O que o seu "eu" de ontem diria a você?

O que o seu “eu” de ontem diria a você?

Em Comportamento, Consciência por Diogo DesideratiComentários

Uma das máxi­mas que mui­tos ouvi­mos ao longo da vida é a de que “a grama do vizi­nho é sem­pre mais verde”. Em tem­pos de redes soci­ais como o Face­book, essa máxima che­gou a novos pata­ma­res. Afi­nal, nossa linha do tempo é bom­bar­de­ada por sor­ri­sos lar­gos, praias cris­ta­li­nas, bron­ze­a­dos per­fei­tos, livros e mais livros lidos, bala­das exclu­si­vas e, sem­pre está lá, o pro­ta­go­nista daquela his­tó­ria que nos é con­tada a par­tir de seu ponto de vista.

Pos­ta­gem depois de pos­ta­gem, twe­ets e mais twe­ets, vídeos, vines, blogs, ins­ta­gram: a inter­net nos dá a cada dia novas fer­ra­men­tas para ela­bo­rar­mos nossa nar­ra­tiva e, por ser nossa, a faze­mos per­feita.

Mas, por trás daquela come­mo­ra­ção de um livro a ser publi­cado por um amigo no Face­book, se escon­dem as vinte e tan­tas rejei­ções. Por trás das férias per­fei­tas docu­men­tada em ima­gens em alta defi­ni­ção, fica oculto o endi­vi­da­mento e as bri­gas cons­tan­tes no quarto de hotel.

Mas, ei, está tudo bem! Pode­mos sim criar ima­gens mais, diga­mos, poli­das de nos­sas vidas e de nós mes­mos. E, con­ve­nha­mos, se nossa linha do tempo esti­vesse per­me­ada de der­ro­tas, seria um lugar mais inós­pito e bem menos con­vi­da­tivo à sua fun­ção: entre­te­ni­mento.

Exis­tem estu­dos que fazem uma liga­ção direta entre auto­es­tima e as ati­vi­da­des nas redes soci­ais. Entre­tanto, não quero falar das pes­soas que fazem as nar­ra­ti­vas, mas sim das pes­soas que as con­so­mem.

Ao obser­var a vida das pes­soas atra­vés de sua nar­ra­tiva, temos uma ideia limi­tada daquilo que se pode cha­mar de “a ver­dade com­pleta”, do que estava por trás daquela rea­li­za­ção ou daquele resul­tado. Entrar em con­tato com uma ver­são limi­tada da infor­ma­ção, aquela que exalta ape­nas a face posi­tiva, acaba gerando em quem observa o sen­ti­mento de que se é infe­rior, ou de que se fra­cas­sou em alguma medida. E disso surge uma redu­ção da auto­es­tima que, mui­tas vezes, resulta em mal-estar e até mesmo em doen­ças.

Este vídeo demons­tra muito bem isso:

Isso é resul­tado de um fenô­meno deli­ne­ado pelo psi­có­logo Leon Fes­tin­ger cha­mado “Com­pa­ra­ção social”, onde com­pa­ramo-nos aos nos­sos pares, fami­li­a­res ou mesmo figu­ras de sucesso ou cele­bri­da­des. Ainda que tenha seus méri­tos, o público para o qual é válida essa forma de enxer­gar a vida é limi­tado: pou­cos con­se­guem man­ter essa pos­tura por muito tempo e de forma pro­vei­tosa, usando a com­pa­ra­ção como motor para o pró­prio desen­vol­vi­mento. Via de regra, esse sis­tema falha por dei­xar de lado ques­tões cru­ci­ais como:

1 – Estamos falando em narrativas e elas partem de um narrador que dita o tom e filtra as informações e a história que conta.

narrativa

Mesmo fora das redes soci­ais, se você, por exem­plo, resol­ver que seria uma boa ideia com­prar a bio­gra­fia de Síl­vio San­tos pois o con­si­dera um exem­plo a ser seguido, deve­ria ter em mente que a his­tó­ria ali não está com­pleta, pois há a nar­ra­tiva do autor e a nar­ra­tiva do edi­tor influ­en­ci­ando o pro­duto final.

É vital con­si­de­rar a ”ver­dade com­pleta”, não se dexi­ando levar pelo poder da nar­ra­tiva per­feita.

2 – A vida não é justa.

eike

Algu­mas pes­soas nas­cem com o rosto de sime­tria per­feita, ou no cír­culo social certo, que abrirá as por­tas para uma car­reira de sucesso, ou mesmo em famí­lias mais ricas (finan­ceira ou cul­tu­ral­mente). As pes­soas têm vidas dife­ren­tes espe­ci­al­mente por terem pon­tos de par­tida dife­ren­tes.

Isso foi absor­vido pela nossa cul­tura de forma que quase não pen­sa­mos a res­peito, e aca­ba­mos por nos cul­par por não tra­ba­lhar­mos duro o sufi­ci­ente para ser­mos donos de uma empresa aos 24 anos. Nós cos­tu­ma­mos igno­rar o fato que aquele cara que você aca­bou de ver na capa da revista não pre­ci­sou tra­ba­lhar e estu­dar ao mesmo tempo como você, ou que ele é filho de um rico empre­sá­rio e é amigo do gover­na­dor.

Nem tudo é imu­tá­vel e deve­mos, sim, bata­lhar duro para ter­mos a vida que que­re­mos, mas com­pa­rar nossa jor­nada com a dos outros igno­rando o ponto de par­tida é como com­pa­rar fei­jões e moto­ci­cle­tas.

3 – Já notou o ar de inveja que aquela frase do início do texto, aquela que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde” tem?

grama

Ela fica implí­cita, mas está lá e todos conhe­ce­mos o seu poder des­tru­tivo. E qual é esse poder? Ela trans­forma ami­gos e ali­a­dos em rivais. Ao invés de ficar­mos feli­zes ou cele­brar­mos as con­quis­tas dos outros de forma genuína, ao com­pa­rarmo-nos com eles aca­ba­mos por criar uma riva­li­dade - ainda que pequena, ainda que oculta. Ao invés de tor­nar nosso vizi­nho um ali­ado, embar­cando em seu sucesso para criar um gra­mado tão verde, apren­dendo com ele, cui­dando de nosso jar­dim, fechando uma par­ce­ria e abrindo uma empresa de jar­di­na­gem, é uma ten­dên­cia que nos res­sin­ta­mos e bus­que­mos outras for­mas de melho­rar nosso gra­mado sem incluir nosso vizi­nho no pro­cesso.

Esses são ape­nas 3 exem­plos de como a com­pa­ra­ção social pode ser nociva. Ela tem seus méri­tos quando bem apli­cada, mas a aposta é alta, espe­ci­al­mente quando há uma forma melhor e com­pro­va­da­mente mais efi­caz de se com­pa­rar aos outros (que, con­ve­nha­mos, é uma boa forma de se obter uma medida de nossa evo­lu­ção).

É uma teo­ria deri­vada da “Com­pa­ra­ção Social”, mas que muda o ponto de refe­rên­cia de fora para den­tro. Isto é, você se com­para hoje com quem você foi ontem. O nome dessa teo­ria é “Com­pa­ra­ção Tem­po­ral” e foi cunhada pelo psi­có­logo Stu­art Albert da Uni­ver­si­dade de Min­ne­sota, nos Esta­dos Uni­dos.

Essa teo­ria afirma que é mais efi­ci­ente e efi­caz que olhe­mos para nosso pro­gresso em um ponto de vista tem­po­ral, isso é, que você con­si­dere o quanto pro­gre­diu de ontem para hoje.

É uma forma de rein­ter­pre­tar aquela con­versa que já ouvi­mos em algum momento:

– Eu sou o melhor?

– Não, exis­tem bilhões de pes­soas no mundo, você pro­va­vel­mente não é o melhor nisso, mas você deve fazer o seu melhor.

Fazer o seu melhor, o que é isso? Parece um lugar está­tico, mas não é. Fazer o seu melhor não é fazer o mesmo que você fez ontem, mas sim ir um passo além, por menor que seja. Melhor é uma con­jun­ção com­pa­ra­tiva, é uma pala­vra que esta­be­lece rela­ção entre duas coi­sas, na qual uma é supe­rior a outra. Então, se fosse para não irmos um passo além, o que ouvi­ría­mos seria: “Faça mais do mesmo”.

Essa teo­ria nos ajuda a estru­tu­rar melhor nos­sos pla­nos. Se hoje pre­tendo ini­ciar um curso de ale­mão, como eu gos­ta­ria que essa habi­li­dade esti­vesse daqui a dois anos? E para alcan­çar esse nível, quan­tas horas por semana devo estu­dar?

Esse tipo de per­gunta é cru­cial quando esta­mos pla­ne­jando nos­sos pas­sos em dire­ção a um obje­tivo. Conhe­cendo a si mesmo, conhe­cendo seus limi­tes e capa­ci­da­des, com­pe­tên­cias e defa­sa­gens, você pode ela­bo­rar um roteiro para dar cabo daquele obje­tivo.

Essa téc­nica tam­bém nos ajuda a pen­sar sobre o que acon­tece conosco quando vemos que, ao invés de pro­gre­dir, aca­ba­mos por regre­dir. Por exem­plo, se na semana pas­sada você estava con­se­guindo cor­rer 4 quilô­me­tros, por­que está com difi­cul­da­des para cor­rer 2 essa semana?

É uma coleta de dados que nos ofe­rece uma opor­tu­ni­dade para redi­re­ci­o­nar­mos nos­sos pla­nos ou ter­mos maior cons­ci­ên­cia dos obs­tá­cu­los que nos impe­dem de che­gar lá e desen­vol­ver­mos o nosso “Melhor Pes­soal” — o seu recorde, seu pró­ximo limite a ser supe­rado.

Tal mudança de pers­pec­tiva vai tra­zer maior satis­fa­ção pes­soal, melho­rar sua auto estima e, prin­ci­pal­mente, tra­zer o rea­lismo neces­sá­rio para enfren­tar as nar­ra­ti­vas fan­tás­ti­cas que nos bom­bar­deiam toda vez que sen­ta­mos em frente à uma tela.

Diogo Desiderati
Psicólogo de carteirinha e de coração, apaixonado pela vida e pelos mistérios dela. Tenho verdadeiro amor pelo desenvolvimento pessoal, ou seja dar um passo a mais em direção a ser hoje uma pessoa melhor do que se foi ontem. Também tenho forte ligação com as filosofias taoistas e budistas, o que reflete em meu temperamento zen.

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