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Chegou a hora de tirar também o Temer?

Em Consciência, Política por Guilherme AssisComentário

Acho que a gente che­gou num momento meio deci­sivo: o governo Temer con­firma sua voca­ção para a fra­queza, e parece estar se des­fa­zendo a olhos vis­tos, de maneira paté­tica (cair por causa de um minis­tro da cul­tura é mais ou menos do nível “cair por causa de um fiat elba”).

(Um parên­tese: esse escân­dalo é total­mente Bra­sil. Polí­tico A tenta con­ven­cer polí­tico B a libe­rar uma obra na qual ele tem inte­resse, por­que entra­ves buro­crá­ti­cos o atra­pa­lham. A cor­rup­ção é, na esma­ga­dora mai­o­ria das vezes, só isso mesmo: agen­tes públi­cos criam difi­cul­dade — labi­rin­tos de regu­la­ções impos­sí­veis de se cum­prir — pra ven­der faci­li­dade, medi­ante um preço.)

Pra tris­teza do pes­soal que diz “cadê as pane­las?”, as pane­las estão vol­tando a can­tar: o “Vem Pra Rua” e o MBL já estão cha­mando novas mani­fes­ta­ções — con­tra a anis­tia do caixa 2, con­tra Temer, etc.

Agora a esquerda precisa decidir o que fazer.

A gente ficou gri­tando “Fora Temer” por meses, cha­mando governo de gol­pista, e recla­mando da “hipo­cri­sia” de quem não pro­tes­tava con­tra. Os “hipó­cri­tas” estão vol­tando à rua, acom­pa­nha­dos de denún­cias razo­a­vel­mente con­tun­den­tes envol­vendo o pre­si­dente agindo de maneira não-repu­bli­cana, e se colo­cando con­tra essa ten­ta­tiva de per­dão geral que é a anis­tia do caixa dois (que, enfim, de novo é carac­te­rís­tico: caixa 2 é ten­tar fazer “por fora da máquina” os abas­te­ci­men­tos de cam­pa­nha, evi­tando entra­ves & con­tro­les buro­crá­ti­cos).

Vejo várias jus­ti­fi­ca­ti­vas. “Não adi­anta nada tirar o Temer, vão ter elei­ções indi­re­tas”. “Isso tudo é parte do golpe, o plano sem­pre foi colo­car o FHC”. “Eu não vou pra rua junto com fas­cista”.

Sin­ce­ra­mente, isso é covar­dia, bun­da­mo­lice, é paté­tico.

Antes de tudo, achar que existe alguma força arti­cu­lada e oni­pre­sente o sufi­ci­ente para dese­nhar um “golpe” com­plexo a esse ponto, e que tudo está cor­rendo de acordo com o plano é lou­cura. Se eu acre­di­tasse em for­ças ocul­tas infa­lí­veis assim, desis­tia de tudo e dei­tava embaixo da cama com medo. FHC tem 85 anos, gente. Mais fácil ele mor­rer ama­nhã do que virar pre­si­dente.

Quanto a “não adi­an­tar tirar Temer”, eu acho que seria bom per­ce­ber que até quem tinha boa von­tade com ele está can­sando.

Eu acho de ver­dade que o Bra­sil pre­ci­sava de refor­mas no orça­mento, na pre­vi­dên­cia, na edu­ca­ção, e nem sou con­tra as medi­das pro­pos­tas por prin­cí­pio. Mas está ficando cada vez mais claro que o governo Temer não vai imple­men­tar reforma nenhuma a sério — vai cor­tar no orça­mento de um lado enquanto dá aumen­tos ao judi­ciá­rio no outro, vai refor­mar um remendo na pre­vi­dên­cia aqui enquanto poupa os mili­ta­res ali, e por aí vai. Até a PEC do teto é dese­nhada pra que o governo do Temer fosse pou­pado nes­ses pri­mei­ros anos. Não dá pra botar fé.

Per­ce­bendo isso, e con­fir­mando que o governo é (que novi­dade…) uma laia de cor­rup­tos, patri­mo­ni­a­lis­tas & pate­tas, e que a batata dele está assando e que tem muita gente puta com isso, me parece essen­cial bater nisso. Não dei­xar esse sen­ti­mento de revolta esca­par, não entre­gar de ban­deja pro “outro lado” a chance de bater num governo fraco des­ses.

Por último, o “não vou pra rua com fas­cista”. Em 2013, os atos do MPL come­ça­ram majo­ri­ta­ri­a­mente de esquerda, e quando explo­di­ram, veio um monte de gente nova, em soli­da­ri­e­dade con­tra a vio­lên­cia poli­cial, e o negó­cio ficou enorme e impre­vi­sí­vel.

Esse pes­soal que saiu de casa e redes­co­briu a rua não disse “aff, não vou pra rua com comu­nista, ima­gina, divi­dir ato com sta­li­nista?”. Eles só viram algo com o qual se iden­ti­fi­ca­vam e saí­ram de casa.

Acho que essa tem de ser a nossa ins­pi­ra­ção. A cor­rup­ção paté­tica do governo Temer e o des­ca­la­bro da anis­tia geral são tão ridí­cu­los que colo­cam Jean Wyllys e Bol­so­naro do mesmo lado.

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É essen­cial apro­vei­tar esse momento e par­ti­ci­par. Não sou mar­xista e não acho que a gente tem de ir lá e “cap­tu­rar” o movi­mento. Na real, acho até mais impor­tante o oposto: ouvir.

Ir pra rua e con­ver­sar com os “verde-e-ama­re­los” (que, enfim, são gente nor­mal, minha mãe, minha tia, ami­gos & conhe­ci­dos, longe de serem mons­tros con­ser­va­do­res). Sair da bolha e enten­der quem é essa galera que, nesse momento, por mais dife­rente que seja, tá do mesmo lado que a gente.

E, quem sabe, sei lá, esse negó­cio não evo­lui pra outras pau­tas, como foi 2013 (ima­gina se dá uma merda e a PM reprime esses pro­tes­tos de gente que não tá acos­tu­mada a apa­nhar. Meu sonho é a pauta do fim da PM res­sur­gindo, mas, enfim, uma fan­ta­sia…)

E, enfim, ao somar com essa galera, der­ru­bar esse governo lixo mesmo. Não dá pra ficar na eterna com­pla­cên­cia do “mas e se vier algo pior?”. As con­di­ções de pos­si­bi­li­dade de algo melhor se dão exa­ta­mente atra­vés de briga, por­rada, con­flito.

Pode vir um fas­cista, ou um fisi­o­lo­gista ainda pior? Pode. Mas se tem aber­tura pra pior, tem pra melhor tam­bém, e não dá pra sur­gir nada novo se a gente tá agar­rado com medo a si mesmo. Tem que des­man­te­lar esse troço todo mesmo, e des­co­brir fazendo o que dá pra fazer.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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