Busto de Sócrates em mármore

O banquete de Sócrates e o churrasco do tiozão

Em Consciência, Filosofia por Felipe NovaesComentário

O jul­ga­mento de Sócra­tes é o pri­meiro caso na his­tó­ria em que um governo demo­crá­tico, agindo con­forme a lei, con­de­nou uma pes­soa à morte por suas cren­ças.”
Emily Wil­son em A Morte de Sócra­tes (livro)

É difí­cil res­pei­tar um homem que negli­gen­ciou sua mulher e filhos a fim de pas­sar seu tempo bebendo e con­ver­sando com os ami­gos sobre as defi­ni­ções das pala­vras comuns.
Emily Wil­son


Os tolos e os sábios de outrora são os mes­mos tolos e sábios de hoje? Have­ria uma linha tênue entre um e outro, a ponto de não saber­mos mais a dife­rença entre sabe­do­ria e trol­la­gem? O que as ane­do­tas da vida coti­di­ana e a his­tó­ria do pen­sa­mento oci­den­tal tem a dizer sobre isso? 

Na busca de res­pos­tas, pode­mos usar como refe­rên­cia de dis­cus­são dois exem­plos muito influ­en­tes na his­tó­ria oci­den­tal.

tiozãoUm deles é mais pri­vado. Aquela refei­ção em famí­lia que sem­pre tem como per­so­na­gem o tio­zão. Um sujeito sim­pá­tico, que ostenta sabe­do­ria, que mais cedo ou mais tarde vai per­gun­tar para os jovens do recinto, com aquele ar pro­fes­so­ral, como anda a vida, a facul­dade e o namoro — “e as namo­ra­di­nha?”. O pró­ximo passo, que em inten­ção é até útil mas sem­pre tem um final cons­tran­ge­dor, é falar de polí­tica, quase sem­pre defen­dendo a mora­li­dade, os valo­res cris­tãos e a pena de morte (?) como solu­ção mágica para todos os pro­ble­mas da con­vi­vên­cia em soci­e­dade. Mui­tos vão defen­der até a volta da dita­dura.

O outro exem­plo é a his­tó­ria de um dos filó­so­fos mais conhe­ci­dos do Oci­dente: Sócra­tes. Sua morada, a Ate­nas de mais de 2000 anos atrás, foi o berço da demo­cra­cia. As dis­cus­sões abar­ca­vam as ágo­ras, e todos tinham direito de voz quando o assunto era a pólis, ou seja, os des­ti­nos do povo e da cidade-estado. 

No entanto, assim como Ate­nas não era tão demo­crá­tica quanto parece (lem­bre-se de que escra­vos e mulhe­res não par­ti­ci­pa­vam das deci­sões), Sócra­tes não era tão humilde e sábio quanto o este­reó­tipo nos leva a crer. Esqueça essa his­tó­ria de “só sei que nada sei” como uma prova de sub­mis­são ou humil­dade.

Esses equí­vo­cos mos­tram que o mundo grego na época não era tão livre e sen­sato quanto parece. Na ver­dade, Ate­nas pode­ria ser como uma ver­são offline do face­book ou qual­quer outra rede social: um monte de gente dando pita­cos sobre assun­tos dos quais não entende, com a falsa sen­sa­ção de diá­logo, um lugar em que cada indi­ví­duo quer somente fazer valer suas cren­ças pré-con­ce­bi­das.

 

O homem que se tornou Sócrates

Oráculo de Delfos segundo George Edward Robertson

Orá­culo de Del­fos segundo George Edward Robert­son

Sócra­tes mar­cou o Oci­dente. Ele foi o grande cor­deiro oci­den­tal que não fez coro ao “afasta de mim esse cálice” cris­tão, mas, ao invés disso, acei­tou de bom grado um cálice de cicuta. Essa foi a pena por per­ver­ter a juven­tude e a Ate­nas demo­crá­tica, como diz o relato de Poly­cra­tes, escrito cerca de sete anos após a con­de­na­ção (o mais antigo relato sobre Sócra­tes).

O ate­ni­ense com cara de girino tam­bém é conhe­cido hoje como o ápice da sabe­do­ria ali­ada a um espí­rito modesto. No entanto, ele parece ter sido mui­tas coi­sas em vida — mas sobre ser modesto, res­tam algu­mas dúvi­das.

Sua gênese pes­soal ocorre a par­tir da visita de um amigo ao orá­culo loca­li­zado em Del­fos. O lugar era uma cons­tru­ção sim­ples, mas impo­nente, o Tem­plo de Apolo. Em sua entrada, estava a ins­cri­ção “Gnothi seau­ton” (Conhece-te a ti mesmo). A pro­fe­cia cum­priu a si pró­pria.

Neo teria derrubado os biscoitos se a Oráculo não tivesse previsto isso? Sócrates teria se tornado um filósofo se o Oráculo de Delfos não tivesse previsto isso?

Neo teria der­ru­bado os bis­coi­tos se a Orá­culo não tivesse pre­visto isso? Sócra­tes teria se tor­nado um filó­sofo se o Orá­culo de Del­fos não tivesse pre­visto isso?

Tudo come­çou com uma per­gunta feita pelo amigo do filó­sofo: “Existe alguém mais sábio do que Sócra­tes?” [ok, eu tam­bém me per­gun­tei por que o cara foi no tem­plo e resol­veu fazer uma per­gunta sobre outra pes­soa, não sobre ele mesmo]. A res­posta foi “não”, o que intri­gou ao pró­prio Sócra­tes.

O que afi­nal o deus Apolo quer dizer e qual é o enigma que está pro­pondo? Eu sei que não sou sábio em nenhuma medida. Então, qual o sig­ni­fi­cado de suas pala­vras ao decla­rar que sou o mais sábio?”

Inqui­eto, o sábio beber­rão saiu pela polis ques­ti­o­nando a todos sobre o que era sabe­do­ria, afi­nal. Esse era o método socrá­tico, sua mai­êu­tica. Sócra­tes ques­ti­o­nava o inter­lo­cu­tor sobre as defi­ni­ções das pala­vras que usava até que pudesse che­gar a con­cei­tos abso­lu­tos — que de fato nunca encon­trava. Não é difí­cil ima­gi­nar por que ele irri­tou várias pes­soas (e fas­ci­nou outras) ao longo do cami­nho. Alguns acha­vam esse um mero show-off, outros se encan­ta­vam com sua sabe­do­ria demo­li­dora.

Para per­ce­ber que Sócra­tes não estava ver­da­dei­ra­mente que­rendo des­ti­lar humil­dade, é pre­ciso enten­der que seus diá­lo­gos faziam uso cons­tante da cha­mada eiro­neia [iro­nia, hipo­cri­sia]. Seu obje­tivo era, na ver­dade, con­fun­dir seus inter­lo­cu­to­res e sair com a ima­gem de ven­ce­dor do debate. 

Aliás, como ven­cer um debate em que a única coisa que o opo­nente faz é des­cons­truir os con­cei­tos usa­dos em cada argu­mento? Não por acaso, essa herança nega­tiva da téc­nica socrá­tica é a fer­ra­menta legí­tima da pós-moder­ni­dade, que tanto infesta o mundo aca­dê­mico quanto os eru­di­tos do mundo face­bo­o­ki­ano — o que nos leva a uma ter­ceira rela­ção entre o mundo de Sócra­tes e a soci­e­dade atual. É como par­ti­ci­par de uma luta de boxe e ape­nas se esqui­var de todos os ata­ques até can­sar o opo­nente, mas nunca des­fe­rindo o golpe final. 

Alan Sokal - imposturas intelectuais

Tal­vez tivesse sido melhor Sokal ter escrito Impos­tu­ras Inte­lec­tu­ais come­çando por Sócra­tes, não pela pós-moder­ni­dade.

Tal­vez o mais per­tur­ba­dor nisso seja uma alter­na­tiva à cha­mada eiro­neia. É pos­sí­vel que o falas­trão-sábio não fizesse de pro­pó­sito. Ele pode­ria ter real­mente a sen­sa­ção sin­cera de estar per­se­guindo uma ver­dade inte­lec­tual maior — ape­sar de nem I. F. Stone nem Emily Wil­son con­cor­da­rem com essa opção.

 

Sócrates, o tiozão na mesa de jantar

Depois que li O Jul­ga­mento de Sócra­tes (livro), do jor­na­lista eru­dito I. F. Stone, só con­sigo pen­sar que Sócra­tes é uma ver­são beta, porém muito mais influ­ente e inte­res­sante, do tio­zão que acha que a pena de morte e a volta da dita­dura mili­tar é a melhor solu­ção para a polí­tica e para os dile­mas da soci­e­dade.

Cer­ta­mente isso vai con­tra muito do que a opi­nião popu­lar acre­dita, mas a ver­dade é que Sócra­tes achava a vida polí­tica uma perda de tempo. Lem­bre-se de que ele não tinha o cos­tume de par­ti­ci­par das dis­cus­sões impor­tan­tes para a pólis grega, nas ágo­ras. Ele era como um tio­zão que se res­tringe a falar de sua filo­so­fia para seus ami­gos, enquanto bebe cer­veja num bar, mas que se recusa a expor sua opi­nião no face­book — o que é uma ana­lo­gia limi­tada, por­que tal­vez o face­book se asse­me­lhe mais a um bar, mas de forma alguma a uma ágora.

Segundo os rela­tos de Xeno­fonte, o tio de Pla­tão, Cár­mi­des, ao se quei­xar dizendo que par­ti­ci­pava bem de deba­tes pri­va­dos mas era tímido demais para se meter numa dis­cus­são pública, rece­beu uma cha­mada de seu “mes­tre”: “Não se inti­mida diante dos mais sábios, mas se enver­go­nha de falar perante os mais igno­ran­tes e fra­cos”. Sócra­tes não era bra­si­leiro, mas com cer­teza nutria deses­pe­rança pela polí­tica. Per­cebe-se tam­bém certo esno­bismo social. O fre­quen­ta­dor de bar e sua pato­ti­nha de pen­sa­do­res boê­mios tal­vez se achas­sem moral­mente supe­ri­o­res aos fra­cos polí­ti­cos.

Aliás, seu grupo se achava supe­rior até mesmo à demo­cra­cia. Rela­tos pos­te­ri­o­res à morte de Sócra­tes e até rela­tos de alguns dis­cí­pu­los pare­cem indi­car que eles se iden­ti­fi­ca­vam mais com o modo de vida espar­tano.

Segundo o argu­mento cen­tral da uto­pia polí­tica que Pla­tão ima­gina em A Repú­blica, em parte ins­pi­rado por seu mes­tre Sócra­tes, o gover­nante ideal seria o rei filó­sofo, um monarca sábio, que dete­ria o conhe­ci­mento neces­sá­rio para gover­nar. A lógica é até válida: se para con­ser­tar um sapato cha­ma­mos um sapa­teiro, quem cha­ma­re­mos para “con­ser­tar” a polí­tica? Um leigo? O ideal seria alguém equi­pado com os sabe­res neces­sá­rios para tal ati­vi­dade.

O pro­blema é que, na prá­tica, pro­je­tos desse tipo aca­bam caindo em algum tipo de tira­nia. Nenhuma elite inte­lec­tual vai dei­xar de lado sua ânsia dema­si­ado humana de poder quando assu­mir o governo. 

Assim, Sócra­tes era favo­rá­vel a um governo muito seme­lhante ao da cidade-estado espar­tana. Inclu­sive há uma peça do dra­ma­turgo Aris­tó­fa­nes que retrata o filó­sofo e seus par­cei­ros como um grupo visu­al­mente lacô­mano [alguém admi­ra­dor das coi­sas da Lacô­nia ou Esparta]. Eles pare­ciam ter manei­ras rudes, apa­rên­cia mal­tra­pi­lha, cabe­los des­cui­da­dos e tal­vez até andas­sem pela rua car­re­gando por­re­tes.

O sujeito, então, pare­cia não só defen­der uma dita­dura, mas tam­bém estar dis­posto a inte­grar uma espé­cie de milí­cia armada. De fato, seu dis­cí­pulo mais que­rido, Alci­bía­des, apoiou vee­men­te­mente o fim da demo­cra­cia ate­ni­ense, inclu­sive sendo uma espé­cie de black bloc. O pró­prio Sócra­tes não pare­cia che­gar a tanto, mas no final das con­tas essas fofo­cas urba­nas e os atos impen­sa­dos de dis­cí­pu­los como Alci­bía­des pare­ce­ram ser­vir de evi­dên­cia para sua pos­te­rior con­de­na­ção.

This is Sparta! - 300, o filme

Ima­gina que louco se te dis­ses­sem que os segui­do­res de Sócra­tes se pare­ces­sem mais com esse cara do que com filó­so­fos pací­fi­cos e con­ver­sa­do­res.

Sob certo ângulo, Sócra­tes era tudo que um tio­zão gos­ta­ria de ser. Ele tinha seu pró­prio grupo fiel para ficar no bar bebe­ri­cando e ouvindo suas refle­xões. Sua esposa estava em casa cui­dando dos filhos. Sua visão era a de que a demo­cra­cia não só era algo ine­fi­ci­ente, mas tam­bém uma afronta à moral. E ainda tinha uma proto-milí­cia.

Naque­les tem­pos remo­tos, biros­cas e cen­tros impor­tan­tes de debate eram os locais onde as pes­soas dis­cu­tiam os assun­tos do dia. Mui­tas delas, até a mai­o­ria, eram lei­gas, mas tinham o direito de se expor e par­ti­ci­par do des­tino ate­ni­ense. Hoje temos nossa pró­pria ver­são da ágora, que é a inter­net e seus meios de esti­mu­lar os usuá­rios a deba­te­rem.

O pro­blema é que tanto numa época quanto em outra, esse modelo tam­bém é um ter­reno fér­til para defe­sas extre­ma­das que depõem con­tra o sis­tema de liber­dade que per­mi­tiu o sur­gi­mento desse tipo de pla­ta­forma demo­crá­tica. Não estou dizendo que esse tipo de pes­soa é um troll inú­til — afi­nal, esse não foi o caso de Sócra­tes e de mui­tos de seus dis­cí­pu­los. Eles aju­da­ram a for­jar a his­tó­ria oci­den­tal.

Às vezes, as coi­sas só saem do con­trole. E isso é pre­o­cu­pante em tem­pos de crise de demo­cra­cia. Assim como hoje pas­sa­mos por uma crise, a demo­cra­cia ate­ni­ense estava às por­tas de uma outra, jus­ta­mente em fun­ção de mani­fes­ta­ções cada vez mais cres­cen­tes pelo empo­de­ra­mento de um governo mais rígido.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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