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O que você quer ser quando crescer?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruna ReginaComentário

Era nos domin­gos que a famí­lia cos­tu­mava se reu­nir para almo­çar. Tios, tias, pri­mos, paren­tes do pri­meiro ao mais dis­pen­sá­vel grau, todos per­gun­tando com­pul­si­va­mente a mim e as outras cri­an­ças pre­sen­tes, enquanto o seu estô­mago aguar­dava ansi­oso pelo chur­rasco que assava len­ta­mente na brasa, se já havía­mos deci­dido o que que­ría­mos ser quando cres­cês­se­mos. Alguns adul­tos mais afoi­tos sequer espe­ra­vam pela res­posta, e já iam res­pon­dendo por si mes­mos: — ah, esse eu já sei, tem cara de Dou­tor, vai ser médico…e aquele, adora mon­tar e des­mon­tar brin­que­dos, vai ser enge­nheiro.

Sem­pre me inco­mo­dei com paren­tes, mais ainda com suas cons­ta­ta­ções tão cer­tei­ras quanto as pre­vi­sões astro­ló­gi­cas do João Bidu. Os domin­gos sem­pre foram bas­tante fas­ti­di­o­sos lá por casa. No entanto, o que mais foi me inco­mo­dando no decor­rer dos anos foi obser­var que aquilo que sonhá­va­mos em ser estava vin­cu­lado, na visão da mai­o­ria, ape­nas à esco­lha pro­fis­si­o­nal que, suge­ria-se, um dia sabe­ría­mos fazer.

Caso o “ser” esteja mesmo sub­ju­gado à deci­são pro­fis­si­o­nal, posso afir­mar com toda cer­teza que nunca soube direito no que me tor­na­ria. Lem­bro bem que aos 9 obri­guei minha mãe a me matri­cu­lar num curso de taekwondo por­que naquela época eu era vici­ada em Cava­lei­ros do Zodíaco e aspi­rava lutar como eles. Aos 10, que­ria ser cien­tista, aos 15 jor­na­lista, mas aos 17 pres­tei ves­ti­bu­lar para cinema. Con­clui o ensino médio e me mudei para Santa Cata­rina pen­sando que iria ser esti­lista, peram­bu­lei por mais qua­tro cida­des, e agora aos 26 estou for­mada em psi­co­lo­gia. E, pas­mem, ainda não sei o que eu quero ser. Con­tudo, sei bem que “Ser” poder ser algo muito mais com­plexo e extenso do que a defi­ni­ção pro­fis­si­o­nal.

Ser tam­bém não sig­ni­fica ser pai ou mãe de fulano, filho ou filha de cicrano, e não está cin­gido ao seu sobre­nome, à sua classe social, sua cor ou etnia, ape­sar de se emba­ra­lhar com tudo isso. Adi­ante ‘tudo isso’ serve mais a medi­das de clas­si­fi­ca­ção do sujeito do que para sus­ten­tar alguma res­posta ao enigma. Fou­cault já nos aler­tou no século pas­sado quanto às arma­di­lhas de tais deter­mi­na­ções, dizendo que a clas­si­fi­ca­ção não passa de um tipo de exame, no qual o indi­ví­duo é obri­gado a infor­mar todos os seus dados ao ‘órgão com­pe­tente’ onde será medido, des­crito e men­su­rado para pos­te­ri­or­mente ser clas­si­fi­cado e, então nor­ma­li­zado ou excluído.

Seja para abrir uma conta no banco ou para ser enca­mi­nhado ao psi­qui­a­tra somos obri­ga­dos a pre­en­cher fichas e fichas, infor­mando nossa idade, sexo, estado civil, ende­reço, RG, CPF, nível de esco­la­ri­dade, pro­fis­são e o motivo da con­sulta. No banco nos res­pon­dem se nosso pedido de cré­dito foi apro­vado, no psi­qui­a­tra nos entre­gam um laudo com o nome de alguma doença. E assim vamos acre­di­tando que ser está asso­ci­ado à nossa renda men­sal, capaz ou não de asse­gu­rar que irão nos for­ne­cer um emprés­timo, e pas­sa­mos a agir de acordo com o diag­nós­tico impor­tado de algum con­sul­tó­rio, pre­o­cu­pa­dos em logo cum­prir todos os requi­si­tos para Trans­torno Bipo­lar para que pos­sa­mos, ao final de um dia can­sado, dizer que no meio da pato­lo­gia encon­tra­mos um nome capaz de defi­nir nossa irre­so­lu­ção.

No Romance O Ino­mi­ná­vel, livro que fecha a tri­lo­gia pós-guerra de Samuel Bec­kett, somos leva­dos de forma ator­men­ta­dora e caó­tica a, jun­ta­mente com o nar­ra­dor, pro­cu­rar quem é eu. Lín­gua, olhos, cabelo, mãos, per­nas, buceta, pau, cu, pelos, encon­tros, lem­bran­ças, corpo, alma, coisa, pala­vras. Para Bec­kett, o eu fica nos inters­tí­cios entre o tudo e o nada, se con­fun­dindo entre aquilo que fica fora e aquilo que fica den­tro, mas jamais o “ser” pode ser algo fechado em si mesmo, nem existe para ele um lugar pri­vi­le­gi­ado ou pri­vado. O eu, para o autor, é cri­a­tura que se estende para além do limite daquilo que se pode con­ju­gar. Não há defi­ni­ção ou nome para ele, e nossa eterna tarefa será a de incan­sa­vel­mente pro­curá-lo:

                  “Se sou eu que pro­curo, o que exa­ta­mente pro­curo, encon­tro, perco reen­con­tro, jogo fora, pro­curo de novo, encon­tro de novo, jogo fora de novo…” (pág.153)

Par­tindo da asser­ção de Bec­kett, não pode­mos dei­xar de con­fron­tar a ques­tão de quem é “eu com a inter­ro­ga­ção “quem sou eu?”. Admi­tido que eu é ente impos­sí­vel de nomi­nar, e que seu depo­si­tá­rio não é uni­ca­mente o corpo (no qual se acre­dita ou não se agi­tar tam­bém a alma), mas muito mais as pala­vras (que, ao nos con­tor­cer­mos, ento­a­mos na ten­ta­tiva de alcançá-lo), nos leva a asse­ve­rar que jamais pode­re­mos res­pon­der à segunda ques­tão, senão de modo incom­pleto, visto que esta­re­mos res­tri­tos sem­pre a poder expres­sar somente o pouco daquilo que des­co­bri­mos sobre nós. Entre­tanto, mesmo sabendo que não se pode saber tudo o que é eu, fica­mos sabendo que ele é tudo e, por­tanto, ili­mi­tado, e cabe a cada um expe­ri­men­tar o que quer que seja, para que se decida sobre o que de si dese­jará can­tar, e isso com cer­teza não poderá ser resu­mido ou expri­mido atra­vés de sua atu­a­ção pro­fis­si­o­nal.

Sei que a esco­lha pro­fis­si­o­nal é ine­rente ao grito daquilo que ambi­ci­o­na­mos nos tor­nar um dia, por acre­di­tar­mos ser tal­vez esse o nosso melhor modo de atuar no mundo. Mas não nos damos conta de que não esta­mos esco­lhendo livre­mente. Há uma impo­si­ção oculta que nos coíbe a ele­ger um tra­ba­lho — não para esti­mu­lar des­co­ber­tas acerca de quem somos, mas para que tenha­mos algum modo de pagar as con­tas no final do mês. E é assim que a pro­fis­são deixa de ser você para se trans­for­mar em medida de quão bom con­su­mi­dor você poderá ser.

Tendo como pre­o­cu­pa­ção pri­má­ria o salá­rio, o emprego dos sonhos da infân­cia no mundo adulto é tomado por ilu­são. Anda­mos fazendo aquilo que não somos para poder pagar o alu­guel, e o tra­ba­lho se trans­for­mou em subs­tân­cia tóxica capaz de oxi­dar qual­quer corpo com seu auto­ma­tismo mecâ­nico desa­bas­te­cido de qual­quer sen­tido.

Não pre­tendo aqui incen­ti­var gre­ves ou pedi­dos de demis­são. Mas para que tenha­mos a pos­si­bi­li­dade de des­ve­lar nosso pró­prio mis­té­rio pre­ci­sa­re­mos nos aven­tu­rar para fora da juris­di­ção de nos­sas pro­fis­sões.

Saber de si envolve pegar uma escada com um mar­telo na mão, subir nela e, ao se cho­car com teto, que­brá-lo. Pois “eu” ocupa muito mais do que um único lugar e se bifurca a cada con­tato e em cada toque que expe­ri­menta. E quando garan­ti­mos que ele é pala­vra, não há inci­ta­ção para que o inter­pre­tem como pro­pri­e­dade está­tica, por­que pala­vra é busca e movi­mento, dese­qui­lí­brio e ambi­gui­dade, ver­ti­gem desem­bes­tada que­rendo se afi­gu­rar, tomar conta e forma, ganhar espaço, sara­co­tear de saia rodada, sair pra fora da boca avi­sando que pre­cisa de espaço, em minús­cu­los espas­mos de locu­ções que aos pou­cos se frag­men­tam e inver­tem o jogo, con­fun­dindo e trans­bor­dando.

Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

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