“O herói é o homem da submissão autoconquistada.”
~ Joseph Campbell


Achei o filme Batman vs Superman bem acima do esperado. Da forma como os trailers têm iludido os cinéfilos ultimamente, pensei que a parte mais interessante da trama, a construção da oposição entre Batman e Superman fosse ocupar uns 30 minutos de filme. Para minha surpresa, o filme é realmente embasado inteiramente nesse embate, não necessariamente montado só em cima de ação.

Se eu pudesse levantar dois elementos principais nesse filme, diria que o primeiro foi a direção acertada do Zack Snyder. O diretor conseguiu traduzir para a telona perfeitamente o aspecto misterioso e grandioso da figura do Superman. Quando você olha as cenas com o azulão consegue perceber que ele realmente é um ser poderoso e invulnerável, que é uma espécie de divindade ou de ser superior de alguma forma, tanto em caráter quanto em materialidade.

E isso me levou a alguns questionamentos sobre o personagem.

O homem da submissão autoconquistada

O cinema tem nos bombardeado com filmes de heróis. Marvel e DC disputam os corações de seus fãs tão ardorosamente quanto seus admiradores discutem qual universo tem os heróis mais dignos, mais majestosos e mais realistas.

Esses seres super-poderosos do cinema norte-americano são pessoas diferentes, construídas por histórias diferentes, então podemos seguramente dizer que nenhum desses são, na ficção, iguais um ao outro. Mas todos eles compartilham algo: o desejo por perpetrar o bem e a justiça sempre prevalecem, por mais que seus métodos às vezes variem.

Contudo, parece que essa busca pela grandiosidade está fora de moda, ou pelo menos estamos tão pouco acostumados a ver isso na vida real que estamos perdendo a fé na existência de pessoas que, pelo menos ocasionalmente, podem buscar esses ideais superiores. Esse é um dos motivos pelos quais personagens como o Homem de Ferro crescem em termos de popularidade, e outros, como Super Homem, decrescem e começam a ser vistos como cafonas e chatos.

Na vida real é comum que o poder corrompa. Geralmente somos capazes de tantas infrações quanto nossa quantidade de poder permite. Se somos políticos, vamos roubar milhões, fazer dezenas de parcerias e grandes concessões e correr o risco de afundar uma nação. Se somos donos de uma empresa, vamos faltar e inventar uma desculpa, vamos fazer caixa dois e às vezes até violar direitos trabalhistas. Do mesmo modo, cobradores de ônibus às vezes pedem para o passageiro entrar pela porta de trás e pagar o dinheiro da passagem.

Como, então, podemos explicar, mesmo no universo da ficção, heróis como Superman, um alienígena kryptoniano? Clark Kent nem é humano, não nasceu na Terra, mas mesmo assim parece ter adotado esse mundo e jurado servir aos mais altos valores, salvando fracos e oprimidos.

superman

No entanto, existe um elefante na sala:

  1. Com todo seu poder quase divino, por que ele simplesmente não se retrai em seu egoísmo e deixa o mundo pegar fogo?
  2. Por que não esmaga os governos opressores de uma vez? Por que não tira a vida daqueles que tiram a vida de várias outras pessoas, já que para isso bastaria um peteleco?
  3. Por que ele próprio não governa o mundo e tenta estabelecer um pouco de ordem?
  4. Por que o poder parece não ter corrompido Kal-El?

Para começar a responder a todas essas perguntas, temos que destrinchar um dilema ainda mais básico, que é o do heroísmo. O que um indivíduo precisa ter para ser chamado de herói?

Super-heróis realmente são heróis?

Dê uma olhada em qualquer dicionário no termo herói e você encontrará algo como isto:

herói (sm): 1- Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados. 2- Aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra. 3- Principal personagem de uma obra literária (poema, romance, peça de teatro etc.) ou cinematográfica. 4- Principal personagem de uma aventura, de um acontecimento.

O primeiro significado reflete a noção grega antiga dos heróis. Eles eram homens responsáveis por feitos extraordinários, o que tinha a ver com habilidades também extraordinárias herdadas de sua origem divina.

Isso pode ser usado para pensar nos heróis que são apresentados a nós no mundo de hoje. Thor é um ser divino que encontrou aqui na Terra sua redenção, pois era egoísta e arrogante em Asgard, sua terra natal. Desde então, ele dedica seus dias a tentar salvar a Terra, ao lado dos outros Vingadores, das mais perigosas ameaças. O Homem de Ferro é um bilionário e gênio que, apesar de sua arrogância e narcisismo, tenta usar sua armadura indestrutível em favor dos fracos e oprimidos.

A mesma coisa serve para o Homem-Aranha, que ganhou singulares habilidades ao ser picado por uma aranha radioativa (ou geneticamente modificada, segundo versões atuais) nos últimos anos de sua adolescência. Assim como os outros, ele resolveu ultrapassar seus limites individuais e utilizar essas habilidades para servir a um propósito maior, quando poderia optar em simplesmente usar seus poderes para ser popular no colégio e conquistar garotas.

avengers superman

Talvez o mais clássico de todos esses seja o Super-Homem, um ser de outro planeta que foi mandado para a Terra ainda bebê por seu pai, enquanto seu planeta de origem – Krypton – era destruído. Clark Kent, como passa a ser chamado pela sua família adotiva, aprende bons modos e o valor da vida durante sua criação no Kansas, com pais fazendeiros.

É inegável que o Super Homem seja super, mas há aqueles que dizem que ele não é herói. O motivo é simples: heróis são aqueles capazes de ações extraordinárias, mas, se olharmos de certo ângulo, quão extraordinário seria para Clark Kent salvar um banco de um assalto se ele nem mesmo pode ser ferido por uma bala? Para ele, é como tirar doce de criança. Em outras palavras, não há nada de incrível nisso pois não há sacrifício. Conclusão: o Homem de Aço, assim como os outros, não pode ser um herói de verdade.

Outro possível aspecto contraditório é que o termo super-herói soa redundante. Se o herói já é capaz de agir extraordinariamente, o que um super-herói deveria ter de fazer para ser considerado como tal, ou seja, ainda mais fora da curva do que um herói já seria? No entanto, suponho que esses problemas possam ser respondidos levando em conta outro aspecto ainda mais essencial: os valores, o que, consequentemente, nos leva a considerar em nossa lista mais seriamente heróis sem poderes, como Batman.

O heroísmo depende, sobretudo, dos valores

O mundo fictício dos quadrinhos apresenta uma realidade onde o número de personagens super-poderosos é bem grande, mas nem todos são heróis. E o que distingue uns dos outros são os valores – ou, pelo menos, o compromisso em agir em concordância com eles. O que faz com que o Superman escolha servir e proteger os cidadãos da Terra se nem mesmo humano ele é e se muitas vezes os humanos até vão contra ele, interpretando mal seus atos benevolentes?

Já me fiz essa pergunta várias vezes, inclusive com relação a outros personagens, e, dessa vez, Mark Waid, um quadrinista que escreveu um dos capítulos do livro Super-Heróis e a Filosofia, me ajudou a visualizar uma das respostas, enquanto o historiador e filósofo Stehen Evans me inspirou com a outra. Inesperadamente, essas respostas passam pelos tortuosos caminhos da filosofia.

Apesar dos óbvios aspectos proselitistas, Waid cita um interessante texto que achou na internet:

“Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é o de sermos poderosos além das medidas. O que mais nos assusta é a nossa luz, não a nossa escuridão. Quem sou eu para ser brilhante, bela, talentosa, fabulosa? Na verdade, quem você é para não ser tudo isso? Você é filho de Deus. Bancar o insignificante não presta um serviço ao mundo. Nada há de iluminado em se diminuir para os outros não se sentirem inseguros perto de você. Todos fomos feitos para brilhar, como brilham as crianças. Nós nascemos para manifestar a glória de Deus, que está dentro de nós. Não está só em algumas pessoas, mas em todas. E, quando deixamos nossa luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. Quando nos livramos de nosso medo, nossa presença automaticamente libera os outros.” (Marianne Williamson, A Return to Love: Reflections on the Principles of a Course in Miracles, New York: Harper Collins, 1992).

Tornar-se aquilo que se é

Clark Kent parece ter achado um jeito de agir de forma condizente com essas palavras. O fato de ele ser um alienígena de uma espécie da qual ele é o único representante vivo, faz com que se sinta o ser mais solitário do universo. À noite, sobrevoando Metrópolis ele olha para a imensidão do céu negro estrelado e pensa que, por mais que faça algo por esse mundo, ele continua sendo um extraterrestre. Ele não pertence a esse lugar. Até quando tenta fazer o bem, seus poderes fazem qualquer um notar que há algo de diferente, algo de errado. Na mesma linha, ver um ser semi-divino solto por aí gera muitas desconfianças, principalmente quando as consequências de suas melhores intenções acabam causando danos à cidade. Para o cidadão assistindo a isso de longe, pode existir uma linha tênue entre fazer o bem e fazer o mal.

No entanto, o cerne do argumento é que onde o kryptoniano poderia encontrar motivos para se isolar e se deprimir, encontra seu antídoto, o motivo para viver plenamente e para ser, de fato, o que ele é.

Aristóteles, explorando os motivos mais básicos que fazem a felicidade do homem, especulou muito sabiamente que um desses fundamentos é viver com excelência, o que é bastante compatível com o que Williamson diz (no texto lá em cima).

sêneca homem elevado superman

Superman faz isso de maneira sem igual, o que faz alguns chamarem-no de escoteiro. Quando caiu na Terra, na fazenda dos Kent, o pequeno Kal-El possuía apenas duas coisas. Uma delas era uma espécie de Ipad mostrando em imagens e no idioma de Krypton a história de seu povo. Eles pareciam ser mais ou menos como os terráqueos, sempre desbravando novas terras e se orgulhando de serem o que são, apesar de parecerem bem mais sábios do que nossa espécie. E sempre que chegavam a uma nova conquista, uma nova localidade, utilizavam uma bandeira azul e vermelha com uma letra parecida com um S, para marcar a vitória. E esse era o outro item que veio para a Terra com Clark, uma bandeira do seu povo (na última adaptação cinematográfica, O Homem de Aço, o S pareceu tomar o significado de esperança, sendo o uniforme uma espécie de roupa de baixo usada pelos kryptonianos).

Quando o tímido jornalista resolve usar suas habilidades especiais para o bem de todos, ele assume uma identidade secreta e utiliza como disfarce um uniforme com as cores e símbolo de Krypton. Resolve ser aquilo que ele é e mostrar para todos, sem medo e sem hesitação. E, de certa forma, esse é o modo mais próximo e digno que existe de se unir à sua verdadeira família, de honrar seus iguais extintos e, ainda, de se sentir um deles. Kal-El não é um terráqueo e não tenta ser um, tem orgulho de ser um estrangeiro neste planeta e tenta mostrar isso usando sua natureza em benefício de todos.

Entretanto, quando não está com a cueca por cima da calça (se bem que as versões mais atuais do herói não contam com esse adereço), ele é o discreto e tímido jornalista Clark Kent, mas isso de forma alguma pode ser usado na contra-mão do que já foi dito, como modo de dizer que há uma tentativa de esconder sua verdadeira forma. Kent faz isso principalmente para manter em segurança as pessoas pelas quais preza e que poderiam ser utilizadas por seus desafetos como objeto de chantagem ou coisa pior.

Além disso, esse é um meio que ele encontrou de se manter perto e socializar com os humanos, sendo encarado como tal, e assim entender o que é ser um deles. É como o mito do divino que se faz humano e habita a Terra junto com os reles mortais (não estou falando só de Jesus, pois existem vários mitos pelo mundo que seguem esse arquétipo). Seria muito fácil que um ser assim fosse tratado com temor reverencial suficiente para aniquilar suas chances de caminhar tranquilamente pelas ruas. Um gigante nunca caminharia normalmente por aí.

Assim, acho que podemos já considerá-lo sim um herói. Ele não possui muitas fraquezas físicas que possam ser um empecilho para suas ações, mas certamente se sacrificar em nome de outros é sempre uma atitude digna do mais puro heroísmo. Além disso, o Homem de Aço tem pontos fracos que precisam ser constantemente revistos para que sua mais justa ferramenta não se torne objeto de opressão, e para que sua integridade não se torne tão rígida a ponto de roubar a liberdade de escolha dos outros.

A maldição do Minotauro e o risco do ego  

Em um mundo onde somente o indivíduo parece importar, o hedonismo e o desejo de poder parecem ser tendências interligadas e que são preferidas em detrimento de virtudes um dia mais exaltadas e mais praticadas que hoje (pelo menos em tese; na prática parece que o homem não decaiu em termos de sabedoria).

Disciplina e valores são características indispensáveis aos heróis da ficção e da realidade. Pois o poder sozinho pode conduzir a caminhos tortuosos para nós e para os que estão ao nosso redor. De certa forma, antes mesmo da filosofia, a mitologia vinha mostrando essa lição há milênios. É essa a mensagem que está implícita no mito do Minotauro, por exemplo.

minotauro superman

O monstro com cabeça de touro e corpo de homem é uma consequência do grande ego do rei de Creta, Minos. Ele governava sob a bênção dos deuses, especialmente de Poseidon, com quem tinha um trato. Periodicamente, Poseidon mandava um touro de beleza sem igual para que o rei o sacrificasse em sua homenagem.

Mas Minos tinha várias cabeças de gado e, um dia, ao ver aquele imponente touro branco como uma nuvem, resolveu engambelar Poseidon. Ao invés de sacrificar o touro enviado, sacrificou um de seus próprios, que era belíssimo mas não chegava à beleza do touro divino. Feito isso, uniu o touro branco aos seus outros, certo de que tinha passado a perna no rei dos mares.

No entanto, um dia, sua esposa, a rainha, viu a beleza do animal e, transformando-se numa vaca, acasalou com o bicho. Dessa relação nasceu um terrível monstro, o Minotauro, que envergonhou tanto o rei que pediu a Dédalo, habilidoso inventor, para construir um labirinto destinado a aprisionar a criatura. Esse monstro, de um ponto de vista psicológico, representa o próprio ego de Minos.

De certa forma, as revistas em quadrinhos e seus personagens heroicos são uma continuidade da constatação humana ao longo das eras de que o ego não é algo a ser cultivado, mas extinto, e que um dos modos de fazer isso – e também um dos reflexos do sucesso na tarefa – é se dedicar a servir ao próximo.

Assim, mesmo numa época onde valores como disciplina (para usar corretamente os poderes sem ser consumido por eles) e sacrifício são ignorados, os heróis dos quadrinhos parecem estar aí para nos mostrar que essa sabedoria ainda existe, o que se manifesta especialmente na figura do Homem de Aço, rico em poder mas também detentor das atitudes corretas para usá-lo como ferramenta em prol do bem comum, não pra aproveitamento próprio.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.