“Numa noite há muitas noites
Mas de modo diferente
De como há dias no dia
especialmente nos bairros onde a luz é pouca)”
Ferreira Gullar, Poema Sujo

Não pretendo abordar aqui temas relativos à bacia hidrográfica paulistana (que eu nada entendo de bacia hidrográfica), muito menos trabalhar cientificamente com dados relativos ao abastecimento e/ou os lençóis freáticos que circundam a capital paulista (desconfio que no ranking dos assuntos que não me são cabíveis de abordar por ausência total de conhecimento de causa, lençóis freáticos percam apenas para a capital paulista em si). O fato é que há uma necessidade de racionamento de água que está afetando os moradores da terra da garoa e isso – e tudo que tenho visto e escutado falar sobre a situação – evoca em mim a certeza de que pelo menos uma coisa se pode dizer com tranquilidade sólida em meio à selva dessa tal pós-modernidade líquida: a falta de sintonia e solidariedade advinda da total falta de senso de comunidade (ou comunhão) é gritante nessas horas e seus sua escalada cavalga num veloz manga-larga desgarrado da manada dos quatro, aqueles.

Há tempos eu carrego comigo – e distribuo níqueis de filosofia ‘pulp’ a quem me pede – uma sutil, tanto quanto catastrófica, comparação, onde a humanidade ocidental debocha de si mesma sem nem perceber: é difícil não ter, ainda, parado para pensar que um costume leviano e mesquinho dos habitantes desse planeta, hoje em dia, é agir em grau efetivo de solidariedade apenas em situações de catástrofe extrema (não é qualquer catástrofe) ou em momentos em que uma falsa ideia de solidariedade se permite servir de disfarce para instinto de sobrevivência potencializado pelo individualismo exacerbado. Só somos ‘comunidade’ (e ainda assim, momentânea, fugazmente) em casos de desgraça. E de desgraça que nos afete, que fique bem claro: se crianças morrem em Gaza ou um dinossauro vaga pela costa japonesa destruindo cidades, não é tão importante quanto uma ausência de vagas para estacionamento, aqui, na quadra, no geral.

A metáfora perfeita para a vida atual, nesse contexto, é uma TV ligada em um seriado televisivo onde o pouco que resta da vida inteligente na Terra é obrigado a se unir encastelado em um presídio (suprema ironia) para decidir o que fazer diante de uma horda de zumbis imperante. Precisamos de um cenário desses – ou de um desabamento ou incêndio – para nos enxergarmos como irmãos ou aliados, ainda que nomes e histórias de vida sejam desconhecidos? Cada vez mais, sim. Não conseguimos incorporar a fraternidade em nosso dia-a-dia de modo a utilizar esse fator como algo bom, produtivo, cotidiano e perene. Ao contrário: os laços fraternos são esquecidos ou dissipados assim como folha ao vento ou desodorante, assim que a situação que clama pela união emergencial igualmente se dissipa. Não somos concidadãos. Não somos irmãos nem paisanos nem nada do tipo.

Umberto Eco salientou em um artigo já datado – da época da comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa – chamado perspicazmente de “O Sr./Sra. Derrubaria a Bastilha?” que o vermelho da fraternidade sempre esteve em baixa ao contrário do azul da liberdade e/ou do branco da igualdade e as deturpações (ou cinquenta tons…) que essas ‘cores’ sofreram ideologicamente desde então.

A escassa vida inteligente na Terra é obrigada a se encastelar diante da horda de zumbis imperante.
A escassa vida inteligente na Terra é obrigada a se encastelar diante da horda de zumbis imperante.

O caso da falta de H2O nas torneiras e chuveiros paulistas espelha bem o caso: relatos dão conta de que – por óbvio – a crise no abastecimento aflige com toques de recolher na secura os encanamentos de algumas áreas em detrimento de outras em que o funcionamento é ‘quase’ normal e ainda em situação alheia a aquela de outras (ainda – todos iguais, mas uns mais iguais) onde nem sinal, nem tchum. Dias de glamour que seguem na santa paz.

O mais incrível de tudo isso é a possibilidade de, nesse caso, ser espelhada, como sinceridade hi-fi, um modelo social (por acaso: o nosso) onde as pessoas acreditam piamente na ilusão confortável do desvirtuamento do iluminismo que distorce tudo para fazer crer que vivemos em um mundo onde temos apenas direitos e só.

Não falo nem daquela velha (e conservadora) bravata retórica sofista de contrapor ‘direitos’ a ‘deveres’ e que em casos como esse sempre surge com ares de lição (chinfrim) de moral. Falo sobre uma noção de “direitos’ que vem acoplada a uma simples, rasteira, pura e ausente de ‘pegadinhas’ ou más-intenções noção de, solidariedade, porra.

No início do ano passado, após um incidente em um jogo do Corinthians pela Libertadores da América (é tanta paulistagem que estou quase colocando um disco dos Demônios aqui na vitrola – lá no morro, onde a luz da Light pifa – e a água da Sabesp idem, em versão 2014), em que um garoto foi morto pelo disparo de um foguete a partir da torcida alvinegra, o time foi proibido de disputar alguns jogos em casa com a presença de público. Quatro (ou três, ou cinco, não lembro nem importa) pessoas impetraram um Mandado de Segurança perante a Justiça Estadual para que pudessem “furar o bloqueio” que consistia em punição e assistir ao jogo no estádio vazio. Não me espanta que pessoas ingressem com medidas judiciais de todo o tipo e contendo todos os pedidos de provimento que achem cabíveis e devidos: espanta que pessoas creiam piamente de que de fato detenham alguns direitos como esses e que o judiciário chancele isso, volta e meia.

Há mais de dez anos, diante de uma possibilidade de apagões e falta de energia elétrica em algumas áreas do país, e diante de um plano/pedido estratégico de racionamento pelo Governo Federal (acho que era na segunda gestão FHC – se a memória não falha), circulou pela web uma carta/manifesto supostamente atribuída a Ziraldo, explicando em linguagem chula e mal redigida o porquê de o povo ter que se “revoltar” contra isso e conclamando todos a “buscarem seus direitos” e “não aderir” ao racionamento.

Ainda falando em Corinthians, alguns opositores do atual governo e da existência de Copa do Mundo chegaram a sugerir (via essa central de horrores que se transformou a timeline do Facebook) que o Brasil todo na hora do jogo de abertura do evento, no Itaquerão, procurasse elevar o consumo individual de energia ao máximo para promover uma espécie de colapso que iria ocasionar a queda de energia durante o evento e conflagrar o fiasco (uma proposição nobre que permite uma substancial análise do coeficiente de inteligência dos envolvidos). Não faltará gente ingressando com medidas judiciais oriundas de alguns bairros nobres exigindo judicialmente a manutenção dos serviços normais de abastecimento em detrimento de quaisquer condições relativas à equalização de tal fornecimento, ignorando que (mais do que já ocorre), se a escassez é realmente alarmante como se supõe, manter os níveis normais para alguns significa – cretina e assumidamente – reduzir mais ainda ou rarear para outros.

O direito, nessa quadra histórica, quase sempre vem como a cavalaria do jargão, embora chegue quase sempre atrasado e – ao contrário daquela, metafórica, (quase) sempre chega dando a voadora providencial no combatente do lado errado. Não é preciso dizer onde a corda estoura: em bairros da periferia, a água vem a conta gotas e em horário marcado – como tudo que é marcado na vida dessa gente: o horário do trem e dos sei lá quantos ônibus que varam a madrugada para levar trabalhadores, o horário do ponto, o horário do almoço. Povo marcado, ê, povo infeliz.

Sinistro: nessas horas, cabe você parar de distribuir memes de solidariedade, compaixão, amor, Osho e coisas do tipo pelo mundo virtual e perceber que a defesa individualista dos seus direitos por vezes cega, ou abruptamente se choca com, o caráter verdadeiramente solidário da coisa: ao invés de aguentar junto o tirão, segurar junto a barra, a ideia das pessoas é sempre a de garantir o mínimo de perturbação e alteração de seu status primordial e defender isso tal um direito. Percebe-se a banalização do termo já por aí.

Não há como levar a sério uma sociedade que está formatada para defender direitos, nessa linha categórica, e que realmente acredita que a defesa atomizada dos mesmos não passa jamais por reconfigurar as condições do ‘contrato’ quando elas próprias (e ele próprio) precisam ser pontual ou emergencialmente corrigidas. Ninguém gosta de se ver tolhido ou racionado em seus elementos de conforto da vida urbana atual, mas as pessoas que são contra o racionamento de água e seus argumentos me lembram da parcela mais triste da população que representa, na mesma toada, a parcela mais triste da configuração do homo contemporâneo: os ‘revolucionários’ que bradam a todo instante contra ‘tudo o que está aí’, mas – pero no mucho – não aceitam qualquer princípio de ‘revolução’ que revogue ou revisite as benesses que compõe o set de pequenos prazeres de sua vida assentida como ideal.

Alguns aí tem como ápice de mudança do mundo crianças consultando tablets ao som de uma música do Eric Clapton em uma propaganda do Itaú. Se tiverem que perder algumas moedas ou gravetos no curso desta ‘revolução’, aí já saltam fora (e pedem indenização. E ganham).

escrito por:

Gabriel Divan

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