“(…)  O “eu” é uma ficção útil,
como os centros de gravidade, na física.

~ Daniel Dennett


Hector acaba de voltar de uma palestra. O palestrante era um monge zen-budista. Ele não lia muito sobre budismo, mas simpatizava com o que sabia. De alguma forma, o que ouvia de novo sempre parecia já saber, mesmo que de forma intuitiva.

O monge não usava roupas especiais, de modo que a única coisa que o diferenciava de um leigo (quem não é monge) era a cabeça raspada. O corte era tão rente que Hector imaginou, por um segundo, poder ver seu reflexo ali.

O clérigo dissertou uma hora e meia sobre um tema intrigante, psicológico. Pensamos em nós mesmos como estruturas sólidas no tempo e espaço, imutáveis. Ao longo da vida, reificamos a nós mesmos. A mente aprende que é alguma coisa: uma mãe, um filho, um psiquiatra, um brasileiro. Essas são todas identidades que aprendemos, que ‘vestimos’ conforme exercemos certos papéis na sociedade. No entanto, o Zen visa enxergar além dessas formas.

“Quem sou eu de verdade?”, “Existiria um eu?”,  Hector saiu se perguntando aquela noite. Imaginou também as repercussões disso no que pensamos cotidianamente: “Como alguém poderia viver tendo abdicado desses eus?” Ah, a complexa simplicidade do Zen, que, no fundo, só tenta nos mostrar a simplicidade da vida. “A simplicidade é a máxima sofisticação”, disse Leonardo Da Vinci, um dos ídolos de Hector, que, por sua vez, foi reverenciado por outro ídolo seu, Steve Jobs.

O camarada saiu de lá entendendo que a maioria das pessoas, incluindo ele, são tão apegadas a essas identidades artificiais, que lutarão para proteger a integridade delas, caso sejam ameaçadas. É como Morpheus diz para Neo, em Matrix, que o poder de ilusão da matrix é tão intrincado que lutaremos contra aqueles que nos fizerem acordar para essa manipulação.

morpheus
O poder de ilusão é tão intrincado que lutaremos contra aqueles que nos fizerem acordar para essa manipulação.

Na volta para casa, no ônibus, lembrou que durante a Copa muitos brasileiros passaram a se sentir realmente brasileiros. É como se a presença dos gringos no país criasse uma espécie de alteridade, isto é, o patriotismo emergiu da presença estrangeira. Não que este seja muito presente em outras nações; “isso é algo complexo e escasso em tempos em que as fronteiras são diminuídas graças às relações de mercado” – lembrou Hector das antigas aulas de Geografia, anos atrás, em que sua professora martelava nesse ponto insistentemente.

“Hum…Então o monge poderia ter razão nisso. Aquilo que achamos que somos não é tão fixo assim”. Junto com essa constatação veio outra, sobre o verbo “ser”. Em nosso idioma, usamos o verbo no sentido mesmo de “ser”, relacionado à essência de algo, e querendo dizer, também, “estar”, que é temporário – apesar de termos o próprio verbo “estar” para esses casos. “Então, talvez seja sempre errado usar o verbo ‘ser’. Não me parece que as coisas tenham algo de imutável, ou essências.”

Essas são questões tradicionais para ele, estudante de Ciências Humanas. Aliás, também poderiam pulular nas redes sociais, através de um mimimi orquestrado e hipnótico, em que o lema é reclamar mesmo sem saber exatamente do que e nem como reparar o que está errado. Hector não é mais adolescente, mas faz parte de uma geração de pessoas que demoram a crescer. Isso significa que sim, seus amigos adultos ecoam essas exclamações pelo facebook e twitter. Tudo apego aos papéis reificados, reflexo do desejo de pertencimento.

Enfim, todas essas coisas ficaram zumbindo em sua cabeça. Mas ele subestimou o poder das identidades reificadas. Acima de tudo, menosprezou a sutileza de seu insidioso funcionamento. Ao pensar no patriotismo postiço da Copa, só ficou atento para as identificações com papéis mais globais, mais visíveis e menos traiçoeiros. Mas e os que agem insidiosamente em nosso cotidiano? Essas ninguém percebe, mas nunca tardam a se revelar.

No dia seguinte, ainda lembrando da palestra, estava atento e crítico a todo acontecimento, a toda reação emocional. Sentia euforia, talvez pela expectativa de observar no flagra alguns dos mecanismos que o monge apresentou aos convidados aquela noite. Talvez Hector tenha se esquecido de duas coisas: (1) observar com maior presteza a si mesmo, não os outros; (2) estar atento para as falhas mais improváveis. Normal.

Conversando com um amigo, percebeu que ficou irritado com algo que, aliás, acontecia recorrentemente e sempre suscitava nele as mesmas reações emocionais.

O que o amigo falou foi, provavelmente, em tom de uma descompromissada ironia. Isso já irritava o garoto. A necessidade que as pessoas tem de catucar umas às outras com piadinhas infames o tempo todo, cansava Hector.

Na conversa, o amigo, em determinado momento, disse que o gosto musical de Hector só abarcava rap. Foi mais ou menos assim: “Hey, seu gosto é tão boçal que você só ouve rap! HAHA”. Pelo menos foi assim nesses termos que Hector entendeu.

pharaos
Os Faraós do Antigo Egito nos lembram do atemporal processo da mente humana de agir no mundo de acordo com papéis, que passam a moldar e ditar aquilo que somos – ou parecemos ser.

Ele se identificava como um legítimo admirador do rock’n’roll  e todos os precursores desse estilo, além do soul de James Brown. Também gostava do rap de raiz, aquele estilo mais voltado à críticas sociais, meio Eminem às antigas – nada desses mais atuais, que só sabem falar de traseiros, pegação e boate. No entanto, o fato de poucas pessoas apreciarem a música séria e acharem que tudo se reduz à fanfarronice, era irritante e frustrante. Quando alguém falava que ele gostava de rap, era para dizer que ele tinha gosto apenas para letras rústicas e psicodelices eletrônicas e vozes metalizadas, era como ouvir a empregada robô dos Jetsons cantando.

No momento da brincadeira, sentiu o sangue ferver. Era como como se lava vulcânica estivesse fluindo para sua cabeça, com a erupção à caminho. Porém, antes de reagir, ele agiu. Antes de soltar alguma resposta rude, a imagem do dia anterior, com o monge sentado falando calmamente sobre nossas prisões identitárias, surgiu. Percebeu, então, que uma identidade traiçoeira como um aracnídeo tinha tomado conta da situação. Ele se identificava como roqueiro, admirador do rap, do soul, do blues. Gostos condensados numa única possível identidade, a do bom gosto musical. Era por se achar tal coisa que a negação dessa ‘verdade’ o ofendia tanto, mesmo que a ofensa não fosse um dado manifesto em sua consciência, agindo apenas inconscientemente, catapultando a raiva e a indignação.

Nesse momento ele percebeu que o processo de se tornar consciente das identidades mais cotidianas era o verdadeiro desafio. Entender que estamos vestidos com o uniforme de determinado time, ou que fazemos parte de determinado grupo social e político ou uma pátria, era fácil. Mas como convencer a si mesmo de que o seu gosto musical, na verdade, não é você mesmo? Como ter a experiência de ver a si mesmo para além das fantasias que vestimos diariamente para agir no mundo? O entendimento do vazio que perpassa essa situação, essa ‘identidade verdadeira’, é primordial, mas não passa pelo intelecto. Deve ser uma percepção súbita, uma experiência mesmo. Foi o que aconteceu, conforme Hector se deu conta, no momento em que, por um lapso, se percebeu vestindo a carapuça e se sentindo ofendido. Entender tudo isso era como sentir um golpe na cabeça, um banho gelado, um susto.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.