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Tiburi e a banalização do feminismo a serviço da política

Em Consciência, Política por Guilherme AssisComentários

O arre­medo de filó­sofa Mar­cia Tiburi fez um dis­curso defen­dendo Dilma Rous­seff. Até aí, nada demais, direito dela, cada um tem suas pre­fe­rên­cias. O con­teúdo dessa fala, porém, foi com­pli­cado:

Em dis­curso, a filó­sofa e escri­tora Már­cia Tiburi pediu a saída do pre­si­dente da Câmara, Edu­ardo Cunha (PMDB-RJ), e disse que as crí­ti­cas sofri­das pela pre­si­dente são ‘do nível do estu­pro polí­tico’.”

Os ata­ques hoje são do nível do estu­pro polí­tico. O que fazem com a pre­si­dente é do mesmo nível das vio­lên­cias sofri­das pelas mulhe­res do país”, disse. “Defen­der a demo­cra­cia é defen­der a figura de Dilma Rous­seff”, acres­cen­tou.”

Eu juro que não aguento mais. Quanto mais sur­gem defe­sas da Dilma enquanto mulher, como se fosse dever do femi­nismo res­ga­tar a honra de líde­res polí­ti­cos hor­ro­ro­sos (quero ver a soro­ri­dade com a Mar­ga­ret That­cher), mais claro fica que essas defe­sas estão bas­tante inte­res­sa­das na Dilma e pouquís­simo inte­res­sa­das na mulher.

Eu vou pas­sar o resto da vida falando dessa obses­são com o poder: eu achei que tinha exa­ge­rado quando disse que o poder nubla todo o pen­sa­mento e sobra só uma liga­ção afe­tu­osa e doen­tia, mas essa fala da Tiburi pelo jeito sur­giu ape­nas para eu per­ce­ber que estava certo.

Ela defende lite­ral e expli­ci­ta­mente que os ata­ques e crí­ti­cas à Dilma são “do mesmo nível” que a vio­lên­cia sofrida pelas mulhe­res do país. Do mesmo nível. A dona de casa que sofre vio­lên­cia domés­tica, a mulher abu­sada no metrô, a pro­fis­si­o­nal asse­di­ada no tra­ba­lho: tudo isso é “do mesmo nível” que as crí­ti­cas que a man­da­tá­ria do país recebe.

Cara­lho, sério, isso é uma ins­tru­men­ta­li­za­ção e des­me­re­ci­mento tão des­ca­ra­dos que dá até ver­go­nha: toda a dor das mulhe­res no Bra­sil é sim­ples­mente aces­só­rio pra defen­der o governo. As víti­mas em si são irre­le­van­tes — e é óbvio que esse tipo de com­pa­ra­ção des­ca­bida enfra­quece a luta femi­nista, bana­liza a vio­lên­cia; mas tanto faz, pra Mar­cia Tiburi, o que importa é jus­ti­fi­car o poder. Se ela pudesse, matava uma mulher no palco mesmo e dizia “a dor dessa mulher é a de Dilma Rous­seff”, e ia ter gente aplau­dindo. Pelo menos o Lula foi jocoso quando falou “faz um movi­mento de mulhe­res aí”, mas a filó­sofa nem pra ser engra­çada serve.

(Eu nem vou comen­tar a expres­são “estu­pro polí­tico”, por­que é gro­tesca demais até pra mim. Real­mente, crí­ti­cas a uma gover­nante são bem seme­lhan­tes a vio­lar alguém sexu­al­mente. Mesma coisa.)

(E tam­bém não pre­cisa nem falar que essa defesa é total­mente dis­so­ci­ada de qual­quer ação do governo que real­mente bus­que auto­no­mia para as mulhe­res. Mesmo no auge da popu­la­ri­dade, Dilma sem­pre esteve colada no rea­ci­o­na­rismo reli­gi­oso, se colo­cando aber­ta­mente con­tra o aborto. Grande líder femi­nista!)

E a gente com­pra isso: ela é filó­sofa, sofis­ti­cada, cita tal e tal autor, tem auto­ri­dade pra falar do assunto. Pode con­fiar, se Mar­cia Tiburi diz que a Dilma é a única vítima do país e todo o resto é jogo de espe­lhos, não é só ela quem diz, é toda a tra­di­ção, toda a sabe­do­ria da filo­so­fia oci­den­tal.

Não. A filo­so­fia de Mar­cia Tiburi é adu­bada pelo estrume de João San­tana, a tra­di­ção dela não é Adorno, Fou­cault, Hei­deg­ger, Deleuze, a tra­di­ção dela é “peça publi­ci­tá­ria dizendo que Marina Silva vai matar os pobres”, é Dilma falando pra Marina “quem é coi­ta­di­nha não pode gover­nar”, é gente na rua batendo nos outros por serem opo­si­ção e jus­ti­fi­cando isso dizendo “são fas­cis­tas, mere­ce­ram”. Mar­cia Tiburi é uma figura sub-rei­nal­do­a­ze­vê­dica, perto dela Kim Kata­guiri é Tho­mas Hob­bes.

É engra­çado por­que a Tiburi tem um livro cha­mado “Como Con­ver­sar com um Fas­cista”, né. Como sem­pre, os fas­cis­tas são os outros — zero auto­crí­tica, zero refle­xão sobre onde esta­ria o “nosso” fas­cismo, o sujeito enun­ci­a­dor é eter­na­mente ilu­mi­nado e higi­ê­nico, não tem nada de mau den­tro dele. O livro fez um certo sucesso entre esse público super seguro de si que tem cer­teza que o mal abso­luto é o Outro, e vê pro­gres­sismo nessa pos­tura.

Bom, esse fas­cismo tá aí: Tiburi reduz e ins­tru­men­ta­liza a dor das mulhe­res comuns em defesa d’A Grande Líder. Ignora o indi­ví­duo e joga-o na fogueira pra defen­der o poder. Con­funde a demo­cra­cia com a figura da man­da­tá­ria. Se tem algum fas­cista na con­versa, acho que esses são bons sinais de quem ele é.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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