O pós-capitalismo deverá tornar a vida mais rica ao invés de empobrecê-la às custas do dinheiro e ir além dos planos econômicos, reformas e propostas políticas, crescendo e ocupando seu espaço naturalmente.


A ORIGEM DOS “NOVOS MERCADOS”

Capitalismo e juros andam lado a lado, cegos ao assumirem que continuaremos encontrando formas de alimentar uma incessante necessidade de consumir. Mantemos a convicção de que haverá sempre um novo mercado para explorar.

Nesse contexto, os juros agem como a ânsia de um viciado, direcionando todos os aspectos da vida para alimentá-lo, como demonstram nossas eternas dívidas: compras parceladas, prestações da casa e carro, impostos e faturas do cartão de crédito. Reforçamos, por meio dos juros, um “senso de sacrifício” muito característico do Mundo-Máquina.

Quanto mais se prolonga um vício, mais se desgasta a vida. Não por acaso, as medidas necessárias para satisfazê-lo se tornam ainda mais extremas. Tal como um dependente que toma empréstimos, pede dinheiro aos amigos e converte todo o seu patrimônio em dinheiro, nossa civilização busca toda e qualquer fonte inexplorada de capital social, natural e cultural.

O marxismo descreve esse inevitável processo como uma enorme pressão exercida pelo capital financeiro para descobrir novos mercados e, dessa maneira, diminuir as chances de uma crise composta pela queda dos lucros, competição e concentração de renda. Contudo, o crescimento sem fim, estimulado pelo atual sistema econômico e sua interminável conversão da vida em dinheiro, tem destino certo: a superprodução.

Em linhas gerais, o “investidor” procura tirar vantagem das economias de escala ao produzir o máximo possível — marca registrada da indústria. Então surge a pergunta: o que acontece quando todos os “investidores” seguem essa mesma receita?

Os possíveis sintomas incluem queda dos lucros, corte de salários, concentração de renda, acúmulo de propriedades, falências, desemprego e, para completar, queda na demanda por produtos. Marx já previa que isso levaria a uma revolução à medida em que a miséria ocasionada pela crise de superprodução se tornasse insuportável. Sabendo disso, os interesses capitalistas passaram a lidar com uma constante necessidade de recorrer a medidas paliativas para adiar a tal revolução. Abaixo, resumiremos as “soluções” capitalistas em 3 tipos.

capitalistas pós-capitalismo

A primeira seria limitar a produção via economia centralizada ou aumentar as taxas de juros. Mas isso não é o suficiente, porque enquanto estiver atrelada a uma economia que requer crescimento sem fim, continuará alimentando a própria crise que pretende evitar. A segunda seria destruir o excesso de produção por meio das guerras. Mas isso também não é o suficiente, pois os constantes conflitos atuais não conseguem mais absorver o aumento exponencial da produção, uma vez que esse tipo de “solução” já chegou ao limite com as armas nucleares.

A terceira tem sustentado o capitalismo até agora, alavancada pela criação de novos mercados a partir da interação entre tecnologia e marketing — algo que a “revolução iminente” de Marx foi incapaz de prever. Então, de tempos em tempos, cria-se uma nova indústria com suas respectivas empresas, novos empregos, mais riquezas e novas oportunidades. Eventualmente, essas empresas passam por um processo de fusão ou vão à falência, os lucros diminuem e as demissões aparecem. Durante a crise, encontram-se novas oportunidades que dão origem a um novo setor da economia — e o ciclo recomeça.

As análises de Marx descrevem muito bem o comportamento de uma indústria específica, mas não se aplicam à economia como um todo, ao menos enquanto houver novas tecnologias e, portanto, novas indústrias e novos mercados. Os avanços tecnológicos seguem criando novas possibilidades de investimento, adiando constantemente a revolução marxista como se fora uma eterna previsão — mas até quando?

Sob um olhar econômico, se entendemos a tecnologia como um meio de converter a vida (material e social) em dinheiro (produtos e serviços), pode-se dizer que o esgotamento da vida será o fator limitante. Em outras palavras, não estamos criando novas riquezas, mas convertendo as que já existem (e, até então, não tinham preço) em dinheiro, como “lenha” para sustentar o capitalismo por mais um tempo.

O segredo de grande parte dos “novos setores” da economia foi reconhecer o potencial financeiro das relações humanas em coisas que antes fazíamos uns pelos outros. Assim nasceu o conceito de “especialista” e a consequente ascensão do setor terciário. Pronto, agora o problema parece resolvido, não é? Mas o que acontecerá quando não houver mais nada para converter?

postcapitalimo-felicidadekit pós-capitalismo

Lembra do juros? Pois bem, ele compõe a natureza do capital financeiro e, por extensão, tornou-se inerente ao atual sistema econômico. Sua característica mais evidente é o crescimento, portanto também requerem crescimento constante da economia. Assim, para alimentar esse mundo-Máquina, nos deparamos com a necessidade constante de encontrar novas demandas. O mercado globalizado facilita a exportação do que já existe para novos territórios, mas não consegue acompanhar o ritmo de produção.

Então, a grande sacada foi criar novas demandas através da mídia (marketing), explorando as chamadas “necessidades ainda não atendidas”, isto é, algum aspecto humano que já existe mas não se encontra inserido na esfera monetária. Em suma, passamos a explorar todo tipo de riqueza ainda não convertida em dinheiro.

O FRACASSO MARXISTA E O PÓS-CAPITALISMO

solução socialista é falha porque não chega à raiz do problema, que não é a propriedade privada em si, mas o próprio conceito de “propriedade” — um acordo social derivado de uma relação bem específica com o mundo. Ganância, competição, ansiedade e escassez, como constituintes da nossa ontologia e ciência, continuarão se manifestando enquanto não mudarmos as premissas, enquanto não deixarmos de enxergar o mundo, a natureza, a linguagem e as ideias como “coisas” que podem ser isoladas e transformadas em objetos.

Karl Marx baseou sua teoria nas características de um sistema (o capitalismo) que promove uma moeda artificialmente escassa, criada pelos bancos a partir de dívidas e impulsionada pelos juros. Uma moeda com outras características é capaz de gerar dinâmicas econômicas completamente diferentes e, a partir daí, compor um sistema financeiro que pressupõe uma outra compreensão de si e relação com o meio.

Será um tipo bem diferente de capitalismo, ao qual as análises de Marx não se aplicam, visando promover colaboração ao invés de competição, compartilhamento ao invés de exploração, comunidade ao invés de isolamento. O pós-capitalismo deverá restaurar a noção de valor e os tipos intangíveis de riqueza humana — tudo aquilo que “não tem preço”. O pós-capitalismo deverá tornar a vida mais rica ao invés de empobrecê-la às custas do dinheiro e ir além dos planos econômicos, reformas e propostas políticas, crescendo e ocupando seu espaço naturalmente.

poscapitalismo pós-capitalismo

Precisamos de uma compreensão radicalmente nova de si mesmo e do mundo. Esta é a verdadeira revolução, ao contrário da superficial sobreposição de modelos socioeconômicos. Como é possível chamar de “revolucionário” algo que não se propõe a mudar o conceito de propriedade, a dualidade entre trabalho e lazer, o paradigma do crescimento eterno e a suposta dominação da natureza pelo homem?

Mas por que precisamos de uma revolução assim, tão profunda?

Veja só, a história da ciência e tecnologia estão intimamente ligadas à objetificação do mundo. Nos separamos conceitualmente do ambiente a fim de manipulá-lo. Ao mesmo tempo, o sucesso de tais manipulações alimentam a separação dualística — como num ciclo vicioso. O conceito de propriedade surge naturalmente da objetificação, assim como o tipo de moeda atual surge do conceito de propriedade. O objetivo é o mesmo: quantificar e acumular tudo o que é “meu”. É ingênuo acreditar que qualquer outro sistema econômico, além do capitalismo, poderia surgir e se estabelecer dentro desse contexto.

Isso posto, uma “revolução” que deixe nossos conceitos de si mesmo e do mundo intactos será apenas uma mudança temporária e superficial. Para superar as crises atuais é necessário algo mais radical e profundo.

A conversão de toda e qualquer riqueza em dinheiro é insustentável e, enquanto ocorrer, continuará nos empobrecendo. A miséria e a ansiedade continuarão crescendo até vencer qualquer medida paliativa utilizada para nos manter inertes.

Quando reconhecermos a futilidade em controlar a realidade, quando não suportarmos mais esse paradigma de “separação artificial da natureza” e percebermos que essa riqueza capitalista nos privou de viver, milhões de revoluções individuais darão origem a uma massa crítica responsável pela transição em nosso modo de ser.

Sabemos que algo está por vir, e criamos esperança a cada nova iniciativa pós-capitalista que segue adquirindo experiência e se multiplicando, mas ainda é pouco.

As diversas crises atuais surgiram da crescente monetização da vida e esgotamento do nosso capital social, natural e cultural, como sintomas de uma miopia existencial. Míopes, nos consideramos separados uns dos outros, da natureza e de nós mesmos. Este fenômeno é comum a todas as crises geradas pelos extremos destes dois processos: 1) monetização, pela conversão do mundo em propriedade privada; 2) separação, pela sensação de isolamento e alienação propagadas pelo paradigma científico clássico.

Paradoxalmente, é necessário chegar ao clímax desses processos complementares (monetização e separação) para, enfim, alcançar seus opostos — para que Yin possa nascer, Yang deve transpor seu limite. Assim, o esgotamento do capital social dará origem a uma revolução em prol da restauração. O sofrimento da separação despertará a consciência para um Eu maior, transformando nossa relação com a natureza e a vida. Infelizmente, como sabem os ambientalistas, as coisas ainda devem piorar antes dessa grande transição. Afinal, não chegamos ao extremo.

Como um alcoólatra que chega ao fundo do poço, nosso modo de vida está em colapso. Seguimos aplicando novas soluções tecnológicas para amenizar os problemas causados pelo último ajuste — continuamos a beber para evitar a ressaca. O comportamento autodestrutivo continuará até que a vida se torne insuportável.

Durante a queda, nossos momentos de lucidez entre uma dose e outra se manifestam neste crescente movimento atual que estimula a consciência ecológica, projetos sustentáveis, fitoterapia, economia colaborativa e moedas locais. Tudo bem admitir que essas iniciativas estão longe do milagre que precisamos, mas é fundamental valorizá-las e reconhecê-las como sementes de um outro modo de vida, destinadas a germinar em resposta ao total colapso social-econômico-ambiental.

Não se engane, a resposta virá naturalmente na forma de (r)evolução — isso, se sobrevivermos até lá.


 

Sobre pós-capitalismo, você pode querer ler também:

escrito por:

Bruno Braz

Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.