Quando sabemos de atos hediondos de um terrorista, ou lemos sobre os crimes praticados por um nazista, costumamos pensar que há alguma coisa de muito errada com essa gente.

Devem ser “loucos”: pessoas com algum desvio psicológico ou pelo menos com uma grande falha de caráter. Há, gostamos de pensar, um enorme abismo entre nós e eles, e de modo algum seríamos capazes de machucar os outros da mesma forma.

Mas a filósofa política Hannah Arendt demonstrou que não, que aqueles que praticam o mal são pessoas tão comuns como eu, o seu vizinho e você.

Arendt, provocando a ira de muitos, propôs que, apesar de nossa cultura popular e nossas religiões caracterizarem aquele que pratica o mal como alguém dotado de um traço de personalidade distintivo dos demais “cidadãos de bem”, essa é uma concepção equivocada.

Na verdade, quem trilha o caminho do mal e acaba adentrando o coração das trevas é, de regra, o cidadão de bem.

E isso ocorre porque o mal é banal. Essa banalidade que o caracteriza significa que o mal está sempre latente em nossas escolhas diárias, mesmo nas irrelevantes, de modo que ele se revela a cada um de nós cotidianamente em situações mundanas.

E é nessas escolhas aparentemente triviais que se abre a oportunidade para, aos poucos, adentrarmos uma via que nos levará, lá adiante, a cometer ou ao menos apoiar alguma manifestação ainda mais terrível do mal.

Olhe para o mundo. Observe as suas guerras, as populações exploradas, as hostilidades entre as nações, os governos opressores.

Você acha que a causa disso tudo são pessoas malévolas, que se reúnem para deliberadamente causar dor e sofrimento nos outros em benefício próprio? Não, Arendt afirmava que se tratam de pessoas comuns, que estão agindo com a consciência tranquila e crentes de que fazem o que é certo.

Mas por que não percebemos, nesse moroso caminho em direção ao abismo, que estamos condenando a nós mesmos e causando dor aos outros?

Porque sempre conseguimos desculpar nossas pequenas maldades e erros do dia a dia, seja considerando-as irrelevantes, seja justificando-as de alguma forma conveniente, ignorando que é o somatório de pequenos erros que deturpa nosso caráter e nos transforma em monstros.

Hannah Arendt utilizou como grande exemplo o julgamento do tenente-coronel nazista Adolf Eichmann, capturado e julgado pela Justiça israelense devido aos crimes que cometeu na Segunda Guerra Mundial.

Para a ira de parte da comunidade judaica, a qual pertencia, Hannah Arendt propôs que Eichmann não era um monstro, um criminoso malévolo que perpetrou atos hediondos plenamente consciente de que eram cruéis e indecentes.

Eichmann, ao contrário, era alguém comum, de mediana inteligência, em nada diferente de todos aqueles que o capturaram e julgavam, e que só fez o que fez porque sua consciência, como a da maioria dos homens, não percebia quando o Mal se revelava nas escolhas do cotidiano, principalmente porque essas escolhas pareciam razoáveis aos demais membros de sua comunidade.

"A triste verdade é que os maiores males são praticados por pessoas que nunca se decidiram pelo bem ou pelo mal." - Hannah Arendt | O terrorista que há no cidadão de bem.

Mas o que isso tem a ver conosco?

Pense naquela maledicência que você ouviu de amigos ou colegas e respondeu com um comentário de cumplicidade. Pense nas pequenas mentiras que dizemos no dia a dia aos outros e que consideramos inofensivas.

Pense nas ocasiões em que você teve a oportunidade de ajudar alguém e ser gentil, mas quase que automaticamente seguiu o caminho da indiferença ou da animosidade. Pense nas fofocas que ajuda a disseminar, nas ordens de autoridades que cumpre sem reflexão, nas vezes em que passou por desabrigados e mendigos e sequer os notou.

Pense, principalmente, em todas as vezes em que você tratou o outro, seja ele o petralha, o coxinha, o comunista, o neoliberal, o ateu, o gay, o crente, o conservador… como se ele valesse um pouco menos do que um ser humano comum.

Não percebemos a presença do Mal em nossos atos do cotidiano pois não prestamos a devida atenção a tudo aquilo que nos parece banal.

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E se o Mal existe e se alimenta dos atos da natureza humana, ele não o faz na biografia de um grande vilão, de um grande criminoso – é das pequenas escolhas de nosso cotidiano que ele se nutre e fortalece.

A banalidade do mal de que falava Arendt consistia exatamente nisso: o mal se revela ao ser humano em escolhas trilhadas no dia a dia, e é nessas situações que, de passo em passo, acabamos abraçando um caminho irreversível e que nos leva a causar mal, em última instância, a nós mesmos.

Mas o que é o Mal para Hannah Arendt?

Embora ela tenha analisado o tema sob a ótica dos regimes totalitários, em sua obra Origins of Totalitarianism, ela toma emprestado o conceito de “mal radical” formulado por Kant: o mal não é apenas uma escolha consciente no âmbito da moral, mas também algo ao qual a natureza humana é propensa.

Uma das consequências da proposta de Arendt é que os principais dilemas práticos da vida não são nada relativos. Na maioria das situações diárias, o dilema está entre escolher alguma forma insidiosa de erro e maldade ou alguma espécie de adesão à benignidade, compaixão e tolerância.

Na maior parte dos casos, no fundo se trata de escolher o caminho da generosidade ou do egoísmo, da abertura ou do fechamento ao outro, da confiança ou da desconfiança, da compaixão ou da indiferença, do diálogo ou da dor.

A percepção do que é certo e errado é elementar, e por vezes até uma criança consegue tê-la, porém é preciso coragem e lucidez para dar-se conta de que uma escolha ou ato cotidiano, talvez vantajosa e cômoda do ponto de vista egoísta, é no fundo uma manifestação do Mal em pequena escala.

O mal pode ser banal, mas não é relativo, e não depende do ponto de vista. Só o consideramos relativo pois essa é uma das principais justificativas para cometermos o mal diariamente.

A própria noção de que tudo é relativo e de que todo ato que praticamos traz benefícios e prejuízos aos outros, dependendo da ótica, só aumenta a banalidade do mal. Por vaidade, não admitimos para nós mesmos que estamos escolhendo algo que é simplesmente “mal”, embora no fundo percebamos nosso erro.

E é também por isso que existem tantas filosofias morais no mundo: podemos escolher aquela que serve melhor para cada escolha que nos convir.

Assim, como a maior parte dos seres humanos, o fundamentalista e o neonazista acreditam piamente que estão fazendo o certo, de que são pessoas fundamentalmente boas – homens de bem.

Ninguém, salvo poucos lunáticos presos emocionalmente na infância, acorda pela manhã e olha no espelho pensando “meus atos são a manifestação do Mal, e neste dia farei algumas maldades porque é disso que gosto”.

Contudo, se o mundo está repleto de guerras e populações inteiras estão famintas e oprimidas, enquanto degradamos irreversivelmente o meio ambiente, é porque – embora poucos pensem assim – muitos na prática agem de tal maneira.

Hoje, com as redes sociais, ficou mais fácil encontrarmos o mal em escolhas banais e, irrefletidamente, optarmos pelo caminho que nos conduz ao Mal.

Afinal, quase não refletimos antes de enviar uma mensagem hostil, pois é muito mais fácil praticar o mal quando não olhamos para os olhos de nossas vítimas, e sentimos que nosso interlocutor é apenas uma tela de smartphone ou computador.

Mas ninguém está a salvo de ir errando e errando até que em algum momento se veja aderindo à expressão de um grande e terrível Mal.

Hannah Arendt chama atenção justo para esse ponto importante: o grande mal que se manifestou no Holocausto da Segunda Guerra Mundial não teve como principais responsáveis esse ou aquele líder fascista, esse ou aquele tenente-coronel ou general.

Tais autoridades nada teriam feito sozinhas, isoladas, se uma numerosa população, protegida pelo anonimato e por estar dispensada de olhar milhões de vítimas nos olhos, não tivesse os apoiado e mantido no poder através de suas pequenas escolhas banais do dia-a-dia.

Mas por que razão escolhemos o Mal?

Em parte talvez por uma natural propensão à agressão, e em parte por sermos também naturalmente preguiçosos: afinal, se o mal é banal e se revela em pequenas situações do dia a dia, isso significa que precisamos estar constantemente atentos a cada detalhe do nosso cotidiano, assumindo integral responsabilidade pelo resultado das nossas decisões.

Na pressão dos compromissos e na constante pressa do tempo moderno, isso é difícil e pouco produtivo.

Cada pequena ação importa, e em cada escolha banal é que damos os passos necessários para ascendermos às mais nobres aspirações humanas, ou para afundarmos no abismo dos piores aspectos de nossa humanidade.

Essa foi uma das mais preciosas lições que uma das maiores mentes do século XX nos legou.


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escrito por:

Victor Lisboa

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