de quem é sua identidade

De quem é sua identidade?

Em Comportamento, Consciência por Felipe NovaesComentário

(…)  O “eu” é uma fic­ção útil,
como os cen­tros de gra­vi­dade, na física. 

~ Daniel Den­nett


Hec­tor acaba de vol­tar de uma pales­tra. O pales­trante era um monge zen-budista. Ele não lia muito sobre budismo, mas sim­pa­ti­zava com o que sabia. De alguma forma, o que ouvia de novo sem­pre pare­cia já saber, mesmo que de forma intui­tiva.

O monge não usava rou­pas espe­ci­ais, de modo que a única coisa que o dife­ren­ci­ava de um leigo (quem não é monge) era a cabeça ras­pada. O corte era tão rente que Hec­tor ima­gi­nou, por um segundo, poder ver seu reflexo ali.

O clé­rigo dis­ser­tou uma hora e meia sobre um tema intri­gante, psi­co­ló­gico. Pen­sa­mos em nós mes­mos como estru­tu­ras sóli­das no tempo e espaço, imu­tá­veis. Ao longo da vida, rei­fi­ca­mos a nós mes­mos. A mente aprende que é alguma coisa: uma mãe, um filho, um psi­qui­a­tra, um bra­si­leiro. Essas são todas iden­ti­da­des que apren­de­mos, que ‘ves­ti­mos’ con­forme exer­ce­mos cer­tos papéis na soci­e­dade. No entanto, o Zen visa enxer­gar além des­sas for­mas.

Quem sou eu de ver­dade?”, “Exis­ti­ria um eu?”,  Hec­tor saiu se per­gun­tando aquela noite. Ima­gi­nou tam­bém as reper­cus­sões disso no que pen­sa­mos coti­di­a­na­mente: “Como alguém pode­ria viver tendo abdi­cado des­ses eus?” Ah, a com­plexa sim­pli­ci­dade do Zen, que, no fundo, só tenta nos mos­trar a sim­pli­ci­dade da vida. “A sim­pli­ci­dade é a máxima sofis­ti­ca­ção”, disse Leo­nardo Da Vinci, um dos ído­los de Hec­tor, que, por sua vez, foi reve­ren­ci­ado por outro ídolo seu, Steve Jobs.

O cama­rada saiu de lá enten­dendo que a mai­o­ria das pes­soas, incluindo ele, são tão ape­ga­das a essas iden­ti­da­des arti­fi­ci­ais, que luta­rão para pro­te­ger a inte­gri­dade delas, caso sejam ame­a­ça­das. É como Morpheus diz para Neo, em Matrix, que o poder de ilu­são da matrix é tão intrin­cado que luta­re­mos con­tra aque­les que nos fize­rem acor­dar para essa mani­pu­la­ção.

morpheus

O poder de ilu­são é tão intrin­cado que luta­re­mos con­tra aque­les que nos fize­rem acor­dar para essa mani­pu­la­ção.

Na volta para casa, no ôni­bus, lem­brou que durante a Copa mui­tos bra­si­lei­ros pas­sa­ram a se sen­tir real­mente bra­si­lei­ros. É como se a pre­sença dos grin­gos no país cri­asse uma espé­cie de alte­ri­dade, isto é, o patri­o­tismo emer­giu da pre­sença estran­geira. Não que este seja muito pre­sente em outras nações; “isso é algo com­plexo e escasso em tem­pos em que as fron­tei­ras são dimi­nuí­das gra­ças às rela­ções de mer­cado” — lem­brou Hec­tor das anti­gas aulas de Geo­gra­fia, anos atrás, em que sua pro­fes­sora mar­te­lava nesse ponto insis­ten­te­mente.

Hum…Então o monge pode­ria ter razão nisso. Aquilo que acha­mos que somos não é tão fixo assim”. Junto com essa cons­ta­ta­ção veio outra, sobre o verbo “ser”. Em nosso idi­oma, usa­mos o verbo no sen­tido mesmo de “ser”, rela­ci­o­nado à essên­cia de algo, e que­rendo dizer, tam­bém, “estar”, que é tem­po­rá­rio — ape­sar de ter­mos o pró­prio verbo “estar” para esses casos. “Então, tal­vez seja sem­pre errado usar o verbo ‘ser’. Não me parece que as coi­sas tenham algo de imu­tá­vel, ou essên­cias.”

Essas são ques­tões tra­di­ci­o­nais para ele, estu­dante de Ciên­cias Huma­nas. Aliás, tam­bém pode­riam pulu­lar nas redes soci­ais, atra­vés de um mimimi orques­trado e hip­nó­tico, em que o lema é recla­mar mesmo sem saber exa­ta­mente do que e nem como repa­rar o que está errado. Hec­tor não é mais ado­les­cente, mas faz parte de uma gera­ção de pes­soas que demo­ram a cres­cer. Isso sig­ni­fica que sim, seus ami­gos adul­tos ecoam essas excla­ma­ções pelo face­book e twit­ter. Tudo apego aos papéis rei­fi­ca­dos, reflexo do desejo de per­ten­ci­mento.

Enfim, todas essas coi­sas fica­ram zum­bindo em sua cabeça. Mas ele subes­ti­mou o poder das iden­ti­da­des rei­fi­ca­das. Acima de tudo, menos­pre­zou a suti­leza de seu insi­di­oso fun­ci­o­na­mento. Ao pen­sar no patri­o­tismo pos­tiço da Copa, só ficou atento para as iden­ti­fi­ca­ções com papéis mais glo­bais, mais visí­veis e menos trai­ço­ei­ros. Mas e os que agem insi­di­o­sa­mente em nosso coti­di­ano? Essas nin­guém per­cebe, mas nunca tar­dam a se reve­lar.

No dia seguinte, ainda lem­brando da pales­tra, estava atento e crí­tico a todo acon­te­ci­mento, a toda rea­ção emo­ci­o­nal. Sen­tia eufo­ria, tal­vez pela expec­ta­tiva de obser­var no fla­gra alguns dos meca­nis­mos que o monge apre­sen­tou aos con­vi­da­dos aquela noite. Tal­vez Hec­tor tenha se esque­cido de duas coi­sas: (1) obser­var com maior pres­teza a si mesmo, não os outros; (2) estar atento para as falhas mais impro­vá­veis. Nor­mal.

Con­ver­sando com um amigo, per­ce­beu que ficou irri­tado com algo que, aliás, acon­te­cia recor­ren­te­mente e sem­pre sus­ci­tava nele as mes­mas rea­ções emo­ci­o­nais.

O que o amigo falou foi, pro­va­vel­mente, em tom de uma des­com­pro­mis­sada iro­nia. Isso já irri­tava o garoto. A neces­si­dade que as pes­soas tem de catu­car umas às outras com pia­di­nhas infa­mes o tempo todo, can­sava Hec­tor.

Na con­versa, o amigo, em deter­mi­nado momento, disse que o gosto musi­cal de Hec­tor só abar­cava rap. Foi mais ou menos assim: “Hey, seu gosto é tão boçal que você só ouve rap! HAHA. Pelo menos foi assim nes­ses ter­mos que Hec­tor enten­deu.

pharaos

Os Faraós do Antigo Egito nos lem­bram do atem­po­ral pro­cesso da mente humana de agir no mundo de acordo com papéis, que pas­sam a mol­dar e ditar aquilo que somos — ou pare­ce­mos ser.

Ele se iden­ti­fi­cava como um legí­timo admi­ra­dor do rock’n’roll  e todos os pre­cur­so­res desse estilo, além do soul de James Brown. Tam­bém gos­tava do rap de raiz, aquele estilo mais vol­tado à crí­ti­cas soci­ais, meio Emi­nem às anti­gas — nada des­ses mais atu­ais, que só sabem falar de tra­sei­ros, pega­ção e boate. No entanto, o fato de pou­cas pes­soas apre­ci­a­rem a música séria e acha­rem que tudo se reduz à fan­far­ro­nice, era irri­tante e frus­trante. Quando alguém falava que ele gos­tava de rap, era para dizer que ele tinha gosto ape­nas para letras rús­ti­cas e psi­co­de­li­ces ele­trô­ni­cas e vozes meta­li­za­das, era como ouvir a empre­gada robô dos Jet­sons can­tando.

No momento da brin­ca­deira, sen­tiu o san­gue fer­ver. Era como como se lava vul­câ­nica esti­vesse fluindo para sua cabeça, com a erup­ção à cami­nho. Porém, antes de rea­gir, ele agiu. Antes de sol­tar alguma res­posta rude, a ima­gem do dia ante­rior, com o monge sen­tado falando cal­ma­mente sobre nos­sas pri­sões iden­ti­tá­rias, sur­giu. Per­ce­beu, então, que uma iden­ti­dade trai­ço­eira como um arac­ní­deo tinha tomado conta da situ­a­ção. Ele se iden­ti­fi­cava como roqueiro, admi­ra­dor do rap, do soul, do blues. Gos­tos con­den­sa­dos numa única pos­sí­vel iden­ti­dade, a do bom gosto musi­cal. Era por se achar tal coisa que a nega­ção dessa ‘ver­dade’ o ofen­dia tanto, mesmo que a ofensa não fosse um dado mani­festo em sua cons­ci­ên­cia, agindo ape­nas incons­ci­en­te­mente, cata­pul­tando a raiva e a indig­na­ção.

Nesse momento ele per­ce­beu que o pro­cesso de se tor­nar cons­ci­ente das iden­ti­da­des mais coti­di­a­nas era o ver­da­deiro desa­fio. Enten­der que esta­mos ves­ti­dos com o uni­forme de deter­mi­nado time, ou que faze­mos parte de deter­mi­nado grupo social e polí­tico ou uma pátria, era fácil. Mas como con­ven­cer a si mesmo de que o seu gosto musi­cal, na ver­dade, não é você mesmo? Como ter a expe­ri­ên­cia de ver a si mesmo para além das fan­ta­sias que ves­ti­mos dia­ri­a­mente para agir no mundo? O enten­di­mento do vazio que per­passa essa situ­a­ção, essa ‘iden­ti­dade ver­da­deira’, é pri­mor­dial, mas não passa pelo inte­lecto. Deve ser uma per­cep­ção súbita, uma expe­ri­ên­cia mesmo. Foi o que acon­te­ceu, con­forme Hec­tor se deu conta, no momento em que, por um lapso, se per­ce­beu ves­tindo a cara­puça e se sen­tindo ofen­dido. Enten­der tudo isso era como sen­tir um golpe na cabeça, um banho gelado, um susto.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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