Era nos domingos que a família costumava se reunir para almoçar. Tios, tias, primos, parentes do primeiro ao mais dispensável grau, todos perguntando compulsivamente a mim e as outras crianças presentes, enquanto o seu estômago aguardava ansioso pelo churrasco que assava lentamente na brasa, se já havíamos decidido o que queríamos ser quando crescêssemos. Alguns adultos mais afoitos sequer esperavam pela resposta, e já iam respondendo por si mesmos: – ah, esse eu já sei, tem cara de Doutor, vai ser médico…e aquele, adora montar e desmontar brinquedos, vai ser engenheiro.

Sempre me incomodei com parentes, mais ainda com suas constatações tão certeiras quanto as previsões astrológicas do João Bidu. Os domingos sempre foram bastante fastidiosos lá por casa. No entanto, o que mais foi me incomodando no decorrer dos anos foi observar que aquilo que sonhávamos em ser estava vinculado, na visão da maioria, apenas à escolha profissional que, sugeria-se, um dia saberíamos fazer.

Caso o “ser” esteja mesmo subjugado à decisão profissional, posso afirmar com toda certeza que nunca soube direito no que me tornaria. Lembro bem que aos 9 obriguei minha mãe a me matricular num curso de taekwondo porque naquela época eu era viciada em Cavaleiros do Zodíaco e aspirava lutar como eles. Aos 10, queria ser cientista, aos 15 jornalista, mas aos 17 prestei vestibular para cinema. Conclui o ensino médio e me mudei para Santa Catarina pensando que iria ser estilista, perambulei por mais quatro cidades, e agora aos 26 estou formada em psicologia. E, pasmem, ainda não sei o que eu quero ser. Contudo, sei bem que “Ser” poder ser algo muito mais complexo e extenso do que a definição profissional.

Ser também não significa ser pai ou mãe de fulano, filho ou filha de cicrano, e não está cingido ao seu sobrenome, à sua classe social, sua cor ou etnia, apesar de se embaralhar com tudo isso. Adiante ‘tudo isso’ serve mais a medidas de classificação do sujeito do que para sustentar alguma resposta ao enigma. Foucault já nos alertou no século passado quanto às armadilhas de tais determinações, dizendo que a classificação não passa de um tipo de exame, no qual o indivíduo é obrigado a informar todos os seus dados ao ‘órgão competente’ onde será medido, descrito e mensurado para posteriormente ser classificado e, então normalizado ou excluído.

Seja para abrir uma conta no banco ou para ser encaminhado ao psiquiatra somos obrigados a preencher fichas e fichas, informando nossa idade, sexo, estado civil, endereço, RG, CPF, nível de escolaridade, profissão e o motivo da consulta. No banco nos respondem se nosso pedido de crédito foi aprovado, no psiquiatra nos entregam um laudo com o nome de alguma doença. E assim vamos acreditando que ser está associado à nossa renda mensal, capaz ou não de assegurar que irão nos fornecer um empréstimo, e passamos a agir de acordo com o diagnóstico importado de algum consultório, preocupados em logo cumprir todos os requisitos para Transtorno Bipolar para que possamos, ao final de um dia cansado, dizer que no meio da patologia encontramos um nome capaz de definir nossa irresolução.

No Romance O Inominável, livro que fecha a trilogia pós-guerra de Samuel Beckett, somos levados de forma atormentadora e caótica a, juntamente com o narrador, procurar quem é eu. Língua, olhos, cabelo, mãos, pernas, buceta, pau, cu, pelos, encontros, lembranças, corpo, alma, coisa, palavras. Para Beckett, o eu fica nos interstícios entre o tudo e o nada, se confundindo entre aquilo que fica fora e aquilo que fica dentro, mas jamais o “ser” pode ser algo fechado em si mesmo, nem existe para ele um lugar privilegiado ou privado. O eu, para o autor, é criatura que se estende para além do limite daquilo que se pode conjugar. Não há definição ou nome para ele, e nossa eterna tarefa será a de incansavelmente procurá-lo:

                  “Se sou eu que procuro, o que exatamente procuro, encontro, perco reencontro, jogo fora, procuro de novo, encontro de novo, jogo fora de novo…” (pág.153)

Partindo da asserção de Beckett, não podemos deixar de confrontar a questão de quem é “eu com a interrogação “quem sou eu?”. Admitido que eu é ente impossível de nominar, e que seu depositário não é unicamente o corpo (no qual se acredita ou não se agitar também a alma), mas muito mais as palavras (que, ao nos contorcermos, entoamos na tentativa de alcançá-lo), nos leva a asseverar que jamais poderemos responder à segunda questão, senão de modo incompleto, visto que estaremos restritos sempre a poder expressar somente o pouco daquilo que descobrimos sobre nós. Entretanto, mesmo sabendo que não se pode saber tudo o que é eu, ficamos sabendo que ele é tudo e, portanto, ilimitado, e cabe a cada um experimentar o que quer que seja, para que se decida sobre o que de si desejará cantar, e isso com certeza não poderá ser resumido ou exprimido através de sua atuação profissional.

Sei que a escolha profissional é inerente ao grito daquilo que ambicionamos nos tornar um dia, por acreditarmos ser talvez esse o nosso melhor modo de atuar no mundo. Mas não nos damos conta de que não estamos escolhendo livremente. Há uma imposição oculta que nos coíbe a eleger um trabalho – não para estimular descobertas acerca de quem somos, mas para que tenhamos algum modo de pagar as contas no final do mês. E é assim que a profissão deixa de ser você para se transformar em medida de quão bom consumidor você poderá ser.

Tendo como preocupação primária o salário, o emprego dos sonhos da infância no mundo adulto é tomado por ilusão. Andamos fazendo aquilo que não somos para poder pagar o aluguel, e o trabalho se transformou em substância tóxica capaz de oxidar qualquer corpo com seu automatismo mecânico desabastecido de qualquer sentido.

Não pretendo aqui incentivar greves ou pedidos de demissão. Mas para que tenhamos a possibilidade de desvelar nosso próprio mistério precisaremos nos aventurar para fora da jurisdição de nossas profissões.

Saber de si envolve pegar uma escada com um martelo na mão, subir nela e, ao se chocar com teto, quebrá-lo. Pois “eu” ocupa muito mais do que um único lugar e se bifurca a cada contato e em cada toque que experimenta. E quando garantimos que ele é palavra, não há incitação para que o interpretem como propriedade estática, porque palavra é busca e movimento, desequilíbrio e ambiguidade, vertigem desembestada querendo se afigurar, tomar conta e forma, ganhar espaço, saracotear de saia rodada, sair pra fora da boca avisando que precisa de espaço, em minúsculos espasmos de locuções que aos poucos se fragmentam e invertem o jogo, confundindo e transbordando.

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.


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