§ 1º

“Nós, os deprimidos, sabemos das coisas. É por isso que somos deprimidos. Sabemos exatamente quantos feijões há no jarro da vida, enquanto vocês, os ‘normais’, apenas se distraem com apostas e rituais sociais. Mas quando a verdade for esfregada na cara de todos, vocês hão de chorar e tentar fugir – tentarão, até mesmo, cometer suicídio. Mas nós, nós não. Ficaremos serenos, pois os fatos apenas confirmarão o que já sabemos, e sentiremos alívio com o fim da espécie humana, essa raça deplorável. Quando dizemos que você está sozinho, acredite, é porque você está mesmo sozinho. Todos estamos.”

Esse parece ser mais ou menos o recado que Lars von Trier pretendeu transmitir em Melancolia. Mas talvez a proposta dele seja um pouco mais profunda do que isso. Ou, pelo menos, podemos tirar do filme mais do que o próprio Lars von Trier nos propõe.

De qualquer modo, se esse for o recado, embora von Trier talvez exagere, não deixa de chegar a um ponto digno de consideração. Justine, a personagem socialmente “disfuncional” de seu filme, não consegue adequar-se a uma festa, nem que seja a de seu próprio casamento. Pessoas como ela de certa forma estão enfermas mas, ainda assim, mais próximas da verdade, na medida em que falham naquilo que os “funcionais” logram êxito: afastar de si uma compreensão lúcida a respeito condição humana.

01

§ 2º

Lars von Trier parece desprezar aquilo que chamo de bonus pater famila – expressão que os antigos Romanos utilizavam para referir-se àquele que consideravam uma espécie idealizada de Godfather familiar: um homem diligente no sustento e no comando de todos (mulheres e crianças principalmente) que estão debaixo de suas asas protetoras. Um homem que precisa reafirmar, com cada palavra e gesto, a sua confiança no poder da operosidade humana.

Em Anticristo, o próprio protagonista era o alvo de von Trier: seguro da eficácia da psicologia tradicional para lidar com a profunda depressão de sua esposa, o personagem flerta com o abismo ao tentar curar a mulher enferma por meio de técnicas e métodos racionais – frutos da tal operosidade humana. Em Ninfomaníaca, é o homem-patrão-executivo que se casa e dá um filho a uma devassa, tentando compor com ela uma família normal, sem perceber o terrível maelstrom que arrastará sua vida ao mesmo abismo em que sua esposa sempre viveu.

Já em Melancolia, a vítima é também o bom pai de família adepto dos lugares comuns que compõem a moralidade típica do espectador do Jornal Nacional, um sujeito cioso de seu dever perante sua frágil esposa e seu jovem herdeiro. É alguém que oculta suas próprias inseguranças a respeito dos cálculos científicos que afirmavam que o planeta Melancholia não colidiria com a Terra, pois é seu dever ser o bastião dos mais fracos, principalmente dos que dele dependem.

No filme, esse personagem nutre antipatia pela descontrolada irmã de sua esposa, pois considera Justine uma “péssima influência” para seus familiares – “essa mulher histérica”, que ameaçaria seu reinado patriarcal se o reino do qual é monarca já não estivesse em ruínas. Porém, quando Melancholia passa a se aproximar inexoravelmente de nosso mundo, ele mata-se de uma forma covarde, deixando mulher e filho jogados à própria sorte.

03

§ 3º

“Essa mulher histérica”: o personagem John não chega a dizer isso, mas é como se o fizesse. Essa herdeira das remotas Bacantes que, como Justine, faziam sexo com um desconhecido em meio à natureza mergulhada na noite – isso se não preferiam literalmente devorá-lo. Exatamente o mesmo se passava com a esposa no filme anterior de von Trier, Anticristo: ela também demandou sexo de seu marido num ambiente selvagem e noturno. E é escancaradamente o que vemos em seu filme posterior, a história de uma mulher sexualmente incontrolável, que na adolescência participou de um grupo de meninas que, feito bacantes pós-modernas, tinham como o lema a irônica confissão “vulva, mea maxima vulva”. Em Melancolia, Justine deita-se nua em meio à natureza como se fosse ela uma bacante ou ninfa tardia, banhada pela luz de um planeta ameaçador.

04

§ 4º

“O mundo é mal”. Essa afirmação reverbera em Melancolia. Esse é um pessimismo que remonta a outras de suas obras. Em Anticristo, tal ideia é quase que corporificada na própria natureza, que chora como uma criança desesperada, e também no vaticínio de uma raposa falante. Em Ninfomaníaca, a protagonista tenta preencher o buraco, o grande vazio, que guarda dentro de si. No mundo exterior e no interior, o mesmo vaticínio: estamos condenados.

Mas von Trier terá razão? A natureza humana seria mesmo disfuncional de tal forma que simplesmente não há o que fazer senão nos felicitarmos por um evento que dê cabo de tudo e de todos? Deveríamos considerar a possibilidade serenamente, e separar o que há de emocional daquilo que há de verdadeiro nessa ideia. Tal pessimismo não é uma novidade, pois o próprio conceito grego de “tragédia” tem a mesma visão desesperançosa como seu fundamento: a religiosidade grega era “trágica”, pessimista, e havia até mesmo deuses que representavam essa espécie terrível de posição perante a vida, como Silenus, habitualmente retratado ao lado justo das Bacantes, como um dos membros do cortejo que seguia Dionisio, o deus louco, em sua celebração selvagem pelas florestas noturnas.

E, de fato, seria necessário que naturalmente (sem alarme, serenamente), nos aproximássemos dessa possibilidade: a de que a natureza humana seja disfuncional, fazendo do mundo humano algo realmente difícil de engolir senão com uma boa dose de ilusão. Eu falei em “separar o que há de emocional” pois a depressão e a angústia não são atributos inerentes à essa realidade que não conseguimos enxergar de olhos abertos, mas sim reações de uma mente que foi condicionada a pensar, desde o início, nas coisas de modo absolutamente diverso – são tentativas de preencher o vazio quando ele se instala, ou de fugir do vazio, ao invés de aprendermos a parar e a ficarmos sentado no meio desse vazio, com olhar terno e alguma paz.

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§ 5º

“Está acontecendo agora”, parece ser isso o que Lars von Trier nos diz. O início do filme já traz o seu final. Na ficção científica, quando um autor retrata uma sociedade futura e detestável é para, por vias indiretas e alegóricas, criticar a nossa própria sociedade atual. É o recurso da “distopia”, o contrário da utopia. Algo semelhante Lars von Trier parece insinuar em Melancolia. “Está acontecendo agora”: um mundo estranho está a se chocar com o nosso e a destruí-lo agora mesmo, neste exato momento, e no próximo, e naquele momento mais adiante que inexoravelmente se aproxima.

Nossa vida é essa experiência de confrontar nosso mundo com outros a cada instante e observá-lo todos os dias se desfazendo para recompor-se na forma de algo que nos é estranho. Resistimos a essa contínua mudança, e tal resistência é uma das causas fundamentais de nosso sofrimento e das neuroses cotidianas. Não há, absolutamente não há, nada de opressivo e terrível nessa ideia. Apenas o nosso pequeno ego não compreende a realidade essencial sobre nossa condição e assim chora oprimido ou mergulha em distrações que lhe permitam não olhar para este exato instante.

Sob esse ponto de visa, a morte existe apenas como experiência derradeira de um processo de transformação e impermanência que testemunharíamos todos os dias, inclusive aqui e agora, se não estivéssemos nos distraindo do momento presente de uma forma até mesmo compulsiva, como a personagem de Melancolia que quer vivenciar o fim do mundo de modo desesperadamente hedonista, bebendo vinho com sua irmã: mesmo no momento mais definitivo de sua vida, Claire se mostra incapaz de confrontar a experiência de frente e com olhos abertos – há sempre formas de nos distrairmos do que é real. A construção da “caverna mágica”, ao final, é uma irônica forma de demonstrar ao espectador que todos aqueles escudos e edificações que erigimos durante nossas vidas (a casa própria financiada com crédito imobiliário, o carro parcelado em 36 prestações,…) para nos sentirmos mais seguros e protegidos são, ao final das contas, tão eficazes quanto um grupo de varetas dispostos ao nosso redor.

06

§ 6º

Inicialmente, Justine é deprimida e histérica. Está em desacordo com o mundo ao seu redor. Porém, na segunda parte de Melancolia, ela não se desespera como Claire. Essa talvez seja uma dica de Lars von Trier sobre nossa adequada postura aqui e agora, nesse exato momento em que tudo o que amamos e conhecemos está se desfazendo para recompor-se em algo diferente, algo novo. Essa talvez seja uma boa postura diante da realidade humana: a consciência (efetiva, profunda, e não meramente intelectual) sobre a finitude e insignificância de nossa vida, quando assumida, elimina o sofrimento inútil e nos liberta, liberta da mesma forma que libertou Justine, que se desnudou em plena noite para deitar serena diante de Melancholia – liberta da mesma forma que os cavalos que, quando se acalmam, são finalmente soltos.

Justine, diante da morte inevitável, está serena, tem sensibilidade para aquietar-se e simplesmente ouvir o silêncio, sentada em um canto qualquer. Ela está ligeiramente triste ao final, e não é indiferente ao sofrimento da irmã e à insegurança do sobrinho – Justine chora sinceramente quando, no derradeiro instante, segura as mãos de ambos. Mas no choro dela não há o desespero que há no pranto de Claire – ela chora e ao mesmo tempo sorri com suavidade.

Talvez seja natural que tenhamos um pouco de tristeza diante desse mundo, não só por haver tanto sofrimento ao nosso redor, mas também por amarmos muitas das coisas que continuamente se esvaem ou se transformam perante nossos olhos – a passagem do tempo é inexorável. O que não é natural é nos apegarmos à dor, é não usufruirmos da liberdade e da alegre paz que a verdade proporciona e, assim, aprendermos a estar presente uns com os outros por meio da verdadeira compaixão a respeito da condição fundamental da qual todos nós, de um jeito ou de outro, comungamos. O substrato comum a toda experiência humana – essa consciência da finitude da vida, da solidão fundamental em que nos encontramos como indivíduos e como espécie – deveria ser a base de todo verdadeiro sentimento religioso.

escrito por:

Victor Lisboa

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