O arremedo de filósofa Marcia Tiburi fez um discurso defendendo Dilma Rousseff. Até aí, nada demais, direito dela, cada um tem suas preferências. O conteúdo dessa fala, porém, foi complicado:

“Em discurso, a filósofa e escritora Márcia Tiburi pediu a saída do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e disse que as críticas sofridas pela presidente são ‘do nível do estupro político‘.”

“Os ataques hoje são do nível do estupro político. O que fazem com a presidente é do mesmo nível das violências sofridas pelas mulheres do país“, disse. “Defender a democracia é defender a figura de Dilma Rousseff”, acrescentou.”

Eu juro que não aguento mais. Quanto mais surgem defesas da Dilma enquanto mulher, como se fosse dever do feminismo resgatar a honra de líderes políticos horrorosos (quero ver a sororidade com a Margaret Thatcher), mais claro fica que essas defesas estão bastante interessadas na Dilma e pouquíssimo interessadas na mulher.

Eu vou passar o resto da vida falando dessa obsessão com o poder: eu achei que tinha exagerado quando disse que o poder nubla todo o pensamento e sobra só uma ligação afetuosa e doentia, mas essa fala da Tiburi pelo jeito surgiu apenas para eu perceber que estava certo.

Ela defende literal e explicitamente que os ataques e críticas à Dilma são “do mesmo nível” que a violência sofrida pelas mulheres do país. Do mesmo nível. A dona de casa que sofre violência doméstica, a mulher abusada no metrô, a profissional assediada no trabalho: tudo isso é “do mesmo nível” que as críticas que a mandatária do país recebe.

Caralho, sério, isso é uma instrumentalização e desmerecimento tão descarados que dá até vergonha: toda a dor das mulheres no Brasil é simplesmente acessório pra defender o governo. As vítimas em si são irrelevantes – e é óbvio que esse tipo de comparação descabida enfraquece a luta feminista, banaliza a violência; mas tanto faz, pra Marcia Tiburi, o que importa é justificar o poder. Se ela pudesse, matava uma mulher no palco mesmo e dizia “a dor dessa mulher é a de Dilma Rousseff”, e ia ter gente aplaudindo. Pelo menos o Lula foi jocoso quando falou “faz um movimento de mulheres aí”, mas a filósofa nem pra ser engraçada serve.

(Eu nem vou comentar a expressão “estupro político”, porque é grotesca demais até pra mim. Realmente, críticas a uma governante são bem semelhantes a violar alguém sexualmente. Mesma coisa.)

(E também não precisa nem falar que essa defesa é totalmente dissociada de qualquer ação do governo que realmente busque autonomia para as mulheres. Mesmo no auge da popularidade, Dilma sempre esteve colada no reacionarismo religioso, se colocando abertamente contra o aborto. Grande líder feminista!)

E a gente compra isso: ela é filósofa, sofisticada, cita tal e tal autor, tem autoridade pra falar do assunto. Pode confiar, se Marcia Tiburi diz que a Dilma é a única vítima do país e todo o resto é jogo de espelhos, não é só ela quem diz, é toda a tradição, toda a sabedoria da filosofia ocidental.

Não. A filosofia de Marcia Tiburi é adubada pelo estrume de João Santana, a tradição dela não é Adorno, Foucault, Heidegger, Deleuze, a tradição dela é “peça publicitária dizendo que Marina Silva vai matar os pobres”, é Dilma falando pra Marina “quem é coitadinha não pode governar”, é gente na rua batendo nos outros por serem oposição e justificando isso dizendo “são fascistas, mereceram”. Marcia Tiburi é uma figura sub-reinaldoazevêdica, perto dela Kim Kataguiri é Thomas Hobbes.

É engraçado porque a Tiburi tem um livro chamado “Como Conversar com um Fascista“, né. Como sempre, os fascistas são os outros – zero autocrítica, zero reflexão sobre onde estaria o “nosso” fascismo, o sujeito enunciador é eternamente iluminado e higiênico, não tem nada de mau dentro dele. O livro fez um certo sucesso entre esse público super seguro de si que tem certeza que o mal absoluto é o Outro, e vê progressismo nessa postura.

Bom, esse fascismo tá aí: Tiburi reduz e instrumentaliza a dor das mulheres comuns em defesa d’A Grande Líder. Ignora o indivíduo e joga-o na fogueira pra defender o poder. Confunde a democracia com a figura da mandatária. Se tem algum fascista na conversa, acho que esses são bons sinais de quem ele é.


Seja patrono do AZ para mais artigos como este.
CLIQUE AQUI e escolha sua recompensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode querer ler também:

As 4 falácias de quem defende Lula e Dilma
A esquerda contra o povo: a crise invisível e o adesismo militante

escrito por:

Guilherme Assis

Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo – sempre na oposição.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.