Acho que a gente chegou num momento meio decisivo: o governo Temer confirma sua vocação para a fraqueza, e parece estar se desfazendo a olhos vistos, de maneira patética (cair por causa de um ministro da cultura é mais ou menos do nível “cair por causa de um fiat elba”).

(Um parêntese: esse escândalo é totalmente Brasil. Político A tenta convencer político B a liberar uma obra na qual ele tem interesse, porque entraves burocráticos o atrapalham. A corrupção é, na esmagadora maioria das vezes, só isso mesmo: agentes públicos criam dificuldade — labirintos de regulações impossíveis de se cumprir — pra vender facilidade, mediante um preço.)

Pra tristeza do pessoal que diz “cadê as panelas?”, as panelas estão voltando a cantar: o “Vem Pra Rua” e o MBL já estão chamando novas manifestações — contra a anistia do caixa 2, contra Temer, etc.

Agora a esquerda precisa decidir o que fazer.

A gente ficou gritando “Fora Temer” por meses, chamando governo de golpista, e reclamando da “hipocrisia” de quem não protestava contra. Os “hipócritas” estão voltando à rua, acompanhados de denúncias razoavelmente contundentes envolvendo o presidente agindo de maneira não-republicana, e se colocando contra essa tentativa de perdão geral que é a anistia do caixa dois (que, enfim, de novo é característico: caixa 2 é tentar fazer “por fora da máquina” os abastecimentos de campanha, evitando entraves & controles burocráticos).

Vejo várias justificativas. “Não adianta nada tirar o Temer, vão ter eleições indiretas”. “Isso tudo é parte do golpe, o plano sempre foi colocar o FHC”. “Eu não vou pra rua junto com fascista”.

Sinceramente, isso é covardia, bundamolice, é patético.

Antes de tudo, achar que existe alguma força articulada e onipresente o suficiente para desenhar um “golpe” complexo a esse ponto, e que tudo está correndo de acordo com o plano é loucura. Se eu acreditasse em forças ocultas infalíveis assim, desistia de tudo e deitava embaixo da cama com medo. FHC tem 85 anos, gente. Mais fácil ele morrer amanhã do que virar presidente.

Quanto a “não adiantar tirar Temer”, eu acho que seria bom perceber que até quem tinha boa vontade com ele está cansando.

Eu acho de verdade que o Brasil precisava de reformas no orçamento, na previdência, na educação, e nem sou contra as medidas propostas por princípio. Mas está ficando cada vez mais claro que o governo Temer não vai implementar reforma nenhuma a sério — vai cortar no orçamento de um lado enquanto dá aumentos ao judiciário no outro, vai reformar um remendo na previdência aqui enquanto poupa os militares ali, e por aí vai. Até a PEC do teto é desenhada pra que o governo do Temer fosse poupado nesses primeiros anos. Não dá pra botar fé.

Percebendo isso, e confirmando que o governo é (que novidade…) uma laia de corruptos, patrimonialistas & patetas, e que a batata dele está assando e que tem muita gente puta com isso, me parece essencial bater nisso. Não deixar esse sentimento de revolta escapar, não entregar de bandeja pro “outro lado” a chance de bater num governo fraco desses.

Por último, o “não vou pra rua com fascista”. Em 2013, os atos do MPL começaram majoritariamente de esquerda, e quando explodiram, veio um monte de gente nova, em solidariedade contra a violência policial, e o negócio ficou enorme e imprevisível.

Esse pessoal que saiu de casa e redescobriu a rua não disse “aff, não vou pra rua com comunista, imagina, dividir ato com stalinista?”. Eles só viram algo com o qual se identificavam e saíram de casa.

Acho que essa tem de ser a nossa inspiração. A corrupção patética do governo Temer e o descalabro da anistia geral são tão ridículos que colocam Jean Wyllys e Bolsonaro do mesmo lado.

coisa-boa

É essencial aproveitar esse momento e participar. Não sou marxista e não acho que a gente tem de ir lá e “capturar” o movimento. Na real, acho até mais importante o oposto: ouvir.

Ir pra rua e conversar com os “verde-e-amarelos” (que, enfim, são gente normal, minha mãe, minha tia, amigos & conhecidos, longe de serem monstros conservadores). Sair da bolha e entender quem é essa galera que, nesse momento, por mais diferente que seja, tá do mesmo lado que a gente.

E, quem sabe, sei lá, esse negócio não evolui pra outras pautas, como foi 2013 (imagina se dá uma merda e a PM reprime esses protestos de gente que não tá acostumada a apanhar. Meu sonho é a pauta do fim da PM ressurgindo, mas, enfim, uma fantasia…)

E, enfim, ao somar com essa galera, derrubar esse governo lixo mesmo. Não dá pra ficar na eterna complacência do “mas e se vier algo pior?”. As condições de possibilidade de algo melhor se dão exatamente através de briga, porrada, conflito.

Pode vir um fascista, ou um fisiologista ainda pior? Pode. Mas se tem abertura pra pior, tem pra melhor também, e não dá pra surgir nada novo se a gente tá agarrado com medo a si mesmo. Tem que desmantelar esse troço todo mesmo, e descobrir fazendo o que dá pra fazer.


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escrito por:

Guilherme Assis

Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo – sempre na oposição.


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