Tetralogia Trier – Anticristo

Em Consciência por Victor LisboaComentário

Pros­se­guindo com a aná­lise de qua­tro obras de Lars von Trier, e já tendo abor­dado Melan­co­lia e Nin­fo­ma­níaca, é a hora da minha inter­pre­ta­ção mais, diga­mos assim, ousada.

O pri­meiro ponto a se enten­der sobre Anti­cristo é que Lars von Trier reco­nhe­ceu em mais de uma entre­vista que faz psi­ca­ná­lise e uti­liza suas vivên­cias no divã como ins­pi­ra­ção para seus fil­mes. E, par­ti­cu­lar­mente em rela­ção a Anti­cristo, o dire­tor afir­mou que a ideia da obra sur­giu durante uma pro­funda depres­são em que se sub­me­teu a tera­pia.

Por­tanto, se Lars von Trier é, ao lado de Berg­man, o mais psi­ca­na­lí­tico dos cine­as­tas euro­peus, Anti­cristo é o seu filme que mais bebe na fonte de Freud.

1. Expulso do paraíso maternal

Para come­çar, o filme foi acu­sado de ser misó­gino e con­trá­rio ao mundo natu­ral. Segundo essa tese, Lars teria afir­mado, em sua obra, que a mulher e a natu­reza são a fonte de todo o mal. É uma inter­pre­ta­ção apres­sada. Na ver­dade, o filme é a ale­go­ria de um homem que foi for­çado a aban­do­nar uma visão infan­til, ingê­nua, da vida. Sua pers­pec­tiva idí­lica e ide­a­li­zada do mundo não mais se sus­ten­tou, mas ele ainda era inca­paz de atin­gir a per­feita matu­ri­dade de acei­tar as coi­sas tal como são, de modo que, numa rea­ção ins­tin­tiva, fez um movi­mento pen­du­lar e agar­rou-se a uma outra visão, tam­bém infan­til e ingê­nua, da natu­reza e da femi­ni­li­dade: a visão que as pinta com tin­tas negras, demo­nía­cas – como a fonte de todo mal, em suma. É um estado de depres­são. Não se trata de algo inco­mum. Basta lem­brar que até hoje algu­mas tra­di­ções fun­da­men­ta­lis­tas ainda tra­tam a mulher e o mundo natu­ral como espú­rios, como se fos­sem as ofi­ci­nas de Satã. Essa asso­ci­a­ção entre o femi­nino e o dia­bó­lico tam­bém está pre­sente em Nin­fo­ma­níaca.


Um deta­lhe impor­tante para ten­tar des­ven­dar Anti­cristo está em seu iní­cio. Quando o casal está fazendo sexo no banheiro, aca­bam por der­ru­bar um livro infan­til, no qual há a figura de três ani­mais numa flo­resta retra­tada de modo ingê­nuo. Esses três ani­mais, asso­ci­a­dos aos três men­di­gos (dor, depres­são e deses­pero), pos­te­ri­or­mente retor­na­rão como ver­da­dei­ras cri­a­tu­ras dia­bó­li­cas, ter­rí­veis, que sen­ten­ciam o cará­ter caó­tico da vida e denun­ciam o homem à mulher enfu­re­cida.

Essa, por­tanto, é uma pos­sí­vel inter­pre­ta­ção para o filme de Lars: do pro­cesso no qual o homem aca­bou de sair da visão ide­a­li­zada da natu­reza do mundo, rea­giu ao trauma con­si­de­rando a vida natu­ral como algo dia­bó­lico, e supe­rou essa mesma rea­ção ima­tura por meio de uma vivên­cia na qual teve de eli­mi­nar a figura materna.

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Logo, o filme não é misó­gino pela sim­ples razão de que não aborda, em nenhum momento, a situ­a­ção da ver­da­deira mulher. A mulher ali repre­sen­tada é um con­teúdo da estru­tura psi­co­ló­gica do homem. A esposa assume inte­gral­mente seu papel de arqué­tipo quando afirma que as mulhe­res foram per­se­gui­das e opri­mi­das pelos homens durante sécu­los por­que real­mente eram malig­nas: nesse momento, é o com­plexo psi­co­ló­gico do pró­prio homem que fala, expli­ci­tando uma con­cep­ção que só pode­ria sur­gir no ima­gi­ná­rio de um homem.

Sob esse ponto de vista, a obra de Lars é justo o con­trá­rio daquilo de que é acu­sada. Anti­cristo des­creve a con­fu­são mas­cu­lina entre essa figura arque­tí­pica e a mulher real que causa o “gino­cí­dio” his­tó­rico, evi­den­ci­ando o aspecto psi­co­ló­gico que há por trás das cas­tra­ções de meni­nas no Egito e das milha­res de bru­xas quei­ma­das pela Santa Inqui­si­ção. Enquanto um homem não sou­ber dis­tin­guir entre as mulhe­res reais e as per­so­na­gens que fan­tas­ma­go­ri­zam sua mente, jamais terá um rela­ci­o­na­mento sau­dá­vel com mulher alguma, e mesmo con­sigo pró­prio.

2. O dilema do menino e do adulto

Em Anti­cristo, o filho e o marido são a mesma pes­soa, num com­plexo menino/homem, repre­sen­tando a ten­são entre dois esta­dos. O filho observa a cópula do casal, des­co­brindo que a mãe não lhe per­tence, que ela o “trai” com o pai. Isso é um tema recor­rente na psi­ca­ná­lise — quando o menino per­cebe que a mãe pos­sui uma vida sexual da qual não par­ti­cipa, quando ele des­perta para o fato de que ela é capaz de gozar inde­pen­den­te­mente da exis­tên­cia dele, rompe-se a per­cep­ção de uma sim­bi­ose para­di­síaca com a sua mãe. Em ter­mos exis­ten­ci­ais, essa expe­ri­ên­cia dá um recado ao ser humano: o mundo existe inde­pen­den­te­mente de você.

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É por isso que o menino morre. A ilu­são da infân­cia aca­bou, a sexu­a­li­dade “pro­mís­cua” daquela mãe que con­si­de­rava intei­ra­mente sua intro­duz em seu mundo uma rea­li­dade com­plexa e dúbia, que mata a infân­cia. A cri­ança comete sui­cí­dio após tes­te­mu­nhar a rela­ção sexual dos pais. A par­tir daí, surge o homem que se refu­gia na estrita raci­o­na­li­dade, ten­tando lidar com o “pro­blema” que é a mulher (ainda é um pro­blema para ele, pois a figura materna ambi­va­lente, opres­sora e sedu­tora, ainda não foi tra­ba­lhada) de forma fria e dis­tan­ci­ada, com dia­gra­mas e pala­vras de ordem.

Observe-se que, após a morte do filho, é sem­pre a mulher que pro­cura o sexo, de uma forma brusca, agres­siva e, por­que não dizer, “ativa”. Nova­mente se per­cebe que se trata do repú­dio ao com­plexo mal resol­vido da mãe pro­mís­cua, da nega­ção de rela­ci­o­nar-se com o mundo real, aquele que existe e con­ti­nu­ará a exis­tir inde­pen­den­te­mente de nossa exis­tên­cia.


Essa situ­a­ção esta­be­lece um dilema entre o estado da mino­ri­dade e o da mai­o­ri­dade. Para cres­cer, o homem pre­cisa afas­tar-se da ilu­são ingê­nua de que há alguma uni­dade entre ele e o mundo. Ele pre­cisa afas­tar-se do com­po­nente psí­quico que repre­senta essa ilu­são, a mãe, por mais atra­tiva que a pro­messa de um retorno ao paraíso per­dido. Em Anti­cristo, a mulher revela sua difi­cul­dade de acei­tar que o menino/homem se afaste, o que repre­senta essa difi­cul­dade de livrar-se da ilu­são. Para evi­tar o desen­vol­vi­mento da psi­que, ela coloca no menino os sapa­tos nos pés tro­ca­dos e prende uma peça de metal à perna do homem. Quando o homem se arrasta para longe da cabana com o pênis ferido e a perna per­fu­rada, a fim de pro­te­ger-se de mais tor­tu­ras e morte, o dis­curso da mulher é o de vítima, de alguém que foi aban­do­nada injus­ta­mente pelo seu homem, chan­ta­gem essa que ecoa a noção de aban­dono que as mães oci­den­tais tra­di­ci­o­nal­mente cos­tu­mam incu­tir em seus filhos, algo muito simi­lar à per­so­na­gem da mãe traída, repre­sen­tada por Uma Thur­man no filme Nin­fo­ma­níaca.

3. Fugir não será possível

A cena em que a mulher pensa ter escu­tado seu filho cho­rar, mas logo per­cebe que está ouvindo a pró­pria natu­reza em pran­tos, ela tem a súbita per­cep­ção de que há algo de pro­fun­da­mente errado naquele uni­verso. Há morte em todo lugar. O hor­ror passa a ser reco­nhe­cido. Curi­o­sa­mente, enquanto escuta o choro uni­ver­sal, a mulher con­tem­pla seu filho segu­rando um pedaço de madeira junto aos ins­tru­men­tos de car­pin­ta­ria de seu pai. Ocorre que, mais tarde, será tam­bém com um pedaço de madeira que a mulher infli­girá ao homem sua ferida geni­tal.

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Assim, o hor­ror repre­sen­tado pelos três men­di­gos (dor, depres­são e deses­pero), o choro uni­ver­sal da natu­reza e as feri­das na perna e nos tes­tí­cu­los não podem ser evi­ta­das. A “ferida nar­cí­sica” deve ser viven­ci­ada e aceita como tal. A cura está em com­pre­ende-los e aceitá-los sem rea­ções de rejei­ção ou cegueira idí­lica. Tec­ni­ca­mente, o dis­curso psi­ca­na­lí­tico do homem no iní­cio do filme está abso­lu­ta­mente certo: o equí­voco do espec­ta­dor é achar que ele fala com a mulher, quando aquilo tudo diz res­peito a ele pró­prio e a um pro­cesso que irá viven­ciar em breve, e de forma ritu­a­li­zada (mesmo o homi­cí­dio da “mulher” é um ritual). Trata-se de um pro­cesso de supe­ra­ção da cri­ança, com a difí­cil pas­sa­gem para o mundo adulto.

Na ten­ta­tiva de esca­par da ira de sua mulher, o homem acaba entrando em um buraco. Ela, des­co­brindo seu escon­de­rijo, decide mantê-lo ali, e o enterra. Para que o homem escape do pesa­delo em que lida com o com­plexo mater­nal, deve ir a fundo no hor­ror, deve dei­xar-se matar, sufo­car-se no útero da Terra, para que assim mor­ram os resí­duos da psi­co­lo­gia infan­til que há nele. A fuga nunca é a solu­ção. Como Dante na Divina Comé­dia, a saída do Inferno exige que se passe pelo seu mais pro­fundo nível e se conheça a cara do pró­prio Diabo.

4. O homicídio ritual

Por outro lado, no final do filme, quando o homem tem, em meio à dor e à lou­cura cir­cun­dante, um lam­pejo de obje­ti­vi­dade e raci­o­na­li­dade, e observa que a cons­te­la­ção dos Três Men­di­gos não existe real­mente, ele esta­be­lece o limite claro entre o real e o ima­gi­ná­rio. Esse momento é o marco deci­sivo entre o estado de cri­ança e o estado de adulto. Não é por outro motivo que, logo após essa per­cep­ção, seguida do grito da mulher, surge o pás­saro de baixo da casa, reve­lando-lhe o exato lugar onde está a “chave” para liber­tar-se do peso em sua perna.

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O sinal de que o com­plexo materno per­deu seu poder de influên­cia começa quando a mulher cas­tra a si pró­pria. Na etapa final de sua jor­nada interna, o homem mata a mulher e a queima. Subi­ta­mente e após esse crime, a natu­reza não é mais tão ame­a­ça­dora. Sinal disso é que o homem sobre­vive con­su­mindo frus­tas sil­ves­tres. Como gesto con­ci­li­a­ção com o mundo e como sinal de que ele se livrou da rela­ção bipo­lar diante da natu­reza das coi­sas (mundo mater­nal idí­lico, de um lado, e mundo mater­nal dia­bó­lico, do outro), no fim de Anti­cristo o homem volta-se e encara os três ani­mais, repre­sen­tan­tes das misé­rias huma­nas, e essas figu­ras míti­cas devol­vem-lhe o olhar sem sinal ame­aça ou medo. Trata-se de um momento de reco­nhe­ci­mento, que ante­cede a última cena. Nesse ins­tante, não há recri­mi­na­ção, não há jul­ga­mento, não há rejei­ção da natu­reza. Acei­tar a con­di­ção humana sem deba­ter-se numa rea­ção infan­til de recusa cega ou de demo­ni­za­ção do mundo é o pri­meiro passo para a matu­ri­dade.

Na última cena, mulhe­res sobem a mon­ta­nha e pas­sam pelo homem sem per­cebê-lo, des­pro­vi­das de rosto. Esse é o momento de reden­ção, em que o homem já não pro­jeta no ele­mento femi­nino todos os seus trau­mas. As mulhe­res já não pos­suem rosto, ou seja, estão livres da pro­je­ção. As mulhe­res não inte­ra­gem com ele, não repre­sen­tam ame­aça nem pro­vo­cam uma atra­ção per­tur­ba­dora, anor­mal. Está aberta a porta para que o homem lide com as mulhe­res reais tal como são: seres huma­nos.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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