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Um princípio importante para o bom uso do storytelling é compreender o propósito daquilo que fazemos. Para começarmos nossa conversa, nada melhor do que partirmos da pergunta por que estudar storytelling?

A habilidade de construir narrativas é uma das características definidoras da humanidade. É por meio de histórias que damos sentido às experiências da vida.

A função básica de qualquer história é dar sentido para experiências humanas.

Storytelling: Nós contamos histórias – com palavras e com imagens – há milhares de anos.
Nós contamos histórias – com palavras e com imagens – há milhares de anos.

Histórias conectam pessoas. Histórias criam o passado e também o futuro. Quando você conta uma boa história, algo mágico acontece: as outras pessoas sentem como se estivessem vivendo a experiência narrada.

Quer um exemplo?
Você já pensou sobre como se sente antes de arriscar uma ação que deseja muito, mas tem medo que dê errado? A Lacoste já, e o resultado está no vídeo The Big Leap, a seguir.

O storytelling é uma ferramenta poderosa e vem sendo usado pela publicidade e pelo marketing porque cada vez mais os consumidores não querem ser forçados a engolir anúncios comerciais. Estamos na era do inbound marketing, na tentativa de conquistar clientes oferecendo valor a eles antes de pedirmos que abram suas carteiras.

Estudar storytelling é importante mesmo que você não queira contar histórias. Afinal, é impossível viver em sociedade e escapar das incontáveis narrativas que nos circundam. Quem conta as histórias tem em mãos o poder de moldar as experiências de outras pessoas.

O que é uma história?

Storytelling é o ofício de contar histórias com propósito. Mas para entendermos o que isso significa, precisamos pensar o que é uma história.

Acordei com a garganta seca. Levantei da cama, fui à cozinha e bebi um copo de água. A sede passou e eu voltei a dormir.

Isso é uma história? Sim.
Mas não é uma boa história. Gosto de separar dois conceitos: de um lado, temos a história, que é aquilo que aconteceu; de outro, temos a narrativa, a organização intencional dos eventos. A narrativa é orientada por um objetivo específico, que varia desde uma experiência emocional (no caso da literatura) até uma tomada de ação (em palestras inspiracionais).

Para uma história existir, ela precisa respeitar um requisito básico: ela deve tratar sobre transformação. Qualquer história é sobre como uma coisa começou de um jeito e terminou de outro.

Acordei com sede e voltei a dormir sem sede.

Algo mudou. Essa é a única história que existe e nós a recontamos há milênios.

Storytelling: Contação de histórias aqui.
Contação de histórias aqui.

Agora que sabemos o que é uma história, podemos nos preocupar com o que é uma boa história.

Sobre o que tratam as boas histórias

Há alguns anos, tive uma ideia perfeita de história: de um dia para outro, todas as pessoas perderiam a capacidade de mentir. Toda vez que tentassem, no lugar da mentira escorreria a verdade por entre suas palavras. Legal, né? Também achei, na época, e comecei a escrever os primeiros contos neste universo – sem dúvida alguma, um universo mais distópico do que Jogos Vorazes.

A ideia é ótima, mas quando escrevi os dois primeiros contos, achei-os sem graça. Na época, eu falhei em perceber o porquê.

A primeira história era sobre um cara que inadvertidamente contava ao namorado que o estava traindo, e em meio às verdades que escapavam de sua boca, acabava descobrindo – para sua própria surpresa – que não conseguia enxergar um mundo em que vivesse sem o namorado. A história terminava com o protagonista encarando a verdade enquanto via o namorado partir de sua vida.

Na segunda história, um policial ressentido com o pai recebia notícia de que seu progenitor estava no hospital prestes a morrer. Ao visitá-lo, o policial finalmente conseguia dizer todas as coisas que estavam guardadas durante anos, de sua homossexualidade escondida ao desprezo que sentia pelas posturas homofóbicas e machistas do velho pai. A história terminava com o velho, também sob efeito da “magia da verdade”, revelando que se sentia muito sozinho e que tinha medo de morrer esquecido por todos.

As duas histórias tinham muita potência, mas jamais atingiram seu potencial. Para explicar o porquê, vou contar o que eu entendo que é uma boa história.

Boas histórias: Esta é uma fórmula básica para explicar o que é história: protagonista, antagonista, conflito e resolução.
Esta é uma fórmula básica para explicar o que é história: protagonista, antagonista, conflito e resolução.

Já sabemos que uma história narra um processo de transformação. Ou seja, a primeira regra é as coisas devem ser diferentes entre o começo e o final de uma história.

Mas há muito mais que isso.

A função das histórias é dar sentido às experiências humanas, então vamos acrescentar mais ingredientes à composição de uma boa história: precisamos de pelo menos um personagem que queira algo. Porque se tivermos um personagem que não quer nada, ele não fará nada. Para que algo se transforme, é preciso haver ação.

No artigo anterior, contei uma história sem graça sobre o cara que acorda com sede, bebe água e volta a dormir. Por que era sem graça, se ela tinha um personagem que queria algo, ação e transformação? Porque não teve conflito, nenhuma dificuldade para alcançar o que estava sendo buscado. Boas histórias não são sobre coisas fáceis.

Mas não basta ser difícil, porque a história em si não é o mais importante. Esse, aliás, é um dos principais equívocos de criadores amadores: acharem que bastam eventos fantásticos para que nasçam boas histórias. Boas histórias não são sobre o que acontece.

Boas histórias são sobre como as coisas que acontecem afetam os personagens. O que interessa é como os personagens lidam com os eventos e suas consequências.

Nas histórias que criei, eu encerrava a narrativa no momento em que a verdade estourava, deixando para os leitores a tarefa de pensar sobre as consequências. Mas não é isso que o leitor busca, porque a vida já é assim, cheia de dúvidas e momentos sem explicação.

O leitor busca uma experiência emocional poderosa, e essa experiência vem da identificação com o personagem e com as situações pelas quais ele passa.

Vamos ver um exemplo fofo?

Esta é a história de um menino (personagem) que deseja fazer bem a seu amigo pinguim (objetivo), mas percebe que o pinguim está se distanciando (conflito). O que ele faz a partir disso é o que torna esta uma boa história. Se fosse apenas um menino brincando com um pinguim, seria vazio.

Criar uma boa história é mais complexo do que parece, não é mesmo?

Para ajudar você a criar e melhorar suas histórias, quero oferecer um presente. É um diagrama que tenho utilizado para pensar sobre a qualidade das narrativas, apresentando sete ingredientes que não podem faltar em nenhuma boa história.

Boas histórias: Ingredientes de uma boa história.

O que existe por trás de uma história

Sempre digo que o contador de histórias é um arqueiro. Se um arqueiro disparar de qualquer jeito, sem mirar nem respirar, a flecha voará para algum lugar. Ela pode acertar em cheio um alvo, como também pode voar longe, se partir contra um muro, atingir uma árvore etc.

Se um arqueiro tem um alvo em mente quando dispara a flecha, ele pode acertar ou errar. Em qualquer dos casos, ele pode aprender se o que fez funcionou ou não dentro do que era esperado. Precisa puxar a corda com mais firmeza? É o caso de respirar com mais calma antes de soltar a flecha? A pose do corpo está correta?

História: O contador de histórias é um arqueiro.

Por que digo que contar histórias é semelhante a disparar uma flecha?

Porque quero entender como histórias funcionam e como podemos controlar seu poder. Para criar boas histórias, precisamos saber como elas operam. Quem não tem essa preocupação muito provavelmente terá dificuldades em repetir o êxito de boas narrativas.

O que é o alvo para um arqueiro é a ideia governante para um contador de histórias. A ideia governante é o pensamento ou a emoção que o leitor deverá sentir ao final da narrativa. O exemplo mais comum a que temos acesso são os contos de fadas, que trazem uma “moral da história” bastante clara.

Chapeuzinho Vermelho: obedeça os mais velhos e cumpra seus deveres, ou algo muito ruim vai acontecer.
Cinderela: seja boazinha e a vida vai te recompensar.

Mas a ideia governante também está presente em outros tipos de comunicação e de histórias. Artigos acadêmicos, aulas, vídeos publicitários, propagandas políticas, romances etc.

Peraí, romances?
Mas ideia governante não é só sobre ideias, pensamentos, compreensão racional das coisas?

Não. Uma rápida (e absurdamente superficial) aula de neurociência: nosso cérebro é formado por camadas. Quanto mais externa a camada, maior o processamento consciente, racional e avançado. Quanto mais interna, mais instintivo, emocional e primitivo. Lá no fundo do cérebro estão nossas programações mais básicas de sobrevivência, em seguida passando pelas emoções, para só então chegar até a área dedicada aos altos pensamentos.

História: Cérebro emocional e cérebro pensante - representação.

Listas e argumentos chegam ao “cérebro racional”, mas histórias pulam o racional e chegam primeiro ao emocional. Isso acontece por causa da identificação com os personagens (vou falar disso na próxima mensagem).

Uma boa história faz com que a gente sinta o que os personagens sentem. Basicamente, elas evitam que a gente precise viver as experiências para aprender com elas, o que é muito útil quando se tratam de experiências dolorosas, perigosas ou mesmo apenas radicalmente diferentes do nosso habitual.

O objetivo de qualquer história é produzir uma experiência emocional poderosa.

Pensa comigo: qual foi a última vez em que você foi a uma livraria e procurou um livro chato? Ou foi ao cinema querendo se entregar ao tédio? A gente procura amores intensos, explosões assombrosas e tristezas desesperadoras.

Quando vivemos uma experiência que nos toca emocionalmente, ela passa a ser parte de quem nós somos. Ou seja, nós aprendemos. Emocional e racional se misturam.

É nesse ponto que entra o tema, ou seja, a questão humana universal sobre a qual a história trata. Vamos dar uma olhada no vídeo a seguir para que isso fique mais claro.

Mário descobre novos desafios.

Você já se sentiu de fora de algum grupo? Na escola, no trabalho, na rua? Fazer parte do coletivo é um dos temas mais recorrentes na humanidade, porque é uma preocupação que todos nós temos.

A busca pelo amor verdadeiro, pelo sentido da vida, pela segurança, pela estabilidade, pela aventura… Quantas histórias você já viu sobre cada um desses temas? Eles estão aí porque são humanos, universais, certamente maiores que nós dois.

Mas como a gente aplica a ideia governante, como produz experiências emocionais poderosas, como se conecta com os grandes temas da humanidade?

A resposta é simples, mas o jeito de fazer é mais complicado.

A resposta simples: crie histórias para serem vividas por outras pessoas, não apenas que tragam aquilo que você um dia pensou que seria legal.

O jeito de fazer: crie, erre, crie de novo, viva experiências significativas e se permita tocar e ser tocado por outras pessoas. Veja o que há de profundo no mundo, o que precisa ser melhor, o que podia ser diferente.

Aprender a criar, contar e viver boas histórias é um desafio para a vida toda.


P.S.: Há alguns anos, a Pixar lançou 22 dicas sobre como criar boas histórias. Vale a pena dar uma conferida.


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Como contar melhores histórias?
Guia definitivo da criatividade

escrito por:

Tales Gubes

Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.


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