Solidariedade líquida

Em Consciência, Sociedade por Gabriel DivanComentário

Numa noite há mui­tas noi­tes
Mas de modo dife­rente
De como há dias no dia
espe­ci­al­mente nos bair­ros onde a luz é pouca)”
Fer­reira Gul­lar, Poema Sujo

Não pre­tendo abor­dar aqui temas rela­ti­vos à bacia hidro­grá­fica pau­lis­tana (que eu nada entendo de bacia hidro­grá­fica), muito menos tra­ba­lhar cien­ti­fi­ca­mente com dados rela­ti­vos ao abas­te­ci­mento e/ou os len­çóis freá­ti­cos que cir­cun­dam a capi­tal pau­lista (des­con­fio que no ran­king dos assun­tos que não me são cabí­veis de abor­dar por ausên­cia total de conhe­ci­mento de causa, len­çóis freá­ti­cos per­cam ape­nas para a capi­tal pau­lista em si). O fato é que há uma neces­si­dade de raci­o­na­mento de água que está afe­tando os mora­do­res da terra da garoa e isso – e tudo que tenho visto e escu­tado falar sobre a situ­a­ção – evoca em mim a cer­teza de que pelo menos uma coisa se pode dizer com tran­qui­li­dade sólida em meio à selva dessa tal pós-moder­ni­dade líquida: a falta de sin­to­nia e soli­da­ri­e­dade advinda da total falta de senso de comu­ni­dade (ou comu­nhão) é gri­tante nes­sas horas e seus sua esca­lada cavalga num veloz manga-larga des­gar­rado da manada dos qua­tro, aque­les.

Há tem­pos eu car­rego comigo – e dis­tri­buo níqueis de filo­so­fia ‘pulp’ a quem me pede – uma sutil, tanto quanto catas­tró­fica, com­pa­ra­ção, onde a huma­ni­dade oci­den­tal debo­cha de si mesma sem nem per­ce­ber: é difí­cil não ter, ainda, parado para pen­sar que um cos­tume levi­ano e mes­qui­nho dos habi­tan­tes desse pla­neta, hoje em dia, é agir em grau efe­tivo de soli­da­ri­e­dade ape­nas em situ­a­ções de catás­trofe extrema (não é qual­quer catás­trofe) ou em momen­tos em que uma falsa ideia de soli­da­ri­e­dade se per­mite ser­vir de dis­farce para ins­tinto de sobre­vi­vên­cia poten­ci­a­li­zado pelo indi­vi­du­a­lismo exa­cer­bado. Só somos ‘comu­ni­dade’ (e ainda assim, momen­tâ­nea, fugaz­mente) em casos de des­graça. E de des­graça que nos afete, que fique bem claro: se cri­an­ças mor­rem em Gaza ou um dinos­sauro vaga pela costa japo­nesa des­truindo cida­des, não é tão impor­tante quanto uma ausên­cia de vagas para esta­ci­o­na­mento, aqui, na qua­dra, no geral.

A metá­fora per­feita para a vida atual, nesse con­texto, é uma TV ligada em um seri­ado tele­vi­sivo onde o pouco que resta da vida inte­li­gente na Terra é obri­gado a se unir encas­te­lado em um pre­sí­dio (suprema iro­nia) para deci­dir o que fazer diante de uma horda de zum­bis impe­rante. Pre­ci­sa­mos de um cená­rio des­ses – ou de um desa­ba­mento ou incên­dio — para nos enxer­gar­mos como irmãos ou ali­a­dos, ainda que nomes e his­tó­rias de vida sejam des­co­nhe­ci­dos? Cada vez mais, sim. Não con­se­gui­mos incor­po­rar a fra­ter­ni­dade em nosso dia-a-dia de modo a uti­li­zar esse fator como algo bom, pro­du­tivo, coti­di­ano e perene. Ao con­trá­rio: os laços fra­ter­nos são esque­ci­dos ou dis­si­pa­dos assim como folha ao vento ou deso­do­rante, assim que a situ­a­ção que clama pela união emer­gen­cial igual­mente se dis­sipa. Não somos con­ci­da­dãos. Não somos irmãos nem pai­sa­nos nem nada do tipo.

Umberto Eco sali­en­tou em um artigo já datado – da época da come­mo­ra­ção dos 200 anos da Revo­lu­ção Fran­cesa – cha­mado pers­pi­caz­mente de “O Sr./Sra. Der­ru­ba­ria a Bas­ti­lha?” que o ver­me­lho da fra­ter­ni­dade sem­pre esteve em baixa ao con­trá­rio do azul da liber­dade e/ou do branco da igual­dade e as detur­pa­ções (ou cin­quenta tons…) que essas ‘cores’ sofre­ram ide­o­lo­gi­ca­mente desde então.

A escassa vida inteligente na Terra é obrigada a se encastelar diante da horda de zumbis imperante.

A escassa vida inte­li­gente na Terra é obri­gada a se encas­te­lar diante da horda de zum­bis impe­rante.

O caso da falta de H2O nas tor­nei­ras e chu­vei­ros pau­lis­tas espe­lha bem o caso: rela­tos dão conta de que – por óbvio – a crise no abas­te­ci­mento aflige com toques de reco­lher na secura os enca­na­men­tos de algu­mas áreas em detri­mento de outras em que o fun­ci­o­na­mento é ‘quase’ nor­mal e ainda em situ­a­ção alheia a aquela de outras (ainda – todos iguais, mas uns mais iguais) onde nem sinal, nem tchum. Dias de gla­mour que seguem na santa paz.

O mais incrí­vel de tudo isso é a pos­si­bi­li­dade de, nesse caso, ser espe­lhada, como sin­ce­ri­dade hi-fi, um modelo social (por acaso: o nosso) onde as pes­soas acre­di­tam pia­mente na ilu­são con­for­tá­vel do des­vir­tu­a­mento do ilu­mi­nismo que dis­torce tudo para fazer crer que vive­mos em um mundo onde temos ape­nas direi­tos e só.

Não falo nem daquela velha (e con­ser­va­dora) bra­vata retó­rica sofista de con­tra­por ‘direi­tos’ a ‘deve­res’ e que em casos como esse sem­pre surge com ares de lição (chin­frim) de moral. Falo sobre uma noção de “direi­tos’ que vem aco­plada a uma sim­ples, ras­teira, pura e ausente de ‘pega­di­nhas’ ou más-inten­ções noção de, soli­da­ri­e­dade, porra.

No iní­cio do ano pas­sado, após um inci­dente em um jogo do Corinthi­ans pela Liber­ta­do­res da Amé­rica (é tanta pau­lis­ta­gem que estou quase colo­cando um disco dos Demô­nios aqui na vitrola – lá no morro, onde a luz da Light pifa – e a água da Sabesp idem, em ver­são 2014), em que um garoto foi morto pelo dis­paro de um foguete a par­tir da tor­cida alvi­ne­gra, o time foi proi­bido de dis­pu­tar alguns jogos em casa com a pre­sença de público. Qua­tro (ou três, ou cinco, não lem­bro nem importa) pes­soas impe­tra­ram um Man­dado de Segu­rança perante a Jus­tiça Esta­dual para que pudes­sem “furar o blo­queio” que con­sis­tia em puni­ção e assis­tir ao jogo no está­dio vazio. Não me espanta que pes­soas ingres­sem com medi­das judi­ci­ais de todo o tipo e con­tendo todos os pedi­dos de pro­vi­mento que achem cabí­veis e devi­dos: espanta que pes­soas creiam pia­mente de que de fato dete­nham alguns direi­tos como esses e que o judi­ciá­rio chan­cele isso, volta e meia.

Há mais de dez anos, diante de uma pos­si­bi­li­dade de apa­gões e falta de ener­gia elé­trica em algu­mas áreas do país, e diante de um plano/pedido estra­té­gico de raci­o­na­mento pelo Governo Fede­ral (acho que era na segunda ges­tão FHC – se a memó­ria não falha), cir­cu­lou pela web uma carta/manifesto supos­ta­mente atri­buída a Ziraldo, expli­cando em lin­gua­gem chula e mal redi­gida o porquê de o povo ter que se “revol­tar” con­tra isso e con­cla­mando todos a “bus­ca­rem seus direi­tos” e “não ade­rir” ao raci­o­na­mento.

Ainda falando em Corinthi­ans, alguns opo­si­to­res do atual governo e da exis­tên­cia de Copa do Mundo che­ga­ram a suge­rir (via essa cen­tral de hor­ro­res que se trans­for­mou a time­line do Face­book) que o Bra­sil todo na hora do jogo de aber­tura do evento, no Ita­que­rão, pro­cu­rasse ele­var o con­sumo indi­vi­dual de ener­gia ao máximo para pro­mo­ver uma espé­cie de colapso que iria oca­si­o­nar a queda de ener­gia durante o evento e con­fla­grar o fiasco (uma pro­po­si­ção nobre que per­mite uma subs­tan­cial aná­lise do coe­fi­ci­ente de inte­li­gên­cia dos envol­vi­dos). Não fal­tará gente ingres­sando com medi­das judi­ci­ais oriun­das de alguns bair­ros nobres exi­gindo judi­ci­al­mente a manu­ten­ção dos ser­vi­ços nor­mais de abas­te­ci­mento em detri­mento de quais­quer con­di­ções rela­ti­vas à equa­li­za­ção de tal for­ne­ci­mento, igno­rando que (mais do que já ocorre), se a escas­sez é real­mente alar­mante como se supõe, man­ter os níveis nor­mais para alguns sig­ni­fica – cre­tina e assu­mi­da­mente – redu­zir mais ainda ou rarear para outros.

O direito, nessa qua­dra his­tó­rica, quase sem­pre vem como a cava­la­ria do jar­gão, embora che­gue quase sem­pre atra­sado e – ao con­trá­rio daquela, meta­fó­rica, (quase) sem­pre chega dando a voa­dora pro­vi­den­cial no com­ba­tente do lado errado. Não é pre­ciso dizer onde a corda estoura: em bair­ros da peri­fe­ria, a água vem a conta gotas e em horá­rio mar­cado – como tudo que é mar­cado na vida dessa gente: o horá­rio do trem e dos sei lá quan­tos ôni­bus que varam a madru­gada para levar tra­ba­lha­do­res, o horá­rio do ponto, o horá­rio do almoço. Povo mar­cado, ê, povo infe­liz.

Sinis­tro: nes­sas horas, cabe você parar de dis­tri­buir memes de soli­da­ri­e­dade, com­pai­xão, amor, Osho e coi­sas do tipo pelo mundo vir­tual e per­ce­ber que a defesa indi­vi­du­a­lista dos seus direi­tos por vezes cega, ou abrup­ta­mente se choca com, o cará­ter ver­da­dei­ra­mente soli­dá­rio da coisa: ao invés de aguen­tar junto o tirão, segu­rar junto a barra, a ideia das pes­soas é sem­pre a de garan­tir o mínimo de per­tur­ba­ção e alte­ra­ção de seu sta­tus pri­mor­dial e defen­der isso tal um direito. Per­cebe-se a bana­li­za­ção do termo já por aí.

Não há como levar a sério uma soci­e­dade que está for­ma­tada para defen­der direi­tos, nessa linha cate­gó­rica, e que real­mente acre­dita que a defesa ato­mi­zada dos mes­mos não passa jamais por recon­fi­gu­rar as con­di­ções do ‘con­trato’ quando elas pró­prias (e ele pró­prio) pre­ci­sam ser pon­tual ou emer­gen­ci­al­mente cor­ri­gi­das. Nin­guém gosta de se ver tolhido ou raci­o­nado em seus ele­men­tos de con­forto da vida urbana atual, mas as pes­soas que são con­tra o raci­o­na­mento de água e seus argu­men­tos me lem­bram da par­cela mais triste da popu­la­ção que repre­senta, na mesma toada, a par­cela mais triste da con­fi­gu­ra­ção do homo con­tem­po­râ­neo: os ‘revo­lu­ci­o­ná­rios’ que bra­dam a todo ins­tante con­tra ‘tudo o que está aí’, mas – pero no mucho – não acei­tam qual­quer prin­cí­pio de ‘revo­lu­ção’ que revo­gue ou revi­site as benes­ses que com­põe o set de peque­nos pra­ze­res de sua vida assen­tida como ideal.

Alguns aí tem como ápice de mudança do mundo cri­an­ças con­sul­tando tablets ao som de uma música do Eric Clap­ton em uma pro­pa­ganda do Itaú. Se tive­rem que per­der algu­mas moe­das ou gra­ve­tos no curso desta ‘revo­lu­ção’, aí já sal­tam fora (e pedem inde­ni­za­ção. E ganham).

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