ser especial

Ser especial não é tão especial assim

Em Comportamento, Consciência por Mark MansonComentário

Há uma para­doxo que está dei­xando os psi­có­lo­gos per­ple­xos: nos últi­mos 50 anos, ape­sar do dra­má­tico cres­ci­mento dos padrões de vida no mundo oci­den­tal, os níveis de feli­ci­dade se man­ti­ve­ram os mes­mos, enquanto os de doen­ças men­tais, dis­túr­bios de ansi­e­dade, nar­ci­sismo e depres­são, todos subi­ram.

Ao estu­dar mar­ke­ting, a pri­meira coisa que você aprende é que medo vende. Se você faz uma pes­soa se sen­tir ina­de­quada ou infe­rior, ela calará a boca e com­prará qual­quer coisa para se sen­tir melhor. O sis­tema capi­ta­lista vende para pes­soas o tempo todo. Por­tanto, cria uma soci­e­dade onde pes­soas se sen­tem cons­tan­te­mente ina­de­qua­das e infe­ri­o­res.

É engra­çado que várias pes­soas que via­jam para paí­ses em desen­vol­vi­mento dizem que o povo é mais feliz lá [ou “nes­ses paí­ses”]. Em geral, esse tipo de decla­ra­ção vem seguida de alguma pla­ti­tude sobre mate­ri­a­lismo e sobre como nós todos sería­mos mais feli­zes se sou­bés­se­mos viver com menos.

Elas estão com­ple­ta­mente erra­das.

Pobres nas soci­e­da­des em desen­vol­vi­mento não são mais feli­zes, eles sim­ples­mente são menos ansi­o­sos e menos estres­sa­dos. As pes­soas não se impor­tam com quanto ami­gos você têm ou com o que você com­prou. São soci­e­da­des muito fami­li­a­res e comu­ni­tá­rias. São mais recep­ti­vas e sofrem menos com ansi­e­da­des e fobias soci­ais. É assim que sobre­vi­vem. Quando você pega uma oci­den­tal hiper-indi­vi­du­a­lista — espe­ci­al­mente aque­les que se matam numa mesa de escri­tó­rio para fazer mon­ta­nhas de dinheiro — e o expõe a essa soci­e­dade menos estres­sada, ele a per­cebe como “mais feliz” ou “mais sau­dá­vel”. E de várias for­mas, é isso mesmo. Mas, ao mesmo tempo, é exa­ta­mente disso que nosso sis­tema desis­tiu para alcan­çar­mos a riqueza mate­rial.

O filó­sofo Alain de Bot­ton escre­veu sobre isso em seu livro Desejo de Sta­tus (Sta­tus Anxi­ety). Nos sécu­los pas­sa­dos, ele escreve, as pes­soas sabiam onde se encai­xa­vam na ordem social. Se você nas­ceu um cam­po­nês, você sabia que era um cam­po­nês. Se você nas­ceu um senhor, você seria um senhor. Não havia mobi­li­dade ou opor­tu­ni­dade, e, assim, não exis­tia pres­são para ascen­der soci­al­mente. Você não era res­pon­sá­vel pelas con­di­ções nas quais nas­ceu, logo as acei­tava e tocava a vida.

Mas numa soci­e­dade meri­to­crá­tica, tudo mudou. Na meri­to­cra­cia, se você é pobre ou se con­se­gue ter sucesso e depois vai à falên­cia, não é por aci­dente. É pior do que isso. É culpa sua. Você falhou. Foi você que per­deu tudo. E isso faz as pes­soas vive­ram ata­das ao medo cons­tante de serem ina­de­qua­das. O mundo inteiro se agita e se estre­mece moti­vado por um padrão de ansi­e­dade por sta­tus.

De Bot­ton não argu­menta que soci­e­da­des feu­dais ou mais pobres são, de forma alguma, mais feli­zes. Ele sim­ples­mente aponta que, quando uma soci­e­dade vai de feu­dal e des­pro­vida à meri­to­crá­tica e rica, o preço dos cres­cen­tes padrões de vida recai sobre as pes­soas, e a mobi­li­dade social causa níveis mai­o­res de estresse e ansi­e­dade.

Afi­nal, quanto mais opor­tu­ni­da­des se tem, maior a von­tade de apro­veitá-las. Por isso é que nos estres­sa­mos: pre­ci­sa­mos de notas melho­res, um emprego melhor, namo­rar alguém mais atra­ente, ter hob­bies mais legais, fazer mais ami­gos, ser mais que­rido e mais popu­lar. Sim­ples­mente nos con­ten­tar­mos com o que já temos não é mais bom o bas­tante. Na ver­dade, para alguns, se con­ten­tar equi­vale a desis­tir.

Vive­mos hoje com mais infor­ma­ção do que em qual­quer outro momento da his­tó­ria humana. De acordo com o Goo­gle, a inter­net pro­duz, em dois anos, mais infor­ma­ção do que a huma­ni­dade em toda a sua his­tó­ria pas­sada. E toda essa infor­ma­ção é, em teo­ria, ins­tan­ta­ne­a­mente aces­sí­vel a todos. É real­mente incrí­vel!

Mas quando você com­bina um sis­tema capi­ta­lista com um infi­nito fluxo de infor­ma­ção, o efeito cola­te­ral é ter­mos pes­soas que são relem­bra­das dos infi­ni­tos aspec­tos em que não são boas o bas­tante.

ser especial | Alguém sempre vai ter uma casa maior que a sua...

Alguém sem­pre vai ter uma casa maior que a sua…

A inveja é um efeito per­ni­ci­oso do con­su­mismo. O vizi­nho com­prou um carro novo, agora você quer um carro novo. Seu cunhado con­se­guiu entra­das exclu­si­vas para o jogo de fute­bol, você vai que­rer entra­das exclu­si­vas tam­bém. Seu colega de tra­ba­lho fez uma via­jem à China, agora você pre­cisa via­jar para algum lugar exó­tico.

A mai­o­ria de nós não é idi­ota o bas­tante para sen­tir esse tipo de inveja cons­ci­en­te­mente. Mas, infe­liz­mente, a inveja aco­mete a todos nós, sai­ba­mos ou não. Nós nos com­pa­ra­mos uns aos outros o tempo todo, incons­ci­en­te­mente. Para nossa infe­li­ci­dade, a com­pa­ra­ção tem ampla par­ti­ci­pa­ção na forma como nos defi­ni­mos, gos­te­mos ou não.

Agora, ima­gine um mundo de dois milhões de pes­soas para nos com­pa­rar­mos e, de repente, você terá a inter­net.

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Alguém sem­pre terá um carro maior que o seu…

Este não é um debate con­tra o capi­ta­lismo. E defi­ni­ti­va­mente não é um debate con­tra a inter­net. Estou ape­nas fazendo obser­va­ções e esti­pu­lando fatos. No mundo atual, é impos­sí­vel não ser lem­brado de que alguém, em algum lugar, está fazendo algo muito mais legal que você. E você é lem­brado disso o tempo todo!

É uma iro­nia amarga: atra­vés da liber­dade de acesso à infor­ma­ção, a inter­net tam­bém libe­rou os sen­ti­men­tos de ina­de­qua­ção e inse­gu­rança.

Um exem­plo: toda aquela coisa de “tra­ba­lhar sem local fixo e via­jar o mundo” que come­çou dez anos atrás. Ver­dade seja dita, esse é um estilo de vida extremo, e pouco pro­vá­vel que seja emo­ci­o­nal­mente sus­ten­tá­vel a longo prazo, além de não se encai­xar com o jeito de ser da mai­o­ria das pes­soas. Uma boa parte das que ten­ta­ram fazer isso desis­ti­ram nos anos seguin­tes.

ser especial | Alguém sempre terá... bem, você sabe.

Alguém sem­pre terá… bem, você sabe.

E, mesmo assim, se você der uma olhada na inter­net, vai pen­sar que essa ideia de tra­ba­lhar de casa é a cura do cân­cer ou coisa pare­cida. Volta e meia, uma dúzia de pes­soas apa­re­cem na minha time­line do Face­book se gabando dos méri­tos de cons­truir os cami­nhos de sua pró­pria car­reira, seguir sua pai­xão, criar sua pró­pria marca, viver longe de tudo, fazer alguma malu­quice e pos­tar sobre ela. Iro­ni­ca­mente, acho que mui­tas des­sas pes­soas ainda estão morando com os pais sem ganhar nada. É quase como se esti­ves­sem ten­tando con­ven­cer a si mes­mas de que são melho­res do que os outros:

Eu sou espe­cial, eu sou único. Estou fazendo algo dife­rente. Olhe para mim! Eu sou dife­rente, não sou?

Todos aque­les que conheço que vivem, de ver­dade, desse jeito, não falam disso por­que acham que afasta as pes­soas. Ser espe­cial é legal, mas não é onde estão nos­sas ver­da­dei­ras neces­si­da­des. Não é uma métrica boa o sufi­ci­ente para nosso bem-estar geral.

Se todo mundo lar­gasse o tra­ba­lho e ten­tasse mone­ti­zar um blog sobre cro­chê, ou cri­asse um apli­ca­tivo que con­tasse quan­tas vezes você peida por dia, a eco­no­mia fica­ria para­li­sada. Algu­mas pes­soas são mesmo soli­tá­rias ou excên­tri­cas. Outras gos­tam de rotina. Algu­mas gos­tam de assu­mir ris­cos. Outras gos­tam de esta­bi­li­dade.

Há algo de admi­rá­vel em encon­trar satis­fa­ção nos pra­ze­res sim­ples e coti­di­a­nos da vida, e está ficando cada fez mais difí­cil fazê-lo. Somos bom­bar­de­a­dos todos os dias: este é o bravo sol­dado que sal­vou um ôni­bus esco­lar cheio de cri­an­ças, com nada além de um pé de cabra e uma linha de pesca; este é o bili­o­ná­rio de trinta e pou­cos anos que vai curar a velhice para viver­mos para sem­pre; esta é a menina de 12 anos que toca O Rito da Pri­ma­vera, de Stra­vinsky, em sete ins­tru­men­tos dife­ren­tes, com os pés!

A men­sa­gem subli­mi­nar é sem­pre a mesma: e você, o que fez?

Ah!, você pas­sou fio den­tal? Muito bom, seu pre­gui­çoso de merda! Espera aí que vou retui­tar, rapi­di­nho!

Mas a ver­dade é que se você não puder encon­trar pra­zer na sim­pli­ci­dade e no mun­dano, então você não encon­trá em lugar nenhum.

Como dizem, você é o que você é. Ser espe­cial não é assim tão espe­cial. Você ainda se sen­tirá frus­trado. Você ainda se sen­tirá sozi­nho. Você ainda se sen­tirá como se pudesse ter feito mais.

Não se venda por aten­ção. Não que aten­ção seja ruim, mas não deve­riam ser as moti­va­ção prin­ci­pal da sua vida.

No lugar disso, se con­cen­tre na sim­pli­ci­dade, no nuance. Dimi­nua o ritmo, res­pire, relaxe, sor­ria. Você não pre­cisa pro­var nada a nin­guém — sequer para si mesmo. Pense nisso por um minuto:

Você não pre­cisa pro­var nada a nin­guém. Inclu­sive para si mesmo.


(Esta é a tra­du­ção feita por Igo Araujo San­tos do artigo ori­gi­nal de Mark Man­son, com auto­ri­za­ção do autor. Se você quer acom­pa­nhar os novos arti­gos em lín­gua inglesa, cli­que aqui e assine a news­let­ter de Mark)



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