Para quem não tem a religião como uma de suas prioridades na vida – o que é o caso da maioria da população, que mesmo não sendo irreligiosa trata a questão de modo bastante casual – certas figuras do meio e certas práticas mais heterodoxas parecem mero combustível de piada. Não raro esquetes de humor apresentam sátiras nesse sentindo, extraindo o elemento cômico da pura verissimilhança com o pregado nos púlpitos, sem necessidade de aprofundar a caricatura.

Para estes, que acham que a religiosidade extrema e sua aderência radical a preceitos elaborados em um passado distante, ignorando literalmente milhares de anos de desenvolvimento humano – ou de outro lado, no paradoxo de unir o fetichismo tribal, de itens mágicos e feitiços, ao mundo das telecomunicações modernas – são algo reservado a um contexto social bastante restrito, é surpreendente e alarmante ver este mundo antigo colocar a botina na porta do mundo moderno, onde deveriam imperar a liberdade, a democracia, a tolerância e a diversidade. Uma estranheza inevitável, uma sensação de que são duas coisas essencialmente opostas colidindo, deixa um gosto amargo na boca.

Por exemplo, em plena campanha eleitoral para Presidência da República – serious business, como diríamos, um dos mais sérios que poderíamos imaginar em escala nacional – este mundo folclórico pareceu se agigantar por um momento sobre o nosso mundo de liberdades individuais. E o pior, deu demonstrações que este momento era como apenas uma zona de contato entre duas áreas que só no nosso imaginário andam separadas, mas que de fato correm paralelas, infinitamente próximas, não se tocando apenas por exigência formal em que nem uma nem outra de fato acreditam como princípio. A candidata Marina Silva – que nunca escondeu sua religiosidade mais acentuada, e que já confessou tomar decisões de alta política consultando versículos da Bíblia – pareceu claramente recuar em algumas propostas após sofrer chantagem de Silas Malafaia, um dos mais verborrágicos e agressivos polemistas-pastores do mundo do tele-evangelismo, ocorridas pelo Twitter.

Coincidência?
Coincidência?

Talvez nunca fique claro o nexo de causalidade, se é que ele existiu, mas o fato é que o timing foi horrível. As tentativas de escapar do assunto, pelo silêncio, deixam ainda mais suspeita a situação toda. Mais do que perplexidade pelo ocorrido (o que talvez até se consiga explicar, com muito boa-vontade, pela natureza da corrida eleitoral, onde os candidatos dão fortes mergulhos no pragmatismo vale-tudo para maximizar sua capacidade de atrair públicos diversos) isso lança uma severa suspeita sobre o poder que certas mãos, que gostaríamos ver longe do mundo da política, terão sobre os lemes do Governo no futuro.

A situação, amplamente considerada, é mais séria. O que vemos escancarado na corrida eleitoral é a ponta do iceberg. Talvez nossos círculos sociais nos privem do contato com esse choque – quantos de nós temos conhecidos radicalmente devotos? – mas, em outros pontos da sociedade a válvula não dá conta da pressão. A guerra não se restringe a visões ou ideias, e deságua frequentemente na violência. E, hoje, esta violência parece direcionada a um público específico.

Como participante do Conselho Estadual de Diversidade Religiosa do Rio Grande do Sul, pude tomar contato com algumas realidades que falham em atingir os noticiários. Segundo dados apresentados pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos – que lançou uma linha direta para receber denúncias de violações de Direitos Humanos, o disque 100 – há um triste padrão estatístico em ascensão no Brasil, no que se refere a ocorrências de agressão aparentemente motivadas por intolerância religiosa: de um lado, como vítima, em boa parte das vezes a mulher negra, representante ativa e identificada da religiosidade de matriz africana. De outro lado, como agressor, homem, jovem, protestante de vertente pentecostal ou neopentecostal. O fenômeno abarca crimes como homicídio, lesões corporais, ameaças e danos patrimoniais. Infelizmente, as estatísticas não são precisas como deveriam pois os canais de denúncia ainda são pouco divulgados e, muitas vezes, ocorrências são registradas pela autoridade policial como “brigas de vizinhos”, ou nem mesmo reportadas pela comunidade às autoridades.

O perfil das vítimas e agressores vai ao encontro à tese de que o ódio é um fenômeno holístico: mistura-se em boa parte dos casos, na agressão, o ódio pela diferença de religião, de gênero, de cor. Empilhados, esses fatores de diferença erguem uma torre de intolerância instável. O componente religioso apenas adiciona um componente no caldeirão, infelizmente, às vezes o componente que faltava para a mistura transbordar.

Santos quebrados em igreja católica, Montes Claros. O agressor era ligado a igrejas neopentecostais.
Santos quebrados em igreja católica, Montes Claros. O agressor era ligado a igrejas neopentecostais.

Ora, a religião é um elemento agregador, e como elemento agregador tem uma dupla face: se, por um lado, traz unidade a um grupo, por outro torna mais contrastante a condição de diferente de quem não está nesse grupo. Pertencer a um grupo, ao mesmo tempo, eleva uma percepção sobre a igualdade (o que é comum aos componentes) e consolida uma percepção sobre a diferença (o que é comum aos estranhos). É o mesmo efeito que cria animosidade entre torcidas de futebol: rapidamente, o fato que causou a classificação entre os grupos (torcer para o time X ou o time Y) perde importância, e a própria divisão dos grupos (o “nós” contra “eles”) assume preponderância na escalada da animosidade. É natural do ser humano, gregário e com um passado de competição tribal, odiar o povo da caverna ao lado, que ameaça nossas cerejas e javalis. Se não há cavernas, que criemos alguma.

Assumindo isso como natural (o que não justifica nada: apenas serve para identificar e alertar sobre tendências) resta questionar: qual o papel da religiosidade específica nesse caso? Fosse outra a religião do agressor ou do agredido haveria alguma diferença? Se, digamos, o agressor fosse católico ou espírita, ou o agredido fosse budista ou wiccano, o cenário continuaria o mesmo?

Bem, há de se fazer algumas considerações.

Primeiro, há um conflito de demografia entre as religiões envolvidas. O crescimento protestante, principalmente pentecostal/neopentecostal se deu sobre um público com características específicas, atraindo um fiel periférico, com menores condições econômicas, sociais e educacionais. Buscando evitar um conflito direto com a Igreja Católica, já consolidada (cujo método de fidelização é oposto, opera dos centros em direção às periferias), e apostando em um discurso voltado ao materialmente desamparado (principalmente por meio da chamada Teologia da Prosperidade), fincou o pé no espaço natural da religião de matriz africana, que ocupa esta posição em decorrência direta da periferização da população negra – determinada historicamente.

O famoso episódio do "chute na santa", pelo bispo Sérgio von Helder, até hoje emblemático no que se refere à disseminação da intolerância.
O famoso episódio do “chute na santa”, pelo bispo Sérgio von Helder, até hoje emblemático no que se refere à disseminação da intolerância.

Este conflito fica bem claro pela escolha das armas. O pentecostal/neopentecostal logo apropriou-se de um vocabulário estranho à terminologia cristã tradicional, retirado do coloquialismo africano: “encosto”, “trabalho”, “olho gordo”, “terreiro”, etc. Nomeou seus demônios como “exus”, e identificou como feiticeiros os “pais-de-encosto”. Encheu os seus programas de TV com relatos mágicos de pactos com demônios feitos durante a prática da religiosidade africana, “testemunhos” de atores que se diziam ex-conjuradores das entidades do panteão africano, etc (de fato, o domínio da comunicação de massa, com compra de horários populares em grandes emissoras, facilitou atingir esse público. Não é à toa que Malafaia, personagem já citado no início do texto, possui o poder que tem).

A guerra estava armada, e o fiel (que não é chamado assim por acaso) entendeu o recado mais do que o próprio emissor. Embora razoavelmente tolerante com a religião alheia (é um fiel móvel que, tradicionalmente, procura a religião católica para batizar os filhos ou celebrar casamentos, ou os templos espíritas para receber “passes” e outras bênçãos), ali ele viu exposta uma questão moral imediata: era questão de bem contra o mal. O fato de ocuparem praticamente os mesmos espaços transformou a questão em um conflito de trincheiras, onde somente um exército foi avisado para levar armas.

Outro fator é que, diferentemente das religiões ocidentais comuns – às quais se adere, de forma compartimentalizada, reservando a ela um espaço delimitado da vida – a religiosidade africana é, a exemplo do judaísmo, uma condição que se funde com a própria condição étnica. Não há um limite muito claro onde acaba a religião e onde começa a cultura africana – por exemplo, a música -, e onde acabam estas e onde começa a experiência étnica. Não se ataca a religião africana sem se atacar o “ser negro”, assim como não se ataca o judaísmo sem se atacar o “ser judeu”. Pedir para que um destes renegue sua religião é, em boa medida, pedir para que renegue a si mesmo. E isso gera imensa angústia: o negro mais impressionável passou a sentir culpa da própria condição étnica. Uma das válvulas de escape foi atacar a si mesmo, na pessoa do seu igual: eu mato o meu eu inadequado, pecador, idólatra, destruindo o meu espelho. Que, nesse caso, infelizmente é oferecido pelo convívio comunitário como uma pessoa de carne e osso.

Não é de se espantar, então, notícias que dão conta de mesmo facções criminosas escolherem lados nessa guerra unilateral. Desde pelo menos 2008 há relatos de invasão de locais de culto africano, por grupos armados ligados ao tráfico de drogas, forçando o desbande das reuniões, a expulsão de sacerdotes da comunidade e mesmo a proibição de indumentária típica do culto, como roupas inteiramente brancas, com casos registrados em Vaz Lobo e Vicente de Carvalho, na zona norte da cidade. No Rio de Janeiro o fenômeno já foi tema de investigação pelo Ministério Público, mas continua a ocorrer. Em 2013, foram registradas expulsões de envolvidos com as práticas africanas e proibição de roupas brancas, também pelas mãos dos traficantes, no Lins de Vasconcelos e na Pavuna. O número de líderes religiosos ameaçados passa de 40.

Com uma teologia de relativamente fácil adesão – que liga a “salvação” do fiel à aceitação das figuras da mitologia, sem exigir mudança radical de comportamento – o pentecostalismo e, principalmente, o neopentecostalismo, ainda têm uma vantagem na arregimentação pela força: frequentemente há uma simbiose de pequenas igrejas – isentas de demonstração contábil – fundadas sob encomenda, como escala intermediária de divisas no processo de lavagem de dinheiro do tráfico. Trata-se de mais um prisma nesse conflito.

Um outro prisma é político. Oferecendo uma visão absoluta de mundo, uma religião de caráter messiânico firma um compromisso com a própria inerrância. Pouco vale uma prescrição absoluta, como amostra absoluta da Verdade, se esta verdade é relativizada pela própria mudança da sociedade. Uma solução para esse descompasso, criada pelas religiões, é a formação de bancadas legislativas, que utilizando força coercitiva estatal buscam proteger o conjunto de preceitos oferecidos aos fiéis, envernizando-os como imutáveis por força de lei. Se a sociedade anda além da dogmática, que se lhe algeme as pernas: o dogma deve ser protegido da sua obsolescência.

Paralelamente, a lei também é utilizada para constranger aspectos colaterais das práticas religiosas minoritárias, embora com roupagens de preocupações laicas: é muito comum que em propostas legislativas destinadas, por exemplo, a regular o direito de vizinhança e redução de emissões sonoras, exista algum tipo de previsão seletiva que embarace justamente o funcionamento dos templos africanos, como por exemplo estipulação de janelas de horários que coincidam, proibitiva e permissivamente, justamente com os horários de um ou outro culto. Não que seja novidade histórica: em outras épocas, a legislação penal também foi feita em alfaiataria para se ajustar exatamente às práticas africanas.

A Bancada Evangélica.

A religião africana também encontra obstáculos até no Judiciário, que deveria oferecer um terreno mais neutro e ponderado de análise do problema concreto. Em uma recente decisão, notável pelos critérios ad hoc utilizados pelo juiz, foi decidido que o Candomblé e a Umbanda simplesmente… não eram religiões. Segundo a definição improvisada pelo juiz, uma religião obrigatoriamente deveria ser monoteísta (como o cristianismo), possuir uma hierarquia institucional (como o cristianismo) e ter um livro sagrado (como o cristianismo). Tudo o que falhasse em espelhar o cristianismo não seria, segundo o meritíssimo juízo, uma religião, portanto, não gozaria de proteção pela lei como tal. Essa decisão felizmente foi reformada, mas não sem escândalo e reclamação.

Infelizmente, é um problema social grave que falha em sensibilizar o cidadão médio pela baixa adesão às religiões de matriz africana, hoje claramente os ocupantes da trincheira mais bombardeada pelo avanço do conservadorismo religioso – duvidosa honra que compartilham, também, com minorias sexuais. A pergunta é: sendo a ocupação do próprio Estado um objetivo da religião institucionalmente organizada, por meio de um plano estabelecido de poder, podemos contar com ele para que esta trincheira não caia? E quando esta trincheira cair, quem estará na segunda linha?

Vale lembrar a tática de Napoleão, que, encontrando um exército mais forte e numeroso, manobrava o exército francês para quebrar a linha inimiga e posicionar-se de modo a dividir a força adversária em duas, lindando primeiro com uma, depois com outra metade. Na guerra da tolerância religiosa, a religiosidade tradicional africana parece ter sido a força isolada. O pior é que o restante da sociedade, de quem ela foi cortada, parece sequer reconhecer que está imerso no conflito.

escrito por:

Douglas Donin

Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site “Duvido”.


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