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Superman: o que faz um herói de verdade?

Em Comportamento por Felipe NovaesComentários

O herói é o homem da sub­mis­são auto­con­quis­tada.”
~ Joseph Camp­bell


Achei o filme Bat­man vs Super­man bem acima do espe­rado. Da forma como os trai­lers têm ilu­dido os ciné­fi­los ulti­ma­mente, pen­sei que a parte mais inte­res­sante da trama, a cons­tru­ção da opo­si­ção entre Bat­man e Super­man fosse ocu­par uns 30 minu­tos de filme. Para minha sur­presa, o filme é real­mente emba­sado intei­ra­mente nesse embate, não neces­sa­ri­a­mente mon­tado só em cima de ação.

Se eu pudesse levan­tar dois ele­men­tos prin­ci­pais nesse filme, diria que o pri­meiro foi a dire­ção acer­tada do Zack Sny­der. O dire­tor con­se­guiu tra­du­zir para a telona per­fei­ta­mente o aspecto mis­te­ri­oso e gran­di­oso da figura do Super­man. Quando você olha as cenas com o azu­lão con­se­gue per­ce­ber que ele real­mente é um ser pode­roso e invul­ne­rá­vel, que é uma espé­cie de divin­dade ou de ser supe­rior de alguma forma, tanto em cará­ter quanto em mate­ri­a­li­dade.

E isso me levou a alguns ques­ti­o­na­men­tos sobre o per­so­na­gem.

O homem da submissão autoconquistada

O cinema tem nos bom­bar­de­ado com fil­mes de heróis. Mar­vel e DC dis­pu­tam os cora­ções de seus fãs tão ardo­ro­sa­mente quanto seus admi­ra­do­res dis­cu­tem qual uni­verso tem os heróis mais dig­nos, mais majes­to­sos e mais rea­lis­tas.

Esses seres super-pode­ro­sos do cinema norte-ame­ri­cano são pes­soas dife­ren­tes, cons­truí­das por his­tó­rias dife­ren­tes, então pode­mos segu­ra­mente dizer que nenhum des­ses são, na fic­ção, iguais um ao outro. Mas todos eles com­par­ti­lham algo: o desejo por per­pe­trar o bem e a jus­tiça sem­pre pre­va­le­cem, por mais que seus méto­dos às vezes variem.

Con­tudo, parece que essa busca pela gran­di­o­si­dade está fora de moda, ou pelo menos esta­mos tão pouco acos­tu­ma­dos a ver isso na vida real que esta­mos per­dendo a fé na exis­tên­cia de pes­soas que, pelo menos oca­si­o­nal­mente, podem bus­car esses ide­ais supe­ri­o­res. Esse é um dos moti­vos pelos quais per­so­na­gens como o Homem de Ferro cres­cem em ter­mos de popu­la­ri­dade, e outros, como Super Homem, decres­cem e come­çam a ser vis­tos como cafo­nas e cha­tos.

Na vida real é comum que o poder cor­rompa. Geral­mente somos capa­zes de tan­tas infra­ções quanto nossa quan­ti­dade de poder per­mite. Se somos polí­ti­cos, vamos rou­bar milhões, fazer deze­nas de par­ce­rias e gran­des con­ces­sões e cor­rer o risco de afun­dar uma nação. Se somos donos de uma empresa, vamos fal­tar e inven­tar uma des­culpa, vamos fazer caixa dois e às vezes até vio­lar direi­tos tra­ba­lhis­tas. Do mesmo modo, cobra­do­res de ôni­bus às vezes pedem para o pas­sa­geiro entrar pela porta de trás e pagar o dinheiro da pas­sa­gem.

Como, então, pode­mos expli­car, mesmo no uni­verso da fic­ção, heróis como Super­man, um ali­e­ní­gena kryp­to­ni­ano? Clark Kent nem é humano, não nas­ceu na Terra, mas mesmo assim parece ter ado­tado esse mundo e jurado ser­vir aos mais altos valo­res, sal­vando fra­cos e opri­mi­dos.

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No entanto, existe um ele­fante na sala: 

  1. Com todo seu poder quase divino, por que ele sim­ples­mente não se retrai em seu egoísmo e deixa o mundo pegar fogo? 
  2. Por que não esmaga os gover­nos opres­so­res de uma vez? Por que não tira a vida daque­les que tiram a vida de várias outras pes­soas, já que para isso bas­ta­ria um pete­leco?
  3. Por que ele pró­prio não governa o mundo e tenta esta­be­le­cer um pouco de ordem? 
  4. Por que o poder parece não ter cor­rom­pido Kal-El?

Para come­çar a res­pon­der a todas essas per­gun­tas, temos que des­trin­char um dilema ainda mais básico, que é o do heroísmo. O que um indi­ví­duo pre­cisa ter para ser cha­mado de herói? 

Super-heróis realmente são heróis?

Dê uma olhada em qual­quer dici­o­ná­rio no termo herói e você encon­trará algo como isto:

herói ℠: 1– Nome dado pelos gre­gos aos gran­des homens divi­ni­za­dos. 2– Aquele que se dis­tin­gue por seu valor ou por suas ações extra­or­di­ná­rias, prin­ci­pal­mente por fei­tos bri­lhan­tes durante a guerra. 3– Prin­ci­pal per­so­na­gem de uma obra lite­rá­ria (poema, romance, peça de tea­tro etc.) ou cine­ma­to­grá­fica. 4– Prin­ci­pal per­so­na­gem de uma aven­tura, de um acon­te­ci­mento.

O pri­meiro sig­ni­fi­cado reflete a noção grega antiga dos heróis. Eles eram homens res­pon­sá­veis por fei­tos extra­or­di­ná­rios, o que tinha a ver com habi­li­da­des tam­bém extra­or­di­ná­rias her­da­das de sua ori­gem divina.

Isso pode ser usado para pen­sar nos heróis que são apre­sen­ta­dos a nós no mundo de hoje. Thor é um ser divino que encon­trou aqui na Terra sua reden­ção, pois era egoísta e arro­gante em Asgard, sua terra natal. Desde então, ele dedica seus dias a ten­tar sal­var a Terra, ao lado dos outros Vin­ga­do­res, das mais peri­go­sas ame­a­ças. O Homem de Ferro é um bili­o­ná­rio e gênio que, ape­sar de sua arro­gân­cia e nar­ci­sismo, tenta usar sua arma­dura indes­tru­tí­vel em favor dos fra­cos e opri­mi­dos.

A mesma coisa serve para o Homem-Ara­nha, que ganhou sin­gu­la­res habi­li­da­des ao ser picado por uma ara­nha radi­o­a­tiva (ou gene­ti­ca­mente modi­fi­cada, segundo ver­sões atu­ais) nos últi­mos anos de sua ado­les­cên­cia. Assim como os outros, ele resol­veu ultra­pas­sar seus limi­tes indi­vi­du­ais e uti­li­zar essas habi­li­da­des para ser­vir a um pro­pó­sito maior, quando pode­ria optar em sim­ples­mente usar seus pode­res para ser popu­lar no colé­gio e con­quis­tar garo­tas.

avengers superman

Tal­vez o mais clás­sico de todos esses seja o Super-Homem, um ser de outro pla­neta que foi man­dado para a Terra ainda bebê por seu pai, enquanto seu pla­neta de ori­gem – Kryp­ton – era des­truído. Clark Kent, como passa a ser cha­mado pela sua famí­lia ado­tiva, aprende bons modos e o valor da vida durante sua cri­a­ção no Kan­sas, com pais fazen­dei­ros.

É ine­gá­vel que o Super Homem seja super, mas há aque­les que dizem que ele não é herói. O motivo é sim­ples: heróis são aque­les capa­zes de ações extra­or­di­ná­rias, mas, se olhar­mos de certo ângulo, quão extra­or­di­ná­rio seria para Clark Kent sal­var um banco de um assalto se ele nem mesmo pode ser ferido por uma bala? Para ele, é como tirar doce de cri­ança. Em outras pala­vras, não há nada de incrí­vel nisso pois não há sacri­fí­cio. Con­clu­são: o Homem de Aço, assim como os outros, não pode ser um herói de ver­dade.

Outro pos­sí­vel aspecto con­tra­di­tó­rio é que o termo super-herói soa redun­dante. Se o herói já é capaz de agir extra­or­di­na­ri­a­mente, o que um super-herói deve­ria ter de fazer para ser con­si­de­rado como tal, ou seja, ainda mais fora da curva do que um herói já seria? No entanto, supo­nho que esses pro­ble­mas pos­sam ser res­pon­di­dos levando em conta outro aspecto ainda mais essen­cial: os valo­res, o que, con­se­quen­te­mente, nos leva a con­si­de­rar em nossa lista mais seri­a­mente heróis sem pode­res, como Bat­man.

O heroísmo depende, sobretudo, dos valores

O mundo fic­tí­cio dos qua­dri­nhos apre­senta uma rea­li­dade onde o número de per­so­na­gens super-pode­ro­sos é bem grande, mas nem todos são heróis. E o que dis­tin­gue uns dos outros são os valo­res — ou, pelo menos, o com­pro­misso em agir em con­cor­dân­cia com eles. O que faz com que o Super­man esco­lha ser­vir e pro­te­ger os cida­dãos da Terra se nem mesmo humano ele é e se mui­tas vezes os huma­nos até vão con­tra ele, inter­pre­tando mal seus atos bene­vo­len­tes?

Já me fiz essa per­gunta várias vezes, inclu­sive com rela­ção a outros per­so­na­gens, e, dessa vez, Mark Waid, um qua­dri­nista que escre­veu um dos capí­tu­los do livro Super-Heróis e a Filo­so­fia, me aju­dou a visu­a­li­zar uma das res­pos­tas, enquanto o his­to­ri­a­dor e filó­sofo Stehen Evans me ins­pi­rou com a outra. Ines­pe­ra­da­mente, essas res­pos­tas pas­sam pelos tor­tu­o­sos cami­nhos da filo­so­fia.

Ape­sar dos óbvios aspec­tos pro­se­li­tis­tas, Waid cita um inte­res­sante texto que achou na inter­net:

Nosso medo mais pro­fundo não é o de ser­mos ina­de­qua­dos. Nosso medo mais pro­fundo é o de ser­mos pode­ro­sos além das medi­das. O que mais nos assusta é a nossa luz, não a nossa escu­ri­dão. Quem sou eu para ser bri­lhante, bela, talen­tosa, fabu­losa? Na ver­dade, quem você é para não ser tudo isso? Você é filho de Deus. Ban­car o insig­ni­fi­cante não presta um ser­viço ao mundo. Nada há de ilu­mi­nado em se dimi­nuir para os outros não se sen­ti­rem inse­gu­ros perto de você. Todos fomos fei­tos para bri­lhar, como bri­lham as cri­an­ças. Nós nas­ce­mos para mani­fes­tar a gló­ria de Deus, que está den­tro de nós. Não está só em algu­mas pes­soas, mas em todas. E, quando dei­xa­mos nossa luz bri­lhar, incons­ci­en­te­mente damos às outras pes­soas per­mis­são para fazer o mesmo. Quando nos livra­mos de nosso medo, nossa pre­sença auto­ma­ti­ca­mente libera os outros.” (Mari­anne Wil­li­am­son, A Return to Love: Reflec­ti­ons on the Prin­ci­ples of a Course in Mira­cles, New York: Har­per Col­lins, 1992).

Tornar-se aquilo que se é

Clark Kent parece ter achado um jeito de agir de forma con­di­zente com essas pala­vras. O fato de ele ser um ali­e­ní­gena de uma espé­cie da qual ele é o único repre­sen­tante vivo, faz com que se sinta o ser mais soli­tá­rio do uni­verso. À noite, sobre­vo­ando Metró­po­lis ele olha para a imen­si­dão do céu negro estre­lado e pensa que, por mais que faça algo por esse mundo, ele con­ti­nua sendo um extra­ter­res­tre. Ele não per­tence a esse lugar. Até quando tenta fazer o bem, seus pode­res fazem qual­quer um notar que há algo de dife­rente, algo de errado. Na mesma linha, ver um ser semi-divino solto por aí gera mui­tas des­con­fi­an­ças, prin­ci­pal­mente quando as con­sequên­cias de suas melho­res inten­ções aca­bam cau­sando danos à cidade. Para o cida­dão assis­tindo a isso de longe, pode exis­tir uma linha tênue entre fazer o bem e fazer o mal.

No entanto, o cerne do argu­mento é que onde o kryp­to­ni­ano pode­ria encon­trar moti­vos para se iso­lar e se depri­mir, encon­tra seu antí­doto, o motivo para viver ple­na­mente e para ser, de fato, o que ele é. 

Aris­tó­te­les, explo­rando os moti­vos mais bási­cos que fazem a feli­ci­dade do homem, espe­cu­lou muito sabi­a­mente que um des­ses fun­da­men­tos é viver com exce­lên­cia, o que é bas­tante com­pa­tí­vel com o que Wil­li­am­son diz (no texto lá em cima).

sêneca homem elevado superman

Super­man faz isso de maneira sem igual, o que faz alguns cha­ma­rem-no de esco­teiro. Quando caiu na Terra, na fazenda dos Kent, o pequeno Kal-El pos­suía ape­nas duas coi­sas. Uma delas era uma espé­cie de Ipad mos­trando em ima­gens e no idi­oma de Kryp­ton a his­tó­ria de seu povo. Eles pare­ciam ser mais ou menos como os ter­rá­queos, sem­pre des­bra­vando novas ter­ras e se orgu­lhando de serem o que são, ape­sar de pare­ce­rem bem mais sábios do que nossa espé­cie. E sem­pre que che­ga­vam a uma nova con­quista, uma nova loca­li­dade, uti­li­za­vam uma ban­deira azul e ver­me­lha com uma letra pare­cida com um S, para mar­car a vitó­ria. E esse era o outro item que veio para a Terra com Clark, uma ban­deira do seu povo (na última adap­ta­ção cine­ma­to­grá­fica, O Homem de Aço, o S pare­ceu tomar o sig­ni­fi­cado de espe­rança, sendo o uni­forme uma espé­cie de roupa de baixo usada pelos kryp­to­ni­a­nos).

Quando o tímido jor­na­lista resolve usar suas habi­li­da­des espe­ci­ais para o bem de todos, ele assume uma iden­ti­dade secreta e uti­liza como dis­farce um uni­forme com as cores e sím­bolo de Kryp­ton. Resolve ser aquilo que ele é e mos­trar para todos, sem medo e sem hesi­ta­ção. E, de certa forma, esse é o modo mais pró­ximo e digno que existe de se unir à sua ver­da­deira famí­lia, de hon­rar seus iguais extin­tos e, ainda, de se sen­tir um deles. Kal-El não é um ter­rá­queo e não tenta ser um, tem orgu­lho de ser um estran­geiro neste pla­neta e tenta mos­trar isso usando sua natu­reza em bene­fí­cio de todos. 

Entre­tanto, quando não está com a cueca por cima da calça (se bem que as ver­sões mais atu­ais do herói não con­tam com esse ade­reço), ele é o dis­creto e tímido jor­na­lista Clark Kent, mas isso de forma alguma pode ser usado na con­tra-mão do que já foi dito, como modo de dizer que há uma ten­ta­tiva de escon­der sua ver­da­deira forma. Kent faz isso prin­ci­pal­mente para man­ter em segu­rança as pes­soas pelas quais preza e que pode­riam ser uti­li­za­das por seus desa­fe­tos como objeto de chan­ta­gem ou coisa pior.

Além disso, esse é um meio que ele encon­trou de se man­ter perto e soci­a­li­zar com os huma­nos, sendo enca­rado como tal, e assim enten­der o que é ser um deles. É como o mito do divino que se faz humano e habita a Terra junto com os reles mor­tais (não estou falando só de Jesus, pois exis­tem vários mitos pelo mundo que seguem esse arqué­tipo). Seria muito fácil que um ser assim fosse tra­tado com temor reve­ren­cial sufi­ci­ente para ani­qui­lar suas chan­ces de cami­nhar tran­qui­la­mente pelas ruas. Um gigante nunca cami­nha­ria nor­mal­mente por aí.

Assim, acho que pode­mos já con­si­derá-lo sim um herói. Ele não pos­sui mui­tas fra­que­zas físi­cas que pos­sam ser um empe­ci­lho para suas ações, mas cer­ta­mente se sacri­fi­car em nome de outros é sem­pre uma ati­tude digna do mais puro heroísmo. Além disso, o Homem de Aço tem pon­tos fra­cos que pre­ci­sam ser cons­tan­te­mente revis­tos para que sua mais justa fer­ra­menta não se torne objeto de opres­são, e para que sua inte­gri­dade não se torne tão rígida a ponto de rou­bar a liber­dade de esco­lha dos outros. 

A maldição do Minotauro e o risco do ego 

Em um mundo onde somente o indi­ví­duo parece impor­tar, o hedo­nismo e o desejo de poder pare­cem ser ten­dên­cias inter­li­ga­das e que são pre­fe­ri­das em detri­mento de vir­tu­des um dia mais exal­ta­das e mais pra­ti­ca­das que hoje (pelo menos em tese; na prá­tica parece que o homem não decaiu em ter­mos de sabe­do­ria).

Dis­ci­plina e valo­res são carac­te­rís­ti­cas indis­pen­sá­veis aos heróis da fic­ção e da rea­li­dade. Pois o poder sozi­nho pode con­du­zir a cami­nhos tor­tu­o­sos para nós e para os que estão ao nosso redor. De certa forma, antes mesmo da filo­so­fia, a mito­lo­gia vinha mos­trando essa lição há milê­nios. É essa a men­sa­gem que está implí­cita no mito do Mino­tauro, por exem­plo.

minotauro superman

O mons­tro com cabeça de touro e corpo de homem é uma con­sequên­cia do grande ego do rei de Creta, Minos. Ele gover­nava sob a bên­ção dos deu­ses, espe­ci­al­mente de Posei­don, com quem tinha um trato. Peri­o­di­ca­mente, Posei­don man­dava um touro de beleza sem igual para que o rei o sacri­fi­casse em sua home­na­gem.

Mas Minos tinha várias cabe­ças de gado e, um dia, ao ver aquele impo­nente touro branco como uma nuvem, resol­veu engam­be­lar Posei­don. Ao invés de sacri­fi­car o touro envi­ado, sacri­fi­cou um de seus pró­prios, que era belís­simo mas não che­gava à beleza do touro divino. Feito isso, uniu o touro branco aos seus outros, certo de que tinha pas­sado a perna no rei dos mares. 

No entanto, um dia, sua esposa, a rai­nha, viu a beleza do ani­mal e, trans­for­mando-se numa vaca, aca­sa­lou com o bicho. Dessa rela­ção nas­ceu um ter­rí­vel mons­tro, o Mino­tauro, que enver­go­nhou tanto o rei que pediu a Dédalo, habi­li­doso inven­tor, para cons­truir um labi­rinto des­ti­nado a apri­si­o­nar a cri­a­tura. Esse mons­tro, de um ponto de vista psi­co­ló­gico, repre­senta o pró­prio ego de Minos. 

De certa forma, as revis­tas em qua­dri­nhos e seus per­so­na­gens heroi­cos são uma con­ti­nui­dade da cons­ta­ta­ção humana ao longo das eras de que o ego não é algo a ser cul­ti­vado, mas extinto, e que um dos modos de fazer isso – e tam­bém um dos refle­xos do sucesso na tarefa – é se dedi­car a ser­vir ao pró­ximo.

Assim, mesmo numa época onde valo­res como dis­ci­plina (para usar cor­re­ta­mente os pode­res sem ser con­su­mido por eles) e sacri­fí­cio são igno­ra­dos, os heróis dos qua­dri­nhos pare­cem estar aí para nos mos­trar que essa sabe­do­ria ainda existe, o que se mani­festa espe­ci­al­mente na figura do Homem de Aço, rico em poder mas tam­bém deten­tor das ati­tu­des cor­re­tas para usá-lo como fer­ra­menta em prol do bem comum, não pra apro­vei­ta­mento pró­prio.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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