Vinte e quatro ministros foram escolhidos para os ministérios pelo atual presidente Michel Temer. Nenhuma mulher.

Imediatamente, vários veículos de comunicação, blogs e páginas no Facebook começaram a questionar esse fato e tecer insinuações a partir dele. Não pretendo defender o recém-empossado presidente, mas não posso deixar de refletir sobre isso tudo, sem negacionismos.

É claro que, para o feminismo, a presença de mulheres no Estado e em instituições privadas importa. O feminismo passou séculos lutando para que a mulher deixasse de ser vista exclusivamente como mãe e dona de casa, abrindo-se o leque de opções. Isso não foi feito apenas por capricho, mas porque, possuindo competências intelectuais iguais às dos homens e, portanto, podendo realizar as mesmas tarefas intelectuais se assim desejassem, as mulheres deveriam ser livres para isso.

Contudo, essa liberdade de escolha não deve ser confundida com obrigatoriedade de presença. A representação simbólica, que só pode ocorrer por meio da presença feminina na política, não pode – ou não deveria – ser imposta.

Nesse ponto, vale lembrar que sim, representatividade – não aquela da identidade de sexo, cor, credo, ou quaisquer outras características individuais mas a dos ideais aspirados por um grupo – importa. É claro que é muito bom ter referências femininas em diversas áreas da atividade humana, seja nas ciências, nas artes ou na política justamente porque isso representa a colheita dos frutos plantados por todas as predecessoras que lutaram pelo direito de que estas mulheres pudessem estar onde estão. Mas não é esse o problema.

Precisamos de representação de ideias

As reclamações que vi sobre o fato do governo Temer não possuir nenhuma mulher se fecharam num raciocínio simplista; “bem, com certeza isso é uma misoginia, afinal, com tanta mulher competente, ele não chamou nenhuma” (sem falar na eterna discussão sobre a esposa ‘bela, recatada e do lar’ como sendo um claro sinal de misoginia ou sexismo das tendências ideológicas do presidente). Criou-se a tese do sexismo e pronto: eis a problematização dos movimentos. Gostaria de ir além.

Em primeiro lugar, para que de fato tivéssemos uma boa representatividade política, deveríamos aprender a votar em candidatos que defendessem nossas ideias – porque a mais útil representação política é essa: a defesa de ideias. E, claro, os movimentos sociais são uma boa sinalização dos desejos e ideais dos grupos que os compõem. Nos falta aprender a jogar o jogo político; as ideias interessantes são as que garantem mais votos. E estas ideias são conhecidas pela expressão da opinião pública, de grupos que as expressem. É a partir destas ideias que políticos formam suas plataformas e são estas que representam seus eleitores – não os políticos em si.

Uma demonstração interessante de como essa história de representação simbólica (no caso, por gênero) é equivocada pode ser observada em dois fatos relativamente recentes: a defesa de direitos sexuais e reprodutivos femininos feita por homens, como aconteceu no PL 882/2015, de autoria do deputado Jean Wyllys; e a criação do Partido da Mulher Brasileira, o qual tem em sua maioria homens e, até o momento em que esse texto é escrito, nenhuma pauta feminina… Por essa razão é que a representação de ideias é algo muito mais importante do que a representação simbólica.

Imagem onde Djamylla Ribeiro fala sobre a ausência de ministras mulheres no governo Temer.
Comumente, as pessoas pautam representatividade simbólica sem perceber que a confundem com representatividade de ideias. Afinal, não basta ser de determinado gênero. Tem que pensar parecido.

Faltam mulheres na política

O ponto realmente importante que deveria estar sendo discutido por aquelas que sentem necessidade de um reflexo simbólico, e não ideológico, na política em geral, sendo as escolhas do Temer apenas um exemplo isolado do motivo de insatisfação, ficou esquecido: a mínima quantidade de mulheres participando da política.

Acabamos de passar pelo período em que os partidos coletam assinaturas de novos filiados. Vi mais de um partido convidando mulheres a se inscreverem, e mais de uma pessoa ligada a esses partidos contando sobre a dificuldade absurda de se conseguir essas assinaturas.

Por quê? Porque somos tão ariscas ou mesmo desinteressadas diante do assunto? A restrição histórica aliada ao reforço do papel tradicional da mulher pode ser uma hipótese. O ambiente predominantemente masculino parecer pouco amistoso pode ser outra. Ainda assim, o idealismo de algumas prevaleceu e elas quebraram os estereótipos. De Jandira Feghali a Tia Eron, passando por Marina Silva, temos diversos exemplos de mulheres na política. Ainda assim, numa quantidade menor que a de homens.

Não adianta nada repetir que faltam mulheres nos cargos políticos quando são poucas as interessadas em seguir uma carreira política. É se fixar no problema e não olhar as causas, para assim, solucioná-las. Consta que Michel Temer chegou a negociar pastas com Ellen Gracie, Ana Amélia e Renata Abreu mas, aparentemente, elas recusaram ou foram impedidas por questões partidárias. Considerando-se o fisiologismo na política, os governantes buscam se cercar de uma base aliada para garantir a governabilidade. Quando um se recusa a assumir o cargo, passa-se ao próximo com o qual se tem alguma afinidade política. É bem mais provável que o escolhido seja um homem, simplesmente pelo fato de haver poucas mulheres nessa área.

Enfim, o ponto realmente importante na política é o da representatividade de ideias e pautas, não de símbolos. Dito isso, qualquer debate sobre termos mais mulheres na política passa antes pelo passo de se estimular mulheres a se interessarem por política e por uma carreira na área, o que, por alguma razão, tem se mostrado difícil. E provavelmente continuará sendo uma questão sem resposta enquanto todos discutirem os efeitos e não as causas, confundindo presença com representatividade.


Nota do editor: Renata Carvalho é nossa nova autora, bem como feminista liberal e administradora da página Feminismo Liberal, no Facebook. Vale a pena curtir sua página e acompanhar suas ideias.


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escrito por:

Renata Carvalho

Feminista liberal, com alergia ao pós-modernismo. Administradora da página Feminismo Liberal no Facebook. Groselheira nas horas vagas.