Quando uma pessoa se autodenomina conservadora, geralmente não temos uma boa impressão a seu respeito. Achamos que ela é egocêntrica por querer preservar o status quo a qualquer custo e não desejar nenhuma forma de mudança que vise inclusão social. Estigmatizamos esse tipo de pessoa, com a imagem de que ela é má, sem comiseração e que só pensa em si. Achamos, inevitavelmente, que um cidadão com esse tipo de mentalidade só pode ser nocivo para sociedade.

Temos, na maioria das vezes, esse tipo de pensamento em relação aos conservadores.

Este texto, na verdade, é o contrário do que você está acostumado a ler e escutar.

Quero persuadi-lo de que os conservadores são figuras tão importantes quanto os progressistas, que são vistos como único autores do bem e da mudança.

Para tanto, vou mostrar como essas características apontadas acima são generalizações feitas sem levar em consideração cada respectivo momento histórico e sem uma visão holística de seu tempo. Cabe também mostrar aqui a pluralidade que, a susto da maioria, o conservadorismo possui.

 

O ceticismo por trás do conservadorismo

Euforia é uma qualidade que o pensamento conservador não tem. Há sempre por trás de uma mente conservadora uma suspeita, uma dúvida que questiona por que as coisas estão caminhando como estão. Todo movimento contínuo que segue um fluxo, sem limites e desordenadamente (isto é, que saiu dos princípios e das normas estabelecidas seja no âmbito social, cultural etc.) já é um bom motivo, na perspectiva de um conservador, para parar tudo e pensar a respeito do que está acontecendo.

A desconfiança que, por conseguinte, sistematizará o pensamento cético de um conservador, é uma forma de suspeita do porvir que surge, antes de tudo, de um pessimismo sobre o futuro. Por isso, há um apego maior no passado e na tentativa de assegurar todas as formas de conquistas que se deram até hoje.

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“O hábito de culpar o presente e admitir o passado está profundamente arraigado na natureza humana.” – David Hume

Mas muita calma, não interprete mal os conservadores. Apesar de possuírem uma postura pessimista, eles não são totalmente desfavoráveis a mudanças. Isso é um engano que grande parte das pessoas tem: todo conservador é um cabeça dura anacrônico.

Isso não é verdade. O que acontece é que, ao invés de buscar soluções absolutas ou perfeccionistas através de ideais metafísicos, os conservadores optam por procurar, com prudência, uma forma de atenuar, gradativamente, os problemas que assolam a humanidade.

Naturalmente, então, não há utopias na cabeça de um conservador, na medida em que ele não acredita ser possível abolir totalmente a pobreza, a violência e proporcionar felicidade igual para todos.

[pullquote cite=”Victor Sado” type=”left”] No conservadorismo, há uma tentativa de assegurar todas as conquistas sociais que se deram até hoje.[/pullquote]

 

A problemática consiste, então, entre ser imediatista ou não quando se trata de solucionar os problemas. Em relação a isso, a maioria das pessoas pensa que quanto antes solucionarem-se os problemas, melhor — e acabam por procurar uma solução extremista e que é, normalmente, utópica.

E por que é utópica? Porque esse tipo de solução trata demasiadamente rápido, e sem precaução, do problema. Os não-conservadores idealizam um mundo sem miséria, sem sofrimento, de igualdade absoluta para todos. Já os conservadores acham que isso é impossível, pois esses problemas são falhas incuráveis do mundo. Porém, nem por isso os conservadores são derrotistas e individualistas. Embora erroneamente entenda-se que os conservadores não querem melhorar as coisas, questão para eles é, na verdade, sobre como melhorar as coisas.

 

Revolução (Francesa) x Conservadorismo

Um conservador sempre escolherá fazer justiça utilizando as instituições jurídicas e sociais existentes. Ele olhará para a Constituição e todas as demais normas e verificará o que preservar e o que mudar. Será um exercício, portanto, de conciliação e de minuciosa reflexão sobre o que temos de bom e o que temos de ruim.

É uma tarefa difícil, uma vez que envolve questões subjetivas. Por isso, torna-se fundamental a presença de uma autoridade que, com soberania, vincule as verdades dos fatos legislados, a fim de legitimá-las.

No entanto, hoje em dia vemos a autoridade com maus olhos, como um elemento opressor e repressor. Essa imagem que temos hoje sobre a autoridade é resultado da racionalização das escolhas. É natural pensarmos racionalmente sobre por qual razão estaríamos submetidos a instituições religiosas e discursos em nome de Deus, se a própria existência de uma entidade divina é incerta. Racionalmente, nos damos conta da libertação e da infração como forma de concretizar essa liberdade.

Porém, para os olhos de um conservador, o conhecimento que deriva de uma autoridade é essencial para estabelecer uma ordem, a qual não será dada necessariamente por um discurso racional. Essa ordem pode derivar de ideias pré-concebidas, de costumes, da história etc.

Num sentido totalmente oposto, os pró-revolucionários querem uma mudança radical. Logo, a legalidade é para eles um obstáculo, e torna-se fundamental rasgar a Constituição e destruir toda forma de instituições e autoridades a fim de proporcionar a grande mudança.

Para fazer tudo isso, é necessário uma filosofia, um discurso que explique o porquê da mudança. E esse discurso tem, de regra, uma tendência em generalizar as virtudes, a elevar a totalidade da humanidade acima de singularidades como “indivíduo” e “espécie”.

Em nome de um “bem comum” ao homem, ou melhor, em nome de um “bem maior” há uma justificação de todas as formas de terror e violência que fazem durante a revolução. Se torna racional, então, matar em nome da igualdade.

Repare que, nessa forma de pensamento, não há liberdade. A divergência é aniquilada. Essa filosofia que, sem dúvida, é transcendental, apesar de ser fruto de uma boa causa, ganhou proporções obscuras pelo seu compromisso com o bem através do porrete e a guilhotina.

 

A necessidade de conhecimentos prescritos

Quando falamos de um conhecimento prescrito, dizemos que ele é algo estático e invariável. A natureza humana, assim como a ideia do homem ser propenso à religião, é um bom exemplo de conceito prescrito. Por isso, a filosofia moral é objeto de estudo dos conservadores.

Fazer um estudo direcionado à análise do comportamento e das tendências do homem significa também, em certa medida, fazer uma investigação ontológica. O estudo do ser torna-se essencial, se pretendemos estabelecer a ordem e nos precaver de infortúnios futuros.

Quando se tem a ideia pré-estabelecida de que o homem é mau, naturalmente se depositará confiança em uma instituição que garanta segurança à propriedade e à vida. Por isso, para muitos conservadores, a vida em comunidade é impossível sem um Estado, pois a natureza humana é inerentemente cruel. Mas e o bom selvagem? Esse tipo de ideia é considerada ingênua, pois a história nos revelaria exatamente o oposto.

Além disso, para muitos conservadores, a religião e a ideia de Deus são elementos sociais importantes, justamente por considerarem o ser humano um animal frágil e instável, que dispõe de pouca capacidade para aguentar a realidade e sofrimento que o rodeia. Logo, diante do desamparo e de uma iminência inevitável da morte, o homem precisa se agarrar a uma força superior, que ultrapasse seu conhecimento e sua racionalidade.

Revolução Francesa: muita violência e terror rolou por lá.
Revolução Francesa: muita violência e terror rolou por lá.

Hoje em dia nós confundimos, em grande parte, o valor das coisas com sua utilidade. Por isso, vemos a ciência e toda forma de progresso técnico desenfreado como algo positivo. Dificilmente recusamos uma proposta que vise melhorar nossa saúde ou os meios de comunicação. Somos demasiadamente apegados à utilidade (leia-se, progresso) e deixamos de analisar as coisas pelo seu valor em si. Nós nos afogamos e nos perdemos no efêmero e no contingente.

Mas a religião, ao contrário, nos fornece continuidade e a tranquilidade de que tudo não se perca no nada. O medo pode ser um fator determinante para a crença religiosa – mas, em troca, a religião nos propicia uma estrutura moral e, principalmente, um propósito para vida.

 

Lidar com a realidade como ela é

Um conservador pode tomar medidas radicais, por mais inusitado que isso possa parecer, desde que preserve algo que considere importante para a sociedade. Porém, ele dificilmente proporá uma mudança que desconsiderem a realidade e as condições humanas atuais.

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Só assim, tratando a realidade tal como é, que o conservador proporá alguma mudança. Diante de problemas econômicos e sociais, por exemplo, recorrerá às instituições existentes para diminuir a desigualdade de renda e inclusão social. Dessa forma, analisando as coisas de forma casuística e reparando em suas particularidades, o conservador investigará a procedência da riqueza e em como fazer que as classes mais desfavorecidas adquiram mais riqueza.

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“Não se torna rico o pobre tornando rico o mais pobre.” – Winston Churchill

Portanto, para um conservador, um mundo ideal não existe. O que existe é a construção paulatina de uma ordem que reflita a sabedoria do passado, sem cair nas loucuras da paixão de um mundo idealmente perfeito.


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Victor Sado
Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.
  • Guilherme Nogueira M. Muzulon

    Oi Victor. Sua definição de conservadorismo é coerente. Mas, a despeito do didatismo, é ingênua ou, pelo menos, limitadora do contexto. O conservador pode ser útil, pode ser necessário, do mesmo jeito que é. Em qualquer situação em que houver diferença de opinião, alguns serão conservadores ou, até mesmo, a maioria das pessoas – isso não é uma regra, apenas especulação. O conservador quer chão firme, espaço conhecido, rumos prováveis, para fazer o que pode e quer.

    O que falta aí na reflexão e que não posso afirmar se você não inseriu por falta de vontade, descrença ou pouco aprofundamento, é o seguinte: se um meio de vida está muito ruim e os conservadores são a minoria ou, até que sejam a maioria, não são todos, algo está ruim. Não precisamos nem considerar aqui a minoria das pessoas. 10% de uma população é um número relativamente importante – e ainda mesmo 0,01% também o seria. Neste sentido, se algo está ruim, o conservador defende um sistema ruim. E é isso que os progressistas buscam mudar. Sabendo como ou não, agindo irrefletidamente ou não, eles que sofrem na pele as consequências do que é péssimo no “status quo” de uma sociedade e, justamente por isso, lutam pela transformação desse ‘status…’.

    • Victor Sado

      Olá, Guilherme, tudo bom? Ótima observação sobre o texto. O ponto que você levanta há realmente uma necessidade de ser abordada de uma forma mais detalhada. Explico. O conservador coerente, que faz jus a sua filosofia, isto é, que se engaja numa justiça social, não tenta preservar um governo ruim. Apesar de reconhecer a existência de um governo desse tipo. Uma das ideias do texto foi justamente essa, tirar o monopólio do bem (de fazer mudanças boas) que os progressistas adquiriram com o decorrer do tempo.

      O problema está, na verdade, em como tratamos a palavra “mudança”. E pra mim, em grande parte, mudança para um conservador reflete parcimônia. O que não acontece para aqueles que exigem uma mudança extrema. Vejo, portanto, e aí está a diferença que, se analisarmos bons conservadores e bons progressistas haverá uma tênue distinção em como se fazer justiça, um que se pauta em meios concretos; e outro em ideais metafísicos.

      Uma mudança desenfreada e sem restrições é o que o conservador olha com cautela e ceticismo, porque, em grande parte dos casos, pode resultar num caos dito e feito em nome de uma mudanças boas.

      (…) toda sociedade é, por definição, conservadora, uma vez que, sem princípios e valores estabelecidos, seria impossível o convívio social. Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável. – Ferreira Gullar

    • Mteus Barros

      Leia “A politica da prudencia”, do Russel Kirk. Ele fala um pouco sobre esse tema.

      E outra coisa:

      “E é isso que os progressistas buscam mudar. Sabendo como ou não, agindo irrefletidamente ou não, eles que sofrem na pele as consequências do que é péssimo no “status quo” de uma sociedade”

      Essa frase engloba todo o problema dos progressistas. E ela poderia ser resumida em uma frase ainda menor: Quero mudar o mundo e quero já. E quando você diz “quando algo está ruim, o conservador defende um sistema ruim”: O conservadorismo NÃO é sobre defender o que está ruim, mas sobre buscar reconhecer que, muitas vezes, o conjunto de situações, normas, regras e instituições que compõe um determinado status quo, apesar de em seu conjunto possuir falhas e ter seus desafios a serem superados, pode ser melhor que o status quo anterior. É uma postura de prudencia que assume para sí que toda promessa de paraíso na terra é uma mentira, e que a ideia de “destruir o sistema”, para usar um termo que faz a juventude progressista ter orgasmos, é exatamente isso: Destrutiva e nada mais.

      E dizer que os progressistas brasileiros são os que “sofrem as mazelas” desse mundo ruim é no minimo uma piada: O progressismo brasileiro é, majoritariamente, classe média.