Você já percebeu que desprezamos (às vezes, automaticamente) o poder de discursos? De discursos simples como a piadinha que um comediante contou ou o comentário que um tio fez sobre a vizinha numa reunião de família até discursos de alcances maiores como um artigo de opinião, na internet, ou um comercial de cerveja, na TV. Nós andamos por aí com nosso senso de problematização desligado porque problematizar é coisa de gente chata, porque problematizar é fazer “mimimi”, porque problematizar requer, muitas vezes, contestar e quem vai contestar o tio no meio da família? Pra que contestar o humorista que contou só uma piadinha?

Nessa cultura de conivência, esquecemos que a linguagem é, também, uma forma de ação (os estudos sobre violência linguística estão aí para não me deixarem mentir). Esquecemos que discursos são pontas de icebergs que costumam ser bem maiores do que imaginamos ou vemos. Esquecemos, como bem disse J.K. Rowling na voz de AlvusDumbledore, que “as palavras são nossa inesgotável fonte de magia, capazes de ferir e de curar”. Mas é tão mais cômodo bancar o inocente e dizer que “agora, tudo é machismo”, “não se pode falar mais nada sem que sejamos chamados de homofóbicos”, “foi só uma piada”, “mimimi”.

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Nessa cultura de conivência, temos esquecido, frequentemente, de pensar duas vezes antes de compartilhar/transmitir/emitir um discurso. Perdemos o hábito de sermos contestados ou de contestar, talvez, porque tantos anos à frente da TV nos acomodou numa forma unilateral de pensar, e quando a internet trouxe a possibilidade do debate, do diálogo, agimos como torcidas de futebol em dia de clássico. Sei que qualquer tentativa de falar sobre a importância de pensarmos no que dizemos é confundido com apologia da censura, mas vou tentar mesmo assim.

Em Fedro, escrito por Platão, Sócrates e o interlocutor que dá nome ao livro discutem, já no fim do diálogo, sobre a invenção da escrita. A obra revela a crítica platônica, por meio das falas de Sócrates, à linguagem escrita em detrimento da linguagem falada, da oralidade. Dentre as reflexões que Platão levanta que são interessantes a nós, agora, está a de que o discurso falado, muito mais do que o discurso escrito, possui possibilidades de interação entre quem fala e quem escuta de modo que haja mais entendimento entre todos. Noutras palavras, o discurso falado tem menos chances de ser ambíguo.

Você já reparou que uma cópia de uma cópia sempre fica com menos nitidez do que uma cópia do original? Os conceitos platônicos para pensamento, fala e escrita marcam, em muitas interpretações, o começo dos questionamentos linguísticos. Platão acreditava que a fala era a forma mais fiel de representação do pensamento e que a escrita era uma tentativa de representar a fala. Se compararmos a uma sequência de cópias, a fala era a cópia do pensamento e a escrita, uma cópia da fala, ou seja, uma cópia de uma cópia.

O mérito da questão, aqui, não é uma relação de superioridade entre fala e escrita, mas o reconhecimento das particularidades de cada uma das modalidades de linguagem (reconhecimento esse que quem faz Literatura costuma dominar com louvor).

Hoje, à luz da globalização, o ser humano foi desenvolvendo cada vez mais possibilidades de diálogo (embora haja tanto monólogo por aí) e, mesmo que usemos cada vez menos cartas, telegramas e similares, ainda nos falamos muito por meio da linguagem escrita (olha só eu e você nos comunicando por meio da escrita agora). Platão, se vivo, teria certeza não só de que a linguagem escrita é mais ambígua, mas de que a linguagem que desconhece seus interlocutores também é. Um texto nunca pôde ser lido por tantas pessoas em tantos lugares diferentes como hoje. A mesma coisa acontece com vídeos, fotos e montagens que, na web, sequer desconfiam da audiência que encontrarão.

A geração de hoje (pareço um velho falando, rs.) ou para pra pensar na melhor palavra pra expressar o que quer dizer, ou para pra pensar na melhor palavra pra chocar quem for recebê-la (mesmo que, muitas vezes, não se conheça quem vai recebê-la) ou nem para pra pensar no que vai falar/escrever/publicar. São os tempos da prudência linguística ou da verborragia, da esquerda ou da direita, do 8 ou do 80. Sem moderações. Sem espaço para centro. Sem paciência pro equilíbrio. Sem tempo para refletirmos sobre as várias possibilidades de interpretação que um discurso pode ter.

Isso ficou extremamente evidente pra mim quando Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará e uma das feministas mais conhecidas no país, foi alvo de uma publicação do apresentador Danilo Gentili, no Twitter. Digo alvo porque a publicação não só tinha a intenção de atacá-la como provocou uma nova onda de ofensas cibernéticas à feminista que, há mais de três anos, é insultada nas redes sociais.

No tweet, o apresentador postou uma foto alterada de Lola que, junto a outra moça, segurava um cartaz que dizia “por favor, não nos assediem”. Na legenda da imagem, Gentili disse “Fiquem tranquilas. Nunca nem me passou pela cabeça fazer isso”. É muito difícil mencionar esse caso (e outros ao longo do texto) e não descambar para discussões tão necessárias quanto essa (como a importância do feminismo, tema tão bem tratado aqui mesmo no Ano Zero), mas vou tentar.

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As reações à publicação foram tão diversas quanto suas interpretações, mas facilmente “agrupáveis”. De um lado, milhares de internautas repudiaram a publicação do apresentador e a interpretaram como uma clara tentativa de ridicularizar o movimento feminista e a própria Lola (inclusive um movimento chamado #PorqueNãoMeCalo foi lançado a partir do episódio) De outro lado, milhares de internautas repudiaram as críticas feitas ao discurso de Gentili apelando pro cômodo “é só uma piada, gente!”. Para além da publicação, enquanto um lado defendia a necessidade de problematizar, o outro defendia a desnecessidade de levar a sério. Lembra que esses são os tempos do 8 ou do 80?


Quem diz que um discurso “é apenas uma piada” tenta ridicularizar quem problematiza o que é dito, mas acaba dando um baita atestado de desinformação e/ou comodismo, pois todo discurso é a ponta de um iceberg e contestar é que deveria ser a tendência. “Não se preocupem. Isso nem me passou pela cabeça” é carregado de insinuações e não-ditos que são, justamente, o que tornam a afirmação engraçada para uns e infeliz para outros. Mas problematizar é coisa de gente chata, né?

Documentário “O Riso dos Outros”, dirigido por Pedro Arantes.

Mesmo que ambígua, é por meio da linguagem que passamos a ocupar espaços não só físicos, não só ideológicos, não só políticos, mas principalmente discursivos (embora não haja muita diferença entre esses espaços). Por meio da linguagem, somos representados e nossa existência é socialmente reconhecida (certidão de nascimento, título de eleitor, Cadastro de Pessoa Física etc.). Não acredito que tenhamos tido um momento melhor para observar o quanto a linguagem é poderosa e complexa como nos últimos dez ou quinze anos, como hoje, como agora.

Às vésperas do Dia da Mulher, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que torna crime hediondo e homicídio qualificado o feminicídio (o assassinato de mulheres por razões de gênero). Embora tenha sido uma vitória para a bancada feminina da Câmara, o projeto de lei tornou-se mais conservador depois que a bancada fundamentalista ameaçou boicotar o projeto caso o termo “gênero” não fosse substituído por “sexo” em seu texto original. Mas é só uma troca de palavras, certo?! Uma troca que exclui do projeto transexuais e demais pessoas que tenham identidade de gênero feminina e que mantém a transfobia como não passível de criminalização. Enquanto discutimos o que temos ou não de levar a sério, tem gente de olho em cada palavra.


E aqui caberiam ainda mais ilustrações como a importância de usar o artigo feminino ao se referir a travestis, a necessidade de desburocratizar o uso do nome social por pessoas transexuais e o uso do “x” para anulação gráfica do gênero (como em “todxs”, “compranheirxs”, “calourxs”), mas vou me conter enfatizando que refletir antes de emitir e depois de ouvir/ler um discurso não é censurar outros ou a si mesmo, mas ter consciência que o que está sendo dito é, de fato, o que pensamos ou que queremos, realmente, assinar embaixo do que outros estão falando.

Assim, ficamos a poucos passos de compreender (mesmo que seja para criticar) ou admitir que não compreendemos suficientemente reivindicações que parecem tão bobas para quem não as reivindica ao invés de lançarmos mão de comentários do tipo “é só uma piada” ou “isso é frescura”, ou ainda “isso não muda nada”. Pois bem disse Raduan Nassar, em Lavoura Arcaica: “toda palavra é uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo. Corremos graves riscos quando falamos”.


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