silêncio a dizer. E um silêncio último, de todo indizível, a escutar.


Sentir-se intensamente aqui e agora. Tão somente sentir-se aqui e agora, em vertiginosa, gradativa e tensa proximidade daquilo que a palavra existência ousa apontar, mas jamais esgota. Desvelando, em camadas, a senda de uma iniciação guiada pelo desejo de um contato, em si, indizível e, de todo, inalcançável. Aqui e agora é mistério irredutível. Habitamos o mistério. E, em envolvimento meditativo, o reinstauramos no cerne de nossa morada. O mistério de ser e estar aqui e agora é espelho que invade o mistério do viver. E se dobra sobre a nossa presença diante do Ser, atravessando-nos ao impregnar cada ente e aspecto daquilo que, no limite da sensibilidade, indicia a inusitada instauração de um sentir e pensar que transborda.

Escute. Há silêncio no derredor, em toda parte; e há, sim, um silêncio maior. Que se distende a partir deste. Escute o próprio viver. Há um sentir em transcendência vívida, primária, e que permanece aquém e além de qualquer possibilidade de ser subsumida pela palavra. A condição mistérica do humano é conhecimento que não necessita de razões, mesmo que as razões e conceitos e todas as lógicas possíveis possam adquirir a potência de adentrar e, com isso, expandir o silêncio em direção ao inesperadamente belo. Pois toda indagação ou resposta sobre o viver deve ser vivencialmente bela e intensa para ter sentido. A potência da palavra está, pois, em remeter para além de si mesma. A significação primeira que se produz diante do aqui e agora é perpassada por uma experiência silenciosamente humana. Pois há algo a escutar, mas que é de todo indizível.

A segunda transcendência tem início no ser visto. O olhar do outro é o espaço mais íntimo da morada no Ser. Um olhar que possui, um estar fora de si; e um ver-se a partir de fora de si mesmo. Paradoxo no qual a alteridade plena do rosto indicia derradeira proximidade. Assim conduz cada um, solitariamente, a saber-se partícipe da Vida. E a nos reconhecermos como rosto para outrem, diante do fora infinito de cada outra vida. Quando, então, o sentimento eu torna-se interminavelmente replicado em cada eu: um mesmo sentir, um mesmo Viver em múltiplas faces. Eis vertigem e sentido. E um caminho a ser reiniciado a cada encontro. A segunda transcendência é mistério no seio do mistério do aqui e agora.

Sentir a responsabilidade de estar sendo, de existir, e desejar responder à altura a tal gratuidade. Eis um caminho a ser potencialmente reinventado em cada ser humano no percurso da construção de sentido de sua vida. Mas, sentir o mistério do outro distende essa responsabilidade, pois agora se trata do sentido da nossa vida. Quando, então, a compaixão para com a humanidade é mediada por cada rosto que se aproxima. Eis a ética, como desejo, meditação e contemplação, em seu nascedouro humano.

Compaixão é este ato através do qual o pôr-se em presença do outro é partilha do mistério, em distante proximidade infinita, e que incita a transmutar a própria vida ao máximo que é possível ofertar de belo à vida do outro. O desejo de uma vida a transformar. Uma responsabilidade humildemente ofertada, no limite de nossas forças. A força motriz de uma estética da existência.

Há silêncio a dizer. E um silêncio último, de todo indizível, a escutar.


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escrito por:

Sérgio Sardi

Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.


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