Fotografia em que Dilma olha, assombrada, para Temer.

Temer não quer mulheres em seu governo?

Em Consciência, Política, Sociedade por Renata CarvalhoComentários

Vinte e qua­tro minis­tros foram esco­lhi­dos para os minis­té­rios pelo atual pre­si­dente Michel Temer. Nenhuma mulher.

Ime­di­a­ta­mente, vários veí­cu­los de comu­ni­ca­ção, blogs e pági­nas no Face­book come­ça­ram a ques­ti­o­nar esse fato e tecer insi­nu­a­ções a par­tir dele. Não pre­tendo defen­der o recém-empos­sado pre­si­dente, mas não posso dei­xar de refle­tir sobre isso tudo, sem nega­ci­o­nis­mos.

É claro que, para o femi­nismo, a pre­sença de mulhe­res no Estado e em ins­ti­tui­ções pri­va­das importa. O femi­nismo pas­sou sécu­los lutando para que a mulher dei­xasse de ser vista exclu­si­va­mente como mãe e dona de casa, abrindo-se o leque de opções. Isso não foi feito ape­nas por capri­cho, mas por­que, pos­suindo com­pe­tên­cias inte­lec­tu­ais iguais às dos homens e, por­tanto, podendo rea­li­zar as mes­mas tare­fas inte­lec­tu­ais se assim dese­jas­sem, as mulhe­res deve­riam ser livres para isso.

Con­tudo, essa liber­dade de esco­lha não deve ser con­fun­dida com obri­ga­to­ri­e­dade de pre­sença. A repre­sen­ta­ção sim­bó­lica, que só pode ocor­rer por meio da pre­sença femi­nina na polí­tica, não pode — ou não deve­ria — ser imposta.

Nesse ponto, vale lem­brar que sim, repre­sen­ta­ti­vi­dade — não aquela da iden­ti­dade de sexo, cor, credo, ou quais­quer outras carac­te­rís­ti­cas indi­vi­du­ais mas a dos ide­ais aspi­ra­dos por um grupo — importa. É claro que é muito bom ter refe­rên­cias femi­ni­nas em diver­sas áreas da ati­vi­dade humana, seja nas ciên­cias, nas artes ou na polí­tica jus­ta­mente por­que isso repre­senta a colheita dos fru­tos plan­ta­dos por todas as pre­de­ces­so­ras que luta­ram pelo direito de que estas mulhe­res pudes­sem estar onde estão. Mas não é esse o pro­blema.

Precisamos de representação de ideias

As recla­ma­ções que vi sobre o fato do governo Temer não pos­suir nenhuma mulher se fecha­ram num raci­o­cí­nio sim­plista; “bem, com cer­teza isso é uma miso­gi­nia, afi­nal, com tanta mulher com­pe­tente, ele não cha­mou nenhuma” (sem falar na eterna dis­cus­são sobre a esposa ‘bela, reca­tada e do lar’ como sendo um claro sinal de miso­gi­nia ou sexismo das ten­dên­cias ide­o­ló­gi­cas do pre­si­dente). Criou-se a tese do sexismo e pronto: eis a pro­ble­ma­ti­za­ção dos movi­men­tos. Gos­ta­ria de ir além.

Em pri­meiro lugar, para que de fato tivés­se­mos uma boa repre­sen­ta­ti­vi­dade polí­tica, deve­ría­mos apren­der a votar em can­di­da­tos que defen­des­sem nos­sas ideias — por­que a mais útil repre­sen­ta­ção polí­tica é essa: a defesa de ideias. E, claro, os movi­men­tos soci­ais são uma boa sina­li­za­ção dos dese­jos e ide­ais dos gru­pos que os com­põem. Nos falta apren­der a jogar o jogo polí­tico; as ideias inte­res­san­tes são as que garan­tem mais votos. E estas ideias são conhe­ci­das pela expres­são da opi­nião pública, de gru­pos que as expres­sem. É a par­tir des­tas ideias que polí­ti­cos for­mam suas pla­ta­for­mas e são estas que repre­sen­tam seus elei­to­res — não os polí­ti­cos em si.

Uma demons­tra­ção inte­res­sante de como essa his­tó­ria de repre­sen­ta­ção sim­bó­lica (no caso, por gênero) é equi­vo­cada pode ser obser­vada em dois fatos rela­ti­va­mente recen­tes: a defesa de direi­tos sexu­ais e repro­du­ti­vos femi­ni­nos feita por homens, como acon­te­ceu no PL 882/2015, de auto­ria do depu­tado Jean Wyllys; e a cri­a­ção do Par­tido da Mulher Bra­si­leira, o qual tem em sua mai­o­ria homens e, até o momento em que esse texto é escrito, nenhuma pauta femi­nina… Por essa razão é que a repre­sen­ta­ção de ideias é algo muito mais impor­tante do que a repre­sen­ta­ção sim­bó­lica.

Imagem onde Djamylla Ribeiro fala sobre a ausência de ministras mulheres no governo Temer.

Comu­mente, as pes­soas pau­tam repre­sen­ta­ti­vi­dade sim­bó­lica sem per­ce­ber que a con­fun­dem com repre­sen­ta­ti­vi­dade de ideias. Afi­nal, não basta ser de deter­mi­nado gênero. Tem que pen­sar pare­cido.

Faltam mulheres na política

O ponto real­mente impor­tante que deve­ria estar sendo dis­cu­tido por aque­las que sen­tem neces­si­dade de um reflexo sim­bó­lico, e não ide­o­ló­gico, na polí­tica em geral, sendo as esco­lhas do Temer ape­nas um exem­plo iso­lado do motivo de insa­tis­fa­ção, ficou esque­cido: a mínima quan­ti­dade de mulhe­res par­ti­ci­pando da polí­tica.

Aca­ba­mos de pas­sar pelo período em que os par­ti­dos cole­tam assi­na­tu­ras de novos fili­a­dos. Vi mais de um par­tido con­vi­dando mulhe­res a se ins­cre­ve­rem, e mais de uma pes­soa ligada a esses par­ti­dos con­tando sobre a difi­cul­dade absurda de se con­se­guir essas assi­na­tu­ras.

Por quê? Por­que somos tão aris­cas ou mesmo desin­te­res­sa­das diante do assunto? A res­tri­ção his­tó­rica ali­ada ao reforço do papel tra­di­ci­o­nal da mulher pode ser uma hipó­tese. O ambi­ente pre­do­mi­nan­te­mente mas­cu­lino pare­cer pouco amis­toso pode ser outra. Ainda assim, o ide­a­lismo de algu­mas pre­va­le­ceu e elas que­bra­ram os este­reó­ti­pos. De Jan­dira Feghali a Tia Eron, pas­sando por Marina Silva, temos diver­sos exem­plos de mulhe­res na polí­tica. Ainda assim, numa quan­ti­dade menor que a de homens.

Não adi­anta nada repe­tir que fal­tam mulhe­res nos car­gos polí­ti­cos quando são pou­cas as inte­res­sa­das em seguir uma car­reira polí­tica. É se fixar no pro­blema e não olhar as cau­sas, para assim, solu­ci­oná-las. Consta que Michel Temer che­gou a nego­ciar pas­tas com Ellen Gra­cie, Ana Amé­lia e Renata Abreu mas, apa­ren­te­mente, elas recu­sa­ram ou foram impe­di­das por ques­tões par­ti­dá­rias. Con­si­de­rando-se o fisi­o­lo­gismo na polí­tica, os gover­nan­tes bus­cam se cer­car de uma base ali­ada para garan­tir a gover­na­bi­li­dade. Quando um se recusa a assu­mir o cargo, passa-se ao pró­ximo com o qual se tem alguma afi­ni­dade polí­tica. É bem mais pro­vá­vel que o esco­lhido seja um homem, sim­ples­mente pelo fato de haver pou­cas mulhe­res nessa área.

Enfim, o ponto real­mente impor­tante na polí­tica é o da repre­sen­ta­ti­vi­dade de ideias e pau­tas, não de sím­bo­los. Dito isso, qual­quer debate sobre ter­mos mais mulhe­res na polí­tica passa antes pelo passo de se esti­mu­lar mulhe­res a se inte­res­sa­rem por polí­tica e por uma car­reira na área, o que, por alguma razão, tem se mos­trado difí­cil. E pro­va­vel­mente con­ti­nu­ará sendo uma ques­tão sem res­posta enquanto todos dis­cu­ti­rem os efei­tos e não as cau­sas, con­fun­dindo pre­sença com repre­sen­ta­ti­vi­dade.


Nota do edi­tor: Renata Car­va­lho é nossa nova autora, bem como femi­nista libe­ral e admi­nis­tra­dora da página Femi­nismo Libe­ral, no Face­book. Vale a pena cur­tir sua página e acom­pa­nhar suas ideias.


Seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

A infan­ti­li­dade em excluir quem pensa dife­rente
Pre­si­dente da Repú­blica merece pedrada

Renata Carvalho
Feminista liberal, com alergia ao pós-modernismo. Administradora da página Feminismo Liberal no Facebook. Groselheira nas horas vagas.

Compartilhe