Tetralogia Trier: Melancolia

Em Comportamento por Victor LisboaComentário

§ 1º

Nós, os depri­mi­dos, sabe­mos das coi­sas. É por isso que somos depri­mi­dos. Sabe­mos exa­ta­mente quan­tos fei­jões há no jarro da vida, enquanto vocês, os ‘nor­mais’, ape­nas se dis­traem com apos­tas e ritu­ais soci­ais. Mas quando a ver­dade for esfre­gada na cara de todos, vocês hão de cho­rar e ten­tar fugir – ten­ta­rão, até mesmo, come­ter sui­cí­dio. Mas nós, nós não. Fica­re­mos sere­nos, pois os fatos ape­nas con­fir­ma­rão o que já sabe­mos, e sen­ti­re­mos alí­vio com o fim da espé­cie humana, essa raça deplo­rá­vel. Quando dize­mos que você está sozi­nho, acre­dite, é por­que você está mesmo sozi­nho. Todos esta­mos.”

Esse parece ser mais ou menos o recado que Lars von Trier pre­ten­deu trans­mi­tir em Melan­co­lia. Mas tal­vez a pro­posta dele seja um pouco mais pro­funda do que isso. Ou, pelo menos, pode­mos tirar do filme mais do que o pró­prio Lars von Trier nos pro­põe.

De qual­quer modo, se esse for o recado, embora von Trier tal­vez exa­gere, não deixa de che­gar a um ponto digno de con­si­de­ra­ção. Jus­tine, a per­so­na­gem soci­al­mente “dis­fun­ci­o­nal” de seu filme, não con­se­gue ade­quar-se a uma festa, nem que seja a de seu pró­prio casa­mento. Pes­soas como ela de certa forma estão enfer­mas mas, ainda assim, mais pró­xi­mas da ver­dade, na medida em que falham naquilo que os “fun­ci­o­nais” logram êxito: afas­tar de si uma com­pre­en­são lúcida a res­peito con­di­ção humana.

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§ 2º

Lars von Trier parece des­pre­zar aquilo que chamo de bonus pater famila - expres­são que os anti­gos Roma­nos uti­li­za­vam para refe­rir-se àquele que con­si­de­ra­vam uma espé­cie ide­a­li­zada de God­father fami­liar: um homem dili­gente no sus­tento e no comando de todos (mulhe­res e cri­an­ças prin­ci­pal­mente) que estão debaixo de suas asas pro­te­to­ras. Um homem que pre­cisa rea­fir­mar, com cada pala­vra e gesto, a sua con­fi­ança no poder da ope­ro­si­dade humana.

Em Anti­cristo, o pró­prio pro­ta­go­nista era o alvo de von Trier: seguro da efi­cá­cia da psi­co­lo­gia tra­di­ci­o­nal para lidar com a pro­funda depres­são de sua esposa, o per­so­na­gem flerta com o abismo ao ten­tar curar a mulher enferma por meio de téc­ni­cas e méto­dos raci­o­nais – fru­tos da tal ope­ro­si­dade humana. Em Nin­fo­ma­níaca, é o homem-patrão-exe­cu­tivo que se casa e dá um filho a uma devassa, ten­tando com­por com ela uma famí­lia nor­mal, sem per­ce­ber o ter­rí­vel maels­trom que arras­tará sua vida ao mesmo abismo em que sua esposa sem­pre viveu.

Já em Melan­co­lia, a vítima é tam­bém o bom pai de famí­lia adepto dos luga­res comuns que com­põem a mora­li­dade típica do espec­ta­dor do Jor­nal Naci­o­nal, um sujeito cioso de seu dever perante sua frá­gil esposa e seu jovem her­deiro. É alguém que oculta suas pró­prias inse­gu­ran­ças a res­peito dos cál­cu­los cien­tí­fi­cos que afir­ma­vam que o pla­neta Melan­cho­lia não coli­di­ria com a Terra, pois é seu dever ser o bas­tião dos mais fra­cos, prin­ci­pal­mente dos que dele depen­dem.

No filme, esse per­so­na­gem nutre anti­pa­tia pela des­con­tro­lada irmã de sua esposa, pois con­si­dera Jus­tine uma “pés­sima influên­cia” para seus fami­li­a­res – “essa mulher his­té­rica”, que ame­a­ça­ria seu rei­nado patri­ar­cal se o reino do qual é monarca já não esti­vesse em ruí­nas. Porém, quando Melan­cho­lia passa a se apro­xi­mar ine­xo­ra­vel­mente de nosso mundo, ele mata-se de uma forma covarde, dei­xando mulher e filho joga­dos à pró­pria sorte.

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§ 3º

Essa mulher his­té­rica”: o per­so­na­gem John não chega a dizer isso, mas é como se o fizesse. Essa her­deira das remo­tas Bacan­tes que, como Jus­tine, faziam sexo com um des­co­nhe­cido em meio à natu­reza mer­gu­lhada na noite – isso se não pre­fe­riam lite­ral­mente devorá-lo. Exa­ta­mente o mesmo se pas­sava com a esposa no filme ante­rior de von Trier, Anti­cristo: ela tam­bém deman­dou sexo de seu marido num ambi­ente sel­va­gem e noturno. E é escan­ca­ra­da­mente o que vemos em seu filme pos­te­rior, a his­tó­ria de uma mulher sexu­al­mente incon­tro­lá­vel, que na ado­les­cên­cia par­ti­ci­pou de um grupo de meni­nas que, feito bacan­tes pós-moder­nas, tinham como o lema a irô­nica con­fis­são “vulva, mea maxima vulva”. Em Melan­co­lia, Jus­tine deita-se nua em meio à natu­reza como se fosse ela uma bacante ou ninfa tar­dia, banhada pela luz de um pla­neta ame­a­ça­dor.

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§ 4º

O mundo é mal”. Essa afir­ma­ção rever­bera em Melan­co­lia. Esse é um pes­si­mismo que remonta a outras de suas obras. Em Anti­cristo, tal ideia é quase que cor­po­ri­fi­cada na pró­pria natu­reza, que chora como uma cri­ança deses­pe­rada, e tam­bém no vati­cí­nio de uma raposa falante. Em Nin­fo­ma­níaca, a pro­ta­go­nista tenta pre­en­cher o buraco, o grande vazio, que guarda den­tro de si. No mundo exte­rior e no inte­rior, o mesmo vati­cí­nio: esta­mos con­de­na­dos.

Mas von Trier terá razão? A natu­reza humana seria mesmo dis­fun­ci­o­nal de tal forma que sim­ples­mente não há o que fazer senão nos feli­ci­tar­mos por um evento que dê cabo de tudo e de todos? Deve­ría­mos con­si­de­rar a pos­si­bi­li­dade sere­na­mente, e sepa­rar o que há de emo­ci­o­nal daquilo que há de ver­da­deiro nessa ideia. Tal pes­si­mismo não é uma novi­dade, pois o pró­prio con­ceito grego de “tra­gé­dia” tem a mesma visão deses­pe­ran­çosa como seu fun­da­mento: a reli­gi­o­si­dade grega era “trá­gica”, pes­si­mista, e havia até mesmo deu­ses que repre­sen­ta­vam essa espé­cie ter­rí­vel de posi­ção perante a vida, como Sile­nus, habi­tu­al­mente retra­tado ao lado justo das Bacan­tes, como um dos mem­bros do cor­tejo que seguia Dio­ni­sio, o deus louco, em sua cele­bra­ção sel­va­gem pelas flo­res­tas notur­nas.

E, de fato, seria neces­sá­rio que natu­ral­mente (sem alarme, sere­na­mente), nos apro­xi­más­se­mos dessa pos­si­bi­li­dade: a de que a natu­reza humana seja dis­fun­ci­o­nal, fazendo do mundo humano algo real­mente difí­cil de engo­lir senão com uma boa dose de ilu­são. Eu falei em “sepa­rar o que há de emo­ci­o­nal” pois a depres­são e a angús­tia não são atri­bu­tos ine­ren­tes à essa rea­li­dade que não con­se­gui­mos enxer­gar de olhos aber­tos, mas sim rea­ções de uma mente que foi con­di­ci­o­nada a pen­sar, desde o iní­cio, nas coi­sas de modo abso­lu­ta­mente diverso – são ten­ta­ti­vas de pre­en­cher o vazio quando ele se ins­tala, ou de fugir do vazio, ao invés de apren­der­mos a parar e a ficar­mos sen­tado no meio desse vazio, com olhar terno e alguma paz.

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§ 5º

Está acon­te­cendo agora”, parece ser isso o que Lars von Trier nos diz. O iní­cio do filme já traz o seu final. Na fic­ção cien­tí­fica, quando um autor retrata uma soci­e­dade futura e detes­tá­vel é para, por vias indi­re­tas e ale­gó­ri­cas, cri­ti­car a nossa pró­pria soci­e­dade atual. É o recurso da “dis­to­pia”, o con­trá­rio da uto­pia. Algo seme­lhante Lars von Trier parece insi­nuar em Melan­co­lia. “Está acon­te­cendo agora”: um mundo estra­nho está a se cho­car com o nosso e a des­truí-lo agora mesmo, neste exato momento, e no pró­ximo, e naquele momento mais adi­ante que ine­xo­ra­vel­mente se apro­xima.

Nossa vida é essa expe­ri­ên­cia de con­fron­tar nosso mundo com outros a cada ins­tante e observá-lo todos os dias se des­fa­zendo para recom­por-se na forma de algo que nos é estra­nho. Resis­ti­mos a essa con­tí­nua mudança, e tal resis­tên­cia é uma das cau­sas fun­da­men­tais de nosso sofri­mento e das neu­ro­ses coti­di­a­nas. Não há, abso­lu­ta­mente não há, nada de opres­sivo e ter­rí­vel nessa ideia. Ape­nas o nosso pequeno ego não com­pre­ende a rea­li­dade essen­cial sobre nossa con­di­ção e assim chora opri­mido ou mer­gu­lha em dis­tra­ções que lhe per­mi­tam não olhar para este exato ins­tante.

Sob esse ponto de visa, a morte existe ape­nas como expe­ri­ên­cia der­ra­deira de um pro­cesso de trans­for­ma­ção e imper­ma­nên­cia que tes­te­mu­nha­ría­mos todos os dias, inclu­sive aqui e agora, se não esti­vés­se­mos nos dis­traindo do momento pre­sente de uma forma até mesmo com­pul­siva, como a per­so­na­gem de Melan­co­lia que quer viven­ciar o fim do mundo de modo deses­pe­ra­da­mente hedo­nista, bebendo vinho com sua irmã: mesmo no momento mais defi­ni­tivo de sua vida, Claire se mos­tra inca­paz de con­fron­tar a expe­ri­ên­cia de frente e com olhos aber­tos – há sem­pre for­mas de nos dis­trair­mos do que é real. A cons­tru­ção da “caverna mágica”, ao final, é uma irô­nica forma de demons­trar ao espec­ta­dor que todos aque­les escu­dos e edi­fi­ca­ções que eri­gi­mos durante nos­sas vidas (a casa pró­pria finan­ci­ada com cré­dito imo­bi­liá­rio, o carro par­ce­lado em 36 pres­ta­ções,…) para nos sen­tir­mos mais segu­ros e pro­te­gi­dos são, ao final das con­tas, tão efi­ca­zes quanto um grupo de vare­tas dis­pos­tos ao nosso redor.

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§ 6º

Ini­ci­al­mente, Jus­tine é depri­mida e his­té­rica. Está em desa­cordo com o mundo ao seu redor. Porém, na segunda parte de Melan­co­lia, ela não se deses­pera como Claire. Essa tal­vez seja uma dica de Lars von Trier sobre nossa ade­quada pos­tura aqui e agora, nesse exato momento em que tudo o que ama­mos e conhe­ce­mos está se des­fa­zendo para recom­por-se em algo dife­rente, algo novo. Essa tal­vez seja uma boa pos­tura diante da rea­li­dade humana: a cons­ci­ên­cia (efe­tiva, pro­funda, e não mera­mente inte­lec­tual) sobre a fini­tude e insig­ni­fi­cân­cia de nossa vida, quando assu­mida, eli­mina o sofri­mento inú­til e nos liberta, liberta da mesma forma que liber­tou Jus­tine, que se des­nu­dou em plena noite para dei­tar serena diante de Melan­cho­lia – liberta da mesma forma que os cava­los que, quando se acal­mam, são final­mente sol­tos.

Jus­tine, diante da morte ine­vi­tá­vel, está serena, tem sen­si­bi­li­dade para aqui­e­tar-se e sim­ples­mente ouvir o silên­cio, sen­tada em um canto qual­quer. Ela está ligei­ra­mente triste ao final, e não é indi­fe­rente ao sofri­mento da irmã e à inse­gu­rança do sobri­nho – Jus­tine chora sin­ce­ra­mente quando, no der­ra­deiro ins­tante, segura as mãos de ambos. Mas no choro dela não há o deses­pero que há no pranto de Claire – ela chora e ao mesmo tempo sorri com sua­vi­dade.

Tal­vez seja natu­ral que tenha­mos um pouco de tris­teza diante desse mundo, não só por haver tanto sofri­mento ao nosso redor, mas tam­bém por amar­mos mui­tas das coi­sas que con­ti­nu­a­mente se esvaem ou se trans­for­mam perante nos­sos olhos – a pas­sa­gem do tempo é ine­xo­rá­vel. O que não é natu­ral é nos ape­gar­mos à dor, é não usu­fruir­mos da liber­dade e da ale­gre paz que a ver­dade pro­por­ci­ona e, assim, apren­der­mos a estar pre­sente uns com os outros por meio da ver­da­deira com­pai­xão a res­peito da con­di­ção fun­da­men­tal da qual todos nós, de um jeito ou de outro, comun­ga­mos. O subs­trato comum a toda expe­ri­ên­cia humana – essa cons­ci­ên­cia da fini­tude da vida, da soli­dão fun­da­men­tal em que nos encon­tra­mos como indi­ví­duos e como espé­cie – deve­ria ser a base de todo ver­da­deiro sen­ti­mento reli­gi­oso.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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