Não tão recentemente, percebeu-se uma evasão escolar diferente: a de professores. Hoje, a escola é um espaço de convergência de uma série de fracassos governamentais. Temos um modelo escolar predominante que não transforma a escola num espaço de aprendizado e convívio, mas numa obrigação social a ser cumprida por pais e estudantes. Não temos, ainda, políticas públicas realmente eficazes para evitar que crianças e adolescentes de baixa renda saiam das salas de aula mais cedo para trabalharem.

Agora, estamos vivenciando as consequências de um novo fracasso, o do modelo político de educação que não reconhece a profissão professor com a devida relevância e que contamina a visão cultural do país transformando a escolha de um jovem por ser professor, muitas vezes, em “atitude de coragem” e não de vocação. A desvalorização do magistério já alcança professores em formação, nos cursos de licenciatura, que desistem da sala de aula antes mesmo de entrarem nelas.

Em 2011, ainda como governador do Ceará, Cid Gomes, atual Ministro da Educação, afirmou que o professor que “quer ganhar melhor, pede demissão [do serviço público] e vai para o ensino privado”, declaração que, mesmo infeliz, reflete o pensamento de muitos desavisados. O problema é que os fracassos governamentais não atingem apenas a escola pública. As vantagens, hoje, de um professor concursado para um professor do setor privado são tão pequenas que a concorrência quase inexiste, o que gera péssima remuneração e sobrecarga de funções nos dois cenários da educação. Ou seja, tanto no setor privado quanto no setor público, o professor ganha mal, é mal reconhecido e trabalha muito.

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Não bastasse tudo isso, a crescente desvalorização cultural do professor, também consequência dos fracassos governamentais, é ainda mais grave do que a pouca valorização financeira e política. Todos reconhecem o professor como imprescindível, mas poucos gostariam ou aceitariam que seus filhos fossem professores; poucos perguntam ou pensam em perguntar quanto o professor de seus filhos recebe antes de realizar a matrícula.

Quando prestei vestibular para a Universidade Estadual do Ceará (UECE) concorrendo a uma vaga para Licenciatura em Letras Português, as reações foram rápidas e quase unânimes: Letras? Licenciatura? Você quer ser professor? Atire um giz o professor que nunca ouviu comentários que associam a escolha por um curso de licenciatura com incompetência, preguiça ou loucura. São comentários do tipo “mas você tem tanto potencial”, “mas professor sofre tanto”, “mas professor ganha tão pouco”.

Vídeo de Viviane Mosé discutindo a falência do modelo escolar que não atrai o estudante.

Você já reparou que perguntam mais vezes para quem escolhe o magistério se ele está certo do que quer do que para alguém que escolhe medicina ou direito?

E apesar de bons índices das avaliações do desempenho de estudantes estamparem manchetes a ponto de nos fazerem acreditar que a educação está melhorando e que se driblou o descaso com a educação e os fracassos governamentais mencionados neste texto, quem está na escola todo dia sente que as avaliações perderam efetividade e que o professor perdeu autonomia. Muitas escolas municipais, por exemplo, adotaram um modelo de avaliação que torna a reprovação do estudante quase impossível – e isso não é necessariamente resultado de uma reforma escolar, mas de uma manipulação tendenciosa do modelo de avaliação. Com subterfúgios como autoavaliação, avaliação do professor, assiduidade e outros, o estudante alcança a média sem precisar ter, realmente, um bom desempenho.


E se mesmo com tudo isso o estudante não alcançar a média, a gestão escolar, não raro, induz o professor a fazer arredondamentos ou abstrações que conduzam o aluno mal preparado para uma nova série. Se a escola reprova muitos alunos ou se apresenta baixos índices de desempenho, perde incentivos financeiros que são destinados às escolas que “melhor preparam seus alunos”. Qualquer semelhança com um faz-de-conta não é mera coincidência.

O faz-de-conta que acontece.
O faz-de-conta que acontece.

Se a situação não é das melhores no ensino básico para quem já leciona, tampouco o ensino superior oferece cenários menos preocupantes. Além de encarar as consequências de um modelo escolar que não faz o estudante querer estar na escola, a baixa remuneração, a desvalorização cultural e a sobrecarga de funções, o professor enfrenta dificuldades durante seu próprio processo de formação em instituições de ensino superior com quadros docentes à beira do colapso ou com um ensino teórico que insiste numa realidade idealizada e distante do que espera o docente depois da faculdade. Para tornar-se, verdadeiramente, uma “pátria educadora”, como disse a presidente Dilma Rousseff em seu discurso de posse, o Brasil tem muito o que reparar.

Sem discutir questões mais amplas como mudar o conceito de educação e reformular os métodos de avaliação e deixando para outra discussão a necessidade gritante de repensar políticas públicas que deem real acesso escolar aos brasileiros de baixa renda, destaco a urgência de reverter o atual cenário de desvalorização do professor para que a profissão deixe de ser uma escolha somente apaixonada e possa ser, também, uma escolha sensata. Europa e EUA pagam, respectivamente e em números desatualizados, dez e quatro vezes mais ao professor do que o Brasil e salário não é uma questão mesquinha. Atualmente, um professor chega a lecionar em quatro escolas diferentes por semana e gasta boa parte do seu tempo livre com planejamentos, correções de avaliações e de atividades para conseguir suprir suas necessidades orçamentárias básicas.

Além da valorização salarial, é preciso investir na contratação de mais professores a fim de evitar a tão comum superlotação de salas que inviabiliza o acompanhamento docente ou de atenuar o processo de falência que os quadros docentes de inúmeras escolas sofre. Depois disso, quem sabe, a sociedade que enxerga, antes de tudo, a remuneração da profissão reverta a inversão de valores e volte a ver o professor como a profissão que seus filhos poderiam seguir felizmente. Sem essas reais preocupações ou sem o mínimo esforço real para reversão desses cenários, não tardará até que respondam “ausente” quando o governo chamar o nome do professor na sala de aula. Pensemos.



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