silencio capa sergio sardi

Escute o silêncio do aqui e agora

Em Consciência, Filosofia por Sérgio SardiComentário

silên­cio a dizer. E um silên­cio último, de todo indi­zí­vel, a escu­tar.


Sen­tir-se inten­sa­mente aqui e agora. Tão somente sen­tir-se aqui e agora, em ver­ti­gi­nosa, gra­da­tiva e tensa pro­xi­mi­dade daquilo que a pala­vra exis­tên­cia ousa apon­tar, mas jamais esgota. Des­ve­lando, em cama­das, a senda de uma ini­ci­a­ção gui­ada pelo desejo de um con­tato, em si, indi­zí­vel e, de todo, inal­can­çá­vel. Aqui e agora é mis­té­rio irre­du­tí­vel. Habi­ta­mos o mis­té­rio. E, em envol­vi­mento medi­ta­tivo, o reins­tau­ra­mos no cerne de nossa morada. O mis­té­rio de ser e estar aqui e agora é espe­lho que invade o mis­té­rio do viver. E se dobra sobre a nossa pre­sença diante do Ser, atra­ves­sando-nos ao impreg­nar cada ente e aspecto daquilo que, no limite da sen­si­bi­li­dade, indi­cia a inu­si­tada ins­tau­ra­ção de um sen­tir e pen­sar que trans­borda.

Escute. Há silên­cio no der­re­dor, em toda parte; e há, sim, um silên­cio maior. Que se dis­tende a par­tir deste. Escute o pró­prio viver. Há um sen­tir em trans­cen­dên­cia vívida, pri­má­ria, e que per­ma­nece aquém e além de qual­quer pos­si­bi­li­dade de ser sub­su­mida pela pala­vra. A con­di­ção mis­té­rica do humano é conhe­ci­mento que não neces­sita de razões, mesmo que as razões e con­cei­tos e todas as lógi­cas pos­sí­veis pos­sam adqui­rir a potên­cia de aden­trar e, com isso, expan­dir o silên­cio em dire­ção ao ines­pe­ra­da­mente belo. Pois toda inda­ga­ção ou res­posta sobre o viver deve ser viven­ci­al­mente bela e intensa para ter sen­tido. A potên­cia da pala­vra está, pois, em reme­ter para além de si mesma. A sig­ni­fi­ca­ção pri­meira que se pro­duz diante do aqui e agora é per­pas­sada por uma expe­ri­ên­cia silen­ci­o­sa­mente humana. Pois há algo a escu­tar, mas que é de todo indi­zí­vel.

A segunda trans­cen­dên­cia tem iní­cio no ser visto. O olhar do outro é o espaço mais íntimo da morada no Ser. Um olhar que pos­sui, um estar fora de si; e um ver-se a par­tir de fora de si mesmo. Para­doxo no qual a alte­ri­dade plena do rosto indi­cia der­ra­deira pro­xi­mi­dade. Assim con­duz cada um, soli­ta­ri­a­mente, a saber-se par­tí­cipe da Vida. E a nos reco­nhe­cer­mos como rosto para outrem, diante do fora infi­nito de cada outra vida. Quando, então, o sen­ti­mento eu torna-se inter­mi­na­vel­mente repli­cado em cada eu: um mesmo sen­tir, um mesmo Viver em múl­ti­plas faces. Eis ver­ti­gem e sen­tido. E um cami­nho a ser rei­ni­ci­ado a cada encon­tro. A segunda trans­cen­dên­cia é mis­té­rio no seio do mis­té­rio do aqui e agora.

Sen­tir a res­pon­sa­bi­li­dade de estar sendo, de exis­tir, e dese­jar res­pon­der à altura a tal gra­tui­dade. Eis um cami­nho a ser poten­ci­al­mente rein­ven­tado em cada ser humano no per­curso da cons­tru­ção de sen­tido de sua vida. Mas, sen­tir o mis­té­rio do outro dis­tende essa res­pon­sa­bi­li­dade, pois agora se trata do sen­tido da nossa vida. Quando, então, a com­pai­xão para com a huma­ni­dade é medi­ada por cada rosto que se apro­xima. Eis a ética, como desejo, medi­ta­ção e con­tem­pla­ção, em seu nas­ce­douro humano.

Com­pai­xão é este ato atra­vés do qual o pôr-se em pre­sença do outro é par­ti­lha do mis­té­rio, em dis­tante pro­xi­mi­dade infi­nita, e que incita a trans­mu­tar a pró­pria vida ao máximo que é pos­sí­vel ofer­tar de belo à vida do outro. O desejo de uma vida a trans­for­mar. Uma res­pon­sa­bi­li­dade humil­de­mente ofer­tada, no limite de nos­sas for­ças. A força motriz de uma esté­tica da exis­tên­cia.

Há silên­cio a dizer. E um silên­cio último, de todo indi­zí­vel, a escu­tar.


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Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.

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