A Sua Bolha Está Destruindo a Democracia

A sua bolha está destruindo a democracia

Em Comportamento, Consciência, Política, Sociedade por Equipe Ano ZeroComentários

Em 7 de novem­bro de 2016, no dia seguinte à elei­ção ame­ri­cana, com­pa­rei o número de segui­do­res em mídias soci­ais, per­for­mance de web­si­tes e esta­tís­ti­cas da pes­quisa do Goo­gle de Hil­lary Clin­ton e Donald Trump.

Fiquei cho­cado quando os dados reve­la­ram a extensa popu­la­ri­dade de Trump. Ele tinha mais segui­do­res em todas as pla­ta­for­mas soci­ais e suas pos­ta­gens tinham taxas muito mai­o­res de enga­ja­mento.

Notei que o segundo artigo mais popu­lar com­par­ti­lhado em mídias soci­ais nos últi­mos seis meses com as pala­vras “Donald Trump” na man­chete, “Por que vota­rei em Donald Trump”, fora com­par­ti­lhado 1.5 milhões de vezes. Mesmo assim, essa his­tó­ria nunca pas­sou pelo meu Feed de Notí­cias. Inda­guei vários de meus ami­gos libe­rais em Nova Ior­que, e todos eles dis­se­ram que nunca viram o artigo.

A aldeia glo­bal que a inter­net um dia foi aca­bou subs­ti­tuída por ilhas digi­tais de iso­la­ção. Do seu Feed de Notí­cias no Face­book até suas pes­qui­sas no Goo­gle, a medida em que sua expe­ri­ên­cia se torna mais per­so­na­li­zada, as ilhas na inter­net seguem se tor­nando mais segre­ga­das e à prova de som.

A inter­net que aju­dou a ele­ger Barack Obama, em 2008, e foi usada durante a Pri­ma­vera Árabe, em 2011, é uma inter­net dife­rente da que levou ao Bre­xit e à elei­ção de Donald Trump.

[adro­tate banner=“7”]

De acordo com o Pew Rese­arch, 61% dos mil­le­ni­als (jovens da atu­a­li­dade) usam o Face­book como a fonte pri­má­ria de notí­cias sobre polí­tica e o governo, mas o Face­book se recusa a reco­nhe­cer sua iden­ti­dade como fonte de notí­cias. Ao invés disso, man­tém seu foco em apri­mo­rar o ser­viço de volume publi­ci­tá­rio e taxas de enga­ja­mento.

Nos­sos Feeds de Notí­cias são base­a­dos em cli­ques pas­sa­dos e com­por­ta­men­tos de nos­sas cur­ti­das, por­tanto con­su­mi­mos, na maior parte, con­teúdo polí­tico simi­lar às nos­sas opi­niões pré­vias. Sem per­ce­ber, desen­vol­ve­mos uma visão de túnel. Rara­mente nos­sas zonas de con­forto no Face­book nos mos­tram algo que con­tra­diz nos­sas opi­niões, nos tor­nando reféns de nos­sos pró­prios vie­ses.

Como um nova-ior­quino libe­ral, há alguns meses meu Feed do Face­book estava repleto de #ImWithHer ou #FeelThe­Ber­nie, junto com algu­mas man­che­tes do tipo “Obama é o melhor”, o que me dei­xou feliz. Par­ti­ci­pei dos con­teú­dos e fiquei pro­te­gido como resul­tado.

Em rela­ção aos deba­tes, meu feed se trans­for­mou em dis­cus­sões sobre os escân­da­los de Trump e por que deve­ría­mos todos estar com Hil­lary. Vi ape­nas arti­gos de mídias libe­rais, como o The New York Times e o Washing­ton Post.

Embora eu saiba que é impor­tante se man­ter cético em rela­ção à mídia, mesmo um olho crí­tico perde a acui­dade quando cai na arma­di­lha da pro­pa­ganda de um lado só.

Estou con­ven­cido de que Hil­lary era uma opção melhor, mas não vi con­teú­dos sufi­ci­en­tes no Face­book que desa­fi­as­sem seri­a­mente minhas cren­ças. Fre­quen­te­mente saio dessa bolha para ler notí­cias em sites como Fox News, que nunca apa­rece no meu feed, a des­peito de suas mais de 65 milhões de visi­tas men­sais e milhões de com­par­ti­lha­mento em mídias soci­ais.

Nossa exis­tên­cia digi­tal-social se tor­nou uma enorme câmara de eco, onde dia­lo­ga­mos majo­ri­ta­ri­a­mente com pares de posi­ções simi­la­res às nos­sas e falha­mos mise­ra­vel­mente ao pene­trar outras bolhas soci­ais que são fre­quen­te­mente indu­zi­das ao erro pelo medo e pela xeno­fo­bia. Isso é espe­ci­al­mente pre­ju­di­cial, por­que opi­niões e refe­rên­cias de pares são a forma mais forte e con­vin­cente de mar­ke­ting.

Como muçul­mano, árabe-afri­cano e imi­grante, pro­va­vel­mente estou entre aque­les que mais serão impac­ta­dos pela pre­si­dên­cia de Trump, mas me recuso a acre­di­tar que metade dos Esta­dos Uni­dos é racista. Acho que mui­tos dos elei­to­res de Trump teriam repen­sado seus votos se eles tives­sem ouvido a posi­ção de ami­gos pró­xi­mos que serão dire­ta­mente atin­gi­dos pelas polí­ti­cas de Trump.

Quando a Fox News me diz quão ter­rí­vel o pre­si­dente Obama tem sido é dife­rente de quando meu amigo de Michi­gan me diz como a vida, no governo Obama, tem se tor­nado pior e por­que ele quer mudança.

Mas o Face­book não é o único res­pon­sá­vel. O Goo­gle tam­bém fil­tra seus resul­ta­dos com base em nossa loca­li­za­ção, pes­qui­sas ante­ri­o­res e cli­ques. As bolhas cri­a­das pelo Face­book e Goo­gle estão mudando a rea­li­dade. Vemos e ouvi­mos ape­nas aquilo que gos­ta­mos.

Até o resul­tado das elei­ções, um pouco mais da metade de nós não fazia ideia de que a outra metade estava frus­trada o bas­tante para ele­ger Trump. Todos pen­sa­mos que Clin­ton esma­ga­ria com van­ta­gem Trump nessa elei­ção, dado o quanto de bes­teira que o sujeito falou. Isso inclui pes­qui­sas e mate­má­ti­cos, que devem ter desen­vol­vi­dos seus pró­prios vie­ses em algum lugar.

Mui­tas comu­ni­da­des na vida real já são segre­ga­das por cor, classe, posi­ções polí­tica e cul­tu­ral. Face­book e Goo­gle e outras redes são nos­sas comu­ni­da­des online, e elas são tão segre­ga­do­ras quanto as off-line.

Pre­ci­sa­mos nos lem­brar que exis­tem seres huma­nos do outro lado da tela, que que­rem ser ouvi­dos e podem pen­sar e sen­tir como nós, ao mesmo tempo que che­gam a con­clu­sões dife­ren­tes.

A inter­net fez um tra­ba­lho melhor pro­te­gendo a comu­ni­ca­ção atra­vés das dife­ren­tes comu­ni­da­des oito anos atrás, quando Obama foi eleito para o pri­meiro man­dato. A Amé­rica era melhor por isso.


Texto ori­gi­nal de Mos­tafa M. El-Ber­mawy, em Wired.
Tra­du­ção de Igo Araujo dos San­tos.


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Você pode que­rer ler tam­bém:

A esquerda é o melhor cabo elei­to­ral da direita
A infan­ti­li­dade em excluir quem pensa dife­rente

Equipe Ano Zero
Perfil para publicação de artigos esporádicos e com temas diversos. Esteja por dentro das atualizações do portal Ano Zero, siga-nos nas nossas redes sociais e assine a nossa newsletter para receber nossos e-mails feitos com todo carinho e cuidado.

Compartilhe