Prosseguindo com a análise de quatro obras de Lars von Trier, e já tendo abordado Melancolia e Ninfomaníaca, é a hora da minha interpretação mais, digamos assim, ousada.

O primeiro ponto a se entender sobre Anticristo é que Lars von Trier reconheceu em mais de uma entrevista que faz psicanálise e utiliza suas vivências no divã como inspiração para seus filmes. E, particularmente em relação a Anticristo, o diretor afirmou que a ideia da obra surgiu durante uma profunda depressão em que se submeteu a terapia.

Portanto, se Lars von Trier é, ao lado de Bergman, o mais psicanalítico dos cineastas europeus, Anticristo é o seu filme que mais bebe na fonte de Freud.

1. Expulso do paraíso maternal

Para começar, o filme foi acusado de ser misógino e contrário ao mundo natural. Segundo essa tese, Lars teria afirmado, em sua obra, que a mulher e a natureza são a fonte de todo o mal. É uma interpretação apressada. Na verdade, o filme é a alegoria de um homem que foi forçado a abandonar uma visão infantil, ingênua, da vida. Sua perspectiva idílica e idealizada do mundo não mais se sustentou, mas ele ainda era incapaz de atingir a perfeita maturidade de aceitar as coisas tal como são, de modo que, numa reação instintiva, fez um movimento pendular e agarrou-se a uma outra visão, também infantil e ingênua, da natureza e da feminilidade: a visão que as pinta com tintas negras, demoníacas – como a fonte de todo mal, em suma. É um estado de depressão. Não se trata de algo incomum. Basta lembrar que até hoje algumas tradições fundamentalistas ainda tratam a mulher e o mundo natural como espúrios, como se fossem as oficinas de Satã. Essa associação entre o feminino e o diabólico também está presente em Ninfomaníaca.


Um detalhe importante para tentar desvendar Anticristo está em seu início. Quando o casal está fazendo sexo no banheiro, acabam por derrubar um livro infantil, no qual há a figura de três animais numa floresta retratada de modo ingênuo. Esses três animais, associados aos três mendigos (dor, depressão e desespero), posteriormente retornarão como verdadeiras criaturas diabólicas, terríveis, que sentenciam o caráter caótico da vida e denunciam o homem à mulher enfurecida.

Essa, portanto, é uma possível interpretação para o filme de Lars: do processo no qual o homem acabou de sair da visão idealizada da natureza do mundo, reagiu ao trauma considerando a vida natural como algo diabólico, e superou essa mesma reação imatura por meio de uma vivência na qual teve de eliminar a figura materna.

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Logo, o filme não é misógino pela simples razão de que não aborda, em nenhum momento, a situação da verdadeira mulher. A mulher ali representada é um conteúdo da estrutura psicológica do homem. A esposa assume integralmente seu papel de arquétipo quando afirma que as mulheres foram perseguidas e oprimidas pelos homens durante séculos porque realmente eram malignas: nesse momento, é o complexo psicológico do próprio homem que fala, explicitando uma concepção que só poderia surgir no imaginário de um homem.

Sob esse ponto de vista, a obra de Lars é justo o contrário daquilo de que é acusada. Anticristo descreve a confusão masculina entre essa figura arquetípica e a mulher real que causa o “ginocídio” histórico, evidenciando o aspecto psicológico que há por trás das castrações de meninas no Egito e das milhares de bruxas queimadas pela Santa Inquisição. Enquanto um homem não souber distinguir entre as mulheres reais e as personagens que fantasmagorizam sua mente, jamais terá um relacionamento saudável com mulher alguma, e mesmo consigo próprio.

2. O dilema do menino e do adulto

Em Anticristo, o filho e o marido são a mesma pessoa, num complexo menino/homem, representando a tensão entre dois estados. O filho observa a cópula do casal, descobrindo que a mãe não lhe pertence, que ela o “trai” com o pai. Isso é um tema recorrente na psicanálise – quando o menino percebe que a mãe possui uma vida sexual da qual não participa, quando ele desperta para o fato de que ela é capaz de gozar independentemente da existência dele, rompe-se a percepção de uma simbiose paradisíaca com a sua mãe. Em termos existenciais, essa experiência dá um recado ao ser humano: o mundo existe independentemente de você.

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É por isso que o menino morre. A ilusão da infância acabou, a sexualidade “promíscua” daquela mãe que considerava inteiramente sua introduz em seu mundo uma realidade complexa e dúbia, que mata a infância. A criança comete suicídio após testemunhar a relação sexual dos pais. A partir daí, surge o homem que se refugia na estrita racionalidade, tentando lidar com o “problema” que é a mulher (ainda é um problema para ele, pois a figura materna ambivalente, opressora e sedutora, ainda não foi trabalhada) de forma fria e distanciada, com diagramas e palavras de ordem.

Observe-se que, após a morte do filho, é sempre a mulher que procura o sexo, de uma forma brusca, agressiva e, porque não dizer, “ativa”. Novamente se percebe que se trata do repúdio ao complexo mal resolvido da mãe promíscua, da negação de relacionar-se com o mundo real, aquele que existe e continuará a existir independentemente de nossa existência.


Essa situação estabelece um dilema entre o estado da minoridade e o da maioridade. Para crescer, o homem precisa afastar-se da ilusão ingênua de que há alguma unidade entre ele e o mundo. Ele precisa afastar-se do componente psíquico que representa essa ilusão, a mãe, por mais atrativa que a promessa de um retorno ao paraíso perdido. Em Anticristo, a mulher revela sua dificuldade de aceitar que o menino/homem se afaste, o que representa essa dificuldade de livrar-se da ilusão. Para evitar o desenvolvimento da psique, ela coloca no menino os sapatos nos pés trocados e prende uma peça de metal à perna do homem. Quando o homem se arrasta para longe da cabana com o pênis ferido e a perna perfurada, a fim de proteger-se de mais torturas e morte, o discurso da mulher é o de vítima, de alguém que foi abandonada injustamente pelo seu homem, chantagem essa que ecoa a noção de abandono que as mães ocidentais tradicionalmente costumam incutir em seus filhos, algo muito similar à personagem da mãe traída, representada por Uma Thurman no filme Ninfomaníaca.

3. Fugir não será possível

A cena em que a mulher pensa ter escutado seu filho chorar, mas logo percebe que está ouvindo a própria natureza em prantos, ela tem a súbita percepção de que há algo de profundamente errado naquele universo. Há morte em todo lugar. O horror passa a ser reconhecido. Curiosamente, enquanto escuta o choro universal, a mulher contempla seu filho segurando um pedaço de madeira junto aos instrumentos de carpintaria de seu pai. Ocorre que, mais tarde, será também com um pedaço de madeira que a mulher infligirá ao homem sua ferida genital.

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Assim, o horror representado pelos três mendigos (dor, depressão e desespero), o choro universal da natureza e as feridas na perna e nos testículos não podem ser evitadas. A “ferida narcísica” deve ser vivenciada e aceita como tal. A cura está em compreende-los e aceitá-los sem reações de rejeição ou cegueira idílica. Tecnicamente, o discurso psicanalítico do homem no início do filme está absolutamente certo: o equívoco do espectador é achar que ele fala com a mulher, quando aquilo tudo diz respeito a ele próprio e a um processo que irá vivenciar em breve, e de forma ritualizada (mesmo o homicídio da “mulher” é um ritual). Trata-se de um processo de superação da criança, com a difícil passagem para o mundo adulto.

Na tentativa de escapar da ira de sua mulher, o homem acaba entrando em um buraco. Ela, descobrindo seu esconderijo, decide mantê-lo ali, e o enterra. Para que o homem escape do pesadelo em que lida com o complexo maternal, deve ir a fundo no horror, deve deixar-se matar, sufocar-se no útero da Terra, para que assim morram os resíduos da psicologia infantil que há nele. A fuga nunca é a solução. Como Dante na Divina Comédia, a saída do Inferno exige que se passe pelo seu mais profundo nível e se conheça a cara do próprio Diabo.

4. O homicídio ritual

Por outro lado, no final do filme, quando o homem tem, em meio à dor e à loucura circundante, um lampejo de objetividade e racionalidade, e observa que a constelação dos Três Mendigos não existe realmente, ele estabelece o limite claro entre o real e o imaginário. Esse momento é o marco decisivo entre o estado de criança e o estado de adulto. Não é por outro motivo que, logo após essa percepção, seguida do grito da mulher, surge o pássaro de baixo da casa, revelando-lhe o exato lugar onde está a “chave” para libertar-se do peso em sua perna.

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O sinal de que o complexo materno perdeu seu poder de influência começa quando a mulher castra a si própria. Na etapa final de sua jornada interna, o homem mata a mulher e a queima. Subitamente e após esse crime, a natureza não é mais tão ameaçadora. Sinal disso é que o homem sobrevive consumindo frustas silvestres. Como gesto conciliação com o mundo e como sinal de que ele se livrou da relação bipolar diante da natureza das coisas (mundo maternal idílico, de um lado, e mundo maternal diabólico, do outro), no fim de Anticristo o homem volta-se e encara os três animais, representantes das misérias humanas, e essas figuras míticas devolvem-lhe o olhar sem sinal ameaça ou medo. Trata-se de um momento de reconhecimento, que antecede a última cena. Nesse instante, não há recriminação, não há julgamento, não há rejeição da natureza. Aceitar a condição humana sem debater-se numa reação infantil de recusa cega ou de demonização do mundo é o primeiro passo para a maturidade.

Na última cena, mulheres sobem a montanha e passam pelo homem sem percebê-lo, desprovidas de rosto. Esse é o momento de redenção, em que o homem já não projeta no elemento feminino todos os seus traumas. As mulheres já não possuem rosto, ou seja, estão livres da projeção. As mulheres não interagem com ele, não representam ameaça nem provocam uma atração perturbadora, anormal. Está aberta a porta para que o homem lide com as mulheres reais tal como são: seres humanos.

escrito por:

Victor Lisboa