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Storytelling: o que está por trás de uma boa história

Em Consciência por Tales GubesComentários

(Este artigo foi publi­cado ori­gi­nal­mente em três par­tes na news­let­ter do autor, dedi­cada a com­par­ti­lhar con­teúdo sobre story­tel­ling. Assine-a para rece­ber em pri­meira mão os e-mails com con­teúdo ori­gi­nal.)

Um prin­cí­pio impor­tante para o bom uso do story­tel­ling é com­pre­en­der o pro­pó­sito daquilo que faze­mos. Para come­çar­mos nossa con­versa, nada melhor do que par­tir­mos da per­gunta por que estu­dar story­tel­ling?

A habi­li­dade de cons­truir nar­ra­ti­vas é uma das carac­te­rís­ti­cas defi­ni­do­ras da huma­ni­dade. É por meio de his­tó­rias que damos sen­tido às expe­ri­ên­cias da vida.

A fun­ção básica de qual­quer his­tó­ria é dar sen­tido para expe­ri­ên­cias huma­nas.

Storytelling: Nós contamos histórias – com palavras e com imagens – há milhares de anos.

Nós con­ta­mos his­tó­rias – com pala­vras e com ima­gens – há milha­res de anos.

His­tó­rias conec­tam pes­soas. His­tó­rias criam o pas­sado e tam­bém o futuro. Quando você conta uma boa his­tó­ria, algo mágico acon­tece: as outras pes­soas sen­tem como se esti­ves­sem vivendo a expe­ri­ên­cia nar­rada.

Quer um exem­plo?
Você já pen­sou sobre como se sente antes de arris­car uma ação que deseja muito, mas tem medo que dê errado? A Lacoste já, e o resul­tado está no vídeo The Big Leap, a seguir.

O story­tel­ling é uma fer­ra­menta pode­rosa e vem sendo usado pela publi­ci­dade e pelo mar­ke­ting por­que cada vez mais os con­su­mi­do­res não que­rem ser for­ça­dos a engo­lir anún­cios comer­ci­ais. Esta­mos na era do inbound mar­ke­ting, na ten­ta­tiva de con­quis­tar cli­en­tes ofe­re­cendo valor a eles antes de pedir­mos que abram suas car­tei­ras.

Estu­dar story­tel­ling é impor­tante mesmo que você não queira con­tar his­tó­rias. Afi­nal, é impos­sí­vel viver em soci­e­dade e esca­par das incon­tá­veis nar­ra­ti­vas que nos cir­cun­dam. Quem conta as his­tó­rias tem em mãos o poder de mol­dar as expe­ri­ên­cias de outras pes­soas.

O que é uma história?

Story­tel­ling é o ofí­cio de con­tar his­tó­rias com pro­pó­sito. Mas para enten­der­mos o que isso sig­ni­fica, pre­ci­sa­mos pen­sar o que é uma his­tó­ria.

Acor­dei com a gar­ganta seca. Levan­tei da cama, fui à cozi­nha e bebi um copo de água. A sede pas­sou e eu vol­tei a dor­mir.

Isso é uma his­tó­ria? Sim.
Mas não é uma boa his­tó­ria. Gosto de sepa­rar dois con­cei­tos: de um lado, temos a his­tó­ria, que é aquilo que acon­te­ceu; de outro, temos a nar­ra­tiva, a orga­ni­za­ção inten­ci­o­nal dos even­tos. A nar­ra­tiva é ori­en­tada por um obje­tivo espe­cí­fico, que varia desde uma expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal (no caso da lite­ra­tura) até uma tomada de ação (em pales­tras ins­pi­ra­ci­o­nais).

Para uma his­tó­ria exis­tir, ela pre­cisa res­pei­tar um requi­sito básico: ela deve tra­tar sobre trans­for­ma­ção. Qual­quer his­tó­ria é sobre como uma coisa come­çou de um jeito e ter­mi­nou de outro.

Acor­dei com sede e vol­tei a dor­mir sem sede.

Algo mudou. Essa é a única his­tó­ria que existe e nós a recon­ta­mos há milê­nios.

Storytelling: Contação de histórias aqui.

Con­ta­ção de his­tó­rias aqui.

Agora que sabe­mos o que é uma his­tó­ria, pode­mos nos pre­o­cu­par com o que é uma boa his­tó­ria.

Sobre o que tratam as boas histórias

Há alguns anos, tive uma ideia per­feita de his­tó­ria: de um dia para outro, todas as pes­soas per­de­riam a capa­ci­dade de men­tir. Toda vez que ten­tas­sem, no lugar da men­tira escor­re­ria a ver­dade por entre suas pala­vras. Legal, né? Tam­bém achei, na época, e come­cei a escre­ver os pri­mei­ros con­tos neste uni­verso – sem dúvida alguma, um uni­verso mais dis­tó­pico do que Jogos Vora­zes.

A ideia é ótima, mas quando escrevi os dois pri­mei­ros con­tos, achei-os sem graça. Na época, eu falhei em per­ce­ber o porquê.

A pri­meira his­tó­ria era sobre um cara que inad­ver­ti­da­mente con­tava ao namo­rado que o estava traindo, e em meio às ver­da­des que esca­pa­vam de sua boca, aca­bava des­co­brindo – para sua pró­pria sur­presa – que não con­se­guia enxer­gar um mundo em que vivesse sem o namo­rado. A his­tó­ria ter­mi­nava com o pro­ta­go­nista enca­rando a ver­dade enquanto via o namo­rado par­tir de sua vida.

Na segunda his­tó­ria, um poli­cial res­sen­tido com o pai rece­bia notí­cia de que seu pro­ge­ni­tor estava no hos­pi­tal pres­tes a mor­rer. Ao visitá-lo, o poli­cial final­mente con­se­guia dizer todas as coi­sas que esta­vam guar­da­das durante anos, de sua homos­se­xu­a­li­dade escon­dida ao des­prezo que sen­tia pelas pos­tu­ras homo­fó­bi­cas e machis­tas do velho pai. A his­tó­ria ter­mi­nava com o velho, tam­bém sob efeito da “magia da ver­dade”, reve­lando que se sen­tia muito sozi­nho e que tinha medo de mor­rer esque­cido por todos.

As duas his­tó­rias tinham muita potên­cia, mas jamais atin­gi­ram seu poten­cial. Para expli­car o porquê, vou con­tar o que eu entendo que é uma boa his­tó­ria.

Boas histórias: Esta é uma fórmula básica para explicar o que é história: protagonista, antagonista, conflito e resolução.

Esta é uma fór­mula básica para expli­car o que é his­tó­ria: pro­ta­go­nista, anta­go­nista, con­flito e reso­lu­ção.

Já sabe­mos que uma his­tó­ria narra um pro­cesso de trans­for­ma­ção. Ou seja, a pri­meira regra é as coi­sas devem ser dife­ren­tes entre o começo e o final de uma his­tó­ria.

Mas há muito mais que isso.

A fun­ção das his­tó­rias é dar sen­tido às expe­ri­ên­cias huma­nas, então vamos acres­cen­tar mais ingre­di­en­tes à com­po­si­ção de uma boa his­tó­ria: pre­ci­sa­mos de pelo menos um per­so­na­gem que queira algo. Por­que se tiver­mos um per­so­na­gem que não quer nada, ele não fará nada. Para que algo se trans­forme, é pre­ciso haver ação.

No artigo ante­rior, con­tei uma his­tó­ria sem graça sobre o cara que acorda com sede, bebe água e volta a dor­mir. Por que era sem graça, se ela tinha um per­so­na­gem que que­ria algo, ação e trans­for­ma­ção? Por­que não teve con­flito, nenhuma difi­cul­dade para alcan­çar o que estava sendo bus­cado. Boas his­tó­rias não são sobre coi­sas fáceis.

Mas não basta ser difí­cil, por­que a his­tó­ria em si não é o mais impor­tante. Esse, aliás, é um dos prin­ci­pais equí­vo­cos de cri­a­do­res ama­do­res: acha­rem que bas­tam even­tos fan­tás­ti­cos para que nas­çam boas his­tó­rias. Boas his­tó­rias não são sobre o que acon­tece.

Boas his­tó­rias são sobre como as coi­sas que acon­te­cem afe­tam os per­so­na­gens. O que inte­ressa é como os per­so­na­gens lidam com os even­tos e suas con­sequên­cias.

Nas his­tó­rias que criei, eu encer­rava a nar­ra­tiva no momento em que a ver­dade estou­rava, dei­xando para os lei­to­res a tarefa de pen­sar sobre as con­sequên­cias. Mas não é isso que o lei­tor busca, por­que a vida já é assim, cheia de dúvi­das e momen­tos sem expli­ca­ção.

O lei­tor busca uma expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal pode­rosa, e essa expe­ri­ên­cia vem da iden­ti­fi­ca­ção com o per­so­na­gem e com as situ­a­ções pelas quais ele passa.

Vamos ver um exem­plo fofo?

Esta é a his­tó­ria de um menino (per­so­na­gem) que deseja fazer bem a seu amigo pin­guim (obje­tivo), mas per­cebe que o pin­guim está se dis­tan­ci­ando (con­flito). O que ele faz a par­tir disso é o que torna esta uma boa his­tó­ria. Se fosse ape­nas um menino brin­cando com um pin­guim, seria vazio.

Criar uma boa his­tó­ria é mais com­plexo do que parece, não é mesmo?

Para aju­dar você a criar e melho­rar suas his­tó­rias, quero ofe­re­cer um pre­sente. É um dia­grama que tenho uti­li­zado para pen­sar sobre a qua­li­dade das nar­ra­ti­vas, apre­sen­tando sete ingre­di­en­tes que não podem fal­tar em nenhuma boa his­tó­ria.

Boas histórias: Ingredientes de uma boa história.

O que existe por trás de uma história

Sem­pre digo que o con­ta­dor de his­tó­rias é um arqueiro. Se um arqueiro dis­pa­rar de qual­quer jeito, sem mirar nem res­pi­rar, a fle­cha voará para algum lugar. Ela pode acer­tar em cheio um alvo, como tam­bém pode voar longe, se par­tir con­tra um muro, atin­gir uma árvore etc.

Se um arqueiro tem um alvo em mente quando dis­para a fle­cha, ele pode acer­tar ou errar. Em qual­quer dos casos, ele pode apren­der se o que fez fun­ci­o­nou ou não den­tro do que era espe­rado. Pre­cisa puxar a corda com mais fir­meza? É o caso de res­pi­rar com mais calma antes de sol­tar a fle­cha? A pose do corpo está cor­reta?

História: O contador de histórias é um arqueiro.

Por que digo que con­tar his­tó­rias é seme­lhante a dis­pa­rar uma fle­cha?

Por­que quero enten­der como his­tó­rias fun­ci­o­nam e como pode­mos con­tro­lar seu poder. Para criar boas his­tó­rias, pre­ci­sa­mos saber como elas ope­ram. Quem não tem essa pre­o­cu­pa­ção muito pro­va­vel­mente terá difi­cul­da­des em repe­tir o êxito de boas nar­ra­ti­vas.

O que é o alvo para um arqueiro é a ideia gover­nante para um con­ta­dor de his­tó­rias. A ideia gover­nante é o pen­sa­mento ou a emo­ção que o lei­tor deverá sen­tir ao final da nar­ra­tiva. O exem­plo mais comum a que temos acesso são os con­tos de fadas, que tra­zem uma “moral da his­tó­ria” bas­tante clara.

Cha­peu­zi­nho Ver­me­lho: obe­deça os mais velhos e cum­pra seus deve­res, ou algo muito ruim vai acon­te­cer.
Cin­de­rela: seja boa­zi­nha e a vida vai te recom­pen­sar.

Mas a ideia gover­nante tam­bém está pre­sente em outros tipos de comu­ni­ca­ção e de his­tó­rias. Arti­gos aca­dê­mi­cos, aulas, vídeos publi­ci­tá­rios, pro­pa­gan­das polí­ti­cas, roman­ces etc.

Peraí, roman­ces?
Mas ideia gover­nante não é só sobre ideias, pen­sa­men­tos, com­pre­en­são raci­o­nal das coi­sas?

Não. Uma rápida (e absur­da­mente super­fi­cial) aula de neu­ro­ci­ên­cia: nosso cére­bro é for­mado por cama­das. Quanto mais externa a camada, maior o pro­ces­sa­mento cons­ci­ente, raci­o­nal e avan­çado. Quanto mais interna, mais ins­tin­tivo, emo­ci­o­nal e pri­mi­tivo. Lá no fundo do cére­bro estão nos­sas pro­gra­ma­ções mais bási­cas de sobre­vi­vên­cia, em seguida pas­sando pelas emo­ções, para só então che­gar até a área dedi­cada aos altos pen­sa­men­tos.

História: Cérebro emocional e cérebro pensante - representação.

Lis­tas e argu­men­tos che­gam ao “cére­bro raci­o­nal”, mas his­tó­rias pulam o raci­o­nal e che­gam pri­meiro ao emo­ci­o­nal. Isso acon­tece por causa da iden­ti­fi­ca­ção com os per­so­na­gens (vou falar disso na pró­xima men­sa­gem).

Uma boa his­tó­ria faz com que a gente sinta o que os per­so­na­gens sen­tem. Basi­ca­mente, elas evi­tam que a gente pre­cise viver as expe­ri­ên­cias para apren­der com elas, o que é muito útil quando se tra­tam de expe­ri­ên­cias dolo­ro­sas, peri­go­sas ou mesmo ape­nas radi­cal­mente dife­ren­tes do nosso habi­tual.

O obje­tivo de qual­quer his­tó­ria é pro­du­zir uma expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal pode­rosa.

Pensa comigo: qual foi a última vez em que você foi a uma livra­ria e pro­cu­rou um livro chato? Ou foi ao cinema que­rendo se entre­gar ao tédio? A gente pro­cura amo­res inten­sos, explo­sões assom­bro­sas e tris­te­zas deses­pe­ra­do­ras.

Quando vive­mos uma expe­ri­ên­cia que nos toca emo­ci­o­nal­mente, ela passa a ser parte de quem nós somos. Ou seja, nós apren­de­mos. Emo­ci­o­nal e raci­o­nal se mis­tu­ram.

É nesse ponto que entra o tema, ou seja, a ques­tão humana uni­ver­sal sobre a qual a his­tó­ria trata. Vamos dar uma olhada no vídeo a seguir para que isso fique mais claro.

Mário des­co­bre novos desa­fios.

Você já se sen­tiu de fora de algum grupo? Na escola, no tra­ba­lho, na rua? Fazer parte do cole­tivo é um dos temas mais recor­ren­tes na huma­ni­dade, por­que é uma pre­o­cu­pa­ção que todos nós temos.

A busca pelo amor ver­da­deiro, pelo sen­tido da vida, pela segu­rança, pela esta­bi­li­dade, pela aven­tura… Quan­tas his­tó­rias você já viu sobre cada um des­ses temas? Eles estão aí por­que são huma­nos, uni­ver­sais, cer­ta­mente mai­o­res que nós dois.

Mas como a gente aplica a ideia gover­nante, como pro­duz expe­ri­ên­cias emo­ci­o­nais pode­ro­sas, como se conecta com os gran­des temas da huma­ni­dade?

A res­posta é sim­ples, mas o jeito de fazer é mais com­pli­cado.

A res­posta sim­ples: crie his­tó­rias para serem vivi­das por outras pes­soas, não ape­nas que tra­gam aquilo que você um dia pen­sou que seria legal.

O jeito de fazer: crie, erre, crie de novo, viva expe­ri­ên­cias sig­ni­fi­ca­ti­vas e se per­mita tocar e ser tocado por outras pes­soas. Veja o que há de pro­fundo no mundo, o que pre­cisa ser melhor, o que podia ser dife­rente.

Apren­der a criar, con­tar e viver boas his­tó­rias é um desa­fio para a vida toda.


P.S.: Há alguns anos, a Pixar lan­çou 22 dicas sobre como criar boas his­tó­rias. Vale a pena dar uma con­fe­rida.


Você pode que­rer ler tam­bém:

Como con­tar melho­res his­tó­rias?
Guia defi­ni­tivo da cri­a­ti­vi­dade

Tales Gubes
Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.

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