O Ctenophora e a evolução alienígena

Leonid Moroz passou duas décadas tentando analisar uma idéia incompreensível: embora os cientistas procurem vida alienígena em outros planetas, talvez já haja alienígenas, com biologia e cérebro surpreendentemente diferentes, aqui mesmo na Terra. Esses alienígenas se esconderam durante milênios. Eles têm muito para nos ensinar sobre a natureza da evolução e o que esperar quando finalmente descobrimos a vida em outros mundos.

Moroz, um neurocientista, viu a primeira sugestão de sua descoberta no verão de 1995, pouco depois de chegar aos Estados Unidos, vindo de sua Rússia natal. Ele passou esse verão no laboratório marinho Friday Harbor em Washington. O laboratório estava situado em meio a um arquipélago de ilhas em Puget Sound – uma encruzilhada de marés e correntes opostas que carregavam centenas de espécies animais ao longo da costa rochosa: enxames de água-viva, crustáceos anfípodes, nódulos ondulantes, lombriz e larvas de peixes, estrelas do mar e inúmeros outros animais. Essas criaturas representavam não apenas a riqueza aquática de Puget Sound, mas também os ramos mais distantes da árvore da vida animal.

E Moroz passou horas no cais atrás do laboratório, coletando animais para que pudesse estudar seu sistema nervoso. Ele dedicou anos a estudar sistemas nervosos em todo o reino animal, na esperança de entender a origem evolutiva dos cérebros e da inteligência. Mas ele foi a Friday Harbour para encontrar um animal em particular.

O neurocientista treinou seus olhos para reconhecer o corpo bulboso e transparente do animal na água iluminada pelo sol: um brilho iridescente, com fragmentos fugazes de luz de arco-íris, espalhados pelo turbilhão rítmico de milhares de cílios semelhantes a fios de cabelo impulsionando o corpo pela água.

Esse tipo de animal, chamado ctenophora, foi considerado por muito tempo apenas outro tipo de água-viva. Mas, naquele verão em Friday Harbor, Moroz fez uma descoberta surpreendente: tratava-se de um monumental caso de identidade equivocada. A partir de seus primeiros experimentos, ele constatou que os ctenophora não estavam relacionados com a água-viva. Na verdade, eles eram profundamente diferentes de qualquer outro animal na Terra.

Moroz chegou a essa conclusão ao buscar, nas células nervosas do ctenophora, traços dos neurotransmissores serotonina, dopamina e óxido nítrico, que são os mensageiros químicos que compõem a linguagem neural universal de todos os animais. Mas, por mais que tentasse, não conseguiu encontrar essas moléculas. As implicações são profundas.

O ctenophora já era conhecido por ter um sistema nervoso relativamente avançado. Mas esses primeiros experimentos de Moroz mostraram que seu sistema nervoso foi criado a partir de um conjunto diferente de blocos de construção molecular – diferente, na verdade, de qualquer outro animal. Por usarem”uma linguagem química diferente”, diz Moroz, “esses animais são alienígenas do mar”.

Se Moroz estiver certo, então o ctenophora representa um experimento evolutivo de proporções deslumbrantes, um experimento que vem ocorrendo há mais de meio bilhão de anos – momento em que essa espécie passou a seguir um caminho evolutivo distinto dos outros animais. Nessa bifurcação da evolução, a natureza inventou no ctenophora neurônios, músculos e outros tecidos especializados de forma totalmente independente do resto do reino animal, utilizando diferentes materiais e estratégias evolutivas.

Assim, o ctenophore fornece pistas sobre que caminhos a evolução poderia ter tomado se não tivessem surgido vertebrados, mamíferos e seres humanos que dominaram os ecossistemas da Terra. Ele soluciona um grande debate que tem enfurecido especialistas por décadas: quando se trata da vida na Terra tal como a conhecemos hoje, o quanto aconteceu por puro acidente e quanto foi inevitável desde o início?

Em outras palavras, se a evolução fosse re-executada aqui na Terra, a inteligência surgirá uma segunda vez? E se isso acontecesse, o quão fácil seria o surgimento da inteligência em algum outro ramo distante da árvore animal? O ctenophora oferece algumas sugestões tentadoras ao mostrar o quão diferentes entre si os cérebros podem ser.

Os cérebros são o principal tema do debate sobre a evolução convergente – o processo pelo qual as espécies não relacionadas desenvolvem traços semelhantes para navegar no mesmo tipo de mundo. Os seres humanos podem ter desenvolvido um intelecto sem precedentes, mas o ctenophora sugere que talvez não estejamos sozinhos. A tendência de sistemas nervosos complexos surgirem e evoluírem é provavelmente universal – não apenas na Terra, mas também em outros mundos.

Anatomia do ctenophora.

O ctenophora é um tipo de animal mal compreendido. Seu corpo se assemelha superficialmente ao de uma medusa – gelatinoso, oblongo ou esférico, com uma boca circular em uma extremidade. Embora sejam abundantes nos oceanos, os ctenophoras são largamente negligenciados pelos cientistas. No século 20, os desenhos nos livros didáticos muitas vezes mostravam o animal de cabeça para baixo, com a boca pendurada em direção ao fundo do mar, no estilo da medusa, enquanto que, na vida real, ele se desloca com a boca apontada para cima.

Ao contrário da água-viva, que usa músculos para lamber seu corpo e nadar, o ctenophora usa milhares de cílios para nadar. E, ao contrário das águas-vivas com seus tentáculos pontudos, o ctenophora procura alimento usando dois tentáculos que secretam uma substância pegajosa, uma adaptação sem paralelo no resto do reino animal. O ctenophora é um predador voraz, conhecido por suas táticas de emboscada. Ele caça espalhando seus tentáculos ramificados e pegajosos para formar algo como uma telha de aranha, e captura suas presas meticulosamente, uma a uma.

Quando os cientistas começaram a examinar o sistema nervoso do ctenophora no final do século dezenove, o que viram através dos microscópios pareceu algo comum: um espesso emaranhado de neurônios posicionado perto do polo sul do animal, uma rede difusa de nervos distribuída por todo o corpo e um punhado de feixes de nervos espessos se estendendo por cada tentáculo e por cada uma das oito bandas de cílios. Estudos de microscópio eletrônico na década de 1960 mostraram o que pareciam ser sinapses entre esses neurônios, com compartimentos semelhantes a bolhas preparados para liberar neurotransmissores que estimulariam a célula vizinha.

Os cientistas injetaram cálcio nos neurônios de ctenóforos vivos, fazendo com que disparassem pulsos elétricos, assim como acontece nos nervos de ratos, vermes, moscas, caracóis e todos os outros animais que conhecemos. Ao estimular os nervos certos, os pesquisadores podem até induzir seus cílios a agitarem-se em diferentes padrões – fazendo com que o animal flua para a frente ou para trás.

Em suma, o sistema nervoso do ctenophora tinha a aparência e o comportamento do sistema nervoso de qualquer outro animal. Logo, os biólogos presumiram que esse sistema nervoso era o mesmo dos outros animais da Terra. Esta visão dos ctenophora reforçava a narrativa oficial sobre a evolução da vida consciente no planeta – uma narrativa que se revelaria errada.

Na década de 1990, os cientistas colocaram o ctenophora na árvore animal da vida em um ramo próximo aos cnidaria, o grupo que inclui medusa, anêmonas marinhas e corais. As medusa e os ctenophoras têm sistemas nervosos difusos que não se organizaram completamente em um cérebro. E, é claro, ambos têm corpos que notoriamente gelatinosos, discretos e, muitas vezes, transparentes.

Abaixo dos ctenophora e das águas-vivas na árvore evolutiva estavam dois outros ramos de animais que eram claramente mais primitivos: os placozoários e as esponjas do mar, que não possuíam células nervosas de qualquer tipo. A esponja, em particular, entrou pela porta dos fundos da animalidade: foi apenas em 1866 que o biólogo inglês Henry James Clark conseguiu demonstrar que a esponja era, de fato, um animal.

Isso ajudou a consagrar a esponja como nosso vínculo mais próximo a um antigo mundo pré-animal de protistas unicelulares, semelhante à ameba moderna e ao paramécio. Os pesquisadores argumentaram que as esponjas evoluíram quando protistas antigos se juntaram a colônias de alto nível, com cada célula usando suas estruturas de sinalização semelhante a cílios para alimentação em vez de nadar.

Essa narrativa apoiou a visão conveniente de que o sistema nervoso evoluiu gradualmente, na direção de uma maior complexidade a cada ramo sucessivo da árvore animal. Todos os animais eram filhos e filhas de um único momento de criação evolutiva: o nascimento da célula nervosa. E apenas uma vez, na evolução subsequente, os neurônios cruzaram um segundo momento limiar momentâneo – quando se agregaram para dar origem a um cérebro centralizado.

Árvore da vida animal, simplificada, com ênfase no Ctenophora.

Essa visão foi reforçada por outra linha de evidência: há semelhanças impressionantes na forma como as células nervosas individuais estão organizadas tanto em insetos quanto em humanos por exemplo, formando circuitos neurais subjacentes a funções como memória episódica, navegação espacial e comportamento geral. Na verdade, os cientistas concluíram que o primeiro cérebro deve ter surgido muito cedo, antes que os antepassados ​​de insetos e vertebrados se separassem em caminhos evolutivos. Se isso fosse verdade, então os 550 a 650 milhões de anos transcorridos desde tal evento representariam uma única narrativa evolutiva, com múltiplas linhagens de animais partindo do mesmo modelo básico de cérebro.

Essa versão de evolução do cérebro fazia sentido, mas observando seus experimentos em Friday Harbor no ano de 1995, Moroz começou a suspeitar que estava profundamente errada. Para demonstrar sua intuição, ele coletou várias espécies de ctenophoras. Ele cortou o tecido neural em fatias finas e os tratou com substâncias químicas destinadas a identificar a presença de dopamina, serotonina ou óxido nítrico – três neurotransmissores onipresentes pelo reino animal. Todas as vezes que fez o experimento, ele olhou no microscópio e não viu sequer vestígios desses neurotransmissores.

“Depois de repetir as experiências”, diz Moroz, “você começa a perceber que se trata um animal realmente diferente”. Ele supôs que o ctenophora não era apenas diferente do seu suposto grupo de irmãs, a água-viva. Também era muito diferente de qualquer outro animal na Terra.

O ctenophora parecia ter seguido um caminho evolutivo completamente diferente, mas Moroz não podia ter certeza. E se ele publicou seus resultados naquele momento, depois de buscar apenas algumas moléculas importantes, as pessoas descartariam sua conclusão. “Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias”, diz Moroz. E então ele embarcou em uma estrada longa e lenta, ainda mais longa do que ele suspeitava naquele instante.

Ele solicitou financiamento para estudar ctenophoras usando outras técnicas – por exemplo, estudando seus genes – mas desistiu depois de ver seu projeto recusado várias vezes. Ele ainda era jovem nesse ponto da história, tinha deixado a União Soviética apenas alguns anos antes, e acabava de começar a publicar seu trabalho em revistas de língua inglesa, onde geraria maior interesse. Então, Moroz colocou ctenophora de lado e voltou ao seu trabalho principal, estudando sinalização neural em caracóis, polvos e outros moluscos. Foi só por acaso, 12 anos depois, que o neurocientista voltou ao seu projeto original.

Em 2007, ele visitou brevemente Friday Harbor para uma conferência científica. Uma noite, Morioz dirigiu-se para as mesmas docas onde ele passou tanto tempo em 1995. Lá, por acaso, ele vislumbrou os brilhos iridescentes de ctenophoras à deriva sob a luz de uma lanterna. As ferramentas científicas avançaram até então, possibilitando a seqüência de um genoma inteiro em dias e não em anos. E Moroz já estava estabelecido, com seu próprio laboratório na Universidade da Flórida. Ele poderia finalmente se dar ao luxo de mergulhar em curiosidades.

Então, ele pegou uma rede e pescou uma dúzia de ctenophoras de uma espécie chamada pleurobrachia bachei. Moroz congelou-os e enviou-os para o seu laboratório na Flórida. Dentro de três semanas, ele teve um transcritoma parcial do ctenophore – um mapeamento de cerca de 5.000 ou 6.000 sequências de genes que estavam ativados nas células nervosas do animal.

Os resultados foram surpreendentes.

Primeiro, eles mostraram que o ctenophora não tinha genes e enzimas necessárias para fabricar uma longa lista de neurotransmissores amplamente vistos em outros animais. Esses neurotransmissores desaparecidos incluíam não apenas aqueles que Moroz observou em 1995 (serotonina, dopamina e óxido nítrico)- mas também acetilcolina, octopamina, noradrenalina e outros. O ctenophora também não tinha genes para fabricar os receptores que permitem que um neurônio capture esses neurotransmissores e responda a sua presença.

Isso confirmou o que Moroz esperou anos para descobrir: que quando ele não conseguiu encontrar neurotransmissores comuns no ctenophora em 1995, não era porque simplesmente seus testes não estavam funcionando, mas porque o animal não os usava de forma alguma.

“Todos usamos neurotransmissores”, explica Moroz. “De medusa aos vermes, de moluscos a seres humanos, você verá um conjunto muito consistente de moléculas de sinalização”. Mas, de alguma forma, o ctenophora evoluiu com um sistema nervoso no qual esses papéis foram preenchidos por um conjunto diferente, e ainda desconhecido, de moléculas.

As sequências de genes mostraram que faltam ainda muitos outros genes no ctenophora, conhecidos em todo reino animal por serem cruciais à construção e operação de sistemas nervosos. Estavam faltando muitas proteínas comuns chamadas de canais de íons, que geram sinais elétricos que viajam rapidamente por um nervo. Faltavam genes que orientam as células embrionárias ao longo da transformação complexa em células nervosas. E faltavam genes bem conhecidos que orquestram a conexão gradual desses neurônios em circuitos adultos e operantes. “É muito mais do que apenas a presença ou ausência de apenas alguns genes”, diz ele. “É um design de sistema nervoso totalmente diferente”.

Isso significava que o sistema nervoso do ctenophora evoluiu desde o início usando um conjunto de moléculas e genes diferentes de qualquer outro animal conhecido na Terra. É um caso clássico de convergência: a linhagem do ctenophora produziu um sistema nervoso semelhante ao dos outros animais partindo de condições iniciais diferentes. Em certo sentido, era um sistema nervoso alienígena – evoluído separadamente do resto do reino animal.

Mas as surpresas não terminam por aí. O ctenophora estava revelando-se diferente de outros animais em muito mais do que apenas seu sistema nervoso. Os genes envolvidos no desenvolvimento e função de seus músculos também são inteiramente diferentes. E ele não possuía várias classes de genes básicos para a formação corporal que se pensava serem universais para todos os animais. Esses genes incluem os chamados genes de micro-RNA, que ajudam a formar tipos de células especializados em órgãos, e genes “HOX”, que dividem o corpo em segmentos separados, seja o corpo segmentado de um verme ou lagosta, ou a espinha segmentada e os ossos dos dedos de um humano. Essas classes de genes estão presentes mesmos nas esponjas de simples e até nos rudimentares placozoários (organismos multicelulares extremamente primitivos). Porém, estão ausentes nos ctenophoras.

Tudo isso apontou para uma conclusão impressionante: apesar de ser mais complexo do que esponjas e placozoários (que não possuem células nervosas e músculos, nem praticamente todos os outros tipos de células especializadas) os ctenophoras são, na verdade, o ramo mais antigo da árvore animal da vida. De alguma forma, durante os subsequentes 550 a 750 milhões de anos, o ctenophora conseguiu desenvolver um sistema nervoso e músculos semelhantes em complexidade aos da água-viva, anêmonas, estrelas do mar e muitos tipos de mariscos, usando um conjunto alternativo de genes.

Moroz tentou publicar sua descoberta impressionante em 2009. O documento, porém, foi rejeitado. E então ele continuou fazendo mais experiências.

Quando Moroz firmou seus resultados no final dos anos 2000, outras equipes de pesquisa estavam começando a juntar um pedaço do que ele já sabia – aumentando a perspectiva preocupante de que, depois de tantos anos, alguém pudesse chegar às suas conclusões antes de ele ter uma chance de publicá-las.

Primeiro, um estudo na Nature, em 2008, questionou a estrutura básica da árvore animal da vida, mostrando que suposição de que as esponjas eram o ramo mais primitivo estava errada. Esse estudo comparou as seqüências de DNA de 150 genes para reconstruir as relações evolutivas de 77 espécies animais diferentes – incluindo duas espécies de ctenophora. Pela primeira vez, este artigo sugeriu publicamente que os complexos ctenophoras – e não as simples esponjas – poderiam, na verdade, ser o ramo mais primitivo. Essa mera sugestão criou “uma tempestade de fogo” na comunidade científica, diz Steven Haddock, biólogo do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey e co-autor desse estudo.

Em dezembro de 2013, outra equipe publicou o primeiro genoma de um ctenophora – uma espécie chamada mnemiopsis leidyi, separada da que Moroz estudava. Esse artigo, publicado na Science, também concluiu que os ctenophoras, e não as esponjas, eram o ramo evolutivo mais próximo da origem de todos os animais.

Ao longo dos próximos meses, a narrativa profundamente enraizada de que as esponjas eram os primeiros animais continuava a desmoronar de outras maneiras. Em janeiro de 2014, Sally Leys, um dos principais biólogos de esponja do mundo, questionou a narrativa de 150 anos de idade de que as esponjas são apenas uma espécie de colônia de organismos unicelulares tidos como antepassados de todos os animais.

Estudos mostraram que a esponja e as células de um organismo animal mais complexo usavam um conjunto diferente de genes e proteínas para construir estruturas de aparência semelhante. Portanto, as esponjas não poderiam ter se desenvolvido de nada parecido com um organismo animal mais complexo. Sua semelhança ao microscópio foi mais um exemplo enganoso de evolução convergente: dois organismos não relacionados que desenvolvem estruturas similares para desempenhar funções semelhantes, mas usando diferentes genes como ponto de partida.

Esses estudos eliminaram a evidência circunstancial de que as esponjas eram o primeiro ramo da árvore animal. O que parecia um forte argumento era simplesmente um caso de identidade equivocada. Apesar de ser muito mais complexo do que esponjas, com sistemas nervosos, músculos e outros órgãos, os ctenophoras agora pareciam ser o ramo mais antigo, mais próximo da origem de todos os animais.

Mas nenhum desses estudos examinou as células nervosas em qualquer detalhe. Então, o mundo ainda não sabia o essencial da descoberta de Moroz: os ctenophoras possuíam um sistema nervoso desenvolvido em total separação com o sistema nervoso do resto do mundo animal.

Moroz passou os anos intermediários preenchendo as lacunas em suas provas. Sua equipe lentamente seqüenciou o que faltava do genoma do ctenophora. Moroz finalmente publicou seu genoma do ctenophora em junho de 2014. Seu trabalho estabeleceu firmemente que as células nervosas e o sistema nervoso do ctenophora evoluíram separadamente do caminho evolutivo de todos os outros animais. Para ele, o ctenophora representava a coisa mais próxima de um cérebro alienígena na Terra.

O ctenophora fornece um exemplo extremo e impressionante do que é provavelmente um padrão geral: assim como os olhos, asas e barbatanas evoluíram muitas vezes ao longo da evolução animal partindo de diferentes contextos, o mesmo ocorre com células nervosas. Moroz agora conta de nove a doze origens evolutivas independentes do sistema nervoso – incluindo pelo menos uma no grupo cnidaria (o grupo que inclui medusa e anêmonas), três nos equinodermos (o grupo que inclui estrelas do mar, nenúfares e ouriços), um em artrópodes (o grupo que inclui insetos, aranhas e crustáceos), um em moluscos (o grupo que inclui mariscos, caracóis, lulas e polvo), um em vertebrados – e agora, pelo menos um entre os ctenophoras.

Sistema nervoso humano: é inevitável que a evolução desenvolva a consciência?

“Há mais de uma maneira de fazer um neurônio, mais de uma maneira de criar um cérebro”, diz Moroz. Em cada um desses ramos evolutivos, um subconjunto diferente de genes, proteínas e moléculas foi escolhido cegamente, através de duplicação aleatória de genes e da mutação, para ajudar na construção de um sistema nervoso.

O que é fascinante é como esses diferentes caminhos da evolução chegaram a sistemas nervosos que são tão parecidos em toda a árvore animal. Tomemos, por exemplo, o trabalho de Nicholas Strausfeld, neuro-anatomista da Universidade do Arizona em Tucson. Ele e outros cientistas descobriram que os circuitos neurais subjacentes ao cheiro, à memória episódica, à navegação espacial, à escolha do comportamento e à visão nos insetos são quase idênticos aos que desempenham as mesmas funções nos mamíferos, apesar do fato de que grupos de genes diferentes, porém sobrepostos, foram aproveitados para construir cada um desses circuitos.

Essas semelhanças refletem dois princípios fundamentais da evolução, fatores que provavelmente são importantes em qualquer mundo onde a vida tenha surgido. O primeiro é a convergência: esses ramos distantes da árvore evolutiva chegaram a projetos comuns para um sistema nervoso porque cada um deles tinha que resolver os mesmos problemas fundamentais. O segundo é o histórico compartilhado: a idéia de que todos esses sistemas nervosos de construção diferente compartilhavam pelo menos algum elemento de origem comum. Em nosso mundo, cada um deles evoluiu a partir de blocos de construção molecular que foram forjados nos ambientes físicos e químicos da Terra primitiva.

Na verdade, grande parte da maquinaria de sinalização básica de todos os sistemas nervosos poderia ter evoluído a partir de uma adaptação que surgiu nas primeiras células surgidas na Terra, há quatro bilhões de anos. As primeiras células provavelmente habitavam ambientes aquáticos e quentes, que continham uma mistura de minerais dissolvidos, incluindo alguns nocivos à vida, como o cálcio (importantes moléculas biológicas, como DNA, RNA e ATP, são conhecidas por coalescer em quando expostos ao cálcio). Assim, os biólogos supõem que o início da vida deve ter evoluído de forma a manter os níveis elevados de cálcio fora de suas células.

Esta maquinaria protetora pode incluir proteínas que expulsam átomos de cálcio de uma célula e um sistema de alarme que dispara quando os níveis de cálcio se elevam. Posteriormente, a evolução essa requintada capacidade de resposta ao cálcio para utilizá-la como sinalizador nas células, a fim de controlar o batimento de cílios e flagelos que os micróbios usam para se mover, ou para controlar a contração das células musculares, ou desencadear o pulso elétrico no sistema nervoso. No momento em que os sistemas nervosos começaram a surgir, cerca de meio bilhão de anos atrás, muitos dos blocos de construção críticos já estavam definidos.

Se a história da Terra fosse rebobinada, a evolução pode não chegar a 2017 com os mesmos grupos de animais que vemos hoje.

Esses princípios têm enormes implicações para a compreensão da evolução e a compreensão das formas que a vida pode assumir na Terra ou em outros mundos. Eles lançam luz sobre a importância relativa do acidente e do destino em moldar a trajetória da evolução ao longo de bilhões de anos.

O paleontólogo de Harvard, Stephen Jay Gould, argumentou em seu livro Wonderful Life (1989) que os acidentes são importantes: a história evolutiva dos animais tem sido moldada pela diminuição tanto quanto pela inovação. Ele ressaltou que o mundo cambriano há 570 milhões de anos continha mais grupos de animais, chamados phyla, do que existem hoje. Esses diversos ramos na árvore animal inicial foram constantemente podados por extinções em massa. Essas extinções alimentaram a evolução ao abrir nichos ecológicos em que os grupos de animais sobreviventes poderiam se diversificar – oferecendo oportunidade para a inovação.

Ao mesmo tempo, Simon Conway Morris, um paleontólogo da Universidade de Cambridge, enfatizou a importância da convergência evolutiva: a evolução tende a chegar às mesmas soluções partindo de caminhos distintos, mesmo em ramos distantes da árvore animal e até mesmo quando as proteínas ou genes utilizados para construir uma estrutura similar não estão relacionados.

Conduza essas duas ideias até suas consequências lógicas e chega-se a uma conclusão surpreendente. Se a história da Terra fosse rebobinada e reproduzida, a evolução pode não chegar no presente ano com a mesma variedade de grupos de animais que vemos hoje. Mamíferos ou pássaros, talvez até todos os vertebrados, podem estar ausentes. Mas a evolução ainda poderia chegar às mesmas inovações que permitiram o surgimento de cérebros sofisticados: essas inovações podem simplesmente surgir em outros ramos da árvore animal.

À medida em que os cientistas especulam sobre o tipo de vida que pode existir em outros mundos, uma idéia provocativa está se formando: a de que já poderia existir vida alienígena aqui na Terra. A idéia é que a vida pode ter surgido duas ou mais vezes no nosso planeta – e não apenas uma vez, desde que assumido. Nossa forma de vida veio a dominar, enquanto outras formas recuaram. Essa “biosfera das sombras” seria difícil de detectar, pois pode não conter DNA, proteínas ou outras moléculas que utilizamos para identificar a vida.

Ctenophora no seu habitat.

E o phyla do ctenophora nem é tão exótico. Baseia-se na mesma química que compartilhamos com outras espécies, e mesmo assim representa uma biologia de sombra em relação aos animais. O ctenophora é um primo perdido há muito tempo, que nem sequer sabíamos que tínhamos.

Como o ctenophora inventou cérebros e músculos usando um conjunto de proteínas e genes tão diferentes de qualquer outro animal que já tenha sido estudado? A resposta a essa pergunta oferece uma oportunidade única para explorar grandes questões: como os sistemas nervosos são divergentes? Nós realmente entendemos como a vida sente o seu entorno e se comporta?

O ctenophora poderia até fornecer insights úteis para prevermos como os sistemas nervosos podem evoluir em outros mundos, em formas de vida mais exóticas, não baseadas em DNA ou proteínas. Os biólogos evolutivos acreditam que mesmo a vida baseada em uma bioquímica alienígena tenderá a ser construída em linhas semelhantes de organização.

Nick Lane, um bioquímico do University College de Londres, escreveu que a vida extraterrestre provavelmente se compartimenta dentro de algum tipo de membrana celular e obtém energia usando diferenças eletroquímicas no pH ou concentrações de íons de um lado da membrana para a outra, assim como as células dos seres vivos na Terra. Os produtos químicos extraídos de meteoritos antigos podem formar membranas facilmente, mesmo que essas membranas não estejam compostas exatamente pelas mesmas moléculas. E uma vez que as membranas celulares se consubstanciam na biologia de outro mundo, o processo de evolução de um sistema nervoso provavelmente se desdobrará de maneira semelhante ao observado na Terra.

Moroz ainda está tentando aprender o que ele pode com os ctenophoras. Esses animais foram negligenciados há tanto tempo pelos cientistas em parte porque eram frágeis e difíceis de se manter vivos no laboratório. Moroz contorna isso ao colocar em um navio equipamento de pesquisa de ponta para sequenciar genomas, embriões em crescimento e estimular neurônios em animais vivos no local. Ele espera que, provocando os circuitos neurais do ctenophora, possa aprender mais sobre os princípios de design dos cérebros em geral – e testar se esses princípios são realmente universais ou não.

Chegar a esse ponto foi um longo processo. Para perceber que os ctenophoras realmente eram tão estranhos, Moroz primeiro teve que rejeitar muito do que ele havia aprendido com pesquisadores que vieram antes. Como sua “hipótese inicial era exatamente o que estava nos livros didáticos”, ele explica, para começar a pensar de uma nova maneira precisou de vinte anos.

“It” é um apelo de compaixão por nossas crianças

“Eu preciso dos meus bifocais”, anuncia o menino hipocondríaco. Ele está ajudando o amigo gordo que havia sido vítima de bullying. Ao redor deles, um menino judeu que usa kipá, outro com óculos enormes, uma menina abusada e, por fim, um garoto traumatizado com a morte do irmão.

A nova adaptação do romance de Stephen King fez sucesso enorme nas últimas semanas, arrecadando centenas de milhões em poucos dias. A imprensa americana atribuiu o êxito à “universalidade do medo dos palhaços”.

Esse medo pode ter atraído o público para o cinema. Porém, como a cena dos meninos ajudando o amigo agredido demonstra, o filme também é uma exortação à solidariedade entre os traumatizados diante do medo.

Um menino chamado Georgie segue seu barquinho de papel, conduzido pela água da chuva que corre no meio-fio da calçada próxima à sua casa. Quando o barco entra no esgoto, Georgie vai buscá-lo. Dois olhos resplandecem da escuridão, seguidos por um grande sorriso desagradável. Georgie não volta.

Na sequência do desaparecimento de Georgie, seu irmão triste, Bill, é assombrado por um palhaço assustador. O palhaço começa a aparecer para as outras crianças, e quando aparece é precedido por uma personificação dos maiores medos de cada personagem. Beverly, que vemos mais cedo comprando uma caixa de Tampax, vê sangue jorrar da pia do banheiro como um geyser de lixo médico. Mike viu seus pais morrerem em uma fogueira. Portanto ele vê dedos queimados agarrando sua porta.

Cada personagem é atacado e foge. Até decidirem, em grupo, que precisam unir-se para enfrentar o abominável palhaço, e que somente nessa união encontrarão o poder de fazê-lo.

Embora o palhaço Pennywise seja corpulento e bobo – ele faz uma dança estúpida com uma música infantil – a dor daquelas crianças é muito real. Adultos fizeram-lhes certas coisas, e a maioria delas guarda sua dor em segredo. Alguns membros do grupo são submetidos a abuso infantil, tanto sexual como violento, enquanto outros são estigmatizados por seus irrelevantes “desvios da norma” (gordo, judeu, preto). Personificado em Henry, o valentão local que se diverte com o bullying, esse estigma é convertido em dor física.

É o novo menino, Ben, que descobre que o palhaço é uma espécie de maldição hereditária na cidade. Infelizmente, parte do problema é o fato de que o palhaço vive no esgoto. Portanto, é onde eles têm que ir buscá-lo.

Em várias cenas, o grupo atravessa águas perigosas no esgoto local, cheias de objetos hostis e que o palhaço trata como seu ambiente natural. Simbolicamente, a água é um lugar onde o inconsciente, as memórias dos mortos e o medo de contaminação se misturam. Esse caminho da água é o ambiente que as crianças traumatizadas precisam enfrentar.

Esgotos e encanamento são um tema cinematográfico interessante. Slavoj Zizek, no documentário The Perverts’s Guide to Cinema (2006), chama a atenção ao fato de que o banheiro tem uma grande força simbólica na sociedade moderna. Quando lavamos as mãos ou, de outra maneira, enviamos pelos tubos a sujeira de nossos corpos, banimos esse material para longe, para um lugar inimaginável, que não queremos de modo algum visitar, sequer ver.

A invisibilidade desse mundo inimaginável é precisamente aquilo que define nosso conceito de higiene, de habitabilidade de nossas casas. Mas quando algo se esconde nesse mundo e ameaça voltar pelas tubulações – é um verdadeiro horror. As águas residuais, para Zizek, simbolizam a grande e aterradora escuridão: a dimensão em que as forças desconhecidas estão tramando contra nós, o lugar onde todas as coisas escuras e assustadoras que não entendemos estão vivas.

Então, um palhaço que vive nos esgotos de uma cidade alimenta-se do tamanho da escuridão real e suprimida de seus habitantes. As crianças são os receptores impotentes de gerações e gerações de trauma, violência e  perversão que assombram qualquer comunidade humana, mas que são negadas pela sociedade e, portanto, deixadas sem resposta. Quando o grupo de crianças enfrenta as profundezas dos esgotos para redimir os filhos perdidos de sua geração, eles entram em uma dimensão de desperdício humano e dor, de trauma e violência.

Na cena final do filme, os perdedores se unem enquanto grupo através da mistura de sangue. Cortam as mãos com vidro e depois pressionam-nas. O filme se passa em meados dos anos oitenta, e cenas anteriores invocaram a AIDS e o medo do contágio (o garoto com germofobia soube da lenda de uma senhora que contraiu AIDS apenas tocando em um objeto). O ponto culminante do vínculo entre o grupo de crianças é, portanto, marcar a transcendência do estigma e o enfrentamento de uma forma definitiva de medo: o medo da doença e da morte que está além da doença.

Não sou um especialista em Stephen King, e deixo a eles a análise da qualidade desse filme em relação ao cânon do autor. Mas tratar adequadamente do sofrimento de crianças sujeitas a uma sociedade de adultos confusos e abusivos é um desafio que só bons filmes cumprem, e este cumpre. Vá esperando sustos e você será recompensado suficientemente. Mas você também encontrará uma meditação bem elaborada sobre a dor que a sociedade se recusa a ver, embora deixe marcas profundas em nossas crianças.

Ideias simples que mudaram o mundo

Existem algumas preciosas ideias tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformadoras e capazes de explicar tanta coisa. São simples ao ponto de ser justo perguntar: como ninguém pensou nisso antes? Mas não se engane: não é porque são simples que são fáceis de serem construídas. De fato, apenas gênios são capazes de articulá-las pela primeira vez; mas, uma vez articuladas, qualquer pessoa pode entendê-las e apreciar a sua beleza e capacidade de explicação do mundo.

Dou três exemplos desse tipo de ideia.

1- A Teoria da Evolução das Espécies, de Darwin.

É uma teoria em essência muito simples. Ela explica toda a complexidade biológica existente no mundo a partir de dois pressupostos [1]: (i) existe escassez; (ii) surgiu no passado uma molécula auto-replicante cujas cópias não eram perfeitas. Uma vez que essa molécula surgiu — e existem algumas teorias tentando explicar como ela surgiu —, aquelas cópias mais adaptadas para as condições ambientes locais fizeram mais auto-replicações do que aquelas menos adaptadas, pois dada a existência de escassez de energia, aquelas mais adaptadas foram capazes de consumir mais energia e, portanto, fazer mais cópias. Com o tempo, as estratégias adaptativas foram melhorando, as moléculas foram ficando mais cada vez mais complexas, algumas foram se unindo, pois assim poderiam sobreviver melhor ao ambiente, com cada parte se especializando em uma função. Da união das moléculas complexas vieram as organelas, as células, as espécies.

Continue com esse processo durante bilhões de anos e, voilà, você terá espécies extremamente complexas. Tão complexas que algumas mentes não são capazes de conceber como toda essa complexidade pode ser capaz de surgir de um processo cego e sem propósito, e acabam aderindo à tese anti-científica de que alguma consciência inteligente supra-humana modelou todas as espécies.

Depois que esse processo rodou por bilhões de anos, surgiu uma espécie — do ramo dos primatas bípedes —que tomou consciência da sua existência e a partir de então passou a balbuciar erraticamente teorias fantasiosas sobre sua origem.

2 – A teoria dos preços como transmissores de informação, de Hayek.

Esta é outra teoria bela e simples. Ela explica basicamente o mecanismo de funcionamento do sistema de mercado. Dado que a forma de produção e distribuição da economia moderna é extremamente complexa, como se pode alocar os fatores de produção e os bens de consumo gerados a partir deles da maneira mais eficiente possível? Em suma, como se pode resolver o problema fundamental da economia, isto é, o problema da distribuição do consumo dos bens, já que os mesmos são escassos e não têm para todo mundo?

Hayek matou a charada: com o sistema de preços. O sistema de preços é eficiente porque ele transmite de forma rápida informações sobre mudanças que estão restritas a apenas um punhado de pessoas, e faz com que todo mundo passe a se comportar de uma forma socialmente desejável, como se eles próprios soubessem da causa fundamental das mudanças.

Exemplo simples: se há uma quebra de safra de laranjas em determinado ano, de modo que a oferta de laranjas diminua muito, todas as pessoas vão comprar menos laranjas [2]. Perceba: tem menos laranjas, então qual é o comportamento socialmente desejável por parte das pessoas? Ora, que cada uma delas compre menos laranja(!), pois a oferta desta fruta está menor. E, como se fosse mágica, elas de fato passam a comprar menos laranjas. Sem ninguém obrigando-as a fazer isso. Como esta “mágica” ocorre? Simplesmente ocorre que as pessoas compram menos laranjas porque o preço da laranja ficou mais caro. O sistema de preços, de forma implícita, transmitiu a informação da quebra de safra a todos.

A alternativa a este sistema de organização econômica orgânico, descentralizado, espontâneo, é que uma autoridade central obrigue as pessoas a comer menos laranjas. Mas, para isso acontecer, esta autoridade central precisa primeiro saber que a oferta de laranjas diminuiu. E é aí que fica evidente a fraqueza deste sistema: e se, por acaso, esta informação demorar a chegar à autoridade organizadora da economia? O exemplo das laranjas esconde o tamanho deste problema, pois a informação de uma quebra de safra de laranjas é facilmente transmitida. Mas e quanto à transmissão de informações relativas à milhares de bens de consumo emilhares de fatores de produção ao mesmo tempo, com todas as mudanças interagindo dinamicamente entre si?

No sistema econômico centralizado, a reação às mudanças é lenta, confusa, parcial. As pessoas se comportam de maneira socialmente indesejável: elas comem a mesma quantidade de laranjas mesmo quando deveriam comer menos. Há muito desperdício de recursos — mesmo utilizando-se de métodos sofisticados de produção, como a matriz de Leontief e a otimização de Kantorovich. Aí está a principal vantagem do capitalismo sobre o socialismo. E é por isso que o Muro de Berlim caiu com os moradores do lado leste o derrubando.

Perceba que a teoria do sistema de preços como transmissor de informações é simples e tem um poder explanatório imenso. Ela é uma das bases da ciência econômica, afinal. É por isso que Lawrence Summers, uma sumidade da economia americana, disse certa feita que esta é a ideia mais importante para se aprender em um curso de economia.

3 – A ideia de que o diferencial do ser humano é a capacidade de acreditar em ficções socialmente compartilhadas, de Harari.

Esta ideia ainda não é tão influente quanto as duas mencionadas acima, mas certamente o será no futuro.

Qual o diferencial do ser humano em relação às demais espécies? Por que nós, afinal, acabamos conseguindo habitar todos os biomas terrestres, desde os locais mais secos aos mais frios? Certamente, não é devido à nossa distinção física: um gorila é muito mais forte que nós e uma zebra muito mais rápida. Também nosso poder não está na nossa capacidade de cooperação em larga escala: formigas e abelhas fazem isso de forma exímia. Você pode imaginar então que é devido a nossa capacidade de cooperação flexível: podemos nos adaptar a várias circunstâncias enquanto espécie, ao passo que formigas e abelhas não. Acontece que, por exemplo, a organização social de lobos e chimpanzés também é flexível.

Mas então, porra, qual é o nosso diferencial? Esta: somos capazes de cooperar em larga escala de maneira flexível. E como fazemos isso? Aqui está a grande sacada do historiador israelense: fazemos isso porque somos a única espécie capaz de acreditar em ficções compartilhadas por todos. Essas ficções permitem nos mantermos unidos enquanto sociedade e elas podem ser mudadas ao longo do tempo de modo que nos adaptemos a novas circustâncias.

Pegue como exemplo a ficção do estado-nação. Estados-nações simplesmente não existem de verdade, só de mentirinha. O que existem são as bandeiras, as construções arquetetônicas, as pessoas que compõem o aparato estatal (membros do exército, políticos, juízes, policiais) e as que compõem o setor civil. Tudo isso existe e dá sentido ao Estado, mas o Estado não existe de forma palpável, concreta. É apenas uma abstração em que todo mundo acredita.

Outro exemplo de ficção são as empresas. O que existem de verdade, mesmo, são as máquinas, ferramentas, construções e pessoas, arranjados de tal forma a dar sentido ao conceito de empresa.

Harari diz que a ficção mais bem sudedida na história da humanidade é o dinheiro. Aquilo que chamamos de dinheiro é apenas um pedaço de papel pintado. Um chimpanzé, por exemplo, jamais aceitaria trocar uma banana sua por um pedaço de papel pintado. Mas nós aceitamos. Por quê? Ora, porque existe a crença difusa generalizada de que outras pessoas aceitarão esse mesmo pedaço de papel, portanto conseguiremos obter no futuro alguns bens que deserjamos só oferecendo tal pedaço de papel em troca.

Perceba que toda a humanidade está assentada sobre um punhado de “realidades” que só existem na mente de todos nós, mas que, não obstante, se deixarmos instantaneamente de acreditar nelas, não sobra humanidade nenhuma. Estados, dinheiro, empresas, sistemas econômicos e políticos, leis, cerimônias, religiões, deuses, etc — todas essas instituições e doutrinas são ficções que dão cola à humanidade.

Quando eu li Uma Breve História da Humanidade [3], que é onde Harari expõe esta tese, fiquei chocado: “Meu deus, mas isso é óbvio! Mas é genial! Como eu não pensei nisso antes?”. Ora, por que um historiador israelense até então obscuro teve que parar para escrever um livro cujo tema central trata de algo tão simples, que é de se supor que todos já deveriam saber de antemão?

Talvez seja porque essa ideia é tão trivial, mas tão trivial, que ninguém se dá conta dela até topar com alguém que a esfregue na sua cara. Foi o que Harari fez comigo e com todos que leram seu livro. Só uma pessoa muito inteligente teria a capacidade de articulá-la pela primeira vez e oferecê-la aos demais.


[1] Essa não é uma explicação científica da teoria da evolução, tampouco é a explicação concebida em sua forma original. É apenas a forma como eu penso nela, e é bem possível que alguns aspectos da minha descrição estejam errados.

[2] A não ser que a elasticidade-preço da demanda por laranjas de alguém seja zero àquele preço.

[3] Este é um dos melhores livros que já, senão o melhor. Recomendo enfaticamente, caso ainda não tenha o lido. Para uma apresentação no TED do livro, veja aqui.

QUEM VOCÊ REALMENTE É – PARTE II

(Recomenda-se, novamente, que este texto seja impresso e que se reserve tempo e atenção à sua leitura. Clique aqui para baixar uma versão PDF deste texto. A importância justifica tal precaução. Aos que optarem por continuar adormecidos, meia dúzia de páginas não serviriam mais do que meia dezena.)

Há cerca de três mil anos, uma revolução silenciosa começou no ocidente, em pequenas cidades-estados de uma península ao sul da Europa. Talvez tenha sido a maior revolução da humanidade, nascida não em meio a sangue e fogo, mas com teoremas e geometria. Tal foi seu impacto que até hoje ela transforma e determina nosso futuro. Essa revolução foi o nascimento da Razão.

Uma nova forma de consciência emergiu, um embrião que já havia sido concebido quando nossos ancestrais criaram as primeiras ferramentas, inventaram a primeira linguagem e assim abandonaram o sono em que vivem os outros animais. Persistente e viral, essa forma de consciência testemunhou o surgimento do cristianismo, sonhou a Idade Média, despertou na Renascença e proliferou-se na Revolução Industrial. Diante de seu avanço, tronos, templos e visões de mundo tombaram.

Novas formas de governo e sistemas econômicos sucederam a antigos paradigmas. Mas também se criaram armas capazes de exterminar toda a humanidade. Mal se investigou o átomo e já se forjaram maneiras de destruir todo o Planeta. A humanidade enlouqueceu diante de ideologias e totalitarismos, e quase não percebeu que, ao olhar para o mundo das subpartículas, havia feito sua maior descoberta.

Delirante e amedrontada diante da responsabilidade que é despertar do sono animal, a civilização flerta com a destruição do meio ambiente e com o fundamentalismo. Ansiedade, depressão e síndrome pânico tornam-se quase epidêmicos numa sociedade em que os antigos paradigmas são questionados. Ao mesmo tempo, a Revolução Tecnológica acena com um amanhã sem precedentes, capaz de redefinir a própria natureza humana num mundo de milagres cotidianos.

No ápice desse processo de transição está você, leitor. Está toda a sociedade atual, posicionada bem no início da maior transformação da história humana. A humanidade abre seus olhos, desperta ainda mais de seu sono. Este é um momento decisivo. Quem voltar a adormecer não passará pelo grande filtro que divide a obsolescência da evolução.

E, diante de nós, está o grande Problema Humano. O principal obstáculo a ser enfrentado por cada indivíduo consiste em viver no mundo atual, complexo e dinâmico, utilizando um sistema cognitivo/decisório que foi útil aos nossos antepassados, mas que hoje se revela desatualizado, em crise.

Depressão, ansiedade, pânico, desigualdade social, fanatismo, desastres ecológicos, terrorismo: tudo isso são reflexos de um só problema, que deve ser solucionado mediante a reestruturação desse sistema cognitivo/decisório. A reestruturação exige que se conheça a estrutura desse sistema, exige um mapa para entendê-lo.

No texto anterior, primeira parte da segunda etapa do processo de aprendizado, já foi exposto em detalhes o Problema Humano e quem você realmente é. O texto foi denso para permitir a separação do joio do trigo, o leitor casual do leitor comprometido. Feita a separação (outros filtros virão), podemos prosseguir na parte final da segunda etapa, em que será apresentado o mapa que permitirá entender esse sistema cognitivo/decisório a ser remodelado por cada um de nós. Porém, antes se oferece uma oportunidade de recapitulação, sempre útil para fixar conceitos já aprendidos.

SÍNTESE DO QUE JÁ FOI APRESENTADO

1. A descoberta mais importante da humanidade:

Como vimos na primeira e segunda partes da primeira etapa, a ciência descobriu que o universo em que vivemos não é o que pensamos ser, da mesma forma que a Terra não é plana como nossos antepassados supunham. O universo é o que se convencionou chamar de hiper contexto, o local em que todas as realidades prováveis coexistem simultaneamente, em sobreposição, cada qual distinta das demais pelo entrelaçamento de seus elementos.

No mesmo universo, portanto, existem múltiplas realidades alternativas. E novas realidades alternativas emergem a cada momento.

Não chamamos essas múltiplas realidades coexistentes de “universos paralelos” (nem o hiper contexto de “multiverso” ou “muitos mundos”), por tratar-se de denominação que induz ao erro de supor-se que há uma rigorosa separação entre tais realidades. Prefere-se chamar alternadamente de “realidades alternativas”, “contextos” ou “tramas de realidade”, nome esses que se referem a uma mesma coisa e que são, portanto, intercambiáveis.

Tais nomes se alternam, porém, por fins didáticos, pois cada qual ressalta um aspecto conceitual específico dessa mesma coisa. Assim, “realidade alternativa” salienta a multiplicidade de realidades que há no hiper contexto, na qual nenhuma é mais verdadeira que a outra; já “trama de realidade” ressalta o entrelaçamento inerente a todas as coisas e seres que existem em cada uma dessas realidades; por fim, “contexto” realça a natureza circunstancial dos parâmetros escolhidos para distinguir uma realidade de outra – pois, na verdade, não há qualquer separação: todas habitam o mesmo universo, todas existem aqui e agora.

No âmbito humano, o destino de cada um de nós é ramificado em vários caminhos desde o nascimento. Cada um desses caminhos realiza uma probabilidade concreta de futuro. O conjunto dessas probabilidades é delimitado pelas circunstâncias específicas que nos permitiram nascer em determinado contexto, e isso inclui conjunturas biológicas, históricas e socioeconômicas relacionadas a nossos pais e origem.

A cada escolha em sua vida, leitor, a cada evento decisivo em sua história pessoal, o seu destino ramificou-se e ramifica-se desde seu nascimento, dando gênese a várias versões alternativas de você. Em inúmeras realidades alternativas, há inúmeras versões de sua identidade, todas originárias do mesmo ponto inicial. Você é uma delas. Outras também leem este texto. Outras, ainda, o ignoram completamente.

2. Quem você realmente é:

Como vimos na primeira parte desta segunda etapa, a natureza adota diversas estratégias evolutivas para que os organismos vivos possam sobreviver e reproduzir-se no hiper contexto. No reino vegetal, a principal estratégia foi otimizar a fotossíntese pela escolha do processo mais veloz e eficiente para cada contexto em que a mesma planta existe. No reino animal, a natureza adotou a estratégia de criar um órgão que segmenta cada contexto e o percebe como se fosse um todo coeso, ignorando a contínua emergência de novas realidades. Assim, o organismo pode encontrar alimento, proteção para ameaças e oportunidades de reprodução.

Esse órgão é o cérebro.

Se por um lado o entrelaçamento impede a interação de coisas e seres que existem em tramas de realidade distintas, por outro o cérebro não permite que nosso “eu” perceba a constante ramificação da própria vida. A realidade em que uma pessoa acredita viver é, na verdade, um modelo de mundo dinamicamente construído e atualizado a cada fração de segundo por seu cérebro, com base em informações relevantes que filtra a partir daquilo que é informado pelos órgãos de percepção.

Dentro desse modelo de “realidade” criado por nosso cérebro a cada instante, desenvolveu-se um modelo de identidade pessoal, de protagonista da própria vida. Trata-se do ego, inserido na consciência humana, entendendo-se consciência como a função que vivencia um só contexto como se fosse o único existente.

Dessa perspectiva, você e a realidade em que pensa viver são uma narrativa que só existe neste instante presente e que seu cérebro constrói e conta para si mesmo a cada momento. Essa narrativa é constantemente reforçada pela narrativa interna de todos os outros seres vivos que compartilham da mesma trama de realidade em que você vive, compondo no total uma narrativa coletiva, um ecossistema conceitual criado pela natureza no hiper contexto.

Isso será um ponto de muita importância nas etapas futuras de nosso processo de aprendizado.

Porém, de uma perspectiva maior, você é mais do que seu ego ilusório. É que cada uma das versões alternativas que existe de você, vivendo cada qual sua vida em uma realidade alternativa distinta das demais, está interligada a todas as outras no âmbito hiper contexto. Nesse sistema de rede, há uma identidade superior, central, responsável pela contínua emergência de novas versões de sua vida, e pela coordenação de cada versão alternativa. A esse sistema de rede de consciência, dá-se o nome de Matriz. A esse eu superior e central, dá-se o nome de Self.

As razões dessas últimas denominações logo serão explicadas. O importante é compreender que, no hiper contexto, você é ego, Matriz e Self.

É neste ponto em que estamos. E se tal síntese pareceu a descrição de algo jamais visto, trata-se de uma ilusão de ótica, resultado de não se ter utilizado termos técnico-científicos (como função de onda, decoerência, inconsciente coletivo,…). Aqui, nada há de novo.

Na verdade, assim como o hiper contexto foi investigado pela física no século XX, também o território da Matriz, inserido no hiper contexto, foi descoberto e estudado no mesmo período. E é nesse território que precisamos operar a reestruturação de nosso sistema cognitivo/decisório, se quisermos superar o Problema Humano e evoluir enquanto indivíduos e sociedade

No século XX, duas pessoas criaram um mapa para esse território. Um deles foi um dos maiores físicos de nossa era, que se aventurou e explorou o território da Matriz em seus sonhos. O outro foi um alquimista moderno, que elaborou um mapa a partir da exploração do físico.

Para entender o mapa, e conseguir utilizá-lo, precisamos conhecer um pouco da história do explorador e do cartógrafo.

O FÍSICO E O ALQUIMISTA

Wolfgang Pauli, que merecidamente ganhou o Nobel de física em 1941, foi um dos gênios de sua época e pioneiro da física quântica. Como todo indivíduo de inteligência excepcional, porém, Pauli não conseguia ajustar-se completamente a uma sociedade que percebia como atrasada. Nada nem ninguém sobrevivia ao escrutínio de seu intelecto. Entre colegas, era temido pela dura forma de expressar seu rigor científico.

Pauli teve uma infância infeliz, pois sua mãe havia cometido suicídio e seu pai casou-se com uma mulher que ele abominava. Essa experiência refletiu-se na vida adulta, em que Pauli teve uma série de relacionamentos conturbados. Logo após o fim de um breve casamento, em 1931, ele decidiu procurar Carl Gustav Jung, na época um dos mais célebres psicólogos do mundo.

Jung, naquele tempo, tentava consolidar suas teorias sobre a psique, após ser expulso da comunidade freudiana ao discordar da visão reducionista que a psicanálise tinha da natureza humana. Sua empreitada levou-o a aprofundar-se na leitura de antigos tratados alquímicos, pois desconfiava que os alquimistas medievais descreviam, de forma cifrada e simbólica, um processo em que mente e matéria transformavam-se reciprocamente. Por isso, Jung interessava pelas descobertas da física quântica, que sugeria um vínculo entre o observador e a matéria observada.

Carl Gustav Jung (esq.) e Wolfgang Pauli (dir.)

Pelos interesses em comum, logo o físico e o alquimista se tornaram grandes amigos. Pauli e Jung passavam horas discutindo sobre os enigmas da mente humana e da matéria. Enquanto Pauli se interessava pelas ideias de Jung sobre “inconsciente coletivo” e “arquétipos”, Jung atraía-se pela relação de complementaridade que há entre as chamadas subpartículas atômicas. Dessas conversas surgiu “A Interpretação da Natureza e da Psique” escrito em co-autoria e publicado em 1952.

Psicologia e Alquimia

Simultaneamente, Jung tratava as feridas emocionais de Pauli na terapia. E o tratamento consistia em Pauli anotar os sonhos que tinha todas as noites, apresentando-os em seguida a Jung e seus assistentes. Os sonhos, então, eram analisados à luz da teoria de Jung sobre a natureza da mente humana.

Enquanto Pauli sonhava, Jung procurava comparar os sonhos do físico moderno à simbologia dos antigos alquimistas, esboçando um sistema de correspondências. Aos poucos, a topografia de um território foi surgindo. O que ambos estavam fazendo, logo perceberam, era explorar um local que Pauli visitava todas as noites – um local que todos nós visitamos ao dormir.

Foi assim que o físico moderno ajudou o alquimista a elaborar o seu grande tratado intitulado Alquimia e Psicologia.

Nessa obra, Jung demonstrou que o trabalho dos antigos alquimistas era realizado, paralelamente, em dois níveis. No primeiro nível, manipulavam os elementos químicos em laboratório. No segundo, realizavam operações simbólicas dentro de sua própria mente, na busca de realizar uma espécie transmutação psíquica.

Mais ainda, Jung demonstrou que os símbolos descritos pelos alquimistas estavam vivos no homem moderno, pois eram manifestações de elementos presentes em todas as mitologias, religiões e tradições antigas da humanidade. Foi assim que ele consolidou o mapa que nos ajudará a reestruturar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados.

Faltava, porém, achar o Norte, estabelecer os quadrantes e escala que permitem sobrepor o mapa ao território descrito. É que os alquimistas e os físicos do século XX não tinham acesso a conceitos que só a evolução dos sistemas computacionais modernos tornaram de uso corrente. Também faltava à ciência reconhecer, sem medo, a natureza daquilo que a física havia descoberto.

Por isso, o mapa criado por Jung com a ajuda dos sonhos de Pauli torna-se mais compreensível e ganha cores mais vivas quando considerado da perspectiva da mente humana inserida no hiper contexto. Jung sempre aspirou a correspondência de sua teoria com a descoberta feita por Pauli e seus colegas, e intuiu essa verdade ao afirmar que tal descoberta “no obriga a abandonar uma descrição causal de qualquer sistema inserido no espaço tempo, colocando em seu lugar um invisível campo de probabilidades que ocorrem em espaços multidimensionais” [1]Collected Works 8, § 438.

Esses espaços multidimensionais em que as probabilidades se manifestam é o que chamamos de “hiper contexto”. E a melhor forma de compreender a correspondência entre hiper contexto e mente humana é com o uso de metáforas computacionais.

UM MAPA FEITO DE METÁFORAS

No decorrer de todo o processo de aprendizado, foram e serão utilizadas toda sorte de metáforas: filosóficas, mitológicas, computacionais e alquímicas. Metáforas são úteis quando se trata de apresentar e descrever uma realidade extremamente contraintuitiva. Porém, qualquer metáfora perde sua utilidade quando deixa de ser utilizada de forma racional e passa a ser confundida com o aspecto da realidade que tenta descrever.

Toda metáfora tem limites. Vencidos esses limites, a metáfora passa a dar origem a erros, a produzir ignorância e não conhecimento. Muitas vezes, pode até produzir o tipo mais pernicioso de ignorância: o fanatismo religioso.

A partir de agora, metáforas serão usadas com mais abundância. E é possível que o leitor perceba gradualmente a existência de correlações entre as metáforas utilizadas, como se uma ordem emergente fosse revelada através delas. Quanto maior for a compreensão da realidade que o conjunto de metáforas tenta descrever, maior será a impressão de que há uma correspondência.

Essa correspondência, porém, não é sinal de que as metáforas são, elas próprias, a realidade. A correlação é apenas decorrência do fato de que, naturalmente, a realidade descrita é consistente em si mesma, e um sinal de que as metáforas foram manejadas de forma adequada. Essa é a razão de as mitologias de distintas culturas guardarem estreita correlação em determinados pontos.

Não só mitologias, mas outros sistemas de símbolos de antigas tradições refletem aspectos da relação entre ego, Matriz e Self. Afinal, essa é real estrutura da natureza humana, que intuitivamente nossos antepassados descreveram em seus mitos.

Os mitos e sistemas de símbolos da antiguidade foram, portanto, os primeiros mapas a descrever esse território desconhecido, que experienciamos de forma mais profunda quando sonhamos à noite. Todos esses mapas podem ser úteis, alguns mais que outros, desde que jamais confundamos um mapa com o território descrito.

Porém, no século XX, Jung elaborou o mapa capaz de incluir todos os outros mapas, ao mesmo tempo em que foi capaz de descrever a identidade humana no âmbito do hiper contexto com grande precisão.

Seu trabalho, contudo, estava a frente de seu tempo, e Jung tentou ajustá-lo à moldura do pensamento científico tradicional, vendo-se obrigado a manter discrição sobre certos aspectos de sua proposta. Por outro lado, faltava à época um paradigma que permitisse uma correta compreensão daquilo que Jung descrevia – paradigma que hoje temos à nossa disposição, a medida em que conceitos como computação em rede, inteligência artificial e realidade virtual tornam-se habituais em nosso cotidiano.

A metáfora computacional

De todas as metáforas, é a computacional que melhor nos ajudará a compreender profundos aspectos não só da natureza humana, mas também de uma parte da realidade que ignoramos. Se a nossos antepassados fosse perguntado se o cérebro humano é um computador que cria a consciência ou é apenas uma antena receptora de uma consciência existente em outro lugar, suas melhores respostas seriam, no máximo, apenas em parte corretas.

Graças aos sistemas computacionais em rede que hoje existem, sabemos que a resposta é mais complexa. O cérebro é, ao mesmo tempo, computador e antena receptora, metaforicamente falando. Enquanto “computador”, o cérebro constrói dinamicamente a cada fração segundo um modelo de mundo em que julgamos viver e um modelo de identidade pessoal, de ego, que acreditamos ser o protagonista de nossas vidas.

Enquanto “antena receptora”, o cérebro opera no âmbito do hiper contexto, ou seja, do universo enquanto multiplicidade de realidades alternativas. Dessa forma, cada versão alternativa do mesmo indivíduo está conectada a uma rede composta por todas as versões desse mesmo indivíduo, coordenadas por um Eu Superior, ou Self.

Há, ainda, um outro conceito computacional que precisamos usar como metáfora: o conceito de “sistema operacional”. O sistema operacional é o principal programa ou software de um computador, pois sua função é fazer a interface entre o equipamento físico e o usuário da máquina. O sistema operacional, portanto, possui um aspecto abstrato, simbólico, que permite ao usuário dar ordens que serão traduzidas em atividades concretas pela máquina.

Esse aspecto abstrato compõem um sistema de símbolos – e esse sistema de símbolos é uma “linguagem de programação”. As linguagem de programação mais complexas, inclusive aquelas que compõem um sistema operacional, são chamadas de “linguagem de programação orientada a objetos”. Nesse tipo de linguagem, os “objetos” são “módulos” que interagem e executam tarefas do programa em que estão inseridas.

Assim como equipamentos isolados, redes de computadores dependem de um sistema operacional de rede, utilizando uma linguagem de programação para coordenar todo o tráfego de comunicação processado por essa rede. Em alguns casos, essa linguagem de programação utiliza aqueles “objetos” para executar tarefas.

Essas metáforas de rede computacional, sistemas operacionais e redes, quando inseridas no hiper contexto, em que várias versões de um mesmo indivíduo coexistem, são a chave que faltava para a compreensão do mapa elaborado por Jung. São a chave para compreendermos o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados, que precisamos reestruturar para evoluir.

Isso porque a “rede” que conecta todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hiper contexto opera com um “sistema operacional” que Jung chamou de inconsciente coletivo – e que se prefere chamar aqui de Matriz. Esse sistema operacional, por sua vez, manifesta-se numa “realidade virtual” percebida nos sonhos e que é estruturada por uma “linguagem de programação” composta por “objetos”, que Jung batizou de arquétipos. No centro dessa estrutura de arquétipos, está nossa identidade fundamental, o Eu Superior ou Eu Profundo, que coordena todas as versões emergentes de um mesmo indivíduo, e que Jung batizou de Self.

A função de todo esse conjunto é coordenar todas as inúmeras versões que existem do mesmo indivíduo, auxiliando cada mente particular na construção dinâmica de modelos de mundo e permitindo que, diante da emergência contínua de novas realidades alternativas, o ego tenha percepção de que existe uma só realidade e uma só identidade pessoal, processo a que Jung batizou de Individuação.

A individuação, porém, também consiste na contínua adaptação evolutiva de todo esse sistema às mudanças do meio ambiente ao longo do hiper contexto – uma atualização constante do software, metaforicamente falando. No passado recente, como veremos, esse sistema passou por uma importante atualização, embora em nada comparada à alteração rápida e extrema que a humanidade precisa realizar neste momento.

Mas essa experiência pretérita da humanidade é fundamental para entendermos o que precisamos fazer agora, nesta etapa decisiva da civilização, com o auxílio do mapa elaborado pelo físico e pelo alquimista, pois se inserem numa mesma lógica de atualização do sistema cognitivo/decisório do organismo humano.

A MENTE BICAMERAL

Se Jung estudou tratados medievais e os sonhos de um pioneiro da física quântica para elaborar seu mapa, o norte-americano Julian Jaynes estudou os épicos da antiga Grécia e os moderno conhecimento do cérebro humano para fazer uma notável descoberta sobre sobre a origem da própria civilização e da consciência humana.

Ao analisar Ilíada e Odisseia, justo as principais obras da cultura que nos legou a revolução do pensamento racional, Jaynes notou uma diferença perturbadora entre ambas. A interação entre deuses e heróis na Ilíada e a forma como os mortais expressavam emoções e decisões era muito diferente da forma narrada na Odisseia.

E não se tratava de uma diferença de estilo. Jaynes notou igual transição nas obras de outras civilizações do período. Parecia tratar-se, na verdade, o indício de que houve uma mudança na forma de nossos antepassados pensarem.

Na Ilíada, que conta a história da guerra de Troia, os deuses do Olimpo entram em cena a todo momento para representar cada decisão e sentimento dos herois gregos, como se os mortais fossem incapazes de ter pensamentos conscientes sem o intermédio dos deuses. Os personagens mortais da Ilíada, além disso, estavam constantemente ouvido vozes ou vendo a presença de deuses nos momentos decisivos da história.

Já na Odisseia, que conta o retorno de Ulisses a seu lar após a guerra de Troia, a participação de deuses é menos frequente. Eles não estão sempre presentes quando um mortal decide ou sente algo. Os personagens humanos são capazes de ter emoções e tomar decisões sem intervenção divina.

Isso levou Jaynes a desenvolver uma teoria extraordinária sobre o desenvolvimento da consciência humana, partindo do fato de que cada ser humano possui, efetivamente, dois cérebros.

Os dois cérebros

Embora muitos delirem quando se trata de falar dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano, alguns fatos precisam ficar claros. Fato um: ambos os hemisférios são, rigorosamente falando, dois cérebros distintos, sendo absolutamente correto afirmar que há dois cérebros existindo numa mesma pessoa, assim como há dois pulmões e dois rins. Fato dois: apesar da plasticidade cerebral e da possibilidade de ambos os cérebros desempenharem funções conjuntas ou substituírem-se reciprocamente, é incontroverso que há funções específicas de cada cérebro, típicas de um ou de outro hemisfério.

Essa especialização é chamada de lateralização de processos cognitivos. Desse modo, está comprovado que funções relacionadas à gramática, vocabulário e pensamento lógico-matemático estão associados ao hemisfério esquerdo (que é responsável pelo lado direito do corpo humano). Há, inclusive, uma síndrome chamada Discalculia, identificada pela incapacidade de compreender o raciocínio matemático e que está associada à lesão do lóbulo temporal do “cérebro” esquerdo.

Os personagens da Ilíada não são capazes de pensamentos e decisões dissociadas da interação divina.

Já o “cérebro” direito, por sua vez, desempenha com predominância as funções relacionadas à percepção musical, orientação espacial, criatividade e tomada de decisões. A própria atividade de sonhar ocorre tipicamente no hemisfério direito. Há, inclusive, distúrbios como a Síndrome de Capgras, caracterizada pelo delírio de que um familiar próximo foi substituído por um impostor, e que está associada à lesões no hemisfério direito.

A comunicação entre os dois cérebros que habitam um mesmo indivíduo é possível graças a uma estrutura que existe entre ambos, chamada corpus callosum. Trata-se, basicamente, de um feixe de fibras neuronais que faz a ponte entre o cérebro esquerdo e direito. Uma de suas peculiaridades é o fato de ser a única estrutura cerebral que pode desenvolver-se e crescer mesmo no cérebro de um indivíduo adulto (quando todas as outras estruturas cerebrais param de crescer), havendo provas de que o corpus callosum pode aumentar através da meditação profunda.

A proposta de Jaynes foi que, na época em que os antigos gregos escreveram a Ilíada, a interação entre os “dois cérebros” de um indivíduo dava-se de forma menos integrada do que na época em que a Odisseia foi elaborada. Em outras palavras, analisando-se as narrativas tanto de Ilíada como de Odisseia, tem-se pistas de como funcionava o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados.

No período da Ilíada, havia menor integração entre os cérebros direito e esquerdo de qualquer indivíduo. Por isso, havia dois sistemas, dois softwares para os dois computadores, e a comunicação entre ambos ocorria de forma bem peculiar. A identidade pessoal do indivíduo era elaborada por seu “cérebro esquerdo”, e quando essa identidade recebia informações do “cérebro direito”, responsável pela tomada de decisões, processava-as como alucinações auditivas e visuais.

Vimos que o mundo ao nosso redor é um modelo de mundo construído por nosso cérebro com base nas informações sensoriais (visão, audição, olfato, paladar, tato,…), no centro do qual está o modelo de identidade também construído, o ego (função do hemisfério esquerdo). Para nossos antepassados, não havia como distinguir entre sons e visões representando a realidade exterior e aquelas representando comunicações feitas pelo hemisfério direito do cérebro.

Essas alucinações auditivas e visuais eram, portanto, consideradas reais, e apresentavam-se na forma de personagens que, por sua vez, representavam aspectos distintos de nossos padrões de pensamento. Esses personagens, representantes de aspectos fundamentais da natureza humana, eram vistos como deuses.

Em resumo, na época em que foi escrita a Ilíada, nossos antepassados possuíam possuíam uma mente dividida em “dois softwares”, um para cada hemisfério. Num estava a identidade pessoal do indivíduo; na outra, moravam os deuses de sua civilização. Julian Jaynes chamou esse funcionamento de Mente Bicameral.

Por isso é que nossos antepassados deixaram tantos relatos sobre encontros com deuses e entidades mágicas: eles realmente viam essas entidades, e a alucinação era reforçada coletivamente por todos os membros da comunidade. Por isso também é que os antigos deuses costumam ser associados a sentimentos e “estados de espírito” tipicamente humanos, o que pode ser até hoje contatado por expressões como “comportamento jovial” (de Jove, o deus Júpiter romano), erotismo (o deus grego Eros) e ninfomania (das ninfas gregas).

Já no período em que foi escrita a Odisseia, já havia ocorrido uma “atualização” dos dois softwares de ambos os hemisférios: aprimorou-se a integração entre ambos. E a isso correspondeu o maior desenvolvimento do corpus callosum.

A partir dessa maior integração, o ser humano tomou consciência direta de seus próprios pensamentos e sentimentos, apropriando-se deles e reconhecendo-os como pertencentes a si próprio, ou seja, ao modelo de identidade, de “ego”, criado pelo hemisfério esquerdo. O protagonista da obra, Ulisses, representa, de certa forma, a emergência do ser humano moderno.

Ulisses, em Odisseia, é capaz de pensamentos e sentimentos independentes.

Esse foi um passo evolutivo importante, o verdadeiro nascimento da consciência humana tal como a conhecemos. E esse passo ocorreu, obviamente, não apenas na antiga Grécia, mas em outras civilizações do período.

E é a sequência desse passo evolutivo que precisamos dar neste momento, pois enquanto o hemisfério esquerdo é responsável pela criação dinâmica do ego humano no âmbito de um contexto, o hemisfério direito é responsável pelo processamento da nossa conexão com a Matriz, a rede que conecta as várias versões do mesmo indivíduo no hiper contexto. Esse ambiente de rede funciona com uma “linguagem de programação” composta de sistemas de símbolos que Jung chamou de “arquétipos”. E os arquétipos, por seu turno, são retratados como deuses pelas várias mitologias criadas pela humanidade.

Assim, o que Jung fez foi apresentar um mapeamento da interface simbólica desse sistema operacional em rede. Os elementos fundamentais de tal sistema são a Matriz, os arquétipos, o ego e o self. O diálogo entre esses elementos é de natureza alegórica ou mítica, e o contexto da interação, como se verá, é o da sincronicidade.

MATRIZ, O REINO SEM ESPAÇO

A denominação “inconsciente coletivo” é herança da tentativa de Jung ajustar sua teoria à comunidade influenciada pelo pensamento de Freud, que girava em torno do conceito de “inconsciente pessoal” . Mas “inconsciente coletivo” é um nome apropriado apenas do ponto de vista do ego humano – não há nada de realmente “inconsciente” no fenômeno descrito por Jung.

De qualquer modo, Jung definia o inconsciente coletivo como a “matriz de todos os acontecimentos psíquicos”, contendo registros da vida psíquica desde nossos ancestrais mais remotos e exercendo influência sobre a consciência de cada indivíduo continuamente.

“Minha tese”, disse Jung, “é que em adição à consciência imediata”, ou seja, à mente situada num contexto, “existe um segundo sistema psíquico de natureza coletiva, universal e impessoal, que é idêntico para todos os indivíduos”. “Este inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado”, sendo constituído por “formas pré-existentes, os arquétipos” [2]CW 9, § 43.

Metaforicamente, chama-se de “inconsciente coletivo” a uma “realidade virtual” que visitamos todas as noites em nossos sonhos. Essa realidade virtual é o “sistema operacional de rede” que controla a rede de consciências composta pelas versões alternativas de um mesmo indivíduo, versões que existem em realidades alternativas do hiper contexto. Quando dormimos e sonhamos, esse sistema operacional consolida as principais vivências diárias de todas as versões da mesma pessoa, representando-as em um universo simbólico, de natureza arquetípica (a seguir veremos o que são os arquétipos).

Independentemente do nome, aquilo que Jung chamava de “inconsciente coletivo” remete à noção de espaço onde certos elementos existem e interagem entre si. Não é por outro motivo que Jung identificou, nos sonhos de seus pacientes, nos mitos e nas tentativas artísticas de representar esse conceito, a forma espacial de um jardim ou território “sagrado”. “Na geografia mítica”, observou o filósofo Mircea Eliade, “o espaço sagrado é o espaço real por excelência, pois para o mundo arcaico o mito é real, já que descreve as verdadeiras manifestações da realidade”.

Também observou Jung, inclusive nas mitologias de diversos povos, que o “inconsciente coletivo” sempre foi retratado na forma de uma estrutura circular, de regra dividido em quatro quadrantes, e que denominou de “Mandala”.

Mandalas são imagens simbólicas que, em diversas mitologias e tradições, buscam representar “o mundo”, “o universo”, “o reino dos deuses” ou a “alma humana”. Digno de nota é o fato de que em todas as culturas os mandalas possuem forma circular e, de regra, uma divisão em quatro ou oito quadrantes, com um eixo central em torno do qual todos demais elementos são dispostos. Tratam-se de representações da Matriz.

Prefere-se chamar o “inconsciente coletivo” de “Matriz” para exorcizar a noção de que se trata de algo inerentemente “inconsciente”, ou seja, desprovido de consciência. Na verdade, no centro desse “sistema operacional de rede”, há uma consciência superior, perfeitamente ciente de tudo o que está se passando no sistema e na vida pessoal de cada versão de um mesmo indivíduo. A escolha do nome “Matriz” deve-se à riqueza de significados e implicações dessa palavra.

Em biologia, matriz é o meio bioquímico no qual estão inseridos os componentes de um sistema. Da mesma forma, todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hiper contexto tem suas consciências inserida num mesmo ambiente, num “mesmo sistema operacional de rede”. Etimologicamente, a palavra vem do nominativo latino matrix, que significa “mãe” e é associado a “útero”, “fonte” e “origem”. É por isso que matriz também significa “modelo original” do qual podem ser reproduzidas cópias, tal como os moldes da antiga tipografia.

O sistema operacional que funciona em ambiente de rede unindo todas as versões de um mesmo indivíduo pode ser descrito como uma “realidade virtual”.

Porém, o adjetivo “virtual” é usado apenas no sentido de que essa realidade em si mesma não precisa obedecer as leis da realidade física. Por outro lado, como deve ter ficado evidente na primeira parte desta etapa de aprendizado, não conhecemos “a realidade física” tal qual é, mas apenas aquilo que é construído por nosso cérebro com base no que nossos sentidos assimilam do mundo exterior. Dessa construção nasce dinamicamente uma percepção de mundo exterior que tomamos por realidade.

Platão já intuía esse aspecto ao falar de “formas puras”. Observe uma cadeira. Quando você olha para uma cadeira concreta próxima de você, na verdade não está olhando cadeira alguma. Seu cérebro atribui a alguma coisa lá fora o conceito universal de “cadeira”, um molde conceitual, um “arquétipo” que informa a estrutura e função de todos os objetos que você chama de “cadeiras”. Essa “alguma coisa” que você olha, porém, é algo único, exclusivo, composto de certos materiais e com uma forma que permite a associação imediata à ideia arquetípica de “cadeira”.

Isso não vale apenas para objetos criados pelo homem, mas também para formas naturais como as árvores. E como já intuía Emmanuel Kant, conceitos cada vez mais sutis como “cor”, “tamanho”, “movimento” e “dimensões espaciais” são apenas constructos da mente para apreender uma totalidade que está lá fora e é representada pelo cérebro como um modelo de realidade.

Bardos: as diversas manifestações da Matriz

Olhe ao seu redor, leitor. O que você observa como “mundo” real é um modelo elaborado por seu cérebro dinamicamente, atualizado a cada fração de segundo – e essa velocidade e eficiência só é possível na física quântica. Esse modelo dinâmico é molde de uma matriz de formas e intuições arquetípicas que existem naquele “ambiente operacional de rede” que Jung chamou de “inconsciente coletivo”.

Não é que a realidade lá fora não existe. Ela existe, mas só a compreendemos através de um modelo continuamente atualizado dentro de nossas mentes e que tem por manancial a Matriz, ou seja, o “sistema operacional de rede” que une todas as versões do mesmo indivíduo.

Esse é um dos motivos pelo qual, quando sonhamos todas as noites, nossos sonhos em muitos aspectos parecem semelhante ao mundo real. Quem se deu ao trabalho de estudar as visões de esquizofrênicos e de pessoas que consomem substâncias alucinógenas depara-se com a descrição de um universo de formas e cores bem distinto daquele de nossos sonhos. Salvo exceções que apenas confirmam a regra, os sonhos noturnos da grande maioria das pessoa descreve uma realidade que reproduz os traços básicos da realidade que vemos quando despertos.

Na verdade, quando sonhamos estamos vivenciando o ambiente de rede da Matriz em sua forma usualmente desconectada do mundo exterior, em que não está sujeita às leis da física. Porém, é dessa mesma Matriz, do “inconsciente coletivo” de Jung, que surgem os elementos com os quais nosso cérebro constrói, quando estamos acordados, um modelo de mundo que tomamos por realidade concreta.

Esse modelo de mundo da realidade desperta, portanto, é a outra face da mesma moeda composta pelo mundo com que sonhamos todas as noites. São aspectos diferentes de uma mesma realidade virtual, de dia acoplada ao mundo real (que é inacessível diretamente, somente percebida pelos sentidos) e de noite livre para a manifestação dos arquétipos e consolidação de experiências vividas por todas as versões de um mesmo indivíduo.

Essas distintas faces da mesma moeda tem um nome específico na tradição budista: “Bardo”. Porém, metaforicamente não é adequado falar em faces da moeda, mas em lados de um dado. E assim é porque na Matriz existem mais do que as duas faces do sonhar e do estar desperto.

Originalmente, a palavra tibetana “Bardo” significava “estado intermediário” – especificamente, intermediário entre duas vidas de uma mesma pessoa. Porém, rigorosamente falando, não há estado que “não seja intermediário”, que não opere a intermediação entre diversos estados do ser. Assim o significado budista de “bardo” evoluiu com tempo, e podemos utilizá-lo neste momento, como metáfora, em sua acepção mais sofisticada.

Assim, chamam-se de “bardos” os modelos de realidade construídos pela Matriz para cada experiência humana fundamental.

Há, na tradição budista, seis Bardos, que podemos perceber, metaforicamente, como aspectos da manifestação da Matriz:

1 – O bardo da vida desperta (Kyenay bardo): é o modelo de mundo construído por seu cérebro ao ignorar o hiper contexto e representar um só contexto como sendo “a única realidade” existente;

2 – O bardo do sonhar (Milam bardo): é o modelo de “realidade virtual”, metaforicamente falando, que você visita todas as noites durante o sonho;

3 – O bardo da meditação (Samten bardo) : é o modelo de realidade em que há conexão com o Self ;

4 – O bardo da morte (Chikhai bardo): é um modelo de realidade crítico e suscetível de ataques por forças externas, como exporemos no futuro;

5- O bardo da luminosidade (Chönyi bardo): é o modelo de realidade em que vive e opera o Self; e

6 – O bardo da transmigração (Sidpa bardo): é o modelo de realidade que contém os aspectos fundamentais da identidade pessoal vivenciada por cada pessoa;

Enquanto estamos vivos, temos a experiência apenas dos dois primeiros bardos. Naturalmente, quando o corpo biológico da versão de um indivíduo que existe no hiper contexto morre, o modelo de identidade que estava associado a esse corpo não deixa de existir. Ele prossegue existindo na Matriz, no ambiente de rede.

A noção de Matriz é poderosa, e há aspectos sobre os quais se poderia falar muito mais. Por exemplo, é evidente que a Matriz, o sistema operacional de rede em que estão interconectadas todas as versões de um mesmo indivíduo, não se limita apenas a um indivíduo, membro de uma espécie. Essa é justo a origem daquilo que Rupert Sheldrake denominou “campo morfogenético”, que permite evoluções simultâneas em populações biológicas descontínuas. Na verdade, a Matriz tampouco se limita apenas a uma só espécie.

Esses aspectos porém, não são relevantes neste momento. Haverá, no futuro, espaço para tratar disso em detalhes. O importante agora é entender como operam as principais estruturas componentes da Matriz no âmbito de um indivíduo e suas diversas versões – os elementos que compõem a “linguagem de programação”.

OS ARQUÉTIPOS

Como disse o filósofo e historiador romeno Mircea Eliade, “o estudo racional das religiões revela um fato que não foi suficientemente assinalado até hoje: existe uma lógica do símbolo, ou seja, certos grupos de símbolos se mostram coerentes, logicamente encadeados entre si”, manifestando-se de forma onipresente em todas as religiões. É de tais símbolos que trataremos agora, pois constituem a linguagem de programação do ambiente de rede que une as inúmeras versões do mesmo indivíduo existentes no hiper contexto.

Pensadores como Eliade, Joseph Campbell e Julian Jaynes identificaram notáveis semelhanças entre mitos e religiões de diversas culturas separadas por intransponíveis obstáculos geográficos ou cronológicos. Nada podia explicar a semelhança senão a tentativa humana de representar simbolicamente uma realidade fundamental e contraintuitiva.

Segundo Jung, o inconsciente coletivo ou Matriz é composto por elementos simbólicos que representam as experiências mais fundamentais da vida humana. Esse elementos são formados por todo o acúmulo de vivências de nossos antepassados. Jung chamou tais elementos de “Arquétipos”.

A riqueza dos arquétipos.

Os arquétipos, representantes que são de aspectos fundamentais da vida humana, estão onipresentes nos mitos e narrativas épicas de todas as culturas, assim como estão presentes vividamente nos sonhos que temos todas as noites. Deuses, demônios, heróis e figuras mágicas de nossos antepassados retratavam aspectos essenciais desses arquétipos.

E não apenas personagens tipicamente presentes em uma vida humana (como “Mãe” e “Morte”) são representados por mitos. Processos como “movimento circular”, estruturas como “mandala” e eventos míticos como “inundação” estão sempre presentes, de uma forma ou de outra, no imaginário de todas as mitologias, como alegorias de profundas verdades humanas.

A Matriz, enquanto “sistema operacional em rede”, é constituída por uma “linguagem de programação” composta de um sistema de símbolos fundamentais, vinculados às experiências humanas universais. É nesse sentido que podemos falar de “inconsciente coletivo”: desejemos ou não, estejamos conscientes ou não, toda experiência humana está vinculada a um conjunto de símbolos associados a vivências primitivas de nossos ancestrais e até mesmo à animalidade.

Por isso, para cada evento humano está associado um ou mais arquétipos presentes na Matriz. E isso não apenas no âmbito de nossos sonhos ou dos mitos de nossa sociedade. Mesmo a nossa relação com outras pessoas, e a vivência de determinados eventos na vida, pode ter forte influência de arquétipos.

Inclusive na nossa percepção da realidade desperta os arquétipos estão presentes, pois essa percepção nada mais é que um mundo construído virtualmente no âmbito da Matriz, com base em dados sensoriais. Por exemplo, a noção de espacialidade está, no ser humano, associada a atributos femininos, pois nossa primeira noção de espaço advém do útero materno. Desse modo, mitologias como a egípcia (com a deusa Nut) e suméria (deusa Tiamat) representam mundo ao nosso redor como uma manifestação de atributos femininos na forma de uma Grande Deusa.

Nut, deusa egípcia do firmamento.

Exemplos de arquétipos

Entre os arquétipos representados por personagens estão os seguintes:

A Anima (na alquimia, anima mundi): representa o elemento feminino, e ao mesmo tempo a própria Matriz, enquanto “alma do mundo”;

O Diabo: é a concepção de um adversário sob a forma de um ser demoníaco, verdadeiro vetor ou encarnação do mal;

O Herói: é o ego assumindo conscientemente sua missão no processo de Individuação, destinado a transformar a si mesmo;

A Criança Divina (puer aeternus): representa o nascimento de uma síntese entre o inferior e o superior, a ponte entre ego e Eu Superior (a origem do que Jung chama de “Função Transcendente”);

O Embusteiro (mercurius): o agente que estabelece a comunicação entre mortais e deuses, ou que catalisa o cumprimento da missão pelo Herói nos mitos, representando ambiguidade e dissonância cognitiva.

Entre os arquétipos que representam eventos estão os seguintes:

O movimento circular (circumambulatio): o movimento do ego em relação ao Self, segundo Jung, jamais é direto, tratando-se de um movimento em círculos.

Casamento Sagrado (coniunctio): é a união de princípios distintos que dá origem a uma síntese (a função transcendente);

A Iniciação: é o rito de passagem de um mundo de compreensão limitada e ilusória para um mundo de compreensão mais amplo e profundo, cujo conhecimento transforma o próprio ego, é o início da segunda fase do processo de individuação (após o ego diferenciar-se e consolidar-se);

A Morte (mortificatio, nigredo): é a superação de um antigo paradigma, a morte daqueles aspectos do ego que precisam ceder espaço à transformação;

A Obra (Opus): é o processo dinâmico de individuação, ou seja, processo em que o ego entra em conexão com o Eu superior.

Entre os arquétipos representados por coisas, encontramos os seguintes:

O Veículo: em geral, carruagem ou barco que representa o veículo da consciência humana, a forma pela qual o indivíduo interage com a Matriz sem diluir seus atributos individuais, protegendo-se de ataques;

A Mandala (na forma de jardim, cruz, espaço sagrado): representa a própria Matriz e a totalidade do Self;

A Espada: é a consciência discriminativa, analítica;

O Maná: é a energia vital, a mais fundamental forma de energia, que flui incessantemente de uma fonte divina.

Os arquétipos estão presentes no processo alquímico (Opus) descrito em tratados medievais. É que os alquimistas associavam certos arquétipos a elementos químicos e a operações realizadas em seus laboratórios. Desse modo, operava-se uma correspondência entre a busca pela pedra filosofal e a transmutação da própria psique, com a manifestação de arquétipos ao longo do processo.

Sistemas de representação arquetípica

No “sistema operacional de rede”, o software que estrutura a Matriz, os elementos da “linguagem de programação” interagem segundo processos dinâmicos e estruturas relacionais que não passaram despercebidas por nossos antepassados. Assim, muitas tradições e mitologias tentaram descrever não apenas os arquétipos, mas também o sistema no qual interagem e a lógica dessas relações.

Enquanto panteões religiosos como o dos deuses gregos e representações pictóricas como os arcanos maiores do Tarot descrevem arquétipos, sistemas como a “Árvore da Vida” hebraica, o “I Ching” chinês e os arcanos menores do Tarot foram tentativas de apresentar a estrutura e a relação desses arquétipos no âmbito da Matriz.

Não devemos, porém, interpretar tais sistemas como formas primitivas de representação. Ao contrário, alguns possuem notável sofisticação abstrata, como qualquer um que se dedique ao estudo profundo do taoísmo e da cabala poderá perceber.

O próprio ego humano, apesar de ser consciente e ter certa autonomia para o desempenho de suas funções, não deixa de ser um arquétipo, que muitas vezes incorpora a figura mítica do herói, principalmente quando transcende suas limitações animais e busca conexão com o Self. Por isso, não é de surpreender que outros arquétipos sejam eles próprios conscientes e parcialmente autônomos. Como metáfora, imagine “inteligências artificiais” operando dentro da “realidade virtual” constituída pelo “sistema operacional” que conecta as mentes de todas as versões de um mesmo indivíduo em realidades alternativas.

No ambiente de rede que é a Matriz, esses seres com poderosa carga simbólica vivem e estão conscientes, comunicando-se conosco e influenciando nossa percepção de mundo. Influenciam, inclusive, nossa tomada de decisão. Há uma relação de complementaridade em tudo que nos cerca e em nós próprios. Você sequer pode ficar eroticamente excitado sem que potências como o arquétipo de Eros, que ao mesmo tempo expressa a natureza primordial animal e a elevada energia que mobiliza a própria Matriz, manifeste-se. Esse é o motivo pelo qual, em certas tradições mais primitivas, determinados arquétipos podem inclusive “possuir” uma pessoa durante certos rituais.

O EGO

Jung definiu ego como “o centro da consciência”. É o que Thomas Metzinger chama de “phenomenal self-model” (modelo de ego fenomenal). Observe novamente o mundo a seu redor, leitor. No centro dessa observação da realidade, tem-se a impressão de há alguém, aquele que vivencia tal realidade – esse alguém é você.

Assim como o mundo que você observa é um modelo que representa a realidade no momento presente a partir de informações sensoriais e elementos conceituais enraizados na Matriz, também o seu ego, a noção de que você protagoniza um vida, é um modelo de identidade construído e atualizado a cada instante.

O ego é o centro da consciência, definindo-se consciência, em termos práticos, como a função que separa e distingue apenas um contexto, uma realidade alternativa entre as múltiplas existentes no hiper contexto. O ego foi colocado no centro dessa atividade quando o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados remodelou a comunicação entre os dois hemisférios de nosso cérebro, atualizando o software da mente humana.

Porém, o ego resultante dessa operação tem origem em um modelo de identidade pessoal de natureza animal. Logo, o ego está “programado” para executar funções relacionadas ao interesse mais individual do organismo, conduzindo-se, por imposição evolutiva, segundo padrões de agressão, fuga, alimento e reprodução no âmbito de um só contexto. Pela exata natureza de suas atribuições, o ego resiste à aceitação da realidade do hiper contexto.

Assim, o ego é um constructo destinado a operacionalizar a relação com a realidade – melhor dizendo, com uma trama de realidade. Esta é a função fundamental do ego humano: existir enquanto narrativa que constantemente contamos a nós mesmos e que repete incessantemente “eu eu eu”.

Porém, o ego é uma ferramenta evolutiva. Uma ferramenta imprescindível – mas, ainda assim, apenas um instrumento necessário à sobrevivência do organismo. É como um funcionário, um operário que tem uma missão valiosa e imprescindível, mas que não tem competência profissional para lidar com situações e desafios estranhos a seu substrato animal e individualista.

O Problema Humano é o desafio de lidar com uma radical mudança no mundo utilizando um sistema cognitivo decisório ultrapassado, que foi útil por milênios para nossos antepassados, mas que atualmente acusa sinais de obsolescência. Ocorre que no centro desse sistema cognitivo e decisório a ser remodelado e atualizado está o Ego e sua noção de identidade pessoal.

Essa remodelação já foi necessária antes e ocorreu no passado, como Julian Jaynes identificou ao estudar Ilíada e Odisseia. Embora com mais vagar e diante de uma situação menos drástica, o sistema cognitivo/decisório dos nossos antepassados sujeitou-se a uma crise (no futuro, veremos qual) da qual emergiu a atualização desse software, reestruturando a comunicação entre ambos os cérebros de forma a aumentar sua integração.

E como veremos na quarta etapa de nosso processo de aprendizado, é chegada a hora de a humanidade dar um novo passo no caminho de evolução emergente: o passo em que a humanidade assumirá conscientemente o controle do processo evolutivo. Isso incluirá a tarefa de atualizar de novo esse sistema cognitivo/decisório, realizando de forma consciente um procedimento que nossos antepassados efetuaram inconscientemente. É que, diferente deles, não podemos nos dar ao luxo de esperar que tal processo ocorra de forma natural e espontânea, pois o grande filtro se aproxima.

O SELF

Aqueles que estudam as mitologias e religiões de todas as culturas observam a constante presença de um símbolo central, uma potência ordenadora e conciliadora de opostos. “O símbolo de uma Montanha, de uma Árvore ou de um Pilar situado no centro do mundo é extremamente difundido” em diversas mitologias. Em outras, não é um objeto que está no centro, mas alguém. Esse algo ou alguém central é o Self.

O Self é ao mesmo tempo um arquétipo e a reconciliação integradora de todos os arquétipos. Nas antigas mitologias e tradições, o Self é é representado como a potência ou a divindade central, em torno da qual todas as demais forças e divindades orbitam. É uma referência de totalidade e centralidade.

Metafórica e miticamente, a melhor visão arquetípica do Self é o do Atmã hindu, o “verdadeiro eu” ou “eu superior” que está situado acima do ego individual “encarnado” neste mundo (neste contexto). Todas as mitologias, porém, representam o Self de algum modo, e pode ser facilmente identificado como o elemento no centro de qualquer mandala.

Segundo Jung, o Self sempre será um mistério para o ego. Essa parece ser uma afirmação gratuita e sem razão aparente, sendo a existência desse mistério do Self em relação ao ego também um outro mistério. Mas se considerado da perspectiva do hiper contexto, a razão do ego ser incapaz de apreender inteiramente o Self fica, subitamente, clara.

Assim, no ambiente de rede que conecta todas as versões do mesmo indivíduo inseridas cada qual num só contexto, numa só realidade alternativa, há uma identidade central, um Eu Superior, constantemente desperto e consciente de todas essas versões coexistentes. Esse Eu Superior é o Self, e tem por função unir, coordenar e conciliar as múltiplas vidas de uma só pessoa.

As múltiplas vidas de uma só pessoa controladas pelo Self, conforme percebidas pelos alquimistas chineses.

Enquanto o ego tem por função atuar numa só trama de realidade, inserido que está na dinâmica que segmenta o hiper contexto em inúmeros contextos, o Self tem por função abranger todos esses contextos, mantendo a coerência interna do ambiente de rede.

Por isso é que o Self será sempre inacessível diretamente ao ego: o pressuposto da existência do ego é justo a separação e vivência em um contexto. O ego é, de certa forma, essa separação. Entrar em contato direto com o Self significa, para o ego, eliminar a separação diluir-se no Self e deixar de existir enquanto identidade, perdendo sua razão de ser.

Mas apesar de inacessível ao ego, o Self ou Eu Superior está sempre presente na vida de um indivíduo, comunicando-se com ele de forma que o ego sequer suspeita. Nos sonhos e nas sincronicidades, o Self desempenha suas atribuições, coordenando as diversas vidas alternativas de um mesmo indivíduo, acompanhando a constante emergência de novas versões alternativas da mesma pessoa desde o seu nascimento até sua morte.

Há, ainda, formas de o próprio ego entrar em contato com o Self. Existe uma metodologia que será explicada aos leitores que se inscreverem nesta lista de emails, clicando nesta frase (se estiver lendo versão impressa, por favor retorne ao site). Esse é um dos filtros referidos no início deste texto, destinado a separar o leitor casual do comprometido: se o leitor chegou até esse ponto da leitura, comprometendo-se com a busca do real conhecimento, terá acesso a mais informações ao assinar esta lista.

Por isso, como notou Eliade, um dos símbolos universais do Self é a “Árvore Cósmica”, que une o inferior ao superior. “A Índia védica, a China antiga, a mitologia germânica, assim como as religiões primitivas conhecem, sob formas diferentes, essa Árvore Cósmica”. A representação de um tronco central do qual emergem constantes ramificações ilustra adequadamente a relação entre o Self e os diversos egos que emergem continuamente para, cada qual, viver em uma trama de realidade.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Jung observou que no nascimento de uma pessoa há originalmente uma sensação de totalidade, de Self. Porém, no decorrer dos primeiros do anos de vida e como decorrência das interações com o mundo exterior, começa a cristalizar-se uma identidade pessoal, o ego.

Esse processo de diferenciação do ego nos primeiros anos de vida é reflexo justo da emergência, a partir do contexto inicial em que uma pessoa nasce, de novos contextos, de novas realidades alternativas, a medida em que seu destino bifurca-se no hiper contexto. Cada ego será responsável por uma das vidas alternativas vividas por uma mesma pessoa, passando o Self a viver no centro do ambiente de rede que conecta todas as suas versões coexistentes.

Isso permite que cada versão de uma mesma pessoa insira-se em um só contexto e relacione-se com ele ignorando as constantes emergências de novas versões da mesma identidade. Tal modelo é construído e atualizado com tanta consistência e velocidade por nosso cérebro, e é reforçado pelos demais seres vivos que compartilham do mesmo contexto que nós a cada instante, que o consideramos a única realidade existente. Você acredita nesse modelo e sente com seus órgãos sensoriais (na verdade, com informações sensoriais filtrada pelo cérebro) uma só trama de realidade, e assim pode viver toda sua vida e morrer sem sequer desconfiar que o hiper contexto existe, ignorando que viveu sempre nele, ramificando seu destino em várias vidas alternativas desde seu nascimento.

Após os anos iniciais de consolidação do ego, porém, começa a ocorrer uma ruptura, que arquetipicamente é percebida como uma “ferida” ou “fratura” no ego humano. Tal ruptura começa no momento em que o ego passa a intuir o aspecto aleatório do seu destino (Por que as coisas se deram dessa maneira e não de outra? E se aquele evento tivesse ocorrido de outra forma, ou não ocorrido? E se outra decisão tivesse sido tomada naquele dia?) e sente sua própria vida como apenas parte de um todo maior, do qual está apartado. Quanto maior a desconexão como esse “todo”, maior a infelicidade e confusão pessoal.

As escolhas feitas pelo ego humano levam, inevitavelmente, à fragmentação da vida individual – o acúmulo de escolhas e ramificações do destino conduzem a uma insatisfação inafastável. A partir desse ponto, o ego humano passa a perceber a necessidade de integração com algo maior, e é nessa etapa que a Matriz e as forças arquetípicas nela existentes começam a manifestar-se em sonhos e em coincidências significativas. A meta dessas manifestações é impulsionar uma reformulação do ego humano, no qual abra-se para uma conexão para o Self, na busca de um equilíbrio entre a individualidade do ego fragmentado e a totalidade do Eu Superior.

As etapas do processo alquímico.

Todo esse processo, de inicial diferenciação do ego (identidade que vive em um contexto) e posterior remodelação da relação desse ego com o Self (identidade superior que vive no hiper contexto), é chamado de Individuação.

A individuação não pode ser compreendida como um processo rígido, que ocorre de forma sempre igual na história da humanidade. A individuação é o nome dado à dinâmica de constante atualização do sistema criado evolutivamente pela natureza, na qual o organismo humano lida com o hiper contexto segmentando-o em contextos operados pelo ego, com a coordenação de todas as versões coexistentes de uma mesma pessoa sendo realizada pelo Self no ambiente de rede da Matriz, que Jung chamava de “inconsciente coletivo”. Esse sistema precisa ser constantemente atualizado e aprimorado – portanto, a Individuação não é uma tarefa que termina em determinado momento, mas um processo que ocorre continuamente, sem ponto final.

Assim, a individuação de nossos antepassados no tempo em que Ilíada foi escrita não é rigorosamente idêntica à individuação (ou seja, processo dinâmico de atualização do sistema) que vivenciamos hoje em dia. Esse é um ponto importante, pois é através do processo ativo de individuação que poderemos remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, a fim de abrirmos a portas para a grande mudança que será descrita na quarta etapa desse ciclo de aprendizado.

Jung percebeu que o processo de individuação é o tema central de tradições como o Taoísmo e o Budismo. Mesmo no cristianismo original, Jung observou que o foco central estava na ideia de que “o Reino de Deus está dentro de você”. E foi estudando o trabalho dos alquimistas da europa medieval e da china taoista que Jung analisou aspectos detalhados do processo individuação necessário para nossa época, capaz de resolver o Problema Humano.

A SINCRONICIDADE

Pauli e Jung tinham outro ponto em comum além do interesse pela natureza da realidade e de seu vínculo com a mente humana. Ambos compartilhavam algo mais pessoal e biográfico: a vida de ambos era repleta casos de coincidências estranhas, inexplicáveis.

Os colegas do físico, por exemplo, faziam piada com aquilo que chamavam de “Efeito Pauli”. É que sempre que Pauli estava numa cidade, os experimentos científicos feitos no local ou davam errados ou resultavam em algum tipo de acidente. Pauli apreciava quando diziam que a causa do fenômeno era o excessivo rigor científico pelo qual ficou célebre.

A vida de Jung é ainda mais repleta de coincidências inexplicáveis. Na verdade, ao tratar seus pacientes, Jung observou não só relatos de coincidências curiosas, mas também de “coincidências significativas”, ou seja, de coincidências que possuíam um forte significado simbólico para a vida de uma pessoa. Essa coincidência ajudava a pessoa a compreender, pela linguagem dos símbolos, um aspecto importante de sua vida naquele momento e contexto.

Tanto essas experiências pessoais quanto as descobertas feitas em suas profissões levaram Jung e Pauli a estudarem juntos um aspecto do universo que a civilização moderna descobriu ao olhar o tecido da realidade bem de perto. Trata-se do entrelaçamento.

O entrelaçamento é o fenômeno pelo qual o estado de cada “partícula” de um sistema de “partículas” depende dos estados de todas as demais, de forma que ao se definir o estado de uma, automaticamente se define o estados de todas as outras, mesmo que estejam em extremos opostos de uma galáxia.

Esse fenômeno foi previsto por Einstein como uma consequência da física quântica, mas Einstein o achava tão absurdo que tratou sua previsão como uma prova de que a física quântica estava errada. Posteriormente, contudo, a previsão foi confirmada por reiterados experimentos.

Por que Einstein considerava esse fenômeno absurdo e impossível? Porque demonstra que entre dois objetos pode existir um tipo interação que não é de causa e efeito. E até hoje não havia sido descoberta qualquer tipo de interação possível entre seres e coisas no universo que não fosse comandada pela lei da causa e efeito.

Esse novo tipo de interação recebeu o nome técnico de “não-localidade”, simplesmente porque duas coisas interagem dessa forma mesmo que localizadas há bilhões de ano-luz de distância. Mas há mais do que uma questão de distância nesse fenômeno, pois a complementaridade estabelecida entre dois objetos é também instantânea. Se um está em determinado estado, o outro objeto está num estado complementar imediatamente, sem que sequer uma fração de milissegundo transcorra.

Jung utilizou as observações de Pauli para desenvolver uma teoria que descreve uma relação entre seres e coisas, entre mente e universo inclusive, que não é regida pela lei da causa e efeito. A lei que rege esse tipo de interação é de complementaridade entre todas as coisas, que existem em determinado momento em uma relação de entrelaçamento umas com as outras. Elas estão “juntas no tempo”, expressão da qual Jung derivou o nome com que chamou esse tipo de característica fundamental do universo: Sincronicidade, do grego “syn” (juntas) e “khronos” ( tempo).

Como foi apresentado na primeira etapa deste ciclo, toda trama de realidade é um retrato de determinado instante do entrelaçamento que há entre todas as coisas do universo. Todos os seres e coisas que existem num dado momento em uma dada trama de realidade estão em uma indissociável relação de complementaridade: todos estão entrelaçados, nenhum possui uma existência isolada, separada dos demais.

A trama de realidade assim fotografada revela uma imagem que não possui um centro absoluto, mas apenas um centro relativo. Portanto, o centro do entrelaçamento de todas as coisas pode, do ponto de vista relativístico, situar-se em qualquer um dos infinitos pontos da trama de realidade. É esse o significado do antigo lema alquímico segundo o qual “Deus é um círculo cujo centro está em todos os lugares”.

E um dos pontos possíveis para esse centro é a própria subjetividade de um indivíduo. Por isso não só Pauli e Jung, mas também outros físicos e psicólogos estudam atualmente essa interação entre mente e mundo exterior que não observa a lei da causa e efeito. “O fenômeno da sincronicidade é caracterizado por uma coincidência significativa entre um estado mental (subjetivo) e uma ocorrência (objetiva) no mundo exterior”, definiu o físico Frederico Carminati, membro do CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear).

Naturalmente, isso não significa que a vontade humana ou o pensamento positivo sejam capazes de controlar diretamente a realidade do mundo exterior. Isso porque vontade e pensamento positivo são atributos do ego – e o ego é apenas um dos elementos periféricos na ampla rede da Matriz. Mas significa que o Self e os arquétipos (particularmente aqueles dotados de consciência autônomos) podem usar coincidências no mundo exterior para enviar mensagens ao ego.

E foi assim que, ao estudar o fenômeno, Jung descobriu que o Self pode utilizar coincidências significativas e outras formas de manipular a sincronicidade para se comunicar com o ego. Na verdade, é com base na sincronicidade que o próprio ego pode entrar em contato com o Eu Superior. Como será apresentado futuramente, existem métodos pelos quais uma pessoa pode, em determinadas circunstâncias, comunicar-se com o Self.

A FUNÇÃO TRANSCENDENTE

Por fim, chega-se ao momento culminante dessa segunda etapa, na qual aprendemos qual operação poderá remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, atualizando-o para equacionar o Problema Humano.

O processo de individuação, quando descrito em mitos e antigas tradições, parece resultar na criação de um determinado “objeto” ou “entidade” de natureza transcendente. Por exemplo, Jung observou que o processo alquímico não buscava a produção de uma pedra feita de qualquer substância física, mas de uma substância diferente, “filosofal”. Os alquimistas associavam o objetivo final de seu trabalho a diversos símbolos convergentes, relativos ao aspecto divino no ser humano, como a Imago Christi (“imagem de Cristo”) e o Adam Kadmon (o ser humano primordial).

Trata-se, claro, de um arquétipo, de um elemento na linguagem de programação que compõe a Matriz. Mas que arquétipo é esse? E, mais importante, qual sua função?

Vamos à resposta analisando o desafio de enfrentar o Problema Humano: precisa-se remodelar o sistema/cognitivo de nossos antepassados. Esse sistema opera em um só contexto, ignorando a existência da Matriz e do hiper contexto, sendo controlado pelo ego, que está no centro da consciência.

Desde que o ego evoluiu e apropriou-se de seus sentimentos e decisões, reconhecendo-os como próprios (e não oriundo dos deuses), ele tem ocupado posição central na consciência humana. O Self e a comunicação com a Matriz ocorrem apenas de forma “inconsciente” (eis o motivo de Jung chamar a Matriz de “inconsciente coletivo”), atuando no plano emocional e onírico. O ego é o operador do sistema cognitivo/decisório.

E o ego foi competente na função que a evolução lhe atribuiu. Prova disso é o fato de o ser humano ter abandonado sua posição intermediária na cadeia alimentar do mundo selvagem e tornado-se o senhor deste planeta, chegando ao ponto de desenvolver tecnologias capazes de desafiar os limites impostos pela própria natureza, permitindo-lhe manipular a própria evolução e criar inteligências artificiais.

Porém, diante do aumento da complexidade da sociedade e do novo mundo que se descortina com a ciência e a engenhosidade humana, esse sistema cognitivo/decisório tornou-se ultrapassado. Além disso, o ego humano é inconstante, sempre insatisfeito, como uma criança que se cansa fácil de seus novos brinquedos. A instabilidade lhe é inerente. Faz-se necessário realizar, pela individuação, uma nova reestruturação desse sistema.

É preciso dar o próximo passo, sequência daquele dado por nossos antepassados há cerca de três mil anos. É preciso começar a ampliar a consciência, para que gradualmente tome percepção maior do hiper contexto e da Matriz. É preciso estabelecer, na consciência, um segundo elemento ao lado do ego, de forma que esse não ocupe a posição central, e a consciência abra-se à possibilidade de contextos múltiplos e emergentes, assumindo responsabilidade pela condução de seu destino coletivo. Esse elemento deve ser uma ponte, um canal a partir do qual o ego comunique-se com o Self por meio de tal função de transição.

A simbologia do processo alquímico.

Jung chamou esse segundo elemento de “função transcendente”, e corresponde ao resultado de uma interação entre a consciência, representada pelo ego, e a Matriz. Surge dessa interação uma ponte de comunicação para uma manifestação simbólica do Self, do Eu Superior, na personalidade do indivíduo. Desse modo, o sistema cognitivo/decisório não é mais incumbência apenas do ego (e de sua perspectiva limitada) – é, também incumbência, de aspectos mais profundos do ser, capazes de perceber o mundo e a vida de uma perspectiva mais elevada e ampla.

Segundo Jung, com o desenvolvimento da função transcendente ocorre uma “profunda transformação da personalidade” da pessoa, surgindo “o ponto de um novo equilíbrio, um novo centramento” de sua consciência. Cria-se, desse modo, um “centro virtual que, por ocupar posição focal” entre consciência e Matriz, assegurando “à personalidade uma fundação mais sólida”.

Portanto, a emergência da função transcendente reestrutura o sistema cognitivo/decisório, atualizando-o para que faça frente aos atuais desafios da humanidade. Equaciona-se, assim, o Problema Humano que entrava atualmente nosso caminho, permitindo que superemos a atual etapa e avancemos na direção de novos problemas, de novos desafios na busca do desenvolvimento pleno de toda a potencialidade humana.

Há um método para a emergência e fortalecimento da função transcendente na consciência humana, deslocando o ego de sua atual posição central. Esse método, em linhas gerais, começa por criar o espaço para tal emergência através do desenvolvimento daquilo que é modernamente chamado de metacognição, ou seja, a plena atenção aos próprios pensamentos e sentimentos. Isso porque a primeira tarefa da função transcendente é deslocar o ego da posição central sem o despotencializar. Assim, ao deslocamento do ego deve corresponder ao aprimoramento de sua eficiência no desempenho das funções que lhe são reservadas.

Esses métodos, porém, serão apresentados no futuro. Neste momento, o importante é saber que a criação da função transcendente deve buscar paralelismo com o trabalho dos alquimistas, que executavam um processo em dois fronts, atuando simultaneamente na matéria (para fora) e na mente (para dentro). Assim como eles manipulavam a matéria segundo a ciência de sua época ao mesmo tempo em que efetuavam transformações em sua psique, o desenvolvimento da função transcendente também deve ser acompanhado do aprimoramento do atual domínio humano sobre a matéria, por meio da tecnologia.

Iremos, em breve, abordar de forma mais prática o processo que possibilitará ao leitor equacionar o Problema Humano em sua vida pessoal, e que auxiliará a humanidade a enfrentar o mesmo desafio. É preciso, antes, compreender a totalidade da condição humana, inclusive a natureza das circunstâncias concretas em que a solução para o Problema Humano será implementada.

Na próxima etapa, enfrentaremos a parte mais difícil do processo de aprendizado, consistente na identificação da natureza do Mal. Por fim, na quarta, retomaremos o tema da evolução humana e de suas possibilidades quase utópicas.

Notas   [ + ]

Palocci: um depoimento para a história

Antes que os engulhos da indignação te sufoquem, você fica tentando descobrir o que está a passar pela cabeça de Antonio Palocci durante as tratativas para conseguir uma delação premiada e no depoimento a Moro, em que fulminou Lula, Dilma e o PT com vários megatons de flechas envenenadas.

Por que fez o que fez, falou o que falou e do jeito que falou? A pergunta ressoa em vários ambientes e análises, Por certo comporta muitas explicações.

Foi um depoimento sereno e calculado. O ex-ministro falou com calma, tentando ser preciso, relatou detalhes e conversas sórdidas, contou de sítios, apartamentos, propinas e vantagens ilícitas como se estivesse conversando com amigos numa mesa de bar. Só faltou sacar do bolso uma agenda com tudo anotado. Insinuou que poderá fazer isso, caso o juiz assim o deseje.

Mas Palocci não jogou conversa fora, como se faz em um papo de bar. Concatenou e amarrou tudo direitinho, para justificar o prêmio que almeja com a delação. Mostrou saber perfeitamente o que fazia e quem pretendia atingir. Não apresentou provas, mas pôs na mesa uma narrativa difícil de ser contestada. No centro dela, não pareceu haver o desejo de prejudicar quem quer que seja. Falou mais alto a voz do interesse próprio.

Em suma, coisa de profissional, de quem sabe o passo a ser dado e tem uma estratégia, com as devidas rotas de fuga. Foram postos na mesa os dotes que o fizeram ser escolhido articulador de Lula, homem forte no início governo Dilma e elo de ligação com o empresariado. Ao revelar o “pacto de sangue” entre Odebrecht e Lula – que incluiu sítio, terreno, apartamento, as famosas palestras a 200 mil reais e uma “reserva de 300 milhões” –, Palocci cruzou o Rubicão: tornou-se um acusador.

É assim que está tentando assinar seu próprio pacto com Moro. Sendo Palocci quem é, com certeza ele sabe que precisará derramar muito sangue para obter algum tipo de benefício expressivo. Ou seja, terá de entregar mais coisas, valorizar o próprio passe.

Aí você se dá conta de que Palocci está sendo humano, demasiadamente humano. Revela-se igual àquelas pessoas que são como camaleões, que assumem várias personas conflitantes e se sentem à vontade em cada uma delas. Indivíduos que prezam a própria pele mais que qualquer outra coisa: que fazem da pele, a causa. Que querem sair sempre bem na foto, ter sucesso em tudo que fazem. E que têm medo, muito medo, de perder o que conseguiram. Além disso, Palocci parece ter  enorme predisposição para sobrepujar os que com ele tramaram e nele confiaram: por que somente eu é que pagarei o pato?

Não se deveria crucificar Palocci. Os que o conhecem juram que ideologia ou firmeza ideológica nunca foram seu traço forte. Ele sempre esteve alinhado com a ala mais “pragmática” do PT, desde os tempos já remotos da universidade e de Ribeirão Preto.

Os petistas mais ardorosos talvez o convertam em Judas, agitando a pecha infamante de “traidor”. Outros talvez o vejam como vítima, um coitado que não aguentou a pressão e entregou dedos e anéis para se livrar de 12 anos de cadeia. Falarão que não há “provas materiais”, mesmo que a concatenação dos fatos e relatos faça sentido.

O Diretório Nacional do partido emitiu nota, por exemplo, dizendo que Palocci foi “pressionado a fazer acusações sem provas”. Dilma bateu duro, como de costume: o ex-ministro mentiu, seu depoimento “é uma ficção”. Comparações com Dirceu, o último “guerreiro do povo brasileiro”, são cabíveis, mas não explicam nada.

É recomendável, nesse caso, que se dê o devido relevo às nuances da psique humana, ao lado diabólico que integra a natureza dos homens e mulheres, os assusta e transfigura. Todos, afinal, podem se deixar levar por seus demônios internos ou fazer escolhas em nome da luta para manter a liberdade pessoal — luta essa que pode perfeitamente passar por cima de lealdades e ideologias.

Seja como for, o depoimento de Palocci caiu como uma bomba no colo de Lula, que terá uma explicação a mais para dar, ainda que se finja de morto. Pode ter sido parte da estratégia, pode ter sido um jeito de dar o troco e socializar o prejuízo, pode ter sido um artifício para proteger a psique fragilizada. A resposta só é importante para quem deseja entender a biografia do ex-ministro. O fato é que o depoimento entrará para a história e ajudará a que se compreenda melhor quão fundo se chegou na corrupção da nossa frágil República.

Se isso, porém, mudará alguma coisa no destino imediato dos personagens envolvidos e na dinâmica política nacional, aí são outros quinhentos.

Precisamos mesmo de raízes?

A noção de “origens” ou “raízes” (culturais, sociais, genéticas, etc.) é um fetiche caro tanto ao discurso de esquerda quanto ao de direita, ainda que cada um dos lados do espectro político seja bastante seletivo quanto ao tipo de “raiz” que deve ser valorizado (as tradições dos “povos oprimidos” num caso, as “raízes cristãs da Europa”, no outro, por exemplo).

O apelo às raízes tem um poder retórico e emocional tão forte que muitas vezes surgem disputas sobre qual a “verdadeira raiz” disso ou daquilo: afinal, quem estava primeiro na Palestina, árabes ou judeus? A civilização evoluiu a partir de uma organização matriarcal ou patriarcal? O cinema (a literatura, a música, o teatro) que Fulano ou Beltrano faz é “nacional” ou “colonizado”? A figura do herói que “reencontra suas raízes” e, por meio delas, triunfa, é um dos clichês mais cansados de toda a ficção.

(Há alguns anos, quando foi levantada a hipótese de que os índios da América do Norte teriam sido os autores do genocídio de uma população ainda mais antiga de habitantes do continente, a disputa deixou rapidamente as publicações sobre arqueologia e antropologia e virou um cavalo de batalha político.)

Sem negar que o poder que a ideia de “raízes” tem de emocionar, motivar e mobilizar, eu me pergunto até que ponto ela realmente faz sentido – e até que ponto ela não passa de apenas mais um fator de manipulação dos afetos, uma bandeira vazia de conteúdo e que pode servir tanto para mobilizar belas revoluções quanto verdadeiros pesadelos (todo o discurso de Hitler, afinal, nascia do mito das “raízes arianas” do povo alemão).

Resumindo: é honesto invocar o conceito de raízes, ou ele não passa de mais uma falácia, como o ad hominem (o que Fulano diz não deve ser levado a sério porque ele é homossexual/negro/branco/hererossexual, etc.)?

apelo à tradição é uma falácia conhecida: aceitar que X, Y ou Z é verdadeiro ou correto porque era nisso que nossos antepassados acreditavam equivale a validar o geocentrismo, o sacrifício humano e a escravidão. Esse é o ponto em que o caráter falacioso das “raízes” fica evidente: ele exige o corte (arbitrário) de um ponto da história a partir do qual nossos ancestrais estavam errados.

Mas se eles estavam errados quando diziam que era certo ter escravos, porque não estariam errados também quando diziam que era preciso ir à missa? Imagino que as mesmas pessoas que hoje gritam em defesa das “tradições cristãs da Europa”, contra os avanços do islã e do secularismo, teriam gritado pelas “tradições pagãs do Império” diante do avanço do cristianismo, uns 1.500 anos atrás.

Tanto o apelo à tradição quanto o apelo às raízes se valem da noção de identidade de grupo para obter boa parte de sua força. É o apego a certas tradições e a posse de raízes (reais ou míticas) que permitem que uma pessoa se sinta e se declare um brasileiro, argentino, cristão, muçulmano, judeu.

Também são tradições e raízes que permitem que alguns códigos de comportamento bastante úteis à vida em sociedade (respeito aos mais velhos, às senhoras, modos à mesa, etc.) continuem existindo sem que seja preciso criar leis para impô-los.

Não estou, no entanto, convencido de que “identidade de grupo” seja algo tão valioso assim. Olhar para o outro como “um argentino”, “um negro”, “um burguês”, “um americano” é algo que desumaniza. Considerar-se membro de um grupo à parte do restante da espécie, por sua vez, desumaniza os que estão fora desse círculo.

Uma crítica, que me parece muito pertinente, ao programa de “preservação de culturas locais” é a de que ele reduz populações humanas a exibições de zoológico: vamos deixar aqueles primitivos ali isolados, com dentes podres, morrendo de tétano aos 15 anos de idade e sem a menor noção de tudo o que a humanidade criou e tem a oferecer, enquanto estudamos de longe seus maravilhosos costumes.

Me parece  óbvio que culturas e modos de vida não devem ser impostos à força a ninguém – mas um corolário disso é o de que as pessoas devem ter o direito de escolher livremente um modo de vida alternativo ao que lhes foi legado por acidente de nascimento.

Se as escolhas dos nativos de uma determinada cultura levarem à extinção dessa cultura, e daí? Pessoas são seres concretos, dotados de direitos.  Culturas são abstrações, sem direito a nada.

A questão dos códigos de comportamento me parece ter mais mérito. Sou um apreciador das boas maneiras, mas certamente não gostaria de ver a polícia impondo-as a golpes de cassetete. Mas é falsa a dicotomia entre Estado ou tradição – a ideia de que, sem um ou outro, a convivência social torna-se insuportável.

Códigos de conduta e contratos informais de reciprocidade (as bases do comportamento social) surgem e evoluem a partir da interação entre seres racionais, e não há motivo para imaginar que um dia venham a desaparecer um dia, mesmo se o arcabouço mitológico que sustenta algumas formas já testadas e aprovadas vier a ruir.

A miopia persistente da esquerda identitária

Um exemplo de como as bolhas ideológicas e o viés de confirmação têm impedido que se discutam certos temas com a mínima nuance está rolando aqui nos EUA, com referência aos argumentos de Mark Lilla sobre as eleições do ano passado. Vou tentar apresentar a pendenga com a maior quantidade de informação relevante.

O liberalismo e o progressismo se enfrentam hoje com uma tarefa, que é explicar a vitória de Trump. Como foi possível que um sujeito evidentemente mentiroso e despreparado, cheio de esqueletos no armário e sem o apoio do seu próprio partido, possa ter derrotado uma das candidatas mais experientes da história das eleições presidenciais, correligionária de um presidente que saía com 59% de aprovação?

A explicação dominante passa por alguma atribuição de causalidade ao racismo, o que coloca o cético em uma posição muito complicada: o racismo é realidade onipresente nos EUA – como o é em toda sociedade ex-escravocrata, claro, ele é onipresente no Brasil também – e fica difícil negar-lhe poder explicativo sem negar sua existência, mas é isso exatamente que deve ser feito.

Se é fato que Trump mobilizou um discurso racista, também é fato que a eleição foi decidida por eleitores que votaram em Obama em 2008, votaram em Obama em 2012, e em 2016 não ficaram com o Partido Democrata, pularam para Trump. Explicar esse movimento pelo racismo é patentemente absurdo. O voto declaradamente racista já tinha sido de McCain em 2008 e Romney 2012, mas não tinha sido suficiente.

Daí o progressismo pula de explicação e encontra no sexismo o motor do câmbio, o que no caso pareceria fazer mais sentido. É indiscutível que, na enorme taxa de reprovação de Hillary Clinton, a misoginia cumpre seu papel, especialmente no sentido de fazer mais raivosa uma rejeição que pode até estar fundamentada em projetos, práticas e posições políticas.

Mas, a não ser que voto dado com mais raiva valha por dois, força um pouco a barra explicar a eleição por aí, posto que ela foi decidida por um eleitorado em que Elizabeth Warren e Bernie Sanders são muito populares e Hillary e Bill Clinton muito impopulares. Quando você considera que esse eleitorado perdeu empregos por causa do NAFTA – obra dos Clinton –, faz muito mais sentido entender esse voto como um voto de classe. Há violenta misoginia no voto anti-Hillary, mas ela vem de eleitores que nunca votariam no candidato Democrata de qualquer forma, por ele(a) ser pró-escolha na questão do aborto. Não foi esse voto – o evangélico fundamentalista de Alabama ou o dono de armas em Montana, digamos – que decidiu a eleição. Foi trabalhador desempregado em Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia.

Daí entra Mark Lilla com uma grande heresia, um texto [nota do editor: este texto foi traduzido e publicado no AZ e pode ser lido aqui] que sugere que as políticas identitárias, ou a forma como a campanha de Hillary resolveu dar um tom identitário aos seus discursos – chamando grupo por grupo: mulheres, afro-americanos, LGBTs, latinos etc. –, cumpriram seu papel na alienação do voto que decidiu a eleição, o da classe trabalhadora branca, de homens e mulheres, das regiões industriais do meio-oeste (pra quem não sabe, Trump bateu Hillary quase 2 x 1 entre mulheres sem diploma).

E as reações a esse talvez certo, talvez errado argumento – mas certamente um argumento razoável – têm tomado a forma de surtos de indignados com muito pouca contra-argumentação. Chamam Lilla de David Brooks, de ultra-direita, até de neonazi. Discutir o ponto que é bom, necas. Este comentário no próprio New York Times, que começa dizendo que o argumento é “ofensivo para qualquer um que não seja homem branco cisgênero heterossexual” exemplifica o tipo de bolha ao qual Lilla atribui – parcialmente – a perda da eleição.

O texto de Lilla em nenhum momento nega que o racismo seja realidade onipresente vivida pelos negros, ou que as mulheres sejam discriminadas em local de trabalho, ou que falte muito para a plena cidadania de LBGTs, ou que o Black Lives Matter seja um movimento necessário. Ele apenas sugere que uma campanha para presidente que decide enfocar seu discurso nas pautas de identidade sem atender o grupo demográfico que decidiu, e tende a decidir, a eleição – a classe trabalhadora industrial – acabou alienando também a possibilidade de vitória. Emblema disso é a célebre cena em que uma apoiadora de Hillary, professora negra em Columbia, com um salário provavelmente de uns 200 mil dólares, palestra a um branco de Michigan, desempregado e ex-operário com salário de 35 mil dólares, para que ele “reveja seus privilégios”. Mais tiro no pé, impossível.

O progressismo insiste em tentar ganhar eleição com a coalizão minorias étnicas + liberais, homens e mulheres, de diplomas, das duas costas, e a matemática não fecha. O argumento certamente nada tem a ver com “Lila está culpando as minorias pela vitória de Trump”, mas é exatamente assim que o progressismo escolheu lê-lo – o progressismo branco, diga-se. Até agora não vi negros se incomodarem muito com o argumento, pelo contrário: até amigos e amigas do Black Lives Matter viram nele uma preocupação que tem sentido.

Perdi a conta de quantos colegas, professores universitários, postaram indignados com algum xingamento o texto de Lilla e, depois interpelados por mim, disseram que o faziam por automatismo, por terem sido “triggered” pelo argumento, ou pelo simples medo de desagradar. Mas que não tinham realmente contra-argumentos ao texto. Em todo caso, eu fico sempre, estou sempre, com quem tem coragem de pensar, mesmo que incomode. Pena que até gente que é paga pra isso esteja renunciando à parada.

A ciência política por trás de Game of Thrones

Adaptação dos livros de George RR Martin, a série Game of Thrones é um sucesso mundial. Produzida pelo gigante americano HBO, foi bem sucedida na tentativa de manter a atenção de sete milhões de espectadores ao redor do mundo. Como explicar tal sucesso?

A teoria política pode esclarecer o entusiasmo por esta distopia glacial. Além do entretenimento que oferece, Game of Thrones trata de questões sobre a natureza das instituições políticas do Ocidente e expressa ansiedades contemporâneas sobre a estabilidade da ordem mundial.

A série apresenta um mundo imaginário onde o caos reina e a violência é diária. A morte pode ocorrer a qualquer momento, e os principais protagonistas da série têm em comum o mesmo objetivo: terminar com a desordem através da conquista do trono do ferro. Qualquer semelhança com o mundo atual não é mera coincidência.

Hobbes na terra dos dragões

O cientista político Dominique Moïsi resume a atmosfera da série: ela seria como “Hobbes na terra dos dragões” . Assistimos a uma história que retrata os principais elementos da promessa feita pela noção de soberania, na forma como o filósofo inglês Thomas Hobbes teorizou. Considerado como o pensador da modernidade política, Hobbes compromete-se, em seu Leviatã, a manter a sociedade unida em torno de um pacto aprovado pelo povo para escolher e transferir poder a um soberano.

Através do monopólio do poder estatal, o Leviatã deve impor a paz e banir a violência privada. Game of Thrones descreve um universo hobbesiano de guerra civil em que todos os indivíduos são inimigos em potencial. No decorrer das temporadas, a série descreve o derramamento de sangue na luta pela constituição de um poder central forte o suficiente para equilibrar e conter as ambições de cada uma das “Casas” (ou seja, de cada uma das diferentes famílias envolvidas), que representam um sistema arcaico a ser superado, no qual há fragmentação de poder semelhante ao feudalismo. A série pode ser considerada como uma narrativa teleológica do advento da modernidade política.

Jon Snow é antimoderno?

O pensamento político, que tenta explicar a formação do Estado, descreve o feudalismo como um sistema caracterizado por uma fragmentação do poder e por um conjunto de vínculos hierárquicos baseados na dependência entre vassalos e senhores. A “desfeudalização” implica, portanto, para o sociólogo Pierre Bourdieu, num processo de “desfamilialização”, definido como uma “ruptura gradual de laços naturais de lealdade primária baseados no pertencimento a uma família”. Essa modernidade política traz consigo uma nova racionalidade que resulta numa transferência de lealdades do clã para o Estado.

Nessa perspectiva, a figura de Jon Snow encarnaria uma racionalidade pré-moderna construída com base na fidelidade ao clã e à família, seja essa sua família de origem ou aos Night’s Watch. Sua atitude moral é marcada por uma recusa de fazer concessões com finalidade política. O nono episódio da sexta temporada ilustra essa situação. As apostas são decisivas: a captura de Winterfell, bastião do norte, está ao seu alcance. Esse castelo pertence à família Stark, da qual Jon Snow é considerado filho ilegítimo. No entanto, está nas mãos de Ramsay Bolton, que reina lá em terror, depois de autoproclamado “rei do Norte”.

Dilemas Morais

Na Batalha dos Bastardos, Jon Snow enfrenta uma escolha: resgatar seu irmão com o risco de sacrificar todo seu exército ou deixar Ramsay Bolton como senhor do castelo de sua família. Esse dilema contrasta com algo que ocorre no segundo episódio da temporada: Ramsay Bolton decide matar seu pai para usurpar seu poder. Essa atitude de Ramsay mostra um consequencialismo extremo: as ações são avaliadas apenas em termos de suas conseqüências, ou seja, de seus resultados.

Jon Snow escolheu, por outro lado, salvar seu irmão. Essa decisão está em consonância com a conduta ética que ele mantém ao longo da série. Seu princípio de avaliação moral visa analisar uma ação de acordo com sua conformidade com uma norma considerada absoluta. Emmanuel Kant dá uma formalização teórica em Fundamentos da metafísica dos costumes quando ele discute o chamado “direito de mentir”. Hoje, vários filósofos morais são inspirados por essa abordagem. Jeremy Waldron fala de “absolutismo” para descrever a adesão incondicionada a certos valores tidos por absolutos – no caso de Jon, as noções tradicionais de honra e respeito pela família.

Os recuos regulares de Jon Snow ilustram o aspecto fatal da pureza moral. A série demonstra as consequências de uma atitude antipolítica que não parece pertencer a este mundo: deve-se enfatizar, a esse respeito, que o próprio Jon Snow ressuscitou na temporada anterior, mostrando que essa atitude antipolítica só é viável para alguém que não está sujeito à finitude e falibilidade humanas. A arte de exercer o poder implica no equilíbrio e em concessões. Então, não se mistura com os absolutos morais.

A astúcia é melhor do que a força?

Game of Thrones traz o conflito entre a pureza moral pré-moderna, antipolítica e um consequencialismo que confina ao cinismo que o fim vale os meios. Isso se reflete na escolha dos meios usados ​​para lutar. Jon Snow opta por um estilo que reflete valores guerreiros que honram a luta direta de homem contra homem, o que ocorre quando propõe a Ramsay, antes do início da batalha mais famosa da série, que resolvam tudo num duelo. Essa escolha destaca o valor do embate pessoal e da proeza marcial: ela se reflete na imaginação contemporânea do cavalheirismo medieval, justo o período de predominância do feudalismo.

Em contraste com esse ideal medieval, os personagens que usam astúcia e perfídia parecem moralmente desacreditados. O gênio maligno de Cersei é impressionante sob essa perspectiva. Seu poder está associado à desnaturalização e à perversidade moral. A série traz então o embate entre a força e a astúcia, aspecto da ciência política analisado por Jean-Vincent Holeindre.

Holeindre propõe uma interpretação alternativa a esse dilema entre força e astúcia, inicialmente proposto pelo historiador militar Victor Davis Hanson, a estratégia fundamentada no truque seria explicada por uma forma de “orientalismo militar”. Segundo Hanson, a força “virtuosa” dos ocidentais refletiria a superioridade de seu regime político, enquanto a “astúcia” é, historicamente, a prerrogativa dos “bárbaros”. Sua desqualificação da astúcia como uma tática aceitável é uma maneira de deslegitimar o inimigo mais fraco. Holeindre, porém, relativiza essa proposta mostrando que, na realidade, a astúcia e a força sempre caminharam de mãos dadas na história da estratégia militar ocidental.

Rumo a um “bom” Estado?

Na sétima temporada de GoT, surge um modelo alternativo, representado por duas mulheres: Daenerys Targaryen e Sansa Stark. Elas simbolizam uma figura da modernidade política, na qual a resolução de conflitos ocorre numa tensão dinâmica entre astúcia e força, entre a lealdade ao clã e a ganância pelo poder pessoal. Elas representam uma versão mais evoluída da lógica da Razão de Estado? Conceito que surge na idade média, a Razão do Estado estabelece as bases para uma autonomia da ciência política: governar é uma arte específica, que obedece suas próprias regras morais.

A herdeira dos Targaryen sempre lembra a todos: seu objetivo é tornar o mundo melhor. Assim, consegue de seus súditos uma mobilização que supera os limites do interesse individual.

Sansa, herdeira legítima do Stark que foi casada à força com Ramsay Bolton, não fica para trás. Em uma reviravolta surpreendente, ela salva Jon Snow no nono episódio da sexta temporada, fazendo um acerto secreto com Lord Baelysh para que os exércitos do Vale de Arryn ajudem a seu irmão. Sua chegada inesperada quebra o cerco do inimigo. Posteriormente, Sansa finge cair em uma armadilha astutamente criada por Lord Baelysh encurralar seu antigo aliado em uma outra armadilha, fazendo um ajuste prévio com os senhores do Vale. Essas duas figuras femininas representam uma moral pragmática, que mostra uma abordagem realista da política, a realpolitik.

Como diz o filósofo Slavoj Zizek, as obras culturais funcionam como uma espécie de realidade condensada, oferecendo-nos mais para ver do que nossas experiências diárias permitem. Algumas reinterpretam a história política à luz das questões contemporâneas. Game of Thrones, por exemplo, ressalta a estrutura de poder centralizado como forma de organização política destinada a superar sistemas de poder baseados em clãs ou feudos. Nesta perspectiva, as representações artísticas fornecem um terreno cultural comum para a troca de grandes questões políticas e morais.

SpaceX: como e porque vamos colonizar Marte – I

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[Nota do editor: esta é a tradução autorizada do texto original de Tim Urban, publicado no site Wait But Why.]

Parte I – A História dos Seres Humanos e do Espaço

Cerca de seis milhões de anos atrás, uma fêmea primata muito importante teve dois filhos. Uma de suas crianças se tornaria o antepassado comum de todos os chimpanzés. A outra seria o ancestral comum de uma linhagem que, um dia, incluiria toda a raça humana. Enquanto os descendentes de seu primeiro filho seriam bastante normais do ponto de vista de um primata, com o passar do tempo coisas estranhas começaram a acontecer com a linhagem do outro.

Não temos certeza da causa, mas nos seis milhões de anos seguintes nossa linhagem ancestral começou a fazer algo que nenhuma criatura na Terra havia feito antes – nossos antepassados acordaram.

Aconteceu lenta e gradualmente ao longo de milhares de gerações, do mesmo jeito que o seu cérebro acorda lentamente nos primeiros segundos depois de despertar do sono. Porém, à medida em que a clareza aumentou, nossos antepassados ​​começaram a olhar ao redor e, pela primeira vez, fizeram perguntas.

Surgida de um sonho há 3,6 bilhões de anos, a vida na Terra formulou suas primeiras questões.

O que é essa grande sala em que estamos e quem nos colocou aqui? O que é esse grande círculo amarelo e luminoso no teto e onde ele vai todas as noites? Onde o oceano termina e o que acontece quando você chega lá? Onde estão todas as pessoas mortas, agora que não estão mais aqui?

Nós descobrimos o grande romance de mistério de nossa espécie (intitulado “Onde estamos?”), e queríamos aprender a lê-lo.

À medida em que a luz da consciência humana crescia e brilhava, começamos a formular respostas que pareciam fazer sentido. Talvez estivéssemos em cima de um disco flutuante, e talvez esse disco estivesse em cima de uma enorme tartaruga. Talvez as luzes acima de nós à noite sejam um vislumbre do que está além dessa grande sala – e talvez seja para lá que vamos quando morremos. Talvez se encontrarmos o lugar onde o teto se encontra com o chão, possamos colocar nossas cabeças além e ver todas coisas super divertidas do outro lado.

Cerca de 10.000 anos atrás, tribos isoladas de humanos começaram a se unir e formar as primeiras cidades. Em comunidades maiores, as pessoas puderam conversar umas com as outras sobre esse romance misterioso que encontramos, comparando notas entre tribos e gerações. Com as técnicas de aprendizagem tornando-se cada vez mais sofisticadas, as pistas se acumularam, e surgiram novas descobertas.

O mundo aparentemente era uma bola, e não um disco. O que significava que o teto era, na verdade, uma esfera maior que nos cercava. Os tamanhos dos outros objetos que flutuavam lá fora na esfera conosco, e as distâncias entre eles, eram maiores do que imaginávamos. E então, descobrimos algo perturbador:

O sol não girava em torno de nós. Nós é que estávamos girando ao redor do sol.

Esta foi uma descoberta super desconfortável e que nos deixou confusos. Por que diabos não estávamos no centro das coisas? O que isso significava?

Afinal, onde estamos?

A distância entre nós e as luzes no céu, inclusive o sol, já era desagradavelmente grande. Mas se não estamos no centro desse espaço todo, então estamos apenas em uma esfera aleatória dentro dele, sem motivo aparente? É isso o que está acontecendo?

Assustador.

Então as coisas pioraram.

Parecia que as pequenas luzes que víamos de noite no céu não eram o que pensávamos que eram – eram outros sóis como o nosso. E esses sóis estavam flutuando como nosso sol, o que significa que não estávamos dentro de uma esfera. Não só nosso planeta não era o centro das coisas, mesmo nosso sol era apenas um sujeito aleatório lá fora, no meio do nada, cercado de nada.

Assustador.

Nosso sol acabou se revelando apenas parte de algo muito maior. Uma bela e vasta nuvem de bilhões de sóis.

O tudo de tudo:

Pelo menos, era o que tínhamos. Até que percebemos que isso não era tudo, e que as coisas eram mais ou menos assim:

Trevas.

Quanto mais nossas ferramentas e entendimento se aprimoravam, mais podíamos ampliar essa imagem. E quanto mais ampliamos, mais as coisas pioram. Estávamos decifrando as páginas do livro intitulado “Onde Estamos?” por nossa conta e risco, descobrindo nossa situação diretamente, concluindo que estamos inacreditavelmente sozinhos, vivendo em uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária, enterrada em camadas de isolamento, sem ninguém com quem conversar.

Essa é A Situação.

Nos mais recentes 1% da curta existência de nossa espécie, nos tornamos a primeira vida na Terra a conhecer nossa situação – e estamos tendo uma crise existencial coletiva desde então.

Você realmente não pode nos culpar. Imagine não saber que o universo é uma coisa e então descobrir que o universo é essa coisa. É muito para processar.

A maioria de nós lida com isso vivendo em uma ilusão agradável, fingindo que o único lugar em que vivemos está em uma infinita terra de cores e calor. Fazemos o possível para ignorarmos A Situação.

E qual nosso melhor amigo para esta atividade? O céu azul, claro. O céu azul parece que foi inventado para ajudar os seres humanos a fingir que A Situação não existe, servindo como o cenário perfeito para nos proteger da realidade.

Então a noite acontece, e A Situação fica nos olhando diretamente na cara.

Oh sim…

Esse é nosso cotidiano, da ilusão protetora dos dias de céu azul à recordação noturna de que A Situação existe. O desenvolvimento de psicoses foi, durante a maior parte da história recente, extensão do nosso relacionamento com A Situação.

Mas nos últimos 60 anos, esse relacionamento chegou a um novo nível. Durante a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia de mísseis deu um salto e, pela primeira vez, uma ideia totalmente maluca tornou-se possível:

Viagem ao espaço.

Por milhares de anos, A História dos Humanos e do Espaço resumiu-se a uma história de olhar e se questionar. A possibilidade de alguém deixar a nossa ilha terrestre e desbravar o espaço despertou em nós o espírito de aventura.

Imagino um sentimento semelhante nas pessoas do século XV, durante a Era dos Descobrimentos, quando estávamos decifrando o capítulo sobre o mapa mundial do romance “Onde Estamos?”, e a noção de viagens marítimas deslumbrou a imaginação das pessoas. Se você perguntasse a uma criança em 1495 o que ela queria ser quando crescesse, provavelmente teria respondido: “um explorador do oceano”.

Em 1970, se você fizesse a uma criança a mesma pergunta, a resposta seria “um astronauta”.

A Segunda Guerra Mundial trouxe a possibilidade da viagem espacial, mas foi no final de 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro objeto artificial em órbita, o adorável Sputnik 1, que as viagens espaciais se tornaram a principal missão das grandes potências mundiais

Na época, a Guerra Fria estava a todo vapor, e os EUA e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) apresentaram suas réguas para um concurso de medição de pênis internacionalmente televisionado. Com o lançamento bem sucedido do Sputnik, o pênis soviético aumentou alguns centímetros, horrorizando os americanos.

Para os soviéticos, colocar um satélite no espaço antes dos EUA era a prova de que a tecnologia soviética era superior à norte-americana, o que por sua vez foi apresentado como prova, para o mundo inteiro, de que o comunismo era um sistema superior ao capitalismo.

Oito meses depois, a NASA nasceu.

A corrida espacial tinha começado, e a primeira missão da NASA era levar um homem ao espaço e, em seguida, um homem em órbita completa, de preferência, antes dos soviéticos. Os EUA não deveriam ser humilhados novamente.

Em 1959, a NASA criou o Projeto Mercúrio para realizar a missão. Eles estavam à beira do sucesso quando, em abril de 1961, os soviéticos lançaram Yuri Gagarin em uma órbita completa em torno da Terra, fazendo com que o primeiro humano no espaço E em órbita da Terra fosse um soviético.

Era a hora de medidas drásticas. Os conselheiros de John F. Kennedy disseram-lhe que os soviéticos estavam muito avançados para que os EUA conseguissem superá-los em qualquer conquista a curto prazo, mas que a perspectiva de uma nave tripulada pousar na lua era um objetivo distante o suficiente no futuro para que os EUA pudessem chegar primeiro. Então Kennedy disse sua famosa frase “nós escolhemos ir para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”, e direcionou uma escandalosa quantidade de financiamento nessa missão (US$ 20 bilhões, o equivalente a US$ 205 bilhões nos dias de hoje).

O projeto foi chamado de Apollo. A missão Apollo consistia em aterrizar um americano na lua – e fazê-lo primeiro. Os soviéticos responderam com o Soyuz, seu próprio programa de viagem lunar. E a corrida espacial se intensificou.

À medida em que as primeiras fases da missão Apollo começaram a ser implementadas, o Projeto Mercury finalmente atingiu seu objetivo. Apenas um mês depois de Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem no espaço, o astronauta americano Alan Shepard tornou-se o segundo homem no espaço, completando um pequeno arco que não o colocou em órbita completa, mas permitiu que atingisse o ponto mais alto possível e desse um “oi” lá de cima. Alguns meses depois, em fevereiro de 1962, John Glenn tornou-se o primeiro americano a orbitar a Terra.

Os próximos sete anos testemunharam 22 lançamentos tripulados dos EUA e dos soviéticos, como resultado do aprimoramento das habilidades e tecnologias dessas super potências. No final de 1968, os Estados Unidos realizaram mais lançamentos (17) do que os soviéticos (10) e, em conjunto, as duas nações dominaram o que chamamos de baixa órbita terrestre (LEO – Low Earth Orbit).

Mas a baixa órbita terrestre realmente não havia excitado ninguém desde o início dos anos 60. Ambas as superpotência tinham a mira firmemente na lua. O programa Apollo estava dando saltos rápidos e, em dezembro de 1968, os EUA se tornaram a primeira nação a ultrapassar a órbita terrestre baixa. A missão Apollo 8 fez todo o caminho até a órbita da lua e circulou cerca de 10 vezes antes de voltar para casa com segurança. A tripulação, que incluiu James Lovell, quebrou o registro de altitude humana e James tornou-se a primeira pessoa a ver a lua de perto, a primeira a ver o “lado escuro” da lua e a primeira a ver a Terra como um planeta inteiro, tirando esta foto icônica:

Ao retornar, a equipe tornou-se o grupo de heróis mais celebrado dos EUA – pelo menos por oito meses. Em junho de 1969, três missões de Apolo mais tarde, o Apollo 11 fez os americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin serem os primeiros humanos a chegarem na lua, e Armstrong tirou essa famosa foto de Aldrin:

É difícil enfatizar o quanto isso foi espetacular. Desde que a vida na Terra começou há 3,6 bilhões de anos, nenhuma criatura terrestre pôs os pés em qualquer outro corpo celeste além da Terra. De repente, lá estão Armstrong e Aldrin, saltando em torno de outra esfera, olhando para o céu onde a lua deveria estar e vendo a Terra no seu lugar. Insano.

O Projeto Apollo provou ser um sucesso esmagador. Não só conseguiu colocar um homem na lua antes dos soviéticos como também enviou mais 10 homens para a lua nos próximos três anos e meio em cinco outras missões da Apollo. Houve seis viagens de lua bem sucedidas em sete tentativas, com a famosa exceção de Apollo 13, que foi abortada com segurança após uma explosão no tanque de oxigênio.

O programa soviético Soyuz continuou com problemas técnicos, e acabou nunca colocando alguém na lua.

O pouso na lua ocorreu no final de 1972. Em apenas uma década, conquistamos o espaço nas proximidades, e o progresso estava em franca aceleração. Se, naquela época, você tivesse perguntado a qualquer ser humano o que as próximas décadas de viagem espacial trariam, teria escutado previsões grandes e audaciosas como muitas pessoas indo à lua, uma base lunar permanente, pessoas chegando em Marte e até indo além.

Então você só pode imaginar o quão surpreso essas pessoas de 1972 ficariam se você lhes dissesse, depois de testemunharem doze seres humanos caminhando na lua, que 43 anos depois, no ano impossivelmente futurista 2015, o número de pessoas que já tinham pisado na lua ainda seria doze. Ou que depois de atingirmos a baixa órbita terrestre e a utilizarmos como nosso estacionamento pré-lua, 2015 chegaria e a baixa órbita terrestre ainda seria o mais distante que os seres humanos já conseguiram se estabelecer.

As pessoas de 1972 ficariam deslumbradas pelos nossos smartphones e pela internet, mas ficariam muito chocadas por termos desistido de ampliar as nossas fronteiras no espaço.

Então o que aconteceu? Após uma década de emocionantes aventuras espaciais, por que paramos?

Bem, como vimos no post sobre a Tesla, a pergunta “Por que paramos?” é a questão errada. Em vez disso, devemos perguntar:

“Por que fomos aventureiros em relação ao envio de seres humanos ao espaço?”

As viagens espaciais são incrivelmente caras. Os orçamentos nacionais são incrivelmente apertados. O fato é que seria surpreendente se uma nação comprometesse uma parte considerável de seu orçamento em nome da aventura e da inspiração, forçando os limites de seus gastos.

E isso seria realmente surpreendente porque nenhuma nação estourou seu orçamento em nome da aventura e da inspiração – duas nações estouraram seus orçamentos por causa de um concurso de tamanho do pênis. Diante do embaraço internacional em um momento em que todos estavam tentando descobrir qual sistema econômico era melhor, o governo dos EUA concordou em abandonar as regras usuais por alguns anos e gastar os recursos necessários para garantir que o país vencesse aquele concurso:

E no momento em que os EUA ganharam, o concurso terminou e as exceções às regras também acabaram. E o governo norte-americano voltou a gastar dinheiro como uma pessoa normal.

Em vez de continuar a aumentar seus gastos, os EUA e os soviéticos apertaram as mãos, colocaram suas calças e começaram a trabalhar juntos como adultos em projetos muito mais práticos, como a criação de uma estação espacial conjunta na baixa órbita terrestre (a Estação Espacial Internacional).

Nas quatro décadas seguintes, a História dos Humanos e do Espaço tornou-se novamente confinada à Terra. E no momento presente, temos duas razões principais para interagirmos com o espaço:

1) Apoio às Indústrias da Terra:

Essa é a primeira e principal razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço, já que o programa Apollo não tinha relação com o interesse da raça humana no espaço. Tratava-se de usar o espaço para fins práticos em apoio às indústrias da Terra, principalmente sob a forma de satélites. A imensa maioria dos foguetes que atualmente lançamos no espaço tem por objetivo apenas colocar coisas na baixa órbita terrestre para que assim se possa olhar para a Terra, e não para a imensidão que existe na outra direção. Há algumas outras atividades espaciais na categoria “Apoio às Indústrias da Terra” (como mineração espacial , enterro espacial e turismo espacial). Mas, pelo menos por enquanto, os satélites representam quase toda essa categoria.

2) Olhar e aprender:

A segunda razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço nas últimas quatro décadas prova que, embora possamos ter parado de enviar pessoas para o espaço, nunca perdemos nossa fome de aprender sobre o que está lá. À medida em que a sociedade desviou sua atenção do espaço para a Terra, os astrônomos se mantiveram ocupados no trabalho, decifrando página após página do antigo livro “Onde estamos?”. Os astrônomos aprendem melhor com seus olhos, e um efeito colateral da corrida espacial foi o desenvolvimento de uma tecnologia muito melhor para ver o que está lá fora.


 

Há mais de 40 anos, esses dois objetivos – apoiar as indústrias da Terra e continuar a aprender e descobrir – têm sido a razão de nosso relacionamento com o espaço.

E porque esses dois objetivos são melhor realizados por viajantes não-humanos, o capítulo mais recente de nossa relação com o espaço tem se resumido a máquinas como satélites e sondas espaciais, com a participação humana ocorrendo na Terra, controlando as coisas com joysticks.

A única razão pela qual qualquer humano foi para o espaço desde que Apollo 17 voltou à Terra em 1972 é que, às vezes as máquinas ainda não estão suficientemente avançadas para fazer uma determinada tarefa, então precisamos enviar um humano para fazê-la no seu lugar. Das cerca de 550 pessoas que já estiveram no espaço, mais de 400 delas foram lá na era da posterior à Corrida Espacial. Mas desde Apollo, os motivos têm sido práticos: cientistas e técnicos vão ao espaço para fazer um trabalho. É por isso que cada missão tripulada das últimas quatro décadas manteve-se dentro da minúscula zona do espaço que circunda a baixa órbita terrestre.

Como as coisas ficam no espaço

Nós examinamos o que está no espaço, mas como todas essas coisas (satélites, sondas, telescópios, etc) chegam ao espaço? Você já se perguntou como algo como um satélite GPS chega a entrar em órbita?

A resposta é que existem nove países que têm a capacidade de lançar algo em órbita: Rússia, Estados Unidos, França, Japão, China, Índia, Israel, Irã e Coréia do Norte – juntamente com uma entidade não nacional, a Agência Espacial Européia (ESA). Se um satélite sobe no espaço, é porque alguém pagou a uma dessas dez entidades para levá-lo até lá em cima utilizando um foguete complexo e caro.

Quanto ao lançamento dos seres humanos no espaço, apenas três países na história o fizeram – a Rússia, os EUA e a China (que é um iniciante em rápido crescimento). Desde os anos 60, a Rússia usou seus foguetes Soyuz para lançar as pessoas no espaço, e os EUA, depois de concluir o programa Apollo em 1972, recuperaram a capacidade de colocar as pessoas em órbita em 1981 com o programa de ônibus espacial.

Nos 30 anos seguintes, os EUA lançaram 135 ônibus espaciais na baixa órbita terrestre, e 133 deles foram exitosos. As duas exceções são parte bastante traumatizante da história americana: Challenger em 1986 e Columbia em 2003.

O programa de ônibus espaciais foi aposentado em 2011. Hoje, apenas dois países podem lançar um ser humano em órbita – Rússia e China. Sem capacidade, os EUA (o país que, triunfalmente, colocou um homem na lua enquanto o resto do mundo assistia) agora tem que lançar seus astronautas em foguetes da Rússia, dependendo da boa vontade do governo russo, portanto.

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Então, como podemos resumir A História dos Humanos e do Espaço até agora? É uma história um pouco estranha. Em 1970, a história ela era assim:

Então, a suposição que se fez sobre o futuro dessa história foi a seguinte:

Mas agora é 2015, e é isso o que está acontecendo:

Quando olho para o que está acontecendo com a relação entre seres humanos e o espaço hoje, acho incrível. Neste momento, apenas 58 anos depois de os soviéticos colocarem o primeiro objeto artificial em órbita da Terra, vemos a proliferação de equipamentos de alta tecnologia em todo nosso planeta, dando aos humanos recursos mágicos em termos de visão e comunicação. Há uma equipe de sondas espaciais espalhadas pelo Sistema Solar, relatando para nós as suas descobertas. Há um enorme telescópio voador, o Hubble, acima da Terra, mostrando-nos exatamente como é o universo observável. Há um enorme laboratório científico, do tamanho de um campo de futebol, flutuando a 250 milhas acima de nossas cabeças, com pessoas dentro dele, a Estação Espacial Internacional.

Tudo o que acabei de dizer é incrível.

E se a História dos seres humanos e do espaço fosse assim:

…Eu ficaria maravilhado com as coisas que estamos fazendo atualmente.

Mas, infelizmente, os anos 60 aconteceram. Então, na verdade, a história ficou assim:

 

 

Um bom espetáculo de mágica segue uma regra simples: faça seu próximo truque de mágica ser melhor que o precedente. Se você não consegue ficar um passo à frente de um público cada vez mais entediado, as pessoas rapidamente deixarão você fazendo mágicas sozinho.

Em algumas áreas da pesquisa sobre o espaço, o show de mágica continuou melhorando. Em nossa busca de conhecimento, por exemplo, continuamos a superar a nós mesmos, aprendendo significativamente mais sobre o universo a cada década. O espírito humano de descoberta está vivo e bem, tendo prosperado no espaço ao longo dos anos desde as missões Apollo.

Mas embora estejamos fascinados pelas descobertas recentes, quando se trata de sentirmos genuína excitação e inspiração, essas mesmas descobertas não têm tanto sucesso. Sondas espaciais e telescópios podem nos encher de admiração e saciar nossa curiosidade, mas nada nos desperta tanto o espírito de aventura quanto ir aonde nenhum homem já foi. E, nessa arena, as últimas quatro décadas nos deixaram vazios. Depois de assistirmos pessoas pousando na lua, acompanhar as missões tripuladas até a Estação Espacial Internacional é, como disse Ross Andersen, “tão emocionante quanto assistir Colombo navegar para Ibiza”.

E é por isso que, no mundo de hoje, a sociedade perdeu o interesse em ler A História dos Humanos e do Espaço. Um assunto que deveria deixar a todos nós de joelhos tornou-se um espetáculo só para nerds. Peça a dez pessoas bem-informadas que digam o que está acontecendo com as sondas espaciais no Sistema Solar, ou com a Estação Espacial Internacional, ou com a NASA ou com a SpaceX e a maioria delas não será capaz de lhe dizer muita coisa. Algumas nem sequer saberão o que dizer. E as pessoas não sabem porque não se importam. Por causa da forma como ela se desenrolou, A História dos Humanos e do Espaço parece uma decepção. E, olhando para o mundo que nos rodeia hoje, é intuitivo prever que os futuros capítulos da história do espaço continuarão a aparecer como hoje:

Muitas pessoas não acham que isso é ruim. “Por que gastar quantidades exorbitantes de dinheiro enviando pessoas para o espaço quando temos tantos problemas aqui na Terra?”, Perguntam. O congressista do Massachusetts, Barney Frank, que passou três décadas desempenhando um papel fundamental na tomada de decisões no orçamento dos EUA, afirmou que uma viagem espacial tripulada é, “na melhor das hipóteses, um luxo que o país não deve se permitir” e “um total e total desperdício de dinheiro”. E os limites dramáticos no orçamento da NASA desde que a corrida espacial terminou sugerem que Frank não é o único político dos EUA a manter essa visão.

Em uma primeira análise, gente que pensa assim está sendo perfeitamente racional – afinal, diante de preocupações com saúde, segurança nacional, educação e pobreza, devemos realmente abrir espaço para um “orçamento de aventuras”? E nessa perspectiva, a projeção do gráfico acima tem maior probabilidade de continuar em seu curso atual.

Passei os últimos meses lendo, falando e pensando quase sem parar sobre o que os próximos capítulos desta história se parecerão – e as minhas premissas sobre o futuro mudaram radicalmente.

Acho que estamos todos diante de grande surpresa.

E essa surpresa é a missão que o Musk colocou diante de si.

[Na segunda parte deste texto, Tim Urban falará sobre o projeto de Elon Musk para alterar radicalmente a atual História dos Humanos e do Espaço]

Chegamos à beira do precipício

A ideia de “bom governo” vem dos gregos e dos princípios platônicos de Bem, Justiça, Temperança, Prudência e Fortaleza. Tem um ineliminável conteúdo ético. Governa-se para o bem de todos, de modo justo e correto, sem excessos ou privilégios, tendo em vista o fortalecimento e o progresso da comunidade.

Por derivação, o “bom governo” está dotado de atributos decisivos. Para se realizar, precisa de apoio parlamentar, representatividade social e assessoria técnica qualificada. Precisa, também, de quem o comande e coordene, seja em termos institucionais, seja em termos de liderança ou autoridade pessoal. Carece, portanto, de uma institucionalidade equilibrada, respeitada pelos governados, e tanto quanto possível de uma liderança política que possa expressar, perante o povo, as virtudes que cimentam uma comunidade.

Um “bom governo”, porém, não é sinônimo de bom governante: este pode ser bondoso, puro, honesto e bem-intencionado, mas seu governo ser péssimo. Um tirano estraga um governo que poderia ser bom, mas um bom governo pode atenuar a tirania e eventualmente expeli-la. É preciso ver o conjunto, as articulações. Uma boa Presidência não é igual a um bom presidente.

Se olharmos as coisas brasileiras por esse ângulo, o que vemos se aproxima do horror. Falta-nos quase tudo. A vida moderna, com sua voracidade e sua turbulência, minou nossos fundamentos por um lado, ao passo que a classe política, os partidos e o sistema político fizeram o mesmo pelo lado oposto. Em um vórtice de sobressaltos e desacertos, reduziu-se drasticamente a qualidade ética, técnica, discursiva, intelectual, da política, que hoje rasteja perante o país, numa busca desesperada por reconhecimento e legitimidade.

Sejamos francos: chegamos à beira do precipício. A política já não mais responde. Lateja como um coração enfartado. Claro, nem tudo é política, a vida pulsa com intensidade às vezes até explosiva, segue em frente. Nem tudo é política e a política não é tudo. Mas, sem ela, falta a presilha para fechar o colar, fica tudo meio solto, desgovernado, as pérolas saltam fora e esparramam pelo chão.

Seria então a hora dos setores mais lúcidos da sociedade fazerem alguma coisa. Como permitir que as coisas sigam nessa toada, insistindo em nos empurrar para o precipício?

Aí, você olha para a esquerda, para o centro e para a direita, para o Estado e a sociedade, para as universidades e as associações da sociedade civil, para trabalhadores e empresários, para ONGs e sindicatos, e constata que nada acontece. Há uma letargia solta no ar, misturada com indignação geral e o vozerio mouco da contestação, torta e inoperante. Onde estão os líderes, os pensadores, os organizadores, os que buscam saídas e anunciam novos tempos? Para onde ir? Quais as saídas?

A Câmara dos Deputados mergulhou na mediocridade. Vive hoje de manobras para se livrar da Lava Jato e chantagear o Executivo. Não se sabe quantos são os parlamentares que perdem o sono só para cogitarem da própria reeleição, mas suspeita-se que o número seja grande. São eles que lutam por uma “reforma política” que beira a obscenidade, que não só traz de volta a figura questionadíssima do “distritão”, que mata a proporcionalidade e dá força desproporcional aos mais conhecidos, como também propõe um Fundo Especial, dito para a “defesa da democracia”, mas na verdade concebido exclusivamente para bancar campanhas eleitorais. É uma facada no Erário Público de alguns bilhões de reais, a serem devidamente pagos pelos cidadãos. O objetivo é substituir o que os candidatos deveriam fazer diuturnamente — qual seja, procurar os eleitores e conquistá-los para que os ajudem em suas campanhas — pelas facilidades do financiamento estatal, que em tese permitiria que eleitores fossem seduzidos pelo marketing eleitoral. Uma imoralidade, que não ajuda a que se criem partidos, correntes de opinião, nichos de vida política.

O problema da política só pode ser resolvido mediante um novo pacto entre povo e políticos: o povo se dispondo a apoiar (com votos e dinheiro) os bons partidos e seus parlamentares, com a garantia mínima de que receberá em troca algo de substantivo em vez de promessas vãs, trejeitos apelativos e manifestações posticas de indignação e combatividade. O pacto vigente esgarçou.

Não dá para continuar assim. É um risco grande demais.

As sirenes dispararam, como se estivéssemos na iminência de um bombardeiro aéreo. Mas poucos ouvem. Os que deveriam agir fingem-se de mortos, repetem caminhos dantes trilhados, temem o que possa ter cheiro de novo, seguem pragmaticamente em frente sem se darem conta de que caminham para um buraco mais fundo. O panorama visto da janela de casa já fornece todos os indícios de que está em marcha um comprometimento não consciente do futuro. O mote “esgotou-se o modelo, precisamos fazer alguma coisa” reflete a exasperação, mas não é o que melhor aconselha.

Como mudanças sérias não estão à vista e terão de ser costuradas, o jeito é aprender a viver no risco e tentar manejá-lo com um mínimo de sensatez. Buscar pontes e coordenações de novo tipo, dosar energias, rever atitudes e convicções, calibrar o discurso, catar os cacos do que sobrou, desradicalizar e despolarizar, valorizar convergências e entendimentos. Há iniciativas ganhando corpo, grupos tentando se articular. Ainda não se sabe bem em torno de quais estratégias, com quais programas e com quais lideranças que “fulanizem” e deem fisionomia ao processo. Mas algo se move e em algum momento produzirá resultados.

A crise não se deve ao governo em sentido estrito, ao Poder Executivo. Michel Temer, seu ministério e suas práticas merecem toda a crítica que lhes tem sido feita. Por mais que existam em seu interior pessoas ilibadas e bons propósitos, o conjunto da obra é ruim, muito ruim. Não nos ajuda antever algo risonho à frente. Mas é inócuo ficar gritando contra sua “ilegitimidade”, seu espírito “golpista” ou seu “reformismo de direita”, coisas que de resto são discutíveis. Ele é só parte do problema, e não a parte principal. A crise envolve tudo o que respira na política nacional: parlamentares, juízes, procuradores, partidos, sindicatos, intelectuais, ativistas.

É esse conjunto — ou seja, “nós” — que precisa ser responsabilizado e que deveria se responsabilizar a si próprio, saindo das respectivas zonas de conforto em que repousam seus inúmeros pedaços.

QUEM VOCÊ REALMENTE É – PARTE I

Todos vivem com a noção de ser alguém. Por exemplo, neste momento, você tem a noção de que é alguém que está lendo este texto. Isso parece banal. Essa é a natureza da condição humana, a vivência mais íntima e fundamental que você tem a cada instante de sua vida: ser quem você é.

Apesar disso, no cotidiano, você raramente se detém e analisa com cuidado uma pergunta óbvia, que não só decorre naturalmente dessa vivência fundamental como também é de vital importância. E, nos poucos momentos que o faz, parece não encontrar resposta, ao menos não sem aceitar algum tipo de fé ou superstição. Essa pergunta é:

QUEM É VOCÊ?

Apesar de sua importância, colocamos tal pergunta facilmente entre aquelas questões abstratas, filosóficas, cuja improvável resposta, inútil e metafísica, é da competência de especialistas acadêmicos. Chegamos a acreditar na perigosa ilusão de que não só é impossível obter uma resposta clara, mas que também podemos viver realmente nossas vidas sem responder com clareza quem é que, afinal, está vivendo nossas vidas.

Isso parece ser de uma estupidez impressionante. De algum modo, nos iludimos e fingimos não perceber a utilidade autoevidente de conhecermos a resposta antes de começarmos a viver conscientemente nossas vidas. Fingimos não saber que apenas uma vida com tal resposta é uma vida plena, e que uma vida plena é aquela desperta do sonho em que os outros animais vivem, sonho no qual ignoram quem realmente são e onde estão.

O leitor duvida? Quando vemos a carne de animais em nosso prato ou exposta nos mercados, esquecemos da lição subjacente a essa experiência comum: a de que só foi possível criar e matar o animal que nos alimenta pois ele viveu imerso num sonho em que não percebia quem era e que estava destinado apenas ao abate. Um sonho que nossos ancestrais também sonhavam e do qual o ser humano em parte despertou – mas não completamente.

Mas somos assim estúpidos? Com certeza, não. A razão de nos distrairmos facilmente diante de tal pergunta e de termos dificuldade em encontrar a resposta deveria nos dar uma pista sobre a natureza dessa resposta. Trata-se de uma resistência de origem mais forte, como logo ficará claro.

Na verdade, o fato de que nos distraímos facilmente diante dessa pergunta e de que parecemos não encontrar resposta deveria dar-nos uma pista sobre a natureza dessa resposta.

A partir de agora, iremos apresentar tal resposta, pois não é mera questão abstrata e filosófica, mas a chave para a solução do maior problema humano, aquele que aflige cada indivíduo e toda a sociedade. Porém, a resposta não é simples e tampouco é agradável – em outras palavras, é contraintuitiva e contrária às expectativas idealizadas sobre a natureza humana.

Pela importância deste texto, o leitor deve dedicar tempo e atenção à sua leitura. Imprima-o, se possível.

O PROBLEMA HUMANO

Por séculos, tenta-se identificar qual o maior problema da humanidade e de cada indivíduo, o problema do qual derivam todos os outros problemas sociais e pessoais.

Para os mais idealistas, esse problema seria a falta de fé ou de conexão com alguma divindade – ou alguma outra postura moral e espiritual a ser ajustada. Para outros, o problema seria de ordem econômica, consistindo no dinheiro enquanto lógica das relações capitalistas – ou, inversamente, no controle estatal e socialista da liberdade individual. Para alguns, ainda, o problema seria sociocultural, consistindo na opressão do patriarcado ou, ao contrário, na subversão da ordem e das tradições.

Há por fim, aqueles que negam a existência de qualquer problema central, afirmando que a angústia e ansiedade sentida intimamente por todos os seres humanos, bem como as guerras, miséria e violência que assolam populações, constituem parte inerente da vida tal como é neste momento.

Não é esse, porém, o caso. Há um problema, e sua natureza é clara quando a situação humana é observada à distância.

O maior problema humano atual, tanto para cada indivíduo como para a sociedade, é o desafio de operar numa realidade progressivamente complexa e sem precedentes históricos tendo como única ferramenta um sistema cognitivo e decisório condicionado para operar nas primitivas savanas da África.

Caça, competição, acasalamento, abrigo, predador, agressão e fuga; medo, raiva, desejo, fome e sede; necessidade de aceitação tribal, hostilidade e dominação do inimigo. Vive-se hoje com um sistema cognitivo e decisório programado evolutivamente para operar num ambiente em que o ser humano não era muito diferente dos demais animais, sequer posicionando-se no topo da cadeia alimentar. Um ambiente no qual a perfeita inserção na dinâmica de uma tribo representava a melhor chance de sobrevivência para o indivíduo.

Esse sistema foi eficiente por dezenas de milhares de anos, ao longo dos quais ele se adaptou com sucesso às mudanças do meio ambiente. Nada há de errado com ele. No momento, o problema é a alteração quase imediata do mundo em que vivemos, exigindo adaptação que tal sistema não consegue fazer em si mesmo do dia para noite – ou melhor, de um milênio para outro.

Essa é a raiz de todos os outros problemas contemporâneos, individuais e coletivos. Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, intolerância. Terrorismo, fundamentalismo, profunda desigualdade social, degradação ambiental. Na sociedade complexa e dinâmica de hoje, que se transforma a cada momento, tenta-se enfrentar desafios cotidianos com um sistema cognitivo e decisório que era extremamente eficiente quando se tratava de caçar animais de pequeno porte, fugir de um leopardo, ser aceito pelos membros da tribo e defendê-la de tribos rivais, mas que fracassa reiteradamente diante da mudança abrupta da realidade humana. O estresse estrutural desse sistema a cada fracasso resulta em rupturas de sua coesão, e tal desajuste produz e continuará a produzir crises cíclicas, cujas consequências serão medidas em vidas humanas.

O GRANDE FILTRO

O Problema Humano não surgiu de um dia para o outro, os primeiros abalos sísmicos foram percebidos há muito tempo. Mas, nos últimos dois mil anos, a medida em que se acentuava o rompimento com os paradigmas de nossos antepassados, apenas ajustes discretos foram feitos. A sociedade prosseguiu organizando-se em torno de instituições, normas e formas de pensar que preservaram, na medida do possível, o sistema cognitivo e decisório que tantos serviços prestou aos nossos ancestrais.

Agir assim, de modo conservador, é lógico e natural. Afinal, o sistema cognitivo e decisório que herdamos está condicionado por nossa própria biologia animal. Ajustá-lo minimamente, portanto, exige enorme consumo de energia e não pode ser feito sem significativo estresse para o próprio organismo. Por isso são ingênuos os que acreditam que a solução depende de uma simples tomada de decisão no sentido de deixarmos de pensar de uma determinada maneira para começarmos a pensar de outra.

Por ironia, a crise do sistema cognitivo e decisório de nossos antepassados para lidar com os desafios do mundo atual deve-se justo à sua estabilidade e robustez. Graças a suas virtudes, a humanidade chegou ao ponto em que o progresso retroalimenta-se e cresce de modo exponencial, até transformar a realidade ao seu redor.

Transições que exigiam milênios ocorrem em cem anos – e, a seguir, numa década. Com o êxito da espécie humana, a ciência decifra o mundo, a tecnologia revoluciona o cotidiano, novas necessidades e problemas surgem, a sociedade torna-se cada vez mais complexa e dinâmica, as relações humanas transformam-se, os papéis sociais fragmentam-se.

Nos últimos séculos, progressivamente a forma como estamos biologicamente condicionados a operar diante do mundo começou tornar-se obsoleta. A tentativa do sistema cognitivo e decisório humano de ajustar-se aos novos desafios resultou em abalo irreversível de sua estrutura. Nietzsche expressou essa irreversibilidade com uma célebre metáfora: “Deus morreu. Deus permanece morto. E nós o matamos.”

Se há ou não Deus no sentido objetivo, outra pergunta que persegue a humanidade, responderemos apenas ao fim de nosso processo de aprendizado sobre a verdade. O importante é reconhecer que a situação humana é crítica, e brevemente será emergencial.

Neste momento, a humanidade encontra-se numa situação sem precedentes históricos. E isso demanda ação imediata. Nos últimos séculos, ao menos desde o Iluminismo, o processo de rompimento de paradigmas acelerou-se em progressão geométrica, e aproxima-se de sua fase culminante.

Não é sem exagero dizer que a humanidade se encontra, no momento em que essas palavras são publicadas pela primeira vez, numa etapa em que cada indivíduo e sociedade precisará definir a estratégia da qual dependerá seu destino. É a etapa do Grande Filtro que separará o caminho da obsolescência e perecimento do caminho da evolução e sobrevivência.

Por essa razão, é mais urgente que nunca responder à pergunta “Quem é você?”. A visão de mundo e de identidade pessoal, a forma como fomos condicionados a operar com a realidade, tornou-se defasada diante do mundo real. Os paradigmas rompidos não podem ser reconstituídos, só reformulados.

Entender quem realmente você é fornece a chave para essa reformulação, a única forma de solucionar-se o Problema Humano. Afinal, só é possível ajustar o sistema cognitivo e decisório herdado de nossos antepassados com a rapidez exigida pelas circunstâncias se cada indivíduo compreender como esse sistema está relacionado com sua identidade pessoal e, principalmente, com o mundo em que essa identidade opera.

Portanto, para responder à pergunta “Quem é você?”, é preciso, antes, saber a resposta para outra questão:

ONDE VOCÊ ESTÁ?

Ao abordarmos A Maior Descoberta da Humanidade, utilizamos três tipos de metáforas para responder a essa questão: uma metáfora alquímica, outra da matemática e ainda uma terceira computacional.

Com um antigo lema dos alquimistas, descrevemos dois princípios gêmeos da realidade em que vivemos: “solve et coagula” – ou “dispersa e entrelaça”. Pela dispersão, novas realidades alternativas emergem do momento presente a cada instante (solve). Por outro lado, tais realidades não interagem a nível macroscópico, pois apenas os seres e coisas que estão entrelaçados em determinada trama de realidade podem interagir entre si (coagula). Essa é a razão de não percebermos as demais realidades alternativas, exceto quando observamos o mundo muito de perto, tal como ocorre em laboratório.

O ambiente em que infinitas realidades alternativas coexistem, e no qual o próprio destino humano bifurca-se em inúmeras versões de sua própria vida, foi chamado de hiper contexto.

O hiper contexto é o espaço em que todas as probabilidades de algo ocorrer se manifestam ao longo do tempo e coexistem simultaneamente. Característica desse processo é a contínua emergência de novas possibilidades de futuro a partir de um mesmo momento presente – e há infinitos momentos presentes coexistindo neste instante.

A consequência para sua vida é simples: desde que você, leitor, nasceu, a cada evento aleatório relevante e a cada escolha decisiva que fez em sua vida, houve uma divisão de seu destino em vários caminhos prováveis, todos eles coexistindo simultaneamente, cada um deles vivido por uma versão alternativa de você. Você próprio é uma dessas versões, e nenhuma é mais verdadeira ou mais importante que a outra. Cada uma dessas versões ignora a existência das demais pois cada uma encontra-se entrelaçada em uma trama de realidade distinta das outras. E cada uma dessas versões não percebe os momentos em que seu destino se divide em vários futuros por razões que logo serão demonstradas.

Já com a metáfora matemática, aprendemos que a vida humana é como o infinito conjunto de números fracionados que existem nos estreitos limites entre zero e um. Ou seja, apesar de a biografia de um ser humano ramificar-se em diversos destino alternativos ao longo do tempo, realizando inúmeras possibilidades de viver e ser, tais destinos ocorrem dentro de possibilidades limitadas.

Essa metáfora permite afastar a equivocada ideia segundo a qual, havendo realidades alternativas, há uma em que você é um guitarrista famoso, outra em que você é um bilionário e até mesmo outra em que você jamais morrerá (pois a morte, em cada momento de risco de vida, pode ocorrer ou não, e haveria uma vida na qual ela jamais ocorreria para alguém). Afinal, argumenta-se, tudo isso é cientificamente possível.

Mas o que é possível não é o que é provável, e raramente os eventos prováveis em um destino humano resultam de um só fator. Assim como o envelhecimento e a morte, os principais eventos do destino humano são processos para o qual convergem múltiplos fatores, e esses fatores estabelecem o contexto em que o virtualmente possível torna-se “concretamente” provável.

Ademais, os futuros possíveis para uma criança são condicionados também pelo contexto inicial de seu nascimento. Uma criança nascida numa aldeia da floresta amazônica não se tornará uma bilionária, e se você não herdou de seus pais qualquer inclinação para a música, não se tornará um guitarrista célebre.

Desse modo, somos o infinito encapsulado dentro dos limites do que é cientificamente possível e contextualmente provável. Eventos no mundo macroscóspico são processos decorrentes de múltiplos agentes e são condicionados por múltiplos fatores, todos eles entrelaçados, e isso é como uma força gravitacional que curva o conjunto de possibilidades virtuais de forma a mantê-lo circunscrito a uma esfera ainda mais restrita de probabilidades “concretas”.

Por fim, pela metáfora computacional, foi apresentada a noção de que todo o universo observável, e que nosso cérebro percebe como sendo tridimensional, pode ser codificado em uma superfície bidimensional, tal como no caso de uma holografia.

Assim, propusemos ao leitor que imaginasse a realidade tridimensional em que vive como se estivesse codificada na trama de uma tapeçaria bidimensional de espessura muito fina, que se encontra empilhada com outras tapeçarias em cuja trama, por seu turno, estão codificadas outras realidades tridimensionais, inicialmente distintas umas das outras por discretas diferenças de codificação. Essas diferenças, contudo, ampliam-se progressivamente, e há enormes discrepâncias entre tramas que se situam em pontos distantes da topografia do hiper contexto.

Mas metáfora do espaço bidimensional que codifica uma realidade tridimensional empilhada junto a outras é, como todas as metáforas, limitada. É nesse ponto em que se percebe como são inadequados termos populares como “teoria dos muitos mundos” e “multiverso”, pois induzem à noção de que há universos apartados evoluindo paralelamente, sem interagirem de qualquer modo.

Na verdade, novas tramas de realidade estão constantemente emergindo das tramas de realidade que existem neste instante. E o momento presente transita em direção ao futuro dando gênese a novas tramas de realidade em que todas as versões coexistentes de uma só coisa ou ser se entrelaçam com a versões dos seres e coisas ao seu redor.

O entrelaçamento, por sua vez, não é uma propriedade da realidade que, “amarrando” os elementos de uma trama, aparta-a de todas as outras, como se fossem dimensões enfileiradas e que não interagem entre si. O entrelaçamento é a relação de complementaridade fundamental que existe entre todas as coisas que emergem no universo, inclusive no âmbito do hiper contexto. Novas formas de ser de cada objeto originam-se de modo correlacionado com novas formas de ser dos objetos com os quais se encontra entrelaçado. O segredo do próprio tempo e da gravidade dos corpos macroscópicos está no lema solve et coagula.

O nome “hiper contexto” não é por acaso: chama-se assim algo que se situa além de todos os contextos, ou seja, de todos os possíveis conjuntos de circunstâncias que coexistem em determinado instante. Ora, falar em “hiper contexto” é também usar uma metáfora: na verdade, o que se está descrevendo é meramente o universo tal como é.

Isto é o universo. É neste exato lugar em que você está agora, neste exato instante presente.

PROVAS DO HIPER CONTEXTO, A FÁBULA DOS CEGOS E UM ENIGMA.

Neste momento, há provas suficientes para que a existência do hiper contexto já seja reconhecida pela humanidade como a maior descoberta feita em sua história. De experimentos como a Dupla Fenda a paradoxos como o EPR, da Equação de Schödinger à rigorosa lógica de Hugh Everett, já há material suficiente para que qualquer um possa reconhecer a verdade do hiper contexto com clareza e honestidade intelectual. Novas provas surgirão com o tempo, pois trata-se de um fato testável (isto é, falseável) – e, inclusive, novas provas serão apresentadas a seguir, quando tratarmos do Reino Vegetal.

Quanto à atual postura da comunidade científica a respeito da existência do hiper contexto (e parte considerável da comunidade científica já a admite), só há uma coisa a dizer: prossiga-se investigando, prossiga-se questionando, prossiga-se testando. A questão, aliás, é justamente essa. David Wallace serenamente expôs, com clareza epistemológica, que os princípios científicos não estão sendo observados por aqueles que não levam a sério a importância das pesquisas sobre o hiper contexto. Afinal, a conclusão de Hugh Everett (que foi o primeiro a denunciar publicamente o hiper contexto) não ofende a Navalha de Occam – ao contrário, trata-se do único modelo que a observa. A resistência de alguns tem o mesmo fundamento da resistência à esfericidade da Terra: recusa em aceitar uma possibilidade extremamente contraintuitiva.

Logo, é inevitável que a comunidade científica chegue à conclusão unânime sobre a existência do hiper contexto cedo ou tarde, em 2022 ou em 3087. Esse é um ponto tranquilo. Aqui, o importante é ter em mente que o objetivo não é competir com a ciência, tampouco fazer ciência, mas narrar um fato a leitor – e, reconhecidos ou não, os fatos estão sempre presentes.

Também é importante perceber que o objetivo do conjunto desses textos não se limita e nem se deterá na discussão daquele fato já descoberto no século XX: o objetivo final é expor a verdadeira natureza de um risco concreto, embora o risco concreto exista e deva ser reconhecido independentemente do conhecimento de sua verdadeira natureza. A ignorância ou a recusa em aceitar um ato não nos impede, nesse caso, de agir diante do perigo.

E a recusa e a ignorância voluntária são esperadas, pois desde a descoberta das primeiras pistas sobre a existência de infinitas realidades alternativas, a humanidade tem interpretado o que viu de várias formas equivocadas, que denunciam uma reação instintiva contra a natureza extremamente contraintuitiva da verdade.

Exemplo disso é a reação de aversão cética ou de fascínio místico que a palavra “quântico” costuma despertar, e que uma fábula oriental ilustra muito bem.

Conta-se que, certa vez, numa aldeia na Índia, três cegos foram apresentados a um elefante, animal sobre o qual jamais tinham ouvido falar. Pediu-se que o descrevessem, e o primeiro cego, tateando sua tromba, disse que o elefante era como uma serpente. O segundo, abraçando uma das pernas, disse que o animal era como o tronco de árvore. O terceiro, apalpando seu flanco, afirmou que era como uma pedra.

Desde que a humanidade começou a identificar vestígios e pistas sobre a verdadeira natureza da realidade, houve duas reações típicas: a primeira é de austera negação da verdade, a segunda é de infantil delírio. A primeira vingou no seio da comunidade científica, a segunda nasceu de entusiastas do misticismo. Ambas correspondem à cegueira da fábula.

A chamada Interpretação de Copenhagen (segundo a qual a natureza quântica da realidade se restringe ao mundo microscópico das subpartículas, mas não ao mundo macroscópico em que vivemos), defendida por menos da metade da comunidade científica, nega a realidade ao crer em superstições como o conceito de “medição” e em dogmas como uma suposta linha de separação entre o mundo das subpartículas e o mundo macroscópico – dogma esse já fulminado pelo Teorema de Bell (e, como se verá, até pela planta mais ordinária do mundo). Já o chamado Ocultismo Quântico, popular entre místicos, nega a realidade ao supor que a consciência humana é dotada de algum poder mágico capaz de materializar o universo a partir de infinitas potencialidades, de modo que alguma espécie de pensamento positivo misterioso seria capaz de trazer sorte e fortuna a qualquer um.

Os cegos que negam e os cegos que deliram diante da palavra “quântico” perdem-se justamente no ponto em que se deparam com um certo enigma. Trata-se de uma questão que perturba e confunde a ambos, induzindo-lhes a cegueira.

O enigma consiste em determinar qual participação tem o ser humano na realidade do hiper contexto. Ocorre que responder esse enigma é a chave para a pergunta “Quem é você?”.

Contudo, a melhor forma de desvendar o enigma, curiosamente, não é observar o ser humano. A melhor forma consiste em observar a planta mais próxima de você neste exato momento, por mais simples que ela seja.

O GRANDE SEGREDO DO REINO VEGETAL

Como é evidente, nossos corpos também participam do hiper contexto, também são da mesma substância de tudo ao nosso redor (tecnicamente, também são funções de onda), coexistindo nesse exato momento em vários estados alternativos. E assim nossos corpos também se correlacionam, pelo entrelaçamento, com estados sobrepostos de todas as coisas ao redor. No nível macroscópico, todas as realidades alternativas que habitamos ao mesmo tempo coexistem de forma transparente, aqui e agora, e continuamente dão origem a novas realidades.

Pense em duas bolas de bilhar que se chocam. O que ocorre é que suas funções de onda, ou seja, suas coexistentes possibilidades sobrepostas, chocam-se observando um continuum de interações decorrentes do entrelaçamento (complementaridade) entre as possibilidades de cada bola. O corpo de um cientista no laboratório, inclusive seu cérebro e sistema visual, também existe em vários estados possíveis, e encontra-se em constante relação de entrelaçamento com o equipamento em todos os seus estados possíveis.

A compreensão correta da natureza do hiper contexto, isto é, do universo enquanto tal, leva à conclusão de que a vida biológica fez, em algum momento, uma escolha evolucionária em relação a essa realidade. E isso pode ser percebido claramente no mundo vegetal.

A planta mais próxima de você, por mais comum que seja, é um exemplo de como a natureza adotou uma estratégia não só para sobreviver no hiper contexto, como também para beneficiar-se da lógica do hiper contexto. Esse é um fato recentemente descoberto e já extensivamente estudado, conforme demonstram as pesquisas conduzidas separadamente por biólogos como Engel, Ishizakia, Olaya-Castro e Collini.

Trata-se do processo de fotossíntese.

De modo simplificado, durante a fotossíntese, a energia de um fóton incidente na superfície da folha é capturada. Essa energia luminosa é, a seguir, processada dentro dos cloroplastos, organelas que existem nas células da planta. Dentro de um cloroplasto, a energia luminosa capturada é transmitida “de mão em mão”, passando de um cromóforo (são estruturas moleculares distribuídas por todo o cloroplasto) a outro, numa sequência de cromóforos, até chegar num lugar chamado de “centro de reação”, onde a energia luminosa é convertida em energia química.

Porém, ao analisar-se a fotossíntese de uma simples planta de jardim, observa-se uma rapidez e eficiência de aproveitamento espantosas. Um só processo de captura e transporte da energia luminosa de um só fóton dentro da planta leva milionésimos de bilionésimos de segundo.

Algo indicava que, de alguma forma, a planta “sabia” qual o caminho era mais eficiente em cada caso.

O mistério foi resolvido quando se descobriu que, na fotossíntese, a planta aproveita-se da coexistência de múltiplos estados possíveis e coexistentes de cada fóton para que todos os trajetos possíveis entre os cromóforos sejam tomados de uma só vez. A seguir, a planta seleciona em seu centro de reação a energia que foi transmitida pelo melhor caminho, entre todos os trajetos tomados simultaneamente pelo mesmo quantum de energia luminosa.

Isso não é especulação, isso é um fatocomprovado e estudado. E esse fato pode ser descrito de várias formas complementares.

Tecnicamente, qualquer folha da planta mais ordinária que brota entre as junções de um muro é capaz de explorar todos os possíveis estados concomitantes do fóton e assim fazer com que a energia capturada siga ao mesmo tempo todos os caminhos possíveis pelos cromóforos, escolhendo (via coerência) o caminho mais eficiente para que a energia seja transmitida até o centro de reação.

De forma mais ampla, o que ocorre é que essa planta é capaz de explorar os múltiplos estados coexistentes de um mesmo fóton no âmbito do hiper contexto, associando o caminho mais eficiente para cada trama de realidade em ela existe e no qual faz sua fotossíntese.

De forma mais simplificada, a planta associa a cada versão sua, que existe em cada realidade alternativa desse universo, o trajeto de transporte da energia luminosa que for mais vantajoso naquela realidade específica.

Isso é feito por todas as plantas, seja uma grande sequoia, seja um pé de alface. E esse fato também fulmina o dogma de que há uma separação entre a física das subpartículas e o mundo macroscópico.

Por tal razão, não é absolutamente exagerado afirmar, como veículos de divulgação científica com credibilidade têm afirmado, que as plantas, na fotossíntese, funcionam como computadores quânticos.

Na verdade, não é também exagero dizer, como tem-se dito, que os organismos vivos são genuínas máquinas quânticas.

É que as plantas não são o único exemplo das escolhas evolucionárias que a natureza fez no hiper contexto. Como foi constatado, pássaros voam seguindo trajetórias coexistentes de forma que correspondam ao padrão de entrelaçamento que emerge do campo magnético da Terra em todas as realidades alternativas. Futuramente, será confirmado o que já se suspeita: que sentidos humanos como o olfato e a visão (um processo tão surpreendentemente rápido e eficiente quanto o da fotossíntese) dependem de estratégias evolutivas da natureza em relação ao hiper contexto. Essa também é a razão pela qual apenas determinados isótopos servem ao tratamento farmacológico de transtornos depressivos no cérebro humano.

Contudo, afirmar que somos “máquinas quânticas”, além de perturbar o ânimo dos cegos que negam e dos cegos que deliram diante da palavra “quântico”, também induz ao erro de que há algo especial, de “mágico” no fato de os seres vivos operarem no hiper contexto. É como dizer que o corpo humano é uma “máquina do tempo”, já que “viajamos” no tempo, indo do passado em direção ao futuro.

Ocorre que os organismos vivos operam no hiper contexto com a mesma naturalidade com que operam no tempo e nas três dimensões espaciais – pois tudo isso são aspectos de um só ambiente em que toda forma de vida nasce, cresce e morre. O hiper contexto é agente indissociável da vida orgânica, desde sua origem até os ecossistemas mais complexos nos dias de hoje.

A ORIGEM DA VIDA

É digno de nota que a primeira característica fundamental da vida orgânica foi a capacidade de replicar-se nos antigos oceanos e assim reproduzir, no âmbito do espaço tridimensional (um contexto) algo que ocorre com qualquer partícula no âmbito do hiper contexto: a dispersão contínua de uma só coisa em diferentes estados e posições (manifestação da entropia). É como se, de certo modo, as primeiras moléculas replicantes, que dariam origem à vida, criassem um segundo nível, subsidiário, de dispersão de uma só coisa (solve), aninhando num só contexto inicial um fenômeno existente para além de todos o contextos.

Também é notável que outra característica da vida orgânica seja a capacidade de lidar com a entropia utilizando-a a seu favor para produzir a energia necessária a sua manutenção. Na verdade, a origem da vida está associada à existência do hiper contexto.

E, no âmbito do hiper contexto, em que múltiplas possibilidades de configuração do meio ambiente coexistem, a natureza ensaia estratégias de sobrevivência que permitam adaptar-se e beneficiar-se das múltiplas realidades alternativas. Na produção de energia das bactérias, na fotossíntese das plantas, na orientação visual de aves, no sistema nervoso dos animais complexos, a natureza está sempre ensaiando novas formas de tirar proveito das múltiplas tramas de realidade, que emergem continuamente com o entrelaçamento de todos os seres e partículas. No fundo, trata-se um objetivo não muito diferente das diversas estratégias que a vida orgânica cria, pela evolução, para obter energia do ambiente circundante.

Perceba-se, antes de tudo, que a evolução, ao desenvolver progressivamente o sistema nervoso em animais complexos como o ser humano, buscava apenas desenvolver mais um órgão útil para a sobrevivência do organismo. Perceba-se, também, que se tratava, neste nível de complexidade, de um desafio bem maior do que aquele de obter energia solar da forma mais eficiente a cada segundo: o desafio consistia em fazer um organismo complexo operar num ambiente em constante ramificação em novas tramas de realidades.

Em outras palavras, seria útil um órgão que representasse com acuidade as características mais importantes do ambiente circundante, de forma que o organismo pudesse operar no hiper contexto encontrando alimento, defesa e meios de reprodução. Esse órgão é o cérebro.

Usando uma comparação quase metafórica, assim como a folha da mais simples planta escolhe em cada trama de realidade o trajeto mais eficiente para a fotossíntese, o sistema nervoso central dos animais complexos seleciona informações sensoriais da trama com a qual pode interagir a cada instante, e faz isso para obter nutrientes, encontrar oportunidades de reproduzir-se e evitar ameaças.

O desenvolvimento desse sistema nervoso resultou no aprimoramento da capacidade decisória do organismo vivo diante de cada situação presente num contexto específico, de forma a responder ajustadamente aos inúmeros futuros alternativos que continuamente emergem. Uma estratégia adotada pela natureza de “dividir (o hiper contexto em contextos) e conquistar”.

Nesse momento, algumas coisas já devem ser óbvias ao leitor.

Podemos imaginar a natureza optou, em outras formas de organização da vida, por lidar com a realidade do hiper contexto de outras formas, isto é, sem essa segmentação feita pela consciência dos animais complexos. O fato de que a vida vegetal adotou uma estratégia peculiar e distinta da nossa é um indicativo claro dessa possibilidade. E, de fato há, ao nosso redor formas de vida insuspeitas, que se desenvolveram estabelecendo uma relação distinta com o hiper contexto. Mas esse não é o tópico nesta parte de nosso aprendizado, e será abordado mais detidamente no futuro, na ocasião em que se tratará das implicações factuais e históricas do hiper contexto.

Nesta etapa, o que importa é começar a desvendar quem somos a partir da percepção de que nosso cérebro é um órgão criado evolutivamente para operar no âmbito de múltiplas realidades alternativas. E nisso não é em nada diferente das organelas que realizam a fotossíntese numa couve-flor.

CONSCIÊNCIA E HIPER CONTEXTO

Se você perguntasse a um discípulo de Newton (pai da Física clássica) o que é consciência humana, ele apresentaria uma mesa de bilhar. Nessa mesa, colocaria dezenas de bolas. A seguir, ele explicaria que, se uma das bolas for impulsionada de encontro às outras, e souber-se a exata posição inicial de cada uma, bem como as demais condições físicas de todo o sistema, seria possível descrever todos os movimentos subsequentes de todas as bolas a partir do primeiro choque, bem como sua posição no próximo segundo, no próximo minuto e assim por diante. É um sistema determinístico, onde cada instante seguinte pode ser deduzido das condições do instante antecedente. Além disso, também seria possível descrever todos os movimentos na mesa de bilhar no sentido inverso, voltando até o impulsionamento da primeira bola – pois, nesse sistema, o tempo é reversível.

Da mesma forma, continuaria o discípulo de Newton, se fosse conhecida a condição exata de todos os elementos constituintes de seu cérebro e de todas as variáveis determinantes nos processos cerebrais, seria possível prever seus pensamentos no próximo minuto, nos próximos dez minutos e no dia seguinte. Seria possível, também, descobrir o que você pensou no passado. Na verdade, sequer se poderia falar que você “pensou” em algo, pois a consciência seria apenas um subproduto irrelevante e colateral (um epifenômeno), dos movimentos na mesa de bilhar que é seu cérebro.

Mas sabemos que essa mesa de bilhar não é uma mesa de bilhar – é um conjunto de funções de onda composto por cada um de seus elementos constituintes, ela é, na verdade, a sobreposição de vários possíveis estados da mesa de bilhar, situada no hiper contexto. E sabemos, pela Equação de Schrödinger, que o hiper contexto não é apenas determinístico – ele é hiper determinístico, pois todas as probabilidades de futuro realizam-se em vários encadeamentos causais simultâneos.

Também sabemos que a noção de separação do universo em realidades alternativas não é algo inerente ao mundo exterior, mas um recorte da realidade feito pelo organismo – uma maneira de a vida orgânica segmentar sua interação com o meio ambiente do hiper contexto. É o que um pé de alface faz todos os dias. Trata-se, em síntese, de uma estratégia evolutiva. Como Andreas Whichert diria, esse é um processo de homeostase do organismo no âmbito das múltiplas realidades coexistentes.

Não é sem razão que o físico russo Michael Mensky, membro do Instituto de Física Lebedev, decidiu definir consciência como sendo nada mais que A separação de realidades alternativas e coexistentes. Em outras palavras, diante da coexistência de informações visuais conflitantes no momento em que um pesquisador num laboratório abre a caixa em que está o gato de Schödinger, a fim de descobrir se ele está vivo ou morto, sua consciência inicia uma separação de percepções que acompanhará as duas versões do pesquisador no caminho até sua casa após o expediente: em uma dessas versões, irá enterrar o gato no jardim; em outra, dará de comer ao animal.

Nesse exato momento, começam a surgir linhas de investigação teóricas e práticas que, não sem tropeços, comprovarão que o cérebro humano também opera no âmbito do hiper contexto. Ou seja, o cérebro humano utiliza-se do continuum de realidades alternativas pois é para essa função que primordialmente foi evolutivamente criado pela natureza.

E foi a partir da descoberta desse fato que o respeitado biologista Stuart Kauffman percebeu a relação existente entre o binding problem e o entrelaçamento fundamental das tramas de realidade.

O binding problem é um problema enfrentado pelas ciências da mente e pode ser descrito da seguinte maneira: se um observador vê um elefante vermelho diante de si, sua mente conecta as definições de “elefante” e de “vermelho”, que são armazenadas em regiões distintas do cérebro (na verdade, pelo sistema da segregação funcional, é um pouco mais complexo que isso, mas vamos manter o exemplo simples), para processar a ideia de que está vendo um elefante vermelho. Porém, se o elefante vermelho estiver montado por um macaco de chapéu, agora o observador precisa conectar mais três informações de regiões distintas de seu cérebro (a que está “macaco”, e a que está “chapéu”, a que está “montado”) e estabelecer conexão entre esses cinco elementos entre si (“elefante”, “vermelho”, “macaco”, “chapéu” e “montado”).

O problema é que, no mundo real, o observador não veria só um elefante amarelo montado por um macaco: ele receberia simultaneamente inúmeras informações sensoriais sobre o ambiente circundante, informações que estão continuamente mudando a todo instante. Na verdade, informações que não só chegam a cada momento, mas que estão sobrepostas em várias versões alternativas do macaco, do elefante e do ambiente no hiper contexto. E é preciso unir tudo isso numa percepção imediata do mundo que seja consistente.

Ocorre que é o entrelaçamento estabelecido entre as informações contidas em regiões distintas do cérebro e determinada trama de realidade que inicia essa separação, realizada pela consciência, entre a percepção de diversas tramas coexistentes. Isso tudo ocorre de forma muito rápida e consistente, em frações de milissegundos, numa velocidade capaz de rivalizar com a velocidade do processo de fotossíntese. Essa é a mesma conclusão a que chegou o neurocientista Danko Georgiev, e a dinâmica pode ser expressa na seguinte formulação de Matthew J. Donald, membro do Departamento de Física da Universidade de Cambridge:

“Quando um único indivíduo entra em contato com uma imagem pela primeira vez, todas essas diferentes possibilidades ocorrem, mas cada padrão diferente dos demais é visto por uma mente diferenciada. São mentes com o mesmo passado e o mesmo nome, mas que experienciam diferentes presentes e diferentes futuros, e que não tem forma de comunicar-se umas com as outras. A probabilidade de ver determinado padrão é determinada, pelo menos numa primeira aproximação, pela influência correspondente no estado quântico.”

Como afirmou o físico israelense e professor do Departamento de Física de Berkley, Rafael Bousso, e o norte-americano Leonard Susskind, de Universidade de Stanford, aquilo que é percebido como “decoerência”, ou seja, a segmentação do hiper contexto em tramas de realidade, é algo subjetivo e dependente de escolhas nos graus de liberdade possíveis do meio ambiente circundante.

O matemático Stuart Kauffman observou que, do ponto de vista computacional, há evidências de que o cérebro humano usa lógica segundo o formalismo quântico (o hiper contexto, de possibilidades coexistentes), e não segundo o formalismo da física clássica (a mesa de bilhar de Newton), o que é endossado pelo trabalho do físico da Universidade de Bruxelas, Diederik Aerts, e da psicóloga Liane Gabora. Ambos estudaram a forma como os seres vivos representam mentalmente sua interação com o hiper contexto: um organismo existe em estado de potencialidade (de manifestar-se no futuro imediato em várias versões alternativas de si mesmo) ao mesmo tempo em que o mundo exterior demanda, através de constantes estímulos, que esse organismo interaja com um único e determinado contexto de realidade.

Como ambos afirmaram, esse contexto “induz uma mudança no estado cognitivo” do animal, “que o faz transitar de um estado de sobreposição” (múltiplas realidades coexistentes) para um “estado de colapso” (a impressão de que há uma só realidade definida, com a qual pode interagir).

Em suma, enquanto você vive seu cotidiano, depara-se com decisões e fatos aleatórios que segmentam sua vida em vários futuros coexistentes, e sua mente segmenta a experiência de modo que cada versão de você vivencie apenas uma trama de realidade.

Mas a natureza “escolheu” (figurativamente falando) não nos informar a respeito disso. Vivemos emergindo em realidades alternativas, realizando futuros potenciais, ramificando nosso destino conforme escolhas e eventos decisivos. Assim, a sua história pessoal não é uma linha de vida, mas uma árvore de vida.

Como percebemos nossas vidas.
Como nossas vidas são.

Porém, você ignora essa vivência contínua, e isso ocorre justamente porque ignorar esse fato é parte indissociável da função do órgão que é seu cérebro. A natureza não tem qualquer inclinação pela verdade: a natureza tem inabalável inclinação pela sobrevivência e reprodução do organismo. A função de nossa consciência não é perceber a verdade sobre o mundo ao redor, mas possibilitar que nosso organismo interaja apropriadamente com aquele contexto de realidade no qual pode obter alimento, abrigo e reprodução – e do qual podem surgir efetivos riscos à sua sobrevivência. Sua consciência produz a separação de “tramas de realidade” assim seu o fígado produz bile.

O MODELO MENTAL QUE TOMAMOS POR REALIDADE

Na verdade, é incorreto supor que a consciência humana é destinada a tentar perceber a verdade sobre a realidade circundante. Ela é um órgão, e como tal sua função é fornecer ao organismo uma descrição acurada de aspectos da realidade circundante que importam para sua sobrevivência. A natureza não se inclina à verdade, mas à sobrevivência e reprodução de si mesma. Ademais, na economia da natureza, informações inúteis para seus fins não precisam ser processadas e armazenadas pelo organismo. Eis o motivo pelo qual não vemos as ondas de rádio que passam por nós nesse exato momento, ou não ouvimos sons abaixo de determinada frequência.

O filósofo alemão Thomas Metzinger, especialista no estudo sobre a consciência e identidade humana, recentemente demonstrou que o cérebro de um organismo consciente constrói a cada instante um modelo do mundo exterior. Essa é uma atividade incessante, e reconhecida pela neurobiologia, pois a cada instante a consciência é inundada por uma torrente de informações sensoriais sobre o mundo circundante e a cada um desses instantes precisa organizar essas informações de forma a construir um modelo coeso e compreensível desse mundo.

E isso é feito a uma velocidade impressionante, tal como a velocidade da transmissão de energia na fotossíntese. Afinal, a cada segundo pode surgir um predador ou outro tipo de ameaça à sobrevivência.

Com base nessas informações sensoriais, nosso cérebro cria um simulacro de realidade no qual sentimos que estamos inseridos. Como diz Metzinger, “o modelo global de realidade construído por nosso cérebro é atualizado com tanta velocidade e consistência que de regra não o vivenciamos como um modelo”, mas como a realidade em si mesma. Por isso a resistência humana em aceitar o hiper contexto é tão ou mais forte do que a de aceitarmos que a Terra em que pisamos não é plana, mas faz parte de uma esfera que flutua no espaço sem “lado para cima” e “lado para baixo”. Para nós, “a realidade fenomenal não é um espaço simulado construído por nossos cérebros”, mas o mundo real. “De uma forma direta e intranscendente enquanto experiência, trata-se do mundo em que vivemos”.

Você olha ao seu redor e acredita que está presenciando a realidade, o mundo no qual está inserido. Mas, na verdade, está percebendo um modelo de mundo criado dinamicamente por seu cérebro, através do qual pode interagir com os outros seres ao seu redor. Graças a um processo baseado no princípio da segregação funcional, áreas diferentes de seu cérebro constroem em sua mente (utilizando padrões de ativação das colunas thalamocorticais), a cada fração de segundo, esse simulacro eficiente de realidade consensual que você compartilha com todos os outros humanos e demais seres vivos que estão entrelaçados na mesma trama de realidade em que você está inserido.

Esse modelo de realidade, nos organismos mais evoluídos, é ainda mais complexo: ele inclui um modelo também de self, de si mesmo. Um modelo de identidade, de individualidade, que é criado dentro aquele outro modelo de mundo, fornecendo à sua consciência a percepção de que alguém vive sua vida.

Esse modelo de identidade é você. Ao menos em parte. Assim, a pergunta inicial começa a ser respondida.

QUEM É VOCÊ (EM UM CONTEXTO)

Então, quem você é? Qual é sua identidade? A resposta dependerá dos limites do enquadramento que fizermos do hiper contexto.

No enquadramento de uma trama de realidade percebida por sua consciência, você é um modelo de identidade pessoal criado e inserido no modelo de mundo que seu cérebro constrói dinamicamente a cada segundo ao segmentar o hiper contexto em contextos separados. Esse modelo de identidade pessoal testemunha a vida de uma perspectiva de primeira pessoa, e ele é o que denominamos de ego.

O ego trouxe grandes vantagens evolutivas aos organismos complexos. Metzinger considera-o uma verdadeira arma, “desenvolvida na corrida armamentista cognitiva” que há entre os seres vivos. É “como um instrumento ou órgão abstrato, inventado e constantemente atualizado pelo sistema biológico” que o sustenta.

Portanto, você é uma dentre várias identidades do mesmo organismo, coexistentes no hiper contexto, cada qual vivendo em um destino específico, dentro de uma moldura de realidade. Seu cérebro está constantemente atualizando esse modelo que você sente como o mundo real ao seu redor. Seu cérebro está constantemente contando para você próprio uma narrativa sobre quem você é e onde está. No centro desse modelo, há um modelo de identidade pessoal – o seu ego.

Mas essa narrativa não é individual, tampouco é meramente humana. A narrativa sobre a trama de realidade em que você está não é contada apenas pelo seu cérebro a cada instante, mas também pelo cérebro das pessoas ao seu redor. Tais narrativas de cada indivíduo são complementares, e reforçam-se mutuamente. Assim, o que há é uma enorme teia de narrativas contadas por todos ao seu redor.

E isso não inclui apenas os seres humanos, mas também todos os animais desenvolvidos, que a natureza também decidiu dotar de um cérebro que segmenta realidades e cria modelos de mundo e identidade pessoal em maior ou menor grau (nem todo chegam a desenvolver um ego, mas desenvolvem ao menos uma noção rudimentar de identidade pessoal). Na clareira de uma floresta, tanto o leopardo faminto como sua vítima humana compartilham uma narrativa coletiva de terá fatais consequências para um deles – suas narrativas são complementares, estão “entrelaçadas”.

Essa é uma forma de organização ecossistêmica que há no âmbito do hiper contexto, nada diferença em funcionalidade que o ecossistema no qual trocamos nutrientes e outras substâncias com um conjunto de seres vivos. Mas esse é um ecossistema de informação. Todos os seres vivos evoluídos estão narrando a mesma história uns para os outros, “encenando-a” dentro de modelo simulado de realidade que existe dentro dos seus cérebros.

A noção que você tem sobre quem é, onde está e o que está vivenciando neste momento é um modelo construído por seu cérebro a cada instante, a medida em que você flui pelo hiper contexto, segmentando sua vida em caminhos diferentes diante de cada decisão ou acaso que estabelece novas probabilidades de viver – e ao mesmo coexistindo com versões alternativas de você que estão exatamente aqui, neste espaço no universo. Mas com essas múltiplas versões você não pode interagir, pois elas não pertencem ao contexto de entrelaçamento com o qual você é pode de interagir.

Poderíamos dizer que é como se a natureza tivesse decidido, por questões evolucionárias, adotar a estratégia de “nos enganar” a todo momento, fazendo-nos ignorar o hiper contexto em que vivemos e a constante emergência de novos futuros ao qual reagimos com a divisão de nossa identidade em versões alternativas.

Mas falar assim seria pressupor de que a natureza tem alguma obrigação de nos apresentar a verdade. E isso seria um raciocínio invertido. A natureza é que nos criou para uma função específica em relação ao nosso organismo: operar em determinado contexto, em determinada trama de realidade. Para isso, elas municiou-nos com um sistema sensorial capaz de fornecer informações para que o cérebro construa um modelo minucioso e dinâmico de mundo.

Assim, o modelo continuamente construído ignora qualquer informação sobre a realidade que não apenas seja inútil para nosso contexto de sobrevivência (por isso não vemos, entre outras coisas, luz infravermelha) mas também estruturalmente prejudicial para a estratégia evolutiva que foi adotada.

Por isso é que facilmente nos distraímos da pergunta sobre quem somos, apesar de sua auto evidente importância, e temos dificuldade de encontrar a resposta: somos vocacionados à ignorância. Na verdade, expondo de forma mais exata, somos vocacionados a ter um conhecimento seletivo sobre as coisas, em que há zonas delimitadas por uma ignorância estrutural. A ignorância estrutural decorre do fato de que, evolutivamente, fomos criados para operar como um modelo de identidade pessoal, ou seja: o ego existe para acreditar que é alguém que vive uma vida. Responder de fato à pergunta é contrário à programação evolutiva.

Nesse momento, o leitor pode objetar que o conhecimento desse fato pode legitimar o suicídio ou a algum tipo de desestruturação da identidade humana, com graves consequências. Em relação ao suicídio, futuramente será demonstrado porque o matar-se é realmente uma péssima ideia no âmbito do hiper contexto. Quanto à outra objeção, convém lembrar que deixar de ter um ego, de vivenciar o mundo com uma identidade pessoal, é quase tão impossível para qualquer um quanto seria impossível a você desligar seu cérebro e cair morto neste exato momento simplesmente decidindo parar de pensar e tentando interromper qualquer atividade neurológica. Você é esse modelo de identidade que acredita viver sua vida, e continuará sempre sendo esse modelo de identidade.

Além disso, esse sistema é reforçado por um sistema maior, a matriz em que você vive, e cujo entendimento perceberá que respondamos com mais profundidade ainda à pergunta “Quem é você”.

A MATRIZ EM QUE VOCÊ VIVE

A evolução é emergente. Isso já reconhecia Alfred Russell Wallace, amigo de Darwin e um dos formuladores da teoria da evolução. E por “emergência” tem-se algo muito simples: é o contrário da linearidade. Na linearidade, o todo é igual a simples soma de suas partes. Na emergência, o todo é mais que a soma de suas partes.

Isso é perfeitamente claro quando colocamos da seguinte forma: podemos empilhar ao lado do animal todas as substâncias inanimadas que compõem seu organismo, desde todo o carbono e minerais até as moléculas de água. Porém, esse conjunto de elementos empilhados não será semelhante ao animal, da simples concatenação das partes não resulta o todo. O animal é algo mais, possui propriedades de termodinâmica e reprodução que os elementos inanimados não tem.

O que diferencia o animal daquele conjunto de elementos empilhados é a organização e interação desses elementos em uma determinada ordem: é informação. Não somos exatamente as células do nosso corpo, que morrem aos milhões a cada minuto. Somos a informação que é transmitida às novas células que constantemente são produzidas pela meiose.

Dessa perspectiva, tudo o que a vida orgânica faz neste mundo é reproduzir um sistema de informação consistente na sequência de DNA: não é a molécula de DNA que se transmite, mas a informação representada por uma configuração determinada de encadeamentos de bases nitrogenadas. Não é um objeto, mas uma informação ordenativa que tem como suporte um conjunto de objetos. Isso ocorre mesmo nas bactérias primitivas.

A evolução é inerentemente emergente, e tende a produzir sistemas de informações de nova ordem no curso da adaptação. Da mesma forma, como diria Julian Jaynes, a consciência humana é emergente, e não pode ser resumida como o mero conjunto de neurônios de um cérebro humano. No desenvolvimento desse órgão evolutivo destinado a ajudar o organismo a operar no hiper contexto, emergem estruturas de informação de maior nível de complexidade.

A consciência humana é resultado dessa emergência – neste momento, ela começa a reconhecer sua função de segmentar realidades e passa a ir além dessa função. Paralelamente, no âmbito do hiper contexto, a rede de representações de realidade passa a ir além do contexto onírico em que vivem os animais primitivos e desenvolve um sistema altamente organizado e superior de consciência ao qual nossos egos (nossas representações de realidade e identidade pessoal vinculadas a uma trama de realidade específica, a um contexto) não têm acesso.

Do outro extremo da história evolutiva outros sistemas de informação, mais abstratos, desenvolveram-se. No cérebro dos organismos mais complexos, há sistemas de informação que, na terminologia de Metzinger, constroem e atualizam dinamicamente uma representação da realidade que o animal considera ser o mundo real. Em organismos mais desenvolvidos, desenvolveu-se dentro dessa representação um modelo de identidade pessoal que trouxe enormes vantagens evolutivas. No ser humano, esse modelo é chamado de “ego”.

Mas para além desse sistema de representação de realidade no qual se inseriu uma representação de identidade pessoal, de ego, há um sistema de informação que é o princípio organizativo de todas as representações de realidade realizadas pelo cérebro no hiper contexto. Surgem desse sistema novas representações de realidade e identidade para cada realidade alternativa em que uma versão do mesmo organismo passa a viver.

Não estamos sozinhos apenas no sentido de que, no presente contexto em que estamos todos vivos, nessa trama de realidade que nos cabe viver, compartilhamos da mesma narrativa coletiva e entrelaçada. Também no âmbito do hiper contexto participamos de outros tipos de narrativas, que são subjacentes a certos processos também resultantes de escolhas evolucionárias.

Falar em narrativas, claro, é falar em estruturas informacionais que estão em constante transmissão e atualização diante das mudanças no meio ambiente. E as mudanças no meio ambiente estão intrincadamente associadas ao fluxo das possibilidades no hiper contexto. Assim como os vários organismos vivos compartilham de um mesmo ecossistema informacional no âmbito de determinado contexto, a consciência de um só indivíduo, continuamente fluindo pelo hiper contexto e segmentando-se em realidades alternativas, depende de um mínimo de coesão informacional.

Segure uma moeda em suas mãos. Ela não é só uma moeda, mas uma convergência de potenciais estados de ser da mesma moeda. Atire-a no chão. Num ambiente determinado pela aleatoriedade fundamental do mundo das partículas, a moeda cairá com as faces cara e coroa voltadas para cima, em realidades sobrepostas e coexistentes. As realidades potenciais até então convergentes passaram a divergir. Mas seu cérebro apenas processa uma só informação: ou cara ou coroa. O modelo de realidade precisa ser imediatamente atualizado.

Portanto, além de escolhas evolutivas terem resultado num modelo de identidade pessoal (ego) aninhado no modelo de mundo construído a cada instante pelo cérebro, um modelo ou sistema informacional de ordem superior precisa existir, a fim de organizar e promover a construção de novos modelos de identidade e de mundo a medida em que os futuros potenciais se concretizam diante do mesmo ser vivo.

Michael Lockwook chamou esse modelo superior de “Mente” (Mind), com inicial maiúscula, para distinguir das “mentes” (minds) que habitavam cada uma das realidades alternativas. M. B. Menski chamou-a de “super-consciência” (super-consciousness), para distinguir das consciências que acompanhavam a ramificação do momento presente em vários caminhos futuros. No ambiente em que essas verdades foram transmitidas antes de serem apresentadas ao leitor, é denominado de “Eu Profundo”.

Porém, cada um de nós tem ideias pré-concebidas do que seria “mente”, “consciência” e “eu”. Por outro lado, é mais fácil entender o que é um sistema de informação ou de rede.

O modelo informacional de rede é tão arcaico na natureza quanto o processo quântico de fotossíntese. Bactérias primitivas estabelecem redes de informação por meio de canais de íon para otimização da colônia bacteriana, e pesquisadores notaram recentemente sua semelhança com redes neuronais. Nas florestas, árvores distantes estabelecem entre si uma rede de comunicação graças à simbiose com fungos (mycorrhiza), prevenindo a ação de patógenos e fortalecendo as defesas do sistema como um todo.

A capacidade de sonhar dos répteis, bem como de todos os mamíferos, deixa evidente que essa rede de informação que funciona no âmbito do hiper contexto, abrangendo todas as representações de realidade de um só organismo, existe há muito tempo, mesmo que de forma rudimentar. Sim, como se verá adiante, a atividade onírica é fundamental para a existência dessa rede e um dos indícios de sua existência em um organismo vivo. O ponto importante neste momento é que essa rede tem por função original a homeostase do organismo no âmbito de um universo em que múltiplas realidades alternativas coexistem e o cérebro evoluiu optando por segmentar a representação de cada uma dessas realidades. Nisso, em nada é diferente do processo de homeostase que mantém o equilíbrio da temperatura corporal em condições ambientais variáveis.

Portanto, em posição hierárquica superior ao “mundo” construído dinamicamente pelo seu cérebro para representar uma só trama de realidade, há uma rede de informação sustentada dinamicamente por sua mente para descrever todas as tramas de realidade em que versões de você estão vivendo neste momento. A essa rede situada no hiper contexto daremos o nome de Matriz, por analogia à matriz celular que une as células de um mesmo indivíduo. Essa Matriz é inacessível ao seu ego, mas une a consciência de todas as versões suas que existem em diversas realidades alternativas.

E nos organismos ainda mais complexos e desenvolvidos, se por um lado a construção de uma identidade pessoal, o ego, trouxe vantagens evolucionárias, por outro o desenvolvimento de uma identidade superior e operante na Matriz representou também foi um desenvolvimento importante.

Em outras palavras, assim como há uma identidade pessoal construída dentro do modelo de mundo que representa uma só trama de realidade, existe um centro coordenador e organizador dentro da Matriz a que você pertence.

É nesse momento que reformulamos a pergunta “Quem é você?”.

QUEM É VOCÊ (NO HIPER CONTEXTO)

No âmbito de um contexto determinado, da trama de realidade em que você lê estas palavras, você é um modelo de identidade pessoal plasmado por seu cérebro e inserido no centro da representação de realidade que dinamicamente ele constrói a cada fração de segundo. Você só existe enquanto personagem dessa representação em cada instante presente – você não existe no futuro nem no passado, mas unicamente aqui e agora. Sua mente conta incessantemente uma narrativa que relata qual seu passado, qual sua identidade e onde você está. E essa narrativa é reforçada por todos ao seu redor que compartilham da mesma experiência, que estão entrelaçado na mesma trama.

Isso é seu ego, no âmbito de um contexto.

Porém, para além dessa trama de realidade, no âmbito do hiper contexto que abarca todas as tramas de realidade em que você vive versões alternativas de sua vida, você é uma rede de informação, a Matriz, constantemente sustentada e coordenada por uma inteligência central, a sua “identidade superior”.

Essa identidade superior, que está além de todas as suas identidades pessoais coexistentes, opera no hiper contexto consciente do hiper contexto, e por isso é uma forma de consciência suprior. Para constratar com o ego, chamamos essa hiper identidade de Self.

Você também é o Self, no âmbito do hiper contexto.

É inviável ao ego (a qualquer ego de qualquer realidade alternativa em que você viva) acessar diretamente ao Self. Isso representaria, no atual estágio evolucionário, a própria desestruturação do ego e uma genuína forma de morte, já que o ego é estruturado pela própria segmentação da identidade em um contexto específico. Quem vivenciou o rompimento dos limites entre ego e Self percebe o impacto da experiência, impacto esse nem sempre benéfico. Como diz a fábula hebraica, dos quatro homens que visitaram o Jardim do Éden, o primeiro morreu, o segundo enlouqueceu, o terceiro se encheu de fúria e só o quarto conseguiu entrar e sair em paz.

A CARTOGRAFIA DE QUEM VOCÊ É

Você é ego, Matriz e Self – um indivíduo, uma rede de indivíduos e uma consciência superior.

Ao longo da história, várias tradições de pensamento tentaram descrever a verdade sobre a identidade humana. No budismo, o ego é percebido como uma forma de ilusão condicionada pelo desejo (as pulsões animais instintivas) e pela ignorância (a incapacidade de perceber a própria identidade e o mundo tal como são). No hinduísmo, crê-se na natureza ilusória da identidade, enredada no sonho de Maya, a grande tecelã de realidades. Mesmo nas religiões ocidentais há a descrição de um eu condicionado, cujos desejos devem ser submetidos ao exercício da humildade, se quiser fortalecer sua conexão com uma potência superior.

Da mesma forma, outros mitos e lendas de nossos antepassados tentaram delinear, de maneira rudimentar, alguns aspectos gerais da Matriz em que cada um de nós está inserido. Afinal, todas as noites, ao sonharmos, visitamos esse território, e é natural que nossos ancestrais intuíssem algo sobre sua existência e natureza.

Na verdade, desde tempos imemoriais a humanidade tenta criar mapas para descrever esse território em que todos estamos inseridos e que visitamos todas as noites, ao sonharmos. Os primeiros mapas eram simples, e em geral todos eram inexatos. Pior ainda, com frequência o mapa era confundido com o território, dando gênese à dogmas e religiões organizadas.

Ocorre que, neste momento, alterações abruptas estão ocorrendo no mundo, e ameaças desconhecidas insinuam-se no horizonte da humanidade. Essa situação é emergencial, e exige que compreendamos aspectos mais amplos desse território chamado Matriz, bem como da natureza do Self e da função do ego nesse sistema.

A humanidade precisa, em suma, de uma cartografia mais precisa e descritiva, que nos permita adaptar com rapidez e eficiência o sistema cognitivo e decisório que herdamos de nossos antepassados, sem corrermos o risco de confundir o mapa com o território.

No século XX, felizmente, alguns cartógrafos começaram a analisar esse território e a descrever sua topografia de forma mais precisa. Seus nomes são C. G. Jung, Julian Jaynes e Mircea Eliade. O mapa elaborado por esses cartógrafos será objeto de nosso próximo texto, que será menos árido e técnico do que este. Na verdade, ele terá a cor e fluidez dos sonhos humanos.

A quem os psicólogos de fato servem

Li recentemente um artigo do Botomé chamado A Quem Nós, Psicólogos, Servimos de Fato?. Este artigo foi publicado em 1979, procurando responder a pergunta-título e, para isso, trouxe dados de pesquisas e questionamentos autocríticos. Esse artigo ficou bastante conhecido e é muito lido, principalmente pelo pessoal da chamada “Psicologia Social”, por denunciar o incontestável elitismo da Psicologia, cujos serviços apenas uma pequeníssima parcela da população pode pagar.

O “elitismo” da Psicologia (uma maneira grosseira de sintetizar o problema do acesso aos serviços de Psicologia, apontado por Botomé) é, sem dúvida, algo ainda presente e pertinente de ser debatido. Mobiliza-me mais, no entanto, outra forma de elitismo, também abordada por Botomé: um elitismo intelectual.

A Psicologia tem favorecido um hermetismo que é inimigo do conhecimento, sendo importante aprimorar a Psicologia  para que os conhecimentos psicológicos possam servir às pessoas, não apenas mostrar nossa erudição.

Procuro trabalhar nesse sentido. O meu grande interesse por epistemologia, filosofia e outros, está diretamente relacionado com essa questão. É importante combater tudo que tem freado a produção de conhecimento em Psicologia e procurar divulgar e expor a debates nossas teorias e práticas, para serem adotadas, criticadas e aprimoradas. Se na comunidade científica, de modo geral, isso é de praxe (ela serve justamente de audiência crítica para qualquer teoria ou hipótese e responsabiliza-se por este crivo), na Psicologia há a defesa de uma pluralidade que, embora em alguns contextos e sentidos possa ser positiva, beira a prostituição intelectual.

Há um “não me toque, gosto muito de minhas teorias e é arrogância de sua parte criticá-las” na Psicologia que não é encontrada na maioria das demais ciências. Mas teorias não podem ser blindadas.

Têm sido usadas duas principais estratégias para blindar as teorias psicológicas. A primeira delas é moral, e qualquer semelhança do “devemos respeitar outras teorias”, para blindá-las de críticas, com o “devemos respeitar as crenças religiosas de outrém”, não é mera coincidência. Essa é simplesmente uma das melhores formas que idéias ruins acham para se justificar e prosperar.

A outra é o hermetismo. Encher sua teoria de conceitos, referências a filósofos, antropólogos, físicos e matemáticos que dificilmente estudantes de Psicologia terão condição de perceber o charlatanismo ali. Dá um ar erudito e ainda cria sentenças sujeitas a múltiplas interpretações, passíveis de justificarem muitas coisas diferentes, frequentemente opostas. Estas duas estratégias são as marcas de uma ideia ruim, inimiga do conhecimento

Então, afinal, a quem de fato servimos? Nossa própria vaidade, pelo jeito. Utilizar a Psicologia apenas para pavonear-se, ganhar dinheiro ou prestígio, não nos torna menos charlatões do que astrólogos, quiromancistas, videntes e até políticos corruptos. Afinal, é o dinheiro dos impostos que propicia que estudemos, e não dar um retorno à população deste seu dinheiro é o mesmo que manté-lo apenas para seus interesses. E atender na clínica, um ambiente facílimo para inventar mal-estares e “aprofundar” anos a fio neles, não quer dizer absolutamente nada. Não só a clínica, como universidades e até pesquisas, por vezes são apenas instrumentos desta improdutiva desonestidade (geralmente inconsciente).

Não estou me afiliando, com isso, ao ingênuo discurso de “vamos servir o povo”. Tenho convicção que todas nossas ações são, em última instância, absolutamente egoístas e não servimos ninguém além de nós mesmos. Não sou contra o egoísmo e na verdade sou, eu mesmo, um egoísta. Mas sou adepto de um egoísmo inteligente, que leve em conta também consequências a longo-prazo, o resultado de minhas ações sobre as pessoas e o resultado da ação dessas pessoas sobre mim e sobre o meio em que vivo. Não é um egoísmo de bebês gordos, de crianças mimadas. É perceber que trabalhar em prol do conhecimento – e mais, conhecimentos que sirvam às pessoas, não masturbações mentais e construções de castelos imaginários – é trabalhar em prol de sí mesmo. Como coloca Skinner:

“A ciência é uma disposição de aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos. Os homens refletidos talvez tenham sempre sabido que somos propensos a ver as coisas tal como as queremos ver, em vez de como elas são; contudo, graças a Sigmund Freud, somos hoje muito cônscios das deformações que os desejos introduzem no pensar. O oposto de “pensar querendo” é a honestidade intelectual – um predicado extremamente importante do cientista bem sucedido. (…)

Os cientistas simplesmente descobriram que ser honesto – consigo mesmo tanto quanto com os outros – é essencial para progredir. (…) Os cientistas descobriram também o valor de ficar sem uma resposta até que uma satisfatória possa ser encontrada. É uma lição difícil. Requer considerável treino evitar conclusões prematuras, deixar de fazer afirmações onde provas sejam insuficientes e dar explicações que sejam puras invencionices. Entretanto, a história da ciência tem demonstrado repetidamente a vantagem deste procedimento.” (Skinner, 1953/1970, p.16)

Não é em vão que toda ciência tem como objetivo compreender, prever e alterar seu objeto de estudo. Compreender nos permite prever, antecipar, evitar algo indesejável ou como conseguir algo desejável e, caso não seja possível prevenir, saber como alterar.

Debater sobre o sexo dos anjos ou quantas fadas são capazes de dançar na ponta de uma agulha, não serve de nada, por mais que cite vários autores em minhas digressões e traga teorias da física e biologia para justificar as asas ou a dança das fadas. O equivalente disso na psicologia é ficar construindo conceitos imaginários e embarcarmos em debates sobre algo puramente inventado, que serve apenas para mostrar o quão supostamente inteligentes ouprofundos somos. Supõe-se que este tipo de pessoa e estes debates sejam profundos porque não podemos enxergar o fundo; mas é por que não são sequer rasas.

Tornar o serviço de psicólogos acessível a mais pessoas é importantíssimo, mas de nada vai adiantar se o psicólogo não pode fazer nada por elas.


Referências:

SKINNER, B.F. Ciência e comportamento humano.  2ª edição – Editora Universidade de Brasília, 1970

Direita, esquerda e nazismo

Todo mundo sabe que os termos direita e esquerda surgiram no século XVIII, na esteira da revolução francesa. A primeira esquerda surgiu do pensamento iluminista e liberal clássico. Só bem depois surgiu uma esquerda muito mais vinculada ao marxismo do que ao liberalismo clássico, especialmente a manifestação continental do liberalismo.

O pensamento de direita não surgiu como um corpo de ideias próprias, mas especialmente como uma reação à esquerda nascente e à Revolução Francesa. Na Inglaterra, levou ao conservadorismo secular de Burke, no continente deu no conservadorismo tradicionalista de Maistre. Muito, mas muito tempo depois foi surgir uma “direita” não vinculada de alguma forma ao conservadorismo social, com os pensadores liberais econômicos do século XX.

Depois da esquerda liberal, tivemos a esquerda marxista, que, de certa forma, eclipsou a primeira. Das três fontes teóricas do marxismo, a economia política inglesa, o socialismo reformista e racionalista francês e a filosofia hegeliana, apenas esta última não pode, imediatamente, ser considerada parte do pensamento iluminista. Então, creio ser possível considerar o marxismo como um dos frutos do Iluminismo, o que mantém algo em comum com a sua precursora, a esquerda liberal.

O Fascismo, que poucas pessoas não consideram um movimento de direita, não deixa de ser um fruto do pensamento conservador continental, especialmente do tradicionalismo radical de Julius Evola. Isso o coloca como um movimento claramente anti-iluminista.

O Nazismo muito se inspirou no Fascismo, bem como na tradição romântica e antimoderna germânica (que apesar das negações revisionistas pós-modernas, tem em Nietzsche um dos maiores representantes) mas há muitas diferenças entre os dois movimentos. Para começar, Mussolini nunca gostou de Hitler, enquanto este idolatrava o primeiro. O Fascismo não foi totalitário, pois dividiu o poder com instituições tradicionais, especialmente a Monarquia e a Igreja. A nobreza e burguesia alemã, pelo contrário, ou foram incorporadas pelo Partido Nazista ou retiradas do poder. O Cristianismo, por seu turno, foi duramente perseguido por Hitler.

Além disso, Hitler adicionou ao Nazismo um componente eugenista e a biologia pseudocientífica que não havia encontrado espaço no fascismo. Por incrível que pareça, o eugenismo, no começo do século XX, estava muito mais ligado a movimentos progressistas, de “aprimoramento humano” do que a movimentos conservadores, afinal, para estes, interferir na natureza humana e nos desígnios divinos era “brincar de Deus”. Esta é, ao contrário dos argumentos mais utilizados (o nome do partido e o “tamanho do estado”) a característica mais “esquerdista” ou “progressista” do Nazismo.

O argumento do nome do partido é péssimo. Socialismo nos anos 1920 não tinha muito a ver com o que entendemos como socialismo hoje em dia. Desde o século XIX, socialista era todo aquele que se opunha ao individualismo moderno. Havia movimentos socialistas “de esquerda”, marxistas, e “de direita”, tradicionalistas.

Os partidos de esquerda, normalmente, ou eram “trabalhistas” (como o inglês) ou social-democratas (como o partido alemão ou mesmo o partido bolchevique, que tinha esse nome oficial), embora houvesse também “socialistas”, como o francês. Por associação, passamos a entender social-democracia como a ideologia reformista de esquerda do partido alemão com o mesmo nome, enquanto o partido russo, após a Revolução de 17, mudou o nome para Partido Comunista, para se diferenciar do balaio “socialista” e dos seus homônimos reformistas alemães. Graças a isso, o nome “comunismo” passou a ser associado com o sistema implantado na URSS.

O argumento do papel do Estado na economia é pior ainda. Economia liberalizada só passou a ser associada, irrevogavelmente, à direita após os governos de Thatcher e Reagan e as obras teóricas da Escola Austríaca e de Chicago na segunda metade do Século XX. No final do século XIX e começo do século XX, por exemplo, o livre comércio era uma bandeira encampada pelos movimentos trabalhistas de esquerda, pois garantia produtos baratos aos trabalhadores.

Enquanto isso, os conservadores, geralmente vinculados às classes agrárias, eram protecionistas. E, mais ainda, entre os anos 1930 e 1970, a intervenção estatal na economia passou a fazer parte de todo o espectro político mainstream. Quando pensamos nos partidos de direita tradicional dessa época, todos eles advogavam alguma espécie de intervencionismo econômico, seja o Partido Republicano dos EUA, os gaullistas franceses ou os conservadores britânicos. A própria Margaret Thatcher, ex-primeira ministra britânica, não venceu em 1979 com uma plataforma liberalizante, plataforma que ela só viria a desenvolver durante o governo.

É difícil achar uma régua universal para definir o que é direta e o que é esquerda, mas, acredito, que a definição de Bobbio, ancorada na igualdade, ainda é o melhor parâmetro. Segundo essa definição, a esquerda se caracterizou pela defesa de alguma forma de igualdade, enquanto a direita, de alguma forma reagiria a isso.

Parece-me uma régua bastante coerente, pois coloca o liberalismo clássico, com a sua defesa da igualdade jurídica, como a primeira esquerda, o que, de fato, foi. Da mesma forma, quando aplicamos essa régua ao nazismo, com a sua defesa da desigualdade inata e irredutível e mesmo extermínio dos “inferiores”, é impossível colocá-lo na esquerda.

Dizer que o Nazismo era de direita, ou, pelo menos, não era de esquerda, não significa dizer que ele não leva a um resultado muito semelhante ao da esquerda marxista: o Totalitarismo.

Talvez, as semelhanças entre nazismo e stalinismo ajudam a explicar a confusão classificatória. As origens teóricas e pressupostos de ambos os movimentos são totalmente opostos, mas o resultado acaba sendo bastante semelhante. Provavelmente, pois ambos os movimentos negam a humanidade de consideráveis parcelas do gênero humano (sejam burgueses ou judeus, kulaks ou pessoas com deficiência, “contrarrevolucionários” ou democratas).

Educação versus Catástrofe, um novo round

Em seu livro-reportagem-depoimento The Unpersuadables, o jornalista britânico William Storr narra diversos períodos de sua vida em que conviveu com figuras “impersuadíveis” – pessoas cujas convicções pareciam inabaláveis mesmo diante da mais sólida evidência. Um dos trechos mais tensos do livro relata a viagem que Storr fez a um campo de extermínio nazista, num tour guiado por David Irving, o notório negador do Holocausto. Sem se revelar como jornalista, o autor passa dias, efetivamente, infiltrado num grupo internacional de neonazistas e simpatizantes.

O Irving delineado no perfil de Storr é um sujeito às vezes arrogante, às vezes simpático, cuja principal força motriz é uma necessidade profunda de desafiar o mainstream – e, o jornalista especula, de provar que a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi um erro. Storr propõe a hipótese de que Irving, que era criança durante a “blitz”, teve sua infância arruinada pela guerra, e ressente-se disso: sua defesa irracional de Adolf Hitler seria fruto da convicção, gerada por razões emocionais, de que o conflito com a Alemanha nazista foi um lamentável equívoco. A guerra o impediu de ser uma criança feliz: logo, a a guerra não deveria ter acontecido. Logo, Hitler não era tão mau assim.

Storr descreve, ainda, uma conversa que teve com o motorista polonês que conduzia o grupo de turistas guiado por Irving. Esse motorista era também um devoto de ideias políticas de extrema-direita, às quais aderiu após assistir a um comício na televisão. O jornalista lhe pergunta a razão – as pessoas no comício estavam falando de empregos? de imigrantes? A resposta do motorista é, nas palavras de Storr, “emocional”: “Eu não sei. Tudo fez sentido. Apenas encaixou”.

Lembrei-me de The Unpersuadables por causa das diversas reações à recente violência durante uma passeata neonazista realizada nos Estados Unidos. Por um lado foi alentador ver algumas figuras notórias da esquerda, como o jornalista Glenn Greenwald, manterem a cabeça no lugar e defender o direito humano à liberdade de expressão e manifestação. Recomendo muito a leitura de seu artigo na íntegra, mas traduzo, aqui, o par de parágrafos finais:

“E então, por fim, há o argumento da eficácia. Como alguém pode imaginar que o neonazismo ou a supremacia branca vão desaparecer nos EUA, ou mesmo enfraquecer, se forem suprimidos à força pelo Estado? Não é obviamente claro que o oposto exato acontecerá: ao transformá-los em mártires da liberdade de expressão, não se fará nada além de fortalecê-los e torná-los mais simpáticos? Nada, literalmente, ajudou mais Yannopoulos a se tornar uma figura de culto nacional do que as tentativas bem intencionadas (mas fracassadas) de lhe negar uma plataforma. Nada poderia ser melhor planejado para ajudar-lhes a causa do que transformar um minúsculo grupo marginal de neonazistas assumidos numa espécie de modelo de propaganda para os direitos de expressão.  

A necessidade de combater o neonazismo e a supremacia branca, onde quer que apareçam, é urgente. O modo menos eficaz de fazê-lo é tentar dar ao Estado o poder de suprimir a expressão de seus pontos-de-vista. Isso vai sair pela culatra de diversas maneiras: fortalecendo os movimentos e garantindo que os defensores da censura estatal, hoje, sejam suas vítimas indefesas amanhã. E, não importa o que mais seja verdade, o impulso de reagir a ataques terroristas com o cerceamento de liberdades civis é sempre irracional, perigoso e autodestrutivo, não importa o quanto seja tentador”. 

Por outro lado, no entanto, foi deprimente ver como a posição de Greenwald é minoritária em seu meio ideológico. O mais comum, ao menos nas redes sociais, foi ver pessoas defendendo a repressão estatal e a ideia de que “não dá para conversar com essa gente”. Quando uma pessoa começa a se referir a seres humanos como “essa gente”, e os coloca, a priori, além de qualquer possibilidade de diálogo, ela está mais perto do nazismo do que gostaria de admitir.

Não que não existam, claro, os inimpersuadíveis, os radicais cabeça-dura e, claro, os intelectualmente desonestos. Mas supor que todos os apoiadores de uma ideologia nefasta se encaixam numa dessas categorias é cometer o velho erro cristão de confundir crença com moral. Uma pessoa que mantém crenças que consideramos imorais (racistas, homofóbicas, misóginas, etc.) não é, necessariamente, uma pessoa imoral: ela pode, apenas, nunca ter encontrado explicações melhores para os fatos que essas crenças a ajudam a entender.

Voltando ao motorista polonês do livro de Storr: para ele, o discurso de direita “fez sentido”. Psicólogos argumentam que a cognição humana, em geral, segue a regra de “fez sentido, pare”: assim que achamos uma explicação que nos parece fazer sentido, procuramos um ou dois exemplos para confirmá-la, nos satisfazemos com ela e paramos de questionar o assunto. Assim, por exemplo, um homem procurando a explicação para o caos no trânsito pode deparar-se com a explicação “mulheres dirigem mal”, encontrar alguns exemplos de mulheres dirigindo mal (e ignorar os homens, já que estão fora de seu radar de confirmação) e satisfazer-se com isso.

No caso do discurso vitimista que baseia muito do movimento supremacista branco: ele pode, prima facie, fazer sentido para o jovem branco pobre, de escola pública, que vê o colega de classe negro ganhar acesso a uma universidade graças a um programa de ação afirmativa. E, se faz sentido, ele para — a menos que lhe apresentem uma explicação alternativa.

Pelo que se lê hoje na internet, muita gente dita “progressista” parece acreditar que o nosso jovem ressentido, prestes a integrar uma passeata neonazista, é ou um canalha hereditário irrecuperável, ou tem uma espécie de obrigação moral de mudar de ideia por conta própria, numa epifania ou num ato de fé. A situação é insustentável: se ele for pedir uma explicação melhor para o que aconteceu, ele será tratado como um canalha; sem uma explicação melhor para o que aconteceu, ele vai se comportar como um canalha.

Pressupor que todos os que acreditam em ideias escrotas são intratáveis e irracionais, e que a única forma de lidar com eles é a repressão, é simplesmente jogá-los no colo da minoria realmente intratável e irracional. HG Wells escreveu que a civilização é uma “corrida entre a educação e a catástrofe (…) porque a verdade é a maior arma de que dispomos“. Se os progressistas perderam a paciência e a vontade de educar, por achar que suas verdades são óbvias e de aceitação obrigatória, o outro lado pode acabar parecendo bem mais acolhedor. E aí, ganha a catástrofe.

Como zerar o Jogo da Vida

(Tradução autorizada do artigo original, escrito por Mark Manson em seu site. Se você quer acompanhar os novos artigos em língua inglesa, clique aqui e assine a newsletter de Mark)

Bem-vindo jogador, este é um guia de estratégia para o jogo conhecido como Vida.

Como você sem dúvida descobriu, o jogo da vida é muitas vezes bastante difícil. Você enfrentará desafios inesperados e longos períodos de frustração. Muitas vezes, você terá que se esforçar apesar de estar cheio de dúvidas sobre sua capacidade, se sentirá sobrecarregado diante da impotência e da derrota e, às vezes, fará merda sem nenhum papel higiênico ao seu alcance.

Sim, o jogo Vida é difícil, como diz o ditado.

Mas não tenha medo. Este pequeno guia é projetado para ajudá-lo a completar suas missões e terminar o jogo no nível mais alto possível.

COMO ZERAR A VIDA

O objetivo do jogo Vida é simples: é subir para o nível mais alto possível. Cada nível em Vida apresenta um desafio particular que você deve superar. Uma vez que você supera esse desafio, consegue avançar para o próximo nível. O objetivo é completar o máximo de níveis possível. No final do jogo, a pessoa do mais alto nível tem o melhor funeral.

Existem cinco níveis:

Nível 1 – Encontre comida e uma cama para dormir à noite;

Nível 2 – Esteja seguro de que não corre risco de vida;

Nível 3 – Encontre as pessoas importantes da sua vida;

Nível 4 – Faça algo importante e valioso para você e para os outros;

Nível 5 – Crie um legado.

O Nível 1 significa que você não está desabrigado e/ou morrendo de fome. Este é um pré-requisito para quase tudo o resto. As possibilidades são de que se você estiver encrencado no Nível 1, você nem esteja lendo isso agora.

O nível 2 é um pouco mais complicado, porque muitas pessoas têm uma boa cama para dormir todas as noites, mas não conseguem dormir devido a tiros na rua ou bombas explodindo em sua cidade, ou talvez papai seja alcoólatra e psicótico e continue tentando incendiar a casa.

Nenhuma dessas coisas é legal. O nível 2 exige que você encontre uma casa segura e estável para estabelecer como base. Passar o nível 2 exige encontrar uma maneira de se afastar com sucesso dessas situações perigosas.

Nível 3 significa relacionamentos, encontrar as pessoas certas para amar e as pessoas certas que te amam.

Isso parece ser mais fácil e divertido do que é. Principalmente porque, como você provavelmente já descobriu agora, a maioria das pessoas não prestam.

Encontrar para aqueles que não são é um tema complicado que abordarei em breve.

Nível 4 significa construir alguma habilidade, conhecimento ou talento que agregue valor ao mundo que o rodeia e que também faça você sentir-se muito bem no processo.

O nível 5 significa apenas ter certeza, ao morrer, de que sua vida foi importante. Boa sorte com essa, campeão.

A maioria de nós tem uma boa vantagem devido aos nossos pais. Se você tiver sorte, seus pais terão conduzido você com êxito até o nível 3, e até mesmo dar-lhe um bom impulso para alcançar o nível 4.

Se seus pais cuidaram de você, mas emocionalmente não foram competentes, então você terá níveis 1 e 2 garantidos, mas será totalmente por sua conta o nível 3.

Se você foi criado por lobos, a) parabéns, por descobrir como ler, e b) se abstenha de mastigar seu dispositivo móvel.

COMO FUNCIONA O JOGO DA VIDA

A vida é um jogo grande e complexo. É o maior jogo mundial aberto conhecido até hoje. Todos começamos com diferentes pontuações iniciais e nos colocamos em uma ampla gama de ambientes que podem nos dar vantagens ou desvantagens.

Mas porque a maioria das pessoas tem problemas para conceituar a Vida, elas presumem que não têm controle sobre a Vida. Mas nada poderia estar mais longe da verdade.

O design do jogo da vida é mesmo surpreendentemente simples. É guiado por alguns princípios básicos que são projetados para dar ao jogador uma experiência em que há grande quantidade de aleatoriedade ao longo do jogo:

1. A vida é projetada para dar continuamente problemas difíceis e inesperados a você.

A vida é um fluxo interminável de problemas que devem ser confrontados, superados e/ou resolvidos. Se em qualquer ponto, a vida fica sem problemas para nos dar, então, como jogadores, inventaremos inconscientemente problemas para nós mesmos. Os problemas são o que nos mantém ocupados e o significado de nossa vida e, portanto, são necessários para conquistar os níveis 4 e 5 (fazer algo de valor e deixar um legado).

Como jogadores, passamos a maior parte do tempo preparando-nos para problemas que já são esperados. Mas é justo por causa dessa preparação que, por definição, os problemas mais difíceis que experimentamos na vida serão inesperados.

Essa enxurrada constante de problemas inesperados dá ao jogador a sensação de que ele não tem controle sobre sua própria vida, quando na verdade o propósito da vida não é controlar o que acontece com você, mas sim controlar e escolher reações de nível superior ao que acontece com você.

2. Os jogadores podem responder a problemas com Soluções ou Distrações.

Todos os jogadores devem enfrentar problemas com uma reação (mesmo se escolher não reagir a um problema, isso também é uma forma de reação).

Todas as reações podem ser divididas de duas maneiras: Soluções e Distrações.

As Soluções são ações e atividades que resolvem um problema impedindo que ele continue ou que ocorra novamente no futuro. Distrações são ações ou atividades projetadas para tornar o jogador inconsciente da existência do problema ou para anestesiar a dor que o problema pode estar causando.

Se um jogador sentir que entende um problema e é capazes de lidar com ele, então buscará uma solução. Se os jogadores estão cansados de jogar a merda do jogo Vida, então provavelmente buscarão Distrações para ajudá-los a fingir que o problema não existe.

3. Quanto mais cada Solução ou Distração for usada, mais fácil e mais automático será usá-la no futuro.

Quanto mais freqüentemente você usar uma Solução ou Distração, mais fácil será usar novamente, até o ponto em que acabará por se tornar inconsciente e automático. Uma vez que uma Solução ou Distração é inconsciente e automática, torna-se um Hábito.

Os Hábitos são necessários porque impedem que você caia de volta aos níveis anteriores que você já conquistou. Um jogador, uma vez que encontrou uma solução para um nível, deve empregar essa solução o suficiente para torná-lo um Hábito, dominando esse nível e permitindo que o jogo prossiga para o próximo nível.

4. As Soluções nos movem para o próximo nível, as Distrações nos mantêm no mesmo nível.

Uma vez que ganhar níveis na Vida exige resolver problemas, distrair-nos de nossos problemas garante que ficaremos presos no mesmo nível.

Se nossas Distrações tornam-se Hábitos, então ficaremos perpetuamente presos a um nível e nem estaremos conscientes disso. Se você já se perguntou por que todos os seus relacionamentos fracassaram miseravelmente na última década, então as chances são de que seja por causa de alguma Distração. Os Hábitos estão impedindo você de alcançar a intimidade real necessária para superar o nível 3.

5. A fórmula para ganhar no jogo da Vida é, portanto, mesmo incrivelmente simples:

A) Identifique corretamente suas Soluções e Distrações;
B) Elimine as Distrações;
C) Obtenha os benefícios.

Um exemplo simples: há um problema no trabalho e meu chefe me odeia, então posso buscar uma Solução (enfrentar o meu chefe, tentar ser transferido, trabalhar mais, etc.) ou uma Distração (festa todas as noites, fumar crack, masturbar-me com desenhos da Disney, etc.).

Quanto mais vezes eu escolher uma Solução, mais será possível facilitar a escolha das Soluções subseqüentes, chegando eventualmente a subir de nível. Quanto mais vezes eu escolher Distração, mais isso facilitará a escolha das Distrações subsequentes, fazendo com que eu fique no mesmo nível.

Uma nota final antes de ensinar-lhe como usar cheat codes [1]“Cheat” é uma gíria utilizada para designar códigos e truques especiais durante o jogo. no jogo da vida e obter uma grande pirâmide construída para enterrá-lo quando você morrer:

Só porque você atingiu um nível mais elevado no jogo não significa que os problemas parem nos níveis anteriores. A gente ainda tem que comer (Nível 1). Todos nós precisamos estar seguros para realizar qualquer coisa (Nível 2). Os precisam funcionar (Nível 3).

Então, pense em subir um nível não necessariamente como ir de malabarismo com pratos para malabarismo com facas. Em vez disso, subir um nível é como fazer malabarismos com três facas e passar para quatro quatro, depois cinco, e assim por diante.

Abaixo, estão os cinco cheat codes para ajudá-lo a fazer o walkthrough no jogo da Vida e chegar ao fim totalmente satisfeito no mais alto nível.

Usar esses cheat codes é fácil: basta pressionar Tab na tela de exibição para acessar o Olho da Mente. O Olho da Mente é o local da sua consciência onde você se observa ativamente e escolhe o que pensar. A partir daí, basta digitar os códigos abaixos no teclado do cérebro e apertar enter.

(Nota: esses cheats, como as Soluções e Distrações, também exigem a repetição para funcionarem. Portanto, seja paciente com eles, pois também precisam tornar-se seus hábitos.)

CHEAT # 1: EU SOU RESPONSÁVEL POR ISTO

A principal forma das pessoas se darem muito mal no jogo é dizendo a si mesmas que não há nada que possam fazer quanto aos problemas que a vida lhes dá.

Você sempre pode fazer algo sobre os problemas que a vida lhe dá.

Quando você decide que não há nada que você possa fazer para resolver um problema, você limita imediatamente suas possíveis reações às Distrações. E se você limitar suas respostas à Distrações o bastante, em breve você irá construir uma vida que seja composta de nada além de Hábitos de Distrações. Você estará fugindo de tudo e todos o tempo todo. E você provavelmente se transformará em um babaca egoísta de primeira grandeza.

(Outra Nota: o “egoísmo” é, essencialmente, uma propensão para preferir Distrações a Soluções. Enquanto as pessoas ao seu redor e os seus relacionamentos se beneficiam das Soluções, geralmente as Distrações o isolam de outras pessoas, e a constante busca por distrações provavelmente irá transformá-lo em alguém com quem ninguém quer realmente andar por aí – a menos que essas pessoas busquem as mesmas Distrações que você.)

CHEAT # 2: COLOQUE TUDO POR ESCRITO

Separar Soluções de Distrações em sua vida é surpreendentemente difícil e complicado. Isso ocorre porque tendemos a mentir para nós mesmos sobre nossas Distrações. Nós dizemos nós próprios que precisamos de nossas Distrações. Nós dizemos a nós próprios que nossas Distrações são apenas uma diversão inocente, que as temos totalmente sob controle, e sim, talvez eu tenha acordado num banheiro público deitado sob meu próprio vômito, mas pelo menos me lembro de onde estacionei o carro.

Mas o pior é que às vezes tratamos uma Distração como se fosse uma Solução. Nós pensamos que trabalhar 12 horas por dia no escritório nos dará a família amorosa que sonhamos, ou que tocar violino no parque recebendo trocados é o início de uma carreira promissora.

Muitas vezes passamos anos ou décadas fazendo coisas que temos certeza de que nos farão superar um nível só para no fim descobrir que, basicamente, estivemos desperdiçando nosso tempo nos últimos dez anos. Apesar dessas coisas terem sido prazeirosas como uma masturbação, não nos levaram a lugar algum.

Portanto, todos precisamos desenvolver a capacidade de observar nossos próprios pensamentos. Os psicólogos às vezes chamam isso de “metacognição”. Aqui, vou chamar isso de “não ser um idiota”.

Para observar seus próprios pensamentos e não ser um idiota, você precisa analisar seus pensamentos e fingir que eles não são seus. Só então você poderá perceber o quanto eles são completamente ridículos.

Uma maneira comum de fazer isso é anotar seus pensamentos regularmente. Isso pode ser feito em um diário, um blog ou mesmo em e-mails para amigos e familiares. A parte importante é que você está explorando ativamente os problemas em sua vida e olhando seu comportamento da perspectiva de uma terceira pessoa.

CHEAT # 3: PARE DE RECLAMAR

Reclamar não ajuda em nada. Reclamar apenas prolonga um problema. Reclamar pega uma experiência que já é incômoda e leva-a ao nível de ser dolorosa até transformá-la em uma questão social, e questões sociais são complicadas porque nos obrigam a lutar por elas e a defendê-las e a garantir que TODOS CONCORDEM COM A GENTE. E então você se torna aquele cara chato que afirma que aquele restaurante é uma merda e defenderá sua opinião até a morte mesmo quando, na verdade, você realmente não se importa com isso e até poderia gostar do lugar se você não tivesse feito uma grande celeuma em cima de uma bobagem.

As pessoas reclamam não porque algo é uma merda. As pessoas reclamam porque estão à procura de empatia e querem sentir-se conectadas com as que as rodeiam. Infelizmente, reclamar é talvez a maneira menos útil de se conectar com outros seres humanos.

CHEAT # 4: PARE DE FANTASIAR

Quando eu estava na faculdade, fui num retiro Zen. Durante uma sessão de perguntas e respostas, a mestre zen sugeriu tentar parar de sonhar acordado em nossas vidas diárias e deixar de fantasiar em geral.

Eu estava como 20 anos na época e, assim, passei a maior parte das minhas horas de vigília fantasiando sobre (a) garotas gostosas, b) tocar violão na frente de um grupo de garotas gostosas, ou c) fazer festas realmente legais que ficariam cheias de garotas realmente gostosas.

Desnecessário dizer que a sugestão do mestre zen destruiu praticamente os únicos pensamentos que me deram qualquer ilusão de felicidade na época. Resisti à proposta dele como um gato resiste a um banho.

Mas então eu envelheci, acabei por superar toda a obsessão com as garotas gostosas que acho que é um requisito para qualquer homem que procura até mesmo a aparência da maturidade e percebi que a mestre zen estava certa o tempo todo.

A imaginação humana é uma coisa poderosa. E a imaginação é uma coisa divertida – é o que nos atrai para livros, filmes e programas de TV que assistimos em um único fim de semana.

Mas quando aplicada a nós mesmos, a imaginação pode se tornar outra forma de Distração. Pode ser uma maneira de evitar o que é real e verdadeiro para nós no momento, uma maneira de viver de forma indireta através das imagens e idéias alimentadas por nós. É uma maneira de sentir uma sensação de realização. Tudo sentado no nosso sofá, sozinho.

As fantasias mais recorrentes que temos sobre nós mesmos são reações a nossas inseguranças.

Se eu enumerasse todas as inseguranças presentes nesta imagem, ficaria até o fim do texto contando.

Vou dar uma chance para adivinharem qual minha principal fantasia quando eu tinha 20 anos de idade… sim, garotas gostosas (ou sexo, ou ser atraente/desejado/amado, ou como você quiser chamar).

E essas fantasias não me ajudaram a resolver essa insegurança. Pelo contrário, minha propensão a viver num mundo de fantasia pornô, obcecado com mulheres tornadas em objeto e vê-las como conquistas sexuais me empurrou para o comportamento e as obsessões na minha vida real que eram mais difíceis de renunciar do que precisavam ser.

Se você passar anos fantasiando sobre ter um iate, então é provável que você seja o cara que vai destruir o resto de sua vida apenas para comprá-lo. Se você fantasia obsessivamente sobre ser admirado e amado por todos, então você conseguirá se impor naqueles momentos em que sua força interna será mais necessária.

As fantasias são como qualquer outra Distração – elas devem ser usadas ​​com moderação e para nada além de puro prazer. É quando elas começam a sustentar seu senso de auto-estima, seu desejo de ter importância neste mundo, que você estará se castigando, e você nunca irá subir de nível novamente na vida.

CHEAT #5: COMPARTILHE SUA VERGONHA

Estou para resumir em um só parágrafo o grande problema que todos mundo tem que enfrentar no jogo da vida. Está preparado?

Quando somos crianças, somos realmente impotentes diante de muitos dos problemas da vida. Nós, portanto, confiamos em nossos pais para nos ajudar a encontrar Soluções. Mas quanto mais nossos pais não conseguem encontrar Soluções, mais Distrações criamos para nós mesmos para lidar com a dificuldade da Vida. Quanto mais Distrações criamos para nós mesmos como crianças e/ou quanto mais Distrações nossos pais nos ensinam a usar, mais elas se converterão em Hábitos que continuarão na fase adulta. Quando nos tornamos adultos, esquecemos que nossas Distrações eram meras reações a problemas, e passamos a acreditar que há algo inerentemente falho ou errado em nós que devemos ocultar das outras pessoas a todo custo.

E assim, escondemos dos outros essas coisas sobre nós mesmos. E para conseguir esconder, precisamos nos distrair ainda mais, e isso apenas cria essa espiral descendente de Distração e vergonha.

A melhor maneira de se livrar de nossas Distrações e resgatar os problemas que nos assombram desde a infância é expô-los, compartilhá-los e reconhecer (a) que não, você não é uma aberração pois a maioria das pessoas luta com o mesmo problema, e (b) que suas Distrações são exatamente isso: maneiras nada saudáveis se compensar pelo quanto se sente mal consigo mesmo.

Há um velho ditado que “a luz solar é o melhor desinfetante”. Bem, isso também é verdade para nós. A única maneira de lidar com as partes mais sombrias de você é lançar uma luz sobre elas.

Boa sorte, jogador. Lembre-se, o jogo da Vida foi projetado para ser complexo e confuso. O desafio não é vencer, mas saber o que significa vencer. Porque esse é o verdadeiro desafio: perceber o quanto nossa vida vale e ter coragem de ir lá fora vivê-la plenamente.

Notas   [ + ]