Uma das máximas que muitos ouvimos ao longo da vida é a de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Em tempos de redes sociais como o Facebook, essa máxima chegou a novos patamares. Afinal, nossa linha do tempo é bombardeada por sorrisos largos, praias cristalinas, bronzeados perfeitos, livros e mais livros lidos, baladas exclusivas e, sempre está lá, o protagonista daquela história que nos é contada a partir de seu ponto de vista.

Postagem depois de postagem, tweets e mais tweets, vídeos, vines, blogs, instagram: a internet nos dá a cada dia novas ferramentas para elaborarmos nossa narrativa e, por ser nossa, a fazemos perfeita.

Mas, por trás daquela comemoração de um livro a ser publicado por um amigo no Facebook, se escondem as vinte e tantas rejeições. Por trás das férias perfeitas documentada em imagens em alta definição, fica oculto o endividamento e as brigas constantes no quarto de hotel.

Mas, ei, está tudo bem! Podemos sim criar imagens mais, digamos, polidas de nossas vidas e de nós mesmos. E, convenhamos, se nossa linha do tempo estivesse permeada de derrotas, seria um lugar mais inóspito e bem menos convidativo à sua função: entretenimento.

Existem estudos que fazem uma ligação direta entre autoestima e as atividades nas redes sociais. Entretanto, não quero falar das pessoas que fazem as narrativas, mas sim das pessoas que as consomem.

Ao observar a vida das pessoas através de sua narrativa, temos uma ideia limitada daquilo que se pode chamar de “a verdade completa”, do que estava por trás daquela realização ou daquele resultado. Entrar em contato com uma versão limitada da informação, aquela que exalta apenas a face positiva, acaba gerando em quem observa o sentimento de que se é inferior, ou de que se fracassou em alguma medida. E disso surge uma redução da autoestima que, muitas vezes, resulta em mal-estar e até mesmo em doenças.

Este vídeo demonstra muito bem isso:

Isso é resultado de um fenômeno delineado pelo psicólogo Leon Festinger chamado “Comparação social”, onde comparamo-nos aos nossos pares, familiares ou mesmo figuras de sucesso ou celebridades. Ainda que tenha seus méritos, o público para o qual é válida essa forma de enxergar a vida é limitado: poucos conseguem manter essa postura por muito tempo e de forma proveitosa, usando a comparação como motor para o próprio desenvolvimento. Via de regra, esse sistema falha por deixar de lado questões cruciais como:

1 – Estamos falando em narrativas e elas partem de um narrador que dita o tom e filtra as informações e a história que conta.

narrativa

Mesmo fora das redes sociais, se você, por exemplo, resolver que seria uma boa ideia comprar a biografia de Sílvio Santos pois o considera um exemplo a ser seguido, deveria ter em mente que a história ali não está completa, pois há a narrativa do autor e a narrativa do editor influenciando o produto final.

É vital considerar a ”verdade completa”, não se dexiando levar pelo poder da narrativa perfeita.

2 – A vida não é justa.

eike

Algumas pessoas nascem com o rosto de simetria perfeita, ou no círculo social certo, que abrirá as portas para uma carreira de sucesso, ou mesmo em famílias mais ricas (financeira ou culturalmente). As pessoas têm vidas diferentes especialmente por terem pontos de partida diferentes.

Isso foi absorvido pela nossa cultura de forma que quase não pensamos a respeito, e acabamos por nos culpar por não trabalharmos duro o suficiente para sermos donos de uma empresa aos 24 anos. Nós costumamos ignorar o fato que aquele cara que você acabou de ver na capa da revista não precisou trabalhar e estudar ao mesmo tempo como você, ou que ele é filho de um rico empresário e é amigo do governador.

Nem tudo é imutável e devemos, sim, batalhar duro para termos a vida que queremos, mas comparar nossa jornada com a dos outros ignorando o ponto de partida é como comparar feijões e motocicletas.

3 – Já notou o ar de inveja que aquela frase do início do texto, aquela que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde” tem?

grama

Ela fica implícita, mas está lá e todos conhecemos o seu poder destrutivo. E qual é esse poder? Ela transforma amigos e aliados em rivais. Ao invés de ficarmos felizes ou celebrarmos as conquistas dos outros de forma genuína, ao compararmo-nos com eles acabamos por criar uma rivalidade – ainda que pequena, ainda que oculta. Ao invés de tornar nosso vizinho um aliado, embarcando em seu sucesso para criar um gramado tão verde, aprendendo com ele, cuidando de nosso jardim, fechando uma parceria e abrindo uma empresa de jardinagem, é uma tendência que nos ressintamos e busquemos outras formas de melhorar nosso gramado sem incluir nosso vizinho no processo.

Esses são apenas 3 exemplos de como a comparação social pode ser nociva. Ela tem seus méritos quando bem aplicada, mas a aposta é alta, especialmente quando há uma forma melhor e comprovadamente mais eficaz de se comparar aos outros (que, convenhamos, é uma boa forma de se obter uma medida de nossa evolução).

É uma teoria derivada da “Comparação Social”, mas que muda o ponto de referência de fora para dentro. Isto é, você se compara hoje com quem você foi ontem. O nome dessa teoria é “Comparação Temporal” e foi cunhada pelo psicólogo Stuart Albert da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

Essa teoria afirma que é mais eficiente e eficaz que olhemos para nosso progresso em um ponto de vista temporal, isso é, que você considere o quanto progrediu de ontem para hoje.

É uma forma de reinterpretar aquela conversa que já ouvimos em algum momento:

– Eu sou o melhor?

– Não, existem bilhões de pessoas no mundo, você provavelmente não é o melhor nisso, mas você deve fazer o seu melhor.

Fazer o seu melhor, o que é isso? Parece um lugar estático, mas não é. Fazer o seu melhor não é fazer o mesmo que você fez ontem, mas sim ir um passo além, por menor que seja. Melhor é uma conjunção comparativa, é uma palavra que estabelece relação entre duas coisas, na qual uma é superior a outra. Então, se fosse para não irmos um passo além, o que ouviríamos seria: “Faça mais do mesmo”.

Essa teoria nos ajuda a estruturar melhor nossos planos. Se hoje pretendo iniciar um curso de alemão, como eu gostaria que essa habilidade estivesse daqui a dois anos? E para alcançar esse nível, quantas horas por semana devo estudar?

Esse tipo de pergunta é crucial quando estamos planejando nossos passos em direção a um objetivo. Conhecendo a si mesmo, conhecendo seus limites e capacidades, competências e defasagens, você pode elaborar um roteiro para dar cabo daquele objetivo.

Essa técnica também nos ajuda a pensar sobre o que acontece conosco quando vemos que, ao invés de progredir, acabamos por regredir. Por exemplo, se na semana passada você estava conseguindo correr 4 quilômetros, porque está com dificuldades para correr 2 essa semana?

É uma coleta de dados que nos oferece uma oportunidade para redirecionarmos nossos planos ou termos maior consciência dos obstáculos que nos impedem de chegar lá e desenvolvermos o nosso “Melhor Pessoal” – o seu recorde, seu próximo limite a ser superado.

Tal mudança de perspectiva vai trazer maior satisfação pessoal, melhorar sua auto estima e, principalmente, trazer o realismo necessário para enfrentar as narrativas fantásticas que nos bombardeiam toda vez que sentamos em frente à uma tela.

escrito por:

Diogo Desiderati

Psicólogo de carteirinha e de coração, apaixonado pela vida e pelos mistérios dela. Tenho verdadeiro amor pelo desenvolvimento pessoal, ou seja dar um passo a mais em direção a ser hoje uma pessoa melhor do que se foi ontem. Também tenho forte ligação com as filosofias taoistas e budistas, o que reflete em meu temperamento zen.


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