[Nota do editor: esta é a tradução autorizada do texto original de Tim Urban, publicado no site Wait But Why.]

Parte I – A História dos Seres Humanos e do Espaço

Cerca de seis milhões de anos atrás, uma fêmea primata muito importante teve dois filhos. Uma de suas crianças se tornaria o antepassado comum de todos os chimpanzés. A outra seria o ancestral comum de uma linhagem que, um dia, incluiria toda a raça humana. Enquanto os descendentes de seu primeiro filho seriam bastante normais do ponto de vista de um primata, com o passar do tempo coisas estranhas começaram a acontecer com a linhagem do outro.

Não temos certeza da causa, mas nos seis milhões de anos seguintes nossa linhagem ancestral começou a fazer algo que nenhuma criatura na Terra havia feito antes – nossos antepassados acordaram.

Aconteceu lenta e gradualmente ao longo de milhares de gerações, do mesmo jeito que o seu cérebro acorda lentamente nos primeiros segundos depois de despertar do sono. Porém, à medida que a clareza aumentou, nossos antepassados ​​começaram a olhar ao redor e, pela primeira vez, fizeram perguntas.

Surgida de um sonho há 3,6 bilhões de anos, a vida na Terra formulou suas primeiras questões.

O que é essa grande sala em que estamos e quem nos colocou aqui? O que é esse grande círculo amarelo e luminoso no teto e onde ele vai todas as noites? Onde o oceano termina e o que acontece quando você chega lá? Onde estão todas as pessoas mortas, agora que não estão mais aqui?

Nós descobrimos o grande romance de mistério de nossa espécie (intitulado “Onde estamos?”), e queríamos aprender a lê-lo.

à medida que a luz da consciência humana crescia e brilhava, começamos a formular respostas que pareciam fazer sentido. Talvez estivéssemos em cima de um disco flutuante, e talvez esse disco estivesse em cima de uma enorme tartaruga. Talvez as luzes acima de nós à noite sejam um vislumbre do que está além dessa grande sala – e talvez seja para lá que vamos quando morremos. Talvez se encontrarmos o lugar onde o teto se encontra com o chão, possamos colocar nossas cabeças além e ver todas coisas super divertidas do outro lado.

Cerca de 10.000 anos atrás, tribos isoladas de humanos começaram a se unir e formar as primeiras cidades. Em comunidades maiores, as pessoas puderam conversar umas com as outras sobre esse romance misterioso que encontramos, comparando notas entre tribos e gerações. Com as técnicas de aprendizagem tornando-se cada vez mais sofisticadas, as pistas se acumularam, e surgiram novas descobertas.

O mundo aparentemente era uma bola, e não um disco. O que significava que o teto era, na verdade, uma esfera maior que nos cercava. Os tamanhos dos outros objetos que flutuavam lá fora na esfera conosco, e as distâncias entre eles, eram maiores do que imaginávamos. E então, descobrimos algo perturbador:

O sol não girava em torno de nós. Nós é que estávamos girando ao redor do sol.

Esta foi uma descoberta super desconfortável e que nos deixou confusos. Por que diabos não estávamos no centro das coisas? O que isso significava?

Afinal, onde estamos?

A distância entre nós e as luzes no céu, inclusive o sol, já era desagradavelmente grande. Mas se não estamos no centro desse espaço todo, então estamos apenas em uma esfera aleatória dentro dele, sem motivo aparente? É isso o que está acontecendo?

Assustador.

Então as coisas pioraram.

Parecia que as pequenas luzes que víamos de noite no céu não eram o que pensávamos que eram – eram outros sóis como o nosso. E esses sóis estavam flutuando como nosso sol, o que significa que não estávamos dentro de uma esfera. Não só nosso planeta não era o centro das coisas, mesmo nosso sol era apenas um sujeito aleatório lá fora, no meio do nada, cercado de nada.

Assustador.

Nosso sol acabou se revelando apenas parte de algo muito maior. Uma bela e vasta nuvem de bilhões de sóis.

O tudo de tudo:

Pelo menos, era o que tínhamos. Até que percebemos que isso não era tudo, e que as coisas eram mais ou menos assim:

Trevas.

Quanto mais nossas ferramentas e entendimento se aprimoravam, mais podíamos ampliar essa imagem. E quanto mais ampliamos, mais as coisas pioram. Estávamos decifrando as páginas do livro intitulado “Onde Estamos?” por nossa conta e risco, descobrindo nossa situação diretamente, concluindo que estamos inacreditavelmente sozinhos, vivendo em uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária, enterrada em camadas de isolamento, sem ninguém com quem conversar.

Essa é A Situação.

Nos mais recentes 1% da curta existência de nossa espécie, nos tornamos a primeira vida na Terra a conhecer nossa situação – e estamos tendo uma crise existencial coletiva desde então.

Você realmente não pode nos culpar. Imagine não saber que o universo é uma coisa e então descobrir que o universo é essa coisa. É muito para processar.

A maioria de nós lida com isso vivendo em uma ilusão agradável, fingindo que o único lugar em que vivemos está em uma infinita terra de cores e calor. Fazemos o possível para ignorarmos A Situação.

E qual nosso melhor amigo para esta atividade? O céu azul, claro. O céu azul parece que foi inventado para ajudar os seres humanos a fingir que A Situação não existe, servindo como o cenário perfeito para nos proteger da realidade.

Então a noite acontece, e A Situação fica nos olhando diretamente na cara.

Oh sim…

Esse é nosso cotidiano, da ilusão protetora dos dias de céu azul à recordação noturna de que A Situação existe. O desenvolvimento de psicoses foi, durante a maior parte da história recente, extensão do nosso relacionamento com A Situação.

Mas nos últimos 60 anos, esse relacionamento chegou a um novo nível. Durante a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia de mísseis deu um salto e, pela primeira vez, uma ideia totalmente maluca tornou-se possível:

Viagem ao espaço.

Por milhares de anos, A História dos Humanos e do Espaço resumiu-se a uma história de olhar e se questionar. A possibilidade de alguém deixar a nossa ilha terrestre e desbravar o espaço despertou em nós o espírito de aventura.

Imagino um sentimento semelhante nas pessoas do século XV, durante a Era dos Descobrimentos, quando estávamos decifrando o capítulo sobre o mapa mundial do romance “Onde Estamos?”, e a noção de viagens marítimas deslumbrou a imaginação das pessoas. Se você perguntasse a uma criança em 1495 o que ela queria ser quando crescesse, provavelmente teria respondido: “um explorador do oceano”.

Em 1970, se você fizesse a uma criança a mesma pergunta, a resposta seria “um astronauta”.

A Segunda Guerra Mundial trouxe a possibilidade da viagem espacial, mas foi no final de 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro objeto artificial em órbita, o adorável Sputnik 1, que as viagens espaciais se tornaram a principal missão das grandes potências mundiais

Na época, a Guerra Fria estava a todo vapor, e os EUA e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) apresentaram suas réguas para um concurso de medição de pênis internacionalmente televisionado. Com o lançamento bem sucedido do Sputnik, o pênis soviético aumentou alguns centímetros, horrorizando os americanos.

Para os soviéticos, colocar um satélite no espaço antes dos EUA era a prova de que a tecnologia soviética era superior à norte-americana, o que por sua vez foi apresentado como prova, para o mundo inteiro, de que o comunismo era um sistema superior ao capitalismo.

Oito meses depois, a NASA nasceu.

A corrida espacial tinha começado, e a primeira missão da NASA era levar um homem ao espaço e, em seguida, um homem em órbita completa, de preferência, antes dos soviéticos. Os EUA não deveriam ser humilhados novamente.

Em 1959, a NASA criou o Projeto Mercúrio para realizar a missão. Eles estavam à beira do sucesso quando, em abril de 1961, os soviéticos lançaram Yuri Gagarin em uma órbita completa em torno da Terra, fazendo com que o primeiro humano no espaço E em órbita da Terra fosse um soviético.

Era a hora de medidas drásticas. Os conselheiros de John F. Kennedy disseram-lhe que os soviéticos estavam muito avançados para que os EUA conseguissem superá-los em qualquer conquista a curto prazo, mas que a perspectiva de uma nave tripulada pousar na lua era um objetivo distante o suficiente no futuro para que os EUA pudessem chegar primeiro. Então Kennedy disse sua famosa frase “nós escolhemos ir para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”, e direcionou uma escandalosa quantidade de financiamento nessa missão (US$ 20 bilhões, o equivalente a US$ 205 bilhões nos dias de hoje).

O projeto foi chamado de Apollo. A missão Apollo consistia em aterrizar um americano na lua – e fazê-lo primeiro. Os soviéticos responderam com o Soyuz, seu próprio programa de viagem lunar. E a corrida espacial se intensificou.

à medida que as primeiras fases da missão Apollo começaram a ser implementadas, o Projeto Mercury finalmente atingiu seu objetivo. Apenas um mês depois de Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem no espaço, o astronauta americano Alan Shepard tornou-se o segundo homem no espaço, completando um pequeno arco que não o colocou em órbita completa, mas permitiu que atingisse o ponto mais alto possível e desse um “oi” lá de cima. Alguns meses depois, em fevereiro de 1962, John Glenn tornou-se o primeiro americano a orbitar a Terra.

Os próximos sete anos testemunharam 22 lançamentos tripulados dos EUA e dos soviéticos, como resultado do aprimoramento das habilidades e tecnologias dessas super potências. No final de 1968, os Estados Unidos realizaram mais lançamentos (17) do que os soviéticos (10) e, em conjunto, as duas nações dominaram o que chamamos de baixa órbita terrestre (LEOLow Earth Orbit).

Mas a baixa órbita terrestre realmente não havia excitado ninguém desde o início dos anos 60. Ambas as superpotência tinham a mira firmemente na lua. O programa Apollo estava dando saltos rápidos e, em dezembro de 1968, os EUA se tornaram a primeira nação a ultrapassar a órbita terrestre baixa. A missão Apollo 8 fez todo o caminho até a órbita da lua e circulou cerca de 10 vezes antes de voltar para casa com segurança. A tripulação, que incluiu James Lovell, quebrou o registro de altitude humana e James tornou-se a primeira pessoa a ver a lua de perto, a primeira a ver o “lado escuro” da lua e a primeira a ver a Terra como um planeta inteiro, tirando esta foto icônica:

Ao retornar, a equipe tornou-se o grupo de heróis mais celebrado dos EUA – pelo menos por oito meses. Em junho de 1969, três missões de Apolo mais tarde, o Apollo 11 fez os americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin serem os primeiros humanos a chegarem na lua, e Armstrong tirou essa famosa foto de Aldrin:

É difícil enfatizar o quanto isso foi espetacular. Desde que a vida na Terra começou há 3,6 bilhões de anos, nenhuma criatura terrestre pôs os pés em qualquer outro corpo celeste além da Terra. De repente, lá estão Armstrong e Aldrin, saltando em torno de outra esfera, olhando para o céu onde a lua deveria estar e vendo a Terra no seu lugar. Insano.

O Projeto Apollo provou ser um sucesso esmagador. Não só conseguiu colocar um homem na lua antes dos soviéticos como também enviou mais 10 homens para a lua nos próximos três anos e meio em cinco outras missões da Apollo. Houve seis viagens de lua bem sucedidas em sete tentativas, com a famosa exceção de Apollo 13, que foi abortada com segurança após uma explosão no tanque de oxigênio.

O programa soviético Soyuz continuou com problemas técnicos, e acabou nunca colocando alguém na lua.

O pouso na lua ocorreu no final de 1972. Em apenas uma década, conquistamos o espaço nas proximidades, e o progresso estava em franca aceleração. Se, naquela época, você tivesse perguntado a qualquer ser humano o que as próximas décadas de viagem espacial trariam, teria escutado previsões grandes e audaciosas como muitas pessoas indo à lua, uma base lunar permanente, pessoas chegando em Marte e até indo além.

Então você só pode imaginar o quão surpreso essas pessoas de 1972 ficariam se você lhes dissesse, depois de testemunharem doze seres humanos caminhando na lua, que 43 anos depois, no ano impossivelmente futurista 2015, o número de pessoas que já tinham pisado na lua ainda seria doze. Ou que depois de atingirmos a baixa órbita terrestre e a utilizarmos como nosso estacionamento pré-lua, 2015 chegaria e a baixa órbita terrestre ainda seria o mais distante que os seres humanos já conseguiram se estabelecer.

As pessoas de 1972 ficariam deslumbradas pelos nossos smartphones e pela internet, mas ficariam muito chocadas por termos desistido de ampliar as nossas fronteiras no espaço.

Então o que aconteceu? Após uma década de emocionantes aventuras espaciais, por que paramos?

Bem, como vimos no post sobre a Tesla, a pergunta “Por que paramos?” é a questão errada. Em vez disso, devemos perguntar:

“Por que fomos aventureiros em relação ao envio de seres humanos ao espaço?”

As viagens espaciais são incrivelmente caras. Os orçamentos nacionais são incrivelmente apertados. O fato é que seria surpreendente se uma nação comprometesse uma parte considerável de seu orçamento em nome da aventura e da inspiração, forçando os limites de seus gastos.

E isso seria realmente surpreendente porque nenhuma nação estourou seu orçamento em nome da aventura e da inspiração – duas nações estouraram seus orçamentos por causa de um concurso de tamanho do pênis. Diante do embaraço internacional em um momento em que todos estavam tentando descobrir qual sistema econômico era melhor, o governo dos EUA concordou em abandonar as regras usuais por alguns anos e gastar os recursos necessários para garantir que o país vencesse aquele concurso:

E no momento em que os EUA ganharam, o concurso terminou e as exceções às regras também acabaram. E o governo norte-americano voltou a gastar dinheiro como uma pessoa normal.

Em vez de continuar a aumentar seus gastos, os EUA e os soviéticos apertaram as mãos, colocaram suas calças e começaram a trabalhar juntos como adultos em projetos muito mais práticos, como a criação de uma estação espacial conjunta na baixa órbita terrestre (a Estação Espacial Internacional).

Nas quatro décadas seguintes, a História dos Humanos e do Espaço tornou-se novamente confinada à Terra. E no momento presente, temos duas razões principais para interagirmos com o espaço:

1) Apoio às Indústrias da Terra:

Essa é a primeira e principal razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço, já que o programa Apollo não tinha relação com o interesse da raça humana no espaço. Tratava-se de usar o espaço para fins práticos em apoio às indústrias da Terra, principalmente sob a forma de satélites. A imensa maioria dos foguetes que atualmente lançamos no espaço tem por objetivo apenas colocar coisas na baixa órbita terrestre para que assim se possa olhar para a Terra, e não para a imensidão que existe na outra direção. Há algumas outras atividades espaciais na categoria “Apoio às Indústrias da Terra” (como mineração espacial , enterro espacial e turismo espacial). Mas, pelo menos por enquanto, os satélites representam quase toda essa categoria.

2) Olhar e aprender:

A segunda razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço nas últimas quatro décadas prova que, embora possamos ter parado de enviar pessoas para o espaço, nunca perdemos nossa fome de aprender sobre o que está lá. à medida que a sociedade desviou sua atenção do espaço para a Terra, os astrônomos se mantiveram ocupados no trabalho, decifrando página após página do antigo livro “Onde estamos?”. Os astrônomos aprendem melhor com seus olhos, e um efeito colateral da corrida espacial foi o desenvolvimento de uma tecnologia muito melhor para ver o que está lá fora.


 

Há mais de 40 anos, esses dois objetivos – apoiar as indústrias da Terra e continuar a aprender e descobrir – têm sido a razão de nosso relacionamento com o espaço.

E porque esses dois objetivos são melhor realizados por viajantes não-humanos, o capítulo mais recente de nossa relação com o espaço tem se resumido a máquinas como satélites e sondas espaciais, com a participação humana ocorrendo na Terra, controlando as coisas com joysticks.

A única razão pela qual qualquer humano foi para o espaço desde que Apollo 17 voltou à Terra em 1972 é que, às vezes as máquinas ainda não estão suficientemente avançadas para fazer uma determinada tarefa, então precisamos enviar um humano para fazê-la no seu lugar. Das cerca de 550 pessoas que já estiveram no espaço, mais de 400 delas foram lá na era da posterior à Corrida Espacial. Mas desde Apollo, os motivos têm sido práticos: cientistas e técnicos vão ao espaço para fazer um trabalho. É por isso que cada missão tripulada das últimas quatro décadas manteve-se dentro da minúscula zona do espaço que circunda a baixa órbita terrestre.

Como as coisas ficam no espaço

Nós examinamos o que está no espaço, mas como todas essas coisas (satélites, sondas, telescópios, etc) chegam ao espaço? Você já se perguntou como algo como um satélite GPS chega a entrar em órbita?

A resposta é que existem nove países que têm a capacidade de lançar algo em órbita: Rússia, Estados Unidos, França, Japão, China, Índia, Israel, Irã e Coréia do Norte – juntamente com uma entidade não nacional, a Agência Espacial Européia (ESA). Se um satélite sobe no espaço, é porque alguém pagou a uma dessas dez entidades para levá-lo até lá em cima utilizando um foguete complexo e caro.

Quanto ao lançamento dos seres humanos no espaço, apenas três países na história o fizeram – a Rússia, os EUA e a China (que é um iniciante em rápido crescimento). Desde os anos 60, a Rússia usou seus foguetes Soyuz para lançar as pessoas no espaço, e os EUA, depois de concluir o programa Apollo em 1972, recuperaram a capacidade de colocar as pessoas em órbita em 1981 com o programa de ônibus espacial.

Nos 30 anos seguintes, os EUA lançaram 135 ônibus espaciais na baixa órbita terrestre, e 133 deles foram exitosos. As duas exceções são parte bastante traumatizante da história americana: Challenger em 1986 e Columbia em 2003.

O programa de ônibus espaciais foi aposentado em 2011. Hoje, apenas dois países podem lançar um ser humano em órbita – Rússia e China. Sem capacidade, os EUA (o país que, triunfalmente, colocou um homem na lua enquanto o resto do mundo assistia) agora tem que lançar seus astronautas em foguetes da Rússia, dependendo da boa vontade do governo russo, portanto.

___________

Então, como podemos resumir A História dos Humanos e do Espaço até agora? É uma história um pouco estranha. Em 1970, a história ela era assim:

Então, a suposição que se fez sobre o futuro dessa história foi a seguinte:

Mas agora é 2015, e é isso o que está acontecendo:

Quando olho para o que está acontecendo com a relação entre seres humanos e o espaço hoje, acho incrível. Neste momento, apenas 58 anos depois de os soviéticos colocarem o primeiro objeto artificial em órbita da Terra, vemos a proliferação de equipamentos de alta tecnologia em todo nosso planeta, dando aos humanos recursos mágicos em termos de visão e comunicação. Há uma equipe de sondas espaciais espalhadas pelo Sistema Solar, relatando para nós as suas descobertas. Há um enorme telescópio voador, o Hubble, acima da Terra, mostrando-nos exatamente como é o universo observável. Há um enorme laboratório científico, do tamanho de um campo de futebol, flutuando a 250 milhas acima de nossas cabeças, com pessoas dentro dele, a Estação Espacial Internacional.

Tudo o que acabei de dizer é incrível.

E se a História dos seres humanos e do espaço fosse assim:

…Eu ficaria maravilhado com as coisas que estamos fazendo atualmente.

Mas, infelizmente, os anos 60 aconteceram. Então, na verdade, a história ficou assim:

 

 

Um bom espetáculo de mágica segue uma regra simples: faça seu próximo truque de mágica ser melhor que o precedente. Se você não consegue ficar um passo à frente de um público cada vez mais entediado, as pessoas rapidamente deixarão você fazendo mágicas sozinho.

Em algumas áreas da pesquisa sobre o espaço, o show de mágica continuou melhorando. Em nossa busca de conhecimento, por exemplo, continuamos a superar a nós mesmos, aprendendo significativamente mais sobre o universo a cada década. O espírito humano de descoberta está vivo e bem, tendo prosperado no espaço ao longo dos anos desde as missões Apollo.

Mas embora estejamos fascinados pelas descobertas recentes, quando se trata de sentirmos genuína excitação e inspiração, essas mesmas descobertas não têm tanto sucesso. Sondas espaciais e telescópios podem nos encher de admiração e saciar nossa curiosidade, mas nada nos desperta tanto o espírito de aventura quanto ir aonde nenhum homem já foi. E, nessa arena, as últimas quatro décadas nos deixaram vazios. Depois de assistirmos pessoas pousando na lua, acompanhar as missões tripuladas até a Estação Espacial Internacional é, como disse Ross Andersen, “tão emocionante quanto assistir Colombo navegar para Ibiza”.

E é por isso que, no mundo de hoje, a sociedade perdeu o interesse em ler A História dos Humanos e do Espaço. Um assunto que deveria deixar a todos nós de joelhos tornou-se um espetáculo só para nerds. Peça a dez pessoas bem-informadas que digam o que está acontecendo com as sondas espaciais no Sistema Solar, ou com a Estação Espacial Internacional, ou com a NASA ou com a SpaceX e a maioria delas não será capaz de lhe dizer muita coisa. Algumas nem sequer saberão o que dizer. E as pessoas não sabem porque não se importam. Por causa da forma como ela se desenrolou, A História dos Humanos e do Espaço parece uma decepção. E, olhando para o mundo que nos rodeia hoje, é intuitivo prever que os futuros capítulos da história do espaço continuarão a aparecer como hoje:

Muitas pessoas não acham que isso é ruim. “Por que gastar quantidades exorbitantes de dinheiro enviando pessoas para o espaço quando temos tantos problemas aqui na Terra?”, Perguntam. O congressista do Massachusetts, Barney Frank, que passou três décadas desempenhando um papel fundamental na tomada de decisões no orçamento dos EUA, afirmou que uma viagem espacial tripulada é, “na melhor das hipóteses, um luxo que o país não deve se permitir” e “um total e total desperdício de dinheiro”. E os limites dramáticos no orçamento da NASA desde que a corrida espacial terminou sugerem que Frank não é o único político dos EUA a manter essa visão.

Em uma primeira análise, gente que pensa assim está sendo perfeitamente racional – afinal, diante de preocupações com saúde, segurança nacional, educação e pobreza, devemos realmente abrir espaço para um “orçamento de aventuras”? E nessa perspectiva, a projeção do gráfico acima tem maior probabilidade de continuar em seu curso atual.

Passei os últimos meses lendo, falando e pensando quase sem parar sobre o que os próximos capítulos desta história se parecerão – e as minhas premissas sobre o futuro mudaram radicalmente.

Acho que estamos todos diante de grande surpresa.

E essa surpresa é a missão que o Musk colocou diante de si.

[Na segunda parte deste texto, Tim Urban falará sobre o projeto de Elon Musk para alterar radicalmente a atual História dos Humanos e do Espaço]