tempo nao é dinheiro

Tempo não é dinheiro

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruno BrazComentários

O regis­tro do tempo, atra­vés de calen­dá­rios, come­çou a ser usado na agri­cul­tura para geren­ciar o plan­tio de cul­tu­ras. Enquanto base­a­dos nos ciclos natu­rais do sol, da lua e das esta­ções, o efeito de seu dis­tan­ci­a­mento era mínimo, como demons­tra­vam os pri­mei­ros agri­cul­to­res e a forte liga­ção que ainda man­ti­nham com a natu­reza. Devido ao modo cíclico de men­su­ra­ção do tempo, esses pri­mei­ros calen­dá­rios não tinham a capa­ci­dade de con­tex­tu­a­li­zar o tempo, criar his­tó­ria ou con­tar os anos da vida de alguém.

Porém, com o sur­gi­mento do comér­cio expan­si­o­nista e do governo hie­rár­quico, logo tor­nou-se neces­sá­rio man­ter regis­tros sobre um longo período. Assim, as pes­soas come­ça­ram a con­tar os anos a par­tir, por exem­plo, do começo de uma dinas­tia, mol­dando o tempo de forma linear. A divi­são do dia em horas e a inven­ção da semana de 7 dias ape­nas refor­ça­ram este afas­ta­mento, cul­mi­nando na subs­ti­tui­ção de reló­gios cir­cu­la­res por digi­tais e, con­se­quen­te­mente, extin­guindo os últi­mos ves­tí­gios da liga­ção entre o tempo medido e os pro­ces­sos cícli­cos da natu­reza.

A sim­ples divi­são do dia em horas, outrora sufi­ci­ente, dei­xou de aten­der a indús­tria, que pas­sou a exi­gir uma pre­ci­são muito maior das ati­vi­da­des huma­nas. O desen­vol­vi­mento dos reló­gios mecâ­ni­cos, no fim da Idade Média, pre­pa­ra­ram o ter­reno para a Revo­lu­ção Indus­trial. Nas pala­vras de Lewis Mum­ford: “O reló­gio, não a máquina a vapor, é a chave da era indus­trial.” Quanto mais divi­di­mos e medi­mos o tempo, pri­meiro em horas, depois em minu­tos e segun­dos, menos pare­ce­mos tê-lo. 

As dinâ­mi­cas do reló­gio inva­dem e usur­pam nossa auto­no­mia sobre a vida, até ficar­mos todos “ali­nha­dos” num mesmo horá­rio — sin­cro­ni­za­dos numa mesma men­ta­li­dade. Um escravo deve ser pon­tual para seu mes­tre, um súdito, para seu rei. Hoje, esta­mos sujei­tos aos horá­rios impos­tos pelas máqui­nas e seus requi­si­tos: pre­ci­são, regu­la­ri­dade e padro­ni­za­ção. É agra­dá­vel pen­sar que as máqui­nas nos ser­vem, mas nossa cons­tante cor­rida pra estar­mos “no horá­rio” diz o con­trá­rio.

Lewis Mumford | tempo não é dinheiro

Lewis Mum­ford — o reló­gio cria o tempo mecâ­nico, estra­nho ao fluxo da vida natu­ral.

Imer­sos na medida linear do tempo, é difí­cil ava­liar a audá­cia de se divi­dir o dia em uni­da­des padrão cri­a­das pelo homem: horas, minu­tos e segun­dos — pro­po­si­tal­mente inde­pen­den­tes dos pro­ces­sos natu­rais. A ideia de que todos os segun­dos têm a mesma dura­ção pre­de­ter­mi­nada é tão nova quanto o reló­gio. Até recen­te­mente, não havia “7:13 da manhã”. O reló­gio tra­duz momen­tos divi­nos em roti­nas mun­da­nas. A medida do tempo ace­le­rou pro­fun­da­mente a sepa­ra­ção entre homem e natu­reza. Mum­ford ainda comenta:

Por sua pró­pria essên­cia, o reló­gio dis­so­ciou o tempo dos acon­te­ci­men­tos huma­nos e aju­dou a criar esta crença num mundo inde­pen­dente, de sequên­cias mate­ma­ti­ca­mente men­su­rá­veis: o espe­cial mundo da ciên­cia. Há pouco fun­da­mento para essa crença nas expe­ri­ên­cias huma­nas habi­tu­ais: os dias têm dura­ção variá­vel ao longo do ano, e não só a rela­ção entre dia e noite muda cons­tan­te­mente, mas uma ligeira via­gem do leste ao oeste já altera o tempo em alguns minu­tos. Com rela­ção ao pró­prio orga­nismo humano, o tempo mecâ­nico é ainda mais estra­nho: a vida humana pos­sui suas pró­prias regu­la­ri­da­des, basta obser­var que os bati­men­tos do cora­ção ou o ritmo da res­pi­ra­ção mudam de hora em hora de acordo com o humor e as ati­vi­da­des rea­li­za­das, e [num con­texto social] nem medi­mos um longo período de dias pelo calen­dá­rio, mas pelos even­tos que o ocu­pa­ram.”

Na ver­dade, o reló­gio trans­forma o tempo numa peça padro­ni­zada e sobres­sa­lente do Mundo-Máquina. O tempo, por­tanto, só se torna um pos­sí­vel objeto de comér­cio quando des­va­lo­ri­zado. Caso con­trá­rio, quem ven­de­ria seus momen­tos, cada um infi­ni­ta­mente pre­ci­oso, por um salá­rio? Quem redu­zi­ria o tempo, isto é, a pró­pria vida, em “ape­nas” dinheiro? O ditado, “tempo é dinheiro”, além de cruel, resume a pro­funda redu­ção do mundo e a escra­vi­dão do poten­cial humano.

thoreau tempo | tempo não é dinheiro

Não se admira que os revo­lu­ci­o­ná­rios de Paris, em 1830, saí­ram des­truindo os reló­gios da cidade. O pro­pó­sito fun­da­men­tal des­ses obje­tos não é a medida do tempo, mas a coor­de­na­ção da ati­vi­dade humana. Além desse, qual­quer pro­pó­sito é mera fic­ção, ape­nas um pre­texto: “O tempo não mede nada além de si pró­prio” (Tho­reau). A des­trui­ção dos reló­gios repre­sen­tou uma recusa em ven­der o pró­prio tempo, de se pro­gra­mar ou mol­dar a vida de acordo com uma neces­si­dade de espe­ci­a­li­za­ção em larga escala imposta pela soci­e­dade. Mais ainda, repre­sen­tou uma decla­ra­ção, “Vou viver minha pró­pria vida!”, res­ga­tando a valo­ri­za­ção do “agora”.

A vida pro­gra­mada e apres­sada é a vida de um escravo, cuja qual não lhe per­tence. Veja se esta sim­ples demons­tra­ção de domí­nio e poder não te parece fami­liar: “quando eu dis­ser venha, você virá.” — con­tro­lar o tempo de alguém é con­tro­lar sua vida. Na soci­e­dade atual, esta­mos per­ma­nen­te­mente ocu­pa­dos: ocu­pa­dos demais pra fazer o que que­re­mos; ocu­pa­dos demais pra apre­ciar uma refei­ção; ocu­pa­dos demais pra obser­var as nuvens; ocu­pa­dos demais pra brin­car com as cri­an­ças; ocu­pa­dos demais pra gas­tar mais tempo fazendo qual­quer coisa além do neces­sá­rio. O reló­gio torna o tempo escasso, e a vida, curta. Daí a nossa obses­são com­pul­siva diante de tec­no­lo­gias da soci­e­dade moderna e sua “tríade cool”: velo­ci­dade, efi­ci­ên­cia e con­ve­ni­ên­cia. Por que dia­bos pro­cu­ra­ría­mos che­gar mais rápido, fazer mais rápido, ter mais rápido, senão por acre­di­tar que nos­sos dias (tempo) estão con­ta­dos?

A ansi­e­dade do homem moderno vem, em grande parte, do sen­ti­mento de que não há tempo a per­der. Você deve estar sem­pre fazendo algo de útil. Você pre­cisa fazer com que cada minuto do seu dia seja pro­du­tivo. Se, antes de dor­mir, você não puder dizer que usou cada minuto do seu tempo pro­du­ti­va­mente, então parte da sua vida se per­deu, foi sim­ples­mente des­per­di­çada e nunca mais vol­tará. Afi­nal, qual­quer momento pode, e deve, ser uti­li­zado para exer­cer mais con­trole sob o mundo — tudo por uma vida melhor e com mais con­forto. Tal­vez, depois de maxi­mi­zar a chance de obter todas essas coi­sas, pode­re­mos gas­tar algum tempo com lazer, diver­são e recre­a­ção. Ora, “gas­tar algum tempo”? Essa metá­fora tem uma cono­ta­ção finan­ceira, não? Reflita, lei­tor, pois se tempo é dinheiro, pobre de nós.


Con­tri­bua para a con­ti­nui­dade de Ano Zero aqui.

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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