“O julgamento de Sócrates é o primeiro caso na história em que um governo democrático, agindo conforme a lei, condenou uma pessoa à morte por suas crenças.”
Emily Wilson em A Morte de Sócrates (livro)

É difícil respeitar um homem que negligenciou sua mulher e filhos a fim de passar seu tempo bebendo e conversando com os amigos sobre as definições das palavras comuns.
Emily Wilson


Os tolos e os sábios de outrora são os mesmos tolos e sábios de hoje? Haveria uma linha tênue entre um e outro, a ponto de não sabermos mais a diferença entre sabedoria e trollagem? O que as anedotas da vida cotidiana e a história do pensamento ocidental tem a dizer sobre isso?

Na busca de respostas, podemos usar como referência de discussão dois exemplos muito influentes na história ocidental.

tiozãoUm deles é mais privado. Aquela refeição em família que sempre tem como personagem o tiozão. Um sujeito simpático, que ostenta sabedoria, que mais cedo ou mais tarde vai perguntar para os jovens do recinto, com aquele ar professoral, como anda a vida, a faculdade e o namoro — “e as namoradinha?”. O próximo passo, que em intenção é até útil mas sempre tem um final constrangedor, é falar de política, quase sempre defendendo a moralidade, os valores cristãos e a pena de morte (?) como solução mágica para todos os problemas da convivência em sociedade. Muitos vão defender até a volta da ditadura.

O outro exemplo é a história de um dos filósofos mais conhecidos do Ocidente: Sócrates. Sua morada, a Atenas de mais de 2000 anos atrás, foi o berço da democracia. As discussões abarcavam as ágoras, e todos tinham direito de voz quando o assunto era a pólis, ou seja, os destinos do povo e da cidade-estado.

No entanto, assim como Atenas não era tão democrática quanto parece (lembre-se de que escravos e mulheres não participavam das decisões), Sócrates não era tão humilde e sábio quanto o estereótipo nos leva a crer. Esqueça essa história de “só sei que nada sei” como uma prova de submissão ou humildade.

Esses equívocos mostram que o mundo grego na época não era tão livre e sensato quanto parece. Na verdade, Atenas poderia ser como uma versão offline do facebook ou qualquer outra rede social: um monte de gente dando pitacos sobre assuntos dos quais não entende, com a falsa sensação de diálogo, um lugar em que cada indivíduo quer somente fazer valer suas crenças pré-concebidas.

 

O homem que se tornou Sócrates

Oráculo de Delfos segundo George Edward Robertson
Oráculo de Delfos segundo George Edward Robertson

Sócrates marcou o Ocidente. Ele foi o grande cordeiro ocidental que não fez coro ao “afasta de mim esse cálice” cristão, mas, ao invés disso, aceitou de bom grado um cálice de cicuta. Essa foi a pena por perverter a juventude e a Atenas democrática, como diz o relato de Polycrates, escrito cerca de sete anos após a condenação (o mais antigo relato sobre Sócrates).

O ateniense com cara de girino também é conhecido hoje como o ápice da sabedoria aliada a um espírito modesto. No entanto, ele parece ter sido muitas coisas em vida — mas sobre ser modesto, restam algumas dúvidas.

Sua gênese pessoal ocorre a partir da visita de um amigo ao oráculo localizado em Delfos. O lugar era uma construção simples, mas imponente, o Templo de Apolo. Em sua entrada, estava a inscrição “Gnothi seauton” (Conhece-te a ti mesmo). A profecia cumpriu a si própria.

Neo teria derrubado os biscoitos se a Oráculo não tivesse previsto isso? Sócrates teria se tornado um filósofo se o Oráculo de Delfos não tivesse previsto isso?
Neo teria derrubado os biscoitos se a Oráculo não tivesse previsto isso? Sócrates teria se tornado um filósofo se o Oráculo de Delfos não tivesse previsto isso?

Tudo começou com uma pergunta feita pelo amigo do filósofo: “Existe alguém mais sábio do que Sócrates?” [ok, eu também me perguntei por que o cara foi no templo e resolveu fazer uma pergunta sobre outra pessoa, não sobre ele mesmo]. A resposta foi “não”, o que intrigou ao próprio Sócrates.

“O que afinal o deus Apolo quer dizer e qual é o enigma que está propondo? Eu sei que não sou sábio em nenhuma medida. Então, qual o significado de suas palavras ao declarar que sou o mais sábio?”

Inquieto, o sábio beberrão saiu pela polis questionando a todos sobre o que era sabedoria, afinal. Esse era o método socrático, sua maiêutica. Sócrates questionava o interlocutor sobre as definições das palavras que usava até que pudesse chegar a conceitos absolutos — que de fato nunca encontrava. Não é difícil imaginar por que ele irritou várias pessoas (e fascinou outras) ao longo do caminho. Alguns achavam esse um mero show-off, outros se encantavam com sua sabedoria demolidora.

Para perceber que Sócrates não estava verdadeiramente querendo destilar humildade, é preciso entender que seus diálogos faziam uso constante da chamada eironeia [ironia, hipocrisia]. Seu objetivo era, na verdade, confundir seus interlocutores e sair com a imagem de vencedor do debate.

Aliás, como vencer um debate em que a única coisa que o oponente faz é desconstruir os conceitos usados em cada argumento? Não por acaso, essa herança negativa da técnica socrática é a ferramenta legítima da pós-modernidade, que tanto infesta o mundo acadêmico quanto os eruditos do mundo facebookiano — o que nos leva a uma terceira relação entre o mundo de Sócrates e a sociedade atual. É como participar de uma luta de boxe e apenas se esquivar de todos os ataques até cansar o oponente, mas nunca desferindo o golpe final.

Alan Sokal - imposturas intelectuais
Talvez tivesse sido melhor Sokal ter escrito Imposturas Intelectuais começando por Sócrates, não pela pós-modernidade.

Talvez o mais perturbador nisso seja uma alternativa à chamada eironeia. É possível que o falastrão-sábio não fizesse de propósito. Ele poderia ter realmente a sensação sincera de estar perseguindo uma verdade intelectual maior — apesar de nem I. F. Stone nem Emily Wilson concordarem com essa opção.

 

Sócrates, o tiozão na mesa de jantar

Depois que li O Julgamento de Sócrates (livro), do jornalista erudito I. F. Stone, só consigo pensar que Sócrates é uma versão beta, porém muito mais influente e interessante, do tiozão que acha que a pena de morte e a volta da ditadura militar é a melhor solução para a política e para os dilemas da sociedade.

Certamente isso vai contra muito do que a opinião popular acredita, mas a verdade é que Sócrates achava a vida política uma perda de tempo. Lembre-se de que ele não tinha o costume de participar das discussões importantes para a pólis grega, nas ágoras. Ele era como um tiozão que se restringe a falar de sua filosofia para seus amigos, enquanto bebe cerveja num bar, mas que se recusa a expor sua opinião no facebook — o que é uma analogia limitada, porque talvez o facebook se assemelhe mais a um bar, mas de forma alguma a uma ágora.

Segundo os relatos de Xenofonte, o tio de Platão, Cármides, ao se queixar dizendo que participava bem de debates privados mas era tímido demais para se meter numa discussão pública, recebeu uma chamada de seu “mestre”: “Não se intimida diante dos mais sábios, mas se envergonha de falar perante os mais ignorantes e fracos”. Sócrates não era brasileiro, mas com certeza nutria desesperança pela política. Percebe-se também certo esnobismo social. O frequentador de bar e sua patotinha de pensadores boêmios talvez se achassem moralmente superiores aos fracos políticos.

Aliás, seu grupo se achava superior até mesmo à democracia. Relatos posteriores à morte de Sócrates e até relatos de alguns discípulos parecem indicar que eles se identificavam mais com o modo de vida espartano.

Segundo o argumento central da utopia política que Platão imagina em A República, em parte inspirado por seu mestre Sócrates, o governante ideal seria o rei filósofo, um monarca sábio, que deteria o conhecimento necessário para governar. A lógica é até válida: se para consertar um sapato chamamos um sapateiro, quem chamaremos para “consertar” a política? Um leigo? O ideal seria alguém equipado com os saberes necessários para tal atividade.

O problema é que, na prática, projetos desse tipo acabam caindo em algum tipo de tirania. Nenhuma elite intelectual vai deixar de lado sua ânsia demasiado humana de poder quando assumir o governo.

Assim, Sócrates era favorável a um governo muito semelhante ao da cidade-estado espartana. Inclusive há uma peça do dramaturgo Aristófanes que retrata o filósofo e seus parceiros como um grupo visualmente lacômano [alguém admirador das coisas da Lacônia ou Esparta]. Eles pareciam ter maneiras rudes, aparência maltrapilha, cabelos descuidados e talvez até andassem pela rua carregando porretes.

O sujeito, então, parecia não só defender uma ditadura, mas também estar disposto a integrar uma espécie de milícia armada. De fato, seu discípulo mais querido, Alcibíades, apoiou veementemente o fim da democracia ateniense, inclusive sendo uma espécie de black bloc. O próprio Sócrates não parecia chegar a tanto, mas no final das contas essas fofocas urbanas e os atos impensados de discípulos como Alcibíades pareceram servir de evidência para sua posterior condenação.

This is Sparta! - 300, o filme
Imagina que louco se te dissessem que os seguidores de Sócrates se parecessem mais com esse cara do que com filósofos pacíficos e conversadores.

Sob certo ângulo, Sócrates era tudo que um tiozão gostaria de ser. Ele tinha seu próprio grupo fiel para ficar no bar bebericando e ouvindo suas reflexões. Sua esposa estava em casa cuidando dos filhos. Sua visão era a de que a democracia não só era algo ineficiente, mas também uma afronta à moral. E ainda tinha uma proto-milícia.

Naqueles tempos remotos, biroscas e centros importantes de debate eram os locais onde as pessoas discutiam os assuntos do dia. Muitas delas, até a maioria, eram leigas, mas tinham o direito de se expor e participar do destino ateniense. Hoje temos nossa própria versão da ágora, que é a internet e seus meios de estimular os usuários a debaterem.

O problema é que tanto numa época quanto em outra, esse modelo também é um terreno fértil para defesas extremadas que depõem contra o sistema de liberdade que permitiu o surgimento desse tipo de plataforma democrática. Não estou dizendo que esse tipo de pessoa é um troll inútil — afinal, esse não foi o caso de Sócrates e de muitos de seus discípulos. Eles ajudaram a forjar a história ocidental.

Às vezes, as coisas só saem do controle. E isso é preocupante em tempos de crise de democracia. Assim como hoje passamos por uma crise, a democracia ateniense estava às portas de uma outra, justamente em função de manifestações cada vez mais crescentes pelo empoderamento de um governo mais rígido.


Este texto foi possível graças ao apoio de Victor Brayner, nosso patrão. Seja você também um patrão do AZ, clique aqui.


Você pode querer ler também:

Como acabar com tretas e ter debates transformadores
Por que não estudamos a filosofia oriental?

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.