Rosto de Eichmann;

O Terrorista que há no Cidadão de Bem

Em Comportamento, Consciência, Filosofia, Sociedade por Victor LisboaComentários

Quando sabe­mos de atos hedi­on­dos de um ter­ro­rista, ou lemos sobre os cri­mes pra­ti­ca­dos por um nazista, cos­tu­ma­mos pen­sar que há alguma coisa de muito errada com essa gente.

Devem ser “lou­cos”: pes­soas com algum des­vio psi­co­ló­gico ou pelo menos com uma grande falha de cará­ter. Há, gos­ta­mos de pen­sar, um enorme abismo entre nós e eles, e de modo algum sería­mos capa­zes de machu­car os outros da mesma forma.

Mas a filó­sofa polí­tica Han­nah Arendt demons­trou que não, que aque­les que pra­ti­cam o mal são pes­soas tão comuns como eu, o seu vizi­nho e você.

Arendt, pro­vo­cando a ira de mui­tos, propôs que, ape­sar de nossa cul­tura popu­lar e nos­sas reli­giões carac­te­ri­za­rem aquele que pra­tica o mal como alguém dotado de um traço de per­so­na­li­dade dis­tin­tivo dos demais “cida­dãos de bem”, essa é uma con­cep­ção equi­vo­cada.

Na ver­dade, quem tri­lha o cami­nho do mal e acaba aden­trando o cora­ção das tre­vas é, de regra, o cida­dão de bem.

E isso ocorre por­que o mal é banal. Essa bana­li­dade que o carac­te­riza sig­ni­fica que o mal está sem­pre latente em nos­sas esco­lhas diá­rias, mesmo nas irre­le­van­tes, de modo que ele se revela a cada um de nós coti­di­a­na­mente em situ­a­ções mun­da­nas.

E é nes­sas esco­lhas apa­ren­te­mente tri­vi­ais que se abre a opor­tu­ni­dade para, aos pou­cos, aden­trar­mos uma via que nos levará, lá adi­ante, a come­ter ou ao menos apoiar alguma mani­fes­ta­ção ainda mais ter­rí­vel do mal.

Olhe para o mundo. Observe as suas guer­ras, as popu­la­ções explo­ra­das, as hos­ti­li­da­des entre as nações, os gover­nos opres­so­res.

Você acha que a causa disso tudo são pes­soas malé­vo­las, que se reú­nem para deli­be­ra­da­mente cau­sar dor e sofri­mento nos outros em bene­fí­cio pró­prio? Não, Arendt afir­mava que se tra­tam de pes­soas comuns, que estão agindo com a cons­ci­ên­cia tran­quila e cren­tes de que fazem o que é certo.

Mas por que não per­ce­be­mos, nesse moroso cami­nho em dire­ção ao abismo, que esta­mos con­de­nando a nós mes­mos e cau­sando dor aos outros?

Por­que sem­pre con­se­gui­mos des­cul­par nos­sas peque­nas mal­da­des e erros do dia a dia, seja con­si­de­rando-as irre­le­van­tes, seja jus­ti­fi­cando-as de alguma forma con­ve­ni­ente, igno­rando que é o soma­tó­rio de peque­nos erros que deturpa nosso cará­ter e nos trans­forma em mons­tros.

Han­nah Arendt uti­li­zou como grande exem­plo o jul­ga­mento do tenente-coro­nel nazista Adolf Eich­mann, cap­tu­rado e jul­gado pela Jus­tiça isra­e­lense devido aos cri­mes que come­teu na Segunda Guerra Mun­dial.

Para a ira de parte da comu­ni­dade judaica, a qual per­ten­cia, Han­nah Arendt propôs que Eich­mann não era um mons­tro, um cri­mi­noso malé­volo que per­pe­trou atos hedi­on­dos ple­na­mente cons­ci­ente de que eram cruéis e inde­cen­tes.

Eich­mann, ao con­trá­rio, era alguém comum, de medi­ana inte­li­gên­cia, em nada dife­rente de todos aque­les que o cap­tu­ra­ram e jul­ga­vam, e que só fez o que fez por­que sua cons­ci­ên­cia, como a da mai­o­ria dos homens, não per­ce­bia quando o Mal se reve­lava nas esco­lhas do coti­di­ano, prin­ci­pal­mente por­que essas esco­lhas pare­ciam razoá­veis aos demais mem­bros de sua comu­ni­dade.

"A triste verdade é que os maiores males são praticados por pessoas que nunca se decidiram pelo bem ou pelo mal." - Hannah Arendt | O terrorista que há no cidadão de bem.

Mas o que isso tem a ver conosco?

Pense naquela male­di­cên­cia que você ouviu de ami­gos ou cole­gas e res­pon­deu com um comen­tá­rio de cum­pli­ci­dade. Pense nas peque­nas men­ti­ras que dize­mos no dia a dia aos outros e que con­si­de­ra­mos ino­fen­si­vas.

Pense nas oca­siões em que você teve a opor­tu­ni­dade de aju­dar alguém e ser gen­til, mas quase que auto­ma­ti­ca­mente seguiu o cami­nho da indi­fe­rença ou da ani­mo­si­dade. Pense nas fofo­cas que ajuda a dis­se­mi­nar, nas ordens de auto­ri­da­des que cum­pre sem refle­xão, nas vezes em que pas­sou por desa­bri­ga­dos e men­di­gos e sequer os notou. 

Pense, prin­ci­pal­mente, em todas as vezes em que você tra­tou o outro, seja ele o petra­lha, o coxi­nha, o comu­nista, o neo­li­be­ral, o ateu, o gay, o crente, o con­ser­va­dor… como se ele valesse um pouco menos do que um ser humano comum.

Não per­ce­be­mos a pre­sença do Mal em nos­sos atos do coti­di­ano pois não pres­ta­mos a devida aten­ção a tudo aquilo que nos parece banal.

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E se o Mal existe e se ali­menta dos atos da natu­reza humana, ele não o faz na bio­gra­fia de um grande vilão, de um grande cri­mi­noso — é das peque­nas esco­lhas de nosso coti­di­ano que ele se nutre e for­ta­lece.

A bana­li­dade do mal de que falava Arendt con­sis­tia exa­ta­mente nisso: o mal se revela ao ser humano em esco­lhas tri­lha­das no dia a dia, e é nes­sas situ­a­ções que, de passo em passo, aca­ba­mos abra­çando um cami­nho irre­ver­sí­vel e que nos leva a cau­sar mal, em última ins­tân­cia, a nós mes­mos.

Mas o que é o Mal para Hannah Arendt?

Embora ela tenha ana­li­sado o tema sob a ótica dos regi­mes tota­li­tá­rios, em sua obra Ori­gins of Tota­li­ta­ri­a­nism, ela toma empres­tado o con­ceito de “mal radi­cal” for­mu­lado por Kant: o mal não é ape­nas uma esco­lha cons­ci­ente no âmbito da moral, mas tam­bém algo ao qual a natu­reza humana é pro­pensa.

Uma das con­sequên­cias da pro­posta de Arendt é que os prin­ci­pais dile­mas prá­ti­cos da vida não são nada rela­ti­vos. Na mai­o­ria das situ­a­ções diá­rias, o dilema está entre esco­lher alguma forma insi­di­osa de erro e mal­dade ou alguma espé­cie de ade­são à benig­ni­dade, com­pai­xão e tole­rân­cia.

Na maior parte dos casos, no fundo se trata de esco­lher o cami­nho da gene­ro­si­dade ou do egoísmo, da aber­tura ou do fecha­mento ao outro, da con­fi­ança ou da des­con­fi­ança, da com­pai­xão ou da indi­fe­rença, do diá­logo ou da dor.

A per­cep­ção do que é certo e errado é ele­men­tar, e por vezes até uma cri­ança con­se­gue tê-la, porém é pre­ciso cora­gem e luci­dez para dar-se conta de que uma esco­lha ou ato coti­di­ano, tal­vez van­ta­josa e cômoda do ponto de vista egoísta, é no fundo uma mani­fes­ta­ção do Mal em pequena escala.

O mal pode ser banal, mas não é rela­tivo, e não depende do ponto de vista. Só o con­si­de­ra­mos rela­tivo pois essa é uma das prin­ci­pais jus­ti­fi­ca­ti­vas para come­ter­mos o mal dia­ri­a­mente.

A pró­pria noção de que tudo é rela­tivo e de que todo ato que pra­ti­ca­mos traz bene­fí­cios e pre­juí­zos aos outros, depen­dendo da ótica, só aumenta a bana­li­dade do mal. Por vai­dade, não admi­ti­mos para nós mes­mos que esta­mos esco­lhendo algo que é sim­ples­mente “mal”, embora no fundo per­ce­ba­mos nosso erro.

E é tam­bém por isso que exis­tem tan­tas filo­so­fias morais no mundo: pode­mos esco­lher aquela que serve melhor para cada esco­lha que nos con­vir.

Assim, como a maior parte dos seres huma­nos, o fun­da­men­ta­lista e o neo­na­zista acre­di­tam pia­mente que estão fazendo o certo, de que são pes­soas fun­da­men­tal­mente boas — homens de bem.

Nin­guém, salvo pou­cos luná­ti­cos pre­sos emo­ci­o­nal­mente na infân­cia, acorda pela manhã e olha no espe­lho pen­sando “meus atos são a mani­fes­ta­ção do Mal, e neste dia farei algu­mas mal­da­des por­que é disso que gosto”.

Con­tudo, se o mundo está repleto de guer­ras e popu­la­ções intei­ras estão famin­tas e opri­mi­das, enquanto degra­da­mos irre­ver­si­vel­mente o meio ambi­ente, é por­que — embora pou­cos pen­sem assim — mui­tos na prá­tica agem de tal maneira.

Hoje, com as redes soci­ais, ficou mais fácil encon­trar­mos o mal em esco­lhas banais e, irre­fle­ti­da­mente, optar­mos pelo cami­nho que nos con­duz ao Mal.

Afi­nal, quase não refle­ti­mos antes de enviar uma men­sa­gem hos­til, pois é muito mais fácil pra­ti­car o mal quando não olha­mos para os olhos de nos­sas víti­mas, e sen­ti­mos que nosso inter­lo­cu­tor é ape­nas uma tela de smartphone ou com­pu­ta­dor.

Mas nin­guém está a salvo de ir errando e errando até que em algum momento se veja ade­rindo à expres­são de um grande e ter­rí­vel Mal.

Han­nah Arendt chama aten­ção justo para esse ponto impor­tante: o grande mal que se mani­fes­tou no Holo­causto da Segunda Guerra Mun­dial não teve como prin­ci­pais res­pon­sá­veis esse ou aquele líder fas­cista, esse ou aquele tenente-coro­nel ou gene­ral.

Tais auto­ri­da­des nada teriam feito sozi­nhas, iso­la­das, se uma nume­rosa popu­la­ção, pro­te­gida pelo ano­ni­mato e por estar dis­pen­sada de olhar milhões de víti­mas nos olhos, não tivesse os apoi­ado e man­tido no poder atra­vés de suas peque­nas esco­lhas banais do dia-a-dia.

Mas por que razão esco­lhe­mos o Mal?

Em parte tal­vez por uma natu­ral pro­pen­são à agres­são, e em parte por ser­mos tam­bém natu­ral­mente pre­gui­ço­sos: afi­nal, se o mal é banal e se revela em peque­nas situ­a­ções do dia a dia, isso sig­ni­fica que pre­ci­sa­mos estar cons­tan­te­mente aten­tos a cada deta­lhe do nosso coti­di­ano, assu­mindo inte­gral res­pon­sa­bi­li­dade pelo resul­tado das nos­sas deci­sões.

Na pres­são dos com­pro­mis­sos e na cons­tante pressa do tempo moderno, isso é difí­cil e pouco pro­du­tivo.

Cada pequena ação importa, e em cada esco­lha banal é que damos os pas­sos neces­sá­rios para ascen­der­mos às mais nobres aspi­ra­ções huma­nas, ou para afun­dar­mos no abismo dos pio­res aspec­tos de nossa huma­ni­dade.

Essa foi uma das mais pre­ci­o­sas lições que uma das mai­o­res men­tes do século XX nos legou.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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