O segredo de Elon Musk, parte 2

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[Nota do editor: esta é a segunda parte da tradução autorizada do texto original de Tim Urban; antes, recomendamos que você leia a parte 1.]

O SOFTWARE DE MUSK

A estrutura do software de Musk começa como o software da maioria de nós, com o que chamaremos a Caixa de Desejos:

Esta caixa contém qualquer coisa na vida quando você deseja, em que a Situação A dá lugar à Situação B.

Situação A é o que está acontecendo agora. E você quer que algo mude para que a Situação B passe a acontecer em seu lugar. Alguns exemplos:

A Caixa de Desejos tem uma parceira, que chamaremos de Caixa da Realidade. Ela contém todas as coisas que são possíveis no mundo real:
Simples assim.

A sobreposição das caixas Desejo e Realidade resulta na Piscina de Metas, onde ficam os seus objetivos:

Então você escolhe uma meta da Piscina de Metas, a coisa que você vai tentar mudar da Situação A para a Situação B.

E como você faz para que algo mude? Você direciona seu poder para esse fim. O poder de uma pessoa pode assumir várias formas: seu tempo, sua energia (mental e física), seus recursos, sua capacidade de persuasão, sua conexão com os outros, etc.

O conceito de “trabalho assalariado” é apenas a Pessoa A usando o poder de seus recursos (um salário) para direcionar o tempo e/ou a energia da Pessoa B para realizar o objetivo da Pessoa A. Já quando a uma celebridade respeitada recomenda publicamente um livro, ela está combinando seu poder de conexão (ela tem um enorme alcance) e seu poder de persuasão (as pessoas confiam nela) e direcionando-os para o objetivo de colocar o livro nas mãos de milhares de pessoas que, de outra forma, nunca teriam tomado conhecimento dele.

Uma vez que certa meta foi selecionada, você sabe para onde direcionar o seu poder. Agora é hora de descobrir a maneira mais eficaz de usar esse poder para gerar o resultado desejado – essa é a sua estratégia:

Simples, certo? E provavelmente não é tão diferente de como você pensa.

Mas o que torna o software de Musk tão eficaz não é a sua estrutura, e sim o fato de que ele o usa como um cientista. Carl Sagan disse: “A ciência é uma forma de pensar muito mais do que um sistema de conhecimento”, e você pode ver Musk aplicar essa maneira de pensar de duas formas principais:

1) Ele constrói cada componente do software, desde o início.

Musk chama isso de “raciocínio dos primeiros princípios”. Vou deixá-lo explicar:

“Eu acho que geralmente o processo de pensamento das pessoas é muito limitado por convenções ou analogias com experiências anteriores. É raro que as pessoas tentem pensar em algo partindo dos primeiros princípios. Elas dirão: “Nós faremos assim porque sempre foi feito assim.” Ou não farão algo porque “bem, ninguém nunca fez isso, então não deve ser bom.” Mas isso é uma maneira ridícula pensar. Você tem que construir o raciocínio desde o início – “dos primeiros princípios” é a frase que é usada na Física. Você olha os fundamentos e constrói o seu raciocínio a partir daí, e então você verá se você tem uma conclusão que funciona ou não funciona, e pode ou não ser diferente do que as pessoas fizeram no passado.”

Na ciência, isso significa começar com aquilo que as evidências nos mostram ser verdade. Um cientista não diz: “nós sabemos que a Terra é plana porque é assim que ela parece ser, o que é intuitivo, e é isso que todos concordam que é verdade”. Um cientista diz: “a parte da Terra que posso ver em qualquer determinado momento parece ser plana, o que ocorre quando se olha para uma pequena parte de muitos objetos de formas diferentes, então não tenho informações suficientes para saber qual é a forma da Terra. Uma hipótese razoável é que a Terra seja plana, mas até que tenhamos ferramentas e técnicas que possam ser usadas para provar ou refutar essa hipótese, essa é uma questão em aberto “.

Um cientista reúne apenas o que sabe ser verdadeiro (os primeiros princípios) e usa-os como as peças de um quebra-cabeça para construir sua conclusão.

Raciocínio dos primeiros princípios é uma coisa difícil de fazer na vida, e Musk é um mestre nisso. O software de nosso cérebro tem quatro grandes centros de tomada de decisão:

1) Preenchimento da Caixa de Desejos;

2) Preenchimento da Caixa da Realidade;

3) Seleção de metas na Piscina de Metas; e

4) Formação de estratégia.

Musk trabalha em cada uma dessas caixas usando o raciocínio de primeiros princípios. Preencher a Caixa de Desejos utilizando os primeiros princípios requer uma compreensão profunda, honesta e independente sobre si mesmo. Preencher a Caixa da Realidade exige a imagem mais desobstruída possível dos fatos reais do mundo e de suas próprias habilidades. A Piscina de Metas deve ser um Laboratório de Seleção de Metas que contém ferramentas para medir e pesar inteligentemente as opções disponíveis. E estratégias devem ser elaboradas com base no que você sabe, e não no que normalmente é feito.

2) Ele ajusta continuamente as conclusões de cada componente à medida que novas informações chegam.

Você deve se lembrar de fazer provas de matemática na escola, algo comum na infância de todos nós. Aprendíamos coisas como isso:

Se: A = B

E se: B = C + D

Então: A = C + D

Matemática é algo satisfatoriamente exato. Seus dados são exatos e suas conclusões são precisas.

Em matemática, chamamos os dados de axiomas, e axiomas são 100% verdadeiros. Então, quando construímos conclusões a partir de axiomas, chamamos essas conclusões de teoremas, que também são 100% verdadeiros.

A ciência não tem axiomas ou provas, por boas razões.

Poderíamos ter chamado a Lei da Gravitação Universal de Newton de teorema – e por um longo tempo, certamente ela parecia um. Mas Einstein apareceu e mostrou que Newton na verdade estava vendo uma imagem “de perto”, como alguém que vê a Terra de perto e a chama de plana. E Einstein demonstrou que quando você muda de perspectiva, descobre que a verdadeira lei é a da Relatividade Geral, pois a Lei da Gravitação Universal de Newton deixa de funcionar em condições extremas. E então você fica tentado a chamar a Lei da Relatividade Geral de teorema, mas surge a Mecânica Quântica e mostra que a Lei da Relatividade Geral falha quando é aplicada em escalas microscópicas, e que um novo conjunto de leis precisa ser aplicada para explicar nesses casos.

Não há axiomas ou teoremas na ciência porque nada é certo, e tudo aquilo de que temos certeza sobre pode ser refutado. Richard Feynman disse: “o conhecimento científico é um conjunto de declarações com diversos graus de certeza – algumas mais inseguras, algumas quase seguras, mas nenhuma absolutamente segura sobre sua certeza.” Em vez de teoremas, a ciência tem teorias. As teorias baseiam-se em provas concretas e tratadas como verdades, mas a qualquer momento elas são susceptíveis de serem ajustadas ou refutadas, à medida em que surgem novos dados.

Assim, na ciência, é mais como:

Se (por enquanto): A = B

E se (por enquanto): B = C + D

Então (por enquanto): A = C + D

Em nossas vidas, o único verdadeiro axioma é “eu existo”. Além disso, nada é certo. Para a maioria das coisas na vida, não podemos sequer construir uma verdadeira teoria científica, porque a vida não tende a ter medidas exatas.

Normalmente, o melhor que podemos fazer é ter um palpite forte com base nos dados que temos. E na ciência, um palpite é chamado de hipótese. O que funciona assim:

Se (com base no que eu sei): A = B

Se (com base no que eu sei): B = C + D

Então (com base no que eu sei): A = C + D

As hipóteses são construídas para serem testadas. Testar uma hipótese pode refutá-la ou fortalecê-la, e se ela passar em testes suficientes, pode ser atualizada para uma teoria.

Então, depois que Musk constrói suas conclusões a partir dos primeiros princípios, o que ele faz? Ele testa a ideia no mundo real continuamente, e a ajusta regularmente com base no que aprende. Vamos percorrer todo o processo para mostrar como:

Você começa como o raciocínio de primeiros princípios para (A) preencher a Caixa de Desejos, (B) preencher a Caixa de Realidade, (C) selecionar uma meta da Piscina de Metas, e (D) construir uma estratégia. Em seguida, você começa a trabalhar. Você usou os primeiros princípios para decidir para onde direcionar seu poder e a maneira mais eficaz de usá-lo.

Mas a estratégia de conquista de metas que você criou foi apenas o seu primeiro passo. Era uma hipótese, madura o suficiente para ser testada. E você testa uma hipótese de estratégia de uma só maneira: agindo. Você direciona seu poder para implementar a estratégia e vê o que acontece. Ao fazer isso, os dados começam a fluir em resultados, feedback e novas informações do mundo exterior. Certas partes de sua hipótese de estratégia podem ser fortalecidas por esses novos dados, outras podem ser enfraquecidas e novas idéias podem surgir na sua cabeça graças à experiência. De qualquer forma, algum ajuste é geralmente necessário:

À medida em que esse loop de estratégia vai ocorrendo e seu poder se torna mais e mais eficaz na realização de seu objetivo, outras coisas começam a acontecer.

Para alguém que usa o raciocínio de primeiros princípios, a Caixa de Desejos a qualquer momento é uma fotografia de seus desejos mais íntimos, tirada na última vez em que pensou muito sobre isso. Mas o conteúdo da Caixa de Desejos também é uma hipótese, e a experiência pode mostrar que você estava errado sobre algo que achou que queria ou que você quer uma coisa mas ainda não havia se dado conta desse desejo. Ao mesmo tempo, o seu eu interior não é uma estátua rígida, mas uma escultura cambiante e multiforme, cujos valores mais íntimos mudam com o passar do tempo. Portanto, mesmo se algo na Caixa de Desejos estivesse correto em determinado momento, esse desejo específico pode perder seu lugar na Caixa de Desejos conforme você se desenvolve. A Caixa de Desejos deve refletir da melhor forma possível o seu eu interior atual, o que exige que você a mantenha atualizada. E isso é uma coisa que você faz através da reflexão:

Um loop (uma volta no circuito) que atualiza a Caixa de Desejos é chamado de evolução.

Por sua vez, a Caixa de Realidade também estará passando por um processo contínuo de atualização. “Coisas que são possíveis” é uma hipótese, talvez mais do que qualquer outra coisa. Essa hipótese leva em conta tanto o estado do mundo como suas próprias habilidades. E à medida que suas próprias habilidades mudam e se desenvolvem, o mundo muda ainda mais rápido. O que era possível no mundo em 2005 é muito diferente do que é possível hoje, e é uma vantagem enorme trabalhar com uma Caixa de Realidade atualizada.

Preencher a sua Caixa de Realidade usando o raciocínio de primeiros princípios é um grande desafio, e mantê-la atualizada para que corresponda rigorosamente à realidade exige trabalho contínuo.

Para cada uma dessas áreas, a caixa representa a hipótese atual e o círculo representa a fonte de nova informação que pode ser usada para ajustar a hipótese. É nosso dever lembrar sempre que os círculos é que mandam, e não as caixas – as caixas estão apenas tentando fazer o seu melhor para deixar os círculos sentirem-se orgulhosos de seu trabalho. E se ficarmos desconectados daquilo que está acontecendo nos círculos, a informação nas caixas se tornará desatualizada e obsoleta.

Pensando no software como um todo, vamos dar um passo para trás. O que vimos é um mecanismo de elaboração de objetivos abaixo e um mecanismo de realização de metas acima. Uma coisa que a realização de metas muitas vezes requer é foco extremo. Para obter resultados, concentramos nossa atenção nos pequenos detalhes, investimos toda a nossa energia na busca de nossa meta e aprimoramos continuamente nossa estratégia com um loop.

Mas, com o passar do tempo, ajustamos o conteúdo e a forma da Caixa Desejos e da Caixa de Realidade. E, eventualmente, algo mais pode acontecer: a Piscina de Metas é alterada.

A Piscina de Metas é apenas a sobreposição da Caixa de Desejos e da Caixa de Realidade, então sua própria forma e conteúdo são totalmente dependentes da situação dessas caixas. E como você vive sua vida dentro do mecanismo de obtenção de metas acima descrito, é importante assegurar-se de que aquilo em que você está trabalhando tão duramente permaneça alinhado com a Piscina de Metas – então vamos adicionar duas grandes setas vermelhas para esse fim:

Manter-se atualizado com os dois círculos abaixo exige que às vezes levantemos nossas cabeças da missão micro para fazermos uma reflexão macro. E quando ocorrem mudanças suficientes nas caixas de Desejos e de Realidade, o objetivo que você persegue não estará mais na Piscina de Metas, o que exigirá uma grande mudança de vida – uma ruptura, um deslocamento, uma troca de prioridade, uma atitude que altera o jogo.

Juntando tudo isso, o software que descrevi é um sistema vivo e pulsante, construído em alicerces sólidos (os primeiros princípios) e feito para ser ágil, refletir a sua verdade e atualizar-se quando for necessário, a fim de melhor servir seu proprietário.

E se você ler sobre a vida de Elon Musk, pode acompanhar esse software em ação.

COMO O SOFTWARE DE MUSK DETERMINOU SUA HISTÓRIA

COMEÇANDO

O primeiro passo para Elon foi preencher o conteúdo de sua Caixa de Desejos. Fazer isso a partir dos primeiros princípios é um desafio enorme – você tem que aprofundar sua análise de conceitos como certo e errado, bem e mal, importante e trivial, valioso e dispensável. Você tem que descobrir o que você respeita, o que despreza, o que o fascina, o que o aborrece e o que empolga profundamente sua criança interior. Claro, não há nenhuma receita para qualquer pessoa de qualquer idade obter uma resposta clara para essas perguntas, mas Elon fez a melhor coisa que ele poderia ao ignorar os outros e pensar com autonomia.

Conversei com ele sobre o seu processo de pensamento inicial para descobrir o que faria em sua vida. Ele disse muitas vezes que se importava profundamente com o futuro bem-estar da espécie humana – algo que está claramente no centro de sua caixa de desejos. Eu perguntei como ele chegou a isso, e ele explicou:

A única coisa que me interessa é: quando olho para o futuro, vejo-o como uma série de fluxos de probabilidade de ramificação. Então, você precisa se perguntar sobre o que estamos fazendo para estimular o bom fluxo de probabilidades – o que é suscetível de concretizar um bom futuro? Porque, de outra forma, você olhará os futuros possíveis e dirá “a coisa vai ficar preta”. Se você está projetando o futuro e diz: “Uau, vamos acabar em alguma situação terrível”, isso é deprimente.

Justo. Aprofundando a análise de seu caminho em particular, mencionei para Musk os grandes físicos modernos como Einstein e Hawking e Feynman, e perguntei-lhe se havia considerado tornar-se um cientista em vez de um engenheiro. A resposta dele foi:

Eu certamente admiro as descobertas dos grandes cientistas. Eles estão descobrindo o que já existe – é uma compreensão mais profunda de como o universo já funciona. Isso é legal, mas o universo já sabe disso. O que importa é o conhecimento em um contexto humano. O que estou tentando garantir é que o conhecimento em um contexto humano ainda seja possível no futuro. Então é como se eu fosse mais como o jardineiro, e depois há as flores. Se não houver jardim, não há flores. Eu poderia tentar ser uma flor no jardim, ou eu poderia tentar certificar-me de que há um jardim. Então eu estou tentando ter certeza que haverá um jardim, de modo que no futuro muitos Feynmans possam florescer.

Em outras palavras: tanto A como B são bons, mas sem A não há B; então escolho A.

Ele prosseguiu:

Houve um momento em que pensei em seguir a carreira de Físico – eu me formei em Física. Mas, para realmente avançar na Física hoje em dia, você precisa de dados. A física é fundamentalmente governada pelo progresso da engenharia. Esse debate – “Qual é melhor, engenheiros ou cientistas? Os cientistas não são melhores? Einstein não era a pessoa mais inteligente? “- pessoalmente, eu acho que a engenharia é melhor porque na ausência da engenharia você não tem os dados. Você apenas atingiu um limite. E sim, você pode ser muito inteligente dentro do contexto do limite dos dados que você tem, mas a menos que você tenha uma maneira de obter mais dados, você não pode fazer progresso. Como olhar para Galileo. Ele projetou o telescópio – foi isso que lhe permitiu ver que Júpiter tinha luas. O fator limitante, se você quiser, é a engenharia. E se você quiser avançar a civilização, você deve abordar o fator limitante. Portanto, você deve abordar a engenharia.

A e B são ambos bons, mas B só pode avançar se A avançar. Então eu escolho A.

Ao pensar na faculdade sobre o melhor caminho para ajudar a humanidade, Musk analisou a questão raciocinando a partir dos primeiros princípios: “O que mais afetará o futuro da humanidade?” E então elaborou uma lista com cinco coisas, como explicou em uma entrevista: “a internet; a energia sustentável; a exploração espacial (em particular a extensão permanente da vida para além da Terra); a inteligência artificial; e reprogramar o código genético humano.”

Ao ouvi-lo falar sobre o que é importante para ele, você pode ver toda a sequência de raciocínios sobre a Caixa de Desejos que o levou à sua vida atual.

Mas ele também tem outras motivações. Ao lado de ajudar a humanidade, na sua Caixa de Desejos também está algo que ele explicou em uma entrevista:

Estou interessado em coisas que mudam o mundo ou afetam o futuro através de alguma tecnologia fantástica que faz você dizer “Como isso aconteceu? Como isso é possível?”

Isto se encaixa no cenário da paixão de Musk por tecnologia super-avançada e na empolgação que ele transmite a outras pessoas. Assim, tendo em conta tudo o que vimos acima, uma meta ideal para Musk seria algo envolvendo engenharia, algo em uma área que seria importante para o futuro, e algo relacionado com tecnologia de ponta. Esses itens básicos e genéricos permitiram que ele reduzisse consideravelmente os objetivos possíveis em sua Piscina de Metas.

Enquanto isso, ele era um adolescente sem dinheiro, reputação ou conexões, e com conhecimento e habilidades limitadas. Em outras palavras, sua caixa de realidade não era tão grande. Então ele fez o que muitos jovens fazem – ele focou seus objetivos iniciais não em torno de alcançar seus desejos, mas em ampliar sua Caixa de Realidade e sua lista de “coisas que são possíveis”. Ele queria poder ficar legalmente nos EUA depois da faculdade, e ele também queria ganhar mais conhecimento sobre engenharia. Então ele matou dois pássaros com uma só pedra inscrevendo-se num programa de doutorado em Stanford, para estudar os capacitores de alta densidade, uma tecnologia que busca oferecer uma maneira mais eficiente de armazenar energia, em relação às baterias tradicionais.

A GRANDE VIRADA COM A INTERNET

Musk foi para a Piscina de Metas e escolheu o doutorado em Stanford, e a seguir se mudou para a Califórnia. Mas era o ano de 1995. A internet estava nos estágios iniciais de decolagem e sua evolução era muito mais rápida do que as pessoas tinham antecipado. Era também um mundo em que Musk poderia mergulhar sem dinheiro e sem reputação. Então ele adicionou um monte de possibilidades relacionadas à Internet em sua Caixa de Realidade. Os estágios iniciais de desenvolvimento da internet eram também mais emocionantes do que ele tinha previsto, então envolver-se com internet rapidamente foi parar na sua Caixa de Sonhos.

Esses rápidos ajustes causaram grandes mudanças em sua Piscina de Metas, até o ponto em que o doutorado em Stanford não era mais o foco da formação de metas de seu software interno.

A maioria das pessoas teria ficado com o doutorado em Stanford – porque já havia dito a todos sobre isso e seria estranho parar, porque era Stanford, porque era um caminho mais normal, porque era mais seguro, porque a internet poderia ser um moda, porque podia acabar aos 35 anos fracassado e sem dinheiro por não conseguir emprego já que não tinha a qualificação adequada.

Musk desistiu do doutorado após dois dias de reflexão. Seu software constatou que o doutorado já não estava mais em sua Piscina de Metas, e ele confiava em seu software – então fez uma grande mudança.

Ele iniciou a Zip2 com seu irmão, um cruzamento precoce entre os conceitos de Páginas Amarelas e Google Maps. Quatro anos depois, eles venderam a empresa e Elon foi embora com US$ 22 milhões.

Peter Thiel e Elon Musk – como se pode observar, o software de Musk também cuidou de sua calvície iminente (nota do editor).

Como um milionário do mundo dotcom, a sabedoria convencional aconselhava que ele se acomodasse como um cara rico que investiria seu dinheiro em outras empresas ou começaria algo novo com o dinheiro de outras pessoas. Mas o centro de formação de metas de Musk tinha outras idéias. Sua Caixa de Desejos estava cheia de ambiciosas ideias de startups que ele imaginava que poderiam ter grande impacto no mundo, e sua Caixa de Realidade, que agora incluía US$ 22 milhões, informou-lhe que ele tinha uma alta chance de sucesso. Ficar acomodado não estava de modo algum em sua Caixa de Desejos e era algo totalmente desnecessário de acordo com sua Caixa de Realidade.

Assim, ele usou sua riqueza para iniciar a X.com em 1999, com o objetivo de construir uma instituição financeira on-line. A internet ainda era jovem e o conceito de armazenar seu dinheiro em um banco on-line era totalmente inconcebível para a maioria das pessoas, e Musk foi aconselhado por muitos a desistir, pois seu plano era maluco.

Mas, novamente, Musk confiou em seu software. O que ele sabia sobre a internet lhe disse que sua ideia estava dentro da Caixa da Realidade – porque seu raciocínio indicava que, quando se tratava da internet, a Caixa da Realidade crescia muito mais do que as pessoas previam – e isso era tudo o que ele precisava saber para prosseguir. Na parte superior de seu software, à medida em que realizava o loop de ajustes em sua estratégia conforme o resultado de suas ações, o serviço da X.com mudou, a equipe mudou, a missão mudou, até o nome mudou. No momento em que o eBay a comprou, em 2002, a empresa de Musk chamava-se PayPal e era um serviço de transferência de dinheiro. Musk conseguiu US$ 180 milhões por ela.

LEVANDO SEU SOFTWARE AO ESPAÇO

Agora com 31 anos de idade e fabulosamente rico, Musk teve que descobrir o que fazer com sua vida. Além da sabedoria convencional que lhe dizia “faça o que fizer, definitivamente não se arrisque a perder o dinheiro que tem”, também a lógica comum das pessoas lhe dizia “Você é incrível na construção de empresas de internet, mas isso é tudo que você sabe já que nunca fez mais nada. Você tem mais de trinta anos agora e é tarde demais para fazer algo grande em um campo totalmente diferente. Este é o caminho que você escolheu: você é um cara da internet.”

Mas Musk voltou aos primeiros princípios. Ele olhou para dentro de sua Caixa de Desejos, e depois de refletir, concluiu que fazer outra coisa na internet não estava mais dentro dela. O que estava ali era seu desejo ainda ardente de ajudar o futuro da humanidade. Em particular, ele sentiu que para ter um futuro longo, a espécie humana teria que se tornar muito melhor em viagens espaciais.

Então ele começou a explorar os limites da sua Caixa de Realidade quando passou a se envolver com a indústria aeroespacial.

A sabedoria convencional gritava com toda força de seus pulmões para que ele parasse. Disse que ele não tinha nenhuma instrução formal no campo e que não sabia nada sobre ser um cientista de foguetes. Mas seu software lhe disse que a educação formal era apenas outra maneira de fazer o download de informações em seu cérebro – e “um download dolorosamente lento”. Então ele começou a ler, conhecer pessoas e a fazer perguntas.

A sabedoria convencional dizia que nenhum empreendedor jamais tivera sucesso num empreendimento como esse, e que ele não deveria arriscar seu dinheiro em algo tão improvável. Mas a filosofia declarada de Musk é: “quando algo é importante o suficiente, você o faz mesmo se as probabilidades não estiverem a seu favor”.

A sabedoria convencional dizia que ele não podia se dar ao luxo de construir foguetes porque eles eram muito caros. A mesma sabedoria convencional apontou para o fato de que ninguém jamais havia feito um foguete barato antes – mas, assim como os cientistas que não escutaram quem afirmava que a Terra tinha só seis mil anos e era plana, Musk começou a esmiuçar os números para fazer as contas ele mesmo. Veja como ele relata seus pensamentos nesta entrevista:

Historicamente, todos os foguetes têm sido caros. Por isso, no futuro, todos os foguetes serão caros. Mas na verdade isso não é verdade. Se você pergunta, “de que é feito um foguete?” A resposta é que um foguete é feito de alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono. E você então pode perguntar: “qual é o custo de matéria-prima de todos estes componentes?” E se você os tiver empilhados no chão e pudesse acenar uma varinha mágica para que o custo de rearranjar os átomos da matéria-prima desses componentes para transformá-los em alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono, para que o valor fosse zero, então qual seria o custo do foguete? E eu estava pensando, “ok, é realmente pouco, é só 2% do que um foguete custa”. Então claramente se trata de como os átomos da matéria prima são arranjados, de modo que você precisa descobrir como pode conseguir que os átomos fiquem com as formas corretas de forma mais eficiente. E assim tive uma série de reuniões aos sábados com pessoas, algumas das quais ainda estavam trabalhando nas grandes empresas aeroespaciais, apenas para tentar descobrir se havia algum problema nessa história que eu ainda não havia percebido. Mas não consegui encontrar nada que não tivesse percebido. Então comecei a SpaceX.

A história, a sabedoria convencional e seus amigos diziam uma coisa, mas seu próprio software, raciocinando com base nos primeiros princípios, dizia outra coisa – e ele confiava em seu software. Assim Musk começou SpaceX, novamente com seu próprio dinheiro, e mergulhou de cabeça no projeto. A missão: reduzir drasticamente o custo das viagens espaciais para tornar possível para a humanidade tornar-se multi-planetária.

TESLA E ALÉM

Dois anos mais tarde, enquanto administrava uma SpaceX em desenvolvimento, um amigo levou Elon a uma empresa chamada AC Propulsion, que criou um protótipo para um automóvel elétrico super-rápido e de longo alcance. Ele ficou impressionado. A Caixa de Realidade do software de Musk tinha lhe informado que tal coisa ainda não era possível, mas acontece que ele ainda não tinha conhecimento de como as baterias de lítio haviam avançado, e o que ele viu na AC Propulsion era nova informação sobre o mundo que colocou “começar uma empresa de carros elétricos” na sua Caixa de Realidade.

Ele novamente escutou a sabedoria convencional falar sobre os custos das baterias, da mesma forma que falou sobre os custos de foguetes. As baterias nunca tinham sido feitas de forma suficientemente barata para permitir um carro elétrico de grande porte e de longo alcance, porque o custo de fazer uma bateria era simplesmente muito alto. Ele usou a mesma lógica de primeiros princípios e uma calculadora para determinar que a maior parte do problema era o custo dos intermediários, não das matérias-primas, e decidiu que na verdade a sabedoria convencional estava errada e as baterias poderiam ser muito mais baratas no futuro. Então, ele co-fundou a TESLA com a missão de acelerar o advento de um veículo elétrico no mundo, primeiro investindo seus recursos para financiar a iniciativa, e mais tarde contribuindo com seu tempo e energia ao tornar-se CEO da empresa.

Dois anos depois, Musk co-fundou a SolarCity com seus primos, uma empresa cujo objetivo era revolucionar a produção de energia, permitindo a instalação de painéis solares em milhões de casas. Musk sabia que seu poder de tempo e energia (o único tipo de poder que tem limites rígidos, não importa quem você seja), estava quase todo esgotado, mas ele ainda tinha muitos outros recursos – então ele colocou-os para trabalhar em outro objetivo em sua Piscina de Metas.

Mais recentemente, Musk iniciou uma grande mudança em outra área que é importante para ele: a forma como as pessoas se transportam de cidade em cidade. Sua idéia é que deve haver um modo totalmente novo de transporte que conduziria pessoas por centenas de quilômetros transportando-as através de um tubo. Ele chama isso de Hyperloop. Para esse projeto, ele não está usando seu tempo, energia ou recursos. Em vez disso, apresentou seus pensamentos iniciais e criou uma competição para engenheiros apresentarem suas inovações, e assim Musk está utilizando seu poder de conexão e de persuasão para criar mudanças.

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Há várias empresas de tecnologia que criam softwares. Elas analisam exaustivamente, por anos, qual a melhor e mais eficiente maneira de fazer o seu produto. Musk vê as pessoas como computadores, e vê o software em seu cérebro como o produto mais importante que possui – e uma vez que não há empresas lá fora projetando software de cérebro, ele projetou o seu próprio, faz testes com versões beta a cada dia e realiza atualizações constantemente. É por isso que ele é tão escandalosamente eficaz, pode incomodar várias grandes indústrias ao mesmo tempo e consegue aprender tão rapidamente, planejar tão bem suas estratégias e visualizar o futuro com tanta clareza.

Essa parte do que Musk faz não é um grande mistério – é bom senso. Sua vida inteira funciona no software em sua cabeça – então por que você não ficaria obsecado com sua otimização?

E, porém, não só a maioria de nós não está obcecada com o seu próprio software – a maioria de nós nem sequer compreende o seu próprio software, como funciona ou porque funciona assim. Vamos tentar descobrir por quê.

[Nota do tradutor: na próxima parte, Tim Urban irá analisar como funciona a mente da maior parte das pessoas.]

A verdade sobre nós – parte 2

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Partimos do princípio de que todo ser humano deve buscar a verdade. É auto-evidente que quem sabe a verdade torna-se mais mais capaz de vencer obstáculos e desenvolver-se, enquanto a ignorância conduz ao erro e ao perigo.

Há um caminho difícil e um caminho fácil para a busca da verdade. O caminho fácil é sempre agradável e é conveniente, mas nos conduz somente à ilusão. O caminho difícil exige esforço e por vezes é amargo, mas traz como recompensa não apenas a sobrevivência, como também a possibilidade de viver-se plenamente.

Partimos do princípio de que a primeira verdade a ser conhecida é a respeito de si mesmo, pois tudo o mais dela decorre. Portanto, o caminho difícil exige tempo e disposição para buscar com honestidade a resposta de três perguntas fundamentais: quem somos, onde estamos e qual o nosso propósito.

É auto-evidente que a resposta da terceira pergunta decorre das duas primeiras. Portanto, ambas serão enfrentadas de imediato e retomadas ao longo do texto, cada vez com uma resposta diferente, mais precisa, até chegarmos à solução da terceiro questionamento.

Perguntas:

(1) Quem você é?

(2) Onde você está?

Nossas respostas no momento são:

(1) Você é um ser humano, um ser consciente, que está lendo este texto.

(2) Você está neste mundo, inserindo em um universo, em direção ao seu futuro.

Ambas as perguntas dizem respeito a nós e ao lugar em que estamos. Portanto, se há algo comum entre nós e o mundo ao redor, esse deve ser o nosso ponto de partida. Se há algo fundamental que compartilhamos com o ambiente em que estamos inseridos, é desse ponto que precisamos começar nossa busca. Talvez o que há de comum em todas as coisas possa nos dizer algo, talvez tenha uma mensagem sobre nossa situação.

Ocorre que existem engrenagens infinitesimais que constroem tudo o que vemos e o que somos. Há menos de dois séculos, observadores começaram a levantar o véu que as escondia. Elas são as partículas subatômicas e, para nossa surpresa, carregam uma mensagem.

Na verdade, mais do que uma mensagem. Essas engrenagens infinitesimais são como janelas que revelam a verdadeira paisagem do mundo macroscópico.

Na primeira parte deste trabalho, vimos que a ciência está finalmente observando de perto tais engrenagens. E que essa observação [1]Como no experimento clássico da dupla fenda. mostrou uma situação surpreendente. Os minúsculos os tijolos que compõem o universo [2]Partículas subatômicas, notadamente as primeiras experiências foram feitas com fótons e elétrons. Posteriormente, constatou-se que mesmo átomos comportavam-se da mesma forma, ou seja, eram uma sobreposição de probabilidades que apenas entrava em colapso (colapso da função de onda: definia-se entre uma das probabilidades como “a verdadeira posição”) com a interferência do observador. não existem fixos em uma só posição. Cada um deles pode ocupar vários lugares ao mesmo tempo, há uma sobreposição de possibilidades em relação aos lugares que cada partícula subatômica pode ocupar.

Mais ainda, comprovou-se que estruturas maiores parecem também existir em vários lugares ao mesmo tempo. Constatou-se, também, que quando olhamos de perto essas engrenagens fundamentais da realidade, elas parecem “prever” nossa observação e já se comportar antecipadamente conforme nosso comportamento [3]Isso é uma pequena simplificação, mas é verdade para todos os efeitos conforme demonstrado por experimentos jamais refutados..

Por fim, vimos que a vaidade humana e a compreensão errônea da interpretação mais tradicional desses fenômenos [4]Interpretação de Copenhague, segundo a qual a natureza das partículas é indeterminada. levou muitos leigos a afirmarem que a mente teria o poder de mudar o mundo apenas pela força de vontade. Na verdade, a realidade é infinitamente menos elogiosa e contraintuitiva, pois nossa situação é justo o inverso.

É nesse ponto que entra o exercício. É simples, mas no final vai revelar-se interessante.

Em primeiro lugar, pegue uma moeda. Essa moeda vai nos acompanhar por um bom tempo, e ajudará você a reformular as duas perguntas iniciais.

Agora, coloque essa moeda em uma mesa na sua frente, um pouco à esquerda de onde você está. A seguir, arraste essa moeda para uma posição mais à sua direita. Digamos que leve cinco segundos para fazer isso.

Neste exercício, você pode também distanciar a moeda de você ou aproximá-la um pouco, num movimento diagonal. Isso não fará diferença agora, apenas considere a possibilidade.

Essas são as imagens que você verá antes e após o tempo de 5 segundos transcorridos para arrastar a moeda:

Mas, na verdade, essa distinção entre os dois momentos no tempo é apenas uma “ilusão”. Ocorre que o tempo é também outra dimensão. O tempo forma, quando unido, às três dimensões do espaço, quatro dimensões tempo-espaciais. Essa é uma forma didática de explicar a teoria de Einstein.

Trata-se de algo trivial, e quanto a isso não há divergência. Tanto que uma pergunta realmente levada a sério pela ciência é

Por que podemos lembrar do passado e não do futuro?

Ou seja, o futuro está aí, tão coexistente e perceptível quanto o passado na linha do tempo, assim como os extremos da sala em que você está coexistem um com o outro na linha que forma seu comprimento. E causa perplexidade à ciência o fato de não o “lembrarmos” do futuro assim como lembramos do passado. Há muitas teorias que tentam explicar porque a seta do tempo sempre aponta para o amanhã [5]E futuramente apresentaremos a explicação., mas o fundamental é a perplexidade diante da noção de que não percebemos o tempo como percebemos as demais dimensões.

A própria moeda pode funcionar como exemplo didático, pois podemos ver realmente as três dimensões que lhe conferem altura, comprimento e profundidade:

Agora, para efeito didático, imagine como se a mesa onde está a moeda fosse um contexto no qual o observador pode “ver” o tempo. Imagine o tempo, nessa mesa especial, pode ser “visto” como uma dimensão do espaço. Nesse caso, passado, presente e futuro coexistem e um observador poderia “ver” todos os três ao mesmo tempo, da mesma forma como poderá ver todos os pontos da mesa ao mesmo tempo.

Isso é o que um observador que enxergasse o tempo como se fosse uma dimensão “veria” na mesa, em relação aos 5 segundos que você levou para mover a moeda:

Trata-se, claro, é uma simplificação ilustrativa. Em primeiro lugar, todas as posições intermediária teriam a mesma definição da moeda em sua posição final e inicial. Além disso, não haveria posições intermediárias claras, mas uma continuidade não distinguível entre cada microposição ocupada pela moeda no seu caminho. E, se você conhecer algo de lógica e do famoso Paradoxo de Zenão, convém lembrar que entre as duas posições existem infinitas posições que a moeda assumirá, uma distinguível da seguinte por frações infinitesimais de cada milímetro (ou melhor, de milissegundos). Haverá um continuum de moedas.

Mas o que isso tem a ver com você?

O que é verdade para a moeda é também verdade para tudo o mais que experimenta a passagem do tempo. Quando você “caminha” em direção a seu futuro, algo assim poderia ser “visto” por quem está situado no contexto dessa mesa especial:

Vamos chamar essa mesa, em que podemos ver o tempo, de “super contexto”, pois é um contexto superior àquele em que nos situamos, pois é menos limitado já que só podemos perceber o passado. No super contexto, seu passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. Assim como seu corpo ocupa as três dimensões do espaço neste momento, na mesa em que está o super contexto você é percebido como um continuum. Como podemos perceber, essa mesa é aquilo que chamamos de eternidade.

Retomando as duas perguntas, podemos respondê-las, agora, de modo ligeiramente diferente:

(1) Quem você é? Você é um ser humano, um ser consciente, situado num continuum que trespassa o passado o presente e o futuro de uma só vez.

(2) Onde você está? Você está neste mundo, inserindo em um universo, em que tudo coexiste situado no mesmo super contexto.

Por outro lado, isso parece significar que não há livre arbítrio em sua vida, e que seu futuro já está definido. Afinal, já estamos lá no nosso futuro, fazendo aquilo que sempre fizemos, tão “fixos” em nossas “posições” no tempo como estamos quando posicionados no nosso passado. Nesse super contexto, não há sentido em preocupar-se com um propósito, tudo já está predeterminado na sua história.

Mas isso é apenas uma percepção incorreta e incompleta da realidade, pois desconsidera aquela as observações apresentadas no primeiro texto e resumidas acima. Quando os cientistas observaram bem de perto as engrenagens que fazem o mundo funcionar, constataram que as subpartículas atômicas estão em vários lugares e têm várias posições ao mesmo tempo. Cada engrenagem está, digamos, assim, em estado de sobreposição, pois ocupa várias posições ao mesmo tempo.

Por isso é que, quando um elétron depara-se com duas fendas, suas possíveis posições e sobrepostas formam uma onda de probabilidade e ele passa pelas duas fendas ao mesmo tempo, causando interferência em si próprio do outro lado.

Mas, além de sobreposta em posições, cada partícula também está em uma sobreposição de estados possíveis, em jeitos possíveis de ser, que na Física tem o nome de “momentum”. Para entender o que isso significa, voltemos ao exemplo da moeda.

Digamos, para fins didáticos, que as subpartículas atômicas são moedas, e que os cientistas usaram um super microscópio para enxergar uma dessas moedas e saber se ela está virada com qual face para cima, se cara ou coroa. Para sua surpresa, descobriram que essa subpartícula está, ao mesmo tempo, cara E coroa:

Isso é um problema, pois não parece possível que algo possa ao mesmo tempo estar e não estar em determinada situação. Mais impossível ainda que esse algo também ocupe várias posições ao mesmo tempo. E não estamos falando de um material esdrúxulo obtido em algum meteorito raro. Estamos falando da condição inerente aos tijolos que compõem nós e tudo ao nosso redor. Essa é a situação fundamental das engrenagens que fazem a realidade funcionar.

Essa é a representação de uma só moeda, se ela fosse uma partícula subatômica que nos compõe:

É disso que você é inteiramente feito, de uma coisa que está em vários estados ao mesmo tempo, ocupando vários lugares ao mesmo tempo. Como se isso bastasse, foi observada outra coisa igualmente surpreendente. Durante a observação em laboratório (uma “medição”) dessas moedas que compõem a realidade, é possível estabelecer uma posição determinada para a moeda ocupar no espaço. Também é possível estabelecer uma face definida na qual a moeda estará virada, se cara ou se coroa. Mas não é possível estabelecer as duas coisas ao mesmo tempo.

Essa impossibilidade não se deve a nenhuma deficiência dos equipamentos de medição utilizados pelos cientistas. É uma propriedade inerente às engrenagens que fazem o mundo todo existir e funcionar, segundo o que postula o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Em linguagem técnica, se você estabelece um eigenvector para o momentum da subpartícula (a face em que a moeda está virada), a sua posição não pode ser estabelecida. Numa linguagem mais didática mas absolutamente verdadeira, o material (ou seja lá o que for) que compõe o mundo e nós próprios ter uma característica indissociável: a indefinição, a abertura constante à várias possibilidades, a aleatoriedade. É tão aberto ao acaso, ao aleatório, que antecipa simultaneamente tempo todas as probabilidades aleatórias.

Não é como se Deus jogasse apenas dados com o universo. É como se toda vez que os dados fossem jogados, cada um caísse de todas as formas possíveis.

Isso tem uma consequência muito prática para a nossa vida real, para a sua vida concreta neste momento. É que além da pergunta sobre a razão de não nos lembrarmos do futuro, há outra questão contraintuitiva que a ciência considera legítimo fazermos:

Se os tijolos que nos compõe estão em contínua sobreposição, porque as coisas ao nosso redor também não estão em sobreposição de vários estados possíveis?

Afinal, você não olha sua xícara de café e a vê inteira e quebrada ao mesmo tempo. No mundo que enxergamos, não há gatos simultaneamente vivos e mortos andando pelos telhados. Diante do espelho, você não enxerga várias versões de você.

Ao menos isso deveria ocorrer, pois o acúmulo de posições das subpartículas ao longo do tempo (a chamada “decoerência”) deveria resultar em sobreposições de tudo aquilo que elas compõem. Quando pesquisadores constataram que as moedas que compõem a realidade estão em sobreposição e com as duas faces viradas ao mesmo tempo, a consequência da linearidade matemática [6]Tal como expressa na equação de Schrödinger. seria que o mundo macroscópico ao nosso redor, formado por essas partículas, também estivesse constantemente em várias posições e estados ao mesmo tempo.

Porém, não é isso que percebemos no mundo macroscópico. A pergunta tornou-se uma charada indecifrável, a maior dor de cabeça da ciência.

A tentativa mais rápida e prática de lidar com a charada ficou conhecida pelo nome de “variável oculta”. Isso significa que a resposta à charada ainda não pode ser formulada pois alguma coisa ainda não foi descoberta. Essa coisa é chamada por “variável oculta” e, quando a descobrirmos, tudo estará solucionado.

Mas uma forma ainda mais engenhosa de lidar com a charada foi feita pelo físico Hugh Everett, e pode ser assim didaticamente resumida:

Não existe charada. O que observamos no mundo das subpartículas é exatamente o que está acontecendo no mundo real, na nossa vida prática. Se não percebemos isso é outra história.

Nossa percepção da realidade enfrenta dificuldades quando a verdade é contraintuitiva, quando não corresponde ao que percebemos, criando uma charada onde não há nenhuma. De certa forma algo semelhante ocorreu quando nossos antepassados tiveram de enfrentar a verdade contraintuitiva de que a Terra é redonda, embora nossa experiência diária seja de uma superfície plana. Tudo é uma questão de perspectiva, de contexto.

Essa é uma simplificação que vai direto ao que nos interessa. Mais exatamente, o que Everett fez foi demonstrar que o modelo matemático que descreve perfeitamente cada subpartícula como uma sobreposição de estados simultâneos (uma mesma moeda ocupando várias posições ao mesmo tempo) não tem um ponto final. A equação não acaba, mas prossegue e, linearmente, começa a abranger em seus cálculos porções cada vez maiores do mundo que circunda a subpartícula, até chegar no laboratório e no próprio mundo em que ela se encontra. Na verdade, a equação termina por abranger todo o universo, demonstrando que há sobreposição de estados em tudo ao nosso redor.

E o que esse modelo revela é que, assim como a partícula, o universo em que vivemos é um conjunto de sobreposições possíveis, todas coexistindo neste exato momento, ocupando o mesmo espaço. Se uma só moeda que compõem o universo estiver numa situação de cara e coroa ao mesmo tempo, isso significa que existem dois universos: um no qual a moeda estará cara e outra em que ela estará coroa.

A ilustração que mais se difundiu, e que correspondia às observações experimentais, à interpretação de Everett e ao modelo de Schröndiger, foi a de que cada vez que um pesquisador jogasse uma dessas moedas no chão para ver com qual das faces ficaria voltada para cima, o universo se dividiria em dois: um em que foi cara, outro em que foi coroa. Um pouco mais tecnicamente, cada vez que fosse efetuada uma medição em laboratório, com o colapso da função de onda de uma subpartícula, haveria duas versões do pesquisador, cada uma vendo, em seu monitor no laboratório alternativo, um dos resultados possíveis da medição.

A proposta de Everett foi posteriormente confirmada e jamais encontrou refutação consistente, tendo ficado conhecida como a teoria dos “Muitos Mundos”, ou “muitos universos alternativos” ou “multiverso”, e pode ser resumida em dois pontos:

1) Para cada situação em que há mais de um caminho possível, surgem tantos universos alternativos quanto forem as possibilidades de escolha. Se isso é válido para o estado de uma partícula, também é válido qualquer outra possibilidade, inclusive as decisões que você toma em sua vida, de forma que a cada escolha que toma surgem universos alternativos.

2) Tudo o que é cientificamente possível existe em algum lugar desse multiverso. Na verdade, não existem probabilidade, pois toda probabilidade acontece em pelo menos um universo. Em um universo, você tomou todas as decisões certas e está vivenciando a maior felicidade possível, em outro você está vivendo a mais terrível tragédia possível. Entre ambos há inúmeros meios termos e aproximações

Essa visão de universos alternativos se subdividindo é didática e vamos ficar com ela por enquanto, embora mais tarde precisemos retomá-la para ir além. Antes, vamos relembrar da moeda de nosso exercício inicial. Lembre-se de que, quando pedi que movesse a moeda para a direita, também sugeri que podia aproximá-la ou distanciá-la de você, num movimento diagonal.

Essa mera possibilidade apresentada no início do exercício bastou para realizar três alternativas de futuro, três versões alternativas para a posição da moeda, após o intervalo de cinco segundos: uma em que você conduz a moeda em linha reta e outras duas em que move a moeda para mais próximo ou mais distante de seu corpo.

Lembrando a mesa do super contexto, em que o tempo é percebido como uma dimensão espacial, isso é o que o observador “veria”:

Na versão mais popular e didática da interpretação de Hugh Everett, cada uma as três posições é um universo possível que se concretizou. E como há até mesmo posições intermediárias entre os extremos, o que se percebe é um continuação quase sem graduação entre todas as possibilidades. Ao lado do continuum do espaço percorrido pela moeda da esquerda para a direita no tempo, há o continuum de possibilidades das posições futuras.

E o mesmo vale para você. No contexto superior em que o tempo pode ser percebido como uma dimensão espacial, há um hipercontexto que inclui todas as possibilidades de seu futuro, todas as alternativas de sua vida, desde o seu nascimento. Em algumas dessas alternativas, você está lendo esse texto, e em todas essas você está supondo como devem ser suas outras versões possíveis, que coexistem, sobrepostas em realidades alternativas.

Da mesma forma que no exemplo da moeda, no contexto maior que vê o super contexto (a continuidade entre passado, presente e futuro), há uma linha e continuidade que une todas as versões possíveis de sua vida. Nessa percepção mais abrangente de sua vida, a partir de um ponto definido no seu passado, o momento em que você nasceu, desdobraram-se inúmeras possibilidades de futuro diante de você, cada uma ramificando-se em outras novas possibilidades.

Nessa percepção, podemos compreender que, do contexto superior que percebe não só toda a extensão do tempo (passado, presente e futuro simultâneos), mas também todas as possibilidades de futuro que igualmente ocorrem, da perspectiva desse “hipercontexto”, você é como uma onda que percorre o mar que é o tempo, originando-se de um ponto no passado e ampliando-se para abranger uma infinita gama de possibilidades em seu futuro.

As perguntas iniciais, portanto, precisam ser retomadas:

(1) Quem você é? Você é uma onda contínua de possibilidades sobrepostas estendendo-se em direção a futuros que abrangem todas as versões alternativas de sua vida, dependendo de cada escolha e casualidades de seus múltiplos destinos. Em certas versões, você está mais próximo possível de um paraíso idealizado. Em outras, você pode descrever sua situação como infernal.

(2) Onde você está? Você está no hipercontexto, numa realidade de mundos e universos alternativos, todos sobrepostos, em que tudo aquilo que é cientificamente possível desde o início dos tempos é possível e realmente ocorre.

Ultrapassamos, enfim, a primeira etapa de nossa busca. A compreensão da natureza do hipercontexto nos ajudará a entender a natureza de nossa consciência, e o propósito de nossas vidas.

Basta, neste momento, preparar a leitura do próximo texto refletindo sobre a seguinte situação. Como tudo o que é cientificamente possível já ocorreu em uma das realidades alternativas, então em algumas delas a humanidade (ou seres muito próximos a nós) já se desenvolveu o suficiente não só para descobrir o hipercontexto, mas para trafegar entre as realidades alternativas. Mais ainda, como tudo o que é cientificamente possível já ocorreu, é então provável que outras formas de vida inteligente, distintas da nossa, tenham se desenvolvido e atuem também transitando livremente entre os universos possíveis.

É isso o que exatamente está acontecendo, e esse é o risco que atualmente estamos correndo, como será demonstrado. Nossos antepassados já suspeitavam dos seres parasitários que estão entre nós. Isso porque, como veremos, na verdade não existem universos alternativos: existe um único universo em que todas as realidades coexistem em sobreposição; e só não percebemos essas outras realidades porque esse foi o caminho escolhido pela natureza que nos deu origem. Há, porém, caminho distintos, e alguns deles resultaram em forças hostis à nossa existência. Precisamos, porém, entender melhor quem somos, antes de compreender qual a natureza a ameaça.

Notas   [ + ]

Cracolândia e o governo de punhos fechados

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Domingo a polícia militar, sob ordens do governador Geraldo Alckmin, deflagrou uma megaoperação na Cracolândia, aqui em SP, com bomba, porrada, etc.

A operação parece desmantelar o que sobrou do programa “Braços Abertos”, que tentava implementar um paradigma de tratamento, e não repressão, para os usuários e viciados que moravam na região.

(Pra quem não é de São Paulo, breve explicação: a cracolândia é uma zona do centro da cidade, onde muitos usuários de crack e outras drogas se reúnem, usam drogas a céu aberto, o tráfico rola solto, etc. O “Braços Abertos” era um programa de redução de danos, que tentava conseguir emprego e casa pra morar pra essas pessoas.)

Acho que muita gente já sabe disso, mas é sempre bom reiterar: as experiências mais felizes e eficientes ao lidar com os danos causados por drogas foram todas pautadas por uma visão médica, de tratamento e redução de danos, e não por repressão. Quem quiser ver um exemplo paradigmático, procure saber sobre como foi em Portugal: a mudança de uma visão repressora pra uma visão de tratamento resultou em uma redução enorme do uso de heroína, e a reintegração de muita gente à sociedade. Em resumo, dar apoio e tratamento pras pessoas costuma funcionar melhor do que bater nelas. Quem diria?

O mais surreal disso tudo, porém, é que a tal megaoperação ocorreu simultaneamente à Virada Cultural. Pra quem não conhece, a Virada é um evento, organizado pela prefeitura, que coloca vários shows, apresentações & etc pela cidade toda, durante 24h. O foco sempre foi, porém, no centro.

Ou seja: o governador achou que era uma boa ideia botar a polícia pra espancar e bombardear usuários de crack ao mesmo tempo que rolavam shows e galera na rua pertinho disso tudo.

Como eu não sou muito conspiracionista e não boto fé na capacidade e inteligência de governos pra criarem planos maquiavélicos, eu não acho que isso foi “pensado” pra esvaziar a Virada, pra expulsar as pessoas do centro, pra mandar todo mundo pra longe (a nova gestão Dória moveu boa parte das atrações da Virada pra longe do centro, então isso seria uma operação coordenada). Não acho que governos no geral sejam inteligentes assim.

Acho que a explicação é mais prosaica mesmo: o governo é burro e/ou não se importa. Como sempre. Acho que foi uma mistura de “tá na hora da operação, tem que botar pra quebrar em cima desses viciados”, a empolgação passando por cima do bom senso de considerar “olha, talvez não seja um bom momento pra isso” com “foda-se, quem tá na rua de madrugada merece apanhar mesmo”.

A situação é toda deprimente, e espero que meu repúdio tenha ficado claro. Não só acho grotesco o uso do aparato militar-repressivo pra espancar gente que já não tem nada na vida, mas sou contra a própria criminalização do uso de drogas. Se fosse legalizado não tinha abertura pra essa violência toda (a PM não chega batendo em bêbado todo fim de semana, né).

O mais bizarro, pra mim, é como essa dinâmica é um resumo perfeito da atuação do Estado, um negócio que parece até didático de tão exemplar: em uma rua, o governo te dá uns shows, uma festa, te “permite usar o espaço público” (como se ele fosse dono de algo pra te proibir…), te faz um agrado. Na esquina do lado, o governo usa todo seu aparato bélico pra agredir e violentar as pessoas que já são as mais frágeis da sociedade. Não é “um ou outro” – é os dois. O Estado precisa das duas formas pra continuar existindo – tanto o presente quanto a porrada. Só acho legal lembrar que tanto o showzinho quanto a bomba são bancados pela mesma entidade, e esquecer convenientemente disso não serve pra nada. Por trás da “dádiva” que o governo bonzinho deu pra nós sempre tem uma PM.

Milagre, carisma e política

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Quando pesquisei o capítulo do meu Livro dos Milagres que trata das aparições marianas (fenômenos em que se diz que a mãe de Jesus surge diante de testemunhas, trazendo mensagens) dei uma busca em bases de dados internacionais, como o catálogo da Universidade de Dayton, e consultei livros como o trabalho da antropóloga Sandra L. Zimdars-Swartz, Encoutering Mary, para ver se haveria algo a mencionar no Brasil, mas não encontrei nada de especial relevância.

O catálogo do Instituto Internacional de Pesquisas Marianas de Dayton listava, até 2014, sete ocorrências no país, seis ainda em aberto (isto é, sem decisão de um bispo sobre se a aparição é ou não digna de crédito) e uma com decisão negativa. Pesquisas subsequentes mostraram que nenhuma delas teve impacto na consciência popular comparável aos casos de que tratei no livro (Guadalupe, Lourdes, Fátima). O fenômeno de devoção mariana mais relevante para a história do Brasil, até agora, foi a descoberta da imagem original de Aparecida, por pescadores, no século XVIII, mas só metaforicamente esse evento pode ser considerado um “milagre”.

Esse cenário pode estar prestes a mudar, porém. Lançado há poucos meses, o livro Eu Sou a Graça, do monge beneditino Dom Rafael Maria Francisco da Silva, busca chamar atenção para uma série obscura de aparições de Maria em Pernambuco, entre os anos de 1936 e 1937. Ela é tão obscura, de fato, que sequer é mencionada no catálogo de Dayton, que se pretende exaustivo e reúne quase 400 ocorrências ao longo dos últimos 100 anos.

Mas resgatar e atribuir novos significados a aparições marianas perdidas do passado não é incomum, ainda mais em tempos disputa ideológica e de tensão política: a narrativa em torno dos eventos de Fátima, por exemplo, só veio a tomar a forma presente, com ênfase nos “três segredos”, décadas depois das aparições de 1917, quando a publicação da Terceira Memória da vidente Lúcia dos Santos, em 1941, permitiu uma reinterpretação das aparições como um alerta anticomunista. “Autoridades católico-romanas a Europa encontraram, na Virgem de Fátima, uma fonte importante para conter a disseminação do comunismo”, escreve Zimdars-Swartz.

A história do fenômeno pernambucano, tal como narrada em Eu Sou a Graça, parece saída do roteiro de algum filme perdido do Cinema Novo: as videntes são duas meninas adolescentes, uma branca e uma negra; o padre que as defende dos céticos e da hierarquia eclesiástica truculenta. José Kehrle, é um imigrante alemão e o confessor favorito de Lampião; a mãe de uma das meninas dá à luz e depois perde o filho recém-nascido, ainda de poucos dias, durante o pânico e o caos causados por um assalto de cangaceiros à região em que vivia a família. De fato, a primeira aparição ocorre quando uma das meninas questiona, após a morte trágica do bebê, quem poderá protegê-las de Lampião, pergunta retórica prontamente respondida pelo surgimento da imagem luminosa de Maria.

Exceto pelos detalhes de cor local, no entanto, as ocorrências no Sítio Guarda, em Pernambuco, em tudo seguem a estrutura apontada por Zimdars-Swartz para o “novo tipo” de aparição mariana inaugurado em La Salette, na França, nos anos 1840, que depois se consolidaria em Lourdes e Fátima e que seria seguido, como uma espécie de gabarito, por inúmeros outros eventos ao  longo da segunda metade do século XIX e por todo o século XX.

Nesse gabarito, a figura de Maria manifesta-se como uma aparição (isto é, como um objeto concreto, integrado ao ambiente) e não como uma visão, algo que surge num estado alterado de consciência, num êxtase místico ou vem num sonho; os principais videntes são crianças ou adolescentes, preferencialmente do sexo feminino (e não padres, monges, santos); a aparição se dá num espaço aberto, não numa cela, quarto, dentro de uma igreja, num claustro; o fenômeno é serial (as aparições se repetem ao longo de vários dias); e é público, no sentido de que, à medida que os episódios se repetem, mais e mais pessoas se juntam em torno dos videntes e, por meio deles, tomam conhecimento das mensagens da santa.

Aqui, aliás, há um detalhe importante, que às vezes é minimizado: em todos os relatos-padrão de aparições marianas, de La Salette a Fátima (e em Pernambuco, também), só quem vê e ouve a figura sobrenatural são os videntes eleitos — geralmente crianças e, quase sempre, liderados por alguém do sexo feminino. As multidões ao redor apenas olham para o vazio e esperam que os escolhidos narrem o que a imagem faz e reportem o que diz. Sob esse um ponto de vista, acreditar numa aparição equivale a acreditar no que uma criança relata a respeito dos gestos e palavras de uma amiga imaginária.

Às vezes, alguma evidência auxiliar é citada, por exemplo curas ou profecias, mas quase nunca são tão sólidas quanto os apologistas querem fazer crer. As mais impressionantes das profecias de Fátima (por exemplo, a de que a Rússia viria a ser uma ameaça à paz mundial) embora supostamente tenham sido feitas em 1917, só foram publicadas décadas depois, quando os eventos “previstos” já tinham se consumado.

Perguntas, perguntas

No caso do Sítio Guarda, em Eu Sou a Graça são apresentadas transcrições de conversas em que as meninas videntes reproduzem, em português, as respostas dadas pela aparição a questões formuladas, por padres, em latim, alemão e italiano. O autor parece convencido de que essas respostas, consideradas por ele geralmente corretas, permitem excluir, por completo, a possibilidade de fraude.

Há várias coisas a ponderar aí: a primeira é que “verdade/fraude” representa uma falsa dicotomia. As aparições podem ao mesmo tempo não serem “verdadeiras” (isto é, não serem de fato comunicações factuais do fantasma de uma jovem judia de 2000 anos que teve um filho chamado Jesus) e também não serem “fraudes” (falsidades deliberadas). Calvin, afinal, não está exatamente mentindo quando descreve o comportamento de Haroldo para os pais.

A segunda é que há bastante latitude para questionar o tal caráter “correto” das respostas. Além de algumas delas serem objetivamente erradas, há vários momentos em que a aparição simplesmente parece distribuir “sins”, “nãos”, silêncios enigmáticos e gestos ambíguos ao acaso, o que requer alguma caridade interpretativa (e um certo contorcionismo teológico) para que se possa considerá-las “corretas”.

Não custa nada lembrar que as pessoas que consultam cartomantes e astrólogos, por exemplo, consistentemente declaram ter recebido muito mais informação objetiva e precisa do que o “sensitivo” forneceu de verdade. A mente do ouvinte, de modo muitas vezes inconsciente, preenche lacunas, atribui significados, condensa tergiversações e, o que é crucial, reinterpreta erros e ambiguidades como acertos.

Um terceiro ponto é que é muito comum, nesse tipo de relato, subestimar-se a inteligência das videntes. É compreensível: quando se pretende demonstrar que alguém fala por inspiração divina ou sobrenatural, convém reduzir ao máximo as expectativas quanto a uma possível inspiração mundana ou natural.

Mas, vivendo num meio católico onde havia vários padres imigrantes e em que as missas eram sempre rezadas em latim, não seria surpreendente que Maria da Luz, a mais articulada das duas videntes, tivesse pego uma compreensão, ainda que intuitiva, vaga e fragmentária, de alguns vocábulos e expressões estrangeiros. Somando-se a isso o que certamente denunciavam a linguagem corporal e a expressão facial dos padres interrogadores, e o caráter aleatório de muitas das respostas, os supostos diálogos poliglotas tornam-se bem menos “inexplicáveis”.

No geral, as respostas, tal como filtradas pelos clérigos, parecem ratificar o que o padre José Kehrle e seu companheiro na defesa da crença na aparição, o frade Estêvão Roettger, esperavam ouvir, incluindo a confirmação, pela “santa”, do caráter milagroso dos fenômenos em torno da mística alemã Therese Neumann. Outros padres e o bispo local, no entanto, não foram persuadidos.

Pânico vermelho

Um ponto levantado por Sandra L. Zimdars-Swartz em seu estudo é o de que aparições marianas tendem a crescer (no sentido de se tornarem foco de devoção ampla, para além da comunidade original dos videntes, ou mesmo ganhar importância internacional)  quando algum grupo político vê a oportunidade de “sequestrá-las” para sua causa. Aparições podem ser motores eficientes para converter energia religiosa em torque político.

Em seu livro, a antropóloga cita, entre outros casos, o do entusiasmo inicial dos monarquistas franceses pelos videntes de La Salette, ou o contexto de Guerra Fria em que a mensagem de Fátima, com seus “segredos” de tom apocalíptico, ganhou importância e reverberação. Zimdars-Swartz dá ainda especial destaque ao caso de uma aparição ocorrida na Itália, a de San Damiano, na época do Concílio Vaticano II, que se tornou foco de devoção de grupos de católicos ultraconservadores, principalmente de fiéis ligados ao arcebispo franco-suíço (cismático, depois excomungado) Marcel Lefebvre. Talvez não por coincidência, a aparição de San Damiano foi considerada indigna de fé pela diocese local.

O que nos traz à mensagem imputada à aparição pernambucana: ela está carregada de uma preocupação quase obsessiva com o comunismo. “O comunismo virá ao Brasil?”,  pergunta o padre Kehrle. “Sim”, responde a santa, por intermédio das meninas, ominosamente: no contexto histórico-cultural das aparições, essa era uma péssima notícia. E não só virá, acrescenta ela, como virá com derramamento de sangue e perseguição aos católicos. Mas, no fim, o Brasil será salvo, promete a aparição, pela força de orações penitências.

Medo do “comunismo ateu” estava bem dentro do zeitgeist católico latino-americano da época: não só o Brasil vivera a Intentona de 1935 como, na Espanha da Guerra Civil, a Igreja Católica se via como vítima de uma perseguição anticlerical por parte do governo republicano, apoiado pelos socialistas e pela União Soviética. Desse modo, a aparição estava ligada às preocupações da ala mais conservadora do catolicismo do Brasil de seu tempo. Questão: ela está ligada às preocupações dos católicos conservadores do Brasil do nosso tempo? Em outras palavras, por que o interesse nesse episódio obscuro, e já quase esquecido, da história da religiosidade popular vem sendo retomado nos últimos anos?

A polarização político-ideológica do país, com apelo por uma politização cada vez mais radicalizada do conservadorismo cristão — seja de matriz católica ou protestante –, pode oferecer a resposta. O autor de Eu Sou a Graça chega a apresentar uma lista dos partidos políticos brasileiros atuais que considera de inspiração comunista e, portanto, indignos do voto católico.

O que sugiro não é uma teoria da conspiração, mas apenas a observação do que pode muito bem ser um movimento natural na tectônica das ideias: a direita católica, cada vez mais vibrante e articulada, encontrando um estandarte com o qual poderá atrair um número de fiéis mais ligados a fenômenos sobrenaturais ou carismáticos, normalmente menos interessados em política. Se Fátima foi uma arma contra o comunismo na Europa, talvez o Sítio Guarda venha a ser uma contra o esquerdismo brasileiro.

Eu Sou a Graça menciona a existência, anos atrás, de planos para a construção de um complexo turístico no Sítio Guarda, e que só não prosperaram porque a área, hoje, encontra-se incorporada a território indígena. Mas, do modo como sopram os ventos no governo federal, este talvez seja só um embaraço temporário. Será interessante observar a movimentação do lobby pelo reconhecimento eclesiástico das aparições de 1936, ver se a causa avança ou não e por quem será abraçada. Por fim, ouvir qual será o discurso se — quando? — a narrativa da aparição de 1936 chegar mesmo ao mainstream.

“Diretas Já” só vale com “Constituinte Já”

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O que é pior do que um país acéfalo em que todas as autoridades estão envolvidas em crimes? Um país acéfalo em que todas as autoridades estão envolvidas em crimes e onde não há regras a serem respeitadas.

Dito isso, há algo que deve ser claro e incontestável, seja você daqueles que é “torcedor” de um grupo de políticos ou não: a Constituição precisa ser rigorosamente cumprida. Se a Constituição não é boa o suficiente, então antes ela precisa ser mudada, segundo suas próprias regras de alteração para, aí então, a Constituição alterada (ou a nova Constituição), ser também cumprida. Fora disso só há caos e barbárie.

E só há caos e barbárie porque a Constituição é a Lei Fundamental, o alicerce de todas as demais leis de um país. Arrebente-se tal alicerce e nenhuma outra norma legal mais será válida, desde a norma que proíbe um político de roubar até a que nos proíbe de ultrapassar o sinal vermelho. Isso é elementar em toda teoria jurídica sobre o Estado Democrático de Direito.

Dito isso, há muitos os que neste momento irão para as ruas pedir pela Diretas Já. Isso é perfeitamente compreensível. Afinal, a atual Constituição determina que, se os cargos de Presidente e Vice-Presidente eleito estiverem ambos vagos após a segunda metade do mandato presidencial, o país deve ser governado por alguém eleito indiretamente pelo Congresso Nacional (art. 81, § 1º). E todos sabemos que o Congresso Nacional é mais sujo do que pau de galinheiro.

Ou seja, o problema é que a Constituição não prevê, nesses casos, a eleição direta de um novo Presidente – de forma que fazer eleição direta para um novo Presidente seria rasgar a Constituição neste momento.

Mas, claro, há quem diga que isso seria possível se, antes, fosse aprovada uma PEC (Projeto de Emenda à Constituição), alterando a Constituição a fim de que ela determinasse eleições diretas para o Chefe do Executivo imediatamente.

O problema é que há algo chamado Princípio da Anterioridade Eleitoral.

O Princípio da Anualidade Eleitoral está previsto no art. 16 da Constituição, e determina que TODA alteração no processo eleitoral (inclusive se feita por PEC) só deve entrar em vigor um ano após a sua publicação. Isso tem por fim impedir que se criem “normas” de ocasião que rompam com toda a lógica eleitoral e, surpreendendo a todos os participantes do processo eleitoral, crie normas de exceção que possam romper com a previsibilidade exigida pelo Estado Democrático de Direito.

“Mas essa regra que estabelece o Princípio da Anualidade na Constituição também pode ser alterada por PEC, e depois podemos, aí sim, determinar também as diretas já”. Infelizmente não podemos. O STF já reconheceu, acolhendo o entendimento da maioria da comunidade jurídica, que o art. 16 da Constituição, que estabelece o Princípio da Anualidade, é cláusula pétrea, pois determina um direito fundamental a não haver trapaça ou mudanças de regra de última hora no processo eleitoral (RE 633.703). E cláusula pétrea não pode ser alterada nem mesmo por PEC. Se for alterada, a Constituição foi rasgada e não serve para mais nada.

Em resumo, por mais que seja sedutora, a ideia de Diretas Já não pode ser admitida. Com PEC ou sem PEC (Emenda à Constituição), seria inconstitucional. O Princípio da Anualidade, que dispõe que uma norma (mesmo por PEC) que alterar o processo eleitoral só entrará em vigor após um ano, é cláusula pétrea reconhecida pelo STF. E cláusula pétrea NÃO pode ser alterada sob hipótese alguma.

Adotar uma medida inconstitucional agora, com ou sem PEC, seria arrebentar o pouco que resta da República: o Brasil estaria acéfalo, com a maior parte da classe política prestes a ir para a cadeia e, ainda por cima, sem regras claras a observar?

Mais ainda: se a gente pode rasgar a Constituição para fazer isso, o que diríamos se alguém resolvesse também rasgá-la para instaurar um regime autoritário? Na verdade, você sequer poderia reclamar se alguém ultrapassasse o sinal vermelho.

Que se cumpra a Constituição, portanto, por mais que essa seja uma pílula muito amarga nesta hora.

Mas, claro, haveria uma alternativa válida, uma forma de termos Diretas Já sem que se rompa com o Estado Democrático de Direito (representado pela Constituição): uma PEC que determinasse a elaboração de uma nova Constituição, sendo a primeira medida do poder constituinte original (termo técnico para definir quem irá escrever a nova Constituição) determinar eleições imediatas para a Presidência da República. Ou seja, apenas gritando antes “Constituinte Já” é que se pode gritar “Diretas Já” sem que isso seja um rompimento profundo com todas as regras que regem a normalidade do Estado Democrático.

Porém, resta saber se haveria clima neste momento para uma profunda transformação de toda a ordem jurídica da nossa sociedade como essa, justo neste momento em que se acumulam operações policiais e outras operações (como a do BNDES) prometem revelar tantos outros crimes e criminosos que ainda não foram descobertos. Desconfio que isso apenas tocaria mais fogo neste país, e que só podemos falar em normalidade depois que todas as investigações e ações penais tiverem sido concluídas (afinal, podemos correr o risco de colocar no poder alguém envolvido em corrupção – e dessa vez sem reclamar, já que antes de colocá-lo no poder nós próprios também descumprimos a lei). Até lá, devemos observar a Constituição e demonstrar que temos autoridade para criticar os políticos corruptos pois, diferente deles, não violentamos as leis deste país.

A esquerda no Brasil e a janela de Overton

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Há um conceito interessante, desenvolvido nos anos 1990, chamado janela de Overton, cunhado para entender como acontecem transformações em sociedades democráticas. Essa janela designa o arco do que é politicamente aceitável em uma sociedade a cada dado momento. Nas duas bordas, estão as ideias ainda não totalmente aceitas, mas passíveis de entrar na janela através da ação política. Na medida em que você vai se afastando da janela em cada um dos lados, você vai chegando às ideias consideradas absurdas, inexequíveis ou extremistas. Aqui vai uma boa representação gráfica da janela de Overton:

A janela de Overton, claro, não é estática. As ideias consideradas aceitáveis vão mudando com o tempo e a localização da janela vai se movendo para a direita ou para a esquerda, conforme a ação política. Um exemplo recente é a campanha de Bernie Sanders, que moveu para a esquerda a janela do aceitável no tema da saúde: há uns quatro anos, o conceito de um sistema de saúde público e universal (o que chamamos em inglês de “single payer”) soava absurdo nos EUA, coisa de comunista perigoso. Depois da campanha de Bernie, a saúde universal e pública passou a ser ideia tranquilamente situada dentro da janela de Overton – está na ordem do dizível, já não é escândalo. E uma porcentagem crescente de americanos a apoia.

Um dos piores legados da esquerda dos últimos 15 anos no Brasil foi a prática de se adaptar à janela de Overton tal como ela existe, em vez de tentar movê-la. Esse conformismo se escondia atrás daquela famosa palavrinha, governabilidade. “Ah, não temos como fazer reforma agrária por causa da governabilidade”. “Não temos como fazer reforma tributária por causa da governabilidade” etc.

Um exemplo clássico de adaptação à janela e da recusa a tentar movê-la aconteceu no primeiro mês do governo Dilma. O então secretário nacional de drogas, Pedro Abramovay, deu uma entrevista a O Globo propondo penas alternativas para pequenos traficantes. Foi sumariamente demitido. A lógica subjacente à demissão era clara: “ah, a sociedade jamais vai aceitar que não encarceremos traficantes”.

Aonde estou indo com tudo isso? A esquerda hoje no Brasil não consegue mais empurrar essa janela para o seu lado, e isso vem desde muito antes do impeachment. Quem consegue mover a janela de Overton hoje entre nós é a direita. Tome o caso da Reforma da Previdência: imagino que todos ou quase todos aqui concordamos que a reforma proposta por Temer é péssima. Mas a única resposta da esquerda para ela é defender o status quo, deixar as coisas como estão. Mesma coisa com a CLT. Mesma coisa com qualquer outro tema. 15 anos chamando de utópicos e sonhadores todos os que ousavam propor algo fora da janela do aceitável deixaram a esquerda conservadora e bolorenta, sem ideias, limitada a esse paralisante “nenhum direito a menos.”

A última vez que a janela de Overton foi chacoalhada no Brasil, em direção libertária e emancipatória? Junho de 2013. Foi Junho que mostrou que essa janela é infinitamente móvel. É por isso que a cisão que realmente me importa no Brasil não é aquela que separa os que foram contra e os que foram a favor do impeachment. Essa cisão é muito pouco importante no frigir geral dos ovos. A cisão que importa mesmo se dá entre aqueles que estão e aqueles que não estão dispostos a defender e honrar a memória e o legado de Junho.

Estou convicto que o caminho que quero trilhar é por aí.

A arte cavalheiresca Jedi e a década do cérebro

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Assim como mitos clássicos são em parte reflexo dos valores e visão de mundo da Antiguidade, Star Wars é sintoma de uma cultura contemporânea confusa quanto ao papel causal desempenhado pela biologia em fenômenos psicológicos. Um Jedi nasce Jedi ou torna-se um? É a disciplina e treinamento que fabrica um Jedi, ou suas habilidades nascem com eles?

Supérfluas à primeira vista, essas questões estão começando a moldar o destino da continuação da saga nos cinemas e refletem a percepção popular sobre biologia e psicologia.

Na trilogia original de Star Wars, iniciada em 1977, havia duas “verdades tácitas”, ao menos até o lançamento da trilogia prequel que se iniciou em 1999. Ninguém pensava muito sobre isso, porque eram interpretações meio óbvias:

Verdade 1: A armadura de Darth Vader não é uma UTI móvel. Verdade 2: As roupas de Mestre Kenobi não são trajes típicos dos Jedi, mas roupas típicas de habitantes de Tatooine, um planeta desértico, lugar no qual buscava refúgio após a caça às bruxas promovida pela Império recém-erguido.

Isso pode soar estranho para você, que nasceu depois de Uma Nova Esperança (o primeiro longa metragem da série, em 1977, e quarto episódio da narrativa) e teve sua vida inundada por um universo expandido de outros filmes, prequels, quadrinhos e etc. Mas existe algo ainda mais controverso como legado dessa ampliação:

Verdade 3: Os Jedi são guerreiros devotados e disciplinados que dedicaram suas vidas a dominar mente e corpo para fluir com a Força, atingindo proezas marciais e sabedoria.

Numa virada histórica, na trilogia prequel, especialmente em A Ameaça Fantasma (quarto filme, lançado m 1999, e primeiro episódio na narrativa), toda disciplina monástica desses cavaleiros foi transformada em predisposição biológica ligada aos midi-chlorians. Os midi-chlorians foram apresentados na nova trilogia como formas de vida microscópicas que viveriam dentro das células de todos os seres vivos, sendo os responsáveis pela geração da Força nos corpos. Mais importante, eram os midi-chlorians que serviam de intermediários entre os Jedi e a Força.

Os Jedi seriam como mutantes sendo treinados na Mansão do Professor Charles Xavier: suas habilidades já existiam por uma dotação biológica. Consequentemente, se você não tem midi-chlorians suficientes, esqueça a Ordem Jedi, jovem padawan.

O ponto é que a narrativa da trilogia clássica não existiu por acaso. George Lucas parece ter criado os cavaleiros Jedi com base na mitologia oriental, mas a evocação tardia do argumento dos midi-chlorians parece eclipsar essa referência essencial para entender o espírito de Star Wars e sua mitologia envolvendo a Força.

Numa perspectiva ainda mais ampla, também não parece ter sido mera casualidade que essa virada biológica tenha acontecido na década de 90. Foi a chamada Década do Cérebro, início do mapeamento estrutural e funcional de comportamentos e variáveis psicológicas, através de imagens do cérebro.

Midi-chlorians e mapas de atividade cerebral são frutos de uma época: ambos são tentativas de dar corpo a fenômenos cuja linguagem cotidiana nos leva a supor que são essencialmente incorpóreos, até platônicos. Academicamente, essa é uma ruptura necessária com o cartesianismo que rege a compreensão popular da psicologia. O problema é que frequentemente o poder explicativo desse tipo de manobra é hipervalorizado e deturpado, principalmente pela cultura pop.

A arte cavalheiresca dos Jedi

“‘Um monge zen parece uma concentração
de energia sempre pronta para tudo’. (…)
Se você furar o vaso [com água], ela
escorrerá imediatamente — não vai
parar para pensar no assunto.”
Alan Watts – O que é zen?

Em Uma Nova Esperança, o público é apresentado aos confins de uma galáxia sem localização ou época claras. O tempo de Star Wars não é o tempo comum, mas o tempo dos mitos, cujos acontecimentos sempre ocorrem há éons atrás, o tempo antes do tempo. Talvez você não reconheça esse formato, pois o Ocidente tem se baseado na cultura judaico-cristã, que vê seus mitos como fatos históricos, ocorridos num tempo específico. Mas o formato do mito clássico ressoa profundamente na psiquê humana, ao mesmo tempo em que é seu reflexo.

Para além desse aspecto mitológico, George Lucas usou como base referências bem concretas.

Em Star Wars, presenciamos como pano de fundo um golpe imperial que depôs a República. Uma Ordem protegia essa estrutura republicana na galáxia com seus cavaleiros Jedi.

A vida desses guerreiros parece ter sido inteiramente retirada dos escritos de Eugen Herriguel, filósofo europeu que foi aluno de um mestre zen-budista e de kyudo. Seu testemunho narra a perplexidade perante a misteriosa simplicidade e perícia técnica de seu professor, que transformou o caminho do arco e flecha (do, caminho, e kyu, arco) também em caminho espiritual.

Esses Jedi não passam de “arqueiros zen”. Entender a história do zen no Japão e sua existência como herança da espiritualidade não-teísta chinesa parece ser o mesmo que refazer os caminhos da inspiração de George Lucas na composição da mitologia Jedi.

Fluir com o Dharma, com o Tao e com a Força

Inicialmente praticado na Índia, o budismo logo se alastrou pela Ásia. Chegando à China, recebeu denominação específica de budismo ch’an. Essa forma chinesa de budismo é uma amálgama muito bem digerida entre budismo dhyana, essencialmente indiano, e o taoísmo, tradicionalmente chinês. Aliás, dhyana, ch’an e zen significam a mesma coisa: meditação, meditativo.

Um dos ícones do budismo na China são os monges shaolin, confinados em templos, domando mente e corpo através de meditação e técnicas marciais. Eles são conhecidos por terem fundado o conjunto de técnicas conhecidas genericamente como wushu (apesar de os ocidentais as conhecerem sob a denominação errônea de kung fu). São monges budistas, pacifistas por definição, mas também guerreiros preparados para conter qualquer invasão aos seus templos, ou para se defenderem de assaltantes nas estradas — o que era muito comum há séculos atrás.

Na mesma linha, Marco Polo, série produzida pela Netflix, traz o chinês Hundred Eyes, sacerdote taoísta que empresta sua sabedoria e perícia marcial ao Império de Kublai Khan.

Monges shaolin.

A combinação entre budismo e taoísmo foi fértil, dadas as óbvias semelhanças. Enquanto na Índia a ideia dos yogues sempre foi cessar o movimento da “substância mental”, para os budistas a ideia sempre foi contemplar e aceitar seu fluxo como algo natural, mas ao mesmo tempo observar contemplativamente a vacuidade por trás desses movimentos. Se a água de um rio flui sem cessar, a essência do rio é apenas sua vacuidade, o espaço de potencialidade que promove o eterno fluxo das coisas. Essa é uma das conclusões do Dharma, os ensinamentos budistas, que casaram tão bem com o Tao.

O tipo de sabedoria e religiosidade que nós, ocidentais, conhecemos e compreendemos facilmente, tem a ver com a herança judaico-cristã e grega. Nessa visão ocidental, religião tem a ver com dogmas cosmológicos e crença em deuses milagreiros e julgamentos morais. É algo predominantemente cognitivo. A sabedoria seria uma amálgama entre essas crenças e uma capacidade de examinar racionalmente a vida, tanto exterior quanto interior – o que certamente é uma herança socrática. É cognição e lógica puras.

Kendo

Existem muitos elementos cognitivos nas religiões do Oriente, basta pensar nas discussões conceituais acaloradas de professores budistas. Mas o ponto é que no Extremo Oriente a religiosidade e as noções de sabedoria preservaram cada vez mais o caráter de pragmatismo dialético psicológico. São práticas contemplativas acima de tudo.

Caracterizar a expressão mitológica do Oriente é basicamente descrever o caminho Jedi, uma espécie de Jedi-do (Caminho Jedi, em japonês). Eles apenas parecem ter sido deslocados para outro cenário. Samurais praticavam o zen para aumentar a perícia no manejo de uma katana, enquanto os Jedi meditam para se tornarem unos com seus sabres-de-luz. São os mesmos fenômenos etiquetados com diferentes nomes.

Midi-chlorians insuficientes? Se manda, padawan.

Tao, Dharma ou Força: são caminhos abertos para quem quiser trilhar suas estradas. Algumas pessoas vão ter mais facilidade que outras, evidentemente.

Não era uma questão para as tradições milenares dar explicações causais em termos físicos, biológicos, para essas diferentes qualidades das pessoas. Talvez alguma explicação sobre hábitos (karma) que tornam x mais complicado para uma pessoa y, mas nunca algo como “a pessoa y tem maior talento porque tem a constituição biológica z que ajuda”.

Esse tipo de justificativa é mais comum talvez do século XX para cá. Isso parece ter se alastrado com a genética (que mapeia genes correlacionados com comportamentos e predisposições) e a neurociência (que mapeia a estrutura funcional de comportamentos e predisposições).

Antigamente, mestres budistas poderiam orientar o progresso da prática de um discípulo observando suas ações, sua postura, sua vida. Hoje, sabe-se que a prática meditativa modifica estruturalmente o cérebro, então a tendência é que as consequências de uma prática sejam cada vez mais verificadas através de avaliações biológicas e não através do comportamento.

Até certo ponto, isso não significa nada em termos de maior poder explicativo. Psicoterapia, tiro-ao-alvo, escrita e meditação: todas essas práticas modificam a estrutura neural. Taxistas ingleses apresentam um adensamento neuronal nas áreas cerebrais associadas ao raciocínio espacial. Isso é o efeito prolongado de qualquer prática, não um sinal de que tal prática tem poderes mágicos.

Na medida em que a mente não é uma substância pertencente a uma realidade, e o corpo, a outra, é trivial constatar que o que chamamos de mudança psicológica se traduza automaticamente em mudanças físicas no sistema nervoso. Qual seria a alternativa? A mente como uma gosma ectoplasmática alheia ao corpo físico?

Mas é compreensível a animação. Existe certo fetiche contemporâneo em ver um comportamento ou uma mudança de hábitos e dizer “olha só, é tudo por causa do cérebro”.

Midi-chlorians e correlatos neurais explicam melhor?

Yuval Harari, autor dos magníficos Sapiens e Homo Deus, mostra um insight sobre a causa da felicidade. Segundo ele, assim como Buda propôs, não são os eventos externos que causam a felicidade ou o sofrimento, mas o modo como reagimos a eles. Quando dizemos que chocolate é bom, na verdade estamos tomando como referência as sensações corporais que esse alimento causa. O corpo é a fonte das dicotomias que criamos, incluindo prazer e desprazer, felicidade e sofrimento.

Mas Harari usa essa argumentação para alegar que a causa da felicidade, portanto, é fisiológica. Seria válido afirmar que estou feliz porque existe muita serotonina e dopamina nas minhas sinapses. O poder causal seria puramente biológico.

Em entrevista, o escritor Daniel Galera fez críticas a esse tipo de mentalidade. Para ele, tudo tem sido reduzido a números, imagens e procedimentos. Transes religiosos não são nada mais que a ativação de determinadas partes cerebrais, o altruísmo não é nada mais do que um mecanismo produzido por genes egoístas selecionados ao longo da evolução por fazer seus portadores terem mais filhos.

“Toda experiência é reduzida a números, imagens e procedimentos. Transe religioso? Eis uma imagem de ressonância magnética do cérebro mostrando do que se trata. (…)” (Daniel Galera)

Não é tecnicamente correto dizer, entretanto, que necessariamente explicações biológicas reduzem fenômenos psicológicos.

Sendo filosoficamente mais rigoroso, existem vários tipos de redução. A experiência religiosa pode ser descrita em termos de uma esfera de análise mais básica que a psicológica, a neurobiologia. Ou que a experiência religiosa nada mais é que um evento neurobiológico, sendo a linguagem psicológica uma ilusão. A primeira explicação não retira o status de realidade da esfera psicológica, mas a segunda, sim. Críticos parecem inferir que só existe essa última forma de redução.

Essas são discussões conceituais muito próprias dos filósofos. Cientistas geralmente passam direto por esses dilemas, afirmando uma ou outra versão de reducionismo, tanto faz. Stephen Hawking e Neil Degrasse Tyson, por exemplo, divulgadores científicos pop, acham que a ciência ultrapassou a filosofia – como se ambas estivessem competindo por um osso. A cultura pop eleva a imprecisão conceitual a alturas acrofóbicas. Cientificamente, isso é muito prejudicial.

Sagan e De Grasse: divulgadores científicos pop parecem achar que ciência e filosofia são dois cães competindo pelo mesmo osso.

Frequentemente, pesquisas descobrem correlatos neurobiológicos para determinada emoção, cognição ou comportamento e é divulgada como se tivesse sido descoberta a explicação ou a causa para determinado fenômeno. É um erro cometido por cientistas, mas na maior parte das vezes, é culpa da mídia.

Todos esses casos parecem surgir como manifestações de um erro conceitual: a diferença entre explicação causal e explicação estrutural.

Não foi um hipocampo (área cerebral responsável pela memória e orientação espacial) privilegiado que causou o excepcional raciocínio espacial de um taxista inglês: foi seu treinamento sendo taxista que causou sua proficiência em ser taxista, o que é instanciado por um sistema nervoso – afinal, não somos fantasmas cartesianos encarnados.

Ora, é claro que se ele perdesse o hipocampo num acidente, sua orientação seria prejudicada gravemente, mas isso só confirma a condição de possibilidade fornecida pela estrutura. Atribuir uma relação causal seria como dizer que o que causa um soco é a mão. Isso soaria no mínimo estranho.

Da mesma forma, a felicidade não tem exatamente como causa uma série de hormônios que estrutural um funcionamento em relação ao seu meio interno e externo, que chamamos de felicidade. Hormônios e áreas cerebrais podem ser a estrutura que dão condição de existência para um fenômeno psicológico como a felicidade. São explicações estruturais, não causais. A causa poderia ser o treinamento budista, para enumerar uma possibilidade.

Esse é um terreno filosófico pantanoso.

Jedi: Treinamento ou loteria biológica?

A virada que ocorreu na trilogia prequel de Star Wars é um exemplo pop desse fetiche por explicações biológicas. Os Jedi passam de guerreiros espiritualizados e treinados para mutantes com quantidades anômalas organismos vivos que vivem em todas as células – os midi-chlorians, uma espécie de mitocôndria própria do universo Star Wars. A interação do organismo hospedeiro com esses micróbios habilita o organismo a uma conexão especial com a Força. O Jedi já nasce Jedi, ou no mínimo com algumas habilidades extraordinárias.

Seguindo a coerência das referências da saga, seria como afirmar que Sidharta Gautama se tornou o Buda porque nasceu com uma peculiaridade genética que proporcionava maior controle de suas sensações fisiológicas ou algo assim. Suas realizações seriam inacessíveis a qualquer um sob o manto estatístico de uma curva normal.

Os novos filmes, Rogue One e O Despertar da Força, parecem estar ensaiando a expansão da mitologia Jedi. No primeiro existe um sacerdote da Força que não recebeu treinamento Jedi, mas parece ter reflexos e confiança típicos de um. No segundo, a protagonista vence um espadachim da Ordem dos Ren pelo simples fato de ser predisposta a sentir a Força, sem ter treinamento adequado para usar sabres.

Aparentemente, a narrativa das pessoas especiais cujo treinamento só aprimora e amplia suas habilidades extraordinárias já existentes vai continuar, mesmo que o termo midi-chlorian nunca mais seja dito.

Se somente esses mutantes (aka Jedi) conseguem fluir com a Força, qual a relevância de haver templos de adoração da Força, que são frequentados também por não-Jedi? Seria como budistas que assumem que só mutantes podem obter proveito da meditação.

De qualquer forma, mesmo sem uma menção específica aos midi-chlorians, a ideia parece ter deixado sua marca. No entanto, o que é menos pior, o legado das referências orientais pareceu ser mantido também, muito embora a mistura dos dois elementos tenha tirado um pouco do brilho da analogia sensível desses monges guerreiros – shaolin, samurais, que seja.

Graças à Década do Cérebro e ao otimismo fetichista que a acompanhou, explicações neurocientíficas foram infladas em seu poder explicativo às custas de uma distorção filosófica (estrutura erroneamente identificada como causa). A cultura pop é em parte reflexo da moda intelectual, enquanto a cultura pop é um liquidificador que tritura intelecto e banalidade cotidiana, produzindo suas próprias quimeras. Star Wars, para o bem ou para o mal, é apenas um dos sintomas do funcionamento desse sistema.

O segredo de Elon Musk, parte 1

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[Nota do editor: aqui começa a série de textos de Tim Urban sobre a forma como Elon Musk pensa. Gostaríamos de publicar e traduzir tudo de uma só vez, mas como Tim é verborrágico e textos como esse têm quase 90 páginas, preferimos ir publicando aos poucos ao invés de dar um grande e enorme texto aos leitores de uma só vez. Dessa vez vamos tentar publicar uma parte do texto por semana, toda segunda-feira. Se quiser juntar-se nós na tarefa de traduzir e revisar os textos do Tim Urban, entre em contato conosco, toda ajuda será bem-vinda!]

Qualquer um que tenha lido meus textos sobre Musk está ciente de que não apenas mergulhei nas coisas que ele tem feito: bebi uma grande taça da síntese de seu pensamento nesse processo. Estou realmente envolvido com essa história toda.

Acho que isso é legal, certo? O cara é um gigante industrial revolucionário nos EUA em uma época e que já não deveria haver gigantes industriais revolucionários, impulsionando profundas transformações em grandes e tradicionas indústrias que não deveriam mais ser objeto de qualquer transformação profunda. Após emergir da grande festa das empresas pontocom da década de 1990 com 180 milhões de dólares, ao invés de sentar em sua cadeira de grande investido escutando propostas de jovens investidores ele decidiu começar iniciar uma briga com um grupo de lutadores de sumô de 200 quilos: a indústria automobilística, a indústria petrolífera, a indústria aeroespacial, o complexo industrial-militar e as empresa de energia elétrica – e ele pode realmente estar vencendo. E tudo isso, pelo que parece, com o propósito de dar à nossa espécie um futuro melhor.

Mas alguém ser tão excepcionalmente ousado não é ainda razão para merecer texto que somam mais de noventa mil palavras de um autor que se propôs a escrever texto sobre uma ampla gama de assuntos.

Durante o primeiro texto sobre Musk e seus projetos, eu estabeleci dois objetivos:

1) Entender porque Musk faz o que ele faz.

2) Entender porque Musk é capaz de fazer o que ele faz.

Até agora eu gastei a maior parte do tempo no objetivo 1, mas o que realmente o que tem me intrigado a medida em que penso sobre isso é o objetivo 2. Sou fascinado por aquelas raras personalidades na história humana que conseguem mudar dramaticamente o mundo durante sua breve estadia aqui a Terra, e sempre gostei de estudá-las e ler suas biografias. Essas pessoas sabem algo que não sabemos, e podemos aprender coisas valiosas com elas. Ter acesso a Elon Musk deu-me uma chance única de colocar as mãos em uma dessas pessoas e examiná-la de perto.

Se fosse apenas a riqueza, a inteligência, a ambição ou as boas intenções de Musk que o fizessem alguém tão capaz, então haveria muitos mais Elon Musks por aí. Então é alguma coisa a mais. E, para mim, essa série de textos tornou-se uma missão para descobrir o que é.

A boa notícia é que, após um bom tempo pensando e lendo a seu respeito, falando com ele e conversando com membros de sua equipe, eu descobri o que é. O que por algum tempo era um conjunto desorganizado de fatos, observações e informações começou a tomar a forma de um tema: um tratado sobre aquilo que Musk compartilha com a maioria dos personagens mais dinâmicos da história humana e que os distinguem de quase todo o resto da humanidade.

A medida em que trabalhei nos textos sobre a Tesla, esse conceito emergiu, e tornou-se claro para mim que essa série precisava e uma pausa para mergulharmos profundamente naquilo que Musk e poucas outras pessoas tem e que as fazem tão excepcionais.O que me deixou empolgado é que se trata de uma coisa acessível a todos nós e que está bem diante de nossos olhos – nós só não conseguimos percebê-la e nos conscientizar dela. Escrever e pensar sobre isso durante todo esse tempo realmente afetou a forma como eu penso a respeito da minha vida, meu futuro e as escolhas que faço. E vou dar o meu melhor neste texto para explicar o que é.


Dois tipos de Geologia

Em 1681, o teólogo inglês Thomas Burnet publicou sua obra Sagrada Teoria da Terra, na qual ele explica como a geologia funcionava. O que aconteceu é que, há uns seis mil anos atrás, a Terra formou-se como uma esfera perfeita com uma superfície habitável e um interior cheio de água. Mas aí, quando a superfície da Terra começou a ficar mais seca, rachaduras foram se fomando, o que liberou a água subterrânea. O resultado foi o Dilúvio descrito na Bíblia, e Noé teve que lidar com um monte de problemas por causa disso. Quando as coisas se acalmaram, a Terra já não era uma esfera perfeita – o grande dilúvio havia distorcido sua superfície, criando montanhas, vales e cavernas, e o subterrâneo ficou cheio de fósseis das vítimas da inundação.

E bingo, Burnet havia matado a charada. O grande enigma da teologia fundamental havia sido até então reconciliar a grande quantidade de características da Terra que pareciam muito antigas com a pouca idade que o planeta tinha segundo o relato bíblico. Para teólogos da época, era a sua versão da teoria geral da relatividade versus a mecânica quântica, e Burnet surgiu com uma respeitosa teoria das cordas que unificava tudo sob um só teto.

E não foi apenas Burnet. Houve tantas teorias que tentavam reconciliar a geologia terrestre com os versos da Bíblia que hoje elas garantem uma página da Wikipedia com mais de quinze mil palavras para tratar da “Geologia do Dilúvio”.

Mais ou menos na mesma época, outro grupo de pensadores começou a enfrentar seus próprios enigmas geológicos: os cietistas.

Para os teólogos, as regras do jogo eram “Fato: a Terra começou há seis mil anos atrás e em algum momento houve um grande dilúvio”, e a investigação de seu enigma ocorria dentro desse contexto limitado. Mas os cientistas começaram seu jogo sem nenhuma regra, o tabuleiro era um grande espaço em branco no qual qualquer observação ou medição que encontrassem seria bem-vinda.

Nos trezentos anos seguintes, os cientistas elaboraram várias teorias, equando novas tecnologias permitiam novos tipos de medições, as teorias antigas eram descartadas e substituídas por versões atualizadas. A comunidade científica continuou a surpreender-se a medida em que a idade da Terra foi se revelando cada vez maior. Em 1907 houve um grande avanço quando o cientista norte-americano Bertram Boltwood apresentou a técnica pioneira de calcular a idade das rochas através da datação radiométrica, que localizava nas rochas elementos com um nível conhecido de decaimento radioativo.

A datação radiométrica situou a história da Terra em bilhões de anos atrás, o que possibilitou novos avanços na ciência com a teoria da Deriva Continental, a qual por sua vez conduziu à teoria das Placas Tectônicas. O cientistas estavam empolgados.

Enquanto isso os geólogos do Grande Dilúvio não tinham nada disso. Para eles, qualquer conclusão da comunidade científica era furada porque eles estavam desobedecendo as regras do jogo. A Terra oficialmente tinha menos de seis mil anos de idade, então se a medição radiométrica revelava algo diferente, tratava-se de uma técnica falha e ponto final.

Mas a evidência científica tornou-se cada vez mais convincente, e a medida em que o tempo passava mais e mais geólogos do Grande Dilúvio jogavam a toalha e aceitavam o ponto-de-vista dos cientistas, pois era possível que suas regras do jogo é que estivessem erradas.

Alguns, porém, continuaram firmes. Regras são regras, e não importa quantas pessoas concordam que a Terra tenha bilhões de anos: no fundo é só uma grande conspiração.

Ainda hoje há muitos geólogos da inundação defendendo sua posição. Recentemente, um autor chamado Tom Vail escreveu um livro chamado Grand Canyon: A Different View, na qual ele expõe que:

“Ao contrário daquilo que é amplamente considerado verdade, a datação radioativa não prova que as rochas do Grand Canyon têm milhões deanos. A grande maioria das camadas sedimentares do Grand Canyon foram depositadas como o resultado do dilúvio global que ocorreu como resultado do Pecado Original que ocorreu no Jardim do Éden.”


 

Se fizéssemos uma pesquisa entre meus leitores, acredito que a esmagadora maioria afirmaria que está do lado dos cientistas, e não dos geólogos do dilúvio. Isso faz sentido. Religiosas ou não, a maioria das pessoas que leem meus textos estão bem informadas e familiarizadas com evidências e precisão científica. Sou lembrado disso sempre que cometo um erro em um dos meus texto.

Seja qual for a importância da fé no reino espiritual, a maioria de nós concorda que quando se trata de procurar respostas sobre a idade da Terra, a história da nossa espécie, as causas de um relâmpago ou qualquer fenômeno físico do universo, lógica e informação são ferramentas mais eficientes do que fé e livros religiosos.

Mas, apesar disso, após pensar um bocado sobre isso, cheguei a uma conclusão desagradável:

Quando se trata da forma como pensamos, da forma como tomamos decisões e da forma como levamo nossas vidas, somos muito mais parecidos com os geólogos do dilúvio do que com cientistas.

E qual o segredo do Elon Musk? Ele pensa como um cientista em todas as situações.

HARDWARE E SOFTWARE

A primeira pista para o modo como Musk pensa é a forma super esquisita como ele fala. Por exemplo:

– Criança humana: “Tenho medo do escuro porque é quando todas as coisas que dão medo vem para me pegar e eu não vou ser capaz de perceber elas chegando.”

Criança Elon Musk: “Quando eu era criança, eu tinha muito medo do escuro. Mas então passei a entender que escuridão significa apenas a ausência de fótons com comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. E então pensei “bom, é realmente idiota ter medo da ausência de fótons”. E depois disso deixei de ter medo do escuro”.

Ou:

– Pai humano: “Eu gostaria de trabalhar menos porque meus filhos estão começando a crescer.”

– Pai Elon Musk: “Estou tentando diminuir o ritmo, principalmente porque os trigêmeos estão começando a ganhar consciência. Eles quase tem dois anos.”

Ou:

Humano solteiro: “Eu gostaria de ter uma namorada e não quero estar tão ocupado com meu trabalho que não tenha tempo para ter encontros.”

Elon Musk solteiro: “Eu gostaria de alocar mais tempo para encontros, porém. Eu preciso encontrar uma namorada. É por isso que preciso arranjar só um pouco mais de tempo. Eu acho que talvez trabalhando dez horas por cinco dias na semana. Quanto uma mulher precisa em uma semana? Talvez dez horas? Isso é o mínimo? Eu não sei.”

Chamo isso de PapoMusk. PapoMusk é uma linguagem que descreve os aspectos cotidianos da vida comum exatamente como eles realmente, literalmente, são.

Há muitas situações técnicas em que todos concordamos que o PapoMusk faz muito mais sentido do que nossa linguagem humana normal:

Mas o que faz Musk um sujeito esquisito é que ele pensa sobre a maioria das coisas usando PapoMusk, incluindo muitas áreas nas quais você usualmente não espera encontrar esse tipo de linguagem. Como quando eu lhe perguntei se tinha medo da morte, e ele respondeu que ter filhos o fazia sentir-se mais confortável diante da morte porque “crianças são meio que uma parte de você. Ao menos são metade de você. Eles são metade de você no nível do hardware, e dependendo de quanto tempo você passa com elas, elas são também metade de você no nível do software”.

Quando você olha para crianças, você vê pessoas pequenas, bobinhas e fofas. Quando Musk olha para seus cinco filhos, ele vê cinco de seus computadores favoritos. Quando ele olha para você, ele vê um computador. E quando ele olha no espelho, ele vê um computador: o computador dele. Não é que Musk afirme que seres humanos são apenas computadores – é que ele vê as pessoas como computadores acima de tudo mais que elas possam ser.

E no nível mais literal, Musk está certo sobre seres humanos serem computadores. Em sua definição mais simples, computador é um objeto que armazena e processa informação – algo que o cérebro com certeza faz.

E se por um lado isso não é a forma mais poética de pensar sobre nossas mentes, comecei a acreditar que essa é uma das áreas da vida em que o PapoMusk pode nos servir muito bem – pois pensar no cérebro como um computador força você a considerar a distinção entre nosso hardware e nosso software, uma distinção que frequentemente falhamos em reconhecer.

Para um computador, hardware é definido como “os mecanismos, circuitos e outros componentes físicos”. Então, para um ser humano, isso é o cérebro físico com que ele nasce e todas as suas habilidades que determinam sua inteligência, seus talentos inatos e outras qualidades e deficiências.

O software de um computador é definido como “os programas e outras informações operacionais usadas pelo computador”. Para um ser humano, é as coisas que ele sabe e a forma como pensa – seu sistema de crenças, seus padrões de pensamento e métodos de argumentação. A vida é um fluxo de entrada de informações de todo o tipo que entram no nosso cérebro através dos sentidos, e é o software que filtra, avalia, processa e organiza esse input, finalmente usando-o para gerar um output: a tomada de uma decisão.

O hardware é a bola de argila que nos é entregue quando nascemos. E, claro, nem toda argila é igual – cada cérebro começa como uma combinação única de forças e fraquezas em uma ampla gama de processos e capacidades.

Mas é o software que determina que tipo de ferramenta moldaremos a partir daquela bola de argila.

Quando as pessoas pensam no que faz alguém como Elon Musk tão eficiente no que se propõe a fazer, elas frequentemente se focam no hardware – e o hardware de Musk tem alguns aspectos impressionantes. Mas quanto mais eu aprendo sobre Musk e outras pessoas que parecem ter algum poder sobre-humano (seja Steve Jobs, Albert Einstein, Henry Ford, Genghis Khan, Marie Curie, John Lennon, Ayn Rand ou Louis C.K.) mais me convenço de que é seu software, e não sua inteligência ou talentos adquiridos de nascença, que os faz tão únicos e tão eficientes no que se propõe a fazer.

Então vamos falar sobre software, começando com o do Musk. A medida em que escrevi os outros textos sobre os projetos de Musk, eu analisava tudo o que aprendia sobre ele (as coisas que dizia, as decisões que tomava, as missões que ele assumia e como as enfrentava), pegando pistas de como seu software subjacente funciona.

Eventualmente, as pistas se acumularam e a forma do software começou a se revelar. E a seguir vou explicar como esse software é.

[Na próxima segunda, a segunda parte deste texto, em que Tim Urban tentará explicar como a mente de Elon Musk funciona e o que ela tem de tão peculiar]

Guia básico sobre a construção de sentido

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Escrevi o texto a seguir, onde sintetizo os principais conceitos da semiótica de Charles Sanders Peirce, em 2007. Como psicólogo, cansei de ouvir e ler professores e colegas falando sobre sua filosofia sem o menor conhecimento de causa, me incomodando esse uso: Peirce tornou-se um coringa intelectual, ao qual podemos nos remeter quando se quer sustentar uma ideia hermética, já que quase ninguém se deu ao trabalho de lê-lo.

Não que eu seja um especialista na obra de Peirce, mas acredito que esse resumo possa ser um guia básico sobre a construção de sentido para o autor. Para behavioristas radicais, serve ainda para conhecerem outra faceta do pai do pai do pragmatismo, e perceberem como seu pragmatismo jamais chegou perto de blindá-lo do que chamamos de mentalismos.

A teoria do sentido

O que entendemos por conceito é, para Peirce, uma parte da teoria do sentido. E a teoria do sentido, por sua vez, procura estudar a seguinte questão: como é possível compreendermos algo, comunicarmos algo e até mesmo construirmos ideias?

A semiologia de Saussure e Hjelmslev dizia que a teoria do sentido deveria ser estudada pela semiologia, a área do conhecimento humano dedicada a estudar os sistemas de significação desenvolvidos pela sociedade, de maneira pura, ou seja, sem “contaminações” de outras áreas como Filosofia e Sociologia. A semiótica de Peirce, porém, abraça as demais áreas do conhecimento e afirma que a teoria do sentido só pode ser concebida num corpo filosófico maior.

Não foi em vão que Peirce nunca finalizou sua obra. As elaborações de Peirce sobre essa questão são muitas, e virtualmente impossíveis de serem condensadas aqui. Para cada conceito elaborado e cada neologismo criado, havia uma formulação teórica – que, por sua vez, culminava em uma análise de cada um dos termos de cada uma destas elaborações, tudo a fim de compreender a formulação teórica melhor. Assim sendo, seria improdutivo discorrer sobre cada aspecto e cada desdobramento e conceituação de sua teoria do sentido, de modo que iremos focar em sintetizar apenas o que julgamos vital para nossa síntese.

Peirce construiu, como algo indissociável de sua investigação semiótica, seu próprio conceito de psique, de mente, e assim analisou as atividades humanas. Quando Peirce fala de psique, ele remete à palavra grega psyche, que é um termo que representa o princípio da vida nos seres viventes. A psíquica, portanto, seria a ciência preocupada com os fenômenos mentais, ou com as leis, manifestações e produtos da mente. Mente, por sua vez, nada mais é do que a semiose, ou processo de formação de significações.

Peirce acreditava que a semiose era uma manifestação da tendência humana de buscar a verdade. Ele diz que “verdade” é uma atividade (dirigida para um objetivo) capaz de permitir a passagem de um estado de insatisfação para um estado de satisfação, sendo este o motor de nosso comportamento. A busca pela verdade se dá através da lógica, mais especificamente através de dois tipos de lógica: a logica utens, ou lógica-em-uso, que é a lógica do senso comum, que permite a satisfação das necessidades básicas do ser humano por uma observação não-crítica e intuitiva; e a logica docens, que é a lógica que pode ser ensinada, que constitui um método teoricamente desenvolvido e justificado na busca pela verdade. A partir disso, Peirce reconheceu que Lógica (docens e enquanto disciplina da Filosofia) era apenas outro nome para Semiótica.

A formação de conceito na teoria do sentido peirciano é indissociável da ideia de signo. Vale ressaltar que o modelo de construção de signo peirciano não se limita ao ser humano, mas acredita valer para formas de vida primitiva ou até mecânicas (o que hoje entendemos por inteligência artificial).

Um signo (ou representamen) para Peirce é aquilo que, sob certo aspecto, representa alguma coisa para alguém. Dirigindo-se a essa pessoa, esse primeiro signo criará na mente (ou semiose) dessa pessoa um signo equivalente a si mesmo ou, eventualmente, um signo mais desenvolvido. Este segundo signo criado na mente do receptor recebe a designação de interpretante (que não é o intérprete!), e a coisa representada recebe o nome de objeto. Signo, Interpretante e Objeto constituem o que é chamado de representação triádica do signo.

Cada um dos elementos dessa tríade tem suas próprias subdivisões e conceituações na obra de Peirce. O signo, por exemplo, estaria envolvido em mais dez tricotomias, havendo ainda sessenta e seis (!) classes diferentes de signos. Mas, conforme antecipado, não seria prudente (nem útil) dissertar sobre cada um desses elementos da teoria de Peirce. Assim, focaremos na compreensão do Interpretante (ou referência) que é por onde passa sua compreensão sobre a formação de conceitos, já que nosso objeto de estudo não é o signo (o estimulo em si) ou o objeto (o referente, aquilo ao qual o signo realmente diz respeito), mas justamente a formação do conceito pelo indivíduo.

O Interpretante comporta uma divisão tripartite: o Interpretante Imediato corresponde ao Sentido (palavra à qual Peirce continuou preferindo o termo antigo Acepção), o Interpretante Dinâmico equivale ao Significado e o Interpretante Final, à Significação.

Sentido é o efeito total que o signo foi calculado para produzir e que ele produz imediatamente na mente, sem qualquer reflexão prévia; é a Interpretabilidade peculiar ao signo, antes de qualquer intérprete. Significado é o efeito direto realmente produzido no intérprete pelo signo; é aquilo que é concretamente experimentado em cada ato de interpretação, dependendo, portanto, do intérprete e da condição do ato e sendo diferente de outra interpretação. Significação é o efeito produzido pelo signo sobre o intérprete em condições que permitissem ao signo exercitar seu efeito total: é o resultado interpretativo a que todo e qualquer intérprete está destinado a chegar, se o signo receber a suficiente consideração.

Podemos entender, assim, que o Sentido ou Interpretante Imediato é uma abstração ou uma possibilidade (o sentido atribuído a uma palavra em geral é registrado no dicionário, ex. “cão”); o Significado ou Interpretante Dinâmico é um evento real, único (o significado de “cão” determinado pelo objeto cão aqui, nesta rua escura) e a Significação ou Interpretante Final é aquilo para o que tende o evento real (diante deste cão, nesta rua escura, a significação deste encontro tende a representar para mim esta ou aquela imagem de natureza psicológica ou sociológica, em função da qual minha reação será esta ou aquela).

Aproximando-nos da conceituação em Peirce, existe ainda uma outra divisão do Interpretante – independente e vertical à divisão anterior – na qual fazem parte o Interpretante Lógico e o Interpretante Emocional.

O Interpretante Lógico diz respeito à compreensão de um sentido relacionado com uma funcionalidade. Essa não é necessariamente uma formulação consciente e racional. Peirce fala da existência de um primeiro interpretante lógico associado com “experiências involuntárias de natureza sugestiva” e com as “idéias instintivas dos animais”, de modo que teríamos neste caso um Interpretante Lógico Imediato. O Interpretante Lógico Dinâmico apresenta-se como um “ensaio dramático” indutivo e ativo, um rearranjo dos elementos levantados pelo Interpretante Lógico Imediato. E o Lógico Final se apresentaria como um hábito deliberadamente formado, inter-relacionando condições e comportamento anteriores, que o signo está calculado para produzir.

Já o Interpretante Emocional não admitiria uma subdivisão: por suas características, só pode ser um Interpretante do tipo Imediato. Ele é fundamentalmente a reação emocional que está associada com o signo, devido à história de vida do receptor com aquele signo ou devido a uma reação emocional inata (ou instintiva). Pode ser algo tão simples quanto a “sensação do vermelho” até algo complexo como as diferentes e subsequentes reações emocionais diante de uma música, com cada signo dela produzindo uma reação que se acumula da próxima e formam juntas uma outra reação total a um signo maior.

Assim sendo, conceito em Peirce pode ser lido como a soma do Interpretante Lógico com o Interpretante Emocional diante de um signo, dando assim contorno ao seu significado e sua significação que, relembrando, é onde todo o processo de construção de sentido culmina, onde todo signo findará.

Portanto, um signo enviado por um emissor, só formará um conceito para seu receptor através da sua história ou emoção inata com aquele signo, acrescida de sua significação lógica (ou vice-versa).

A vitória de Macron e a Paz Perpétua

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Alguns meses após o plebiscito que deu vitória à posição pela saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Trump no Colégio Eleitoral das eleições americanas, a eleição francesa do último domingo parecia o terceiro e derradeiro confronto a opor duas visões políticas, econômicas e culturais diametralmente opostas. De um lado, defensores do liberalismo político, do universalismo ético e das fronteiras (mais ou menos) porosas a pessoas e mercadorias. De outro, defensores de posições mais ou menos autocráticas de governo, do comunitarismo nacionalista e da autarquia econômica.

Muitos acreditavam tratar-se de um embate entre o mainstream político e seus oponentes de extrema-direita. Eu defendo que a divisão clássica entre esquerda e direita explica pouco do que tem acontecido nos últimos anos. Trump, líder de um movimento associado à direita radical americana, foi apoiado por Putin, que também apoiou Le Pen, mas também líderes radicais de esquerda, como Maduro. Mélenchon, o candidato da extrema-esquerda francesa, defendia posições econômicas muito parecidas com as de Le Pen e o enfraquecimento da União Europeia. Sua recusa em se posicionar no segundo turno entre um liberal centrista e uma radical de direita (que, por sinal, já havia apoiado o partido de extrema esquerda que atualmente governa a Grécia) pode ser reveladora.

Assim, creio que a grande disputa que se desenrola diante de nós é melhor descrita como entre os defensores da sociedade aberta e seus inimigos, defensores de alguma forma de tribalismo (nacional, étnico, classista ou identitário).

Os defensores da sociedade aberta, normalmente, se aglomeram em posições no entorno do centro político – liberais autênticos, conservadores de boa estirpe, democratas cristãos, socialdemocratas, verdes, etc. – enquanto os seus inimigos tribalistas se distribuem de uma ponta à outra do espectro político. Podem ser encontrados na extrema direita (nacionalistas chauvinistas, racistas empedernidos, etc.) e na extrema esquerda, seja ela “clássica” (nacionalismo terceiro-mundista, tribalismo de classe trabalhadora) ou, muito mais comumente, pós-moderna (coletivos negros, movimentos LGBT, grupos feministas radicais, etc.) dos campi universitários.

A vitória do centrista Emmanuel Macron é um sopro de esperança para nós que vivemos em tempos aparentemente sombrios. Gostaria de discuti-la enfocando dois aspectos que me parecem muito importantes. O primeiro, a ser tratado neste texto, é a importância da União Europeia, que sua vitória fortaleceu, na manutenção do mais longo período de paz já registrado no mundo ocidental desde o auge do Império Romano. O segundo é como seu governo pode revitalizar uma proposta política na qual pode estar o futuro e sucesso da humanidade, a Terceira Via de Anthony Giddens, sociólogo britânico – essa parte ficará para um próximo artigo, a sair em breve.

A Paz Perpétua

Provavelmente, a nossa geração e a de nossos pais – pelo menos entre nós que vivemos no Ocidente – foi a primeira geração a se ver livre do flagelo da Guerra (mesmo com a relutância de muitos em considerar o Brasil como um país ocidental, não brigamos com nossos nove vizinhos há 150 anos). Obviamente, guerras continuaram a acontecer no terceiro mundo – apesar de elas terem diminuído muito desde o fim da Guerra Fria – ou entre países ocidentais e do terceiro mundo.

Vivemos, porém, no mais longo período da história humana sem que potências guerreassem entre si. Desde o auge do Império Romano, nunca houve tanto tempo sem que um exército atravessasse o Reno. Desde 1945, os países ocidentais passaram a viver no que se convencionou chamar de Longa Paz. Várias explicações têm sido levantadas para explicar esses 72 anos de calmaria sem precedentes, desde flutuações aleatórias até temor de mútua destruição nuclear, todas elas com refutações bastante convincentes, as quais não vou discutir por uma questão de espaço.

Há, porém, uma teoria do século XVIII que parece explicar muito bem a questão. Ela é de autoria de Immanuel Kant, que disputa com Aristóteles e São Tomás de Aquino o título de maior filósofo da humanidade. Kant revolucionou os principais campos da Filosofia: a epistemologia, a ética e a estética. Relativamente pouco conhecida é a sua contribuição à filosofia política, que está condensada em sua teoria sobre a Paz Perpétua.

A vitória do centrista Emmanuel Macron é um sopro de esperança para nós que vivemos em tempos aparentemente sombrios.

Kant não era um sonhador. Sua teoria, apesar de parecer implausível no belicoso século XVIII, ainda mais em um contexto guerreiro como o prussiano, era bastante realista. Talvez não por acaso, o título foi inspirado em uma inscrição que ele viu ao passar por um cemitério.

Bem, Kant divide sua proposta em seis princípios preliminares e três princípios definitivos. São os preliminares:

  1. «Não deve considerar-se como válido nenhum tratado de paz que se tenha feito com a reserva secreta de elementos para uma guerra futura.»
  2. «Nenhum Estado independente (grande ou pequeno, aqui tanto faz) poderá ser adquirido por outro mediante herança, troca, compra ou doação.»
  3. «Os exércitos permanentes (miles perpetuus) devem, com o tempo, de todo desaparecer.»
  4. «Não se devem emitir dívidas públicas em relação aos assuntos de política exterior.»
  5. «Nenhum Estado se deve imiscuir pela força na constituição e no governo de outro Estado.»
  6. «Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir tais hostilidades que tomem impossível a confiança mútua na paz futura, como, por exemplo, o emprego no outro Estado de assassinos (percussores), envenenadores (venefici), a ruptura da capitulação, a instigação à traição (perduellio), etc.»

Os definitivos são os seguintes:

  1. «A Constituição civil em cada Estado deve ser republicana. »
  2. «O direito das gentes deve fundar-se numa federação de Estados livres. »
  3. «O direito cosmopolita deve limitar-se às condições da hospitalidade universal. »

Estes últimos que nos interessam. Os três pontos estavam em disputa na batalha eleitoral francesa, senão localmente, pelo menos na disputa mais ampla entre defensores da sociedade aberta e tribalistas.

Quando Kant escreveu “republicana” ele queria dizer o que entendemos por “democrática” – na época a palavra “democracia” estava mais associada a uma espécie de ditadura do populacho do que com o que entendemos hoje como democracia liberal – o que Kant tinha em mente. Ou seja, monarquias constitucionais podem também ser republicanas nesse sentido kantiano. São os valores democrático-liberais clássicos, que floresceram em todo o mundo nas últimas décadas, que estão ameaçados por figuras como Le Pen, Trump, Putin e Bolsonaro.

O segundo ponto é fundamental. Nada na história humana se aproximou mais dessa Federação de Estados-Livres do que a União Europeia. Surgida da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço nos anos 1950, que criou uma zona de livre comércio e cooperação que acabou com a disputa secular por essas matérias primas entre França e Alemanha, ela é, provavelmente, a maior responsável pela Longa Paz – ainda mais improvável se pensarmos que o continente foi cindido pela Cortina de Ferro nas décadas terrivelmente polarizadas da Guerra Fria.

O Brexit, provavelmente, fragilizou a União Europeia, mas a Ilha sempre foi um mundo à parte do Continente, sempre mais voltada para o ultramar do que para os problemas do Velho Mundo. A saída da França, pelo contrário, seria mortal para o projeto de integração europeia. Felizmente, a vitória de Macron evitou a desintegração do bloco, pelo menos por enquanto.

Por fim, o terceiro ponto versa sobre a igualdade humana e o cosmopolitismo. Na prática, significa que todos os indivíduos, independentemente de serem cidadãos de dado país ou não, devem ter os seus direitos respeitados pelo simples fato de pertencerem à espécie humana. A política xenófoba de Trump e de Le Pen, bem como as improváveis gritarias de grupelhos deslocados da extrema-direita brasileira vão na contramão desse princípio básico.

É surpreendente que um filósofo do século XVIII tenha tido insights tão valiosos para nós do século XXI. Dois cientistas políticos norte-americanos, John R. Oneal e Bruce Russett se dispuseram a testar estatisticamente o modelo formulado por Kant. O resultado foi fortemente positivo: países democráticos praticamente não guerreiam entre si e tem menor probabilidade de guerrear com países não democráticos. Países que participam de instâncias multinacionais, como a União Europeia, também têm uma probabilidade muito menor de se envolverem em conflitos. Os autores também incluíram variáveis sobre a abertura comercial (Kant louvou o comercio e o capitalismo comercial em outros textos) e descobriram que ela também favorecia a paz – outro ponto ameaçado pelos isolacionistas da esquerda e da direita.

A vitória de Macron, que chegou ao Louvre para seu discurso da vitória ao som do Hino Europeu (a versão instrumental da Ode à Alegria, um louvor à fraternidade universal entre os seres humanos) foi a vitória dos valores iluministas defendidos por Kant, valores estes que possibilitaram a Longa Paz. Sua vitória pode ser, também, um modelo que nos permita superar pontos ultrapassados e anacrônicos da política de esquerda e de direita. Mas isso é assunto para o próximo artigo.

A verdade sobre nós, parte 1

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[Nota do editor: o site Ano Zero não se responsabiliza pelas opiniões deste autor, suas ideias e crenças não correspondem necessariamente às de seus editores.]

A FILOSOFIA DA VIAGEM NO TEMPO

PARTE UM: O INIMIGO QUE NOS TEM ATACADO

Isto não é um tratado acadêmico. Não é escrito por amor ao conhecimento. Isto é um alerta e um guia prático para fuga. Mas o alerta só vai ser entendido, e a rota de fuga só será percebida se mostrarmos a prisão, as correntes e os cadeados até agora não percebidos pelo prisioneiro.

Estamos sendo atacados. E todos nos encontramos num momento decisivo de nossas vidas e da história humana. Quem nos ataca se esconde por trás de nossa ignorância, pois está confiante de que ela é como uma tranca segura, invencível, da prisão em que nos mantém.

E nisso os nossos adversários têm razão. A ignorância que aprisiona é quase invencível pois é parte de quem somos. Para destrancar tal fechadura, precisamos fazer algo quase impossível: abrir os olhos para verdades pouco convenientes sobre nossa identidade a fim de vencer a ignorância. Não devemos subestimar o desafio, não devemos menosprezar a capacidade que a verdade tem de nos perturbar.

Para entender a natureza da ameaça e da situação de alerta em que estamos, precisamos antes compreender a natureza da própria realidade e da condição humana.

Esta não é uma história religiosa, nada há aqui de místico ou mítico, o que significa que muitas das verdades apresentadas não correspondem às expectativas e nobres aspirações que temos a nosso respeito. Ao contrário, a percepção distorcida que temos sobre nós compõe a ignorância que torna segura uma prisão composta de ilusões.

Por exemplo, somos primatas, animais que andavam em seu caminho evolutivo mergulhados em um sonho conveniente, até tropeçarmos em algo inominável. A partir desse encontro, começamos a despertar e compreender a natureza da ameaça que nos ronda.

O tropeço ocorreu em 1801, e o responsável é um médico britânico de nome Thomas Young. Portanto, o ano de 1801 pode ser considerado o marco inicial da etapa em que nos encontramos hoje. Foi  naquele momento em que a ciência, pela primeira vez, levantou o véu e olhou para dentro da realidade, abriu as persianas da janela para observarmos finalmente quão desconcertante é o mundo em que vivemos.

O que Thomas Young fez foi simples. Ele acendeu uma luz atrás de duas fendas e observou a projeção na parede do outro lado. E isso foi o que viu:

Não deixa de ser irônico que tenha sido o exame da luz o evento que nos fez despertar.

O universo enquanto tempo

Thomas Young foi um prodígio do século dezenove. Ele propôs inovações em áreas diversas do conhecimento humano, como medicina, linguística, egiptologia, física e música. Apesar de sua inteligência, jamais desconfiou das implicações do experimento que realizou em seu laboratório. Na verdade, pouca gente as admite até hoje.

O experimento tornou-se célebre e perturbou mesmo Einstein, que tentou em 1935 refutar suas conclusões, tidas por muitos físicos como inatacáveis. Conhecido como Experiência das duas fendas, em sua versão moderna trata-se de jogar um fóton ou elétron entre duas fendas e, ao invés de descobrir do outro lado qual caminho ele escolheu seguir, observar que ele escolheu os dois caminhos ao mesmo tempo – ele comportou-se como uma onda.

Thomas Young

Um objeto fundamental é duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo, partícula e onda. Mais ainda, quando se comporta como onda, diferente das ondas do mar ou do som, ele não se propaga em um meio tangível – ele é uma onda de probabilidade. Mas probabilidade de que? De a partícula estar em um específico lugar.

Mais ainda, o elétron parece “prever” com muita antecedência como se comportará o pesquisador no laboratório. O físico John Wheller demonstrou e posteriormente nova experiência confirmou que mesmo se um fóton tiver vindo de uma estrela a dezenas de anos-luz da Terra, ele se antecipará desde o início aos pesquisadores e se comportará de antemão conforme o aparato que eles tiverem montado em seus laboratórios: se será uma partícula ou uma onda de probabilidade.

O mesmo experimento que confirmou a teoria de Wheller demonstrou que isso é verdade mesmo para um átomo. Na verdade, o modelo matemático descritivo da experiência, desenvolvido pelo físico Erwin Schrödinger, determina que isso é válido não só para átomos e moléculas, mas também para estruturas maiores como o corpo humano e os corpos celestes. E foi pensando nesse mundo composto por partículas de probabilidade que surgiu o famoso gato de Schrödinger, vivo e morto realmente ao mesmo tempo, assim como a matéria parece estar e não estar em determinado lugar até que o pesquisador abra a caixa e o gato, desde o início prevendo a ação do pesquisador, defina inclusive o seu passado de vida ou de morte a partir da ação presente de quem lhe observa.

Aquilo que é chamado Princípio da Incerteza revelou-se inerente à natureza da realidade, a posição de uma partícula e seu momentum não podem ser simultaneamente aferidos pois parece que o observador influencia o comportamento da partícula: o caminho que ela irá seguir. Essa definição da probabilidade concretizando-se em uma só posição é chamada de “colapso”.

Isso parece ser contraintuitivo e anticientífico, pois sugere que a mente humana influencia o mundo ao nosso redor. Essa interpretação sugerida nos deixa lisonjeados, pois corresponde a elevada opinião que temos a nosso respeito. Ela nos seduz e induz ao erro pois corresponde a mais insidiosa espécie de ignorância que precisamos eliminar para nos libertar, a ignorância que advém da vaidade humana.

Na verdade, a resposta é muito mais simples que supor um sofisticado poder mental dos seres humanos em moldar conscientemente a realidade com a mera e ridícula vontade de nossos egos. Porém, ela é pouco elogiosa. Na verdade, a resposta pode ser considerada perturbadora.

Na próxima parte iremos abordar a explicação simples e elegante de como as partículas que compõem nosso corpo e tudo o que nos cerca podem estar aqui e ali ao mesmo tempo, como a matéria se dilui em uma nuvem de probabilidades sem que o chão não se abra sob nossos pés. É uma resposta estritamente científica e matematicamente rigorosa.

Por hora, administrando desde já o susto, basta dizer que no final da próxima parte você compreenderá que cada um de nós é como uma só corrente de suaves e numerosas (na verdade, um continuum) transições de versões de nós mesmos, como se fôssemos uma onda de probabilidade que segue adiante em todas as direções do mar que é o tempo. E esse mar também é povoado por corais, colônias de inteligências indiferenciadas e coletivas, que podem romper o caminho suave das ondas com violência, pois nos percebem a partir de um contexto maior, mais amplo, em que todas as nossas versões coexistentes são reveladas.

É tudo uma questão de perspectiva.

O grande acordo nacional

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Uma coisa é você colocar na cadeia doleiros, empresários, políticos dos principais partidos e até mesmo donos de construtoras. Outra coisa bem diferente é quando a brincadeira ameaça chegar ao sistema financeiro.

O impeachment não conseguiu o que Jucá queria, o “grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”, aquele acordo que “protege o Lula, protege todo mundo”. Com a substituição de uma tecnocrata inepta e desastrada por um plutocrata de bastidores mais experiente e com trânsito na classe política, eles até que tentaram, mas não conseguiram parar a Lava Jato.

No entanto, isso não quer dizer que Jucá não estivesse certo. O imortal Jucá estava certo de novo: de uma forma ou de outra, ia sair o “grande acordo nacional” que “protege o Lula, protege todo mundo”. O impeachment era apenas uma pequena e ineficaz estratégia. Outras se seguiram.

E a peça-chave acabou sendo mesmo a ameaça da língua de Palocci, o homem do petismo nos bancos. Aqueles que acham que a grande cisão política brasileira se dá entre golpistas e golpeados observam os fatos sem conseguir entendê-los: como assim, Gilmar Mendes, o golpista, o homem do PSDB no STF, articulando a liberação de José Dirceu da cadeia?

Se a principal cisão fosse entre petistas e tucanos, entre golpistas e golpeados, esse fato permaneceria inexplicável. Os tolos que gritaram “golpe” e, para isso, foram obrigados a dizer que a Lava Jato e o Supremo eram parte dele viram sua teoria ruir mais uma vez, com o próprio Supremo iniciando o enterro da Lava Jato.

Como gostam de dizer os gringos, follow the money. É impossível, evidentemente, que dezenas ou centenas de bilhões de reais do patrimônio público tenham sido movidos ilegalmente sem a participação do sistema bancário. Ninguém no Brasil sabe essa história melhor que Palocci.

Mais uma vez, o Código de Processo Penal não importa, as regras para prisão preventiva não importam, nada da dogmática jurídica importa em absoluto. Sinto muito, juristas, o Direito não importa nem nunca importou. Só importam a porrada política e a relação de forças.

Dirceu foi solto para que a língua de Palocci continue presa. E, para isso, golpistas e golpeados continuam juntinhos, como sempre estiveram.

Poluição da atenção: o celular é o novo cigarro

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Semanalmente vou a uma academia aqui perto do meu apartamento. É uma daquelas aulas em que um treinador fica gritando para que você faça mais flexões e agachamentos até quase vomitar. Então você vai para casa e luta pra sentar na privada durante os próximos três dias.

É ótimo. Eu amo isso. Nunca perco uma semana.

Hoje, como acontece em muitas manhãs, no meio dos exercícios duas mulheres correram até os armários para pegar seus celulares e verificar… bem, eu não sei que merda elas poderiam ter verificado. O e-mail? O instagram? Postando suas gotas de suor para que todos pudessem ver? Eu não sei.

O ponto é que elas estavam absorvidas por seus celulares.

E o treinador ficou chateado, gritou para que elas guardassem seus celulares, e todos ficamos de pé aguardando.

Isso aconteceu duas ou três vezes na aula, como acontece em praticamente todas as aulas, e por algum motivo, hoje decidi falar o que pensava para a mulher grudada ao celular enquanto o resto de nós estava treinando, e lhe disse o seguinte:

“Tem mesmo alguma coisa na sua vida que não possa esperar 30 minutos? Você está pesquisando a cura do câncer ou algo assim?”

(nota ao leitor: essa não é uma boa forma de fazer amigos na academia)

Eu estava chateado, mas foda-se. Eu sentia como se estivesse certo, dizendo em voz alta o que quase todos os outros na sala estavam pensando em silêncio.

Mais tarde naquele dia, quando já tinha voltado pra casa, enquanto dolorosamente estava sentado no assento do vaso sanitário, fiquei pensando sobre o incidente na minha cabeça. Eu me perguntava: “Por que isso me incomoda tanto? Por que os celulares em geral parecem me incomodar tanto? Por que me incomoda quando minha esposa pega o celular enquanto andamos juntos pela rua? Porque odeio fervorosamente pessoas que pegam seus celular e gravam metade de um show? Qual é o lance?”

Sou eu o errado aqui?

Mas sei que não estou errado. Todos temos esse estranho relacionamento de amor e ódio com nossos celulares hoje em dia. Todos os anos ficamos mais grudados que nunca aos nossos celulares. No entanto, todos os anos parecemos nos culpar por estarmos presos a eles. Por quê?

POLUIÇÃO DA ATENÇÃO

Se você pensar sobre isso, nossa atenção é a única coisa que realmente possuímos em nossas vidas. Nossos bens podem ir embora. Nossos corpos podem ser comprometidos. Nossos relacionamentos podem desmoronar. Até nossas memórias e nossa capacidade intelectual desaparecem.

Mas a simples capacidade de escolher no que focar a atenção será sempre nossa.

Infelizmente, com a tecnologia de hoje, nossa atenção está sendo puxada para mais direções do que em qualquer outra época do passado, o que torna esta liberdade de focar nossa própria atenção mais difícil de exercer (e mais importante) do que nunca.

Em seu livro Deep Work, Cal Newport argumenta que a capacidade de se concentrar profundamente num único projeto, ideia ou tarefa por longos períodos de tempo não é apenas uma das habilidades mais importantes para ter sucesso na era da informação, mas também uma habilidade que parece estar diminuindo entre a população.

Mas eu iria ainda mais longe. Eu diria que nossa capacidade de focar e ampliar nossa atenção sobre o que precisamos fazer é um componente essencial de uma vida feliz e saudável. Todos nós tivemos aqueles dias ou semanas (ou meses, ou anos) em que nos sentimos esparramados – fora de controle de nossa própria realidade, constantemente sugados por armadilhas de informação inútil e dramas compostos de cliques intermináveis ​​e notificações.

Para sermos felizes e saudáveis, precisamos sentir como se estivéssemos no controle de nós mesmos e utilizando nossas habilidades e talentos de forma eficaz. Para consegui isso, devemos manter o controle de nossa atenção.

E acho que é por isso que a coisa do celular na academia me irritou. Esses exercícios são fodidamente difíceis. Eles exigem que eu me concentre e exerça não só a disciplina física, mas também a disciplina mental. E ter que parar a cada 10 minutos porque alguém precisa de enviar um e-mail para seu chefe ou falar com seu namorado é algo me distrai. Pior ainda, é algo que me suga minha atenção contra a minha vontade.

Poluição de atenção é quando a incapacidade de outra pessoa em se concentrar ou controlar seu foco acaba atrapalhando a atenção e o foco de quem está ao seu redor.

Com a explosão de dispositivos inteligentes e com acesso à internet disponível praticamente em todos os lugares, a poluição da atenção está se infiltrando em nossas vidas diárias mais e mais sem que nós percebamos.

É por isso que ficamos irritados quando alguém começa a trocar mensagens de texto em nossa frente no jantar. É por isso que ficamos chateados quando alguém pega seu telefone no cinema. É por isso que ficamos irritados quando alguém está verificando seu e-mail em vez de assistir ao futebol.

Sua incapacidade de se focar interfere com a capacidade (já frágil) dos outros de se concentrar. Da mesma forma que o fumo passivo prejudica os pulmões das pessoas em torno do fumante, smartphones prejudicam a atenção e foco de pessoas que estão ao redor do usuário do smartphone. Isso sequestra nossos sentidos. Isso nos obriga a pausar nossas conversas e redobrar nossa atenção desnecessariamente. Isso nos faz perder a linha de pensamento e esquecer o raciocínio importante que estávamos construindo em nossa cabeça. Isso corrói nossa capacidade de se conectar e simplesmente estarmos presente uns com os outros, destruindo a intimidade entre nós.

Mas a comparação com o cigarro não termina aí. Há evidências que sugerem que estamos causando danos a longo prazo às nossas memórias e atenção. Da mesma maneira que fumar cigarros prejudica nossa saúde a longo prazo em nome de um prazer a curto prazo, a dopamina obtida com o uso de nossos telefones prejudica a capacidade do nosso cérebro de funcionar a longo prazo, tudo em nome de obter um monte de “likes” na foto realmente legal daquilo que acabamos de comer.

Pode parecer que estou exagerando aqui. Como se eu houvesse vivenciado uma aula ruim na academia estivesse descontando em centenas de milhares de leitores na internet.

Mas estou falando sério. Acho que isso está nos prejudicando mais do que imaginamos.

Tenho notado que, com o passar dos anos, está ficando cada vez mais difícil sentar e escrever um artigo como este. E não é só porque a quantidade de distrações disponíveis aumentou, é que minha capacidade de resistir a essas distrações parece ter enfraquecido até o ponto em que muitas vezes não me sinto mais no controle de minha própria atenção.

Esse tipo de coisa me assusta. E não porque fiquei irritado com a mulher na academia que não pode ficar 10 minutos sem verificar as suas mensagens. Eu me assusto porque estou me tornando essa pessoa da academia que não pode ficar 10 minutos sem verificar suas mensagens.

E tenho certeza de que não sou o único.

Conheci pessoas nos últimos anos que ficam incrivelmente ansiosas se não podem verificar seu celulares em situações sociais. Elas dão atenção a seus celulares em eventos sociais da mesma forma que algumas pessoas dão atenção a seus cães. É uma fuga constante de atenção, o que é prejudicial se a necessidade de interagir com os pensamentos e sentimentos de outra pessoa se tornar muito intensa.

Comecei a notar que as pessoas estão sempre verificando e-mails ou mensagens para se sentirem como bons e produtivos empregados. Não importa se é no recital de violino do seu filho, parado no semáforo ou na cama à meia-noite de um sábado. Elas sentem que têm que saber cada pedaço de informação que é arremessado no seu caminho, pois caso contrário estão falhando de alguma forma.

Tenho notado que amigos já não conseguem se sentar e ver filmes inteiros (ou mesmo episódios de um programa de TV), sem conferir seus celulares várias vezes com frequência. Tenho visto pessoas que não podem fazer uma refeição sem colocar o telefone ao lado de seu prato.

Está acontecendo em todos os lugares, e está se tornando a norma social. A atenção debilitada está se tornando a atenção normal, socialmente aceitável, e todos nós estamos pagando por isso.

O FUTURO

Tenho um sonho, amigos. Eu sonho com um mundo onde as pessoas possam se sentar e ter longas e maçantes conversas sem sentir necessidade de ter gratificação instantânea graças a uma tela de plástico iluminada.

Sonho com um mundo onde as pessoas estão conscientes não apenas de sua própria atenção limitada, mas da valiosa atenção dos outros, um mundo onde idiotas não responderão mensagens no cinema no meio do filme, estragando totalmente o clima de uma cena dramática.

Tenho um sonho onde nossos celulares e outros dispositivos serão confortavelmente tratados como complementos ocasionais para nossas vidas, e não como um pobre substituto para elas. Onde as pessoas reconhecerão que o fornecimento constante e instantâneo de informações tem custos sutis, proporcionais às suas óbvias vantagens.
Tenho um sonho de um mundo onde as pessoas tomam consciência de sua própria atenção como um recurso importante, algo a ser cultivado e renovado, a ser estimulado e valorizado, da mesma forma que cuidam de seus corpos ou de sua educação. E esse novo cultivo de sua própria atenção irá estranhamente libertá-las. Não apenas livres das telas, mas de seus próprios impulsos inconscientes.

Tenho um sonho em que o respeito pela atenção se estenderia ao mundo à sua volta, aos amigos e familiares, com o reconhecimento de que a incapacidade de se concentrar não é apenas prejudicial para uma pessoa, mas também para seus relacionamentos e para a capacidade de obter e manter a intimidade com alguém.
Tenho um sonho de um mundo onde aquelas duas mulheres não chequem seus malditos telefones quando eu estiver suando e sofrendo na próxima quarta-feira na academia. Pelo amor de Deus, se você estiver indo para a academia, vá para a porra da academia e só.

Ciência sobre ciência

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O método científico não é uma varinha mágica ou uma máquina cromada e inoxidável que produz verdades incontestáveis. É um conjunto mais ou menos estruturado de práticas descobertas (ou inventadas), ao longo dos últimos séculos, para evitar que as pessoas mintam para si mesmas ou tirem conclusões erradas quando investigam a realidade – por exemplo, achando que o movimento aparente das estrelas no céu causa as estações do ano, ou que arrancar o coração de um prisioneiro de guerra, amarrado no alto da pirâmide, é um sacrifício necessário para impedir que o Sol se apague.

Um artigo publicado recentemente no periódico Nature Human Behavior  cita três fontes comuns de autoengano: apofenia, a tendência de ver padrões onde só existe caos; viés de confirmação, a tendência de prestar atenção numa mera fração da informação disponível (a fração que parece confirmar nossas preconcepções); e viés do retrovisor, a tendência de considerar certas sequências de eventos “óbvias” ou “previsíveis” — mas apenas depois de elas terem acontecido.

As práticas que compõem o método científico convivem numa espécie de caixa de ferramentas. Como todo conjunto de instrumentos, também podem ser mal utilizadas, usadas de modo errado, fora de contexto ou sobre materiais inadequados. A mera aplicação mecânica de partes do método científico a uma questão de pesquisa ou a uma hipótese não faz com que o procedimento em si seja “científico”, assim como uma criança martelando um parafuso no chão não está fazendo “marcenaria”.

A escolha da ferramenta adequada requer reflexão, e em termos ideais deveria ser bem justificada. Além disso, o critério da reprodutibilidade — todo resultado científico deve, em princípio, ser reprodutível por outros pesquisadores que utilizem os mesmos métodos e materiais equivalentes — serve, entre outras coisas, como uma espécie de checagem do grau de perícia e competência com que o instrumento escolhido foi utilizado no estudo inicial.

Crucialmente, sem reprodutibilidade não há tecnologia: computadores e televisores só existem porque certos experimentos realizados com fótons e elétrons mostraram-se altamente reprodutíveis, ao ponto de deixarem de ser experimentos e virarem equipamentos do dia a dia.

Um efeito colateral, indesejável, da presente cultura acadêmica produtivista, em que teses e artigos são lançados em esquema de linha de montagem, é que não só as ferramentas do método muitas vezes são mal escolhidas e usadas de forma inadequada  (ano passado foi pródigo em alertas sobre o uso impensado e irrefletido de certos testes estatísticos), como a cultura da reprodutibilidade perde força: se o que traz prestígio são resultados originais, para que perder tempo testando os resultados dos outros?

Nenhuma dessas considerações é exatamente nova. Um dos autores do artigo em Human Behavior (intitulado, aliás, “A manifesto for reproducible science”), John Ioannidis, já vem batendo esse bumbo pelo menos desde 2005, quando publicou o já clássico “Why Most Published Research Findings Are False” na PLoS Medicine.

Em 2011, artigo em Psychological Science alertava para os chamados “graus de liberdade do pesquisador”, uma série de decisões sobre como coletar, analisar ou publicar dados que, se tomadas sem o devido cuidado (ou sob a influência de algum dos vieses apresentado no início da postagem), pode levar a falsos positivos. No ano de 2015, a Science publicava análise indicando a existência de uma “crise de reprodutibilidade” na psicologia. Livros e sites como Statistics Done Wrong também passaram a chamar atenção para erros inferenciais comuns das ciências.

Essa reação toda mostra que, ao contrário do que dizem seus críticos mais afoitos, a ciência não é um mero sistema de validação ritualística de “verdades” subjetivas, mas um conjunto de processos que inclui, entre outras coisas, o reexame crítico desses próprios processos.

Já o fato dessa reação ser necessária mostra que o que eu chamaria de “tentação degenerativa” — pela redução do fazer científico a um conjunto de rituais estúpidos acobertados por matemática abstrusa e linguagem inacessível — é real. Um sistema de incentivos perverso está aí, implantado, sussurrando no ouvido das pessoas que trocar a reflexão crítica e criativa pelo mecanicismo burocrático é o caminho, a verdade e a vida acadêmica.

Como a Tesla mudará o mundo, parte 4: os desafios da Tesla

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[Nota do editor: esta é a quarta parte do artigo de Tim Urban, traduzido do texto original com autorização do autor, por Rodrigo Zottis e com revisão de Victor Lisboa. Para compreender esta terceira parte, você precisa ler a terceira, clicando aqui. Essas quatro partes e a próxima integram uma série maior, que fala de Elon Musk e seus projetos Tesla e Space X]

Como a Tesla está resolvendo o problema de alcance:

Com um alcance de mais de 320 quilômetros, a bateria da Tesla faz um ótimo trabalho deslocando as pessoas em suas rotinas. Mesmo num dia agitado raramente chegamos próximo de 320 quilômetros de condução. No entanto, em longas viagens na estrada, os carros elétricos sempre tiveram um problema. Então Musk surgiu com uma solução:

Construir uma rede mundial de energia gratuita.

A Tesla veio com o Supercharger – um carregador de alto calibre, para ser usado na estrada – e haveria estações públicas gratuitas que teriam uma fileira de Superchargers, como uma fileira de bombas de gás em um posto de gasolina. Um carregador de garagem normal leva de 5 a 10 horas para carregar completamente a bateria de um modelo S, dependendo do tipo de sistema de carregamento que você optou. Obviamente, ninguém quer parar por várias horas na estrada para fazer o que um carro a gasolina faz em cinco minutos – é por isso que o Supercharger é muito rápido. Ele pode carregar um modelo S a uma média que lhe dá cerca de 95 quilômetros de alcance para cada 10 minutos de tempo de carga. Portanto, se você estiver dirigindo entre Boston e Nova Iorque (215 milhas), você pode andar sem parar, mas se você precisasse parar, você poderia simplesmente parar por 5 ou 10 minutos – não muito mais do que uma parada num posto de gasolina. Em uma condução de Los Angeles a San Francisco (615 quilômetros), você precisa parar de 20 a 30 minutos.

E a questão a fazemos é: em uma viagem de 4 horas de Boston a Nova Iorque, uma parada de 5 a 10 minutos não é desejável de qualquer modo?

Em uma viagem de 6 a 7 horas de Los Angeles a São Francisco, as pessoas não iriam parar 20-30 minutos para comer alguma coisa e ir no banheiro?

Quanto mais penso sobre isso, mais percebo o quão pequeno é o problema da bateria de veículos elétricos para a Tesla. Digamos que você faz uma longa viagem com seu carro cinco dias por ano. Isso significa que em 360 dos 365 dias, você não tem que fazer nada. Você só dirige, e nunca precisa parar em um posto de gasolina. E os outros cinco dias? Você provavelmente só precisaria parar pelo tempo que você pararia em uma longa viagem de qualquer maneira.

Parece uma solução perfeita, mas, para que isso funcione, é preciso que existam Superchargers ao longo da estrada. Aqui estão os Superchargers nos EUA:

E eles estão os construindo em um ritmo furioso – aqui é onde eles estarão em breve:

Europa e Ásia estarão igualmente bem cobertos.

Por enquanto, somente Teslas pode usar as estações de Supercharger, e, de qualquer maneira, somente um Tesla, dentre todos os carros elétricos produzidos, pode realmente fazer trajetos de longa distância. Mas no futuro Musk planeja fazer parcerias com outras companhias de carros elétricos, assim todo veículo elétrico (EV) poderia parar em uma.

Algumas outras coisas sobre Superchargers: eles todos são gratuitos para uso, e em breve, todos serão totalmente alimentados por energia solar. Musk brinca que, se houver um apocalipse de zumbis, os donos da Tesla ficarão bem porque não vão precisar conectar seus carros em postos para alimentar seu carro. E isso significa que se você tiver amigos com um, você poderá andar tecnicamente de graça pelos EUA.

Isso também vai se tornar ainda mais fácil com o tempo, porque a Tesla está trazendo inovações a cada ano. Por exemplo, o Roadster agora tem uma bateria de 564 quilômetros e você pode andar de Los Angeles a São Francisco sem parar – é apenas uma questão de tempo antes que os carros mais baratos tenham um alcance semelhante.

Recentemente, a Tesla também revelou um novo recurso no Supercharger – a troca de bateria. Um motorista da Tesla poderá parar o carro bem embaixo de um pequeno retângulo. O chão se abrirá e uma máquina surgirá para tirar a bateria do veículo, trazendo em seguida uma nova para colocar em seu lugar, totalmente carregada, e você está pronto para ir – tudo em 90 segundos. Isto custaria de 60 a 80 dólares ou tanto quanto um tanque caro a gasolina nos EUA – assim, motoristas da Tesla poderão escolher entre duas formas de carregar seu carro: de graça ou bem rápido.

Então, com esse problema muito perto de sair do caminho, a Tesla parece ter apenas um problema remanescente:

Quem diabos pode pagar um carro de 75 mil dólares?

O preço inicial de um Tesla Modelo S é tecnicamente US$ 69.900. Mas se você quer os carros de maior alcance e a bateria de carregamento mais rápida, o preço dispara. Há um monte de outras coisas para adicionar, é tipo “ah, merda, agora que você mencionou, sim, eu quero isso também”, e assim, um Modelo S pode rapidamente superar os US$ 100.000.

Musk é sempre rápido ao apontar que, no momento, os EUA oferecem um crédito fiscal de US$ 7.500 para a compra de um EV de alcance suficiente. Ele também aponta o que eu mencionei acima sobre os US$ 2.000 equivalentes a um ano de economia com gasolina. Claro, mesmo subtraindo tudo isso, estamos em torno de US$ 55.000 para um Tesla Modelo S, que é impensável para a maioria das pessoas. A Tesla tem um novo carro saindo em breve, o SUV com portas que se abrem para cima chamado Modelo X, mas é outro carro de preço pouco modesto. Não resolve o problema.

É uma regra no mundo dos carros que cada queda de US$ 5.000 no preço de um veículo praticamente duplica o número de compradores que podem pagá-lo. Então, se Tesla conseguir de alguma forma fabricar um veículo elétrico estelar por cerca de U$ 35.000 a menos do que o Modelo S, seria algo equivalente a dobrar o comprador por 7 vezes, ou multiplicá-lo por 125 vezes. O que significa que a maioria dos norte-americanos poderiam pagar por um deles. Agora vamos trazer de volta o plano de negócios da Tesla:

Portanto, o Passo 3 é o objetivo de todo esse plano. O Passo 3 é a razão de a Tesla existir. E se a Tesla acabar mudando o mundo, será por causa do Passo 3.

Esse carro é o Modelo 3, e vai sair em 2017. Ao menos esses são os planos. E vai custar U$S 35.000,00, ou US$ 27.500,00 após o crédito fiscal do governo norte-americano, ou US $ 20.000 após a economia da gasolina. Ao menos esses são os planos.

Mas como? Atualmente, a bateria do Modelo 3 custa cerca de US$ 20.000. Mesmo se a Tesla trabalhar com corpo de alumínio high-tech, fizer o carro menor e tirar as coisas mais extravagantes do modelo S, a bateria sozinha custará algo em torno de $ 35.000. Impossível.

Como a Tesla está resolvendo o problema do preço alto:

Grandes problemas exigem grandes soluções. Para resolver o problema de alcance, a Tesla está construindo uma rede mundial de energia de Superchargers. E para resolver o problema dos preços, eles estão construindo isto:

Isso é o que Musk nomeou de Gigafactory. É uma fábrica de baterias de lítio-íon de US$ 5 bilhões, atualmente sendo construída em Nevada. A fábrica será autossuficiente, alimentada inteiramente por energia solar, eólica e geotérmica no local, e empregará 6.500 pessoas.

Atualmente, a produção anual em todo o mundo de baterias de lítio-íon é de 30 GWh (Gigawatt-hora) – principalmente para uso em laptops e telefones celulares. A Gigafactory vai fazer mais do que isso todos os anos, o que significa que vai mais do que dobrar as baterias de íon de lítio feitas globalmente a cada ano. Há dois enormes benefícios em fazer isso:

Primeiro, a Tesla está planejando aumentar a produção de seus carros até chegar a 500 mil deles por ano, e eles precisarão de um monte de baterias de íon de lítio. O raciocínio de Musk é simples: “Sei que não podemos conseguir baterias de lítio-íon suficientes a menos que construamos esta fábrica gigante, e eu sei que ninguém mais está construindo esta coisa.” Os números tornam essa necessidade clara. Para fazer baterias suficientes para os seus 500 mil carros planejados por ano, a Tesla precisará de cerca de 30 GWh de baterias de íon de lítio por ano – o que corresponde a atual produção mundial – o que significa que sem a construção da Gigafactory, eles teriam que usar todas as baterias de íons de lítio do mundo. A Gigafactory apenas cobrirá as necessidades da Tesla – se chegar um dia em que todas as empresas de automóveis fizerem uma tonelada de veículos elétricos, haverá muitas Gigafactories construídas por muitas empresas

Segundo, ao dobrar o suprimento mundial de baterias de íon de lítio e ao continuar a inovar com tecnologia de baterias, o trabalho da Tesla no Gigafactory tornará as baterias muito mais baratas. Musk diz que o preço da bateria deve cair em pelo menos 30%. Recentemente, Musk disse que a Tesla poderia já fazer seus carros com um alcance de mais de 805 quilômetros – eles só não implementam isso porque aumentaria o custo do carro. Mas como o preço das baterias vai cair, o alcance dos veículos elétricos vai aumentar também.

Estou bastante convencido de que o modelo S é o melhor carro de luxo já feito. Em seu primeiro ano, suas vendas derrubaram seus concorrentes diretos conhecidos (o S-Class Mercedes, o BMW 7-Series, o Lexus LS e o Audi A8) e está na liderança desde então. Mas todos esses carros estão em um pequeno espaço de compra para os muito ricos.

É o modelo 3 que colocará a indústria de ponta cabeça cabeça. Você pode não saber muito sobre a Tesla hoje – ou mesmo se importar – mas tenho certeza de que todos saberão sobre o Modelo 3 em breve. Talvez seja por isso que Musk se recusa a fazer publicidade – pois sabe que quando o Modelo 3 sair, não precisará dela.

O mercado já tomou conhecimento. O IPO (oferta pública inicial de ações) de US$ 226 milhões da Tesla, realizada em junho de 2010, marca o primeiro IPO para uma empresa automobilística americana desde que Ford se tornou pública em 1956. Desde então, o valor da empresa subiu. Hoje, sete anos depois de estar à beira da falência, o valor de mercado da Tesla é de US$ 31 bilhões. Para colocar em perspectiva o quão grande esse negócio é, tracei a trajetória da Tesla em um gráfico com os três grandes fabricantes de automóveis dos EUA (apenas usando linhas retas para simplificar):

O topo da pirâmide alimentar da indústria automobilística ficou bastante estagnado por um longo tempo, e por décadas, nenhum aventureiro faminto conseguiu ascender. Tesla não chegou ao topo ainda, mas pela primeira vez em muito tempo, há uma nova empresa indo mais além e à velocidade da luz.

Um efeito cascata

Se você é uma das grandes empresas de automóveis do mundo, e tem estado por aí durante décadas confortavelmente ganhando muito dinheiro e fazendo pequenas melhorias incrementais a cada ano na sua linha de carros, poderia qualquer outra coisa no mundo ser mais irritante do que a Tesla?

Lembre-se, as empresas automotivas sabem tudo sobre carros elétricos e seus benefícios. A maioria delas fez um carro elétrico na década de 1990, quando a Califórnia os obrigou através de uma lei, e depois que a lei foi revogada, as empresas confiscaram e literalmente esmagaram esses carros. Então colocaram uma toalha em cima dos entulhos com uma placa dizendo tipo “nada pra ver aqui, galera”. O susto acabou e eles poderiam voltar para sua zona de conforto, melhorando seus veículos a gasolina.

A irritação que elas têm com a Tesla faz sentido:

As concessionárias têm muito lucro montando e reparando motores a gasolina, trocando filtros de óleo e coisas do tipo – dinheiro que eles não iriam mais ganhar se vendessem veículos elétricos com motores que raramente quebram.

As empresas de automóveis já conhecem os carros a gasolin de ponta a ponta, e dominam a arte de fazer algumas pequenas mudanças para eles a cada ano para que os modelos do ano novo sejam um pouco melhores do que os do ano anterior. Mas veículos elétricos são um novo mundo para eles, e eles não sabem nada sobre como fazer um Powetrain ou melhorar a densidade de energia da bateria como a Tesla faz – na verdade, eles sabem menos, como foi evidenciado pela Toyota e Mercedes, ambos comprando o Powetrain da Tesla para seus VEs. Que chute no saco seria começar toda a pesquisa e desenvolvimento do zero.

Mais importante ainda, o mundo já quer comprar carros a gasolina. Não há necessidade de convencer o público – basta apenas alguns anúncios de TV padrão para aprimorar a fase mais recente da imagem de um modelo de a gasolina e informar os clientes sobre as últimas atualizações do veículo. Contudo, veículos elétricos são novos e assustadores para os clientes, e há uma curva de aprendizado para o mundo entender a razão pela qual precisamos desses novos carros.Mas a coisa realmente problemática sobre isso é que, para comercializar um veículo elétrico, você precisa fazer o que estou fazendo neste post e explicar todas as razões porque os veículos elétricos são, obviamente, um enorme passo à frente em relação aos veículos a gasolina, que instantaneamente transmita a mensagem de: “Os carros a gasolina são sujos, inconvenientes e antiquados.” Não é uma coisa fácil de fazer quando seu negócio diário já está vendendo 10 milhões de carros a gasolina por ano.

E quem quer lidar com todas essas informações, quando se poderia simplesmente ignorá-las se a Tesla fosse embora?

Franz von Holzhausen trabalhou em três dessas outras empresas. A maneira como ele as vê é a seguinte: “eles estão presos em seu processo de fabricação, preso em motores a gasolina, presos em seu modelo de concessionária, presos em sua própria história”.

Musk explica isso como uma falta de coragem e originalidade: “As grandes empresas de automóveis estão tão viciadas na derivação de modelos de produção que só aprovam um projeto e o implementam se virem antes ele funcionar em algum outro lugar”.

Mas a Tesla está crescendo, e sua explosão iminente através da pirâmide alimentar está assustando a indústria. Nós sabemos disso com certeza, pois quando o primeiro Tesla Roadster foi comercializado em 2008, não havia veículos elétricos de grandes empresas no mercado. Hoje, Ford, Chevy, Nissan, BMW, Mercedes, Volkswagen, Fiat, Kia, Mitsubishi e Smart, todos têm um veículo elétrico nos seus catálogos. Não é uma coincidência.

Então, qual é o jogo com todos esses outros veículos elétricos?

O mais notável é o Nissan Leaf, lançado em 2010, que tem sido o veículo elétrico mais vendido no mundo nos últimos anos (embora o muito mais caro Tesla Modelo S tenha liderado a indústria em veículos elétricos vendidos até 2015). O Leaf custa aproximadamente US$ 30.000 ($ 22.500 após o crédito de imposto) e tem um alcance de 135 quilômetros. O CEO da Nissan, Carlos Ghosn, foi durante algum tempo uma das poucas vozes fortemente pró-veículos elétricos na indústria automobilística fora da Tesla. Ele fala sobre o efeito “cul-de-sac” que começará a acelerar as vendas – ou seja, as pessoas ficam com ciúmes de que seu vizinho tenha um carro mais futurista e não precisa comprar gasolina, farão perguntas e, em seguida, vão procurar comprar um também.

O BMW i3 recentemente lançado está vendendo melhor após o Leaf e o Modelo S. Custa US$ 43.000 (US$ 35.500 após o crédito de imposto) e tem um alcance de 130 quilômetros. O CEO da BMW, Norbert Reithofer, está na onda dos veículos elétricos, e diz: “Você tem que olhar para o futuro, em dez, quinze, vinte anos, carros como o BMW i3 são uma obrigação.”

Nenhum outro tipo de VE obteve vendas significativas ainda. Eu perguntei a Musk sobre o Leaf e o i3. Sobre o Leaf, ele disse: “O alcance é muito baixo, mas se eles continuarem aprimorando isso, eles acabarão por chegar lá.” Sobre o i3: “Eles estão tentando fazer algo lá. O alcance é baixo, mas é um passo na direção certa, e se eles continuarem, vão conseguir algo.”

Este tom de “parabéns pelo seu primeiro grande cocô no banheiro, Johnny, agora na próxima vez tente começar a coisa inteira já dentro da privada que tudo vai dar certo” é o jeito efusivo de Musk avaliar as tentativas atuais da indústria de lançar um VE de destaque.

A Volkswagen contratou o ex-CEO da BMW que também parece estar otimista sobre VEs, e a GM está prometendo grandes novidades com o seu próximo VE, o Chevy Bolt.

Outras empresas de automóveis ainda não estão convencidas. O CEO da Mercedes, Dieter Zetsche, disse que não espera que os VEs vendam bem por enquanto, pois “o cliente recebe um carro com menos alcance, mais tempo de reabastecimento, um pouco menos de espaço e um preço mais alto”.

As maiores companhias japonesas Toyota e Honda, também são céticas sobre VEs e investiram seu futuro em híbridos e carros de hidrogênio em vez disso. O CEO da Fiat Chrysler, Sergio Marchionne, é tão anti-VEs que disse ao mundo para não comprar o VE Fiat 500e, dizendo que eles só estão vendendo porque os regulamentos os forçaram.

Para os VEs serem os carros dominantes do futuro, eles têm um longo caminho a percorrer. Em janeiro de 2015, havia um total de 740.000 VEs nas estradas do mundo todo. Compare isso com toda a imagem de mais de 80 milhões de carros vendidos em todo o mundo anualmente e mais de um bilhão de carros totais na estrada. VEs compõem apenas uma fração de um por cento da indústria automóvel. Mas eles estão em subindo:

Então, estamos no início de uma nova era de carros elétricos ou no meio de outra bolha de VEs um pouco antes de desaparecerem novamente – e como você pode ver das citações acima, atualmente, a indústria automobilística está dividida, tendo em vista a maneira cada empresa está apostando.

Acho que vamos aprender muito mais em breve, porque o mundo ainda está ansioso para ver o primeiro e verdadeiro potencial de um VE “que detone”. O problema com a Tesla agora é que a maioria das pessoas não podem pagar um de seus carros, e o problema com todos os outros VE é que o alcance é uma porcaria.

O quadro parece com esse esquema:

A verdade é que o típico americano dirige 60 quilômetros por dia em média, e os 130 quilômetros de alcance é talvez demais para a maioria das pessoas. Mas de qualquer modo 130 quilômetros parece ser insuficiente para atrair potenciais compradores, e a adoção em massa de carros elétricos não acontecerá com esse limite de alcance.

O plano de Tesla sempre foi produzir um carro de sucesso bem no Quadrante 4, e é isso que eles dizem que farão em 2017 quando o Modelo 3 sair. Outros fabricantes de automóveis, incluindo Nissan, Volkswagen e GM, declararam sua intenção de em breve lançar suas próprias versões de um VE de longo alcance não muito caro.

Não há como saber ainda se uma ou todas essas empresas terão sucesso em entrar no Quadrante 4, mas se tiverem, e houver automóveis elétricos economicamente acessíveis e de grande alcance, eu não conseguiria pensar num só motivo para alguém comprar um carro a gasolina novamente. Um carro de alta qualidade da Tesla que fosse acessível à classe média parece ter apenas pontos a favor e nenhum contra.

Veja os pontos a favor de um veículo elétrico acessível, de alta qualidade, com longo alcance comprado a um carro a gasolina:

Melhor direção. O torque instantâneo de um VE é como disparar uma arma. Não há nenhum tempo de atraso entre o pé tocando o pedal e a resposta do carro em movimentar-e. Sem engrenagens, o veículo acelera de forma perfeitamente suave. O manuseio é incrível. É silencioso.

Mais conveniente. Sem paradas para reabastecimento, menor necessidade de levar o carro à manutenção. Nenhuma troca de óleo. Mais espaço para armazenamento pois, sem motor, o capô (tronco dianteiro) torna-se mais um porta-mala.

Mais seguro. Sem motor, toda a frente do carro torna-se uma zona de deformação. Esse é um dos motivos da alta nota que o ModeloS tem nas avaliações de segurança automotiva.

Mais barato. Sem gasolina ou diesel e menos manutenção seu preço não está mais sujeito ao preço flutuante do petróleo.

Mais saudável. Nada de expelir pelas cidades aquela fumaça que causa muitos problemas de saúde.

– Ah sim, e também evitar uma catástrofe ambiental, econômica ou geopolítica.

Desvantagens de um VE de longo alcance, economicamente acessível e de alta qualidade quando comparado com o carro a gasolina:

– Pessoas que gostam de mudar o controle do carro manualmente o tempo todo com toda a força de seu músculo, porque eles se sentem radicais na estrada.

– Cinco dias por ano, quando você está em uma longa viagem, você tem que parar por 30 minutos a cada três horas em vez de cinco minutos a cada quatro horas – desvantagem que se torna discutível se você parar de qualquer modo por 30 minutos a cada poucas horas.

Os VEs não chegaram a esse ponto ainda, então por enquanto esses são os legítimos contras. Mas, ao longo dos próximos nos os VEs ficarão mais baratos, a capacidade de suas baterias será cada vez maior, os Superchargers estarão mais presentes ao longo das estradas até estarem por toda parte e os tempos de carregamento diminuirão à medida em que a tecnologia avança. Talvez eu esteja esquecendo de alguma coisa, e eu tenho certeza de que um grupo de comentadores empolgados vai tentar deixar isso muito claro para mim, mas isto me parece um dado óbvio: a era da gasolina acabou e VEs são o futuro evidente.

Um gigante irritado

As empresas de automóveis, como mencionei, não estão felizes com tudo isso – estão agindo como um garoto que tem um sorvete em mãos enquanto os pais estão forçando-o a comer seus legumes.

Mas e a tal da indústria do petróleo?

Ao contrário das empresas de automóveis, a indústria do petróleo não aceitará nem mesmo à força a inovação, nem entrarão na onda dos VEs e continuarão a prosperar. Se VEs tornarem-se o anseio da indústria automobilística, as empresas petrolíferas estarão arruinadas. 45% de todo o petróleo extraído do planeta é usado para transporte, mas no mundo desenvolvido esse percentual é muito maior: nos Estados Unidos, 71% do petróleo extraído é usado para transporte, e a maior parte é para carros.

Se a indústria automobilística tem um sorvete e seus pais estão a forçando a comer legumes, é como se a indústria do petróleo tivesse um sorvete, mas seus pais estivessem a forçando a comer lâminas de barbear. A indústria automobilística vai fazer um pouco de birra antes de engolir os vegetais, mas a indústria petrolífera irá furiosamente tentar arrancar os olhos dos pais em resistência, porque para ela isso é questão de vida e morte.

E é assim que a indústria do petróleo vê os VEs: horríveis lâminas de barbear. E gigantes não aceitam comer lâminas de barbear sem uma briga séria.

Já vimos isso antes. As empresas de tabaco lutaram com unhas e dentes para permanecerem vivas e fortes o máximo de tempo possível quando a maré começou a se voltar contra elas. E a própria indústria do petróleo vem lutando com unhas e dentes em outra frente – a batalha para manter as pessoas confusas sobre se o aquecimento global é algo real.

Normalmente, nestes casos, as empresas que lutam pela sobrevivência sabem que seu fim está chegando. Mas enquanto o fim não chega, elas continuam ganhando rios de dinheiro, e quanto mais tempo levar para o público ficar inteiramente a par da situação, mais tempo vai demorar para a opinião pública rejeitar seu negócio completamente e as autoridades legislarem em seu desfavor, interrompendo os rios de dinheiro. Nessas situações, tempo significa muito dinheiro.

A tática de permanecer vivo por mais tempo é sempre a mesma: plantar desinformação para criar confusão e tornar a discussão algo político, de modo que metade dos EUA sinta-se como se estivesse indo contra “seu próprio time” se assumir uma posição contra os interesses da indústria automobilística.

A maneira mais inteligente de gerar confusão é alimentar a percepção pública de que há um debate genuíno entre os cientistas. É assim que você faz um consenso de 97% parecer uma pergunta em aberto:

A mesma tática foi usada algumas décadas atrás, quando 98% dos cientistas disseram que fumar causava câncer de pulmão. Mas a indústria do tabaco convenceu o público por muito tempo de que “os cientistas discordavam” sobre se fumar era prejudicial. O livro Merchants of Doubt detalha quantos dos mesmos “cientistas” pro-fumantes tornaram-se uma geração mais tarde cientistas que afirmavam que o “aquecimento global não era real”.

Em 1990 , quando a Lei de Emissões Zero da Califórnia (California Zero Emissions Mandate) obrigou as empresas de automóveis a comercializar veículos elétricos se quisessem continuar a vender carros aos californianos, a indústria petrolífera encarou isso como um pequeno tumor que precisava ser rapidamente removido antes que se desenvolvesse como uma séria ameaça. Logo, uma nova voz surgiu, uma campanha “popular” chamada “Californians Against Utility Company Abuse” (CAUCA – Californianos Contra Abuso das Companhias de Energia Elétrica). A campanha organizou protestos contra os investimentos em distribuição de energia elétrica propostos pela Califórnia em apoio a veículos alternativos. A campanha também mencionava que “os benefícios ambientais dos carros elétricos eram duvidosos”. Mas, como se viu, a CAUCA foi criada por uma empresa de relações públicas contratada e financiada pela indústria do petróleo. Eventualmente, a lei foi revogada, os VEs desapareceram e o tumor sumiu.

Agora, há um novo tumor para a indústria de petróleo: Elon Musk. A Tesla está mostrando diretamente ao público que VEs são o futuro e está financiando o desenvolvimento de tecnologia que fará VEs melhores do que qualquer um jamais pensou que fosse possível. Uma lei é revogável, uma obsessão em massa do público por um Modelos S não é.

Mas, novamente, o petróleo não precisa evitar um futuro VE para ter uma razão para existir: ele só precisa atrasar o futuro dos VE por tanto tempo quanto possível. A missão de Tesla é “acelerar o advento do transporte sustentável trazendo carros elétricos atrativos para o mercado de massa o mais rápido”. A missão atual das indústrias petrolíferas é “atrasar o advento do transporte sustentável, fazendo as pessoas pensarem que os VE não são realmente melhores para o planeta do que carros a gasolina. ”

VEs são definitivamente melhores para o planeta. Assim, a indústria do petróleo está recorrendo a uma arma decisiva:

Bulshit: em inglês literal, “merda de touro”; em tradução adequada: “bobagem”, “besteira”.

Há um monte de mitos flutuando por aí. Não vou tratá-los como mitos por completo – cada vez que vejo uma discussão sobre se VEs são poluentes,leio mais e mais sobre eles. Alguns exemplos de mitos que vi em torno de VEs ou do Tesla em particular:

Mito: depender de bateria é perigoso.

Na verdade, (a) as células de íon de lítio usadas em carros não são especialmente perigosas e são classificadas como seguras, (b) elas são quase todas recicladas de qualquer maneira, e (c) continuarão a ser recicladas, porque uma bateria de carro usada ainda tem muito valor, seja como uma bateria estacionária ou como matéria-prima.

Mito: Fabricar um Tesla é muito mais poluente do que a fabricação de um Prius e muitos outros carros a gasolina.

Na verdade, os carros caros são mais poluentes para fabricar do que os mais baratos. Comparar a fabricação de um Tesla com a de um Prius é como dizer “Prius é poluente, porque é mais poluente fabricar um Prius do que fabricar um carrinho de golfe.” Se você comparar maçãs com maçãs, não é mais poluente fazer um Tesla do que um carro de luxo com preços semelhantes .

Mito: VEs sobrecarregam as redes elétricas.

Na verdade: A redes elétricas nos EUA são dimensionadas para operar durante o pior segundo do pior dia do pior ano, então geralmente há excesso de capacidade. Você poderia substituir 70% dos quilômetros percorridos pelos carros a gasolina dos Estados Unidos pelos quilômetro percorridos pelos VEs sem mudanças relativas às redes. Essa porcentagem vai crescer ainda mais, assim que mais residências obtiverem sua energia via painéis solares.

Mito: O Tesla usa um monte de grafite em sua bateria, o que contribui para o problema da poluição da China.

Na verdade: A lógica aqui é: “as baterias da Tesla usam grafite; a maior fonte de grafite do mundo está na China; a China tem uma poluição terrível; Portanto, a Tesla é parcialmente responsável pela poluição da China”.Quando fiz algumas pesquisas, aprendi que a Tesla usa grafite sintético produzido principalmente no Japão e na Polônia, e que a média do Modelo S usa 100kg desse material. Levando em consideração que 100kg de grafite artificial dura dez anos, então a quantidade de grafite usada para fazer um Modelo S é semelhante à quantidade que você usaria se você fizesse alguns churrascos por ano.

Mas há um mito que tem sido mais válido e mais penetrante do que qualquer outr: a longa teoria do tubo de escape.

A longa teoria do tubo de escape está em toda parte. Qualquer pessoa que não gosta de VEs aponta para ela imediatamente.

Então, qual é a teoria? Eu vou deixar Greg Gutfeld, da Fox News fazer as honras:

“A razão inteira para fazer estes carros pequenos e estúpidos é uma mentira pois a eletricidade vem do carvão. Em alguns casos, alguns estudos mostram que esses veículos podem produzir mais poluição do que os motores de combustão interna.”

Numa primeira análise, isso faz sentido. Vamos trazer de volta o nosso gráfico de emissões dos EUA para ver o que Greg quer dizer:

Anteriormente, identificamos as duas maiores causas de emissões de CO2: carros funcionando com gás e carvão produzindo eletricidade. A lógica da teoria do longo tubo de escape é que tudo o que um VE faz é mudar a produção de energia da primeira categoria ruim para a segunda categoria ruim. Como o carvão é a fonte mais proeminente da eletricidade no mundo, e o carvão emite aproximadamente 1.5 vezes mais carbono por joule de energia produzida do que a gasolina, VEs seriam mais culpados das emissões de CO2 do que carros a gasolina.

Quando você ler sobre VEs ou falar com as pessoas a seu respeito, você vai ouvir essa teoria surgir novamente e de novo e de novo.

O que você vai notar, porém, é que toda vez que alguém fala indignado sobre as emissões de escape dos VE, essa pessoa usa palavras como “pode ser”,”muitas vezes” e, no caso de Greg, “em alguns casos, alguns estudos demonstram que…”. Isso ocorre porque você tem que usar essas palavras quando está dizendo coisas que deseja que sejam verdadeiras, mas na verdade não são.

Tomando os EUA como um exemplo, essas são as razões porque a teoria do tubo de escape está errada:

1) A produção de electricidade dos EUA é mista, não apenas carvão. O carvão só representa 39% da produção de eletricidade dos EUA. E esse número está diminuindo:

O gás natural, que emite menos de metade do CO2 do carvão, agora representa mais de um quarto da produção de eletricidade dos EUA. A energia nuclear e as fontes de energia renováveis quase não emitem CO2 e agora produzem um terço da eletricidade dos EUA.

2) A produção de energia é mais eficiente em uma usina de energia nuclear do que em um motor de carro. Para usar um exemplo com uma fonte de combustível idêntica, queimar gás natural em uma usina possui cerca de 60% de eficácia, ou seja, 40% da energia é perdida no processo. Em um carro, a queima de gás é menos de 25% eficiente, com a maior parte da energia perdida para o calor. O sistema mais complexo em uma usina será sempre muito melhor em capturar calor residual do que um motor de carro minúsculo. A eficiência maior significa que mesmo um carro que funciona puramente na eletricidade gerada pelo carvão emitirá o carbono na mesma taxa que um carro a gasolina que obtenha 13 quilômetros por litro – que seria um carro a gasolina significativamente mais limpo do que a média.

Porque a divisão da fonte de energia é diferente em estados diferentes, um VE será mais limpo em alguns lugares dos EUA do que outros. O Departamento de Energia dos EUA tem uma ótima ferramenta para avaliar exatamente como um VE é equiparado a um carro a gasolina em qualquer código postal no país.

Nas partes do país em que se usa muito pouco carvão, como no estado de Nova Iorque, as emissões de um veículo VE são muito menores do que as de um carro a gasolina (no gráfico, HEV = um carro tradicional híbrido PHEV = um plug em um carro tradicional híbrido):

Nos estados de carvão mais pesados, como o Colorado, VEs causam muito mais emissões de CO2 – mas ainda menos do que um carro a gasolina:

A média nacional está em algum lugar entre esses dois extremos, colocando um VE em 61% das emissões de um carro a gasolina em geral:

A Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados) criou uma maneira de comparar diretamente as emissões de automóveis, independentemente do tipo de carro que é – uma métrica chamada “milhas por galão equivalente”, ou MPGghg (ghg significa gases de efeito estufa).

MPGghg é quantas milhas por galão um carro a gasolina precisaria a fim possuir as emissões de carbono de um VE (no caso dos VEs, as emissões vêm da usina que faz a eletricidade). Em outras palavras, se um VE recebe 40 MPGghg, significa que ele emite a mesma quantidade de carbono como um carro a gasolina que recebe 40 MPG.

Um carro novo de nível médio a gasolina recebe 23 MPG. Qualquer coisa acima de 30 MPG é realmente bom para um carro a gasolina, e qualquer coisa abaixo de 15 ou 17 é ruim. Para referência, lembre-se que um VE andando tem apenas eletricidade produzida pelo carvão de 30 MPGghg (por isso que em um hipotético estado norte-americano inteiramente movido a carvão, um VE seria o mesmo do que um carro a gasolina altamente eficiente) e um VE andando apenas via eletricidade movido a gasolina natural teria um MPGghg de 54, acima do Toyota Prius, que anda a 50 MPG.

Aqui está um mapa útil que mostra o tipo de MPGghg que os VEs têm em diferentes partes dos EUA:

Assim, mesmo para os 17% da população que vive nos piores estados de carvão, um VE bate quase todos os carros a gasolina. Isso resume tudo:

E todos os anos, a já bem posicionada barra azul fará um pequeno salto para a direita. Isso significa que um VE ficará mais limpo com o passar do tempo. Os carros a gasolina estão presos em sua posição, e ficarão assim, observando enquanto o futuro se afasta.

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Eu não me senti capaz de escrever sobre este tópico antes de passar um bom tempo aprendendo sobre o tema – e agora que fiz isso, eu meio que acho que a única forma de alguém ser a favor de um carro a gasolina no futuro é se estiver informado, estiver pessoalmente e/ou financeiramente interessado, for irremediavelmente antiquado, estiver desorientado com a política ou então só por ser um panaca mesmo. Certo? Alguém teria que ser uma dessas cinco coisas para defender carros a gasolina, não é?

A batalha aqui não é sobre carros a gasolina contra carros elétricos. Isso já foi decidido. Esta é uma guerra sobre o tempo. As companhias petrolíferas vão tentar abrandar as coisas, e podem ter sucesso – mas não estão ganhando. Simplesmente não vejo como poderiam ganhar. Uma empresa que fabrica combustível para lamparinas pode permanecer forte por um tempo, protegendo o público de entender o que é uma lâmpada, mas, eventualmente, as pessoas vão descobrir que as lamparinas estão fora do negócio, levando a companhia de combustível a falir. Os filtros de óleo são velhos, a aceleração ruidosa é velha, os motores superaquecidos são velhos, as trocas de óleo são velhas, e não vai demorar muito para que todos percebam isso. Uma experiência interessante em 2050 será levar seu neto para ver um antigo posto de gasolina do século 20 e explicar como funcionava. Conduzir um carro a gasolina é como jogar lixo em uma trilha de camping, fumar num avião e jogar uma grande pilha de papel no lixo orgânico, e é apenas uma questão de tempo até que a repugnância pública se instale.

Ampliando o panorama

Aprender a dominar o dragão de fogo lançou nosso mundo nos tempos modernos, e ainda hoje vivemos na era da combustão. Mas precisamos seguir em frente – precisamos parar de cavar nos subterrâneos e arranjar outras coisas para fazer. O cão precisa abandonar sua toca cheia de ossos e ir embora. Precisamos aprender a usar a energia da maneira adulta e sustentável.

O futuro do mundo com a energia sustentável é simples assim:

1) Quase tudo que nós usamos funcionará a eletricidade.

2) Quase toda a nossa eletricidade será produzida a partir de fontes sustentáveis.

É um mundo que funciona via luz solar e eletricidade, e queimar coisas não tem espaço nesse mundo.

Esta transição acontecerá em etapas, ao longo do tempo. No início de nossa análise sobre a Tesla, identificamos os dois problemas que precisávamos resolver com maior urgência: 1) A produção de eletricidade é enorme e principalmente poluente. 2) O setor de transportes é enorme e quase totalmente poluente.

Passamos o resto do tempo ampliando o Problema 2 para examinar como as coisas ficaram assim, e porque podemos estar testemunhando o momento em que isso finalmente mudará.

Nós não entraremos no Problema 1 hoje – mas Musk, com sua empresa líder em instalação de painéis solares no EUA, a SolarCity, e a Tesla, com seu novo produto, a bateria estacionária Powerwall, estão também liderando a busca pela solução dessa equação.

As pessoas ainda não percebem, mas a partir deste momento, uma família ou um empresa dos EUA tem a opção de se mover individualmente em direção a um futuro sustentável. Usando produtos feitos pela SolarCity e pela Tesla, um norte-americano pode hoje viver em uma casa e dirigir um carro que são alimentados por uma bateria conectada a um painel solar e viver unicamente luz do sol. Musk e suas empresas fizeram uma pequena estrada de tijolos amarelos fora da Era de Combustíveis Fósseis para quem quiser sair dela. E se a tecnologia moderna pode permitir que pessoas, empresas e até cidades inteiras vivam sem combustíveis fósseis, isso sugere que a única era que qualquer um de nós já conheceu pode estar chegando ao fim.

Como mudar o mundo

Uma pesquisa sobre a Tesla não é sobre um carro ou uma empresa de carros – é sobre como mudanças ocorrem e a razão de muitas vezes as mudanças não acontecerem.

Nossa intuição nos diz que a tecnologia, as normas sociais, os movimentos e as ideias apenas avançam com o tempo, como se o progresso fosse um rio e essas coisas estivessem em uma balsa. Nós associamos tanto a passagem do tempo com o progresso que usamos a palavra “futuro” para se referir a uma versão melhor e mais avançada do nosso mundo atual.

Na realidade, se um futuro avançado acontecer, é porque esse futuro foi desejado em nossas vidas por algumas pessoas corajosas. O presente não é o prenúncio necessário de um futuro avançado porque o presente é um complexo sistema composto de idéias, normas e tecnologias do passado. Há ajustes incrementais e pequenas alterações em pontos de comprovada eficácia, o que pode dar a impressão de que estamos indo em direção a um futuro de inovações quando na verdade estamos apenas polindo o passado.

When the real change arrives, you know you’re seeing it. It’s a distinct and exhilarating feeling when you witness a disrupting innovator ram its way through the canopy. I had that feeling when I watched Steve Jobs introduce the iPhone in 2007. Before that moment, I had assumed that the ubiquitous Blackberrys and Nokias and Razors of the world were cutting-edge technology—but that keynote was an epiphany about how buried in the past those phones actually were. You don’t realize your Blackberry sucks until the iPhone exists. The feeling I had watching that keynote is the same feeling I had when I was six and I saw someone type on a computer word processor for the first time, and the last word on the line would magically jump to the line below when it hit the edge. Typewriters, which had seemed normal that morning, were suddenly ancient. The same thing happened when I saw the first iPod and became instantly disgusted with my horribly clunky and inefficient big booklet of CDs.

Quando a verdadeira mudança chega, você sabe que está a vendo. É um sentimento distinto e emocionante quando você testemunha um evento inovador e perturbador rompendo com o passado. Eu tive esse sentimento quando eu assisti Steve Jobs apresentar o iPhone em 2007. Antes desse momento, eu tinha presumido que o onipresente Blackberry era a tecnologia de ponta – mas isso foi uma epifania sobre o quão enterrado no passado aqueles telefones realmente estavam. Você não percebe que o seu Blackberry é rudimentar até que o iPhone exista. A sensação que eu tinha de assistir aquela palestra é a mesma que senti quando eu tinha seis anos e vi alguém digitar um texto no computador pela primeira vez, e a última palavra na linha saltava magicamente para a linha abaixo quando atingia a beira. As máquinas de escrever, que pareciam normais naquela manhã, de repente eram antigas. A mesma coisa aconteceu quando vi o primeiro iPod e fiquei instantaneamente repugnado com o meu horrível e grosseiro estojo cheio de CDs.

Eu tive esse sentimento outra vez, mês passado, quando fiz um test drive do modelo de Tesla S. Eu dirigi até a fábrica de Tesla de manhã com um carro a gasolina alugado, que parecia ser novíssimo, e saí da fábrica no mesmo carro, me sentindo agora como se estivesse em um modelo de 1982. Agora entendo por que Matthew Inman chama o Modelo S de “um mágico carro espacial” – porque é assim que me senti. É assim que uma tecnologia nova e revolucionária sempre pareces ser. Nosso mundo moderno tornou-se tão avançado não porque flutuamos em um rio de correnteza e progresso contínuo, mas por causa de uma coleção de momentos em que ao longo do tempo uma pessoa ou empresa faz algo e deixa todos de queixo caído.

Mas esses momentos que mudam o mundo não acontecem suavemente: esses saltos para o futuro geralmente têm que se encaixar e atravessar a barreira de resistência e, em seguida, batalhar para se manter por cima. O passado, que gosta de vagar casualmente em nosso mundo atual, odeia quando um pedaço do futuro aparece em cena, porque isso o expõe revela o que realmente é – o passado. Assim, uma tecnologia nova e disruptiva é freqüentemente encarada com hostilidade à medida em que emerge, e quem se beneficia com o atraso faz tudo o que pode para esmagar o potencial disruptor e colocá-lo fora de jogo antes que possa ganhar impulso e começar a se viralizar. A velha guarda sabe que, uma vez que um disruptor assume uma posição e começa a rapidamente espalhar suas ideias, o jogo inteiro muda – e uma vez que esse equilíbrio muda, em vez de tentar esmagar o disruptor, todos tentam imitá-lo.

O que a Tesla está fazendo agora é um exemplo detalhado de como esse tipo de mudança acontece.

A ideia de mudar a indústria automobilística começou como ondas cerebrais se fechando em torno da cabeça de Elon Musk, como Christie Nicholson aprendeu da maneira mais difícil, mas Musk não poderia fazer muito sobre isso por conta própria. Para tornar a ideia real, ele teve que levar essas ondas cerebrais a outra escala, e ele fez isso construindo Tesla. Isso trouxe um novo jogador para a indústria automobilística, comandado por um super-cérebro coletivo composto por 11 mil funcionários da Tesla que também começaram a pensar muito sobre carros elétricos.

A mudança não acontece em uma paisagem familiar – a mudança tem que construir sua própria paisagem. Isso é parte da razão pela qual os desafios que a Tesla assumiu são tão enormes. Henry Ford não apenas construiu um carro – ele construiu um cenário, definindo o que era um carro. Desde então, as empresas de automóveis trabalharam dentro do cenário e conceito da Ford. Trazendo de volta o que Musk disse sobre Ford: ele era o tipo de cara que, quando algo estava no caminho, encontrava uma maneira de contorná-lo. Ele estava realmente focado no que o cliente precisava, mesmo quando o cliente não sabia o que precisava.Está claro que isso é exatamente o que Musk e a Tesla estão fazendo agora. Se não há estações de carga suficientes para longas viagens, será construída uma rede de energia de Superchargers. Se a escalabilidade é retida pelo alto preço das baterias de lítio-íon, será construída uma fábrica que duplicará a oferta mundial dessas baterias para derrubar seu. Apenas faça.

Mas com um objetivo tão ambicioso como “acelerar o advento do transporte sustentável” e uma condição de vitória tão abrangente quanto “metade de todos os carros novos serem elétricos”, a construção de uma grande empresa de automóveis não é suficiente. Para trazer a ideia original de Musk ao próximo nível, a Tesla precisaria se dimensionar. Para isso, a Tesla está construindo uma linha de carros tão moderna que vai mudar as expectativas do público sobre o que um carro deve ser, e toda a indústria terá de se ajustar a essa nova expectativa.

E resolvendo tantos problemas para seus próprios carros, a Tesla está forjando o caminho para um mundo dominado por VEs para todas as outras empresas também. Uma empresa que tenta elevar-se ao topo de sua indústria manteria seus segredos de inovação bem guardados, mas como o objetivo da Tesla é transformar a indústria, em 2014 ela tornou todas as suas patentes disponíveis para quem quisesse usá-las.

Outras empresas são pessimistas em relação a isso, porque o objetivo da Tesla é atingir a produção de 500.000 carros, o que é apenas cerca de metade de um por cento do total de carros feitos a cada ano. Musk explicou que “o impacto que a Tesla terá em si é pequeno. Ela mudará talvez a percepção das pessoas, mas não mudará o mundo em si mesmo. Mas se um grande número de pessoas escolher comprar o Modelo 3, e as empresas automobilísticas virem que não há desculpa, devido à capacidade que um VE possui de um alcance e aceleração em todos os aspectos melhor do que um carro a gasolina (e é isso que os consumidores querem comprar), então essas empresas terão que investir em programas de veículos elétricos. Assim, indiretamente, estimulando a concorrência, a Tesla pode ser o catalisador de um grande deslocamento de todos os níveis da indústria na direção dos carros elétricos.”

Isso é como espalhar as ondas cerebrais de uma única pessoa por toda uma enorme indústria e pelo público global – e quando isso for feito, todos pensarão muito sobre carros elétricos.

Talvez eu esteja errado sobre algo, ou talvez alguma coisa inesperada aconteça – mas pelo que eu vi, li e conversei, realmente parece que a Tesla vai cumprir sua missão e mudar o mundo. Ela vai acelerar o advento do transporte sustentável, trazendo carros elétricos convincentes para o mercado o mais rapidamente possível. Se o Modelo 3 for tão espetacular como dizem que será, não tenho dúvidas de que os carros elétricos serão a regra muito mais cedo do que teriam sido sem a Tesla. O que, por sua vez, significará que em cinquenta anos o nível de CO2 da atmosfera provavelmente será menor do que seria sem a Tesla, e as cidades terão menos emissões de fumaça do que atualmente, as temperaturas globais serão menores do que teriam sido, o triste urso polar vai começar a comer focas novamente, juntamente com cerca de doze outros efeitos positivos que afetarão legitimamente nossas vidas. Essa é a melhor definição de mudar o mundo que conheço.

Por enquanto, isso é o que Musk faz durante dois dias de sua semana. Com o resto do seu tempo, ele está tentando fazer da humanidade uma espécie multi-planetária – uma meta que faz com que sua missão na Tesla pareça coisa pequena. Vamos falar disso tudo no próximo texto.