sociedade das palavras mortas

A Sociedade das Palavras Mortas

Em Consciência, Sociedade, Sociedade por Bruno BrazComentário

Por que a lin­gua­gem atual parece tão impo­tente, tão ine­fi­caz? Por que as con­ver­sas se tor­na­ram tão super­fi­ci­ais, e os dis­cur­sos, tão vazios?

A ori­gem da lin­gua­gem se mani­festa em toda expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal­mente intensa como voca­li­za­ções espon­tâ­neas de êxtase, lamen­ta­ção, ale­gria, medo ou raiva. Tais voca­li­za­ções sur­gem quando as pala­vras pare­cem inca­pa­zes de expres­sar o que sen­ti­mos, quando as emo­ções ultra­pas­sam as ini­bi­ções cul­tu­rais ou, sim­ples­mente, quando “per­de­mos o con­trole”. Não são real­mente pala­vras, mas sons. Não deri­vam seus sig­ni­fi­ca­dos da gra­má­tica, nem se sujei­tam às con­ven­ções e regras.

À medida em que o reino humano se separa do natu­ral, o voca­bu­lá­rio ori­gi­nal de expres­sões huma­nas vai se tor­nando insu­fi­ci­ente. Cri­a­mos uma infi­ni­dade de novos obje­tos, dis­tin­ções e pro­ces­sos atra­vés de uma nova rela­ção obje­tiva com a natu­reza, e aos pou­cos a lin­gua­gem acom­pa­nhou o “ser” na ampli­a­ção do dua­lismo: eu e outro, humano e natu­reza, nome e coisa.

O pro­gresso da huma­ni­dade nos levou ao declí­nio da lin­gua­gem em meros sím­bo­los con­ven­ci­o­nais — sim­ples repre­sen­ta­ções da rea­li­dade — ao invés de se con­so­li­dar tal como deve­ria: uma dimen­são sonora total­mente inte­grada com a rea­li­dade. É o Eu dis­creto e sepa­rado que anseia em dar nome às coi­sas da natu­reza, pois “dar nome” é domi­nar, cate­go­ri­zar, sub­ju­gar e obje­ti­fi­car. Não se admira que, no livro de Gêne­sis, o pri­meiro ato de Adão, a fim de con­fir­mar seu “domí­nio divino” sobre os ani­mais, foi nomeá-los. Antes da con­cep­ção de si mesmo que pos­si­bi­li­tou esse domí­nio, não haviam nomes.

A ORIGEM DA LINGUAGEM

A opi­nião dos espe­ci­a­lis­tas diverge quanto a ori­gem da lin­gua­gem. Supõe-se que teria ocor­rido em algum momento entre os Nean­der­tais e cerca de 30 mil anos atrás, mas há con­senso em defi­nir a lin­gua­gem como um sis­tema de repre­sen­ta­ção. Então nos depa­ra­mos com uma curi­osa per­gunta: o que havia pra se falar na soci­e­dade da Idade da Pedra? Alguns pes­qui­sa­do­res pro­põem que a fala era neces­sá­ria para ensi­nar as 200 for­mas de pan­ca­das uti­li­za­das na pro­du­ção de lâmi­nas (fico ente­di­ado só de ima­gi­nar), mas o apren­di­zado desse tipo de habi­li­dade se dá melhor pela obser­va­ção e imi­ta­ção, não pela des­cri­ção. Outros afir­mam que a caça exi­gia a fala para coor­de­nar os movi­men­tos dos caça­do­res, embora, outra vez, o silên­cio ajude mais.

Mas afi­nal, por que não evi­ta­mos esse vício de ten­tar expli­car tudo com base em sua uti­li­dade para a sobre­vi­vên­cia? E se hou­ve­ram outras razões pra falar durante a época da caça e coleta? E se a fala nem mesmo sur­giu por neces­si­dade?

Adão dando nome aos animais.

Adão dando nome aos ani­mais.

Posso citar algu­mas fun­ções tão anti­gas quanto vitais: se diver­tir, brin­car e con­tar his­tó­rias. Por que não essas, as ori­gens da lin­gua­gem? Tal­vez sua fun­ção como ins­tru­mento da sepa­ra­ção foi cres­cendo gra­du­al­mente, em para­lelo com outros avan­ços ali­e­nan­tes da cul­tura e tec­no­lo­gia. Pode­mos espe­cu­lar tam­bém se a lin­gua­gem só se tor­nou neces­sá­ria à medida que outras for­mas de sepa­ra­ção come­ça­ram a enfra­que­cer nossa intui­ção e exi­gir uma com­plexa coor­de­na­ção da ati­vi­dade humana.

Nesse con­texto, tor­nou-se par­ti­cu­lar­mente rele­vante na divi­são do tra­ba­lho, já inci­pi­ente na Idade da Pedra, que nos trouxe a padro­ni­za­ção das coi­sas e even­tos, assim como o poder efe­tivo dos espe­ci­a­lis­tas sobre os demais. A divi­são do tra­ba­lho requer um con­trole rela­ti­va­mente com­plexo das ações de um grupo. Na ver­dade, requer que toda a comu­ni­dade seja orga­ni­zada e dire­ci­o­nada. A padro­ni­za­ção das coi­sas vai natu­ral­mente de acordo com a sua res­pec­tiva abs­tra­ção e nomen­cla­tura. É parte e par­cela do reino humano sepa­rado que cres­ceu ao redor das tec­no­lo­gias em geral. Por isso, a lin­gua­gem não deve ser con­si­de­rada de forma iso­lada dos outros ele­men­tos da sepa­ra­ção, mas parte de um vasto e com­plexo padrão.

A lin­gua­gem falada foi ape­nas o começo dessa divi­são, pois a voz con­ti­nua pre­sente, mesmo que dis­far­çada con­forme o voca­bu­lá­rio e o refino com os quais se apre­senta. A inven­ção da escrita, por­tanto, foi um enorme passo em dire­ção oposta ao Idi­oma Ori­gi­nal e de encon­tro à com­pleta subs­ti­tui­ção da comu­ni­ca­ção direta pela arbi­trá­ria, atra­vés de sím­bo­los abs­tra­tos. O divór­cio entre a escrita e os obje­tos foi gra­dual, dos pri­mei­ros hie­ró­gli­fos à for­mas cada vez mais abs­tra­tas, che­gando, enfim, ao alfa­beto — que já não repre­senta mais nada. Os tais alfa­be­tos muda­ram nosso modo de pen­sar de forma extensa e sutil, codi­fi­cando a natu­reza em algo abs­trato, ou seja, algo que pode ser divido e con­tro­lado de forma indi­fe­rente.

A OBJETIVAÇÃO DA PALAVRA 
FOI A MORTE DA PALAVRA

Ao con­trá­rio de um pic­to­grama, que deriva seu sig­ni­fi­cado atra­vés da seme­lhança com o mundo real, as pala­vras do alfa­beto podem ser com­pre­en­di­das ana­li­ti­ca­mente, que­brando-as em par­tes meno­res. Como reflexo dessa carac­te­rís­tica, pas­sa­mos a ado­tar uma con­cep­ção ato­mís­tica do sig­ni­fi­cado e, por exten­são, do uni­verso.

A voz acaba desa­pa­re­cendo na escrita, subs­ti­tuída pela apa­rente obje­ti­vi­dade da tinta no papel, divor­ci­ada de qual­quer ora­dor pal­pá­vel. As pala­vras escri­tas exis­tem como enti­da­des inde­pen­den­tes de si mes­mas, já não dire­ci­o­na­das a um ouvinte espe­cí­fico — como se sur­gis­sem do nada pra falar com nin­guém.

Torre de Babel: a linguagem como muro de separação.

Torre de Babel: a lin­gua­gem como muro de sepa­ra­ção.

Essa apa­rente obje­ti­vi­dade da escrita explica por­que as pes­soas ten­dem a acre­di­tar mais no que leem em vez do que ouvem. Pala­vras escri­tas pare­cem mais auto­ri­tá­rias. Os dici­o­ná­rios legi­ti­ma­ram a ilu­são esta­be­le­cida pelas pala­vras, uma ilu­são de sig­ni­fi­ca­dos obje­ti­vos e inde­pen­den­tes das inte­ra­ções entre ora­dor e ouvinte. Do mesmo modo, os livros con­so­li­da­ram a crença de que a busca pelo conhe­ci­mento deve ocor­rer, neces­sa­ri­a­mente, no exte­rior, além do indi­ví­duo. Curi­o­sa­mente, soci­e­da­des não alfa­be­ti­za­das geral­mente são mais aptas em desen­vol­ver auto­co­nhe­ci­mento e busca inte­rior.

Por fim, as impres­sões e mídias digi­tais leva­ram ao extremo esse divór­cio entre sig­ni­fi­cado e ora­dor, pois se falta voz às pala­vras escri­tas, ao menos elas têm “mão”. Os carac­te­res subs­ti­tuem a mão por algo pro­du­zido em massa, dei­xando quase nenhum espaço para empa­tia entre ora­dor e ouvinte, escri­tor e lei­tor.

Per­ce­be­mos, então, que a padro­ni­za­ção da gra­má­tica, o declí­nio da comu­ni­ca­ção em jar­gões e locu­ções este­re­o­ti­pa­das, sem falar na cha­tice usual dos dis­cur­sos públi­cos, são refle­xos desse último está­gio de extin­ção da “voz” na lin­gua­gem. O obje­tivo dessa extin­ção, ao que parece, é fin­gir que as pala­vras não pos­suem nem mesmo um autor humano, como se fos­sem o mais puro fato. Na ver­dade, o uso da pri­meira pes­soa é até proi­bido no meio aca­dê­mico — como se a ver­dade bro­tasse de pala­vras difí­ceis, e a cre­di­bi­li­dade, de um sujeito oculto ou inde­ter­mi­nado.

AS PALAVRAS NÃO SIGNIFICAM NADA

Pala­vras defi­ni­das em ter­mos de outras pala­vras, pre­sas no ciclo vici­oso de um sis­tema de repre­sen­ta­ção abs­trata, aca­bam por nos dei­xar aban­do­na­dos (sem voz nem mãos), per­di­dos num mundo fic­tí­cio, domes­ti­cado e finito. Por fim, nos entre­gar­mos à ilu­são de que pode­mos mani­pu­lar e con­tro­lar a rea­li­dade da mesma forma que faze­mos com as tais repre­sen­ta­ções sim­bó­li­cas. Quando con­fun­di­mos pala­vras e rea­li­dade, os sím­bo­los se mate­ri­a­li­zam e assu­mem um estado obje­tivo que os investe com inde­vida auto­ri­dade.

A pro­li­fe­ra­ção da voz pas­siva só faz agra­var essa ten­dên­cia: ora­dor desa­pa­rece, “pro­cesso” se torna “coisa”, “tor­nar-se” se torna “ser”, for­ças impes­so­ais atuam sobre obje­tos iner­tes — e o para­lelo com a física clás­sica é sur­pre­en­dente. John Zer­zan coloca desse modo: “Tal como uma ide­o­lo­gia, a lin­gua­gem cria fal­sas sepa­ra­ções e obje­ti­fi­ca­ções atra­vés do seu poder em sim­bo­li­zar. Essa fal­si­fi­ca­ção só é pos­sí­vel pela inde­ter­mi­na­ção ou ocul­ta­ção do sujeito, que ter­mina por cor­rom­per a par­ti­ci­pa­ção do ‘autor’ no mundo físico.” Em resumo, o mundo torna-se um objeto.

Há 2600 anos atrás Lao Tzú já desconfiava das palavras.

Há 2600 anos atrás Lao Tzu já des­con­fi­ava da obje­ti­vi­dade das pala­vras.

A ilu­são do sig­ni­fi­cado obje­tivo é bem conhe­cida, de Lao Tzu aos des­cons­tru­ci­o­nis­tas pós moder­nos. Citando Tho­reau: “São neces­sá­rios dois para falar a ver­dade: um para falar, outro para ouvir.” Porém, essa ilu­são só come­çou a fazer parte do cons­ci­ente cole­tivo recen­te­mente, rever­tendo-se em um colapso do sig­ni­fi­cado lin­guís­tico. As pala­vras já não sig­ni­fi­cam mais nada. Na polí­tica, can­di­da­tos se safam com dis­cur­sos que con­tra­di­zem suas ações, e nin­guém parece se opor ou mesmo se impor­tar. Não é a dis­si­mu­la­ção, já comum entre os polí­ti­cos, que me impres­si­ona, mas a nossa com­pleta indi­fe­rença.

Tam­bém esta­mos com­ple­ta­mente habi­tu­a­dos ao vazio da publi­ci­dade e das pala­vras que, cada vez mais, não sig­ni­fi­cam mais nada. Alguém real­mente acre­dita que o Itaú foi “feito pra você”? Ou ainda, que você e a Globo tem “tudo a ver”? Entre nomes de mar­cas, slo­gans publi­ci­tá­rios e dis­cur­sos polí­ti­cos, a lin­gua­gem da mídia que inunda a vida moderna segue com­posta por men­ti­ri­nhas, enga­na­ções e mani­pu­la­ção.

A atual sede por auten­ti­ci­dade, por­tanto, não é nenhuma sur­presa. Outro sin­toma do colapso lin­guís­tico é o uso fre­quente de pala­vras como “incrí­vel”, “impres­si­o­nante” e “mara­vi­lhoso” para des­cre­ver o que, na ver­dade, é tri­vial, ente­di­ante e comum. Esta­mos ficando sem pala­vras, ou melhor, as pala­vras estão ficando sem sig­ni­fi­cado, nos for­çando a elo­cu­ções cada vez mais exa­ge­ra­das na comu­ni­ca­ção.

No entanto, a cres­ceste evi­dên­cia da cor­rup­ção da lin­gua­gem tem seu lado posi­tivo, pois torna mais clara a auten­ti­ci­dade dos modos não ver­bais de comu­ni­ca­ção, base­a­dos em expe­ri­ên­cias ime­di­a­tas ao invés de sim­ples repre­sen­ta­ções. Esses modos de comu­ni­ca­ção — em con­traste com o dis­tan­ci­a­mento implí­cito na abs­tra­ção, deno­mi­na­ção e sim­bo­li­za­ção do uni­verso — exi­gem o aban­dono das bar­rei­ras entre o Eu e o mundo.

Ao olhar nos olhos de quem ama­mos, só con­se­gui­mos esta­be­le­cer a mais autên­tica das comu­ni­ca­ções se dei­xar­mos as más­ca­ras cair, afas­tar­mos qual­quer fin­gi­mento, parar­mos de maqui­nar para ten­tar dizer algo e, sim­ples­mente, nos abrir­mos uns com os outros. Quando final­mente dei­xar­mos de lado o enorme esforço em nos man­ter sepa­ra­dos (alheios ao mundo e às pes­soas), as pala­vras se tor­na­rão menos neces­sá­rias.

Menos neces­sá­rias, mas não obso­le­tas. O desen­vol­vi­mento da lin­gua­gem não che­gou ao colapso por engano, mas pro­gre­diu (assim como a tec­no­lo­gia) durante a gra­dual e ine­vi­tá­vel evo­lu­ção do homem. Esse declí­nio atra­vés da repre­sen­ta­ção parece ter sido pre­des­ti­nado, como se nos for­çasse a con­si­de­rar um pro­pó­sito além de sua fun­ção como ins­tru­mento da Sepa­ra­ção. E se hou­ver, qual seria o tal pro­pó­sito? Ora, será o que sem­pre foi: con­tar his­tó­rias. Toda a nossa civi­li­za­ção é base­ada numa his­tó­ria, a his­tó­ria de si mesma. Esse reino humano que cri­a­mos não é ver­da­dei­ra­mente sepa­rado, basta obser­var o quanto trans­for­ma­mos o pla­neta. Aos pou­cos, acre­dito que manu­se­a­re­mos cons­ci­en­te­mente o poder cri­a­tivo da lin­gua­gem para con­tar uma nova his­tó­ria e, assim, dar iní­cio a uma nova fase cri­a­tiva do desen­vol­vi­mento humano.

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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