O sofware universal: máquina ou organismo?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Rodolfo Dall'AgnoComentários

Lem­bro-me de um pro­fes­sor de His­tó­ria do cur­si­nho que fre­quen­tei antes de fazer o ves­ti­bu­lar. Ele, valendo-se de sua glo­ri­osa arte para man­ter a aten­ção dos alu­nos em sua aula, dis­cor­reu sobre o seguinte: quem faz Medi­cina, fica burro.

Hipér­bo­les à parte, o argu­mento dele era de que, o aluno, ao focar ape­nas nas artes médi­cas, e por ser uma facul­dade que demanda muito estudo, ali­ena-se, viven­ci­ando ape­nas uma faceta da vida e medi­ci­nando as outras.

O que disse o pro­fes­sor pode ser bem razoá­vel, porém não só quanto à medi­cina. Hoje em dia existe o enge­nheiro espe­ci­a­lista-em-vigas-de-aço-para-pon­tes-sus­pen­sas ou o médico espe­ci­a­lista-em-cirur­gia-na-unha-do-dedi­nho-do-pé-esquerdo, em uma cres­cente espe­ci­a­li­za­ção e con­se­quente com­par­ti­men­ta­li­za­ção das áreas do conhe­ci­mento.

Quando se dis­seca uma parte da natu­reza, focando-se nela e dedi­cando-se às suas par­ti­cu­la­ri­da­des ponto de encará-la como um ente abso­lu­ta­mente inde­pen­dente, corre-se o risco de des­con­si­de­rar as mais vari­a­das influên­cias e rela­ções ao qual está eno­zada, em espe­cial aque­las que ainda não fazem parte do conhe­ci­mento da huma­ni­dade. No exem­plo das áreas do conhe­ci­mento, não seria inte­res­sante refle­tir, por exem­plo, o que a Eco­no­mia tem a ver com a Bio­lo­gia? Ou a Psi­co­lo­gia com a Física? A Arte com a Medi­cina? Esta­rão mesmo estas coi­sas tão longe uma das outras? 

Com a Revo­lu­ção Indus­trial, o advento da mecâ­nica, das máqui­nas a vapor, e toda aquela coisa que a gente vê na escola, uma ideia cha­mada Meca­ni­cismo pai­rava na mente dos que ten­ta­vam com­pre­en­der o Uni­verso. Assis­tindo todas as gran­des ino­va­ções que sur­giam na época, eles che­ga­ram a con­ce­ber o Uni­verso como uma grande máquina que fun­ci­o­nava meca­ni­ca­mente. Logo, se o Uni­verso é mecâ­nico e as coi­sas são todas mecâ­ni­cas, basta a cada indi­ví­duo ou grupo cui­dar de uma engre­na­gem da grande máquina para que ela con­ti­nue fun­ci­o­nando, abs­tendo-se de qual­quer conhe­ci­mento sobre o fun­ci­o­na­mento das outras peças para deixá-lo aos “espe­ci­a­lis­tas” encar­re­ga­dos. Parece razoá­vel, se for esta a ver­dade.

Mas e se não for? E se o Uni­verso fosse mais como algo, diga­mos, orgâ­nico? Em uma ana­lo­gia a um corpo bio­ló­gico, cada célula pos­sui uma fun­ção ao mesmo tempo em que con­tém em si mesma a infor­ma­ção da tota­li­dade do orga­nismo da qual faz parte, esta ante­pe­núl­tima deno­mi­nada DNA. A célula não deve ape­nas rea­li­zar a sua fun­ção, ou a sua voca­ção, mas estar de acordo com a sin­fo­nia harmô­nica que com­põe o con­junto do tra­ba­lho das outras célu­las, que na sua sín­tese resulta em único ser vivo. Citando Aris­tó­te­les e a escola psi­co­ló­gica da Ges­talt: “O Todo é a maior que a soma das par­tes.” Diga-se mais: é bem conhe­cido o pro­cesso pelo qual uma célula, de certa forma, se esquece o todo ao qual faz parte e tra­ba­lha para si mesma; chama-se cân­cer. 

Não parece ser isto, pre­ci­sa­mente, o pro­cesso pelo qual a huma­ni­dade passa no momento? Cada um cui­dando de si, das suas ideias, da sua pro­fis­são, e esque­cendo-se com­ple­ta­mente que não é um ser iso­lado no mundo? Assim como a huma­ni­dade como um todo, que pela ilu­são de estar com­ple­ta­mente dife­ren­ci­ado do resto da natu­reza, a uti­liza como serva das suas ambi­ci­o­sas inten­ções. 

Em con­tra­par­tida, men­ci­ona-se agora outro povo, outros tem­pos e outra visão de mundo.

Segundo Luis Car­los Mar­ques, pre­si­dente da Nova Acró­pole do Bra­sil, em uma pales­tra de intro­du­ção ao curso de filo­so­fia à maneira clás­sica ofe­re­cido pela ins­ti­tui­ção, há um antigo ensi­na­mento egíp­cio base­ado na figura de uma pirâ­mide que con­tem­pla as ditas qua­tro face­tas de expres­são humana, que cor­res­pon­dem aos qua­tro vér­ti­ces infe­ri­o­res da pirâ­mide. São eles: a ciên­cia, a arte, a reli­gião e a polí­tica. Na ima­gem aqui pos­tada, ainda consta o vér­tice supe­rior que é deno­mi­nado “Bem – Sabe­do­ria”, para indi­car os prin­cí­pios que unem e são comuns aos qua­tro vér­ti­ces infe­ri­o­res, e ainda um cami­nho no cen­tro da pirâ­mide, que cor­res­ponde à filo­so­fia.

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Se ini­ciás­se­mos a subida até o vér­tice supe­rior por uma das face­tas cor­res­pon­den­tes aos vér­ti­ces infe­ri­o­res, vería­mos com sur­presa que a dis­tân­cia entre cada ver­tente dimi­nui. Con­tra­ri­a­mente ao que possa se ver de baixo, todos os cami­nhos leva­riam a uma mesma Ver­dade essen­cial atra­vés das dife­ren­tes vias, segundo a natu­reza do ser humano que a esco­lheu. 

Trata-se, por­tanto, de uma visão de mundo total­mente oposta à atual, em que o indi­ví­duo, ao apro­fun­dar-se em seus estu­dos e vivên­cias, mais com­pre­ende a rela­ção das par­tes do Todo que ele con­tem­pla com os outros fenô­me­nos do mesmo Todo. Logo, o espe­ci­a­lista é aquele que rea­liza a sua voca­ção com a maior efi­cá­cia para a tota­li­dade uni­ver­sal, já que ele a entende e busca serví-la.  Para tal, entre­tanto, é pre­ciso que ele “suba pela ver­tente da pirâ­mide”, ou seja, neces­sita evo­luir, trans­cen­der o seu objeto de devo­ção para que o inte­gre às outras face­tas da vida e veja as coi­sas com maior uni­dade. Se, ao con­trá­rio, ele ana­li­sar a situ­a­ção estando na base da pirâ­mide, verá uma dis­tân­cia muito maior entre cada vér­tice, a ponto de tal­vez negá-los e quiçá “aumen­tar a base da pirâ­mide”, ali­e­nando-se na sua incom­ple­tude.

Na escola nos ensi­nam Bio­lo­gia, Mate­má­tica, Por­tu­guês, Quí­mica, Física sem que nos seja apre­sen­tada qual­quer rela­ção ou sen­tido em estu­dar tais assun­tos, sem nenhuma refle­xão ou sequer uma pista de como rela­ci­o­nar todas essas maté­rias em uma sín­tese que as con­te­nha (aliás, você conhece alguma cri­ança que goste de ir à escola?). Somos apre­sen­ta­dos a um mundo total­mente com­par­ti­men­ta­li­zado que nos passa a men­sa­gem que não importa a rela­ção do que estu­da­mos e apren­de­mos sobre o sen­tido e a vida em que vive­mos. Estuda-se ape­nas para pas­sar no ves­ti­bu­lar e para ter um diploma: tal é a moti­va­ção que é apre­sen­tada aos estu­dan­tes.

Se for con­si­de­rada a ana­lo­gia ante­rior refe­rente a um corpo bio­ló­gico, tal­vez este­ja­mos agindo como um cân­cer ao esque­cer­mos quem somos; que, nesta lógica, sería­mos “célu­las da huma­ni­dade”, e, em outra ins­tân­cia, “célu­las do pla­neta”. Mas claro, isso tudo se as coi­sas real­mente não forem mecâ­ni­cas, mas sim orgâ­ni­cas. Tire suas pró­prias con­clu­sões.

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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