dominasse a linguagem. E a poesia criada mediante essa inspiração, quando concluída, será tratada pela multidão não como obra de arte, mas como objeto de culto, como mensagem divina em torno da qual religiões se organizam e disputam a posse da verdade.

Caim e Abel, o contexto de prática religiosa é evidente.

Segundo o Gênesis, Caim mata Abel dominado pela ira, pois Javé preferiu o sacrifício de um animal, feito por Abel, e rejeitou a oferenda de Caim, produto da agricultura. O contexto do evento, portanto, é o religioso, de adoração ritualizada da divindade através de uma oferenda. Caim é a agricultura, Abel é o sacrifício. Na versão bíblica da lenda de Caim e Abel, já há o vestígio da transição entre sacrifício de humanos para o de animais, evidente na dualidade de Abel ser ao mesmo tempo, na história, a vítima humana que sacrifica uma vítima animal. Assim, a ideia de que a agricultura está relacionada com a morte de alguém no contexto da prática religiosa está subjacente a toda narrativa.

A interpretação literal dessa lenda traz a ideia de que se está contando uma história, o que é uma forma equivocada de interpretar um mito. Um mito não conta uma história, da mesma forma que um sonho não conta uma história. E aprendemos com Jung, Elíade e Campbell a não interpretar mitos e sonhos como tentativas de apresentar uma narrativa coesa e literal – até porque literalizar é o próprio da interpretação religiosa.

O mito é uma representação alegórica de algo que não pode ser descrito com o universo conceitual conhecido pela consciência humana. A religião é justamente a escolha por tratar o mito como uma narrativa literal (em maior ou menor grau), enquanto a disposição adequada [3]Que poderíamos definir como “espiritualidade autêntica”. trata o mito como ferramenta informacional, ou seja, como uma informação transmitida através de um sistema de linguagem superior (superior em nível de complexidade, domínio e abstração).

No mito, tem-se a associação entre ritual de sacrifício, representado por Abel, e agricultura, representado por Caim. A versão mais moderna da história, apresentada no Gênesis, tenta explicar que Caim matou Abel movido por inveja diante da preferência de Deus. Porém, essa é uma tentativa tardia feita pela própria religião, que literaliza o mito utilizando o típico recurso de expor a motivação dos personagens sob o enfoque da lição moral. Desse ponto de vista religioso, o mito ganha a forma de uma história sobre um crime.

Porém, a narrativa de Caim e Abel apresenta o nascimento da primeira religião mediante a ritualização do sacrifício humano, indicando a estreita relação entre essa prática e a agricultura. Caim, pai da agricultura, mata Abel porque ele foi “escolhido” por Javé, estando a “escolha” de alguma forma associada simbolicamente à ideia de oferenda sacrificial. Convém lembrar que nos sacrifícios ritualizados, a vítima costuma ser tratado como alguém “ungido” ou “escolhido” pela divindade – sublimação mítica do anseio animal por sua presa.

Isso pode parecer chocante, mas apenas do ponto de vista de uma sociedade que se deixou seduzir pela reinterpretação higienizada de mitos muitos antigos, reinterpretação essa transmitida oralmente por muitas gerações antes de sacerdotes as registrarem por escrito com propósito religioso e educador. Há uma estreita relação entre a origem da religião e o surgimento da agricultura, e esse elo é o primeiro assassinato em nome dos deuses na forma de sacrifício ritual.

Jacques Cauvin já no título de sua principal obra, Naissance des divinités, naissance de l’agriculture (“Nascimento das divindades, nascimento da agricultura”), deixa claro que a intervenção ambiental necessária para o surgimento da agricultura tem por pressuposto a criação de uma cosmovisão centrada na percepção de que os deuses poderiam ser aliciados para pouparem os homens e beneficiarem a agricultura. E essa origem comum entre religião e agricultura acabou sendo confirmada com a descoberta, no fim do século passado, de Göbekli Tepe, o berço da Revolução Neolítica. Como diz o arqueólogo Lewis-Williams em The Neolithic Mind, o “contrato cognitivo” que foi pactuado pela raça humana nesse lugar foi assinado em nome de todos nós pela primeira casta de sacerdotes usando o sangue da primeira vítima humana, sacrificada na primeira religião.

Klaus Schmidt, líder da equipe de arqueólogos em Göbekli Tepe, acredita que seja a esse local que os mitos sumérios se referiam ao contar a história do Monte Dul-kug, espaço sagrado em que pela primeira vez os deuses da primeira religião, os Anunnaki, foram cultuados [4]Schimidt, Göbekli Tepe, 206.. Ali foi criado o primeiro sistema religioso, ou seja, a primeira literalização dos arquétipos, tratados como espíritos e deuses a serem temidos e cultuados. Dali se originaram todas as demais culturas da antiga Mesopotâmia. Da mitologia babilônica à gematria hebraica, do gnosticismo ao neoplatonismo, tem-se um conjunto de reinterpretações e desenvolvimentos de uma narrativa mitológica que foi criada naquele local.

Os Anunnaki em uma representação Assíria – portanto, tardia e já antropoformizada.

Os arqueólogos estão certos que as monumentais estruturas em Göbekli Tepe tinham exclusivo propósito cerimonial, pois não há absolutamente nenhum vestígio de assentamento humano na área. Além disso, a enorme quantidade de fragmentos de pedras lapidadas na forma de pontas de lança e outros tipos de armas deixa claro que se tratava de um lugar de peregrinação de um culto violento, baseado na guerra ou na caça. Especula-se que o afluxo constante de peregrinos ao local foi o que acabou forçando o desenvolvimento da agricultura, como técnica inventada para alimentar centenas de pessoas. É o que indica o fato de que a origem do trigo, primeiro cereal cultivado pelo homo sapiens, ter sido rastreada até as vizinhanças de Göbekli Tepe.

Nas enormes e pedras de até quinze toneladas que foram encontradas em Göbekli Tepe, a representação de animais peçonhentos e de predadores mostrando garras e presas transmite a ideia de violência e medo. Há imagens de corpos humanos sem cabeça, agitando-se com vida diante de uma plateia de escorpiões e abutres, e totens retratando criaturas que brotam do estômago de seres humanos cercados por serpentes. Sem dúvida, tratava-se de uma cultura sofisticada para o período, com uma enorme riqueza de símbolos e grande habilidade na construção de estruturas com pedras que pesavam toneladas Porém, a impressão de que ali havia medo e sofrimento sempre persistiu, por mais que os pesquisadores tentassem manter sua objetividade.

Raposa e javali, em posições de ataque, mostrando suas presas. Observe a representação dos genitais masculinos – segundo Ian Hodder, para evocar agressividade.

Mas os fato acabaram por confirmar essa impressão. Nos primeiros meses de 2017, os arqueólogos que trabalham em Göbekli Tepe anunciaram a descoberta de um número impressionante de vestígios de crânios humanos separados dos corpos de forma artificial, com sinais claros de cortes e incisões que sugerem seu uso ritualístico no local, inclusive pendurados por cordas.

Observando os vestígios arqueológicos, pode-se facilmente reconstruir o cenário original. Quem ali estivesse durante uma das cerimônias via-se entre dois monólitos representando deuses de cinco metros de altura, cercados por enormes pedras com imagens de leões, lobos, serpentes, ursos, hienas, abutres e homens sem cabeça. Mas não apenas relevos e esculturas eram aterrorizantes. Os espectadores ou vítimas dos rituais ali realizados estavam diante de cabeças de vítimas humanas penduradas para evocar algum tipo de sentimento, possivelmente pouco agradável.

Achados de Göbekli Tepe. À esquerda, seres emergindo do peito e ventre de um homem (serpentes flanqueiam a figura). À esquerda, um predador, possivelmente um leopardo.

Na verdade, os elementos desse cenário são completados pela descoberta em Çayönü Tepesi, outro sítio arqueológico pré-neolítico da região, de um fosso no qual estavam fragmentos de ossos de pelo menos 450 indivíduos. O destino dessas pessoas foi revelado quando também se descobriu próximo à construção uma faca esculpida em sílica e um altar sacrificial esculpido numa pedra de uma tonelada, na qual se encontrou vestígios de sangue humano e animal.

Peças de Göbekli Tepe. A – Estátua humana que foi propositalmente decepada; (B) Urso segurando a cabeça de um homem; (C) Escorpiões e Abutres, um homem sem cabeça e com ereção situa-se abaixo do Escorpião, enquanto um abutre segura uma cabeça humana (interpretação dos arqueólogos).

Mas qual a razão desses rituais? Por que tantas pessoas peregrinavam até aquela região com tanta frequência a ponto de surgir a agricultura para alimentá-los? Por que os construtores de Göbekli Tepe tiveram tanto trabalho erguendo aqueles monumentos com pedras que pesam toneladas? Por que a evocação do terror, por que o sacrifísio? Qual o motivo de tanto esforço e sofrimento? Apenas em nome de uma fantasia religiosa? É pouco provável.

Na verdade, essas perguntas encontram resposta em certos precedentes, casos em que civilizações recentes surgiram centradas no sacrifício humano como forma de aliciamento dos deuses e organização social.

IX – A COSMOVISÃO DA PRESA

Quando a inteligência do Velho Mundo cuidou de estudar as principais sociedades da mesoamérica, ficou escandalizada com suas práticas religiosas, com seus mitos cheios de sangue, deuses carnívoros e sacrifícios humanos. A frequência com que corpos decapitados, corações arrancados e entidades vestidas de pele humana são retratados na arte Olmeca, Maia e Asteca fez H. G. Wells sugerir seriamente que esses povos sofriam de algum tipo de psicose coletiva.

Essa é apenas a vaidade do britânico eurocêntrico, supondo que sua origem necessariamente deveria ser mais nobre e menos insana diante da violência, do terror, da crueldade. Porém, a civilização que foi tardiamente levada a tribos britânicas nasceu na antiga Mesopotâmia, e os arqueólogos atuais, com o apoio da tecnologia mais recente, não se cansam de descobrir que as primeiras civilizações dessa região, os sumérios e os babilônios, também se banhavam no sangue vertido para deuses sedentos de vidas humanas. Além disso, o paralelo entre muitos mitos da região mesopotâmica e a mesoamérica pré-colombiana são desconcertantes.

Ocorre então que práticas religiosas como as dos Olmecas, Maias e Incas estão longe de ser anomalias na história do desenvolvimento da civilização ao redor do planeta. Tratam-se de povos que revelam com clareza o que ocorre quando o homo sapiens cria, a um só tempo, a primeira civilização e a primeira religião: a pedra de fundação é o sacrifício humano.

E quando se estuda a primeira civilização da mesoamérica pré-colombiana, os Olmecas, matriz para os posteriores Maias e Astecas, tem-se uma sociedade estratificada, controlada por uma casta de sacerdotes a serviço de uma religião politeísta, em que os principais deuses são predadores como o jaguar e animais peçonhentos como a serpente, em homenagem aos quais aqueles sacerdotes sacrificavam vidas humanas como prática habitual de culto.

O etnólogo Michael Winkelman é uma das maiores autoridades entre os pesquisadores que buscam entender a relação entre sacrifício humano e desenvolvimento da sociedade. Em 1998, estudou profundamente comunidades mesoamericanas na busca daquelas que praticavam sacrifício humano como forma de comportamento normativo e associado ao benefício da coletividade. Em todos os casos, tratavam-se de grupos “com uma forte dependência da agricultura, sedentários ou com residência relativamente permanente”.

A conclusão de Michael Winkelman dá voz à conclusão de outros tantos pesquisadores, principalmente de arqueólogos municiados de evidências que estabelecem uma relação entre sacrifício, agricultura, criação de um sistema de castas e organização política das primeiras cidades. Mais de uma equipe de pesquisadores colheu evidências de que o ritual de sacrifício humano transitou de forma voluntária e sacralizada de ofertar uma vítima aos deuses para uma forma de consolidar uma divisão de castas através da escolha de quem seria sacrificado.

O arqueólogo David Lewis-Williams apresentou mais um fator político para os rituais de sacrifício em Göbekli Tepe. É que graças ao desenvolvimento da primeira religião, surgiu a primeira casta de sacerdotes, e assim a primeira forma de domínio do ser humano pelo ser humano nasceu. Não tardou para que novas castas e estratificações sociais surgissem a partir da matriz sacerdotal, assegurando a manutenção do sistema social pelo sacrifício ritual de vozes dissonante ou grupos situados na base da pirâmide.

Os antigos xamãs, versados em técnicas que estimulavam estados alterados de consciência, dominavam com maestria os primeiros rudimentos de linguagem arquetípica criados pelo homo sapiens. Thomas Metzinger observou que druidas, pajés e xamãs tinham como ofício explorar, mediante o uso de alucinógenos ou procedimentos indutivos de transe como o temazcal, outras possíveis arquiteturas para a consciência e diferentes modelos de representação do mundo.

Com a singularidade, uma oportunidade política surgiu para que esses “profissionais” a serviço de suas tribos criassem a primeira casta sacerdotal, detentora do conhecimento de como apaziguar e agradar aos deuses. O que houve foi algo semelhante ao que ocorreria se engenheiros e programadores responsáveis pela primeira superinteligência artificial a utilizassem para seu benefício pessoal. No caso dos sacerdotes de Göbekli Tepe, isso foi possível porque eles ofereceram às suas tribos um produto de que necessitavam: uma suposta “cura” para o terror diante da consciência da morte. Essa “cura” foi a mente bicameral.

A mente bicameral, em que o ego começa a interagir com os arquétipos como se fossem deuses, e não como elementos de uma linguagem superior, foi o primeiro passo para o que se consolidou como o isolamento definitivo do ego na consciência. O fenômeno que Jaynes equivocadamente chamou de “origem da consciência pela ruptura da mente bicameral” (título de sua principal obra) foi apenas a conclusão de um processo de fuga dissociativa da psique humana que começou exatamente com a produção desse sistema bicameral. No fim desse processo, o ego ficou totalmente isolado, senhor único da consciência humana, sem tomar conhecimento de qualquer verdade que possa ameaçar sua ilusão de autoimportância e imortalidade.

Essa situação foi resultado do caminho escolhido pelo ser humano diante da singularidade produzida por uma linguagem que demandava a reestruturação da consciência a fim de superar do terror da morte. Não se tratou de uma escolha consciente, mas de uma escolha conveniente – e não apenas sob o aspecto da casta sacerdotal que foi criada.

Por milhões de anos, o homo sapiens e seus ancestrais ocuparam uma posição intermediária na hierarquia da cadeia alimentar. Primatas caçavam roedores e outros animais de pequeno porte, ao mesmo tempo em que fugiam dos grandes predadores, situados no topo da pirâmide. Na verdade, as evidências arqueológicas revelam que a maior parte da carne consumida por nossos antepassados não era por eles caçada, mas obtida de carcaça de vítimas de grandes predadores, de modo que nossos rivais eram abutres e hienas. O fato de que os fósseis de homo habilis sempre são descobertos junto a pedras lascadas indica, inclusive, que nossos ancestrais inventaram as primeiras ferramentas não para o nobre uso da caça, mas para a mais modesta atividade de extrair o máximo de carne deixada nos ossos de um cadáver.

Em determinado momento, tudo isso mudou. Graças ao surgimento da linguagem, foi possível aos seres humanos combinar estratégias para caçarem animais de grande porte e repelir o ataque de grandes predadores. Graças ao surgimento da linguagem, instruções mais complexas sobre como preparar ferramentas e armas puderam ser transmitidas. Há uma estreita relação entre linguagem, cérebro e as primeiras ferramentas, e essa dinâmica fez com que o humilde homo sapiens ascendesse na sociedade animal. Subitamente, com a linguagem, o ser humano pulou da modesta posição que ocupava na cadeia alimentar para o time de elite, ao lado de leões, lobos e leopardos.

Mas algumas dezenas de milhares de anos não passam minutos de na história evolutiva, e os circuitos neurológicos e a programação animal que herdamos de nossos ancestrais mais remotos não nos preparou para vivermos e pensarmos como grandes predadores. Por milhões de anos, os hominídeos só souberam fugir desses carnívoros vorazes. Até mesmo nosso sistema nervoso está condicionado para que nossas reações e decisões correspondam a lógica de quem é caçado, e não de quem caça.

Pilar de Göbekli Tepe. Animais peçonhentos como serpentes, escorpiões e aranhas também estão presentes no local.

Não convém subestimar o peso que a condição de animal caçado teve em nossa evolução. Aumentar as possibilidades de sobrevivência diante de predadores com músculos, garras presas e mandíbulas poderosas foi um dos principais fatores da adaptação evolutiva a estimular a associação entre humanos e, portanto, a impulsionar a criação das primeiras formas de linguagem. O próprio Darwin considerava que os hominídeos não teriam evoluído como animais sociais se um deles pudesse, sozinho, enfrentar os predadores habituais. O desenvolvimento da linguagem é uma resposta à nossa inferioridade animal.

E a experiência psíquica de ansiedade e medo constante das garras de um predador continuou presente na cosmovisão humana. Porém, como o desenvolvimento da linguagem, essa experiência manifestava-se em alucinações auditivas e visuais que eram compartilhadas pelo grupo a que pertencemos em situações de estresse coletivo. Perceber tais alucinações como predadores superiores, situados no topo da pirâmide alimentar do universo (ou seja, percebê-los enquanto deuses), ajustava-se perfeitamente ao condicionamento de nossa psique.

Antigos xamãs ameríndios.

A humanidade subiu ao topo da cadeia alimentar, mas ficou presa aos fantasmas de seu passado ancestral. Assim, sua reação diante desses arquétipos apenas simulou a reação condicionada em nosso sistema nervoso por milhões de anos de sobrevivência nessa condição.

Walter Burkart, em seu clássico Structure and History in Greek Mythology and Ritual propõe que imaginemos um grupo de seres humanos primitivos cercados por um predador. Seu comportamento pode ser deduzido do comportamento de outros animais hoje em dia, em idêntica situação. “Usualmente”, diz Burkart, “haveria apenas uma forma de salvação: um membro do grupo precisava tornar-se presa de carnívoros famintos, e desse modo os demais poderiam se salvar por enquanto”.

E não é por acaso que essas duas palavras, “sacrifício” e “salvação”, são bem conhecidas nas litanias da Igreja Católica. O comportamento padrão dos hominídeos na cadeia alimentar, em que uma vítima, voluntariamente ou não, sacrificava-se em nome do grupo, foi repetido na cadeia alimentar imaginária que o homem estabeleceu com os arquétipos que representavam a experiência psíquica do Mal e da Morte, e essa foi a matriz original de todas as religiões.

Por milênios, o terror da presença de um grupo de carnívoros famintos era aplacado quando alguém se tornava vítima e o restante do grupo salvava-se. Os primeiros rituais realizados diante do que se interpretou como entidades superiores, acima dos seres humanos na cadeia alimentar do universo, os deuses, foi o ato de ofertar vidas humanas como repetição maníaca de uma situação recorrente na natureza. Tratou-se de tentativa de eliminar a percepção de um suposto mal repetindo um procedimento que aplaca a fome de predadores na natureza.

O sacrifício humano está presente nas religiões de ontem e de hoje com muito pouca sutileza, reproduzindo a oferta de uma vítima sacrificial a deuses que evocavam as mesmas experiências psíquica de morte e terror que os grandes predadores. Trata-se de uma reação ao trauma da consciência da morte que é similar ao trauma de vítimas de longo período de cativeiro que, após serem libertadas, ainda se comportam como se estivessem cativas.

Quando subimos de posição na cadeia alimentar, graças ao desenvolvimento da linguagem, e nos tornamos predadores, levamos conosco a cosmovisão de animais caçados e amedrontados. Quando tivemos acesso, graças também à linguagem humana, à percepção de uma linguagem superior, com a qual poderíamos reescrever a estrutura de nossa consciência, decidimos isolar o trauma do conhecimento da morte do ego isolando esse mesmo ego em uma consciência incapaz de interpretar as experiências psíquicas.

Ritual de sacrifício em ânfora grega.

Temos, diante de nós neste momento, a percepção daquilo que emergiu da singularidade de doze mil anos atrás segundo perspectiva hipercontextual e contextual da psique humana. No hipercontexto, ou seja, da perpectiva da função de onda que é a vida humana, em que os arquétipos são probabilidades de experiência psíquica, a consciência do indivíduo foi reestruturada para isolar-se do conhecimento da linguagem arquetípica, naquilo que Jaynes chamou de mente bicameral. No contexto, da perspectiva evolutiva e histórica, a humanidade lidou com o trauma da percepção da morte e com a súbita posição de vantagem na cadeia alimentar reajustando o sistema de forma retrógrada: inserindo o novo mundo na lógica de uma antiga cosmovisão de inferioridade. Inventou-se a religião.

O elo que une ambos aspectos da singularidade é o sacrifício. O sacrifício humano ritualizado é a um só tempo a manifestação literal de um comando em linguagem arquetípica (que buscava justamente reproduzir essa mensagem ou estrutura informacional na Matriz, de isolamento) e a gênese das primeiras religiões organizadas. Michael Winkelman observou que a relação entre números de sacrifícios em uma comunidade é inversamente proporcional à hierarquização das crenças religiosas, como se o sacrifício fosse “um mecanismo para alcançar uma forma de integração religiosa em sociedades carentes de um sistema integrativo e hierárquico de crença”.

Embora o sacrifício seja um ato essencialmente repugnante, foi custoso à humanidade abandonar sua prática. E mesmo após abandonado, tão forte foi sua presença que sempre deixava sua marca. Nas religiões que se desenvolveram a partir das primeiras, animais passaram a substituir seres humanos, e nas mais recentes esconde-se por trás de reinterpretações como o sacrifício de mártires cristãos e da autoimolação de monges budistas. No primeiro caso, a própria Paixão de Cristo apresenta a biografia de Jesus como a do cordeiro oferecido em sacrifício para salvar toda a humanidade. Já na tradição budista o mito da imolação surgiu cedo, nas primeiras obras de sua literatura, e é interessante notar que em uma das mais populares narrativas do Jataka é sobre como em outra encarnação Buda teria dado seu próprio corpo em sacrifício para que uma tigresa alimentasse sua cria – justo uma narrativa envolvendo a experiência fundamental humana enquanto caça de grandes predadores.

Sacrifício de crianças na antiga Babilônia (fonte: “Human Sacrifices on Babylonian Cylinders, William Hayes Ward).

O sacrifício humano tem essa influência na formação da cosmovisão religiosa justamente por se tratar de um procedimento que provocava, ao menos inicialmente, elevado estresse na comunidade (situação em que os arquétipos tendem a se manifestar como alucinações coletivas) e em parte por reproduzir, diante dos arquétipos, o mesmo comportamento ancestral do ser humano diante de animais poderosos e ameaçadores. Com o sacrifício, o homem mesolítico dava a si mesmo uma explicação sobre quem ou o que eram os arquétipos que passaram a ter voz e se comunicar com ele, inserindo-os na sua cosmovisão primitiva de vítima de um grupo de carnívoros. Basta observar os relevos e estátuas das entidades cuja presença os antigos construtores de Göbekli pretendiam evocar durante os rituais ali realizados. Como Ian Hodder diz, são animais agressivos, notadamente predadores, de regra em posição de ataque, exibindo suas garras e presas.

Mais ainda, do ponto de vista ritualístico, como forma de interação possível com os arquétipos (contextualizados como deuses), o ritual de sacrifício nada mais era do que uma literalização da linguagem que, toda vez que repetida, expressava-se em linguagem arquetípica, criando uma barreira de recusa fundamental do conhecimento da Matriz. Rejeitando os arquétipos enquanto módulos de uma linguagem superior, o ser humano reteve apenas uma parte elementar da dimensão linguística adquirida, e com ela construiu a mente bicameral, na qual os arquétipos se manifestavam apenas enquanto deuses. O passo seguinte foi ampliar esse isolamento com aquilo que Jaynes identificou como o surgimento da consciência, mas que se tratou apenas da consolidação do ego como senhor absoluto da consciência, dispensando até mesmo a percepção dos arquétipos como divindades.

Para Gobekli Tepe afluíam tribos de caçadores-coletores que peregrinavam de todas as regiões da antiga Mesopotâmia, a fim de que cada uma oferecesse suas vítimas ao sacrifício, forma de apaziguar os grandes deuses que se revelavam na forma da alucinação de animais com garras e presas poderosas. Ali xamãs reuniram-se e aos poucos formaram a primeira casta sacerdotal, isolando na consciência humana a percepção de um arquétipo na forma de alucinações que eram tratadas não como elementos de uma linguagem que representava a experiência psíquica que estava sendo ou seria vivenciada, mas como entidades sobrenaturais, que eventualmente se comunicavam com os mortais.

Mas esse isolamento do ego como senhor da consciência, apesar de ser uma solução diante do trauma do terror diante da morte, foi na verdade uma forma de a humanidade desviar-se de seu melhor futuro e cair em uma armadilha, enredando-se até não conseguir mais retornar. Sua consciência tornou-se sua própria prisão.

X – A PESTE EMOCIONAL

Peregrinando até locais de culto como Göbekli Tepe, as tribos de homo sapiens reuniram-se sob o comando de uma casta de sacerdotes para lidar a um só tempo com dois problemas resultantes do desenvolvimento da consciência a partir da linguagem: com o desajuste de sua cosmovisão após a súbita ascensão ao topo da cadeia alimentar e com o terror e ansiedade que vem da percepção da própria mortalidade. Emergiu dessas cerimônias a mente bicameral e a primeira religião, perversão da espiritualidade enquanto abertura para a linguagem arquetípica.

Há muito o que falar sobre a natureza dos rituais realizados em Göbekli Tepe e os relevos em certas pedras encontradas no sítio arqueológico. Mas, no momento, o que importa é que essa transformação da espiritualidade dos caçadores-coletores na religião dos agricultores deu-se pelo manejo da linguagem arquetípica por xamãs durante rituais que literalizavam a experiência psíquica de terror diante da morte tal como percebida toda vez que um predador cercava um grupo humano. O sacrifício cerimonial evocava o estresse coletivo, e o estresse coletivo sob a influência de alucinógenos tornava mais vívida a percepção dos arquétipos que se desejava “invocar”, e cuja fúria pretendia-se aplacar com a oferenda de uma vida humana.

Mas a estratégia de fuga dissociativa consistente em tratar os arquétipos como deuses a serem apaziguados eliminou a possibilidade de desenvolvermos uma linguagem arquetípica. Esse processo de idolatria posicionou os arquétipos na zona de transparência fenomênica da consciência, como diria Metzginger – ou no inconsciente coletivo, como diria Jung. Desenvolveu-se, em relação ao ego e à consciência, uma ignorância fundamental de qualquer linguagem arquetípica. Restou à consciência reestruturar-se apenas com o conteúdo mais elementar da linguagem humana: as palavras.

As percepções conscientes não dependem da linguagem para sua ocorrência, mas a linguagem influencia decisivamente a forma como as percepções conscientes ocorrem e são processadas. A linguagem orienta a sintaxe do pensamento e a construção de decisões importantes à sobrevivência do organismo. Na verdade, a linguagem verbal participa ativamente da consciência em níveis mais fundamentais, como a percepção de tempo, a atenção visual e as emoções.

Portanto, a linguagem verbal estrutura o modelo de mundo construído pela consciência ainda quando não pensamos estritamente na forma de narrativa verbal. A linguagem verbal se viralizou na consciência e tornou o ego humano um incansável “falador interno”, e qualquer pessoa que pratica pela primeira vez alguma técnica de meditação budista observou como é difícil silenciar esse “falador” maníaco por apenas alguns minutos. Jaymes Joyce, ao introduzir a técnica literária do “fluxo” da consciência, ilustrou como as palavras e associação de palavras se sucedem na mente do homo sapiens nos dias de hoje, ainda que produzam apenas lixo e ruído a maior parte do tempo.

Desse modelo de mundo, porém, estão excluídas as experiências psíquicas, por ausência de uma linguagem adequada para descrevê-las. Não é que as experiências psíquicas não nos ocorrem – elas continuam ocorrendo o tempo todo. Mas elas não integram a consciência humana pois essa consciência utiliza uma linguagem verbal descritiva, e palavras são totalmente incompetentes quando se trata de descrever experiências psíquicas fundamentais, a fim de que sejam assimiladas pela consciência da forma correta.

Somos praticamente cegos em relação à sucessão de experiências psíquicas, portanto. Elas nos ocorrem, mas lidamos com elas inconscientemente, na medida em que determinam nossas reações emocionais e influenciam nosso comportamento sem muitas vezes percebermos.

A ausência de uma linguagem capaz de representar à consciência as experiências psíquicas que ocorrem no hiper contexto torna qualquer um de nós um livro aberto para quem está familiarizado com a linguagem arquetípica. Mesmo a publicidade e a política atuais começam a fazer uso progressivo dessa zona cega em nossa cognição para manipular medos e desejos de espectadores e eleitores.

Um dos fragmentos de linguagem arquetípica ainda existentes no legado humano, aquela que é chamada de “Linguagem do Crepúsculo” no ocidente, é melhor traduzida do sânscrito Sāṃdhyābhāṣā por “Linguagem Intencional”, e não por acaso. Não referindo-se a coisas, mas a experiências psíquicas, e não tratando de eventos, mas de configurações na sincronicidade, a linguagem arquetípica seria a forma possível de informar e configurar o contexto emocional em que qualquer diálogo ocorre. Em síntese, a linguagem arquetípica teria a função de “metalinguagem”, de informar a intenção com que algo está sendo dito.

Desprovidos de uma forma de reconhecer os arquétipos atuantes em qualquer tipo de interação humana, seja de natureza íntima ou política, os seres humanos possuíam apenas as palavras para transmitir sentimentos e intenções que deveriam contextualizar a comunicação. As palavras, porém, são insuficientes para expressar os complexos e ambivalentes sentimentos humanos, e apenas produzem mais discórdia, divergência e oposição quando usados como única forma de interação humana, ainda que para o intercâmbio de ideias. Na retórica religiosa fundamentalista, nas intermináveis discussões entre casais e nos violentos embates sobre política em redes sociais tem-se exemplos de como a comunicação feita apenas com palavras só aumenta a incompreensão.

Goebbels, sempre desagradável, resumiu o século XX em uma só frase: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Essa é uma das consequências modernas de um antigo mal, que contaminou também a própria verdade: uma verdade repetida mil vezes perde seu sentido, torna-se lugar comum. Repita-se uma palavra um determinado número de vezes e ela perde seu significado, parece um som estranho. Tal é o limite da palavra, uma ferramenta extremamente útil (assim como o ego) mas nociva quando sua funcionalidade é desviada.

Essa “cegueira”, esse “analfabetismo” para lidarmos com as experiências psíquicas que nos ocorrem, incrivelmente não nos causa estranheza. O ser humano é nada mais que uma vítima de experiências psíquicas que o possuem transitoriamente. Os homens fazem planos, mas seus planos são malogrados por emoções confusas e decisões motivadas por impulsos mal compreendidos.

“As tendências à dissociação caracterizam a psique humana e são inerentes a ela; sem isto, os sistemas psíquicos parciais nunca a teriam cindido, ou melhor, não teriam gerado espíritos ou deuses”, ensina Jung. Nossa verdadeira e única religião, lembra ele, é o “monoteísmo de uma consciência”, uma “possessão da consciência que ocasiona uma negação fanática da existência dos arquétipos”.

Isso, para Jung, representa um “grande perigo psíquico”, pois os arquétipos, embora não sejam reconhecidos pela consciência, continuam atuantes, influenciando nossas condutas. “Tal fato, evidente nos casos de neuroses, também o é no campo dos fenômenos psíquicos de caráter coletivo”, e após escrever estas palavras Jung faz alusão ao nazismo.

Mas o nazismo é somente um dos mais recentes casos em que a cegueira arquetípica mergulhou o mundo no sangue e na destruição. Da inquisição espanhola aos atentados terroristas modernos, da Guerra Fria com sua corrida armamentista à degradação irreversível do meio ambiente, qualquer observador que examine nossa história com objetividade chegará à conclusão de que se trata de uma história de “loucura consensual, compartilhada, disfarçada e dignificada, mas loucura ainda assim”, nas palavras de Becker.

E o cotidiano de qualquer ser humano está cheio de situações em que coisas foram ditas e feitas sob o domínio de alguma emoção que se tem dificuldade de controlar ou mesmo de perceber objetivamente. Muitas das principais decisões de uma pessoa ao longo de sua vida são tomadas sob o domínio de algum tipo de errônea percepção emocional da situação. Num nível mais extremo, as prisões de todo o mundo estão repletas de casos em que a possessão por algum tipo de conteúdo psíquico incontrolável levou ao crime.

Se negamos a existência dos arquétipos, demonstra Jung, nem por isso seu efeito em nossas vidas cessará, embora não possamos mais compreendê-los. “Eles tornar-se-ão um fator inexplicável da perturbação, que atribuímos a algo fora de nós mesmos”. Isso, no âmbito individual, desencadeia neuroses, depressões, ataques de pânico, transtornos obsessivos e ataques de ansiedade, e no âmbito coletivo “desencadeia alucinações coletivas, incidentes de guerra, revoluções – em resumo, psicoses destruidoras de massa.”

O ser humano de hoje tem a seus pés toda a criação. Senhor do mundo, não há grande predador que lhe oponha resistência. Com seu mundo imaginário, construído por linguagem e regido por ficções como Leis, Dinheiro e Nações, foi capaz de criar armas de destruição em massa e vencer os limites da atmosfera terrestre. Porém, triste primata, não encontra genuína alegria em tudo o que faz, não vê propósito em seus dias, escraviza-se pelas ficções que ele próprio criou, da sua vida por elas, sente-se sempre incompleto, em desconforto e desequilíbrio. O homem nasce livre, lembra Rosseau, e por todos os lados está acorrentado. E “de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro, se perder a própria alma?”

XI – O ENREDAMENTO

Nos cartazes do filme Mother!, o filho de Sophia é associada ao próprio cristal, mas com uma forma circular (perfeita, mandálica) e não assimétrica, como o cristal do filme, que o poeta retira de sua esposa agonizante. Por outro lado, o poeta trata o cristal de uma forma bem curiosa: embora a pedra venha de Sophia, devota-lhe uma reverência que não devota à própria Sophia. O poeta protege o cristal, coloca-o em um pedestal em sua estante, coisifica-o.

As consequências do “pecado original”, da perda de um módulo da linguagem, foram mais concretas do que as confusões emocionais que atrapalham o destino humano. Como Ian Hodder, arqueólogo chefe da equipe responsável pelas escavações em Çatalhöyük, demonstrou que após a Revolução Neolítica a identidade humana passou a ser definida por uma relação de interdependência não com outros seres vivos, mas com “coisas”.

A essa relação, Hodder deu o nome de enredamento. O enredamento no mundo das coisas é uma consequência inevitável do isolamento da linguagem arquetípica, pois a partir de então a consciência humana só pode representar o mundo material e as relações de causalidade, fixando sua atenção linguística nas coisas.

“Enredamento” é um nome apropriado para descrever a relação entre identidade humana e coisas, pois peixes enredam-se em redes assim como o ser humano enreda-se na matéria. Quando a vida humana começa a depender de coisas e, tomados pelo terror diante da morte e impermanência, passamos a buscar nas coisas a sensação de estabilidade e permanência que a vida orgânica não possui, caímos em uma armadilha. Quanto mais dependíamos da matéria, mais surgiam novas ramificações de dependência, mais a identidade humana, no contexto da sociedade, dependia de vínculos com a matéria. Esse processo atinge um ponto de irreversibilidade ao qual já chegamos. Não há como voltar, estamos irreversivelmente enredados na matéria, e ela nos define enquanto seres humanos.

Essa relação de dependência entre ser humano e coisas, resultado da ignorância de uma linguagem arquetípica, “produz e contém a ação humana, levando os seres humanos a enredamentos dos quais se torna difícil se desconectar”, nas palavras de Hodder. Porque humanos dependem de coisas que precisam ser mantidas para que se possa depender delas, humanos são aprisionados nas vidas e temporalidades das coisas, com suas vicissitudes e insaciáveis necessidades”. Hodder conclui que “coisas parecem como a Hidra, exigindo uma habilidade hercúlea para que possam parar de se multiplicar e aprisionar, e ainda assim esse aprisionamento é sedutor e produtivo” ao ser humano.

Hodder elaborou um procedimento para estabelecer as teias de interdependência entre humanos e coisas no contexto das primeiras populações neolíticas.

Basta calcular a quantidade de tempo da sua vida que um ocidental médio gasta com atividades indesejadas, a que se submete para poder comprar coisas materiais e, após as adquirir, manter e preservar tais aquisições. O trágico é que a maior parte dessas coisas materiais, cuja aquisição e manutenção consomem tempo de vida, são totalmente desnecessárias, são adquiridas apenas porque a consciência humana foi manipulada para desejar essas coisas e encontrar gratificação em sua posse.

Basta também pensar na contínua troca de veículos, equipamentos eletrônicos e roupas que uma sociedade maníaca estimula como forma de legitimação e status social. Basta pensar na quantidade alarmante de lixo que uma família comum produz semanalmente em qualquer país ocidental. Basta pensar em quantos governos corruptos e investidores inescrupulosos arruínam nações e devastam o meio ambiente em nome da riqueza material. Desprovidos de uma linguagem arquetípica, voltada ao mundo interior e que nos permitisse trabalhar e lidar conscientemente com nossas experiências psíquicas, acabamos procurando no mundo material a pouca gratificação e controle que podemos ter em nossas vidas. E isso entronizou a violência como forma precípua de ação humana.

A restrição do acesso da consciência apenas a um tipo elementar de linguagem, apropriada apenas para descrever coisas e processos causais, e não experiências psíquicas de seres vivos e processos sincronísticos, levou progressivamente à própria coisificação dos próprios seres vivos. A começar pelos animais, que deixaram de ser tratados como sujeitos eles próprios de experiências psíquicas, dotados de subjetividade e vida emocional, para serem tratados como coisas, sujeitando-se uma violência que transborda a natural violência decorrente da simples caça.

O historiador Yuval Harari deixa claro em sua obra Sapiens que “para a grande maioria dos animais domesticados, a Revolução Agrícola foi uma catástrofe terrível”, e por isso ele a chama de “o maior crime praticado pela humanidade”. “A fim de transformar bois, cavalos, jumentos e camelos em animais de carga obedientes, seus instintos naturais e laços sociais tiveram de ser destruídos, sua agressividade e sexualidade contidas e sua liberdade de movimento, restringida”. “No caso de animais como bois, ovelhas e homo sapiens, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, temos que considerar em que medida o sucesso evolutivo se traduz em experiência individual”, sugere Harari.

Porcos para o abate: “coisa” é o que não é igual ao sujeito.

Pode-se definir violência como o ato de coisificar um ser vivo, ou seja, de negar-lhe o status de ser senciente e tratá-lo como coisa. Desde as inevitáveis microviolências do cotidiano, em grande parte importantes para o desenvolvimento psíquico, até as mais aberrantes formas de homicídio e abuso físico, sempre se trata de coisificar um ser humano ou animal, tratando-o como se não fosse detentor do direito de sentir e ter seus sentimentos considerados. Violência é coisificação, e uma das primeiras formas de coisificação do próprio ser humano surgiu na Revolução Neolítica, com a escravidão.

As evidências arqueológicas demonstram que a escravidão surgiu com a invenção da agricultura, mas essa é apenas a coisificação humana mais evidente. Qualquer outra forma de hierarquia social só foi desenvolvida a partir da Revolução Neolítica, algo absolutamente impensável para as tribos de caçadores e coletores de outrora.

Após compararem dezenas de sociedades primitivas, uma equipe de pesquisadores da Alemanha, Austrália e Estados Unidos, coordenada por Joseph Watts, psicólogo do Max Planck Institute e da Universidade de Oxford, demonstraram que a prática do sacrifício humano teve um papel fundamental em nosso modelo de sociedade, pois o sacrifício humano promoveu e manteve as primeiras sociedades divididas em classes. Como Lewis-Williams e Pearce propuseram, a começar pela criação da primeira casta sacerdotal, a humanidade concebeu a organização política de sociedades complexas, compostas por centenas de indivíduos, segundo uma lógica procedural de domínio e repressão.

Vítimas nazistas sob os olhos de soldados das Forças Aliadas: “coisa” é tudo o que não é igual ao sujeito.

Mas construir uma cosmovisão que autoriza a tratar outros seres vivos, humanos ou não, como “coisas”, sujeitando-os à violência de forma socialmente aceita, exige que se estabeleça um critério consensual para definir “o que é ou não uma coisa”. E o critério fundamental que se desenvolveu e foi utilizado de diversas formas, por distintos sistemas sociais e a serviço dos mais variados interesses foi o da alteridade. Essa genuína tecnologia da opressão, que autoriza até mesmo que antigos senhores tornem-se tão cruéis quanto seus algozes assim que chegam ao poder, essencialmente prescreve a seguinte norma de julgamento: “aquilo que não é igual a mim é coisa e, portanto, pode ser tratado como tal”.

O critério da alteridade, decorrente da queda da linguagem e pelo qual um outro ser vivo torna-se coisa foi adaptado a vários tipos de situações. A partir de sua invenção, qualquer elemento de desigualdade que pudesse autorizar a coisificação do outro ser vivo e que se mostrasse socialmente conveniente para determinado grupo social foi utilizado como forma de legitimar a violência contra o outro. Desde as primeiras desigualdades óbvias, como as de natureza sexual, que permitiu o desenvolvimento de um sistema patriarcal, até as politicamente mais elaboradas, como os casos em que a violência é exercida por quem se considera vítima e portanto autorizada a coisificar o opressor, não houve caminho inexplorado na busca de legitimar algum tipo de domínio sobre o outro ser vivo, seja para usá-lo ou meramente assegurar sua sujeição.

O critério da alteridade é elástico e fundamenta toda forma violência, e não apenas a social. Os casos anormais de maldade humana, como aqueles que se manifestam em psicopatologias violentas, são claramente casos de uso extremo desse critério coisificador: o psicopata, apesar de ele próprio sofrer e sentir, recusa-se a reconhecer o sofrimento de todos a seu redor. O psicopata, enquanto tal, trata todos os seres vivos como coisas.

XII – TORRE DE BABEL

No mito da Torre de Babel, tal como contado no Genesis, os seres humanos se reúnem para construir uma grande torre que lhes permitiria chegar aos céus. Porém, como consequência desse ato arrogante, Deus lhes pune fazendo com que os seres humanos não mais compartilhassem da mesma linguagem, de forma que cada qual passa a falar uma língua diferente dos outros.

Apenas a ingenuidade supõe que os povos antigos teriam interesse em mitos que explicassem distinções linguísticas entre populações. Os grandes mitos não se destinam a explicar curiosidades culturais, mas eventos importantes para determinado povo ou cultura. E, novamente, a ideia de punição divina, inserida no mito, é uma típica interpretação tardia que pretende apresentar o mito como fábula de exortação moral sobre a humildade. Mas interpretação religiosa do mito da Torre de Babel foi sistematicamente refutada por Theodore Hilbert em seu estudo sobre a lenda.

A origem do nome “Babel” é explicado no Gênesis através do uso de um verbo que poderíamos traduzir com o neologismo “babelizar”, significando “misturar”. Isso porque “Babel” é derivado verbo “balal” (בָּלַל) que, como mais de um intérprete observa, é uma palavra raramente usada no Velho Testamento e sempre no sentido de misturar a farinha decorrente dos cereais com os adequados óleos antes de fazer um ritual de oferenda de pão a Javé – forma tardia de sublimação do sacrifício de seres humanos e animais a deuses.

Em sua pesquisa etimológica e bíblica, Theodore Hilbert deixa claro que esse é o significado original da palavra, e que os tradutores sempre incorretamente a traduziram por “confundir” (no sentido de “confundir as línguas”) sem qualquer justificativa para isso senão a motivação religiosa da tradução. Tem-se, assim, a um só tempo uma alusão à agricultura e ao ritual de oferecer alimento à divindade, e dessa forma o Gênesis conta que a ruína dos homens em Babel foi ter sua língua “misturada”, tal como se faz com uma oferenda a deuses. E as oferendas de pão e cereais são uma elaboração tardia dos antigos rituais de sacrifício.

Como chave final para a interpretação, outro significado para o nome “Babel” sugerido por etimologistas e teólogos é o nome sumério “bab ilim”, que significa “Portão da Divindade”. Portanto, o mito fala da possibilidade de a humanidade atingir um nível superior de consciência (alcançar os céus) em um período em que todos compartilhavam de uma mesma linguagem. Também fala de um momento, posterior, no qual houve uma “mistura” ou “sacrifício” da linguagem como forma de “oferenda” religiosa. A consequência, segundo o mito, foi que a partir de então os seres humanos não conseguiram mais se entender. Perdeu-se, para sempre, a linguagem antiga, que permitia a perfeita compreensão entre todos e a construção de uma estrutura que conduziria a humanidade até Deus. Trata-se da narrativa sobre a renúncia da linguagem arquetípica por nossos ancestrais.

Mas como uma linguagem arquetípica permitiria o correto entendimento entre os seres humanos? Basta que recordemos os casos em que experiências psíquicas eram vivenciadas coletivamente, momentos esse em que os mesmos arquétipos se manifestavam para quase todos os envolvidos, embora essa manifestação fosse adaptada a cada subjetividade. Por sua sobreposição simbólica, os arquétipos permitiam a comunicação de experiências psíquicas pelo engajamento emocional sem perda da individualidade. Quando a compreensão entre duas pessoas era atingida, ela não precisava limitar-se à compreensão intelectual, restringida às palavras. A compreensão também poderia ser emocional.

O sentido original de glossolalia não está relacionado à palavras sem sentido ou em línguas estrangeiras, mas de “linguagem onírica”, linguagem dos sonhos, em geral atribuída por gregos e romanos à “linguagem divina”. Da mesma forma, a tradição hebraica fala de situações em que alguém em êxtase fala a “linguagem dos anjos” (como no caso das filhas de Jó). No cristianismo, quando alguém recebe em si o Espírito Santo, como descrito em Atos, pode comunicar-se em uma língua na qual é compreendido por todos a seu redor, não importa o idioma que falem. A glossolalia é, portanto, na tradição hebraico-cristã o oposto da “babelização” ou sacrifício da linguagem.

Mas o impacto de uma linguagem arquetípica vai muito além da capacidade de comunicação profunda entre seres humanos. A linguagem arquetípica é uma forma de a consciência humana começar a perceber o hipercontexto, na medida em que a função de onda que é a vida de um indivíduo (ou seja, o somatório de todas as suas versões distribuídas em realidades alternativas distintas) é adequadamente percebida pela psique humana através dos arquétipos. E isso porque os arquétipos são, conforme a perfeita definição de Wolfgang Pauli, probabilidades de experiências psíquicas no hipercontexto – ou seja, a forma fundamental como o tipo de vida orgânica que nós, seres humanos, percebemos a realidade.

O desenvolvimento de uma linguagem arquetípica influenciaria a estrutura da consciência humana, tal como o uso de qualquer linguagem elaborada tem o potencial de fazer. Com uma estrutura diferente daquela que emergiu de Göbekli Tepe, essa consciência não estaria centrada no ego, e sim naquilo que Jung chamou de função transcendente – o ponto de abertura ao Eu Superior.

O mundo representado por essa consciência teria a habilidade de tornar perceptível as probabilidades de experiência psíquica que um indivíduo tem diante de si, em seu futuro, a cada momento. Compreendendo a natureza dessas probabilidades, o indivíduo assim versado em uma linguagem arquetípica pode, com suas ações presentes, compreender e influenciar ativamente a função de onda que seu destino realmente é.

Ao mesmo tempo, quanto ao momento presente, aquele que tem domínio de uma linguagem arquetípica está consciente do arquétipo que está ativado a cada instante, em relação de complementaridade (sincronicidade) como tudo o mais. Com constante atenção à sucessão contínua de experiências psíquicas em sua mente, tal indivíduo não se torna mais prisioneiro de estados emocionais incontroláveis, e muito menos pode ser presa daqueles que dominam algum tipo de linguagem crepuscular ou outras formas de manipulação emocional.

Compreendendo os padrões de experiência psíquica fundamentais, dotados de profundas raízes biológicas, aquele que domina uma linguagem arquetípica pode não apenas ajustar-se perfeitamente à experiência psíquica do momento. Também pode desenvolver, conforme sua propensão criativa e curiosidade, uma nova paleta de emoções que são inconcebíveis para quem está preso às cores primárias da herança animal.

EPÍLOGO

“Há algo que acontece”, escreveu Wilhelm Reich, “desde há muito tempo, no interior da sociedade humana, que torna impotente qualquer tentativa que vise esclarecer este grande enigma, bem conhecido de todos os grandes líderes da humanidade ao longo de milênios: o homem nasce livre, mas vive a sua vida como escravo. Nenhuma resposta foi encontrada até hoje. Deve haver, no interior da sociedade humana, alguma coisa que atua de modo a impedir que se coloque a questão correta de maneira a chegar-se à resposta correta. Há algo que atua, contínua e eficazmente, desviando a atenção dos caminhos, cuidadosamente camuflados, que levam até onde a atenção se deveria focalizar. O instrumento usado por esse algo bem camuflado para desviar a atenção do enigma fundamental é a evasiva de todo o ser humano em relação à vida. O elemento escondido é a peste emocional do homem.”

Ao longo dessa parte final da terceira etapa, foi apresentada a natureza da “peste emocional” que nos torna prisioneiros há milênios. Também se apresentou a razão de jamais conseguirmos formular “a questão correta, para chegar-se à resposta correta”: parte da questão e da resposta está na zona de transparência da consciência, pois ali nossos ancestrais colocaram todo o conteúdo arquetípico, como forma de isolar o terror da própria mortalidade do ego.

Mas, se a humanidade desviou-se do melhor caminho há doze mil anos, haveria como retrocedermos? Podemos restaurar a humanidade ao período anterior ao “maior erro da história”?

Infelizmente, como Ian Hodder demonstrou, a armadilha na qual nos enredamos há milhares de anos é um sistema irreversível – ou seja, não há como retroceder sequisermos escapar. Nossa dependência das coisas enquanto definidoras de nossas próprias identidades individuais, enquanto estruturadoras do mundo em que hoje em dia nós, seres humanos, vivemos, tornou esse enredamento irreversível.

E embora alguns indivíduos e pequenos grupos possam ensaiar versões de vida alternativa e pré-neolítica, e algumas melhorias possam ser feitos no sistema, na prática a identidade humana já está em simbiose com os objetos materiais há tanto tempo e tão profundamente que não há como desmontar essa armadilha sem desestruturar diretamente quem nós somos. Tentar retroceder seriamente em qualquer aspecto da vida humana resultaria em tanta resistência emocional e exigiria tanto sacrifício que seria o caso de cogitar que certas cirurgias podem ser mais fatais ao paciente que a própria doença.

Em resumo, não há como voltar atrás. Nessa armadilha em que nos enredamos à matéria, só podemos ir para frente.

Mas inclusive nisso a sabedoria dos rudimentos de linguagem arquetípica que encontramos em tradições marginais da história como a alquimia revela-se surpreendentemente atual. Diante do dilema do espírito preso à matéria, os alquimistas medievais já tinham uma resposta que se mostra oportuna para a humanidade neste momento. Mais que isso, é uma resposta que parece corresponder ao que se espera de uma situação como a presente, em que a humanidade está próxima a uma encruzilhada de implicações dramáticas para seu destino.

Para os alquimistas, se o espírito está preso à matéria, a solução não é resgatar apenas o espírito. É preciso salvar também a própria matéria.

Este era o exato fundamento de toda obra alquímica: converter a matéria mais reles em “ouro” – em outras palavras, a matéria insuflada pela consciência humana ao mesmo tempo em que essa consciência dá um salto evolutivo na direção de um nível superior de percepção da realidade. Trata-se do mesmo evento, o hiper-humanismo, visto de duas perspectivas: na contextual, é o transumanismo, na hipercontextual, é aquilo que Pierre de Chardin, batizou de consciência coletiva. O processo é de emergência de uma nova consciência humana, a partir do aprimoramento de uma linguagem arquetípica ancestral no âmbito da revolução tecnológica.

Para corrigirmos o erro de nossos antepassados, precisamos desenvolver a linguagem que eles deveriam ter desenvolvido, a fim de compreendermos o alfabeto secreto que está diante de nossos olhos aqui e agora. Isso permitirá que o homo sapiens desperte para sua dimensão emocional e finalmente cure seu espírito adoecido. Só assim a revolução tecnológica que está por vir não reproduzirá e aprofundará as perturbações em nossa sociedade, abrindo uma janela para que interesses alóctones se infiltrem nesta trama de realidade.

Neste momento da história humana, a falha na singularidade de doze mil anos atrás tende a prejudicar singularidade que está para emergir como resultado do desenvolvimento da comunicação humana. Nossa consciência está para dar um salto evolutivo, mas um erro inicial que se agravou progressivamente ao longo de nossa história é como uma pedra que nos pode fazer tropeçar e cair no abismo. Trata-se da inteligência artificial, e a diferença entre o salto e a queda será apresentada na última e quarta etapa desse ciclo de aprendizado.

Notas   [ + ]

Trevas no Coração do Jornalismo de Bem-estar

Sempre tive um certo pé atrás com o modo, digamos, “canônico” de se fazer jornalismo de saúde na grande imprensa brasileira. Há uma fórmula: parte-se de uma condição (uma doença — digamos, câncer de pulmão), de um tratamento e/ou mecanismo preventivo (digamos, uma nova técnica cirúrgica, talvez uma vacina recém-lançada) ou de uma conduta (pode ser fumar, deixar de fumar, vacinar-se, não vacinar-se).

A partir daí, buscam-se os chamados “personagens”, que são pessoas que sofrem da condição/submeteram-se ao tratamento/têm ou não têm a conduta. Até algum tempo atrás, matéria de saúde em jornalão, sem personagem, era algo quase tão herético quanto matéria de economia sem o Maílson da Nóbrega. E isso porque o Maílson deu uma sumida, mas os personagens, não.

Se o núcleo de personagens envolver uma família (a combinação de criancinha fofa doente com mamãe guerreira, cheia de esperança, mas com lágrima — quase imperceptível — no canto do olho é especialmente matadora), o prêmio de fim de ano da firma está quase garantido.

Tendo-se a condição e o(s) personagem(ns), é chegada  a hora do médico. Pode ser apenas um, entrevistado mais longamente, ou dois ou três (neste caso, com declarações curtas). Às vezes acontece de a pauta surgir do próprio médico, que procura o jornalista já com os personagens a tiracolo, ou emergir dos personagens, que comentam sobre quem é o médico que os orienta. Enfim, a ordem dos fatores varia, mas o produto final tende a seguir sempre o mesmo padrão geral.

Não hesito em admitir que muito jornalismo bom já foi, e ainda é, produzido dentro desse padrão. Ele permite ao leitor empatizar com o paciente, encarar a doença sob uma perspectiva humana (como afeta a vida das pessoas), ao mesmo tempo em que aprende alguma coisa sobre biologia ou medicina.

O problema é que a fórmula faz isso ao preço de distorcer, por completo, uma série de fatos muito importantes, e passa ao leitor uma visão errada, e perigosa, de como a medicina funciona. Dá para seguir a fórmula ao pé da letra e produzir uma reportagem cheia de loas à homeopatia. Ou à fosfoetanolamina sintética. Ou a qualquer outra coisa que você possa imaginar.

O que a fórmula não deixa o leitor perceber é que o que valida, ou deixa de validar, uma terapia não é o fato de ela ter, aparentemente, “dado certo” (ou errado) para a criancinha fofa que aparece na reportagem. E que a opinião de um especialista isolado não é, necessariamente, a opinião da classe médica como um todo, nem reflete, automaticamente, o consenso dos pesquisadores que estudam o assunto.

Enfim, sob o pretexto de injetar “interesse humano” num assunto talvez árido e desagradável (doença, morte), a fórmula, repetida ad nauseam em jornais, revistas e na televisão, deixa o leitor intelectualmente despreparado para separar o joio do trigo. E, portanto, vulnerável ao joio.

Por conta dessa receita, o jornalismo de saúde vive numa corda-bamba ética, equilibrando-se sobre os abismos da irresponsabilidade e do charlatanismo. Em anos recentes, no entanto, surgiu uma modalidade derivada que não está na corda-bamba porque já resolveu se jogar, gostosamente, no abismo: o chamado jornalismo “de bem-estar”.

Ele segue, em linhas gerais, a fórmula, com duas variantes: a condição não precisa mais ser uma doença (vale celulite, vontade de comer chocolate, infelicidade no amor) e o especialista ouvido não precisa mais ser médico. Aliás, não precisa mais ser nada. A única credencial necessária é fazer-se ouvir pelo repórter.

Esse tipo de jornalismo veio crescendo a partir das revistas de estética feminina, e seu primeiro grande escândalo explodiu há alguns anos na Austrália, como o caso Belle Gibson, uma mulher que primeiro mentiu dizendo que tinha tido câncer e, depois, mentiu de novo, dizendo que tinha se curado com uma dieta de produtos naturais, e que foi abraçada pela mídia “de bem-estar”. Gibson ganhou um prêmio da revista Cosmopolitan. Grandes editoras dispuseram-se a publicar seu livro de receitas.

Um livro investigativo recém-publicado sobre o escândalo, The Woman Who Fooled the Word, tem como subtítulo “as trevas no âmago da indústria do bem-estar”. Uma entrevista com os autores, publicada em The Guardian, aponta que “as mesmas pessoas que se recusaram a fazer perguntas a ela enquanto subia agora se recusam a responder a perguntas sobre ela, após a queda”. Aconteceu na Austrália, mas nada impede que aconteça aqui: dados os padrões atuais da mídia, talvez seja inevitável.

Polarizações destrutivas

PSDB em crise, PT recolhido, PMDB às voltas com as dificuldades de Temer, partidos em geral excitados com a aproximação de 2018. Todos fazem cálculos, tendo em mente a conquista dos eleitores. O troca-troca de legendas combina-se com a abertura da temporada de caça aos “melhores nomes”, a busca da posição ideal para apoiar esse ou aquele candidato, a preocupação com os desdobramentos do “efeito Temer” e das escolhas governamentais.

A fragmentação agradece, penhorada.

O estoque de artefatos polarizadores é grande: avanço ou retrocesso, reforma ou conservação, progresso ou reação, populismo ou responsabilidade, desenvolvimentismo ou neoliberalismo. Não faltam, evidentemente, os conhecidos esquerda x direita e PT x PSDB, ora em versões repaginadas ora no formato anquilosado de sempre.

A pergunta que ninguém faz é: a quem interessa a reposição dessas polarizações? Qual delas pode expressar os dilemas atuais do país e organizar os interesses fundamentais dos cidadãos?

O ponto comum das construções polarizadoras é a recusa ao diálogo, a reiteração de divisões improdutivas, a falta de uma articulação política que ofereça uma perspectiva de futuro para os brasileiros e modernize o país. Para dar vida a isso, criam-se campos ideológicos antípodas, soltos no ar, alimentados por frases de efeito modeladas sob encomenda e sem pé na realidade. Parte-se de uma visão de que a sociedade é mais dividida do que se vê, e com isso criam-se divisões por sobre divisões, agravando ainda mais o quadro.

Polarizações não devem ser temidas. São intrínsecas ao jogo político e ganham peso quanto mais a situação social é complexa, quanto mais a agenda nacional se mostra difícil e desafiadora, quanto mais o poder se mostra disponível.

Se não há consenso sobre quase nada, por que na política os polos não cresceriam? Se os próprios partidos não conseguem preservar seu molejo democrático e sua capacidade de alcançar uma autêntica “unidade dos distintos”, que autoridade teriam para condenar as polarizações?

O problema surge quando as polarizações fogem do controle e se artificializam, traduzindo-se em tensões insuperáveis, rupturas e intolerância. Podem assim se tornar crônicas, levando ao infinito a dialética amigo-inimigo e corroendo as bases mesmas de um consenso mínimo. Com isso, o que poderia haver de virtude nas polarizações se traduz por inteiro em seu contrário. Todos perdem. O caldeirão das crises políticas esquenta.

Com mais polarizações, aumenta a tentação de enquadrar tudo em esquemas binários tipo esquerda x direita. Com isso, pela própria dinâmica da luta ideológica radicalizada, deixa-se de lado o diagnóstico em benefício da agressividade verbal, do ardor retórico, do exagero performático. Para que tenha efeito, tudo é simplificado ao extremo, vira coisa plana, rasteira.

Vai-se assim num crescendo. No topo da escalada, o convite à boçalização cívica, o empobrecimento político, o desprezo pelos adversários ou pelos que pensam diferente, tudo devidamente empacotado por convicções e propagandas que simulam soluções rápidas e radicais, facilidades e biografias heroicas. Mentiras, invencionices e mistificações ganham livre curso.

É uma “guerra” complicada, pois não são se limita aos entrechoques ideológicos. Entram na liça também as opiniões – sempre mais desenfreadas – e as identidades, que buscam se afirmar por sobre classes, grupos de referência e partidos. Tudo devidamente turbinado pelas redes, onde as propostas para que se criem conexões e “pontes” (bridging) são fuziladas como se estivessem a priori comprometidas com concessões inadmissíveis. E nas redes, aliás, que melhor se expressa a tendência a que se hipervalorize o próprio gueto ou tribo e se menospreze tudo o que respira fora dele.

A consequência disso é a dificuldade para que se formem maiorias razoáveis, reflexivas, sem as quais propostas reformadoras ou lutas por direitos não têm como avançar. Viver a vida como se fosse uma batalha permanente pela afirmação de identidades particulares, por exemplo, pode ser o caminho mais curto para que os preconceitos se reproduzam. O eixo virtuoso – o combate sem trégua ao preconceito explícito ou subentendido – cede, por falta da capacidade de produzir apoio e persuasão.

Ao se engalfinharem em confrontos artificiais ou secundários, os “guerreiros” perdem de vista aquilo a que se deve dar prioridade. Vão ajudando a produzir quantidades absurdas de informação de má qualidade, saturando a agenda de proposições excludentes que nada acrescentam à construção democrática ou ao reformismo de que se necessita.

Essa modalidade inconsciente de burrice não é privilégio de nenhuma corrente política ou ideológica. É comum a todas.

Ela se mostra, à esquerda, pelas lentes do maniqueísmo e do esquematismo, que anunciam um “novo mundo” que estaria ao alcance da mão, bastando tão-somente uma boa dose de intransigência, de espírito contestador e de “vontade política”.

O bestialógico mais à direita é seguramente muito pior. Agrega gente que não se envergonha de praticar o reacionarismo mais tosco, burilando-o com frases de efeito e justificativas pífias. São pessoas que exibem publicamente sua simplicidade argumentativa, que falam de “marxismo cultural” sem saber do que estão falando, que manipulam descaradamente alguns gigantes do pensamento crítico (Marx, Benjamin, Gramsci, Marcuse) e são incapazes de reconhecer as sutilezas da política e do debate de ideias.

Para gente desse último tipo, tudo que respira, tudo que questiona o que está errado, tudo que canta um futuro mais justo, tudo que divulga sonhos e esperanças cabe em uma única caixinha: “comunistas”, que não somente comem criancinhas como querem infernizar a vida de todos e envenenar a alma dos viventes. Com tamanha estultice, só fazem empurrar o carro para trás.

Informação é a realidade fundamental?

E se a “substância” fundamental do universo não for matéria nem energia, mas informação?

Essa é a ideia que alguns teóricos estão cogitando enquanto buscam descrições cada vez mais elegantes e concisas das leis que governam nosso universo. Pode nosso universo, em toda sua riqueza e diversidade, realmente ser apenas um monte de bits?

Para entender porque tanto interesse em informação, nós temos que começar do início: o que é informação?

Isto é informação.

Da mesma forma, também é informação uma imagem como esta:

E uma equação como esta:

“Não importa se algo consiste em equações, palavras, imagens ou sons – você pode codificar tudo isso em sequências de zeros e uns”, ou bits, diz Scott Aaronson, professor associado de engenharia elétrica e ciências da computação no MIT. Seu computador está fazendo isso agora, utilizando pequenos imãs, capacitores e transistores para armazenar bilhões ou trilhões de dígitos binários. “Esses podem ter sido conceitos difíceis para as pessoas entenderem há um século, mas por causa da revolução computacional, lidamos com esses conceitos o tempo todo”, diz Aaronson. Numa época em que um drive USB pode ser levado no chaveiro e um iPhone estica as costuras do bolso da calça, não é exagero afirmar que qualquer coisa pode ser expressada em informação.

Para alguns teóricos, porém, informação é mais do que apenas uma descrição do nosso universo e das coisas que existem nele: é a moeda mais básica da existência, ocupando o que o teórico Paul Davies chama de ‘’fundamento ontológico’’ da realidade.

As regras da informação quântica fornecem a mais “compacta” descrição da física, diz Vlatko Vedral, professor de teoria da informação quântica na Universidade de Oxford e na Universidade Nacional de Singapura. “Informação, ao que me parece, exige menos pressupostos em relação a qualquer outra coisa que possamos postular. Assim que você fala sobre matéria e energia, você deve escrever leis que governam matéria e energia.”

Isso significa que nosso universo é feito de informação, como algumas manchetes afirmam?

“Isso me parece uma questão sem conteúdo”, diz Aaronson. “Dizer que matéria e energia são importantes na física é dizer algo com conteúdo’’. Você pode imaginar um universo desprovido de matéria e energia. Afinal, afirmar que nosso universo é formado por matéria e energia diz algo a seu respeito e distingue-o de outros possíveis universos. “Mas, por outro lado, eu não sei como você poderia até mesmo conceber um universo sem nenhuma informação”, diz ele.

Porém, enquanto nova forma de pensar sobre do que é feito o universo, a informação desencadeou um trabalho provocativo entre ciências da computação e astrofísica teórica, campos aparentemente distintos mas que podem compartilhar uma profunda conexão revelada por aquela Pedra de Rosetta cósmica, o buraco negro. Mas antes de nos aprofundarmos na questão do buraco negro, vamos dar um passo para trás e olhar com maior atenção a informação em si mesma.

Todas as mensagens contêm informações, mas nem todas as mensagens são criadas da mesma maneira. “Coisas inesperadas têm alto conteúdo de informação”, diz Vedral. Pense no nascer do Sol, por exemplo. “Se o sol surgir amanhã, você não verá nenhum jornal escrevendo sobre isso. Mas é claro que se não surgisse, isso seria um grande evento”.

Sentimos intuitivamente que “surpresas”, como um nascer do sol que não ocorreu, trazem mais informações do que eventos rotineiros. Claude Shannon, amplamente considerado o pai da teoria da informação, formalizou essa intuição definindo uma quantidade que agora é conhecida como “entropia de Shannon”. A entropia de Shannon relativa a uma determinada mensagem está relacionada à soma do logaritmo da probabilidade de cada bit da mensagem assumir um valor particular. Isso parece complicado, mas Vendral explica que essa entropia captura matematicamente duas características importantes da informação: o valor das surpresas e o fato de que a informação é “aditiva” – isto é, a informação total contida em dois, três, quatro ou em bilhões de eventos não relacionados é igual à soma das informações em cada um deles.

Os físicos descrevem a entropia de um modo um pouco diferente, muitas vezes falando em termos de “desordem” de um sistema. Mais precisamente, entropia é o número de diferentes maneiras de reorganizar as menores partes de um sistema e ainda assim obter o mesmo grande sistema. Um balde cheio de peças de Lego vermelhas, por exemplo, tem alta entropia. Agite-o, gire-o, e você continua com o que começou: um balde com peças de Legos vermelhos. Monte esses mesmos blocos em um castelo de Lego, porém, e você cortou a entropia; mova um único bloco desse castelo você terá um sistema “macroscópico” diferente.

Em qualquer perspectiva que você escolha, o resultado essencial será o mesmo. Pegue o parágrafo que você está lendo agora, por exemplo, com suas muitas letras diferentes, marcas de pontuação e espaços dispostos em uma ordem muito particular. Ele contém mais informações e, portanto, tem maior entropia do que um parágrafo como este, embora ambos tenham o mesmo número de caracteres:

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Entropia, portanto, fornece uma medida não apenas do tamanho mas o conteúdo da informação de uma mensagem.

Agora imagine construir o disco rígido definitivo, um que contenha a quantidade máxima de informações permitida pela física. Por que a física deve colocar um limite na capacidade de armazenamento de informações desse disco rígido hipotético? Pensando nisso de uma perspectiva puramente clássica, parece que você poderia armazenar uma quantidade infinita de informações. Mas quando adicionamos mecânica quântica à mistura, introduzimos limites fundamentais na precisão de nossas medidas. Esses limites indicam uma entropia máxima de cerca de 1069 bits por metro quadrado. “Se você tentasse empacotar informações mais densamente que isso”, diz Aaronson, “seu disco rígido colapsaria em um buraco negro”. Essa última frase não é apenas uma nota de rodapé lunática. Os buracos negros, afinal de contas, são os maiores repositórios de informação do universo (claro, Aaronson ressalta, eles não seriam discos rígidos muito práticos, a não ser que você estivesse disposto a esperar cerca de 1070 anos para recuperar seus dados).

Mas há algo estranho sobre a forma como a entropia de um buraco negro cresce. Como os físicos Stephen Hawking e Jacob Bekenstein descobriram na década de 1970, a entropia de um buraco negro aumenta com a área de superfície bidimensional do buraco negro, conforme definido por um escudo esférico imaginário com raio Rs. Isso é bizarro, pois você esperaria que a quantidade máxima de informação que se pode colocar em qualquer objeto, como um livro ou disco rígido, seja proporcional ao volume tridimensional desse objeto, e não à área de sua superfície.

Essa discrepância é mais do que apenas um arcano teórico. Para os físicos, sugere que as leis fundamentais da física podem ter uma representação mais simples em duas dimensões, em vez das três tradicionais. Em 1997, o físico argentino Juan Maldacena, agora no Instituto de Estudos Avançados, aproveitou-se dessa ideia para elaborar “dualidade” matemática entre nosso universo e outro com menos dimensões espaciais, uma dimensão de tempo e sem gravidade. Isso propiciou um atalho matemático bem útil: os problemas que são difíceis de resolver em um universo (domínio) podem ser superados com facilidade no outro.

Para alguns teóricos, a dualidade não é apenas matemática. O universo como nós o experienciamos, dizem eles, pode ser na realidade a projeção de informações codificadas em algum limite cósmico distante. Onde essa fronteira reside e como a projeção ocorre ainda são perguntas abertas, mas esses teóricos argumentam que nossa realidade pode ser, em essência, um holograma análogo às imagens prateadas nos cartões postais da loja de um museu.

Nós temos que agradecer à teoria da informação por essa peculiar reviravolta na trama. Mas se é difícil imaginar uma aplicação prática para este “princípio holográfico”, é muito mais fácil ver como a informação quântica está mudando a computação. Isso porque a informação quântica não possui as mesmas propriedades básicas da informação clássica. Os bits que compõem a informação clássica podem ser ou um ou zero. Mas os “qubits” que compõem as informações quânticas podem existir em uma superposição dos estados “um” e “zero”; Em certo sentido, eles podem assumir ambos os estados ao mesmo tempo. Para manter essa sobreposição, porém, os qubits devem existir em perfeito isolamento. Assim que esse isolamento é perturbado, a sobreposição desmorona.

“A informação quântica é como a informação em um sonho”, explicou Charles Bennett, cientista de informação quântica da IBM Research, em uma recente palestra na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. “Ao descrevê-la, você muda sua memória sobre ela.” Isso pode não soar como uma qualidade desejável em um computador, mas em combinação com o entrelaçamento, isso pode ser explorado para acelerar dramaticamente certos tipos de cálculos e enviar mensagens criptografadas perfeitamente seguras. Como observa Steve Girvin, físico teórico da Universidade de Yale, isso também pode ser usado para gerar números genuinamente aleatórios, adequados para chaves de criptografia. A criptografia quântica já está sendo utilizada comercialmente para algumas transferências bancárias e outras transmissões de dados altamente seguras.

“Essa segunda revolução quântica, a revolução da informação, é uma surpresa completa”, diz Girvin. “Levamos décadas para lidar com a estranheza e perceber que a informação dos sistemas mecânicos quânticos é diferente do conteúdo da informação dos sistemas clássicos, e não ter certeza sobre algo pode na verdade ser bom em vez de ruim”.

A informação quântica é uma coisa útil – mas o que ela está nos dizendo sobre a natureza fundamental da nossa realidade? Alguns pensadores argumentam que isso sugere que nosso universo inteiro é ele mesmo um computador quântico. “Eu gosto dessa imagem”, diz Vedral, enquanto admite que a analogia é imperfeita. “Você poderia perguntar, posso tratar o resto do universo como algo que eu possa programar da mesma maneira que programo meu simples computador?” Não, responde Vedral. “Você ainda está limitado pelas leis da física, e você tem uma certa quantidade de recursos que são finitos. Há cálculos que você nunca será capaz de executar”. A computação que só este computador quântico é capaz de realizar é a computação de sua própria evolução.

Se a informação é só uma forma útil de pensamento sobre o universo ou algo mais profundo, continuamos sem saber. “Nós ainda estamos lutando para entender aquilo nossas teorias realmente estão nos dizendo”, diz Vedral. “Você tem que dar um salto de imaginação para entender”.

(fonte)

Inteligência é de família

Dê uma boa olhada na família Darwin. Charles Darwin publicou uma série de trabalhos, foi o pioneiro na observação do mundo natural e no desenvolvimento das teorias da seleção natural e seleção sexual. Seu primo, Francis Galton, estima-se que possuía um QI de quase 200 pontos (a média populacional é cerca de 100), foi um polímata prolífico com centenas de trabalhos publicados e com importância fundamental no ramo da estatística.

Dê agora uma boa olhada na família Huxley. Aldous Huxley foi um escritor, autor do famoso Admirável Mundo Novo, além de diversos ensaios. Foi neto de Thomas Henry Huxley, o Buldogue de Darwin, partidário da teoria da evolução numa época em que todos torciam o nariz para a proposta. Escreveu trabalhos sobre teoria da evolução, altruísmo e natureza humana.

Essas podem ser evidências anedóticas, mas servem para ilustrar a hereditariedade de traços psicológicos como a inteligência. Em alguns círculos ainda existe certa resistência em aceitar as pesquisas que mostram relação entre genética e comportamento. Se dizer que a hipótese das múltiplas inteligências é um engodo já ferve os ânimos, imagine as consequências de se alegar que a inteligência é hereditária.

O fato é que a maioria parece não entender o que é exatamente hereditariedade. Não tem nada a ver com a inteligência ser determinada geneticamente, por exemplo — muito embora poucas pessoas saibam o que realmente significa determinação genética. O mais complicado talvez seja compreender que a variação de inteligência e a hereditariedade é uma propriedade de populações, não de indivíduos (seria impossível estabelecer o quanto a inteligência de um indivíduo é explicada pela hereditariedade e quanto, pelo ambiente), então seria incorreto discutir essa questão tomando como ponto de partida questões de natureza individual.

Sendo assim, ao longo desse texto tentarei mostrar o que significa atribuir hereditariedade a traços psicológicos, e como isso é diferente de determinação genética (não confundir com determinismo genético), e quais as consequências para nossa compreensão da inteligência.

Traços psicológicos podem ser tão hereditários quanto a altura

O termo hereditariedade remete popularmente a características que são passadas entre gerações, de pai para filho, por herança genética. Isso explica a cor do olhos dos filhos, cor de pele, altura e até mesmo a probabilidade de desenvolverem alguma doença, como câncer de mama e depressão.

Nenhum desses exemplos, no entanto, são 100% explicados pela genética. Por exemplo, o câncer de mama parece ser 30% hereditário, o que é um percentual baixo. O índice de massa corporal, por outro lado, é quase 60% explicado pela hereditariedade, o que é uma porcentagem moderada. A diabetes é quase 90% explicada pela hereditariedade, número alto. Isso significa que fenômenos “bem biológicos” são explicados em diferentes graus de importância pela hereditariedade.

Apesar de contraintuitivo, traços psicológicos podem variar da mesma maneira. Por exemplo, a esquizofrenia tem um índice de hereditariedade moderada de pouco mais de 60%, enquanto depressão e alcoolismo, de 50%. Nunca vi sérios problemas na aceitação do fato de que transtornos como depressão e esquizofrenia são parcialmente explicados pela genética — exceto talvez psicanalistas e relativistas pós-modernos. Mas o mesmo não vale para traços como a inteligência.

O que é inteligência/QI?

Para começar, a maioria ainda se debate sobre o significado dessa palavra. A inteligência é uma das variáveis psicológicas mais estudadas e mais consistentes cientificamente. Tecnicamente, inteligência é um construto relacionado à capacidade de resolver problemas. O que chamamos de inteligência na verdade é uma consequência operacional de uma série de outros atributos psicológicos, como a capacidade de usar conhecimentos adquiridos para resolver problemas, memória, controle cognitivo e habilidade verbal (dos traços associados à inteligência, o raciocínio verbal é o que chega mais perto do QI geral). Diferentes pessoas têm diferentes níveis de cada uma dessas habilidades.

A forma como essas habilidades variam em cada indivíduo é explicada estatisticamente por um fator chamado inteligência geral ou QI. É mais ou menos o raciocínio utilizado em relação à depressão. Pessoas deprimidas costumam ter falta ou excesso de apetite, tristeza persistente e ideação suicida. Esses elementos variam um em relação ao outro consistentemente, de modo que podemos estatisticamente estabelecer uma única variável que explica a covariação consistente entre eles, a depressão.

A variação desses elementos, que formam o construto inteligência, ocorre por razões ambientais e hereditárias (ver Efeito Flynn). Por exemplo, grau educacional e índice nutricional parecem explicar bastante a variação da inteligência entre os indivíduos. A porcentagem de explicação fornecida pela hereditariedade muda conforme a idade. Em crianças o estímulo dos pais e do ambiente familiar conta muito mais, mas quanto mais velhas as pessoas se tornam, mais seu nível de inteligência passa a ser explicado pela hereditariedade. Isso ocorre principalmente por causa do amadurecimento cognitivo que vem com a idade. Considerando 100 pessoas de 50 anos com níveis educacionais muito semelhantes, a diferença de inteligência entre elas vai ser explicada mais por fatores hereditários do que ambientais. A maioria dos estudos mensura a hereditariedade da inteligência entre 80% e 90%.

Hereditariedade, um conceito populacional

A hereditariedade é um conceito estatístico usado na genética populacional. A inteligência ser 80% explicada pela hereditariedade não quer dizer que um indivíduo tem 80% da sua inteligência explicada pela genética. Essa porcentagem só pode ser encontrada em estudos populacionais (ou melhor, amostras populacionais).

Hereditariedade diz respeito à variação. Calcula-se o quanto fatores hereditários e ambientais explicam a variação do grau de QI em determinada recorte populacional. Não existe uma medida mágica e essencial da inteligência de cada indivíduo para pesar o que é hereditário e o que é ambiental; o que fazemos é mensurar a variação do nível de QI na população. Quando um teste dá um resultado para o seu QI, o que ele está dizendo é em que posição você está em relação ao QI populacional médio (que hoje é 100).

Sim, é estranho, mas hereditariedade e determinação genética são conceitos completamente diferentes. Um traço X pode ser altamente determinado geneticamente, mas muito pouco explicado pela hereditariedade. Por exemplo, seres humanos possuem 5 dedos em cada mão porque isso está inscrito nos seus genes como característica da espécie. No entanto, a variação dessa característica na população é muito pouco explicada pela hereditariedade. Em outras palavras, apesar de uma mão com 5 dedos ser um produto da programação genética típica da espécie, os indivíduos podem acabar com 4 dedos nas mãos ao longo da vida por alguma causa ambiental (como amputação). A determinação genética explica por que nascemos com 5 dedos em cada mão, mas o ambiente explica muito melhor por que continuamos ou não tendo essa mesma característica ao longo da vida.

O oposto também acontece, isto é, um traço pode ser muito pouco ou nada determinado pela genética, mas ser altamente hereditário. Por exemplo,não existem que determinam a escolha político-ideológica de um indivíduo. Porém, o quanto uma população varia em seus votos a candidatos de direita e de esquerda é moderadamente explicado pela hereditariedade.

Um elixir contra mitos populares a respeito da hereditariedade do QI

Em resumo, esse texto deve deixar clara cinco mensagens essenciais. Primeiro, algumas variáveis psicológicas são causadas pela genética. Segundo, certas variáveis psicológicas podem variar ao longo da vida dos indivíduos, e entre indivíduos, por motivos hereditários. Coincidentemente, o melhor exemplo para ambos os casos é a inteligência. Terceiro, certos fenômenos psicológicos podem ter origem genética, mas isso não significa que sua variação se deva a motivos hereditários, e vice-versa. Quarto, variar devido à hereditariedade não é o mesmo que desprezar causas ambientais, afinal, fenômenos como a inteligência parecem sofrer influência tanto do ambiente quanto da genética; portanto, a dicotomia nature X nurture aqui é inútil. Quinto, as diferenças de inteligência são fundamentalmente entre-indivíduos, portanto, não faz sentido falar do QI como um valor intrínseco ao indivíduo.

Esses pontos devem ser tomados como uma espécie de antídoto contra mitos muito comuns ao se considerar a hereditariedade de qualquer característica.

Todo mundo está errado, você também

Man arguing with woman

Todo mundo acredita em bobagens. Cada um dos leitores deste artigo. E eu também, claro. É óbvio: o ser humano é falível. Qualquer pessoa mentalmente sã deve ser capaz de admitir que, em algum canto do cérebro, haverá pelo menos uma crença falsa, uma convicção inválida, uma opinião que não corresponde aos fatos. Uma bobagem.

Isso, em teoria. Mas, e na prática? Quando analisamos criticamente o conteúdo de nossas mentes e verificamos as crenças que temos, uma a uma, é raro conseguirmos achar algo de errado: mesmo quando nossos amigos ou adversários nos oferecem argumentos que contrariam nossas opiniões, caímos muito facilmente num diagnóstico do tipo “eu sou racional, meu amigo é teimoso, meu adversário é um idiota”.

Enfim, todas as crenças que mantemos nos parecem certas. Mas, ao mesmo tempo, o mais simples bom-senso nos garante que algumas estão erradas. Que paradoxo é este?

Existe muita pesquisa em psicologia sugerindo que a inteligência humana é excelente para defender as próprias crenças, e não tão boa assim em discriminar as crenças corretas das bobagens. Um dos principais mecanismos dessa defesa é o viés de confirmação – a busca de casos que confirmam nossas ideias preconcebidas, e uma espécie de cegueira seletiva em relação aos exemplos contrários.

Digamos: você pode estar orgulhoso porque o desemprego caiu durante o governo do seu político favorito. Mas o que aconteceu com a inflação? E como comprovar que foram as políticas dele, e não uma outra coisa, que fizeram o desemprego cair?

Outro mecanismo mental bem documentado recebe o sugestivo nome de “fez sentido, pare”: reflete a tendência que temos de parar de buscar explicações para algo assim que encontramos uma que nos pareça “fazer sentido” – isto é, que se casa bem com nossas emoções e preconceitos.

Digamos: você lê na internet que o político que você mais detesta é citado num documento da CIA. Isso faz sentido – esse sujeito tem que ser um agente estrangeiro! Mas, será que a citação existe mesmo? O documento é legítimo? E, por falar nisso, o que a citação diz? Você se daria ao trabalho de checar todos esses dados, ou clicaria, gostosamente, em “compartilhar”, deixando-se levar pela emoção?

Quando uma afirmação nova agrada nossas preconcepções, a reação emocional imediata é de entusiasmo, é de perguntar “posso acreditar nisso?” E a busca sôfrega por argumentos a favor da nova crença tem início. Já quando uma afirmação desafia as preconcepções, a emoção é de desalento, é de perguntar “mas eu preciso mesmo acreditar nisso?” E a busca sôfrega, aí, é por desculpas para pôr a crença de lado.

A culpa, como de costume, é provavelmente da evolução. Milênios de luta por sobrevivência e sexo, em comunidades de primatas hierárquicos, fofoqueiros e ciumentos, produziu um cérebro para o qual status e reputação, incluindo o status e a reputação que ganhamos quando nossos amigos, amantes, chefes e parentes acreditam que acreditamos nas mesmas coisas que eles, muitas vezes são mais importantes do que os fatos da realidade.

Mas, à medida que os grupos humanos foram se tornando cada vez maiores e mais interligados, e o impacto de nossas crenças sobre vida dos outros cresceu, os fatos da realidade começaram a ganhar uma importância para a qual nossos instintos primitivos não estavam – não estão… – muito bem preparados. O preço da verdade, para citar uma frase célebre, é a eterna vigilância.

Uma das definições usuais de “animal racional” é um ser que age de modo coerente com suas crenças. Crenças falsas, portanto, dão um verniz de racionalidade às ações mais estúpidas. Crenças falsas, defendidas com arte e competência, podem levar nações inteiras ao abismo, como vimos acontecer algumas vezes no século passado.

Ainda antes, no século 19, o matemático e filósofo britânico William Clifford propôs uma “ética da crença” – o princípio de que, e eu cito, “é sempre errado, para qualquer um e em qualquer lugar, acreditar em algo sem evidência suficiente”.

Clifford foi criticado por outros filósofos, que acharam sua regra exagerada, mas o espírito dessa ética da crença – a de que cada um de nós tem a responsabilidade de fazer uma espécie de curadoria do conteúdo da própria mente – é mais importante hoje do que nunca, num momento em que crenças se espalham pelo mundo à velocidade da luz, e a humanidade é chamada a decidir coletivamente sobre questões de relevância global.

Essa curadoria é algo muito difícil de fazer sem ajuda: as mesmas pesquisas que apontam a existência de vieses, como o de confirmação, mostram que somos cegos para a maioria de nossos próprios vícios de raciocínio. Em compensação, com um pouco de treino, tornamo-nos muito bons em enxergar os vieses dos outros.

Conversar e debater sem ódio, tratando quem discorda de nós não como um adversário numa disputa, mas como um colega na busca pela verdade, é uma das poucas formas de escaparmos de nossas limitações.

É claro que a boa vontade para debater pode ser manipulada e explorada, mas sem ela continuaremos, para sempre, presos nas bolhas construídas pelas mentiras que contamos a nós mesmos, e que podem acabar nos transformando em verdadeiras ameaças, sem que percebamos.

William Clifford dizia que a pessoa que foge dos questionamentos sobre aquilo em que acredita comete um “pecado contra a humanidade”. Dá para criticar a retórica sisuda, mas, cada vez mais, fica difícil discordar do sentimento.

Uber juntou-se à NASA para produzir o primeiro carro voador

Quando pensamos em carros voadores, podemos imaginar o que se vê em filmes como O Quinto Elemento Harry Potter. Há uma atmosfera de ficção científica ou magia quando se fala do assunto. Mas, de acordo com a empresa Uber, não demorará para que carros voadores se tornem realidade. Na verdade, eles podem estar nos céus de algumas cidades do mundo em 2020.

Ano passado, a empresa anunciou seus planos para introduzir um serviço de carro voador em documento oficial. O novo programa é chamado de “Uber Elevate”. Agora, Jeff Holden, chefe de produto da Uber, disse ao público na Web Summit, realizada em Portugal, que a empresa acaba de assinar junto com a NASA um Space Act Agreement, para formar uma parceria destinada desenvolver um sistema de controle de tráfego aéreo que gerenciará esses carros voadores (potencialmente autônomos). O acordo firmado entre Uber e NASA significa que as duas empresas poderão comercializar tecnologia e conhecimento.

Holden também informou que a novidade será testada em Los Angeles e algumas outras cidades do mundo até 2020. Assim, em três anos os clientes dessas primeiras cidades poderão viajar em veículos semelhantes a helicópteros.

Então, como esse esquema funcionaria?

Da mesma forma como  faria ao chamar um carro normal, você pediria seu táxi voador no aplicativo da empresa. A seguir, você se dirigiria até um “skyport” em cima de um prédio próximo. Isso envolverá a passagem por uma catraca (um recurso do aplicativo deixará você passar) e ser de alguma forma pesado antes do embarque, para garantir que você não seja muito pesado para o veículo.

Veja o procedimento no vídeo:

Isso parece exagerado e irreal para você? Bem, existem outras 19 empresas atualmente desenvolvendo carros voadores neste momento. “Houve um grande progresso que é difícil de ver se você está do lado fora”, disse Holden. “Foi um processo realmente interessante obter nossos parceiros de fabricação de veículos alinhados com as especificações de desempenho, de modo que eles estão construindo veículos que se alinham com o que precisamos para criar Uber Elevate com sucesso”.

Mas vai ser caro, certo? Holden promete que não: “Cobrar caro não é o modus operandi da Uber. Se estamos fazendo isso, você tem que acreditar que vamos conseguir um preço muito baixo”. O “suficientemente barato”, disse, de modo que ainda seja mais barato usar o serviço do que possuir um carro.

Se você ainda se sente cético, Holden assegurou a todos o seguinte: “Nós estudamos isso com cuidado e acreditamos que é possível escalável. Nós fizemos o trabalho duro para que possamos construir skyports e construir a sistemática operacional que permita o tráfego de dezenas de milhares de vôos por dia na cidade de Los Angeles”.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o lobby para acabar com serviço terrestre de empresas como Uber e Cabify continua forte…

(Fonte)