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Por que ser um conservador?

Em Comportamento, Consciência, Direito, Economia, Filosofia, História, Política, Religião, Sociedade por Victor SadoComentários

Quando uma pes­soa se auto­de­no­mina con­ser­va­dora, geral­mente não temos uma boa impres­são a seu res­peito. Acha­mos que ela é ego­cên­trica por que­rer pre­ser­var o sta­tus quo a qual­quer custo e não dese­jar nenhuma forma de mudança que vise inclu­são social. Estig­ma­ti­za­mos esse tipo de pes­soa, com a ima­gem de que ela é má, sem comi­se­ra­ção e que só pensa em si. Acha­mos, ine­vi­ta­vel­mente, que um cida­dão com esse tipo de men­ta­li­dade só pode ser nocivo para soci­e­dade.

Temos, na mai­o­ria das vezes, esse tipo de pen­sa­mento em rela­ção aos con­ser­va­do­res.

Este texto, na ver­dade, é o con­trá­rio do que você está acos­tu­mado a ler e escu­tar.

Quero per­su­adi-lo de que os con­ser­va­do­res são figu­ras tão impor­tan­tes quanto os pro­gres­sis­tas, que são vis­tos como único auto­res do bem e da mudança.

Para tanto, vou mos­trar como essas carac­te­rís­ti­cas apon­ta­das acima são gene­ra­li­za­ções fei­tas sem levar em con­si­de­ra­ção cada res­pec­tivo momento his­tó­rico e sem uma visão holís­tica de seu tempo. Cabe tam­bém mos­trar aqui a plu­ra­li­dade que, a susto da mai­o­ria, o con­ser­va­do­rismo pos­sui.

 

O ceticismo por trás do conservadorismo

Eufo­ria é uma qua­li­dade que o pen­sa­mento con­ser­va­dor não tem. Há sem­pre por trás de uma mente con­ser­va­dora uma sus­peita, uma dúvida que ques­ti­ona por que as coi­sas estão cami­nhando como estão. Todo movi­mento con­tí­nuo que segue um fluxo, sem limi­tes e desor­de­na­da­mente (isto é, que saiu dos prin­cí­pios e das nor­mas esta­be­le­ci­das seja no âmbito social, cul­tu­ral etc.) já é um bom motivo, na pers­pec­tiva de um con­ser­va­dor, para parar tudo e pen­sar a res­peito do que está acon­te­cendo.

A des­con­fi­ança que, por con­se­guinte, sis­te­ma­ti­zará o pen­sa­mento cético de um con­ser­va­dor, é uma forma de sus­peita do por­vir que surge, antes de tudo, de um pes­si­mismo sobre o futuro. Por isso, há um apego maior no pas­sado e na ten­ta­tiva de asse­gu­rar todas as for­mas de con­quis­tas que se deram até hoje.

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O hábito de cul­par o pre­sente e admi­tir o pas­sado está pro­fun­da­mente arrai­gado na natu­reza humana.” — David Hume

Mas muita calma, não inter­prete mal os con­ser­va­do­res. Ape­sar de pos­suí­rem uma pos­tura pes­si­mista, eles não são total­mente des­fa­vo­rá­veis a mudan­ças. Isso é um engano que grande parte das pes­soas tem: todo con­ser­va­dor é um cabeça dura ana­crô­nico.

Isso não é ver­dade. O que acon­tece é que, ao invés de bus­car solu­ções abso­lu­tas ou per­fec­ci­o­nis­tas atra­vés de ide­ais meta­fí­si­cos, os con­ser­va­do­res optam por pro­cu­rar, com pru­dên­cia, uma forma de ate­nuar, gra­da­ti­va­mente, os pro­ble­mas que asso­lam a huma­ni­dade.

Natu­ral­mente, então, não há uto­pias na cabeça de um con­ser­va­dor, na medida em que ele não acre­dita ser pos­sí­vel abo­lir total­mente a pobreza, a vio­lên­cia e pro­por­ci­o­nar feli­ci­dade igual para todos.

No con­ser­va­do­rismo, há uma ten­ta­tiva de asse­gu­rar todas as con­quis­tas soci­ais que se deram até hoje.Vic­tor Sado

 

A pro­ble­má­tica con­siste, então, entre ser ime­di­a­tista ou não quando se trata de solu­ci­o­nar os pro­ble­mas. Em rela­ção a isso, a mai­o­ria das pes­soas pensa que quanto antes solu­ci­o­na­rem-se os pro­ble­mas, melhor — e aca­bam por pro­cu­rar uma solu­ção extre­mista e que é, nor­mal­mente, utó­pica.

E por que é utó­pica? Por­que esse tipo de solu­ção trata dema­si­a­da­mente rápido, e sem pre­cau­ção, do pro­blema. Os não-con­ser­va­do­res ide­a­li­zam um mundo sem misé­ria, sem sofri­mento, de igual­dade abso­luta para todos. Já os con­ser­va­do­res acham que isso é impos­sí­vel, pois esses pro­ble­mas são falhas incu­rá­veis do mundo. Porém, nem por isso os con­ser­va­do­res são der­ro­tis­tas e indi­vi­du­a­lis­tas. Embora erro­ne­a­mente entenda-se que os con­ser­va­do­res não que­rem melho­rar as coi­sas, ques­tão para eles é, na ver­dade, sobre como melho­rar as coi­sas.

 

Revolução (Francesa) x Conservadorismo

Um con­ser­va­dor sem­pre esco­lherá fazer jus­tiça uti­li­zando as ins­ti­tui­ções jurí­di­cas e soci­ais exis­ten­tes. Ele olhará para a Cons­ti­tui­ção e todas as demais nor­mas e veri­fi­cará o que pre­ser­var e o que mudar. Será um exer­cí­cio, por­tanto, de con­ci­li­a­ção e de minu­ci­osa refle­xão sobre o que temos de bom e o que temos de ruim.

É uma tarefa difí­cil, uma vez que envolve ques­tões sub­je­ti­vas. Por isso, torna-se fun­da­men­tal a pre­sença de uma auto­ri­dade que, com sobe­ra­nia, vin­cule as ver­da­des dos fatos legis­la­dos, a fim de legi­timá-las.

No entanto, hoje em dia vemos a auto­ri­dade com maus olhos, como um ele­mento opres­sor e repres­sor. Essa ima­gem que temos hoje sobre a auto­ri­dade é resul­tado da raci­o­na­li­za­ção das esco­lhas. É natu­ral pen­sar­mos raci­o­nal­mente sobre por qual razão esta­ría­mos sub­me­ti­dos a ins­ti­tui­ções reli­gi­o­sas e dis­cur­sos em nome de Deus, se a pró­pria exis­tên­cia de uma enti­dade divina é incerta. Raci­o­nal­mente, nos damos conta da liber­ta­ção e da infra­ção como forma de con­cre­ti­zar essa liber­dade.

Porém, para os olhos de um con­ser­va­dor, o conhe­ci­mento que deriva de uma auto­ri­dade é essen­cial para esta­be­le­cer uma ordem, a qual não será dada neces­sa­ri­a­mente por um dis­curso raci­o­nal. Essa ordem pode deri­var de ideias pré-con­ce­bi­das, de cos­tu­mes, da his­tó­ria etc.

Num sen­tido total­mente oposto, os pró-revo­lu­ci­o­ná­rios que­rem uma mudança radi­cal. Logo, a lega­li­dade é para eles um obs­tá­culo, e torna-se fun­da­men­tal ras­gar a Cons­ti­tui­ção e des­truir toda forma de ins­ti­tui­ções e auto­ri­da­des a fim de pro­por­ci­o­nar a grande mudança.

Para fazer tudo isso, é neces­sá­rio uma filo­so­fia, um dis­curso que expli­que o porquê da mudança. E esse dis­curso tem, de regra, uma ten­dên­cia em gene­ra­li­zar as vir­tu­des, a ele­var a tota­li­dade da huma­ni­dade acima de sin­gu­la­ri­da­des como “indi­ví­duo” e “espé­cie”.

Em nome de um “bem comum” ao homem, ou melhor, em nome de um “bem maior” há uma jus­ti­fi­ca­ção de todas as for­mas de ter­ror e vio­lên­cia que fazem durante a revo­lu­ção. Se torna raci­o­nal, então, matar em nome da igual­dade.

Repare que, nessa forma de pen­sa­mento, não há liber­dade. A diver­gên­cia é ani­qui­lada. Essa filo­so­fia que, sem dúvida, é trans­cen­den­tal, ape­sar de ser fruto de uma boa causa, ganhou pro­por­ções obs­cu­ras pelo seu com­pro­misso com o bem atra­vés do por­rete e a gui­lho­tina.

 

A necessidade de conhecimentos prescritos

Quando fala­mos de um conhe­ci­mento pres­crito, dize­mos que ele é algo está­tico e inva­riá­vel. A natu­reza humana, assim como a ideia do homem ser pro­penso à reli­gião, é um bom exem­plo de con­ceito pres­crito. Por isso, a filo­so­fia moral é objeto de estudo dos con­ser­va­do­res.

Fazer um estudo dire­ci­o­nado à aná­lise do com­por­ta­mento e das ten­dên­cias do homem sig­ni­fica tam­bém, em certa medida, fazer uma inves­ti­ga­ção onto­ló­gica. O estudo do ser torna-se essen­cial, se pre­ten­de­mos esta­be­le­cer a ordem e nos pre­ca­ver de infor­tú­nios futu­ros.

Quando se tem a ideia pré-esta­be­le­cida de que o homem é mau, natu­ral­mente se depo­si­tará con­fi­ança em uma ins­ti­tui­ção que garanta segu­rança à pro­pri­e­dade e à vida. Por isso, para mui­tos con­ser­va­do­res, a vida em comu­ni­dade é impos­sí­vel sem um Estado, pois a natu­reza humana é ine­ren­te­mente cruel. Mas e o bom sel­va­gem? Esse tipo de ideia é con­si­de­rada ingê­nua, pois a his­tó­ria nos reve­la­ria exa­ta­mente o oposto.

Além disso, para mui­tos con­ser­va­do­res, a reli­gião e a ideia de Deus são ele­men­tos soci­ais impor­tan­tes, jus­ta­mente por con­si­de­ra­rem o ser humano um ani­mal frá­gil e ins­tá­vel, que dis­põe de pouca capa­ci­dade para aguen­tar a rea­li­dade e sofri­mento que o rodeia. Logo, diante do desam­paro e de uma imi­nên­cia ine­vi­tá­vel da morte, o homem pre­cisa se agar­rar a uma força supe­rior, que ultra­passe seu conhe­ci­mento e sua raci­o­na­li­dade.

Revolução Francesa: muita violência e terror rolou por lá.

Revo­lu­ção Fran­cesa: muita vio­lên­cia e ter­ror rolou por lá.

Hoje em dia nós con­fun­di­mos, em grande parte, o valor das coi­sas com sua uti­li­dade. Por isso, vemos a ciên­cia e toda forma de pro­gresso téc­nico desen­fre­ado como algo posi­tivo. Difi­cil­mente recu­sa­mos uma pro­posta que vise melho­rar nossa saúde ou os meios de comu­ni­ca­ção. Somos dema­si­a­da­mente ape­ga­dos à uti­li­dade (leia-se, pro­gresso) e dei­xa­mos de ana­li­sar as coi­sas pelo seu valor em si. Nós nos afo­ga­mos e nos per­de­mos no efê­mero e no con­tin­gente.

Mas a reli­gião, ao con­trá­rio, nos for­nece con­ti­nui­dade e a tran­qui­li­dade de que tudo não se perca no nada. O medo pode ser um fator deter­mi­nante para a crença reli­gi­osa — mas, em troca, a reli­gião nos pro­pi­cia uma estru­tura moral e, prin­ci­pal­mente, um pro­pó­sito para vida.

 

Lidar com a realidade como ela é 

Um con­ser­va­dor pode tomar medi­das radi­cais, por mais inu­si­tado que isso possa pare­cer, desde que pre­serve algo que con­si­dere impor­tante para a soci­e­dade. Porém, ele difi­cil­mente pro­porá uma mudança que des­con­si­de­rem a rea­li­dade e as con­di­ções huma­nas atu­ais.

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Só assim, tra­tando a rea­li­dade tal como é, que o con­ser­va­dor pro­porá alguma mudança. Diante de pro­ble­mas econô­mi­cos e soci­ais, por exem­plo, recor­rerá às ins­ti­tui­ções exis­ten­tes para dimi­nuir a desi­gual­dade de renda e inclu­são social. Dessa forma, ana­li­sando as coi­sas de forma casuís­tica e repa­rando em suas par­ti­cu­la­ri­da­des, o con­ser­va­dor inves­ti­gará a pro­ce­dên­cia da riqueza e em como fazer que as clas­ses mais des­fa­vo­re­ci­das adqui­ram mais riqueza.

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Não se torna rico o pobre tor­nando rico o mais pobre.” — Wins­ton Chur­chill

Por­tanto, para um con­ser­va­dor, um mundo ideal não existe. O que existe é a cons­tru­ção pau­la­tina de uma ordem que reflita a sabe­do­ria do pas­sado, sem cair nas lou­cu­ras da pai­xão de um mundo ide­al­mente per­feito.


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Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.

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