Lembro-me de um professor de História do cursinho que frequentei antes de fazer o vestibular. Ele, valendo-se de sua gloriosa arte para manter a atenção dos alunos em sua aula, discorreu sobre o seguinte: quem faz Medicina, fica burro.

Hipérboles à parte, o argumento dele era de que, o aluno, ao focar apenas nas artes médicas, e por ser uma faculdade que demanda muito estudo, aliena-se, vivenciando apenas uma faceta da vida e medicinando as outras.

O que disse o professor pode ser bem razoável, porém não só quanto à medicina. Hoje em dia existe o engenheiro especialista-em-vigas-de-aço-para-pontes-suspensas ou o médico especialista-em-cirurgia-na-unha-do-dedinho-do-pé-esquerdo, em uma crescente especialização e consequente compartimentalização das áreas do conhecimento.

Quando se disseca uma parte da natureza, focando-se nela e dedicando-se às suas particularidades ponto de encará-la como um ente absolutamente independente, corre-se o risco de desconsiderar as mais variadas influências e relações ao qual está enozada, em especial aquelas que ainda não fazem parte do conhecimento da humanidade. No exemplo das áreas do conhecimento, não seria interessante refletir, por exemplo, o que a Economia tem a ver com a Biologia? Ou a Psicologia com a Física? A Arte com a Medicina? Estarão mesmo estas coisas tão longe uma das outras? 

Com a Revolução Industrial, o advento da mecânica, das máquinas a vapor, e toda aquela coisa que a gente vê na escola, uma ideia chamada Mecanicismo pairava na mente dos que tentavam compreender o Universo. Assistindo todas as grandes inovações que surgiam na época, eles chegaram a conceber o Universo como uma grande máquina que funcionava mecanicamente. Logo, se o Universo é mecânico e as coisas são todas mecânicas, basta a cada indivíduo ou grupo cuidar de uma engrenagem da grande máquina para que ela continue funcionando, abstendo-se de qualquer conhecimento sobre o funcionamento das outras peças para deixá-lo aos “especialistas” encarregados. Parece razoável, se for esta a verdade.

Mas e se não for? E se o Universo fosse mais como algo, digamos, orgânico? Em uma analogia a um corpo biológico, cada célula possui uma função ao mesmo tempo em que contém em si mesma a informação da totalidade do organismo da qual faz parte, esta antepenúltima denominada DNA. A célula não deve apenas realizar a sua função, ou a sua vocação, mas estar de acordo com a sinfonia harmônica que compõe o conjunto do trabalho das outras células, que na sua síntese resulta em único ser vivo. Citando Aristóteles e a escola psicológica da Gestalt: “O Todo é a maior que a soma das partes.” Diga-se mais: é bem conhecido o processo pelo qual uma célula, de certa forma, se esquece o todo ao qual faz parte e trabalha para si mesma; chama-se câncer. 

Não parece ser isto, precisamente, o processo pelo qual a humanidade passa no momento? Cada um cuidando de si, das suas ideias, da sua profissão, e esquecendo-se completamente que não é um ser isolado no mundo? Assim como a humanidade como um todo, que pela ilusão de estar completamente diferenciado do resto da natureza, a utiliza como serva das suas ambiciosas intenções. 

Em contrapartida, menciona-se agora outro povo, outros tempos e outra visão de mundo.

Segundo Luis Carlos Marques, presidente da Nova Acrópole do Brasil, em uma palestra de introdução ao curso de filosofia à maneira clássica oferecido pela instituição, há um antigo ensinamento egípcio baseado na figura de uma pirâmide que contempla as ditas quatro facetas de expressão humana, que correspondem aos quatro vértices inferiores da pirâmide. São eles: a ciência, a arte, a religião e a política. Na imagem aqui postada, ainda consta o vértice superior que é denominado “Bem – Sabedoria”, para indicar os princípios que unem e são comuns aos quatro vértices inferiores, e ainda um caminho no centro da pirâmide, que corresponde à filosofia.

ncsabedoria

Se iniciássemos a subida até o vértice superior por uma das facetas correspondentes aos vértices inferiores, veríamos com surpresa que a distância entre cada vertente diminui. Contrariamente ao que possa se ver de baixo, todos os caminhos levariam a uma mesma Verdade essencial através das diferentes vias, segundo a natureza do ser humano que a escolheu. 

Trata-se, portanto, de uma visão de mundo totalmente oposta à atual, em que o indivíduo, ao aprofundar-se em seus estudos e vivências, mais compreende a relação das partes do Todo que ele contempla com os outros fenômenos do mesmo Todo. Logo, o especialista é aquele que realiza a sua vocação com a maior eficácia para a totalidade universal, já que ele a entende e busca serví-la.  Para tal, entretanto, é preciso que ele “suba pela vertente da pirâmide”, ou seja, necessita evoluir, transcender o seu objeto de devoção para que o integre às outras facetas da vida e veja as coisas com maior unidade. Se, ao contrário, ele analisar a situação estando na base da pirâmide, verá uma distância muito maior entre cada vértice, a ponto de talvez negá-los e quiçá “aumentar a base da pirâmide”, alienando-se na sua incompletude.

Na escola nos ensinam Biologia, Matemática, Português, Química, Física sem que nos seja apresentada qualquer relação ou sentido em estudar tais assuntos, sem nenhuma reflexão ou sequer uma pista de como relacionar todas essas matérias em uma síntese que as contenha (aliás, você conhece alguma criança que goste de ir à escola?). Somos apresentados a um mundo totalmente compartimentalizado que nos passa a mensagem que não importa a relação do que estudamos e aprendemos sobre o sentido e a vida em que vivemos. Estuda-se apenas para passar no vestibular e para ter um diploma: tal é a motivação que é apresentada aos estudantes.

Se for considerada a analogia anterior referente a um corpo biológico, talvez estejamos agindo como um câncer ao esquecermos quem somos; que, nesta lógica, seríamos “células da humanidade”, e, em outra instância, “células do planeta”. Mas claro, isso tudo se as coisas realmente não forem mecânicas, mas sim orgânicas. Tire suas próprias conclusões.

escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.


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