Walter White, professor protagonista de Breaking Bad, dando aula de química.

Quem, afinal, quer ser professor?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Dawton ValentimComentários

Não tão recen­te­mente, per­ce­beu-se uma eva­são esco­lar dife­rente: a de pro­fes­so­res. Hoje, a escola é um espaço de con­ver­gên­cia de uma série de fra­cas­sos gover­na­men­tais. Temos um modelo esco­lar pre­do­mi­nante que não trans­forma a escola num espaço de apren­di­zado e con­ví­vio, mas numa obri­ga­ção social a ser cum­prida por pais e estu­dan­tes. Não temos, ainda, polí­ti­cas públi­cas real­mente efi­ca­zes para evi­tar que cri­an­ças e ado­les­cen­tes de baixa renda saiam das salas de aula mais cedo para tra­ba­lha­rem.

Agora, esta­mos viven­ci­ando as con­sequên­cias de um novo fra­casso, o do modelo polí­tico de edu­ca­ção que não reco­nhece a pro­fis­são pro­fes­sor com a devida rele­vân­cia e que con­ta­mina a visão cul­tu­ral do país trans­for­mando a esco­lha de um jovem por ser pro­fes­sor, mui­tas vezes, em “ati­tude de cora­gem” e não de voca­ção. A des­va­lo­ri­za­ção do magis­té­rio já alcança pro­fes­so­res em for­ma­ção, nos cur­sos de licen­ci­a­tura, que desis­tem da sala de aula antes mesmo de entra­rem nelas.

Em 2011, ainda como gover­na­dor do Ceará, Cid Gomes, atual Minis­tro da Edu­ca­ção, afir­mou que o pro­fes­sor que “quer ganhar melhor, pede demis­são [do ser­viço público] e vai para o ensino pri­vado”, decla­ra­ção que, mesmo infe­liz, reflete o pen­sa­mento de mui­tos desa­vi­sa­dos. O pro­blema é que os fra­cas­sos gover­na­men­tais não atin­gem ape­nas a escola pública. As van­ta­gens, hoje, de um pro­fes­sor con­cur­sado para um pro­fes­sor do setor pri­vado são tão peque­nas que a con­cor­rên­cia quase ine­xiste, o que gera pés­sima remu­ne­ra­ção e sobre­carga de fun­ções nos dois cená­rios da edu­ca­ção. Ou seja, tanto no setor pri­vado quanto no setor público, o pro­fes­sor ganha mal, é mal reco­nhe­cido e tra­ba­lha muito.

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Não bas­tasse tudo isso, a cres­cente des­va­lo­ri­za­ção cul­tu­ral do pro­fes­sor, tam­bém con­sequên­cia dos fra­cas­sos gover­na­men­tais, é ainda mais grave do que a pouca valo­ri­za­ção finan­ceira e polí­tica. Todos reco­nhe­cem o pro­fes­sor como impres­cin­dí­vel, mas pou­cos gos­ta­riam ou acei­ta­riam que seus filhos fos­sem pro­fes­so­res; pou­cos per­gun­tam ou pen­sam em per­gun­tar quanto o pro­fes­sor de seus filhos recebe antes de rea­li­zar a matrí­cula.

Quando pres­tei ves­ti­bu­lar para a Uni­ver­si­dade Esta­dual do Ceará (UECE) con­cor­rendo a uma vaga para Licen­ci­a­tura em Letras Por­tu­guês, as rea­ções foram rápi­das e quase unâ­ni­mes: Letras? Licen­ci­a­tura? Você quer ser pro­fes­sor? Atire um giz o pro­fes­sor que nunca ouviu comen­tá­rios que asso­ciam a esco­lha por um curso de licen­ci­a­tura com incom­pe­tên­cia, pre­guiça ou lou­cura. São comen­tá­rios do tipo “mas você tem tanto poten­cial”, “mas pro­fes­sor sofre tanto”, “mas pro­fes­sor ganha tão pouco”.

Vídeo de Viviane Mosé discutindo a falência do modelo escolar que não atrai o estudante.

Você já repa­rou que per­gun­tam mais vezes para quem esco­lhe o magis­té­rio se ele está certo do que quer do que para alguém que esco­lhe medi­cina ou direito?

E ape­sar de bons índi­ces das ava­li­a­ções do desem­pe­nho de estu­dan­tes estam­pa­rem man­che­tes a ponto de nos faze­rem acre­di­tar que a edu­ca­ção está melho­rando e que se dri­blou o des­caso com a edu­ca­ção e os fra­cas­sos gover­na­men­tais men­ci­o­na­dos neste texto, quem está na escola todo dia sente que as ava­li­a­ções per­de­ram efe­ti­vi­dade e que o pro­fes­sor per­deu auto­no­mia. Mui­tas esco­las muni­ci­pais, por exem­plo, ado­ta­ram um modelo de ava­li­a­ção que torna a repro­va­ção do estu­dante quase impos­sí­vel — e isso não é neces­sa­ri­a­mente resul­tado de uma reforma esco­lar, mas de uma mani­pu­la­ção ten­den­ci­osa do modelo de ava­li­a­ção. Com sub­ter­fú­gios como auto­a­va­li­a­ção, ava­li­a­ção do pro­fes­sor, assi­dui­dade e outros, o estu­dante alcança a média sem pre­ci­sar ter, real­mente, um bom desem­pe­nho.


E se mesmo com tudo isso o estu­dante não alcan­çar a média, a ges­tão esco­lar, não raro, induz o pro­fes­sor a fazer arre­don­da­men­tos ou abs­tra­ções que con­du­zam o aluno mal pre­pa­rado para uma nova série. Se a escola reprova mui­tos alu­nos ou se apre­senta bai­xos índi­ces de desem­pe­nho, perde incen­ti­vos finan­cei­ros que são des­ti­na­dos às esco­las que “melhor pre­pa­ram seus alu­nos”. Qual­quer seme­lhança com um faz-de-conta não é mera coin­ci­dên­cia.

O faz-de-conta que acontece.

O faz-de-conta que acon­tece.

Se a situ­a­ção não é das melho­res no ensino básico para quem já leci­ona, tam­pouco o ensino supe­rior ofe­rece cená­rios menos pre­o­cu­pan­tes. Além de enca­rar as con­sequên­cias de um modelo esco­lar que não faz o estu­dante que­rer estar na escola, a baixa remu­ne­ra­ção, a des­va­lo­ri­za­ção cul­tu­ral e a sobre­carga de fun­ções, o pro­fes­sor enfrenta difi­cul­da­des durante seu pró­prio pro­cesso de for­ma­ção em ins­ti­tui­ções de ensino supe­rior com qua­dros docen­tes à beira do colapso ou com um ensino teó­rico que insiste numa rea­li­dade ide­a­li­zada e dis­tante do que espera o docente depois da facul­dade. Para tor­nar-se, ver­da­dei­ra­mente, uma “pátria edu­ca­dora”, como disse a pre­si­dente Dilma Rous­seff em seu dis­curso de posse, o Bra­sil tem muito o que repa­rar.

Sem dis­cu­tir ques­tões mais amplas como mudar o con­ceito de edu­ca­ção e refor­mu­lar os méto­dos de ava­li­a­ção e dei­xando para outra dis­cus­são a neces­si­dade gri­tante de repen­sar polí­ti­cas públi­cas que deem real acesso esco­lar aos bra­si­lei­ros de baixa renda, des­taco a urgên­cia de rever­ter o atual cená­rio de des­va­lo­ri­za­ção do pro­fes­sor para que a pro­fis­são deixe de ser uma esco­lha somente apai­xo­nada e possa ser, tam­bém, uma esco­lha sen­sata. Europa e EUA pagam, res­pec­ti­va­mente e em núme­ros desa­tu­a­li­za­dos, dez e qua­tro vezes mais ao pro­fes­sor do que o Bra­sil e salá­rio não é uma ques­tão mes­qui­nha. Atu­al­mente, um pro­fes­sor chega a leci­o­nar em qua­tro esco­las dife­ren­tes por semana e gasta boa parte do seu tempo livre com pla­ne­ja­men­tos, cor­re­ções de ava­li­a­ções e de ati­vi­da­des para con­se­guir suprir suas neces­si­da­des orça­men­tá­rias bási­cas.

Além da valo­ri­za­ção sala­rial, é pre­ciso inves­tir na con­tra­ta­ção de mais pro­fes­so­res a fim de evi­tar a tão comum super­lo­ta­ção de salas que invi­a­bi­liza o acom­pa­nha­mento docente ou de ate­nuar o pro­cesso de falên­cia que os qua­dros docen­tes de inú­me­ras esco­las sofre. Depois disso, quem sabe, a soci­e­dade que enxerga, antes de tudo, a remu­ne­ra­ção da pro­fis­são reverta a inver­são de valo­res e volte a ver o pro­fes­sor como a pro­fis­são que seus filhos pode­riam seguir feliz­mente. Sem essas reais pre­o­cu­pa­ções ou sem o mínimo esforço real para rever­são des­ses cená­rios, não tar­dará até que res­pon­dam “ausente” quando o governo cha­mar o nome do pro­fes­sor na sala de aula. Pen­se­mos.



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