Estamos criando um Talebã evangélico?

Em Consciência, Política, Sociedade por Douglas DoninComentário

Para quem não tem a reli­gião como uma de suas pri­o­ri­da­des na vida — o que é o caso da mai­o­ria da popu­la­ção, que mesmo não sendo irre­li­gi­osa trata a ques­tão de modo bas­tante casual — cer­tas figu­ras do meio e cer­tas prá­ti­cas mais hete­ro­do­xas pare­cem mero com­bus­tí­vel de piada. Não raro esque­tes de humor apre­sen­tam sáti­ras nesse sen­tindo, extraindo o ele­mento cômico da pura veris­si­mi­lhança com o pre­gado nos púl­pi­tos, sem neces­si­dade de apro­fun­dar a cari­ca­tura.

Para estes, que acham que a reli­gi­o­si­dade extrema e sua ade­rên­cia radi­cal a pre­cei­tos ela­bo­ra­dos em um pas­sado dis­tante, igno­rando lite­ral­mente milha­res de anos de desen­vol­vi­mento humano — ou de outro lado, no para­doxo de unir o feti­chismo tri­bal, de itens mági­cos e fei­ti­ços, ao mundo das tele­co­mu­ni­ca­ções moder­nas — são algo reser­vado a um con­texto social bas­tante res­trito, é sur­pre­en­dente e alar­mante ver este mundo antigo colo­car a botina na porta do mundo moderno, onde deve­riam impe­rar a liber­dade, a demo­cra­cia, a tole­rân­cia e a diver­si­dade. Uma estra­nheza ine­vi­tá­vel, uma sen­sa­ção de que são duas coi­sas essen­ci­al­mente opos­tas coli­dindo, deixa um gosto amargo na boca.

Por exem­plo, em plena cam­pa­nha elei­to­ral para Pre­si­dên­cia da Repú­blica — seri­ous busi­ness, como diría­mos, um dos mais sérios que pode­ría­mos ima­gi­nar em escala naci­o­nal — este mundo fol­cló­rico pare­ceu se agi­gan­tar por um momento sobre o nosso mundo de liber­da­des indi­vi­du­ais. E o pior, deu demons­tra­ções que este momento era como ape­nas uma zona de con­tato entre duas áreas que só no nosso ima­gi­ná­rio andam sepa­ra­das, mas que de fato cor­rem para­le­las, infi­ni­ta­mente pró­xi­mas, não se tocando ape­nas por exi­gên­cia for­mal em que nem uma nem outra de fato acre­di­tam como prin­cí­pio. A can­di­data Marina Silva — que nunca escon­deu sua reli­gi­o­si­dade mais acen­tu­ada, e que já con­fes­sou tomar deci­sões de alta polí­tica con­sul­tando ver­sí­cu­los da Bíblia — pare­ceu cla­ra­mente recuar em algu­mas pro­pos­tas após sofrer chan­ta­gem de Silas Mala­faia, um dos mais ver­bor­rá­gi­cos e agres­si­vos pole­mis­tas-pas­to­res do mundo do tele-evan­ge­lismo, ocor­ri­das pelo Twit­ter.

Coincidência?

Coin­ci­dên­cia?

Tal­vez nunca fique claro o nexo de cau­sa­li­dade, se é que ele exis­tiu, mas o fato é que o timing foi hor­rí­vel. As ten­ta­ti­vas de esca­par do assunto, pelo silên­cio, dei­xam ainda mais sus­peita a situ­a­ção toda. Mais do que per­ple­xi­dade pelo ocor­rido (o que tal­vez até se con­siga expli­car, com muito boa-von­tade, pela natu­reza da cor­rida elei­to­ral, onde os can­di­da­tos dão for­tes mer­gu­lhos no prag­ma­tismo vale-tudo para maxi­mi­zar sua capa­ci­dade de atrair públi­cos diver­sos) isso lança uma severa sus­peita sobre o poder que cer­tas mãos, que gos­ta­ría­mos ver longe do mundo da polí­tica, terão sobre os lemes do Governo no futuro.

A situ­a­ção, ampla­mente con­si­de­rada, é mais séria. O que vemos escan­ca­rado na cor­rida elei­to­ral é a ponta do ice­berg. Tal­vez nos­sos cír­cu­los soci­ais nos pri­vem do con­tato com esse cho­que — quan­tos de nós temos conhe­ci­dos radi­cal­mente devo­tos? — mas, em outros pon­tos da soci­e­dade a vál­vula não dá conta da pres­são. A guerra não se res­tringe a visões ou ideias, e desá­gua fre­quen­te­mente na vio­lên­cia. E, hoje, esta vio­lên­cia parece dire­ci­o­nada a um público espe­cí­fico.

Como par­ti­ci­pante do Con­se­lho Esta­dual de Diver­si­dade Reli­gi­osa do Rio Grande do Sul, pude tomar con­tato com algu­mas rea­li­da­des que falham em atin­gir os noti­ciá­rios. Segundo dados apre­sen­ta­dos pela Secre­ta­ria Naci­o­nal dos Direi­tos Huma­nos — que lan­çou uma linha direta para rece­ber denún­cias de vio­la­ções de Direi­tos Huma­nos, o dis­que 100 — há um triste padrão esta­tís­tico em ascen­são no Bra­sil, no que se refere a ocor­rên­cias de agres­são apa­ren­te­mente moti­va­das por into­le­rân­cia reli­gi­osa: de um lado, como vítima, em boa parte das vezes a mulher negra, repre­sen­tante ativa e iden­ti­fi­cada da reli­gi­o­si­dade de matriz afri­cana. De outro lado, como agres­sor, homem, jovem, pro­tes­tante de ver­tente pen­te­cos­tal ou neo­pen­te­cos­tal. O fenô­meno abarca cri­mes como homi­cí­dio, lesões cor­po­rais, ame­a­ças e danos patri­mo­ni­ais. Infe­liz­mente, as esta­tís­ti­cas não são pre­ci­sas como deve­riam pois os canais de denún­cia ainda são pouco divul­ga­dos e, mui­tas vezes, ocor­rên­cias são regis­tra­das pela auto­ri­dade poli­cial como “bri­gas de vizi­nhos”, ou nem mesmo repor­ta­das pela comu­ni­dade às auto­ri­da­des.

O per­fil das víti­mas e agres­so­res vai ao encon­tro à tese de que o ódio é um fenô­meno holís­tico: mis­tura-se em boa parte dos casos, na agres­são, o ódio pela dife­rença de reli­gião, de gênero, de cor. Empi­lha­dos, esses fato­res de dife­rença erguem uma torre de into­le­rân­cia ins­tá­vel. O com­po­nente reli­gi­oso ape­nas adi­ci­ona um com­po­nente no cal­dei­rão, infe­liz­mente, às vezes o com­po­nente que fal­tava para a mis­tura trans­bor­dar.

Santos quebrados em igreja católica, Montes Claros. O agressor era ligado a igrejas neopentecostais.

San­tos que­bra­dos em igreja cató­lica, Mon­tes Cla­ros. O agres­sor era ligado a igre­jas neo­pen­te­cos­tais.

Ora, a reli­gião é um ele­mento agre­ga­dor, e como ele­mento agre­ga­dor tem uma dupla face: se, por um lado, traz uni­dade a um grupo, por outro torna mais con­tras­tante a con­di­ção de dife­rente de quem não está nesse grupo. Per­ten­cer a um grupo, ao mesmo tempo, eleva uma per­cep­ção sobre a igual­dade (o que é comum aos com­po­nen­tes) e con­so­lida uma per­cep­ção sobre a dife­rença (o que é comum aos estra­nhos). É o mesmo efeito que cria ani­mo­si­dade entre tor­ci­das de fute­bol: rapi­da­mente, o fato que cau­sou a clas­si­fi­ca­ção entre os gru­pos (tor­cer para o time X ou o time Y) perde impor­tân­cia, e a pró­pria divi­são dos gru­pos (o “nós” con­tra “eles”) assume pre­pon­de­rân­cia na esca­lada da ani­mo­si­dade. É natu­ral do ser humano, gre­gá­rio e com um pas­sado de com­pe­ti­ção tri­bal, odiar o povo da caverna ao lado, que ame­aça nos­sas cere­jas e java­lis. Se não há caver­nas, que cri­e­mos alguma.

Assu­mindo isso como natu­ral (o que não jus­ti­fica nada: ape­nas serve para iden­ti­fi­car e aler­tar sobre ten­dên­cias) resta ques­ti­o­nar: qual o papel da reli­gi­o­si­dade espe­cí­fica nesse caso? Fosse outra a reli­gião do agres­sor ou do agre­dido have­ria alguma dife­rença? Se, diga­mos, o agres­sor fosse cató­lico ou espí­rita, ou o agre­dido fosse budista ou wic­cano, o cená­rio con­ti­nu­a­ria o mesmo?

Bem, há de se fazer algu­mas con­si­de­ra­ções.

Pri­meiro, há um con­flito de demo­gra­fia entre as reli­giões envol­vi­das. O cres­ci­mento pro­tes­tante, prin­ci­pal­mente pentecostal/neopentecostal se deu sobre um público com carac­te­rís­ti­cas espe­cí­fi­cas, atraindo um fiel peri­fé­rico, com meno­res con­di­ções econô­mi­cas, soci­ais e edu­ca­ci­o­nais. Bus­cando evi­tar um con­flito direto com a Igreja Cató­lica, já con­so­li­dada (cujo método de fide­li­za­ção é oposto, opera dos cen­tros em dire­ção às peri­fe­rias), e apos­tando em um dis­curso vol­tado ao mate­ri­al­mente desam­pa­rado (prin­ci­pal­mente por meio da cha­mada Teo­lo­gia da Pros­pe­ri­dade), fin­cou o pé no espaço natu­ral da reli­gião de matriz afri­cana, que ocupa esta posi­ção em decor­rên­cia direta da peri­fe­ri­za­ção da popu­la­ção negra – deter­mi­nada his­to­ri­ca­mente.

O famoso episódio do "chute na santa", pelo bispo Sérgio von Helder, até hoje emblemático no que se refere à disseminação da intolerância.

O famoso epi­só­dio do “chute na santa”, pelo bispo Sér­gio von Hel­der, até hoje emble­má­tico no que se refere à dis­se­mi­na­ção da into­le­rân­cia.

Este con­flito fica bem claro pela esco­lha das armas. O pentecostal/neopentecostal logo apro­priou-se de um voca­bu­lá­rio estra­nho à ter­mi­no­lo­gia cristã tra­di­ci­o­nal, reti­rado do colo­qui­a­lismo afri­cano: “encosto”, “tra­ba­lho”, “olho gordo”, “ter­reiro”, etc. Nomeou seus demô­nios como “exus”, e iden­ti­fi­cou como fei­ti­cei­ros os “pais-de-encosto”. Encheu os seus pro­gra­mas de TV com rela­tos mági­cos de pac­tos com demô­nios fei­tos durante a prá­tica da reli­gi­o­si­dade afri­cana, “tes­te­mu­nhos” de ato­res que se diziam ex-con­ju­ra­do­res das enti­da­des do pan­teão afri­cano, etc (de fato, o domí­nio da comu­ni­ca­ção de massa, com com­pra de horá­rios popu­la­res em gran­des emis­so­ras, faci­li­tou atin­gir esse público. Não é à toa que Mala­faia, per­so­na­gem já citado no iní­cio do texto, pos­sui o poder que tem).

A guerra estava armada, e o fiel (que não é cha­mado assim por acaso) enten­deu o recado mais do que o pró­prio emis­sor. Embora razo­a­vel­mente tole­rante com a reli­gião alheia (é um fiel móvel que, tra­di­ci­o­nal­mente, pro­cura a reli­gião cató­lica para bati­zar os filhos ou cele­brar casa­men­tos, ou os tem­plos espí­ri­tas para rece­ber “pas­ses” e outras bên­çãos), ali ele viu exposta uma ques­tão moral ime­di­ata: era ques­tão de bem con­tra o mal. O fato de ocu­pa­rem pra­ti­ca­mente os mes­mos espa­ços trans­for­mou a ques­tão em um con­flito de trin­chei­ras, onde somente um exér­cito foi avi­sado para levar armas.

Outro fator é que, dife­ren­te­mente das reli­giões oci­den­tais comuns – às quais se adere, de forma com­par­ti­men­ta­li­zada, reser­vando a ela um espaço deli­mi­tado da vida – a reli­gi­o­si­dade afri­cana é, a exem­plo do judaísmo, uma con­di­ção que se funde com a pró­pria con­di­ção étnica. Não há um limite muito claro onde acaba a reli­gião e onde começa a cul­tura afri­cana – por exem­plo, a música -, e onde aca­bam estas e onde começa a expe­ri­ên­cia étnica. Não se ataca a reli­gião afri­cana sem se ata­car o “ser negro”, assim como não se ataca o judaísmo sem se ata­car o “ser judeu”. Pedir para que um des­tes rene­gue sua reli­gião é, em boa medida, pedir para que rene­gue a si mesmo. E isso gera imensa angús­tia: o negro mais impres­si­o­ná­vel pas­sou a sen­tir culpa da pró­pria con­di­ção étnica. Uma das vál­vu­las de escape foi ata­car a si mesmo, na pes­soa do seu igual: eu mato o meu eu ina­de­quado, peca­dor, idó­la­tra, des­truindo o meu espe­lho. Que, nesse caso, infe­liz­mente é ofe­re­cido pelo con­ví­vio comu­ni­tá­rio como uma pes­soa de carne e osso.

Não é de se espan­tar, então, notí­cias que dão conta de mesmo fac­ções cri­mi­no­sas esco­lhe­rem lados nessa guerra uni­la­te­ral. Desde pelo menos 2008 há rela­tos de inva­são de locais de culto afri­cano, por gru­pos arma­dos liga­dos ao trá­fico de dro­gas, for­çando o des­bande das reu­niões, a expul­são de sacer­do­tes da comu­ni­dade e mesmo a proi­bi­ção de indu­men­tá­ria típica do culto, como rou­pas intei­ra­mente bran­cas, com casos regis­tra­dos em Vaz Lobo e Vicente de Car­va­lho, na zona norte da cidade. No Rio de Janeiro o fenô­meno já foi tema de inves­ti­ga­ção pelo Minis­té­rio Público, mas con­ti­nua a ocor­rer. Em 2013, foram regis­tra­das expul­sões de envol­vi­dos com as prá­ti­cas afri­ca­nas e proi­bi­ção de rou­pas bran­cas, tam­bém pelas mãos dos tra­fi­can­tes, no Lins de Vas­con­ce­los e na Pavuna. O número de líde­res reli­gi­o­sos ame­a­ça­dos passa de 40.

Com uma teo­lo­gia de rela­ti­va­mente fácil ade­são – que liga a “sal­va­ção” do fiel à acei­ta­ção das figu­ras da mito­lo­gia, sem exi­gir mudança radi­cal de com­por­ta­mento – o pen­te­cos­ta­lismo e, prin­ci­pal­mente, o neo­pen­te­cos­ta­lismo, ainda têm uma van­ta­gem na arre­gi­men­ta­ção pela força: fre­quen­te­mente há uma sim­bi­ose de peque­nas igre­jas – isen­tas de demons­tra­ção con­tá­bil — fun­da­das sob enco­menda, como escala inter­me­diá­ria de divi­sas no pro­cesso de lava­gem de dinheiro do trá­fico. Trata-se de mais um prisma nesse con­flito.

Um outro prisma é polí­tico. Ofe­re­cendo uma visão abso­luta de mundo, uma reli­gião de cará­ter mes­si­â­nico firma um com­pro­misso com a pró­pria iner­rân­cia. Pouco vale uma pres­cri­ção abso­luta, como amos­tra abso­luta da Ver­dade, se esta ver­dade é rela­ti­vi­zada pela pró­pria mudança da soci­e­dade. Uma solu­ção para esse des­com­passo, cri­ada pelas reli­giões, é a for­ma­ção de ban­ca­das legis­la­ti­vas, que uti­li­zando força coer­ci­tiva esta­tal bus­cam pro­te­ger o con­junto de pre­cei­tos ofe­re­ci­dos aos fiéis, enver­ni­zando-os como imu­tá­veis por força de lei. Se a soci­e­dade anda além da dog­má­tica, que se lhe algeme as per­nas: o dogma deve ser pro­te­gido da sua obso­les­cên­cia.

Para­le­la­mente, a lei tam­bém é uti­li­zada para cons­tran­ger aspec­tos cola­te­rais das prá­ti­cas reli­gi­o­sas mino­ri­tá­rias, embora com rou­pa­gens de pre­o­cu­pa­ções lai­cas: é muito comum que em pro­pos­tas legis­la­ti­vas des­ti­na­das, por exem­plo, a regu­lar o direito de vizi­nhança e redu­ção de emis­sões sono­ras, exista algum tipo de pre­vi­são sele­tiva que emba­race jus­ta­mente o fun­ci­o­na­mento dos tem­plos afri­ca­nos, como por exem­plo esti­pu­la­ção de jane­las de horá­rios que coin­ci­dam, proi­bi­tiva e per­mis­si­va­mente, jus­ta­mente com os horá­rios de um ou outro culto. Não que seja novi­dade his­tó­rica: em outras épo­cas, a legis­la­ção penal tam­bém foi feita em alfai­a­ta­ria para se ajus­tar exa­ta­mente às prá­ti­cas afri­ca­nas.

A Ban­cada Evan­gé­lica.

A reli­gião afri­cana tam­bém encon­tra obs­tá­cu­los até no Judi­ciá­rio, que deve­ria ofe­re­cer um ter­reno mais neu­tro e pon­de­rado de aná­lise do pro­blema con­creto. Em uma recente deci­são, notá­vel pelos cri­té­rios ad hoc uti­li­za­dos pelo juiz, foi deci­dido que o Can­dom­blé e a Umbanda sim­ples­mente… não eram reli­giões. Segundo a defi­ni­ção impro­vi­sada pelo juiz, uma reli­gião obri­ga­to­ri­a­mente deve­ria ser mono­teísta (como o cris­ti­a­nismo), pos­suir uma hie­rar­quia ins­ti­tu­ci­o­nal (como o cris­ti­a­nismo) e ter um livro sagrado (como o cris­ti­a­nismo). Tudo o que falhasse em espe­lhar o cris­ti­a­nismo não seria, segundo o meri­tís­simo juízo, uma reli­gião, por­tanto, não goza­ria de pro­te­ção pela lei como tal. Essa deci­são feliz­mente foi refor­mada, mas não sem escân­dalo e recla­ma­ção.

Infe­liz­mente, é um pro­blema social grave que falha em sen­si­bi­li­zar o cida­dão médio pela baixa ade­são às reli­giões de matriz afri­cana, hoje cla­ra­mente os ocu­pan­tes da trin­cheira mais bom­bar­de­ada pelo avanço do con­ser­va­do­rismo reli­gi­oso – duvi­dosa honra que com­par­ti­lham, tam­bém, com mino­rias sexu­ais. A per­gunta é: sendo a ocu­pa­ção do pró­prio Estado um obje­tivo da reli­gião ins­ti­tu­ci­o­nal­mente orga­ni­zada, por meio de um plano esta­be­le­cido de poder, pode­mos con­tar com ele para que esta trin­cheira não caia? E quando esta trin­cheira cair, quem estará na segunda linha?

Vale lem­brar a tática de Napo­leão, que, encon­trando um exér­cito mais forte e nume­roso, mano­brava o exér­cito fran­cês para que­brar a linha ini­miga e posi­ci­o­nar-se de modo a divi­dir a força adver­sá­ria em duas, lin­dando pri­meiro com uma, depois com outra metade. Na guerra da tole­rân­cia reli­gi­osa, a reli­gi­o­si­dade tra­di­ci­o­nal afri­cana parece ter sido a força iso­lada. O pior é que o res­tante da soci­e­dade, de quem ela foi cor­tada, parece sequer reco­nhe­cer que está imerso no con­flito.

Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".

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