Para ler ouvindo “Love”, de John Lennon:

 

Conhecida mundialmente como a viúva do Beatle, e até hoje um das mais figuras mais influentes no cenário Rock and Roll, John Lennon, Yoko permanece sendo ainda um símbolo ambíguo. Apontada muitas vezes como responsável pelo fim da maior banda de rock que o mundo já viu, é tratada com hostilidade por alguns, e aclamada por outros que a enxergam, juntamente com John, como um ícone de lutas políticas e ideológicas e os admiram como o casal que ilustra o amor ideal.

Baixinha, esquisita, aparência exótica, Yoko se transformou num enigma para as fãs de John Lennon. O que um homem que poderia escolher qualquer mulher, todas as mulheres, estaria fazendo ao lado dessa japa de cabelos volumosos? Haveria algo de especial nessa estranha mulher oriental?

Para John, com certeza havia. E provavelmente não se reduzia ao Yes, lido por ele com uma lupa em uma das instalações presentes na exposição da artista em Londres quando se viram pela primeira vez. Yoko instigou John por ser diferente de todas as outras mulheres com as quais ele estava acostumado e cansado de se deparar.

Me pergunto se ele não poderia ter se incomodado com o fato de ela a princípio sequer ter reconhecido quem ele era, ou então também ter se limitado a julgá-la superficialmente por sua estética e estilo incoerentes com os padrões daquele período (e também de hoje).

Sim, poderia. Mas creio que a incongruência de Yoko fez com que ela existisse de outro modo para John. Aliás, é John que, através do seu olhar, irá confirmar a existência de Yoko.

No filme John e Yoko: A Love Story, há uma cena em que John está com Yoko em um hospital após ela ter perdido mais uma vez outro bebê que esperava. Enquanto segura sua mão ele diz:

– Ei, posso te contar uma coisa? Eu era louco pela Brigitte Bardot. Eu preferia as loiras, e todas as garotas com quem eu saia tinham que ser loiras. Cynthia (ex-mulher dele) pintou o dela pra mim. Agora estou aqui, loucamente apaixonado por uma oriental de cabelos pretos.

Essa fala deixa claro, que nenhuma mulher antes de Yoko existiu para John, a não ser como sósias de Brigitte. O que vem a ratificar a hipótese que ofereci anteriormente, de que é John quem irá confirmar a existência de Yoko, visto que a mulher só pode existir singularmente e nunca através ou em comparação com as demais.

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Foi Lacan que sem medo de gerar polêmica, enunciou tal aforismo – “A mulher não existe” – a frase que desligada de explicações pode soar machista, se refere na verdade a falta de um lugar legítimo para a mulher em nossa cultura e civilização e, mais ainda, à impossibilidade de classificar a natureza feminina.

O psicanalista Jorge Forbes faz um apanhado histórico no texto publicado em seu blog – A mulher, de Lacan, que não existe – para esclarecer tal afirmação e, nos conduz a pensar na lógica presente nesta famosa declaração. Para ele, o que Lacan está querendo dizer é que a essência feminina é impossível de ser catalogada ou ordenada, e que ao tentar fazer isso acaba-se por degradar a mulher.

Forbes segue sua reflexão demonstrando o quanto os homens gostam de estar dentro de um mundo organizado e homogêneo, vestindo os seus uniformes. Entrando em contradição com as mulheres que não podem suportar tal simetria. O maior pesadelo de uma mulher é ser colocada como equivalente às demais, ao se imaginar indiferente ela experimenta a angústia da invisibilidade. Como diz Forbes:

Se você elogia um homem, tipo:“Você é inteligente”, ele fica contente e, se nesse elogio se acrescenta uma comparação com outro homem – como, por exemplo, “Você é inteligente como Churchill”, tanto melhor. Já as mulheres questionam o coletivo e a ordem unida. O elogio a uma mulher há de ser específico. Jamais diga, por exemplo: “Você é sensual como Gloria Estefan, pois se arrisca a ouvir: “O quê? Aquela cubana, de Miami, cantora de salsa?”. Melhor restringir o elogio, tal como: “Você é de uma sensualidade jamais vista”.

John não exigiu que Yoko fosse Brigitte. John amava Yoko sendo Yoko. Ele jamais comparou-a a outra mulher. Yoko se fez única diante do olhar de John, assim como, toda mulher ambiciona ser vista por um homem, de forma idiossincrática. Ele precisa comprar sua loucura. A loucura da mulher é obliqua e só se mostra quando alguém assume o risco de encarar seus temíveis olhos.  É assim que uma mulher nasce através de um homem. Foi assim que Yoko cresceu em John.  Em um de seus primeiros encontros ele perguntou a ela que significado tinha seu nome em inglês. Yoko respondeu: Criança do Oceano. John disse: Gosto disso! Yoko tinha um nome para John, toda mulher espera que o seu nome seja lembrado, e se transforme em um signo, uma insígnia, e anseia que ele volte a ser chamado.

Toda mulher quer ser Yoko. Sui Generis. E aguarda pelo homem que se apaixone pela sua pinta marrom logo abaixo do seio esquerdo e por isso jamais confunda sua pele com a de outra, e guarde a essência do seu cheiro na memória do olfato e a respire nos dias de ausência, e carregue uma foto sua no bolso, na mala ou na carteira, que a espere voltar de Nova York, e lhe escreva algum dia uma carta, uma música ou um poema.

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.